segunda-feira, 25 de julho de 2016

Passion and warfare no CCB: sabemos donde vem, só falta saber para onde Steve Vai.

À entrada do Grande Auditório do CCB há uma indicação de que o concerto não é aconselhado a epilépticos. Pouco depois, já dentro da sala de espectáculo, reparo que o palco foi recuado, três filas adicionais de plateia foram adicionadas nesse espaço para fãs mais ferrenhos. Reparo também que parece haver uma dose reforçada do sistema de som, que se nota com a música de ambiente e quando os roadies fazem testes à bateria e o kick do bombo quase manda a sala abaixo (julgo que foi a primeira vez que saí do CCB com os ouvidos a zumbir).


Steve Vai foi discípulo de Joe Satriani, que teve outros notáveis alunos, como Kirk Hammett dos Metallica. Com ele aprendeu vários aspectos da técnica e do virtuosismo das 6 cordas da guitarra. Mas resumi-lo apenas ao virtuosismo é insuficiente: a criatividade do seu repertório é impressionante num género onde é relativamente difícil conseguir constantemente inovar. Em alguns casos, parecem mais experiências laboratoriais do uso (e abuso) das 6 cordas da guitarra, como em vários temas do álbum Flexable em que, desde imitar extraterrestres, até dobrar o discurso de uma senhora, e até à “The attitude song”, cheia (perdoem-me o pleonasmo) de atitude, está lá de tudo. E é depois de fazer este álbum que Vai se fecha no estúdio a produzir outra obra de uma quase engenharia musical, para a qual o guitarrista tentou elevar ainda mais a fasquia que havia acabado de colocar já bastante alta. Este álbum veio a chamar-se “Passion and Warfare”, um clássico incontornável para os apreciadores do género, e é homenageado nesta digressão, que comemora os 25 anos do seu lançamento.

Num estilo onde muitas vezes a excentricidade é um requisito fundamental (necessário mas não suficiente) e que roça o kitsch, Steve Vai deu azo à sua irreverência natural. Para além do carácter inovador no plano musical e que o distingue, os restantes aspectos relacionados com o espectáculo em si, que vão da forma como toca as músicas – a ajeitar o cabelo enquanto só uma mão toca a guitarra – até à roupa – as calças e as camisas de gosto duvidoso – até à guitarra de assinatura da Ibanez com as florzinhas por todo o lado do corpo e no braço, tudo isto contribui para o fazer sobressair.
(Publicado originalmente aqui)


É interessante também relembrar as suas incursões pelo universo de Frank Zappa e a passagem pelos Whitesnake (uma fase Maria-Vai-com-as-outras?), assim como no filme Crossroads, onde protagoniza um duelo de guitarra fabuloso com um Ralph Macchio, o do Karate Kid, que também aqui tem um mestre. Macchio, a tocar slide numa Telecaster, vence o duelo – é curioso ver Vai a fingir perdê-lo, quase merecia um óscar – tocando o 5º capriccio de Paganini, mais ou menos como aplica o pontapé tirado na cartola no final do Karate Kid (o duelo pode ser visto aqui).


Confissão: estes três últimos parágrafos de texto foram escritos antes de ter saído de casa para o concerto. Mas acabaram por, sem saber ler nem escrever, espelhar o que lá se passou. Voltemos ao Grande Auditório do CCB onde, de repente, as luzes se apagaram, o público gritou e na tela no fundo do palco foi projectada uma cena do Crossroads. – “This is it, this is the place”, “the deal is still on”. Logo a seguir entram em cena os músicos, Vai com um capacete de lasers que parecem sair-lhe dos olhos e outro feixe que brota da extremidade do braço da guitarra. A banda acompanha o início do duelo final do filme.

Seguem-se alguns dos grandes clássicos, o “Crying Machine” e um excelente “Tender Surrender”. Vai interrompe a música a seguir ao seu solo, fazendo um esgar de cansado, e esperando arrancar uma reacção do público. E conseguiu: a sala ergueu-se e foi a primeira ovação de pé da noite que o deixou visivelmente surpreendido. Seguiu-se uma sucessão de curtas frases na guitarra com o público a reproduzir as notas pelo meio até finalmente ser retomada a melodia da música para o final.

“You guys are in a very good mood tonight, aren’t you?”, diz-nos da primeira vez que se vira para o microfone. E em seguida diz-nos o que nos espera, nada mais do que o “Passion and Warfare” tocado na íntegra, de uma ponta à outra. Para arrancar, logo de seguida, surge a imagem de um concerto em que toca o primeiro tema, “Liberty”, juntamente com Brian May.

E esta é uma constante para o que aí vem. Não só são acompanhados pelos telediscos de alguns temas como, a meio do “Answers”, Vai anuncia o nome do seu amigo Joe Satriani, que surge no ecran a felicitá-lo e desafia-lo para uma jam. O que se segue são chases de oito compassos, primeiro tocados por Satriani, e outros tantos por Vai em resposta, durante algumas trocas, até passar a 4 compassos e terminar com ambos a tocar em uníssono. A piada volta a acontecer mais à frente no “The audience is listening”, desta vez com John Petrucci a participar no despique guitarrístico. Vai toca nos limites físicos da guitarra, este concerto deve ser um pesadelo de logística para o roadie, que tem de ter uma guitarra pronta para tocar a praticamente todos os temas.

Um destaque para o fantástico final do “For the love of God”, um exemplo da forma incrível como usa a barra de vibrato da guitarra, por vezes substituindo a palhetada da mão direita. Acabou a tocar com a língua nas cordas, numa espécie de french kiss que voltou a tirar o público da cadeira. Vai ficou novamente surpreendido, olhou para o baterista como que a perguntar “já viste isto?”; o baterista encolheu os ombros como quem diz “Vai lá, Vai”.

Uma surpresa foi deixada para o final, a seguir à exposição integral do “Passion and Warfare”. Após um tema de homenagem a Frank Zappa, Steve Vai chamou dois voluntários ao palco e explicou que o iriam ajudar a compor uma música. À Inês (“my darling”) pediu que indicasse a drum beat que o baterista iria tocar. Ao José pediu a linha de baixo. A Inês foi novamente solicitada, desta vez para indicar o que a guitarra ritmo iria fazer. Finalmente, ao José coube ir cantando ao microfone o que Steve Vai iria tocar na guitarra. E assim, em tempo real, Vai foi dobrando a voz do voluntário José, que não se inibiu de trautear frases que exigiram perícia do herói da guitarra.

O concerto termina com a sonoridade exótica do “Bangkok” no encore, depois de mais de duas horas e meia absolutamente electrizantes. O público levanta-se (outra ovação) e alguns vão até ao palco, ficam a trocar fist bumps com o guitarrista, que tira selfies com os voluntários que foram convidados a assistir ao resto do concerto no palco.


Retomo o título. Embora saibamos donde vem, não sabemos para onde Steve Vai. Ou até onde Vai. Nem o próprio deverá saber, Vai na volta. Mas, para onde quer que seja, deverá ser mais uma viagem marcante ao mundo da guitarrada, um autêntico Vai-e-vem de notas arrojadas. Ai Vai Vai.

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