segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Ir para fora lá fora

«Até aquilo que as pessoas consideram os seus desejos mais pessoais são quase sempre programados pela ordem imaginada. Consideremos, por exemplo, o desejo popular de fazer férias no estrangeiro. Não há nada natural ou óbvio em relação a isto. Um chimpanzé alfa jamais pensaria em usar o seu poder para ir de férias para o território de um bando chimpanzé vizinho. A elite do antigo Egipto gastava a sua fortuna a construir pirâmides e a mumificar os seus corpos mas nenhum dos seus membros pensou em ir fazer compras na Babilónia ou esqui na Fenícia. As pessoas gastam hoje muito dinheiro em férias no estrangeiro porque são verdadeiros crentes nos mitos do consumismo romântico.»

Sapiens: história breve da humanidade, Yuval Noah Harari

domingo, 14 de janeiro de 2018

25 anos

«Por entre o arame farpado dos portões, para lá de toda a zona de construção e das barreiras de arame farpado, erguia-se um Sol grande, vermelho, como que envolto em bruma. Ao lado de Chúkhov, Aliocha olha para o Sol e alegra-se, com um sorriso nos lábios. Tem as faces cavadas, vive só da ração, não ganha nada de lado nenhum; está alegre porquê? Aos domingos passa o tempo a cochichar com os outros batistas. Até parece que o campo desliza sobre eles sem fazer mossa, como a água pelas penas do pato. Deram-lhe vinte e cinco anos pela fé batista - pensarão afastá-los assim da sua fé?»

Um dia na vida de Ivan Deníssovitch, Aleksandr Soljenítsin

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Konkatsu

«Japanese statisticians fear that the population will shrink to under 100 million by the middle of the century. If the current birth rate continues, it is even possible that by 2110 the population would have fallen below the 50 million it was in 1910. Japanese governments are trying a variety of measures to reverse the decline. A recent example is using millions of dollars of tax payers' money to fund a matchmaking service for young couples. Subsidised konkatsu parties are arranged for single men and women to meet, eat, drink and - eventually - have babies.

Prisoners of geography, Tim Marshall

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Mercator

«If you look at a world map and mentally glue Alaska onto California, then turn the USA on its head, it appears as if it would roughly fit into Africa with a few gaps here and there. In fact Africa is three times bigger than the USA. Look again at the standard Mercator map and you see that Greenland appears to be the size as Africa, and yet Africa is actually fourteen times the size of Greenland! You could fit the USA, Greenland, India, China, Spain, France, Germany and the UK into Africa and still have room for most of Eastern Europe. We know Africa is a massive land mass, but the maps rarely tell us how massive.»

Prisoners of geography, Tim Marshall

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Das meias-voltas da vida

No início, fazem esforços para que arrotemos. Mas mesmo só no início. Depois - e até ao fim - repreendem-nos pela mesma acção.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Crónica da morte anunciada

«For thirty years it has been fashionable to predict the imminent or ongoing decline of the USA. This is as wrong now as it was in the past. The planet's most successful country is about to become self-sufficient in energy, it remains the pre-eminent economic power and it spends more on research and development for its military than the overall military budget of all other NATO countries combined. Its population is not ageing as in Europe and Japan, and a 2013 Gallup study showed that 25 per cent of all people hoping to emigrate put the USA as their first choice of destination. In the same year Shanghai University listed what its experts judged the top twenty universities in the world: seventeen were in the USA.

The Prussian statesman Otto von Bismarck, in a double-edged remark, said more than a century ago that 'God takes special care of drunks, children and the United States of America." It appears still to be true.»

Prisoners of geography, Tim Marshall

sábado, 23 de dezembro de 2017

Sou um coleccionador de panfletos que pessoas simpáticas entregam na rua.

Seja de matérias políticas, religiosas e até mesmo dos curandeiros com capacidade para solucionar todo o tipo de problemas. Há dias, fui presenteado com (mais) um panfleto de testemunhas de Jeová. Nestes casos, costumo empregar um processo que se assemelha a uma corrida de estafetas: praticamente sem parar de andar, estico o braço para recolher o papel que me querem dar e, desta forma, evito a potencial conversa que perigosamente se poderia desenvolver caso incorresse na incúria de abrandar o passo.

Neste último panfleto lê-se a seguinte pergunta: "Qual é o segredo para uma família feliz", com uma imagem de um homem e uma mulher, que se olham, de perfil e, no meio, uma criança sentada, cabeça em cima da mão, com uma expressão preocupada. No interior do panfleto, uma série de sugestões, maioritariamente baseadas em histórias bíblicas, são oferecidas para combater os problemas que nos assolam.

Não é, de todo, o método mais eficiente: a forma mais fácil para descobrir o segredo de uma família é, claro está, visitar a cozinha de um restaurante chinês.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Fala-se da quadra natalícia

Mas nunca de quintilha natalícia. Ou sextilha, septilha, etc.. Ou, no sentido contrário, terceto, dístico, monóstico.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Me Hansa, vai!

Quando os primeiros europeus chegaram à região ouviram os locais referir-se àquele lago gigantesco - hoje tem uma dimensão muito menor do que tinha à altura no século XIX - como Chad. E foi assim que ficou baptizado: lago Chad. Não só vingou como também acabou oferecer a designação do país que o alberga. Acontece que, na língua original, "chad" significa precisamente lago. Ou seja, dizer lago Chad é o equivalente a dizer "lago lago".

Algo semelhante ocorre com a Liga Hanseática, a associação de cidades mercantis de há uns quantos séculos: "Hansa" significa qualquer coisa como "liga" ou "associação". Donde, pela mesma ordem de ideias, isto só pode acabar de uma forma bastante análoga. Liga Hanseática é qualquer coisa como "liga liga".

sábado, 16 de dezembro de 2017

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Catch-22 calórico

«Throughout history, people adapted to a lack of calories by not growing too big or too tall. not only is stunting a consequence of not having enough to eat, especially in childhood, but smaller bodies require fewer calories for basic maintenance, and they make it possible to work with less food than would be needed by a bigger person. A six-foot-tall worker weighing 200 pounds would have survived about as well in the eighteenth century as a man on the moon without a spacesuit; on average there simply was not enough food to support a population of people of today's physical dimensions. The small workers of the eighteenth century were effectively locked into a nutritional trap; they could not earn much because they were so physically weak, and they could not eat because, without work, they did not have the money to buy food.»

The great escape: health wealth and the origins of inequality, Angus Deaton

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Regime

Há eixos rodoviários que são verdadeiras artérias da cidade mas nenhum é uma veia. É possível ter-se veia artística mas nunca artéria artística.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Abres a boca, tapas os ouvidos

«Voaram as primeiras bombas, eu estava parada, acompanhando-as com o olhar até caírem na terra. Alguém aconselhou a abrir a boca para evitar ensurdecer. Abres a boca, tapas os ouvidos, mas ouves na mesma como elas voam. Como uivam. É tão assustador que a pele se estica, não só na cara, mas em todo o corpo.»

As últimas testemunhas, Svetlana Alexievich

sábado, 9 de dezembro de 2017

Comércio internacional

«O princípio é sempre o mesmo: os organismos abdicam de alguma coisa em troca de algo que outros organismos têm para oferecer; no longo prazo, esta colaboração tornará a vida mais eficiente e a sobrevivência mais provável. Aquilo de que as bactérias, as células nucleadas, os tecidos ou os órgãos abdicam é, regra geral, a independência; aquilo que recebem em troca é o acesso aos «bens comuns», bens que resultam de um acordo cooperativo em termos de nutrientes indispensáveis ou de condições gerais favoráveis, como o acesso ao oxigénio ou a certas vantagens climáticas. Pense nisso da próxima vez que ouvir alguém a acusar os acordos comerciais internacionais de serem uma má ideia.»

A estranha ordem das coisas, António Damásio

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Não sei se se pode dizer que seja um pedinte.

Isto porque, na prática, não pede como os outros. Nem sequer abre a boca, em praticamente nenhuma circunstância: as poucas vezes em que o vi falar foram quando alguém entabulou conversa com ele. Estes casos excluídos, olha constantemente para baixo. Sentado no chão, directamente sob o passeio largo da avenida, à sua frente uma lata velha e gasta mas que, ainda assim, dá para ver que é de salsichas tipo Frankfurt da Nobre. O olhar pesado parece repousar sobre aquela lata, como se se concentrasse nela para, ao mesmo tempo, se abstrair de tudo o resto. A maioria das pessoas que passam parecem nem sequer reparar. Absortas, imagino-as a, inadvertidamente, dar um chuto na lata de salsichas. A lata que, no fundo, faz as vezes de pedinte, substitui-se à voz dele e ao olhar com que outros - esses, sim, pedintes na verdadeira acepção do termo - procuram compungir os transeuntes. Ele não: olha para aquela lata com o que parece ser sobretudo vergonha.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Os condenados são normalmente arrastados até ao local.

Não é um trajecto que, normalmente, se faça de livre e espontânea vontade, de bom grado. No caso do invisual, o motivo era duplo: à sua resistência a realizar o seu último trajecto, havia igualmente a questão óbvia de não conseguir ver onde punha os pés. Ali chegado, foi devidamente preso, não só para evitar uma tentativa desesperada de fuga, mas também que caísse por terra caso lhe faltasse a força nas pernas. Perguntaram-lhe se tinha últimas palavras e ele balbuciou-as atabalhoadamente. Depois disso, mexeu a boca, à procura, quase como estivesse a tactear o ar, do último cigarro que lhe haviam colocar nos lábios. E, antes de o pelotão apontar as armas na sua direcção e se preparar para disparar, colocaram-lhe uma venda nos olhos.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Contar

«Contava as bombas. Caiu uma, duas... Sete...
Foi como aprendi a contar...»

As últimas testemunhas, Svetlana Alexievich