quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Seis e meio
Numa banca de jornais – e não só, recordações, comida, etc. – do aeroporto de Dublin. Quero levar qualquer coisa comigo para ler, não me apetece o livro que levei trouxe para a viagem. Opto por uma solução típica, agora uma Economist – na capa a chamada para um artigo sobre a Google Glass e possíveis ataques à cada vez mais exígua privacidade. O funcionário pega na revista, aponta o leitor de código de barras, espero que me diga o preço de carteira na mão. E depois fico a pensar nos seis euros e meio, enquanto me dirijo para as cadeiras onde hei de esperar pelo embarque. De repente, as letrinhas pequenas na parte inferior da capa da revista. Só há dois preços nos países do euro: Áustria, Bélgica, Finlândia, Alemanha, Luxemburgo e Holanda pagam o mesmo que a Irlanda e todos os outros gozam de um desconto de vinte cêntimos. A política de preços da Economist parece uma fábula do centro e da periferia, tão em voga nos temas que enchem grande parte das páginas da revista. Quer dizer, quase, é imperfeita porque coloca a Irlanda no centro e a França na periferia. A própria Itália é capaz de ficar um bocado chateada por ir para casa com mais vinte cêntimos no bolso.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Pero que las hay
A Apple comprou uma empresa de tecnologia que é conhecida por ter criado o sistema de detecção de movimentos utilizado em consolas de jogos da Microsoft. Grosso modo, esta empresa desenvolveu um sistema inovador que permite que a consola se aperceba dos movimentos corporais sem ser necessário que os jogadores se equipem com sensores nos seus corpos. Especula-se agora o que a Apple terá em mente com a incorporação deste tipo de tecnologias nos seus equipamentos.
Depois desta introdução (que praticamente só tem interesse como contexto) há dois aspectos muito curiosos nesta notícia: i) a empresa foi fundada maioritariamente por pessoas com um passado ligado a defesa e ii) é israelita.
Depois desta introdução (que praticamente só tem interesse como contexto) há dois aspectos muito curiosos nesta notícia: i) a empresa foi fundada maioritariamente por pessoas com um passado ligado a defesa e ii) é israelita.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Foi mais ou menos assim
Fábio!
(silêncio)
Ó Fáá biioo!
(silêncio)
Eh pá, Fábio é um nome muito musical. Fábio. Solbio. Sibio.
Dóbio
Rébio.
(silêncio)
(olhares)
Eh pá, Rébio é um bocado mau.
(silêncio)
Ó Fáá biioo!
(silêncio)
Eh pá, Fábio é um nome muito musical. Fábio. Solbio. Sibio.
Dóbio
Rébio.
(silêncio)
(olhares)
Eh pá, Rébio é um bocado mau.
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
domingo, 24 de novembro de 2013
Heads up
Se há profissão que eu diria que acarreta riscos é a dos tipos que fazem entregas de botijas de gás. E, no entanto, parece que as únicas pessoas que não se aperceberam desse risco são aqueles que efectivamente fazem as entregas. Lidam com as botijas como se fossem sacos de lixo, deixam-nas cair no chão, etc.. Há dias vi uma carrinha ser conduzida lunaticamente, as botijas atrás a chocalhar umas contra as outras.
Às vezes tenho vontade de me dirigir a um desses profissionais e alertá-lo para o facto de que aquele recipiente pesado e feio e sujo contém uma coisa chamada gás, coisa essa que é conhecida por ser combustível e que é capaz de explodir se a aborrecermos demasiado. A esperança reside no gás canalizado, que é provável vir a salvar-nos a vida a todos.
Às vezes tenho vontade de me dirigir a um desses profissionais e alertá-lo para o facto de que aquele recipiente pesado e feio e sujo contém uma coisa chamada gás, coisa essa que é conhecida por ser combustível e que é capaz de explodir se a aborrecermos demasiado. A esperança reside no gás canalizado, que é provável vir a salvar-nos a vida a todos.
sábado, 23 de novembro de 2013
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
Wide awake
Há um certo travo agri-doce em relação a ir ao cabeleireiro. É simpático quando mexem no cabelo mas é terrível o esforço para manter acordado.
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Semínima pontuada
O N. dá-me a melhor definição de tocar polirritmos: é como aqueles jogos de bebés em que é suposto pôr um objecto com uma dada figura no orifício correspondente - só que em vez de pôr o triângulo no orifício em forma de triângulo, tentas encaixá-lo no que tem forma de quadrado. Eu acrescento: quadratura do círculo.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
domingo, 17 de novembro de 2013
Anti-pró
«Às vezes prefere-se o moderno anti, sufixo nacionalmente adorado com o qual os portugueses se definem: é-se anti-comunista e anti-nuclear e anti-aborto e anti-gamente ainda era pior. Pelo contrário, o sufixo oposto, pró é praticamente tabu. Não se ouve dizer que se é pró-comunista e, de um modo geral, só se é «pró» em relação ao menino e à menina, ex: «É pró menino e prá menina».
Pior ainda: pró é sobretudo usado para mandar pessoas de que não se gosta para um sítio malcriado, e as palavras que começam por ela são geralmente pejorativas: nenhum português quer ser proxeneta, prostituta ou professional. As palavras começadas por anti, em contrapartida, são autênticas coqueluches: tudo é antítese de tudo, e a anti-poesia e o anti-cinema suscitam o interesse geral.»
A causa das coisas, Miguel Esteves Cardoso
Pior ainda: pró é sobretudo usado para mandar pessoas de que não se gosta para um sítio malcriado, e as palavras que começam por ela são geralmente pejorativas: nenhum português quer ser proxeneta, prostituta ou professional. As palavras começadas por anti, em contrapartida, são autênticas coqueluches: tudo é antítese de tudo, e a anti-poesia e o anti-cinema suscitam o interesse geral.»
A causa das coisas, Miguel Esteves Cardoso
sábado, 16 de novembro de 2013
"Maybe you should try to try a little less"
Nick, personagem da série New Girl
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Mas não cai
Talvez por ser um Continente de menor dimensão, o da Defensores de Chaves costumava ter um sistema em que os clientes pesavam eles próprios a fruta e os legumes – no Colombo há um funcionário dedicado exclusivamente a essa tarefa. Recentemente, resolveram abandonar este sistema e a pesagem passou a poder ser feita nas caixas, como nalguns estabelecimentos da concorrência. Retiraram a quase totalidade das balanças. A quase totalidade, digo e repito, porque deixaram ficar uma. Uma. Da primeira vez que presenciei a alteração, reparei na bicha interminável de pessoas que refilavam enquanto esperavam para pesar o conteúdo dos sacos de plástico fininhos e transparentes: a mesma fila que dantes se dividia em três, quatro balanças diferentes, serpenteava na direcção do agora único exemplar. Disse mal à minha vida mas suspirei logo que ouvi o funcionário a avisar que o processo podia ser protelado até à caixa.
Passadas umas semanas (um mês?) deste episódio ainda há quem (e não são assim tão poucos) continue a fazer fila e a refilar enquanto espera interminavelmente pela única balança disponível (estarão lá há um mês?). É que não é só uma coisa que não entendo, são duas: (i) que ainda não tenham interiorizado que não precisam de levar a cabo o ritual da pesagem (enfim, somos criaturas de hábitos) e (ii) que a gestão daquele Continente não tenha retirado a última balança que Mohicanicamente subsiste, muito concorrida. Não que me prejudique – pelo contrário, quanto mais as pessoas à minha frente já levarem as coisas delas pesadas, menos tempo tenho que esperar para pagar porque dispensa o trabalho do caixa. E eles – que deveriam ser os principais afectados pela mudança – ainda não se habituaram, consultar desenfreadamente tabelas com códigos enfiadas em capas de plástico.
Passadas umas semanas (um mês?) deste episódio ainda há quem (e não são assim tão poucos) continue a fazer fila e a refilar enquanto espera interminavelmente pela única balança disponível (estarão lá há um mês?). É que não é só uma coisa que não entendo, são duas: (i) que ainda não tenham interiorizado que não precisam de levar a cabo o ritual da pesagem (enfim, somos criaturas de hábitos) e (ii) que a gestão daquele Continente não tenha retirado a última balança que Mohicanicamente subsiste, muito concorrida. Não que me prejudique – pelo contrário, quanto mais as pessoas à minha frente já levarem as coisas delas pesadas, menos tempo tenho que esperar para pagar porque dispensa o trabalho do caixa. E eles – que deveriam ser os principais afectados pela mudança – ainda não se habituaram, consultar desenfreadamente tabelas com códigos enfiadas em capas de plástico.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Prospect of a deal
De repente, o gato salta-te para o colo, como me costumava fazer a mim. Aliás, a qualquer pessoa. Com um aviso casual, um miar fortuito emitido instantes antes de dar o impulso no chão e aterrar nas tuas pernas. Quer festas, roça-se em ti, ouve-se o ronrom. Encolhes-te toda, soltas um som ridículo. Tens pouca experiência com animais, as tuas mãos ficam perdidas sem saber o que fazer, sinto-te ficar tensa, quase hirta. Levanto-me e agarro o gato, tiro-o de cima de ti, ponho-o no meu colo.
Explico-te como funcionam os gatos. Como se tivessem um manual de instruções e eu te estivesse a pôr a par dos botões, onde e quando carregar. O que fazer. A certa altura estamos a falar da personalidade dos gatos – da independência, da fleuma. Dizes que os gatos são como as mulheres quando passam as mensagens por gestos e silêncios, intenções. O que eu te tentei explicar – sem sucesso, reconheço-o agora – é que não é só com as mulheres que eles são parecidos.
Explico-te como funcionam os gatos. Como se tivessem um manual de instruções e eu te estivesse a pôr a par dos botões, onde e quando carregar. O que fazer. A certa altura estamos a falar da personalidade dos gatos – da independência, da fleuma. Dizes que os gatos são como as mulheres quando passam as mensagens por gestos e silêncios, intenções. O que eu te tentei explicar – sem sucesso, reconheço-o agora – é que não é só com as mulheres que eles são parecidos.
domingo, 10 de novembro de 2013
Wide open
«O trajecto dos olhos no mundo dá o trajecto da inteligência»
Jerusalém, Gonçalo M. Tavares
Jerusalém, Gonçalo M. Tavares
Ainda a propósito da nova linha de roupa interior do Ronaldo
Neste Natal, o Ronaldo vai dar cuecas aos defesas e guarda-redes adversários.
sábado, 9 de novembro de 2013
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Estica
Nunca saio do gabinete sem esperar uns quantos minutos após pôr um documento a imprimir: a impressora demora sempre um bom bocado a aquecer. Fico a pensar se não deverá fazer alongamentos no final.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Tilda
Ponho um til ao preencher um formulário online e de imediato surge uma caixa a dizer que “special characters” não são “allowed”. Como explicar a ingleses que acentos não têm nada de especial? Muito pelo contrário, são bastante comuns e banais.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Sobre diferenças na velocidade do sinal de empresas que fornecem serviço de televisão
Estou a ser posto ao corrente do que vai acontecer nos próximos segundos do jogo pelo meu vizinho (um qualquer) (acho que de cima).
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
O Cristiano Ronaldo não é o super-homem.
O futebolista lançou uma linha de roupa interior. Diz que está muito contente porque gosta muito de roupa interior e – atenção a esta parte – porque é a primeira coisa que veste de manhã.
domingo, 3 de novembro de 2013
12 fucking notes
Uma entrevista interessante em que o Brandford Marsalis fala sobre o nível de complexidade a que chegou o jazz e onde o descreve como um obstáculo à comunicação com o comum dos mortais que “don’t know shit about music”. O jazz está a tornar-se uma música fechada, tocada por músicos para músicos, os únicos com suposto arcaboiço para entender e apreciar o que está a acontecer – um argumento parecido àquele das senhoras que se aperaltam não para os senhores mas para as outras senhoras (não as criticarem). Dito de outra forma, aquele que deveria ser o público alvo está a ficar à margem, preterido por aquilo que supostamente ainda não foi feito com as “12 fucking notes”. E tudo isto em detrimento da componente emocional que, vistas as coisas, deveria ser o verdadeiro motivo. O mais curioso é isto tudo vir da boca de um virtuoso como o Marsalis.
sábado, 2 de novembro de 2013
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
“Até para mudar as pastilhas é preciso pedir licença ao computador”
Por um mecânico, de cócoras, virado para a roda de um Porsche.
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Verruckt
Uma amiga – da área da saúde – colocou como skill no seu perfil do Linkedin “mental health”. É aconselhável e fica bem. Mas às vezes não a ter é mais útil.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Timbre
O túnel que leva até às escadas para a rua já está bastante molhado, repleto de pequenas poças, os degraus escorregadios. À saída, encharcado, ensopado, incita à compra de chapéus de chuva. Mas o pregão é horrível, a voz é feia, desagradável. As pessoas passam indiferentes e ele parece ficar sobretudo indignado com aqueles que não protecção para a chuva e que, ainda assim, optam por seguir caminho debaixo da chuva intensa em vez de lhe comprar um dos objectos. Nesses casos a voz faz-se ouvir ainda mais, penetrante. Um dos transeuntes goza com a situação, diz-lhe
Ainda se vendesse tampões para os ouvidos.
Ainda se vendesse tampões para os ouvidos.
domingo, 27 de outubro de 2013
A Bobone devia escrever um livro sobre boas maneiras dentro de um avião.
Como, por exemplo, não pôr as costas do banco para trás no momento em que vai ser servida a refeição. Ou então não ver filmes no iPad sem usar auscultadores. Não passar a vida a segurar-se ou amparar-se no banco da frente. Ou ainda, não tirar os sapatos – sobretudo se os nossos pés são pestilentos.
sábado, 26 de outubro de 2013
Norma(lidade)
«If you want to nudge people into socially desirable behavior, do not, by any means, let them know that their current actions are better than the social norm.»
Nudge, Richard Thaler and Cass Sunstein
Nudge, Richard Thaler and Cass Sunstein
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Escalade
«Não o irritava ser considerado competente mas sim que essa competência fosse confundida com uma certa bondade, sentimento que desprezava em absoluto.»
Aprender a rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares
Aprender a rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Consoante a hora a que me estiver a ouvir
De manhã dizemos
Bom dia
mas nunca dizemos boa manhã. Assim que começa a tarde temos que dizer
Boa tarde.
senão olham-nos de soslaio. Às vezes, perto da fronteira temporal, levamos como resposta
Bom dia que eu ainda não almocei
sugerindo que é a refeição que determina onde começam e acabam os dois blocos do dia. Os alemães e os franceses usam a mesma fórmula, o mesmo bom dia,
Guten Tag, bounjour
Mas é um bom dia que pode se empregue seja manhã ou tarde. Nunca mudam e também não especificam se estão a desejar coisas boas para apenas uma parte do dia, fica ao critério do recipiente. Já os ingleses especificam tudo, ou boa manhã ou boa tarde
Good morning, good afternoon
Só há alusão ao dia todo quando se despedem das pessoas
Have a nice day
Bom dia
mas nunca dizemos boa manhã. Assim que começa a tarde temos que dizer
Boa tarde.
senão olham-nos de soslaio. Às vezes, perto da fronteira temporal, levamos como resposta
Bom dia que eu ainda não almocei
sugerindo que é a refeição que determina onde começam e acabam os dois blocos do dia. Os alemães e os franceses usam a mesma fórmula, o mesmo bom dia,
Guten Tag, bounjour
Mas é um bom dia que pode se empregue seja manhã ou tarde. Nunca mudam e também não especificam se estão a desejar coisas boas para apenas uma parte do dia, fica ao critério do recipiente. Já os ingleses especificam tudo, ou boa manhã ou boa tarde
Good morning, good afternoon
Só há alusão ao dia todo quando se despedem das pessoas
Have a nice day
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Andorinhão-real
O Público noticia que o andorinhão-real é capaz de voar 200 dias sem parar. Acho sempre curiosa a forma como se relatam estas coisas. Será lícito afirmar que o homem (a roçar a definição com "H") é capaz de correr a 37.578 km/h ((0.1km/9.58s)*(60s*60m))? Há um que é capaz, é jamaicano e chama-se Usain Bolt. Mas não conheço mais nenhum que seja. Aliás, a maioria de nós está bastante longe disso - por exemplo, 15s aos 100m dá 24km/h. E portanto a questão é: serão estes passarocos com características propícias ao exercício e que andaram a treinar para bater recordes ou bichos de capacidade física perfeitamente mediana?
domingo, 20 de outubro de 2013
sábado, 19 de outubro de 2013
Precoce
O juiz pergunta ao porta voz do júri se chegaram a um veredicto. A pessoa em causa levanta-se e diz que sim, your Honour, o júri chegou a uma conclusão. Às vezes dão o papelinho primeiro ao juiz, para que se cumpra o protocolo e ele tenha o privilégio de saber primeiro que todos os demais. E depois faz jus à sua função de porta voz e diz
We find the defendant… guilty/not guilty.
E há sempre uma curta pausa até as palavras defendant e guilty. Possivelmente porque é um filme ou uma série e o suspense é um osso do ofício. O que estraga isto tudo são as legendas: antes do porta voz dizer guilty com o sem o not, já apareceu culpado ou inocente naquelas letrinhas em baixo.
We find the defendant… guilty/not guilty.
E há sempre uma curta pausa até as palavras defendant e guilty. Possivelmente porque é um filme ou uma série e o suspense é um osso do ofício. O que estraga isto tudo são as legendas: antes do porta voz dizer guilty com o sem o not, já apareceu culpado ou inocente naquelas letrinhas em baixo.
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Meaningless
It goes without saying é uma expressão que deixa de fazer sentido a partir do momento em que é efectivamente dita.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
terça-feira, 15 de outubro de 2013
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Elefante
Estou a pôr as bananas no saco de plástico transparente. Olho para a placa onde está indicado preço; olho apenas porque quero ver a referência para em seguida introduzir na balança. E começo a repeti-la para mim mesmo mentalmente, começo a repetir o número de três dígitos (cento e qualquer coisa) porque tenho medo de me esquecer até chegar à balança. Vou com o número na cabeça naquele pequeno trajecto, levo-o comigo – tenho medo de desatar a dizê-lo alto inconscientemente – evito os carrinhos de outras pessoas, manobro o meu por entre o espaço que me parece exíguo. Deixo cavalheiristicamente uma senhora passar-me à frente num mini-cruzamento e só depois me apercebo do erro estratégico: ela rouba-me a balança diante dos meus olhos. O número, a referência para pesar as bananas sempre a correr em loop na minha cabeça – e continuo a rezar para que não o esteja a dizer alto – e começo a ir em direcção à outra balança. Imagino todas as outras pessoas a repetir mecanicamente números diferentes nas cabeças delas, números de pêssegos, maçãs, tomates, melões; imagino-os todos a apressarem-se para as balanças com medo de se esquecerem. Chego à balança, pouso as bananas na chapa metálica e, quando vou digitar o número, não o consigo reproduzir.
domingo, 13 de outubro de 2013
sábado, 12 de outubro de 2013
Vidro
(...) a crise está a provocar um aumento do abuso de drogas e uma alteração dos padrões de consumo, com um regresso à heroína, que vinha a decrescer desde o final dos anos 90.
No início deste ano saiu este documentário impressionante sobre um fenómeno semelhante na Grécia. Neste caso, pior na medida em que a droga cujo consumo mais está a expandir é a uma nova forma de chrystal meth altamente destrutiva. E mais barata.
No início deste ano saiu este documentário impressionante sobre um fenómeno semelhante na Grécia. Neste caso, pior na medida em que a droga cujo consumo mais está a expandir é a uma nova forma de chrystal meth altamente destrutiva. E mais barata.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Herd behaviour
«Most of us are affected by the eating habits of our eating companions, whatever their intentions. As we have said, obesity is contagious; you’re more likely to be overweight if you have a lot of overweight friends. An especially good way to gain weight is to have dinner with other people. On average, those who eat with one other person eat about 35 percent more than they do when they eat alone; members of a group of four eat about 75 percent more; those in groups of seven or more eat 96 percent more*.
We are also greatly influenced by consumption norms within the relevant group. A light eater eats much more in a group of heavy eaters. A heavy eater will show more restraint in a light-eating group. The group average thus exerts a significant influence. But there are gender differences as well. Women often eat less on dates; men tend to eat a lot more, apparently with the belief that women are impressed by a lot of manly eating. (Note to men: they aren’t.) So if you want to lose some weight, look for a thin colleague to go to lunch with (and don’t finish the food on her plate).
*A colleague who raises chickens tells us that they behave the same way. A chicken who has already eaten enough to feel sated will start eating again if a hungry chicken is brought into the next cage.»
Nudge, Richard Thaler e Cass Sunstein
We are also greatly influenced by consumption norms within the relevant group. A light eater eats much more in a group of heavy eaters. A heavy eater will show more restraint in a light-eating group. The group average thus exerts a significant influence. But there are gender differences as well. Women often eat less on dates; men tend to eat a lot more, apparently with the belief that women are impressed by a lot of manly eating. (Note to men: they aren’t.) So if you want to lose some weight, look for a thin colleague to go to lunch with (and don’t finish the food on her plate).
*A colleague who raises chickens tells us that they behave the same way. A chicken who has already eaten enough to feel sated will start eating again if a hungry chicken is brought into the next cage.»
Nudge, Richard Thaler e Cass Sunstein
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Sapo
Come e cala. Embrulha.
E não bufa.
Não quero ouvir queixas, resmunguices.
Barriga para dentro, peito para fora.
Força. Engole.
Caluda! Mas a formiguinha já tem catarro?
Sem questões. Sem mas nem meio mas.
Não tuge nem muge. Aguenta.
E não bufa.
Não quero ouvir queixas, resmunguices.
Barriga para dentro, peito para fora.
Força. Engole.
Caluda! Mas a formiguinha já tem catarro?
Sem questões. Sem mas nem meio mas.
Não tuge nem muge. Aguenta.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Sting
Não se lembrava da última vez que tinha sido picado – se é que alguma vez tinha sido, talvez em miúdo, uma memória distante e difusa – mas sempre tivera um medo inexplicável de abelhas. Naquele dia, pouco tempo após ter sido picado, percebeu, enquanto o choque anafilático o sufocava, a razão: esse medo era uma reacção natural, era uma defesa do seu corpo.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Aspirar
«’(…) Colonel Cathcart wants to be a general and I want to be a colonel, and that’s why we have to send you home.’
‘Why does he want to be a general?’
‘Why? For the same reason that I want to be a colonel. What else have we got to do? Everyone teaches us to aspire to higher things. A general is higher than a colonel, and a colonel is higher than a lieutenant colonel. So we’re both aspiring.»
Catch-22, Joseph Heller
‘Why does he want to be a general?’
‘Why? For the same reason that I want to be a colonel. What else have we got to do? Everyone teaches us to aspire to higher things. A general is higher than a colonel, and a colonel is higher than a lieutenant colonel. So we’re both aspiring.»
Catch-22, Joseph Heller
domingo, 6 de outubro de 2013
Ser muito bom a não dizer nada.
Calado, quedo e mudo. Mesmo quando a situação pede, grita por palavras, frases, qualquer coisa. Silêncio. Um vazio desconcertante. Incompreensível. Sério candidato às medalhas, caso ficar calado fosse um desporto olímpico.
sábado, 5 de outubro de 2013
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Agridoce
Num documentário sobre filhos abusados pelos pais, um deles, agora adulto, fala do seu constante dilema: querer odiar quem o maltratou e não conseguir porque não se odeia uma mãe ou um pai. O mais perto que esteve foi, um dia, numa sessão de terapia, ao dar murros num sofá imaginando que era o pai quem agredia; não conseguiu o mesmo com a mãe. Uma outra revela que aprendeu a sentir raiva e ódio face aos seus pais. Diz: estou contente por poder estar triste.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
É possível que o Joseph Heller tenha criado a PAC
«His specialty was alfalfa, and he made a good thing out of not growing any. The government paid him well for every bushel of alfalfa he did no grow. The more alfalfa he did not grow, the more money the government gave him, and he spent every penny he didn’t earn on new land to increase the amount of alfalfa he did not procude. Major Major’s father worked without rest at not growing alfalfa. On long winter evenings he remained indoors and did not mend harness, and he sprang out of bed at the crack of noon every day just to make sure the chores would not be done. He invested in land wisely and soon was not growing more alfalfa than any other man in the country. Neighbors sought him out for advice on all subjects, for he had much money and was therefore wise. ‘As ye sow, so shall ye reap,’ he counseled one and all, and everyone said, ‘Amen.’»
Catch-22, Joseph Heller
Catch-22, Joseph Heller
terça-feira, 1 de outubro de 2013
O movimento e o som do comboio embalam-me.
Os olhos começam a pesar-me. Luto para chegar ao próximo sítio do livro onde posso parar. Marco a página, pouso o livro. Pego nos auscultadores, coloco nos ouvidos, fecho os olhos. Não sei quanto tempo terá passado quando, de repente, ouço uma voz. Autoritária, quase ameaçadora. Vem em crescendo e acaba por me fazer acordar do sono leve. À minha frente está o tipo que vinha na mesma divisória, a falar comigo. Tiro os auscultadores mas isso não me ajuda a entendê-lo: fala comigo em eslovaco. Digo-lhe
I can’t understand you
E ele muda para um inglês pobre e entrecortado. Diz-me qualquer coisa sobre dormir e o comboio parar e respondo qualquer outra coisa sem grande sentido – estará a dizer-me para não dormir?
No, you don’t undertand me.
(pois não, pois não...)
Repete a mesma lengalenga, desta vez acrescenta uns sons quando descreve o comboio a parar que fazem lembrar naves espaciais. E finalmente percebo e digo-lhe que sim, parámos numa estação enquanto ele dormiu, estava eu a ler o meu livro. Larga um suspiro raivoso, vira costas e faz um gesto brusco de quem vai dar um murro na porta mas aguenta o impulso ao último instante. Sai disparado. Volto pôr os auscultadores nos ouvidos. Ele regressa passados uns minutos, senta-se encolhido, a falar (praguejar?) sozinho. Subo o volume.
I can’t understand you
E ele muda para um inglês pobre e entrecortado. Diz-me qualquer coisa sobre dormir e o comboio parar e respondo qualquer outra coisa sem grande sentido – estará a dizer-me para não dormir?
No, you don’t undertand me.
(pois não, pois não...)
Repete a mesma lengalenga, desta vez acrescenta uns sons quando descreve o comboio a parar que fazem lembrar naves espaciais. E finalmente percebo e digo-lhe que sim, parámos numa estação enquanto ele dormiu, estava eu a ler o meu livro. Larga um suspiro raivoso, vira costas e faz um gesto brusco de quem vai dar um murro na porta mas aguenta o impulso ao último instante. Sai disparado. Volto pôr os auscultadores nos ouvidos. Ele regressa passados uns minutos, senta-se encolhido, a falar (praguejar?) sozinho. Subo o volume.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Depois de passar a primeira porta, há uma segunda porta de madeira fina.
O adro da igreja fica do lado direito. Do lado esquerdo, numa mesa velha cheia de livros, guias, postais, bugigangas onde gastar dinheiro, está uma senhora que alerta uma das duas alemãs à minha frente que é preciso pagar entrada. Eu já tinha reparado no papel colado no tampo da mesa, virado para quem entra, com os dois euros bem explícitos. A alemã responde-lhe num inglês forçado que veio para rezar mas a senhora da mesa velha não recua nos dois euros. A alemã olha para trás para a segunda alemã com uma cara de desaprovação e diz-lhe que não paga. Vira-se novamente para a senhora da mesa velha e, agora em alemão, dá-lhe um sermão, explica-lhe que vinha para rezar e que não faz sentido cobrar dinheiro a quem queira entrar numa igreja para esse efeito. Depois vira costas e as duas saem. A senhora da mesa velha comenta com outra funcionária o incidente enquanto lhe estendo uma moeda de dois euros – afinal não vim para rezar.
domingo, 29 de setembro de 2013
O primeiro
Em pouco mais de duas horas, João Sousa quebrou dois recordes máximos do ténis português. Ao bater o francês Julien Benneteau (33.º mundial), Sousa conquistou um torneio do ATP World Tour e garantiu o melhor ranking de sempre para um tenista luso: 51.º.
Só vi a partir do terceiro set - não vi o match point salvo. Fiquei sobretudo impressionado com a forma como o João jogou os pontos importantes, sobre pressão. E foram várias as vezes que teve de defender o break no último set com unhas e dentes. O mais importante desta vitória é a subida no ranking e o bilhete para entrada directa nos torneios mais importantes. Ou seja, a hipótese para cimentar este resultado.
Só vi a partir do terceiro set - não vi o match point salvo. Fiquei sobretudo impressionado com a forma como o João jogou os pontos importantes, sobre pressão. E foram várias as vezes que teve de defender o break no último set com unhas e dentes. O mais importante desta vitória é a subida no ranking e o bilhete para entrada directa nos torneios mais importantes. Ou seja, a hipótese para cimentar este resultado.
sábado, 28 de setembro de 2013
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
Quem te manda
Entro na sala onde é servido o pequeno-almoço. Uma senhora à entrada vê-me e começa a soltar um good morning, que eu prontamente abafo com um triunfante dobry den. Ri-se um pouco e solta uma algaraviada à qual só consigo responder
Dobry den is all I know
(mentira, também sei dizer dakujem)
Ri-se ainda mais e pergunta-me em inglês qual é o número do meu quarto.
Dobry den is all I know
(mentira, também sei dizer dakujem)
Ri-se ainda mais e pergunta-me em inglês qual é o número do meu quarto.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
The Hungarian way IV
Alguém bate à porta.
Hi, I'm from reception. Check out is until eleven.
Deviam ser umas onze e meia, um quarto para o meio-dia. Pedi desculpa, pensava que era até ao meio-dia, vou só acabar de arrumar às tralhas e já saio.
That's ok, take your time, ok? Take ten minutes.
(...)
Cool.
Hi, I'm from reception. Check out is until eleven.
Deviam ser umas onze e meia, um quarto para o meio-dia. Pedi desculpa, pensava que era até ao meio-dia, vou só acabar de arrumar às tralhas e já saio.
That's ok, take your time, ok? Take ten minutes.
(...)
Cool.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
The Hungarian way III
Não parar nas passadeiras. De tal forma que os peões nem se atrevem a tentar atravessar quando está vermelho mas não há nenhum carro nas redondezas. Alemães mas por razões diferentes: temem pela vida e não por uma multa.
domingo, 22 de setembro de 2013
"Don't text or tweet during the show.
Just live your life, don't keep telling others what you're doing."
Louis C.K.
sábado, 21 de setembro de 2013
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Log
Actually, Captain Flume slept like a log most nights and merely dreamed he was awake. So convincing were these dreams of lying awake that he woke from them each morning in complete exhaustion and fell right back to sleep.
Catch-22, Joseph Heller
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Out of office assistant
Acabar as últimas coisas, pontas soltas. Briefar a chefe. Limpar a secretária. Arquivar (mandar para o lixo) coisas. Dizer adeus. Agradecer os desejos de boas férias. Sair de mãos a abanar.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Trela
Os chineses levam os pássaros a passear dentro das gaiolas. Este senhor de bigode farto passeia o pássaro (papagaio, arara, catatua?) sem gaiola: sai da porta do prédio com o bicho ao ombro, um cordel numa das patas não vá decidir-se por uma fuga. Atravessa a rua, senta-se na esplanada de um café. Ficam os dois à mesa, ele a beber uma cerveja, o bicho a trincar sementes.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Piropa-mos
Há uma certa confusão na discussão em torno do assunto do piropo que veio agora à baila e que está relacionada com a própria definição. Um piropo é suposto ser um galanteio, algo agradável. Ora isso não se coaduna de forma nenhuma com aquilo que vai designado por “poesia de andaime” – expressão que em si encerra um enorme estereótipo – e que é efectivamente o tipo de “piropo” que mais se ouve na rua. Parece-me relativamente óbvio que este tipo de abordagem não prima propriamente pela simpatia. Ainda assim, para quem não está totalmente convencido, basta atentar que ainda está para nascer a primeira senhora que, de tão lisonjeada, decida aceitar as propostas do cavalheiro e passar das palavras aos actos. Eu pelo menos nunca vi um final feliz do género. Tanto quanto me lembre nunca fui alvo de nenhum “piropo” (já piropo até me atreveria a dizer que sim) mas, daquilo que já ouvi dirigido a terceiros – perdão, terceiras –, não estou a ver que aceitasse caso fosse eu o visado – perdão, visada. E aqui é que está a questão: a poesia de andaime não tem como objectivo central conquistar a donzela a quem se destinam as quadras. A não ser que, dada a fraquíssima taxa de sucesso desta estratégia, queiramos admitir que nenhum dos poetas é capaz de perceber que vai a algum lado insistindo na mesma tecla, qual treinador que teima no mesmo onze perdedor.
domingo, 15 de setembro de 2013
Cara ou cara
«Ruizinho [Rui Costa], tu és o 10, eu sou o 10. Como é que vamos fazer isto? Moeda ao ar? - se ele aceitasse, já tinha comigo uma moeda com duas caras para lhe dar a escolher coroa e ficar com a camisola.»
El Portugués Parte II, Paulo Futre por Luís Aguilar
El Portugués Parte II, Paulo Futre por Luís Aguilar
sábado, 14 de setembro de 2013
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Da série invenções com utilidade
Atacadores de sapatos de vela que não seja preciso apertar várias vezes ao dia.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Nada como ganhar o Euromilhões sem sequer ter jogado
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Twenty something
Na fase em que falámos ainda não estava tão bêbeda como viria a ficar mais tarde – no final dessa noite, despediu-se de mim como os miúdos: com um beijo desajeitado que deixou a minha bochecha direita molhada – e saiu a porta literalmente a cambalear. Uns quantos bares antes desta saída pouco triunfal ficou ao meu lado e eu senti que os pints estavam a puxar para o sentimento. E de repente diz-me – nem foi bem dizer, foi mais confessar, como se tivesse cometido um crime inqualificável – que queria ser mãe. Que isso lhe passava pela cabeça cada vez mais. A língua entaramelada, a cabeça já pouco funcionava, falávamos meio em inglês meio em alemão – gabou-me a Aussprache. E eu perguntei-lhe se lhe podia fazer uma pergunta pessoal. Persönliche Frage. Estacou um pouco com a sensação do elevar da fasquia da seriedade. Que era falso, também tinha bebido uns pints. Na verdade só queria saber quantos anos tinha, e foi isso que lhe perguntei logo de seguida, assim que ela me deu autorização para a (falsa) pergunta pessoal. Vinte e oito. Achtundzwanzig ou twenty-eight. E qual é o espanto que te coloques essa questão? Naquele momento constatou verdadeiramente a sua idade.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
O aspecto físico não se alterou muito.
Não são os cabelos brancos e as rugas, não são alterações de peso ou limitações motoras. É claro que falta o cuidado, o aprumo, coisas que nos levam a ver e avaliar de outra forma. Mas mesmo isso é em grande parte devido a tudo o resto. Tudo o resto é tudo aquilo que tornou os passos, os movimentos, os gestos, hesitantes, titubeantes. Tudo aquilo que esvaziou os olhos, retirou-lhes o brilho: param por momentos, pairam por instantes a olhar mas não parecem ver. Não decifram. Não entendem. Fecharam-se sobre si próprios. Um casulo de cada vez mais difícil acesso até se tornar inexpugnável.
A morte em si deve ser uma coisa calma e pacífica. A forma como se chega até ela é que pode ser uma autêntica guerra.
A morte em si deve ser uma coisa calma e pacífica. A forma como se chega até ela é que pode ser uma autêntica guerra.
sábado, 7 de setembro de 2013
Saltar a tampa
Nos supermercados, nas lojas, as caixas registadoras normalmente abrem a tampa onde se esconde o dinheiro quando é efectuado um pagamento por cartão. O que acontece tipicamente nestas situações é que o funcionário, acto contínuo, fecha a tampa. Compreensível, é difícil imaginar uma situação em que seja preciso dar troco a alguém que pague com dinheiro plástico e a prática do cash back não está de todo no nosso vocabulário. E portanto, a questão que importa é: porque não programar as caixas para não fazerem este gesto aparentemente escusado?
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Miopia
«In other words, an information surplus may cause an attention deficit. An attention deficit is likely to lower the quality of decision-making. For cognitive psychologists, it is a disorder - one whose reported incidence has sky-rocketed over recent years. If short-term reactions are clouding long-term judgements, the doer crowding-out the planner, the immediate the important, then more hurry may be generating less speed.
This might be called the "information-rich-yet-attention-poor" property of connected webs. One manifestation is over-trading - over-trading in friends, partners, jobs, stocks. Perhaps that is why marriage rates have halved, and divorce rates doubled, in the UK since 1970; why the tenure of global CEOs has halved since 1995; and why holding periods for stocks have more than halved since 1980. For many key decisions, myopia has been mounting.»
Why institutions matter (more than ever), Andy Haldane
This might be called the "information-rich-yet-attention-poor" property of connected webs. One manifestation is over-trading - over-trading in friends, partners, jobs, stocks. Perhaps that is why marriage rates have halved, and divorce rates doubled, in the UK since 1970; why the tenure of global CEOs has halved since 1995; and why holding periods for stocks have more than halved since 1980. For many key decisions, myopia has been mounting.»
Why institutions matter (more than ever), Andy Haldane
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Backburner
Foi um curto silêncio, inesperado e, de repente, ele soube que a ia beijar e ela soube que o ia beijar. E então a única coisa que passou pela cabeça dela foi que tinha fumado. Sentiu-se mal por isso. Pediu-lhe desculpa. Ainda as palavras lhe estavam a acabar de sair da boca e já uma pequena vergonha a incomodava. Ele disse-lhe que não tinha problema enquanto avançava na direcção dela.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
domingo, 1 de setembro de 2013
O resto é ruído
«Tragically, Gershwin did not live to fulfil his entire vision. Not long before his sudden death in 1937, of a brain timor, he told his sister: "I don't feel I've really scratched the surface of what I want to do."»
The rest is noise, Alex Ross
The rest is noise, Alex Ross
sábado, 31 de agosto de 2013
Lisbon menina e moça
Se o toque de solteirona assenta bem com o resto da caracterização – uma certa aura de insegurança e na dedicação ao emprego –, então para gerar uma constante tensão com Jane vem mesmo a calhar, é ouro sobre azul. Uma tensão daquelas que se prologam ad eternum neste tipo de séries e que nos levam a querer que a certa altura aquilo se resolva da melhor forma (o que quer que seja que isso queira dizer).
O que é verdadeiramente interessante é que o fascínio dela por Jane não tem nada a ver com o facto de ele ser um homem fascinante – a irreverência e aquela coisa de ler e manipular pessoas, etc.. Não que essas características lhe sejam indesejáveis – ela gosta mesmo quando é ela própria vítima da manipulação.
Mas nada disso é tão importante como o facto de que um serial killer, que continua à solta (show must go on), arrumou a família toda do mentalista. Compreensivelmente (e, lá está, convenientemente para o guião) Jane vive obcecado com a captura do assassino. Dito de outra forma, Jane é damaged goods e isso assenta lindamente com a comiseração e o instinto (maternal?) da Lisbon.
O que é verdadeiramente interessante é que o fascínio dela por Jane não tem nada a ver com o facto de ele ser um homem fascinante – a irreverência e aquela coisa de ler e manipular pessoas, etc.. Não que essas características lhe sejam indesejáveis – ela gosta mesmo quando é ela própria vítima da manipulação.
Mas nada disso é tão importante como o facto de que um serial killer, que continua à solta (show must go on), arrumou a família toda do mentalista. Compreensivelmente (e, lá está, convenientemente para o guião) Jane vive obcecado com a captura do assassino. Dito de outra forma, Jane é damaged goods e isso assenta lindamente com a comiseração e o instinto (maternal?) da Lisbon.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
O corredor longo, escuro.
As portas azuis, sujas. As portas são iguais umas às outras, tanto dá abrir esta ou seguir pelo corredor e abrir antes aquela, lá dentro está a mesma secretária, o mesmo computador, a mesma pilha de papéis. Lá dentro – da porta azul escura, de qualquer das inúmeras portas azuis escuras – está a mesma pessoa. Não importa que porta se escolha, se abra, se entre. Qualquer das portas azuis escuras do corredor longo e sujo abre-se para o mesmo.
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Closure
O teu problema não é não teres um futuro, é não teres um passado.
terça-feira, 27 de agosto de 2013
Perspectiva
A janela está à altura da rua, a uns vinte centímetros do passeio. Tem talvez meio metro, é arredondada no topo. Às vezes passo e vejo a senhora lá em baixo, por entre o cortinado branco, a espreitar, de baixo para cima. A janela abre directamente para as pernas das pessoas que passam na rua. E esta a vista daquela janela, as pernas das pessoas que caminham lá em cima, na rua, no passeio.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Bicéfalo
O principal problema da maior parte das histórias de amor é a unilateralidade. O segundo maior problema é a bilateralidade.
domingo, 25 de agosto de 2013
Monotemático
«There’s so few things men can talk about. If a man doesn’t like baseball, then he must like horses, and if he doesn’t like either of them, well, I’m in trouble anyway: he don’t like girls.»
Breakfast at Tiffany’s, Truman Capote
Breakfast at Tiffany’s, Truman Capote
sábado, 24 de agosto de 2013
China, comércio externo e aquecimento global
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
Pontos de interrogação
Os espanhóis não são capazes de responder a nada ou ninguém sem contestar. Já os franceses e os italianos transformam uma simples pergunta numa demanda.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Num livro de crítica literária, este manifesto.
"Um dos Maiores et Cetera da Actualidade - Armando Mendes Fulano, um dos grandes expoentes da, promete ser o grande fenómeno do. Um dos maiores et cetera da actualidade. O melhor romance desde tal e tal, ou até mesmo desde não sei quando. Um «fresco», um «panorama», um «retrato cínico» da «sociedade contemporânea». Um estilo fortemente «marcado pela influência de» X, Y e Z. A escrita é «depurada». A imaginação é «fecunda». A trama é «compulsiva». A ironia é «fina». O humor é «corrosivo». Os diálogos são «acutilantes». A densidade é «psicológica». A obra é «notável». O autor é «exímio». O leitor é informado. O crítico pode ir para casa. Estamos todos de parabéns.
Nas suas piores manifestações, a recensão crítica encontrada na imprensa portuguesa não costuma fugir muito a isto."
Trabalhos de casa, Rogério Casanova
Nas suas piores manifestações, a recensão crítica encontrada na imprensa portuguesa não costuma fugir muito a isto."
Trabalhos de casa, Rogério Casanova
terça-feira, 20 de agosto de 2013
Venha o diabo e escolha
Era cleptomaníaco e agoráfobo. E então roubava à descarada com a esperança de ser apanhado e devidamente encarcerado.
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Propósito
«Nada é tão perigoso como teres cumprido todos os teus deveres do dia e ainda ser manhã, teres cumprido todos os teus deveres na vida e ainda não estares morto.»
Breves notas sobre o medo, Gonçalo M. Tavares
Breves notas sobre o medo, Gonçalo M. Tavares
domingo, 18 de agosto de 2013
Tenho um gosto especial pela personagem da Diane na série The Bridge.
E nem sequer é estético, pese embora a fotografia infra. Sonya é desprovida de qualquer tipo de social skills, não tem inteligência emocional – ocorre-me que é a primeira vez que diplomaticamente apelido alguém de burra emocional (não que já o tenha feito sem diplomacia alguma). Tem a sensibilidade de uma porta, a subtileza de um camião TIR. As pessoas são-lhe incompreensíveis, um autêntico mistério e ela própria consegue deixar os outros siderados, especados. Após a necessária adaptação inicial a alguém tão inadaptado, julgo que deve ser muito fácil, tão fácil lidar com uma Sonya. Porque a simplicidade, a incapacidade de tacto – de empatia? – torna-a antecipável como um relógio suíço. E genuína dos dedos dos pés à ponta dos cabelos, de uma forma que nenhum de nós, por muito que quisesse, conseguiria ser. Ao contrário de todos nós, Sonya vem acompanhada de um manual de instruções. A sua função pode é não ser aquela de que precisamos.
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