sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

The Thierry Henry song

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Trapos de língua #16

O condicional é um tempo verbal que tem a ingrata tarefa de, muitas vezes, atribuir um certo formalismo ao discurso. No mínimo, dá um toque de sofisticação à frase, torna-a mais chique. Talvez por isso, na linguagem oral corrente e coloquial, evitamos a sua utilização, substituindo-o frequentemente pelo pretérito imperfeito. Por exemplo, dizemos, a torto e a direito, coisas como “se eu fosse a ti, fazia…” quando a forma correcta é “se eu fosse a ti, faria…”.

E isto dito por uma pessoa que tem como "outros venenos" o 31 da Armada e a Revista Atlântico

«Dito isto, porque é que duas pessoas do mesmo sexo não podem ter o mesmo reconhecimento social do seu amor do que eu? O casamento, que foi consagrado juridicamente para tutelar a família, tem de tutelar as famílias. Todas. Mesmo aquelas que não seguem as ilustrações dos livros da primeira classe.»

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

As palavras, as frases, tudo isso foi contigo.

Seguiu-te quando saíste pela porta fora. Não consigo alinhavar três linhas que goste, que façam sentido. Escrevo e fico com um amontoado de palavras, frases, sem o mínimo interesse. Comida sem sabor. Cinzento. Levaste-me a força. A intensidade. O Groove, a verve. Sem isso, as palavras e as frases não valem nada. E por isso levaste-me isto tudo, a escrita. Saiu atrás de ti, não viste?, seguiu-te pela porta que bateste com toda a força quando saíste intempestivamente. Podias ter levado tudo. Podias ter ficado com tudo, que me interessa a mim essa porta ou o dinheiro, a honra ou o orgulho? Mas as palavras, as frases, passo os dias a lutar para as recuperar, para que voltem a entrar, pé ante pé, pela porta que bateste, o estrondo quando saíste. E não consigo. Comida sem sabor. Já não é o preto das letras no branco do papel, é o cinzento das palavras e frases ocas, desprovidas de vida, força, intensidade.

Não valem nada, levaste-me tudo.

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Desperate Housewifes



Com agradecimento à J.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Trapos de língua #15

Só percebi quando percebi que não percebia os condicionais em francês. Nem eram tanto os condicionais, era o primeiro condicional. Porque “si je peux, j’irais” ou “si j’ai l’argent, j’achete” não faz sentido quando a comparação imediata que eu tinha à minha disposição era “se posso, vou” ou “se tenho dinheiro, compro”. E ela dizia-me que eu estava a exagerar e a complicar o que era fácil ao que respondia que aquilo não soava nada bem e acrescentava a forma que me era correcta, “se puder”, “se tiver dinheiro”.

O inglês nunca tinha tido este efeito. Talvez porque é suficientemente distante. “If I can”, “if I have”, não fazem disparar o alarme. Mas a sensação voltou com o espanhol, embora agora já estivesse, de certa forma, preparado para ela: “si puedo”, “si tengo dinero”.

Habituei-me. Mas, ainda hoje, a minha primeira reacção é achar que está errado.

domingo, 15 de Novembro de 2009

CERN das questões

«Pássaro trava Big Bang – O acelerador de partículas construído perto de Genebra para recriar o Big Bang voltou a parar. […] Uma falha de energia eléctrica provocou o sobreaquecimento do acelerador. “A pessoa que foi investigar descobriu pão e um pássaro a comer o pão (na grelha eléctrica exterior”), explicou a porta-voz do CERN, Christine Sutton. O incidente coincide com a teoria do físico Holger Bech Nielsen, que acredita que é o próprio acelerador que, manipulando o tempo, está no futuro a sabotar-se. Este é o terceiro incidente, contando com a explosão ocorrida durante a sua construção.»

Revista Sábado

sábado, 14 de Novembro de 2009

Pela primeira vez a barreira da idade.

Não estava preparado, confesso-te. Afinal não sou assim tão velho, caramba. Mas, ao teu lado, também já não sou assim tão novo. A culpa disso é a diferença. E nem sequer só a da idade propriamente dita. É verdade que os teus vinte e (muito?) poucos anos parecem-me agora tão frescos e de uma ingenuidade que me desarma. Mas garanto-te que pior é a da fase da vida. Essa cava um fosso maior. Estamos em fases distintas, capítulos diferentes. Já passei pelos teus e eu, para ti, sou uma espécie de “cenas do próximo capítulo”. E isso determina, condiciona, perspectivas, expectativas. A mesma diferença de idades na mesma fase teria um impacto bastante menor.

Menti. Menti-te. Menti-me, apercebo-me. Não é a primeira vez que esta história da barreira da idade: é a primeira vez em que não sou o mais novo, já estive no teu lugar. E isso, sim, fez-me sentir velho.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Trapos de língua #14

O futuro próximo em português e francês: “Amanhã vou a Lisboa” e “Demain je vais à Paris”. Mas, em espanhol: “Mañana voy a ir a Madrid”.

O verbo “ir” repetido parece estranho. Aparentemente, nós e os franceses suprimimos esta repetição que parece redundante. Embora a primeira aparição do verbo diga respeito ao tempo da acção e só o segundo explicite qual é, de facto, a acção em causa.

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Jelly Roll

Ferdinand “Jelly Roll” Morton could brag almost as well as he could play the piano – and, as the world knows, he played piano very well indeed. His most famous boast was provoked by a broadcast of Robert Ripley’s Believe It or Not radio program, which introduced W. C. Handy as the originator of jazz and the blues. “W. C. Handy is a liar,” Morton announced in a long letter addressed to Ripley and published in the Baltimore African-American and Down Beat magazine. The letter goes on to claim, “It is evidently known, beyond contradiction, that New Orleans is the cradle of jazz and I, myself, happened to be the creator in the year 1902.” That was not the first time he made that claim or something like it. The guitarist Danny Barker recalls that Morton would announce, “I created jazz and there’s no jazz but Jelly Roll’s jazz.” According to the musician and entrepreneur Reb Spikes, “[Jelly] would hear a piece and say, ‘They’re stealing that from me. That’s mine.’ Or ‘That guy’s trying to play like me.’” The trumpet player Lee Collins remembers going to see Morton in his hotel room: “He asked me to come work with him. ‘You know you will be working with the world’s greatest jazz piano player… not one of the greatest – I am the greatest.’”

Dead Man Blues, Phil Pastras

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Blitz

O que custa não é saber que não se pode voltar atrás. O que custa é saber que, mesmo que fosse possível recuar no tempo, o mais certo seria fazer tudo igual outra vez.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Esmiuçar

Fui bastante crítico dos anteriores programas de actualidades do Gato Fedorento, o Diz que é uma espécie de magazine e do Zé Carlos. Face aos formatos iniciais de sketches eram, para mim, chatos e tinham muito menos graça. Viviam essencialmente dos Tesourinhos Deprimentes e das imitações do Ricardo Araújo Pereira.

Agora que acaba este novo programa de curta duração (mas intenso, como o lusco-fusco) tenho que dar o braço a torcer, a mão à palmatória. Este novo formato à la Jon Stewart resultou lindamente. E, mais importante ainda do que ter tido graça, foi bem conseguido. (Quase) todos os ilustres passaram por aquela cadeira espinhosa (já agora, nota negativa para o Cavaco) e submeteram-me às perguntas pertinentes, corajosas e inteligentes do Ricardo Araújo Pereira.

Isto é uma diferença fundamental, por exemplo, face ao Herman. Sempre que tinha um ilustre político como convidado de um talk show, o Herman afastava por completo a discussão da política e nunca tecia qualquer comentário ou mostrava qualquer inclinação. Era sempre tudo muito suave e ameno.

E isto é significativo. É levar estas discussões para um público ainda mais alargado. Nem toda a gente vê o Expresso da Meia Noite ou a Quadratura do Círculo. E nem sequer nestes programas os intervenientes têm a lata e a ousadia de colocar as questões que os Gatos colocaram. Tudo sem ofensa porque aquilo é humor.

E humor a sério, porque para ser a sério tem que tocar na ferida.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Trapos de língua #13

O mais elaborado dos números em alemão surge quando se atinge os vinte e um. Passamos por toda a zona dos onze aos dezanove a dizer coisas como “vierzehn” e “achtzehn” e, de repente, “einundzwantig”. Assim, sem mais nem menos. Parece ao contrário: literalmente, “um e vinte”. Já para não dizer que fica tudo pegado, com o “und” no meio a colar duas palavras. E a lógica segue. “Dreiundviertzig” é o quarenta e três e “funfundfunfzig” é o cinquenta e cinco. Ora o problema está na analogia com o inglês. Estes casos seriam, respectivamente, “twenty one”, “forty three” e “fifty five”, o que vai ao encontro do que parece instintivamente lógico.

Mas é curioso verificar que os alemães mantém uma certa coerência. Os números entre dez e vinte são compostos por um algarismo somado de dez: “sechzehn” é a soma de “sech” e “zehn”, ou seja, “seis” e “dez”. E é essa a coerência que é continuada para os vintes, como o tal “einundzwantig” ou “um e vinte”. Nós fazemos uma coisa parecida mas pela ordem inversa. Ou seja, dizemos, “dezasseis”, “dez” mais “seis” e depois “vinte e um”, “vinte” mais “um”. Quem baralha duas lógicas diferentes, afinal, são os anglo-saxónicos. Veja-se o “sixteen”, “six” mais “ten” e o “twenty one”, “twenty” mais “one”.

domingo, 8 de Novembro de 2009

Muros

Os vinte anos da queda, os seis anos desta viagem.

sábado, 7 de Novembro de 2009

Trapos de língua #12

Os verbos “ser” e “ir” são normalmente uns bichos muito raros em qualquer língua que se preze. Altamente irregulares e cheios de coisas estranhas que só lá vão à lei da bala, ou seja, decorando. Um aspecto que me parece muito curioso em português e espanhol é o facto de que a conjugação do pretérito perfeito é exactamente igual (eu fui, tu foste, etc…). Dois verbos com significados tão díspares e, no entanto, são exactamente iguais neste tempo verbal. E só neste tempo verbal; nos restantes mantêm a sua diferença.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

A minha mona é lisa.

E tem umas trombas enormes.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

À espera que o telefone toque. Ali, na mesa-de-cabeceira. Não te enganaste até agora. Não falhas uma. Nem quando pareces demasiado optimista, nem quando pareces demasiado pessimista. Derrotado. Derrotada. Também não se enganou, você. Já sabia. Mais tarde ou mais cedo. Estou pronto. Tenho as coisas arrumadas, estou à espera só que o telefone toque. Que me toquem com o telefone, a mesa-de-cabeceira, a cama, isto agora faz-me lembrar as coisas. Como, por exemplo, a casa, esta casa. Há-de lá ir, tenha calma. E agora, o vazio da minha cama com um edredon. Só recentemente tive um edredon. Antes eram os cobertores e as mantas. E agora, este edredon é vazio, totalmente vazio, o que é um edredon ao lado do cobertor e das mantas? Telefone. Espero. Não falhas. É hoje. Não passa de hoje. E, por isso, espero, ainda está para vir o dia em que te enganes, raios te partam, não falhas uma. É que nem uma, porra. O derrotismo pega-se, espalha-se, alastra e ela também sabia. Não é novidade para ela. Só para mim, que espero o toque do telefone.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Trapos de língua #11

Se é verdade que a proximidade entre o português e o espanhol torna a aprendizagem mais fácil, também não é mentira que, por vezes, essa mesma proximidade não seja enganadora. Claro que em termos líquidos, são mais as vantagens do que as desvantagens.

O exemplo típico das desvantagens é o dos falsos amigos. E que normalmente até tem alguma graça. Ver a palavra “pilas” escrito num recipiente com um orifício pequeno que, na verdade, serve para depositar pilhas usadas para reciclar tem a sua graça. E, se Cuenca é uma cidade a roçar a palavra “cueca”, Braga é mesmo a versão feminina desse termo em espanhol.

São inúmeros os casos do género. O preferido da María, a maior responsável pela minha pronúncia, é o da “folha”: não é capaz de pedir um bocado de papel sem fazer um sorriso. Levado o exercício ao extremo, adora entrar numa pastelaria e pedir um café e um mil-folhas.

domingo, 1 de Novembro de 2009

Alegria

Há uns bons anos atrás havia um gelado pequenino da Olá que se chamava “Banana Joe”; não sei se ainda existe. Na escola onde andava por altura do segundo ciclo havia uma senhora no bar que lhe chamava “Banana Joy”, mesmo depois de me ouvir dizer “Joe”. Lembrei-me disto porque ouvi o Nicolau Santos dizer “Joy” Berardo.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Costuma estar logo ali ao lado da Versalhes.

Sentado sobre um cartão na calçada, encostado à parede. Uma manta, um cobertor sobre as pernas, os joelhos, um boné na cabeça. Uma caixa (de plástico?) à frente, para as moedas daqueles que resolvem contribuir. Para os outros, aqueles que como eu passam como todos os dias, tem umas palavras preparadas, prontas a ser disparadas mas em surdina, murmuradas, insinuantes.

Hoje, quando ia a passar, parou uma viatura comercial em segunda fila. Do lugar do pendura, saiu um homem de bata branca, careca, óculos. Levava qualquer coisa na mão, ia fazer certamente uma entrega no pequeno portão mesmo ao lado da parede onde as costas do pedinte repousam. Passou muito rápido pela manta e o cartão depositados no chão e soltou um “bom dia senhor engenheiro”. O outro, lá de baixo, respondeu “bom dia senhor arquitecto”.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Words are very unnecessary

Uma das coisas mais complicadas de aprender na música é a fazer silêncios. Há uma tendência natural para tocar demasiadas notas, encher muito os espaços, respirar pouco. É assim como na vida: saber estar calado também é uma arte.

Da série perguntas que me fizeram na estação de metro do Saldanha

“Olhe, desculpe, como é que se vai para a rua…?”

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Trapos de língua #10

Há uma certa uniformidade nos “nãos” de várias línguas. Por exemplo, “no”, “non”, “nein”, “niet”. Os “sins”, contrariamente, são diferentes. Por exemplo, “sí”, “oui”, “ja”, “yes”, “da”.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Cinco um

Bach escrevia com uma cadência impressionante. Há quem diga que era porque tinha uma família enorme para sustentar: sete filhos de um primeiro matrimónio e treze de um segundo, segundo (consegui pôr esta palavras duas vezes e, ao escrever a palavra “duas”, ainda consigo fazer uma aproximação ao cardinal) a Wikipedia. O que é certo é que teve que criar mecanismos para poder ter um caudal muito regular de produção musical. Talvez daqui venha a ideia de que se trata de música com um cariz matemático marcado. Talvez. Como se isso fosse uma espécie de máquina de chouriços. No limite, até pode ser essa a sua grande virtude: como pode uma música de cariz matemático ter tanta alma? Há também quem diga que uma dessas invenções foi a noção de tensão/repouso, uma característica transversal à música ocidental. Uma coisa é certa: não devia mudar muitas fraldas, o senhor.

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Cenoura

Era um péssimo jogador de xadrez e sabia que nunca iria melhorar. Era uma questão de incentivo: não lhe agradava que o objectivo fosse fazer o “mate” com o rei. Ainda se fosse com a rainha.

domingo, 25 de Outubro de 2009

Trapos de língua #9

Para um português, o verbo “esquecer” é, sem dúvida, reflexivo. “Eu esqueço-me com facilidade”, “esqueci-me de te telefonar”. Para um brasileiro, o mesmo já não é verdade: “eu esqueci” é suficiente, não é preciso mais nada. Os espanhois recorrem ao “olvidar” mas também dizem “he olvidado” e não acrescentam mais nada. Em alemão, a mesma coisa, “ich habe vergessen” e acabou-se a conversa.

Os franceses têm duas possibilidades. O verbo “oublier” não reflexivo é a tradução do “esquecer”. “J’ai oublié de t'appeler”. Agora, a variante reflexiva do mesmo verbo tem um significado bastante diferente: “Elle s’est oubliée”, na tradução mais adequada que me ocorre para português, será “ela descuidou-se”.

Escusado será de dizer já me descuidei imensas vezes em francês, não resisto a conjugar o verbo na forma reflexiva, influenciado pelo “esquecer-me”.

sábado, 24 de Outubro de 2009

Olhar para o mundo com outros olhos

Lavei os óculos. É impressionante o quão sujos chegam a estar.

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Trapos de língua #8

Ela insistia no “je me lave les mains” e eu continuava a achar um absurdo. Aquele “me” estava claramente a mais. Não faz sentido nenhum. Mas é óbvio que eu lavo as minhas próprias mãos; você anda para aí a lavar as mãos de outros? E discutimos mais. Ela insistia: o verbo é reflexivo, tem que ter o pronome.

E depois desarmou-me. “Je me lave”, pura e simplesmente. Porque em português, à boa moda do Pilates, eu diria “lavo as mãos” mas poria sempre o “me” – este luso – da discórdia para dizer “eu lavo-me”. Sem as duas letrinhas a seguir ao hífen posso estar não só a mim próprio, mas também à louça suja, ao carro, etc.

Finalmente comecei a atribuir alguma lógica a “lavar-me as mãos”. Ainda para mais porque em espanhol e alemão também há, respectivamente, um “me” – este castelhano – e um “mich” algures na frase equivalente. Agora, uma coisa é certa: soa terrivelmente mal e ninguém me convence do contrário.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Trapos de língua #7

De início fazia-me alguma confusão que fosse preciso ter sempre o pronome perto do verbo conjugado. “Je sais”, “I know”. Porque em português eu podia dizer “sei” e estava arrumado o assunto, toda a gente sabia que era eu que sabia. Depois reparei na relação unívoca entre as formas verbais e as pessoas a que se referem. A forma “sei” não se confunde com a de outra pessoa e, portanto, só posso estar a referir-me ao “eu”. Da mesma forma que, por exemplo, “sabes” só pode ser “tu” e “sabemos” “nós”. E da mesma forma que os espanhóis, porque “sé” só se for “yo”, “sabes” “tu”, etc.

É claro que em inglês isto é impossível. O “know” pode referir-se a “I”, “you” (singular e plural), “we”, “they”. Em francês, embora a escrita permita diferenciar alguns dos casos (primeira e segunda pessoas da terceira, no caso do verbo “savoir”) a fonética é exactamente igual: “je sais”, “tu sais”, “il sait” não têm nenhuma diferença excepto no pronome. Com verbos regulares do primeiro grupo, a confusão alastra um pouco mais: “je mange”,”tu manges”, “il mange”, “ils mangent”. Em alemão, a primeira e terceira pessoas do plural, no presente, são iguais ao infinitivo do verbo: “wir wissen” e “sie wissen”.

Só num pormenor a lógica falha: nas terceiras pessoas. “Ele” ou “ela” “sabe”; “eles” ou “elas” “sabem”?

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Trapos de língua #6

É um castigo saber os dias da semana noutras línguas. Em miúdo, das coisas que mais me custou foi distinguir “tuesday” de “thursday”. Lembro-me das aulas na escola, íamos rotativamente ao quadro escrever o “summary” e isso implicava escrever a data. Por extenso. Houve um ano em que as aulas eram às terças e quintas e, de todas as vezes que percorria o caminho entre a última fila de cadeiras (sim, eu ficava sempre lá ao fundo) e o quadro, ia a fazer contas de cabeça. Em princípio, não me enganava. Mas tinha que pensar, usar mnemónicas, nunca foi algo que saísse naturalmente.

E não ficou por aqui. Depois foi “mardi” e a “jeudi”. E “lundi”. Por qualquer razão “mercredi” e “vendredi” foram fáceis. Assim como “miercoles” e “viernes”, embora, lá está, “martes” e “jueves” não sejam nada naturais. “Mittwoch” é fácil porque é auto-explicativa: meia semana. Agora “Dienstag” e “Donnerstag” ainda terão que ser bem treinadas.

É curioso notar que o sábado e o domingo nunca foram dias problemáticos. A proximidade com português é bastante maior. E quebrou-se aquela associação natural que não consigo deixar de fazer entre dias da semana e números. Do dois ao seis. E é isso que depois me dificulta a transposição para as terças-feiras e quintas-feiras das outras línguas: falta-lhes o número do dia.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Trapos de língua #5

“De dez em dez minutos uma pessoa é assaltada em Nova Iorque”. A interpretação normal desta frase seria presumir que as vítimas dos assaltos são pessoas distintas. No entanto, esta frase é ambígua porque também pode ser empregue para referir o caso em que é sempre o(a) mesmo(a) infeliz que é assaltado(a) vezes sem conta. A razão para a escolha da primeira interpretação é simples: o primeiro caso é mais provável do que o segundo caso.

Há um princípio economicista por detrás da evolução das línguas. Aparentemente, tornar o discurso “desambiguo” é custoso. E, portanto, para uma frase que possa ter mais do que um significado mas em que um deles tem uma probabilidade suficientemente grande (ou suficientemente pequena), introduzir uma explicação adicional que resolva essa ambiguidade é de uma utilidade praticamente nula. Esta ideia de que todos nós fazemos uma espécie de análise de máxima verosimilhança quando comunicamos é o que diz (de outra forma e mais coisa menos coisa) a regra de Horn.

Dois pequenos orgulhos nacionais

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segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Leben

«Até porque a minha vida não tem interesse nenhum, o que interessa são os meus livros.»

António Lobo Antunes

Lavo o meu carro escandalosamente poucas vezes.

Uma por ano, na melhor das hipóteses. Neste momento parece que acabei de regressar do Paris-Dakar. Em particular, as jantes estão tão pretas que é difícil perceber onde é que elas acabam e começa o pneu. Sempre que um cão alça a pata contra uma delas, a poça resultante fica escura do óleo que vem agarrado. Para aligeirar a minha consciência junto do meu carro que suspira por detergente, digo sempre que são os cães que mijam petróleo.