quinta-feira, 31 de outubro de 2019

The real McCoy

De repente, a meio da conversa, oiço-a dizer "the real McCoy", não me lembro a propósito de quê. Aliás, é possível que tenha esquecido tudo o resto apenas porque a expressão me interessou tanto, sugou toda a minha atenção e fez-me desconsiderar todo o resto do que disse. Pergunto-lhe, de imediato, se é uma expressão comum e ela diz-me que sim. Significa algo como "the real thing". Explico-lhe o meu súbito interesse: é o nome de um álbum do pianista McCoy Tyner. Ela, que não conhecia o Tyner, gosta do jogo de palavras que o título do álbum encerra. Eu, que conhecia o álbum mas não a expressão, fico a gostar ainda mais do título.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Tragédia

«But who is set up for the impossible that is going to happen? Who is set up for tragedy and the incomprehensibility of suffering? Nobody. The tragedy of the man not set up for tragedy - that is every man's tragedy.»

American Pastoral, Philip Roth

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Padrão de Oz

«In The Wizard of Oz, Dorothy, the Scarecrow, the Tin Man and the Lion have to follow a winding and hazardous 'yellow brick road' in order to reach their destination. Few devotees of the classic Judy Garland movie are aware that the original 1900 book by Frank Baum was a satire on America's entry into the gold standard.»

The cash nexus, Niall Ferguson

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Geringonça de Brad Mehldau atinge a maioria absoluta

(Publicado originalmente aqui)

Quis o destino que este concerto do trio de Brad Mehldau – que, ainda por cima, tem como mais recente álbum Seymour reads the constitution! –, tivesse lugar em dia de eleições legislativas. Duas horas após o fecho das urnas, e várias após este que vos escreve ter cumprido o seu dever cívico, os três músicos fizeram a sua entrada no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

Poder-se-ia considerar este trio como uma espécie de geringonça: Mehldau tem as rédeas do piano na mão mas necessita do apoio musical do baixo de Grenadier e da bateria de Jeff Ballard para governar harmónica e melodicamente e conseguir aprovar as suas propostas musicais. Até que ponto as negociações foram complicadas, intensas, até que ponto houve cedências de parte a parte, nada disso é conhecido. Sabemos, isso sim, que, de vez em quando, Mehldau prefere governar a solo, com ou sem maioria. Aliás, os restantes membros da coligação musical também têm os seus projectos alternativos, não existe qualquer tipo de exclusividade nesta relação. Mas, quando juntos no mesmo palco, surgem como uma frente unida, com um programa bem-definido, cuja implementação é seguida à risca.

A campanha parece ter resultado em cheio: o povo, galvanizado, compareceu em força, encheu a sala de espectáculos, que está praticamente lotada. O nível de abstenção é extremamente reduzido. Lá à frente, no palco, depois da tradicional vénia de mãos cerradas, Mehldau assume um posicionamento mais à esquerda, Grenadier ocupa o centro e Ballard o lado direito. Apesar desta disposição, Mehldau toca com a cabeça virada à direita, aproveitando para, de quando em quando, dar uma discreta piscadela de olho e tentar ocupar um pouco do espaço dos restantes membros.

Findo o terceiro tema e sensivelmente a meio do setlist, Mehldau dirige-se ao público pela primeira vez. Agradece, também na língua de Camões, diz-se “happy to be here” e apresenta os parceiros de palco. Depois dá-nos algumas palavras sobre o que acabámos de ouvir: o primeiro tema é um original, ainda sem nome e, por isso, com o original título “No title”; “Good old days” foi o segundo; o terceiro foi “Twiggy”, do álbum Ode que, segundo nos explica, designa alguém. Mais do que isso: “she’s here tonight and she knows who she is. But more on that later”.

Com este véu de mistério, vira-se novamente para o teclado e ataca as teclas. A retórica não é o seu forte, Mehldau é claramente um tecnocrata do piano, um daqueles personagens que só vêem pautas à frente e que estão concentrados em fazer apenas o que lhes competem. Passa pelo “I should care”, uma magnifíca versão que desagua numa deambulação solitária ao piano, e termina o set com “Highway rider”, tema que deu nome ao álbum lançado em 2010.

No segundo encore da noite, Mehldau entra sozinho em palco. Explica-nos que se encontra na mesma cidade que a sua esposa, Fleurine, e desvenda-nos o mistério que deixou no ar: é ela a tal “twiggy”, que dá o titulo à música, e irá coligar-se a ele para o próximo tema. Claramente Mehldau não tem medo dos críticos que tecem acusações de nepotismo – o pianista não tem qualquer dúvida sobre a competência da sua parceira musical e certamente garante que a sua escolha não está minimamente relacionada com os laços conjugais e/ou familiares. A holandesa entra, qual “flausine”, de vestido longo e viola ao pescoço, ajeita o microfone e fala ao público no seu português transatlântico com toque flamengo. Diz-nos que estará em Lisboa a tocar naquele mesmo Grande Auditório a 24 de Outubro e que o tema se chama “Sonhando”.

Sejam quais forem as cores e preferências de cada um, parece-me inegável afirmar que este trio se trata de uma geringonça bem oleada, entrosada, que funciona com poucas fricções. Não se notam quaisquer divergências programáticas entre os membros: os temas que executam parecem ser escolhas com as quais todos se revêem e das quais não precisam de se distanciar para evitar qualquer prejuízo junto das respectivas bases. Sondagens e impressões recolhidas à boca do Grande Auditório indicam que tem grande probabilidade de se manter por mais alguns ciclos eleitorais. Pela minha parte, faço já aqui a minha declaração de voto.

domingo, 6 de outubro de 2019

O Gente Que Não Sabe Estar coloca um dilema de prisioneiro aos convidados.

Nenhum dos convidados tem grande vontade para ali estar, sujeito ao desconforto das perguntas incisivas e de ser alvo de gozação e chacota. A questão é que existe sempre o incentivo para ir: se um dado político for e o rival não for, aquele que vai faz boa figura e o que não vai faz má figura. O que não vai passa por alguém que não se sente à vontade num ambiente que não lhe é favorável, com pouco fair play e, até, com pouca coragem para enfrentar o escárnio do Ricardo Araújo Pereira e do resto da equipa. Esta hipótese é aquela que gera o resultado mais favorável para um dos elementos - aquele que vai ao programa - mas também o menos favorável - para aquele que não vai.

Ora, por causa disso, para evitar ser apanhado na curva e fazer má figura por não ir quando o outro vai, só resta mesma uma hipótese: dizer sempre que sim à produção do programa. Ou seja, todos lá vão, é este o equilíbrio de Nash. Neste caso, ninguém verdadeiramente se destaca e, por isso, acabam os vários rivais por fazer algo que, no fundo, não querem.

Antecipando este desenlace, o ideal seria que combinassem todos, à partida, não ir ao programa. Desta forma, ninguém teria que passar por aquele mau bocado e, ao mesmo tempo, nenhum deles pareceria estar a fazer birrinha por não ir quando o outro vai. O problema é que o incentivo para desviar deste equilíbrio é suficientemente forte que qualquer compromisso prévio não seria suficientemente credível. Não resta outra hipótese senão assistir à gozação é aos inúmeros sorrisos amarelos.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Ubiquidade

Já tinha assistido àqueles que verificam o telefone entre exercícios, enquanto alongam. Por vezes nas posições mais estranhas e incómodas. Mas há sempre espaço para a novidade: assim que entrou na sauna, ainda não tinha tido tempo para fechar a porta atrás de si, ouviu-se o som do telemóvel a chamar a atenção para a recepção de uma mensagem. Foi então que reparei que tinha o aparelho na mão direita. Subiu o segundo nível do banco, sentou-se lá em cima, de lado, com as costas contra a madeira quente e as pernas esticadas ao longo das tábuas do banco. E assim ficou, entretido a responder às mensagens. E com o som do aparelho ligado: ouvíamos o barulhinho irritante de cada vez que teclava.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Estômago

Difícil não ter algum respeito por Santana Lopes na actual posição: é preciso estômago para, com o percurso dele, se sentar no meio dos candidatos dos partidos sem representação na assembleia, no debate de 2a feira.