quinta-feira, 5 de julho de 2018

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Prova indiscutível

«Assim como as fotografias proporcionam a posse imaginária de um passado irreal, também ajudam a dominar o espaço em que as pessoas se sentem inseguras. Assim, a fotografia desenvolve-se em consonância com uma das actividades mais características da actualidade: o turismo. Pela primeira vez na história, um largo sector da população sai regularmente do seu meio habitual por curtos períodos de tempo. E parece bem pouco natural passear sem levar a câmera fotográfica. A fotografia será a prova indiscutível de que a viagem foi feita, de que o programa se cumpriu e de que as pessoas se divertiram.»

Ensaios sobre fotografia, Susan Sontag

terça-feira, 3 de julho de 2018

Bola neutra

Pegou na bola necessária ao exercício e, enquanto se deslocava na minha direcção, disse
Esta bola chama-se bola de água porque
prolongando a última palavra, à espera que eu completasse a frase. Coisa que não fiz, permaneci impávido e sereno, com o mesmo olhar, a boca fechada a sete chaves. Até que o silêncio se tornou demasiado incómodo e ele se viu forçado a finalizar a frase que tinha começado.
tem água lá dentro!
acrescentou, com um sorriso desajeitado de quem tenta uma piada que não surte o efeito desejado. Mantive o mesmo olhar e, apontando para as bolas maiores ao lado
E aquelas são bolas suíças porque têm umas Suíças lá dentro?

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Como passei a minha noite com Pat Metheny

(Publicado originalmente aqui)

No trajecto do centro comercial Vasco da Gama até à Sala Tejo, as pessoas tentam abrigar-se dos pingos de chuva. Para além de carregarem chapéus de chuva fora de época, estas vítimas das alterações climáticas têm também alguma dificuldade em perceber a localização da Sala Tejo, um recinto – mais parece um pavilhão desportivo – que não costuma fazer parte dos principais roteiros.

Passa cerca de quinze minutos da hora de início do espectáculo quando, após um pedido para desligarmos o telemóvel, nos pedem “would you please give a warm welcome to Pat Metheny”. E a recepção é, efectivamente, calorosa e o americano de t-shirt às riscas horizontais, calças de ganga pretas, ténis de desporto branquinhos e o eterno cabelo, farto e volumoso, surge sozinho em palco. Se anteriormente o critério etário era o único que não cumpria para parecer um reformado americano a viver na Flórida, agora já nem esse é um impedimento: segundo o que a minha breve consulta online permitiu apurar, o guitarrista está a cerca de um mês e meio de chegar aos 64 anos.

Disse que o americano pisou o palco sozinho mas, agora que penso melhor no assunto, apercebo-me que até estava bastante bem acompanhado. Trazia, na mão, aquela que deverá ser a mais badalada das suas guitarras feitas à medida: com dois braços e cordas que percorrem obliquamente o corpo de dimensão superior à normal, o instrumento – que mais parece o resultado de uma noite de paixão entre uma guitarra, uma cítara e uma harpa – produz uma gama de sons surpreendente que, infelizmente, a acústica da sala não permite desfrutar ao máximo.

Findo este primeiro tema, ainda sentado na cadeira, Metheny espera pelos restantes membros do quarteto, com quem tem tocado nos últimos dois anos: na bateria, o mexicano Antonio Sanchez, uma presença de já há alguns anos a esta parte; a malaia Linda Oh no contrabaixo; e o britânico Gwinlym Simcock no piano. Dado que se encontra a preencher o lugar que durante bastante tempo foi ocupado pelo grande Lyle Mays, não consigo deixar de pensar que Simcock deverá ser ou bastante corajoso ou totalmente inconsciente.

Os primeiros acordes são ainda feitos com a guitarra XPTO, mas só mesmo os primeiros. Assim que os restantes membros arrancam, Metheny levanta-se rapidamente e troca para um instrumento tradicional, que não deixará durante grande desta “evening with Pat Metheny”, um título que parece conter uma proposta indecente.

Este é um dos músicos com maior projecção de um estilo que, normalmente, não tem uma projecção muito grande. Há um público que, apesar de não ter grande afinidade com a música jazz ou de fusão, segue, não obstante, de perto o percurso deste guitarrista. Os números falam por si: vinte Grammys no bolso, uma discografia enorme que rendeu uns bons milhões de vendas, e um dos únicos quatro guitarristas membros do Downbeat Hall of Fame (os outros são Django Reinhardt, Charlie Christian e Wes Montgomery).

Da única vez que se dirige verdadeiramente ao público, uma hora depois de o concerto ter arrancado, apresenta a banda como se fosse um entertainer num combate de boxe
Antooniooo Saaaancheeeez!!
Liiiindaaaa Ooooh!!
Gwiinlyyym Siimcooock!!
com a sua voz quase tão aguda como os registos mais altos da guitarra.

“I feel like I should say goal”, acrescenta em conversa que soa de circunstância, exultando o espírito e orgulho nacionais do público, e aproveitando para mencionar também México e Inglaterra, dirigindo-se ao baterista e pianista, respectivamente, para depois completar com “We’re out”, um “nós” que o junta à contrabaixista.

De seguida, Metheny explica-nos o mote daquele quarteto. Trata-se da revisitação dos temas que marcaram a sua longa carreira. Mas “old tunes but played in a diferente way”, tocadas pela forma que emerge da junção destes músicos, neste momento. E depois vem algo que cimenta a minha convicção que o Metheny só quer mesmo saber da música: alguns seguramente vão identificar os temas mas ele não se vai dar ao trabalho de listá-los porque, pura e simplesmente, não sabe de cor os nomes dos seus temas.

A esta confissão devo adicionar uma outra da minha autoria. Eu próprio estava a travar uma intensa batalha (e a perder rotundamente) com os títulos dos temas. Pelo que, após aquelas palavras, convenientemente conclui que não me deveria martirizar mais e aceitar que, apesar de ter reconhecido vários dos temas, foram muito poucos aqueles aos quais consegui associar um nome. Enfim, dando seguimento à confissão, foram apenas dois e um possível terceiro: o tema lento “Always and forever”, um trecho de “James” que surgiu no medley a solo com que abriu os três encores da noite, e o que me pareceu ser o “Part One” do álbum “The way up”.

Este manifesto desinteresse por elementos totalmente secundários, tais como títulos de músicas (por favor...), está também patente, por exemplo, nos intervalos entre temas (ou na sua ausência). O quarteto nem dá tempo ao público para expressar o seu agrado e contentamento pela música que ouve, com o recurso tradicional que tem ao seu dispor: a rápida cadência dos temas nem sequer permite que a ovação termine espontaneamente, o final da salva de palmas é forçado pelo início do tema seguinte. De facto, não se vislumbra nenhuma razão que justifique esperar pelo fim daquele som das palmas das mãos a bater umas contra as outras.

No total, são quase duas horas e meia de música, encores incluídos. Esta é, aliás, outra das características dos concertos de Metheny: são uma autêntica barrigada. Alguns não têm estômago para tanto, há um conjunto de desistências, pessoas que se encaminham, exaustas, para a saída, através da escuridão da sala. Outros, que não abusaram das entradas ou tomaram sais de fruta, permanecem na cadeira que, por força das horas ali passadas, se tornou desconfortável. Outros, ainda mais deliciados a absorver todas as notas, inclusivamente trauteiam os temas, como um senhor atrás de mim que fez o favor de partilhar efusivamente a sua interpretação dos temas. Confesso que também gostei mas parece-me que este senhor terá uma ainda melhor apreciação que a minha desta noite passada com Pat Metheny.

sábado, 30 de junho de 2018

Instrumento de poder

«A fotografia, mais recentemente, transformou-se num divertimento quase tão praticado como o sexo e a dança, o que significa que, como todas as formas de arte de massas, a fotografia não é praticada pela maioria das pessoas como arte. É sobretudo um rito social, uma defesa contra a ansiedade e um instrumento de poder.»

Ensaios sobre fotografia, Susan Sontag

quinta-feira, 28 de junho de 2018

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Unorthodoxy

«'(...) Consider the matter dispassionately, Mr Foster, and you will see that no offence is so heinous as unorthodoxy of behaviour. Murder kills only the individual - and, after all, what is an individual?' With a sweeping gesture he indicated the rows of microscopes, the test-tubes, the incubators. 'We can make a new one with the greatest ease - as many as we like. Unorthodoxy threatens more than the life of a mere individual; it strikes at Society itself. Yes, at Society itself,' he repeated.»

Brave New World, Aldous Huxley

Joachim's low

quinta-feira, 21 de junho de 2018

O banho acabou por acontecer (não podia falhar) numa praia de areia escura.

Sem vivalma, incluindo pescadores daqueles peixes estranhos. Um mergulho rápido na água fria e traiçoeira, com uma corrente forte e um fundão profundo a surgir pouco depois dos primeiros passos. Embora o céu esteja parcialmente encoberto, prefiro não arriscar e não passar muito tempo exposto porque não temos protector solar. Apesar deste cuidado, fico um pouco vermelho em algumas zonas.

Nessa noite, jantamos no Genuíno, o restaurante do único português a realizar duas voltas ao mundo a solo. A empregada de mesa é brasileira, espirituosa. A sopa de peixe e o pargo grelhado estão óptimos, assim como o pudim de inhame de sobremesa. Depois regressamos ao Peter’s, onde tínhamos jantado na noite anterior, para mais um gin do mar, no meio da multidão de estrangeiros.

No dia seguinte, após uma curta volta pela Horta, apanhamos novamente o ferry de meia-hora para a Madalena, seguido de um táxi – uma senhora de idade que conduz uma carrinha de nove lugares – até ao aeroporto da ilha do Pico. Fazemos o drop off da mala num dos únicos dois balcões disponíveis e aguardamos pela abertura das portas que dão acesso ao controle de segurança e, depois disso, às portas de embarque.

À hora marcada, somos chamados a mostrar os cartões de embarque e os documentos que comprovam a identidade e a percorrer os metros de alcatrão entre o terminal do aeroporto e o avião da Sata. Levantamos voo uns bons 15 a 20 minutos antes da hora e aterramos igualmente mais cedo do que o previsto na Portela.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

O vulcão dos Capelinhos está ao nosso lado.

Os meus ténis estão cheios de pó depois de ter subido aquela estrutura, enxertada à anterior faixa de costa da ilha e completamente diferente. Por momentos, parece que estamos num planeta diferente ou numa cratera da lua, caminhando naquela areia cinzenta, com algumas pedras rugosas e escuras. Lá em cima, a tonalidade é um pouco mais avermelhada (Marte?). Um carreiro leva-nos até à arriba que termina na água do mar.

O calor é potenciado pela cor escura daquela terra, que absorve os raios do sol e retém em vez de reflectir. Cansados da subida, decidimos refrescar nas piscinas naturais ali ao lado. Visto os calções e calço os chinelos que pouco antes havia comprado na Sportzone da Horta – estupidamente, nem me passou pela cabeça trazer comigo – e dirigimo-nos às piscinas naturais. Reparo que não há ninguém dentro de água mas apenas um grupo de uma dezena de pescadores que, do topo das rochas, erguem as canas de pesca.

Neste momento estou só a pensar na possibilidade de termos alguma dificuldade em navegar pelo meio de todas estas linhas de pesca e de gerarmos alguma crise diplomática com os pescadores. Mas, assim que me aproximo e ponho os pés na água fria, uma senhora que se dedica à pesca diz-me
Cuidado que está cheio de piranhas
Devo ter feito uma cara de total incompreensão ou pura e simples estupidez que ela se sentiu na necessidade de fornecer mais esclarecimentos.
Piranhas dos Açores
E pega num dos bichos que já capturou, deitado na pedra, com os dedos nos orifícios dos olhos, e mostra-me a dentadura afiada da criatura, que ainda se debate um pouco para respirar.
Faz uns bons filetes
Resolve acrescentar, como se precisasse de justificar a razão pela qual se dedica àquela actividade, não fosse eu pensar que era meramente por desporto ou para passar o tempo.
Face ao exposto, decidimos molhar apenas um pouco os pés e apanhar antes um banho de sol, o suficiente para uma pequena zona de vermelhidão nos ombros. Fico a observar a faina desta gente, que apanha peixe atrás de peixe. Basta colocar a cana na água e, pouco tempo depois, estão a içar mais outro daqueles peixes estranhos para fora da água, que aguentam bastante tempo, em agonia, até morrer.

terça-feira, 19 de junho de 2018

O semi-rígido com duas fileiras de bancos almofadados está por nossa conta.

Para além de nós, só está no barco o skipper e a guia que ajudará a identificar as espécies de animais. Com um oleado pesado e um colete salva-vidas por cima, sentamo-nos enquanto o barco lentamente se aproxima da saída do pequeno porto e, após passar o molhe, acelera no mar aberto.

A direcção é definida com recurso a uma intensa troca de informações com outro barco que procura cetáceos e com o pessoal em terra. Pouco depois, temos à nossa frente um grupo de cachalotes, identificáveis pelo sopro que se projecta para a frente e para a esquerda, dada a colocação do espiráculo. Algumas baforadas de ar e espuma e vemos as caudas erguer para o mergulho profundo, do qual só deverão voltar a surgir após uns bons três quartos de hora.

Seguimos à procura de mais fauna marítima e vamos deparar-nos com alguns grupos de golfinhos moleiros, criaturas que, contrariamente aos golfinhos que estamos mais habituados, não são sociáveis. Afastam-se do barco, é necessário estar constantemente a procurá-los no meio das ondas. São poucas as vezes que temos oportunidade de ver o corpo destes animais, de focinho arredondado e sem a forma pontiaguda.

No regresso, a visão apurada dos nossos anfitriões levam-nos a interromper a o motor que faz o barco deslocar-se a grande velocidade. Na água, vislumbramos uma tartaruga boba, que se mantém alguns instantes perto da superfície antes de iniciar o seu mergulho.

De regresso a terra firme, somos presenteados com um diploma que atesta as espécies que vimos, assim como um chá quente, bolachas mulatas e um óptimo licor.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Fim da picada

Não chego a conseguir dormir verdadeiramente, apenas passar um pouco pelas brasas. Não só porque são 22h, o que é cedo para que o corpo peça cama, mas também porque não consigo ignorar o som característico e desagradável dos cagarros. Um pouco antes das meia noite levantamo-nos. Fazemos os últimos preparativos e seguimos em direcção à Madalena. Pelo caminho, na estrada, está o Jeep do nosso guia, que seguimos pela estrada que leva até à Casa da Montanha.

Com um polar vestido e um lenço a proteger a zona do pescoço, calções justos a fazer lembrar os dos ciclistas, que expõe pernas musculadas e, sobretudo, bastante bem depiladas. É possível que o reflexo da pele daquelas pernas seja a luz mais intensa que vamos ver durante toda a escalada nocturna que se avizinha.

Depois das apresentações, tratamos das formalidades – da inscrição do nosso nome e da recepção do aparelho de GPS que nos acompanhará na subida – e do equipamento – lanternas frontais, bastões de escalada e um saco-cama na mochila que já contém comida, água e roupa adicional. Uma passagem estratégica pela casa-de-banho e perto das 2h saímos a porta que dá acesso a uma curta escadaria e, a partir daí, começa o trilho de terra e pedras que nos levará ao topo da montanha mais alta de Portugal.

É difícil ser mais experiente que o nosso guia de perna reluzente: já fez esta subida mais de 2100 vezes, se não me falha a memória. Tendo em conta que, entre subir e descer, são cerca de oito quilómetros, já fez quase 20 mil quilómetros naquela montanha.

O caminho é sinuoso, como seria de esperar, mas de um grau de dificuldade relativamente acessível. O maior obstáculo talvez seja a hora: não só porque não é fácil perceber o caminho à noite, apesar das lanternas e dos 47 pequenos postes de sinalização (daí a utilidade do guia), mas também porque vamos subir um pouco mais de um quilómetro vertical em cerca de quatro quilómetros após uma noite em branco.

Não obstante, os deuses, estão connosco. Não há praticamente vento nenhum e a sensação térmica não é tão intensa quanto seria em condições normais. Já na fase final da subida, ponto que, segundo o guia, uma vez atingido desfaz qualquer dúvida em relação a atingir o cume, começamos a ver o céu limpo, a ausência de nuvens. Estamos agora a dez minutos da cratera e outros vinte do cume e vemos a lua avermelhada, enganadoradamente em quarto minguante. Isto acontece uma a duas vezes por mês no verão, diz-nos o guia, acusando-nos de ser uns sortudos.

A cratera está debaixo dos nossos pés e, pela frente, está a última formação, o “piquinho” que se ergue mais uns metros para lá da caldeira do vulcão. Aqui deixamos os bastões de lado, a subida é mais complicada e vamos precisar do auxílio das mãos nas rochas. Numa das passagens, vemos e sentimos o vapor de água, que nos recorda a natureza do local onde nos encontramos.

Pouco depois, atingimos o topo, três horas e meia depois de termos começado a subida. Lá em cima está um espanhol a fazer um time lapse com uma câmara e um casal um pouco mais afastado. Deitamo-nos dentro dos sacos-cama no pouco espaço disponível abrigado por um pequeno muro de pedra, a mochila a servir de almofada. Apesar do frio, adormeço e acordo a tempo de ver o nascer do sol com o barulho de outro grupo.

A vista é imponente. À nossa frente estão São Jorge, a Terceira e, mais ao fundo, por detrás de São Jorge, a Graciosa. Atrás, muito perto do extremo da ilha do Pico onde fica a vila da Madalena, o Faial ainda às escuras, à espera que o sol chegue. A quantidade de fotografias que tiramos é pornográfica, uma tarefa só interrompida pelo café açucarado e os biscoitos com que o guia nos brinda. De pé, ao pé da zona das rochas onde sai um pouco daquele mesmo vapor, vamos aquecendo o corpo e a alma.

Começamos a descida pelas oito horas e, apesar de todos os santos prestarem a respectiva ajuda, acabamos por demorar mais neste sentido. É certo que para tal contribuiu a sessão fotográfica feita pouco depois de descer do “piquinho”, promovido pelo guia que, apesar dos milhares de subidas, parecia mais eufórico do que nós.

domingo, 17 de junho de 2018

O embarque começa à hora.

Ainda não são sete da manhã e já mostramos os nossos cartões de embarque e de cidadão ao funcionário por detrás do computador com um leitor que apita a cada registo. Descemos as escadas que levam até ao exterior do terminal para aceder ao autocarro. Está frio e, pouco depois, desatará a chover.

Esperamos ainda um pouco até o autocarro iniciar o percurso – que parece sempre longuíssimo – até ao avião da Sata, estacionado no alcatrão, para lá do terminal 2 do aeroporto. Parados ao lado do Airbus 320, de portas fechadas. Até que, estranhamente, ao invés de ouvirmos o som das portas a abrir e do piso do autocarro a descer ligeiramente, ouvimos novamente o som do motor e o autocarro arranca novamente.

Rimo-nos, assim como as pessoas ao nosso lado – lembro-me em particular de um homem que viríamos a encontrar mais tarde na Casa da Montanha com a esposa após uma tentativa falhada de ascensão. Que se enganaram no avião, onde já se viu isto, só mesmo nesta terra. Mas o comentário que melhor registei foi aquele que ouvi a um dos companheiros de viagem: “isto não é bom sinal”.

E não era. Somos largados na chuva para chegar à escadas que dão acesso ao terminal pelo condutor que nos informa que, “por motivos operacionais”, o voo está atrasado. À passagem pelos funcionários que permanecem na porta de embarque, os passageiros perguntam o que aconteceu. A resposta é caricata: faltaram alguns membros de tripulação necessários para que o voo se efectue.

Esperamos mais um bocado. Talvez uma hora, hora e meia. Pelo meio, um dos passageiros, pertencente a um grupo ou excursão relativamente grande, tira do estojo uma guitarra portuguesa e toca-nos umas quantas músicas, que têm o condão de afastar alguma da irritação. O mesmo não se poderá dizer de uma senhora enfermeira, que não parece achar graça nenhuma à música que o trovador lhe dedica, em jeito de serenata.

Finalmente, somos novamente enfiados dentro do autocarro, que percorre o mesmo trajecto até ao mesmo avião e, desta feita, abre mesmo as portas para que possamos entrar no aparelho. Cerca de 2h30 depois aterramos no aeroporto da ilha do Pico.

A tarde é passada a dar a volta à ilha. Das estradas costeiras, enveredamos pelas mais estreitas e sinuosas, polvilhadas de vacas que, à nossa passagem, arregalam os olhos, num misto de curiosidade e receio. O contraste da cor escura da terra e das rochas com o verde gritante da vegetação é esmagador. O sol intenso esconde-se, por vezes, por entre nuvens espessas e cinzentas ou no nevoeiro que faz a temperatura, de imediato, cair.

Perguntamos a um pastor qual o caminho para as lagoas. Depois da explicação, aproveitamos para lhe perguntar se o nevoeiro e as nuvens que cobrem a montanha se irão manter. Explica-nos que se não se dissiparem até ao final da tarde, deverão permanecer a noite toda.

Seguimos em frente, a contar o número de barreiras para os animais na estrada como referência até chegar às massas de água. O trajecto termina com o regresso à vila da Madalena, onde fazemos as compras para o dia de amanhã (que mais parece a noite deste) e jantamos. Ao final do dia, as nuvens deram tréguas e o topo da montanha está visível.

sábado, 16 de junho de 2018

Corny, como bem o definiu Pacheco Pereira

O problema de os tornar mártires da liberdade de expressão

One important part of the free-speech consensus that now appears to be breaking down is the belief that the KKK and other white supremacist organisations are operating within the bounds of acceptable political discourse – rather than as, say, terrorist organisations – and therefore have a moral right to be heard. “The mantle of free speech in the contemporary political context has somehow been claimed by the white supremacists,” Ahilan Arulanantham, the legal director and director of advocacy at the ACLU of Southern California, told me. To Weinrib, the historian, the conflict surrounding the ACLU is largely about “the extent to which defending these groups is perceived to legitimate their ideas”.

To critics of the ACLU’s approach, there is something hopelessly naive about deploring the views of white supremacists while celebrating their right to express themselves freely, and thereby influence the political debate. Defenders of the US’s free-speech status quo often paint its detractors as “snowflakes” whose primary objection is that hateful speech hurts people’s feelings. But to thinkers such as the literary theorist Stanley Fish – who once wrote a book titled There’s No Such Thing as Free Speech … And It’s a Good Thing Too – the promotion of white supremacists’ rights represents a failure of political realism. “The only way to fight hate speech or racist speech is to recognise it as the speech of your enemy,” Fish told an interviewer in 1998, “and what you do in response to the speech of your enemy is … attempt to stamp it out.”

quinta-feira, 14 de junho de 2018

É um exercício desagradável caracterizar-se um país por analogia a outro.

Porque parte do pressuposto (preconceito?) de que determinados povos devem ser similares e, por isso, que o que destaca entre eles são as diferenças e não as semelhanças, já que estas últimas são expectáveis.

E é por essa razão que as comparações entre nós e os espanhóis nos parecem, muitas vezes, desagradáveis: porque, ao assinalar o que não é igual, partem do pressuposto de que temos de ser parecidos. Já no caso de, por exemplo, a Bolívia e da Noruega (podia ser a Turquia e a Nova Zelândia ou a Estónia e a Nova Guiné), quaisquer observações que fizéssemos sobre esses países seriam sobre as semelhanças que poderíamos descobrir, exactamente porque não as esperaríamos encontrar.

Dito isto, não resisto a fazê-lo, a cometer uma possível indelicadeza. Posso tentar alegar uma atenuante ao meu caso: visitei o Japão recentemente e, talvez por isso, tenha tido alguma dificuldade em não olhar para a Coreia sem ser através dos olhos que passaram quinze dias em diversos sítios do país do sol nascente.

Talvez a maior diferença que tenha reparado entre os dois países é a existência de maiores extremos no Japão. Uma impressão potencialmente difícil de pôr por palavras e exemplos; aqui fica uma tentativa.

No que respeita à gentileza e à cortesia por exemplo. Não que os coreanos não o sejam, muito pelo contrário. Mas não ao mesmo nível dos japoneses onde, por vezes, é demasiado e chega a roçar os limites do desconfortável. No Japão, os objectos são entregues e recebidos com duas mãos quase sem excepção. Quando saímos de um restaurante, para além do empregado que nos recebeu, todos os funcionários, do cozinheiro ao lavador de pratos se despedem. Na Coreia, as pessoas falam umas com as outras nos transportes públicos e falam descontraidamente ao telefone. A senhora ao meu lado murmura uma qualquer ladainha; só depois reparo que tem, na mão direita, um fio de contas que progressivamente vai deslocando com os dedos à medida que completa as etapas. No Japão, as carruagens dos comboios e dos metros são túmulos de pessoas vivas. No comboio bala, solicita-se àqueles que queiram realizar uma chamada que se dirijam às zonas entre carruagens, isoladas por portas de vidro, para não incomodar os demais passageiros.

A infantilização e a alienação é maior no Japão. Das vozes e das músicas de criança nos transportes públicos aos sinais que nos alertam para, por exemplo, não entalarmos as mãos nas portas. Os arcades e as salas enormes de pachinko – um misto entre pinball e slot machine – não se vêem em Seoul, assim como as zonas para maiores de dezoito nos supermercados, as lojas de manga e casas de acompanhantes. Só em Tokyo se vê turistas vestidos de personagens do Super Mario a conduzir karts pelo meio da cidade.

Nas ruas coreanas, os caixotes de lixo não abundam mas existem: não somos, como no Japão, obrigados a andar com embalagens e garrafas de água até encontrar uma loja de conveniência onde possamos discretamente livrar-nos da tralha. E, finalmente, a esmagadora maioria das sanitas não é tuning como no Japão, sem botões que activam uma série de funções esquisitas.

Para terminar, uma semelhança: o controlo do inglês é reduzido e a comunicação é, por vezes, feita com recurso a gestos e onomatopeias – num mercado, escolhemos o jantar com base no gesto de levar comida à boca, acompanhado de “nham nham”, de uma senhora.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

DMZ

Dois dias antes, recebo um email do Choi, o tipo da agência que contactei para fazer o tour à zona desmilitarizada, a dizer-me que, infelizmente, a visita à Joint Security Area foi cancelada por motivos que se prendem com a cimeira entre as duas Coreias. A probabilidade deste desfecho era relativamente elevada: o complexo de pequenas estruturas azuladas, literalmente sobre a fronteira militar entre os dois países, esteve fechado todo o mês de Abril. Na altura, a possibilidade de realizar visitas em Maio ainda não tinha sido afastada mas só tinha mesmo o primeiro dia do mês disponível e um prolongamento do encerramento daquele local ao turismo não seria de todo a descartar.

Como alternativa, optámos por fazer a visita mais curta, de meio dia, que passa por três atracções diferentes. Por mais do que uma vez, a guia pergunta-nos se temos os passaportes connosco. Vão ser necessários ao entrar na zona desmilitarizada, para mostrar a um militar que entra no autocarro e olha rapidamente para cada um e para a cara do respectivo portador, antes de autorizar a entrada do veículo.

A primeira atracção é um dos túneis de construídos pela Coreia do Norte para invadir o vizinho do sul. Há inúmeros túneis do género identificados (e seguramente mais uns quantos não identificados), que foram feitos tendo em vista uma infiltração surpresa de um contingente militar que rapidamente conseguisse avançar em direcção a Seoul, que fica a algumas dezenas de quilómetros da fronteira, e tomar a capital.

O túnel que visitámos chegou à atenção das autoridades da Coreia do Sul através do relato de um dissidente do norte. Na sequência, foi construído um túnel de intersecção, com um comprimento de cerca de 350 metros e uma inclinação de 11 graus, se a memória não me falha, e que desagua no túnel original. Este último é mais estreito e baixo, e aqui sentimos a necessidade dos capacetes que nos dão à entrada: mesmo caminhando de costas curvadas, por vezes não consegui evitar uma cabeçada no tecto ou nas estruturas de metal que suportam o túnel. É preciso fazer alguns metros até chegar a uma das três barreiras de betão que bloqueiam a passagem, perto da fronteira militar subterrânea.

Daqui seguimos para o Observatório de Dora que não é mais do que uma armadilha de turistas. Trata-se de um edifício no topo de um pequeno monte com uma espécie de terraço virado para a fronteira, repleto de binóculos que aceitam moedas de 500 wons. Daqui avista-se uma paisagem que poderia ser a do Alentejo, um descampado pontilhado por uma ou outra árvore.

Finalmente, a visita termina na estação de comboios de Dorasan. No meio de nenhures, rodeada de um parque de estacionamento vazio. Dentro do edifício apenas se encontram turistas, que tiram selfies com a placa que indica a linha para Pyongyang. Ao lado, está um placard luminoso onde se lê que esta estação foi inaugurada em 2002, após um acordo celebrado entre as duas Coreias em 2000 para a reconstrução de uma linha ferroviária que as une e que foi destruída durante a guerra. Há quinze anos que a infraestrutura está pronta mas ainda não é usada.

Um militar volta a entrar no autocarro e os passageiros voltam a empunhar o passaporte aberto na página da fotografia até o autocarro partir novamente. À vinda, o trânsito está infernal e demoramos mais tempo do que era previsto a chegar.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

As mesas são normalmente para quatro pessoas e têm uma grelha a meio.

A maioria destes apetrechos é a gás, que é fornecido através de um tubo de plástico fino que percorre a parte de baixo do tampo. Aqui, num estabelecimento com vista para o corredor sujo e escuro do mercado que nos foi recomendado para jantar, o método foi mais tradicional: uma senhora trouxe um recipiente de metal cheio de brasas e colocou debaixo da grelha, a fazer lembrar a braseira que a minha avó usava no inverno para aquecer os pés em torno da mesa. Na maior parte dos casos, existe também um exaustor cilíndrico, pendurado do tecto, que não consegue evitar que fiquemos com as roupas impregnadas de cheiro a comida.

A receita é relativamente simples, basta escolher a carne. Ou, melhor dito, deveria ser simples, porque o processo de escolha e comunicação dessa escolha nem sempre é linear, dadas as barreiras de linguagem. Aliás, é, frequentemente, algo sinuoso. Mas uma vez ultrapassado, basta ir preparando os pedaços aos poucos, pegando com a ajuda de uma tenaz para os colocar sob a grelha quente e cortando-os com uma tesoura. É, de certa forma, uma espécie de fondue, com uma grelha em vez de um recipiente com óleo.

Os grelhados talvez sejam a maior imagem gastronómica da Coreia mas há também um conjunto de outros pratos típicos, como o bibimbap. Atrevo-me a dizer que as panquecas com vegetais ou frutos do mar foram a maior surpresa positiva. Seja qual for a escolha, uma coisa é certa: à mesa estarão também pequenas taças e pratos com acompanhamentos diversos, com o sabor picante e fermentado de Kimchi. Estes podem ser repetidos à vontade, há normalmente um balcão com grandes recipientes de plástico onde podemos ir servir-nos, tal como um buffet de saladas.

As refeições são acompanhadas com a cerveja leve local ou com Soju, a bebida típica, descrita por um local como uma espécie de whisky mas mais fraco. Trata-se de licor que pode ser feito de arroz ou de outros cereais e vem numas garrafas de vidro pequenas que mais parecem de água. É servida em pequenos copos típicos de bebidas brancas, e é possível que seja necessário ser autóctone para saber apreciar: a única vez que pedimos uma revelou-se também a última e a pequena garrafa ficou longe de ser despejada.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Coffee break

A máquina de café está numa pequena zona de cadeiras e mesas onde várias pessoas se sentam à saída de um templo no meio dos prédios do centro de negócios de Seoul. Tinhamos chegado aqui depois de nos cruzarmos com uma manifestação muito civilizada. Perante a nossa cara de interrogação, uma das manifestantes pára para nos explicar a preocupação que sentem com a recente aproximação entre a vizinha Coreia do Norte. Receiam que eventuais cedências que o Presidente Moon venha a fazer líder do norte possam conduzir a democrática Coreia do Sul para um regime similar.

Há vários botões com diferentes tipos de cafés possíveis, todos bastante baratos. De repente, uma senhora surge por detrás de nós, e explica-nos o que são as diferentes opções, acrescentando que o mais certo é não gostarmos dos cafés típicos coreanos disponíveis. E, daqui, aos poucos, acabamos por encetar uma conversa com ela que acaba por percorrer uma série de temas diferentes.

É das pessoas com melhor inglês com as quais nos vamos deparar na viagem inteira, ou não tivesse vivido doze anos nos Estados Unidos. Mais do que isso, em Nova Iorque. Talvez o ponto que mais fica na cabeça é o facto de considerar que os coreanos são demasiado individualistas. Por alguma razão, não esperaria esta consideração. Ainda para mais de alguém que viveu nos Estados Unidos. Mas ela insiste: só se preocupam com eles, com a sua imagem, são materialistas e consumistas, medem o respectivo sucesso apenas por aquilo que têm e preocupam-se pouco com atitudes, comportamentos e valores.

De início, esta perspectiva parece-me estranha, ainda para mais de alguém que teve um contacto com o que deverá ser o paradigma da sociedade individualista. Mas, aos poucos, sinto que começo a perceber o que quer dizer. E sinto que a ideia lentamente a impregnar-se.

De considerações profundas sobre a forma de ser dos coreanos e doutros povos, passamos para temas mais mundanos. A senhora recomenda-nos um mercado para jantar, nada como um local verdadeiramente genuíno (pleonasmo?). Despedimo-nos cordialmente, desejamos as melhoras – tinha tido um acidente de automóvel recentemente e ainda se encontrava parcialmente em convalescença – e ficamos com a nítida sensação que não somos os únicos a ter sido abordados por ela. É seguramente uma prática regular sua.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Todo o templo do mundo

Um bilhete combinado dá acesso a uma meia dúzia de palácios e uma ou outra atracção, de nomes muito parecidos e impossíveis de memorizar, e por um preço bastante razoável.

Logo ao início do dia, assistimos ao render da guarda. Primeiro entra uma fileira que se ocupa da música. Umas flautas de sons agudos, tambores e metais que se conjugam de forma estranha. Param e dão lugar à entrada de uma segunda fileira, com vários porta-estandarte. Estão trajados de forma curiosa, cheios de cores garridas, fazem lembrar a guarda suíça do Vaticano, que parece ter mais de pitoresco que outra coisa. O mais graduado, que se vira para os restantes e grita ordens que são executadas mecanicamente, tem uma pena de pavão no chapéu, uma marca da hierarquia. Depois de algumas instruções debitadas em tom grave e solene, as fileiras saem por ordem contrária à de entrada – first in last out –, ouvimos novamente a mesma música algo desconcertante.

Findo o ritual, seguimos a mole de turistas que se dirige aos terrenos do palácio, qual horda de invasores. As estruturas são relativamente semelhantes e, apesar de tantos palácios e templos diferentes, a variedade não é muita. Uma vez mais, edifícios rectangulares, com tectos coloridos, um letreiro a meio. O interior é, normalmente, sóbrio, com um chão de madeira escura e minimalista. Quando existem, as divisões são demarcadas com biombos ou portas de correr. Nos templos, os interiores são mais preenchidos, com estátuas e outros elementos. As estruturas vão-se sucedendo umas a seguir às outras, por vezes diminuindo de dimensão e importância à medida que nos afastamos da entrada do complexo, numa espécie de matrioska aplicada a este tipo de construções.

Nos jardins, vemos grupos de vários elementos do sexo feminino ou casais vestidos a rigor, com trajes típicos. Em alguns casos, posam para fotografias: ora posa ela e tira ele, ora posa ele e tira ela. Elas posam sentadas, com as pernas cruzadas ao lado do tronco, aos mãos no regaço; eles de pé, mãos atrás das costas e peito feito, numa pose quase militar. Às vezes ensaiam outras possibilidades, como ligeiramente debruçados a cheirar uma flor que puxam ligeiramente na sua direcção com uma das mãos, e sem deixar de manter o contacto visual com a câmara.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Mercado de peixe

À saída do metro que virou comboio, uma placa indica-me a entrada através de um túnel que passa por debaixo da linha. Lá dentro, debaixo da terra, começo a ver os primeiros comerciantes. Aqui vendem essencialmente verduras e legumes, ocasionalmente têm alguidares grandes com enguias lá dentro, que se mexem rapidamente na pouca água. Tiram-nas dos alguidares para os sacos de plástico dos clientes com uns recipientes de plástico e os bichos debatem-se agitadamente dentro do espaço exíguo.

Do outro lado está um edifício enorme, o oposto do mercado tradicional de rua que esperava encontrar. Mais parece um local onde apenas comerciantes por grosso podem fazer negócio mas, após verificar que outros locais e turistas entram pelas várias portas, decido também entrar. Lá dentro há filas e filas de comerciantes com bancas, alguidares, aquários, cheios de todo o tipo de vida marinha. Balanças com mostradores electrónicos e placas a indicar o número de cada corredor, como nos parques de estacionamento de grande dimensão dos centros comerciais. Olho para uma mulher tira uma lagosta de dentro de um aquário, o bicho mexe as pinças freneticamente e a senhora, quando cruza o meu olhar, faz-me um gesto a perguntar se estou interessado. Digo que não rápida e incisivamente, de mão esticada à frente, que, logo a seguir, me parece enfático demais, como se a proposta da senhora fosse para lá de indecente. A verdade, é que, se se tratasse do mesmo bicho mas já pronto a degustar, até estaria.

No fundo é para isso que aqui vim, tenho de o admitir. E faço-o descaradamente, sem o mínimo pingo de vergonha. Uso as escadas rolantes até ao piso de cima onde, num corredor quase interminável, se alinham restaurantes a perder de vista. Acabo por me sentar num relativamente vazio (a hora de almoço já lá vai) e peço uma tigela de sushi e arroz.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Busan

É com alguma dificuldade que percebo a localização da paragem por onde passa o autocarro que sobe o monte até ao templo. Na ausência de lojas ou cafés com aspecto de ter uma rede wifi disponível para os clientes – onde está um Starbucks quando é necessário? –, ligo os dados móveis no telemóvel, uma decisão que, literalmente, acabará por me sair cara (umas boas dezenas de euros por meia dúzia de megabytes). Mas resolvo problema e, finalmente, dou com a dita paragem e a fila de pessoas à minha frente, das quais uma parte significativa são turistas, e das quais a maioria é asiática.

Dentro do veículo, não há lugar para me sentar; fico de pé a meio, de costas para a porta, perto de uma senhora num banco individual. Coloco a mochila pesada no chão (lá dentro vai a máquina fotográfica), entre as pernas, desajeitadamente, para evitar que tombe e resvale pelo piso sujo do veículo, devido às curvas acentuadas e à velocidade do motorista. E agarro-me à pega presa ao tejadilho. Sem dizer nada, a senhora sentada no banco individual agarra na minha mochila e coloca-a entre as pernas dela e o banco à sua frente, para que eu possa ir mais facilmente de pé, sem ter de me preocupar com aquele objecto pesado. Agradeço-lhe da melhor forma que sei e ela faz uma curta mas solene vénia, depois de cruzar o olhar no meu. Alguns minutos depois, quando chega o momento de sair, pego na mochila e agradeço-lhe novamente, e ela repete o mesmo ritual da vénia.

O templo é parecido a todos os outros que vou ver em Seoul – incluindo as decorações coloridas, penduradas um pouco por todo o lado. As estruturas são rectangulares, com telhados garridos e um letreiro grande a meio, portas de diferentes cores secas e um interior sóbrio e minimalista.

Quando desço lentamente as escadas que me hão de conduzir à saída, entre fotografias, uma senhora mete conversa comigo. Insinua que, no meio de tanta fotografia, não estou a aproveitar para absorver verdadeiramente o que o templo tem para oferecer. É possível, reconheço – que responder? – e iniciamos uma curta conversa. Está curiosa para saber donde venho, quanto tempo vou passar no país dela, por que o resolvi visitar. No final, despede-se desejando-me a continuação de uma boa viagem e eu continuo a fotografar os balões decorativos, pendurados a ombrear o caminho até à saída.

A ida ao templo acaba por consumir mais tempo do que aquele que tinha planeado. Já não tenho pouco tempo disponível na segunda maior cidade de Coreia e, depois de um bocado a conhecer os mercados no centro, dirijo-me à estação para apanhar o comboio de regresso a Seoul. Sento-me no meu lugar, designado no bilhete. Confortável e espaçoso. Tiro o livro da mochila para me entreter nas cerca de duas horas e meia, assim como a almofada insuflável para ajustar ao pescoço. A certa altura, no decurso da viagem, uma funcionária do comboio entra na carruagem, fecha a porta atrás de si e faz uma pequena vénia para cumprimentar os passageiros. Só depois começa a caminhar no corredor entre os bancos.

sábado, 2 de junho de 2018