quinta-feira, 26 de março de 2020
quarta-feira, 25 de março de 2020
terça-feira, 24 de março de 2020
segunda-feira, 23 de março de 2020
Prisão domiciliária - 13º dia
O meu espírito autoritário (afinal existe) a vir ao de cima: aqueles que forem apanhados em incumprimento das normas excepcionais de isolamento deveriam ficar sem acesso a cuidados médicos, caso viessem a desenvolver a doença. O mesmo poderia ser aplicado aos adeptos do movimento anti-vacinas - mas não aos filhos não inoculados que, infelizmente, foram concebidos por pais irresponsáveis. Que muitas vezes são, ainda por cima, cobardes, porque, embora se recusem a vacinar os filhos, eles próprios foram vacinados.
domingo, 22 de março de 2020
Seguramente a vontade de Deus.
(Excepto a parte em que contribuem para espalhar ainda mais o vírus e ocupam camas de hospital que poderiam vir utilizadas por outros)
«"Vestindo uma máscara, um boné, luvas, uma túnica e óculos de proteção, os padres andam pelos corredores como zumbis"»
«"Vestindo uma máscara, um boné, luvas, uma túnica e óculos de proteção, os padres andam pelos corredores como zumbis"»
sábado, 21 de março de 2020
sexta-feira, 20 de março de 2020
Prisão domiciliária - 10º dia
Receio (ridículo) de, quando a vida voltar ao normal, acabar na rua, com um cartaz (ridículo) a anunciar abraços à borla, aos transeuntes (ridículos) que assim o desejem (ridiculamente).
quinta-feira, 19 de março de 2020
Ontem, o PCP absteve-se na votação do estado de emergência.
É irónico que o mesmo partido que, com este sentido de voto, expressa dúvidas em relação à necessidade de supressão de alguns direitos democráticos, por uma crise de saúde pública sem precedentes, seja aquele que teima em não reconhecer que a Coreia do Norte é uma ditadura. É também irónico que tenha decidido o mesmo que a Iniciativa Liberal (os Verdes não contam).
quarta-feira, 18 de março de 2020
terça-feira, 17 de março de 2020
domingo, 15 de março de 2020
Heebie Jeebies
Segundo reza a história, durante a sessão de gravação, a folha com a partitura do tema escorregou da estante que Louis Armstrong tinha à sua frente. Do outro lado do vidro, o tipo da editora fazia-lhe sinais para que continuasse a cantar (o tempo de estúdio era bastante caro) e Armstrong, naquele aperto, desenrascou a situação trauteando, da mesma forma que estava habituado a ouvir fazer. Foi assim que, durante a gravação deste Heebie Jeebies, nasceu aquilo que veio a ser conhecido como scat.
sábado, 14 de março de 2020
Prisão domiciliária - 3º dia
Os funcionários que, ontem, passaram grande parte do dia a cortar os ramos das árvores, não se fizeram sentir hoje. O ruído incómodo da moto-serra e da máquina que tritura os ramos foi substituído pelo som habitual som dos pássaros, por vezes as ambulâncias ao longe, e os sinos da igreja. Por falar na igreja, numa faixa enorme, colocada por cima da porta, lê-se "turned off". Mais ou menos como eu.
quinta-feira, 12 de março de 2020
Privilégio do direito
«You have the privilege of strength but I - I have the right of weakness! That's a moral absolute!»
Atlas shrugged, Ayn Rand
Atlas shrugged, Ayn Rand
quarta-feira, 11 de março de 2020
terça-feira, 10 de março de 2020
segunda-feira, 9 de março de 2020
domingo, 8 de março de 2020
sábado, 7 de março de 2020
Para quem está habituado a ter a sua, a ideia de ter de usar máquinas de lavar comunais não é muito confortável:
descer até à cave do prédio, com um saco cheio de roupa, um frasco de detergente e outro de amaciador; carregar a máquina, pô-la a andar; verificar as horas para saber quando vir buscar a trouxa, regressar ao apartamento; terminado o programa, descer novamente à cave para ir buscar a mesma trouxa no mesmo saco. Já para não dizer que, por vezes, é uma espécie de devassa da privacidade.
O outro impedimento que pode perturbar o processo é a possibilidade da utilização dos outros interferir com a nossa. Ou seja, chegar à cave e verificar que as duas máquinas estão a lavar a roupa de outrem. Pior: verificar que uma das máquinas já terminou, mas o dono ainda não veio tirar a respectiva roupa e desimpedir o aparelho. Em situações deste género, os mais experientes, pura e simplesmente, retiram a roupa alheia e tratam da sua vida (estou na categoria dos inexperientes). Aliás, é frequente deixarem os sacos à boca da máquina para, no caso de atrasos, quem está a seguir poder aí depositar o resultado da lavagem e não ficar à espera.
À primeira vista, duas máquinas de lavar para um prédio de quatro andares e quatro apartamentos por piso, pode parecer pouco. Mesmo que os apartamentos sejam, na sua maioria, de utilização individual. Na prática, as vezes que a minha utilização foi restringida pela de outros perfaz a módica quantia de zero. Ou utilizo os aparelhos a contra-ciclo dos outros, ou utilizo pouco os aparelhos (descarto a última hipótese).
Excesso de capacidade instalada, foi o que este exemplo me levou a pensar. A máquina de lavar de minha casa funciona umas horas por semana. Horas. Explorar esta possibilidade é o modelo de negócio das soluções de mobilidade urbana pagas por utilização ou tempo - carros, bicicletas, trotinetes.
O outro impedimento que pode perturbar o processo é a possibilidade da utilização dos outros interferir com a nossa. Ou seja, chegar à cave e verificar que as duas máquinas estão a lavar a roupa de outrem. Pior: verificar que uma das máquinas já terminou, mas o dono ainda não veio tirar a respectiva roupa e desimpedir o aparelho. Em situações deste género, os mais experientes, pura e simplesmente, retiram a roupa alheia e tratam da sua vida (estou na categoria dos inexperientes). Aliás, é frequente deixarem os sacos à boca da máquina para, no caso de atrasos, quem está a seguir poder aí depositar o resultado da lavagem e não ficar à espera.
À primeira vista, duas máquinas de lavar para um prédio de quatro andares e quatro apartamentos por piso, pode parecer pouco. Mesmo que os apartamentos sejam, na sua maioria, de utilização individual. Na prática, as vezes que a minha utilização foi restringida pela de outros perfaz a módica quantia de zero. Ou utilizo os aparelhos a contra-ciclo dos outros, ou utilizo pouco os aparelhos (descarto a última hipótese).
Excesso de capacidade instalada, foi o que este exemplo me levou a pensar. A máquina de lavar de minha casa funciona umas horas por semana. Horas. Explorar esta possibilidade é o modelo de negócio das soluções de mobilidade urbana pagas por utilização ou tempo - carros, bicicletas, trotinetes.
quinta-feira, 5 de março de 2020
Parte uma perna
No momento em que veio despedir-se, de partida para umas férias na montanha para aprender a fazer ski, disse-lhe break a leg. Só depois me apercebi que a expressão idiomática poderia ser interpretada de forma literal.
quarta-feira, 4 de março de 2020
Um pede o que ninguém quer dar; o outro oferece o que ninguém quer levar.
No caminho pedonal, entre a estação de comboio e o escritório, costuma estar, à direita, um pedinte, sentado no chão, com um cartaz de cartão ao peito, e uma boina na mão, de braço estendido. Dirige-se aos transeuntes em alemão. Certos dias, poucos metros mais à frente, do lado esquerdo, está uma (estranhamente só uma) testemunha de Jeová (masculina), que tenta meter conversa, em inglês. Costuma estar acompanhado de um escaparate repleto de literatura e tem sempre uma publicação na mão, de braço estendido.
terça-feira, 3 de março de 2020
segunda-feira, 2 de março de 2020
domingo, 1 de março de 2020
Já faltou mais
Todos os dias à espera para saber se é desta que me dizem para ficar em casa a trabalhar.
sábado, 29 de fevereiro de 2020
Mainzer Landstraße
Há um considerável número de edifícios degradados e uma sujidade que não se vê nas ruas doutras zonas. Aqui, nas imediações da estação central, porta sim, porta não, vêem-se as luzes de neon a anunciar espectáculos de strip, peep shows, lojas de sexo. Em alguns casos, com quartos para aluguer, com as respectivas comodidades descritas à entrada (discrição, casa-de-banho particular, etc). As restantes portas abrem para casas de jogo, onde se pode fazer apostas em todo o tipo de eventos desportivos.
São vários os locais onde o cheiro a mijo é pronunciado. Sem-abrigo encolhem-se a um canto para se proteger do frio, cobertos por trapos ou, mesmo, enfiados em sacos-cama. Outros passam a pente fino os caixotes do lixo, vasculhando avidamente. Por vezes, o cheiro a mijo é substituído pelo da cannabis. Pelo meio da constante e intensa presença policial, estão toxicodependentes a consumir. Há um grupo, em particular, que se junta debaixo de um andaime de um prédio em obras: abrigam-se da chuva enquanto aspiram, com pequenos tubos plásticos, o fumo que resulta de aquecer um pequeno pedaço de papel de alumínio com um isqueiro.
O conjunto de ruas - talvez umas duas paralelas e algumas perpendiculares - está ensanduichado entre a Kaiserstraße, a sul, e a norte, a Mainzer Landstraße, umas maiores avenidas da cidade. Duas faixas para cada lado que, para além de permitir uma deslocação mais rápida do trânsito de este a oeste da cidade, aqui, funcionam também como uma espécie de fronteira: do outro lado desta avenida está o bairro do Westend, um dos mais afluentes da cidade. É sobretudo local de habitação, embora também existam algumas torres de escritórios, sobretudo de actividades financeiras, ao longo da Mainzer. O contraste é gritante: aqui as casas e os prédios arranjados, alguns de traça histórica, por vezes com pequenos jardins, albergam as classes mais privilegiadas.
São vários os locais onde o cheiro a mijo é pronunciado. Sem-abrigo encolhem-se a um canto para se proteger do frio, cobertos por trapos ou, mesmo, enfiados em sacos-cama. Outros passam a pente fino os caixotes do lixo, vasculhando avidamente. Por vezes, o cheiro a mijo é substituído pelo da cannabis. Pelo meio da constante e intensa presença policial, estão toxicodependentes a consumir. Há um grupo, em particular, que se junta debaixo de um andaime de um prédio em obras: abrigam-se da chuva enquanto aspiram, com pequenos tubos plásticos, o fumo que resulta de aquecer um pequeno pedaço de papel de alumínio com um isqueiro.
O conjunto de ruas - talvez umas duas paralelas e algumas perpendiculares - está ensanduichado entre a Kaiserstraße, a sul, e a norte, a Mainzer Landstraße, umas maiores avenidas da cidade. Duas faixas para cada lado que, para além de permitir uma deslocação mais rápida do trânsito de este a oeste da cidade, aqui, funcionam também como uma espécie de fronteira: do outro lado desta avenida está o bairro do Westend, um dos mais afluentes da cidade. É sobretudo local de habitação, embora também existam algumas torres de escritórios, sobretudo de actividades financeiras, ao longo da Mainzer. O contraste é gritante: aqui as casas e os prédios arranjados, alguns de traça histórica, por vezes com pequenos jardins, albergam as classes mais privilegiadas.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020
Neve de pouca dura
Sem dizer água vai, os flocos começaram a cair ao final da tarde. Arruinaram a visita guiada, marcada há uns dias, que envolvia uma componente exterior. Está frio - vá, algum frio - mas não o suficiente: a neve rapidamente derrete no chão escorregadio. Dizem-me que já há vários anos não há um inverno a sério e, de facto, ainda não senti necessidade de andar de luvas e gorro, instrumentos que recordava como altamente indispensáveis, em certas alturas, nem que fosse para andar apenas alguns metros e estar exposto aos elementos por um período bastante curto de tempo. Estão ali no quarto, em cima de um armário.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020
A crise do Serviço Nacional de Saúde
domingo, 23 de fevereiro de 2020
Ride like lightning, crash like thunder
Nao deixa de ser irónico ver um cartaz da CDU com uma imagem do Schäuble.
sábado, 22 de fevereiro de 2020
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020
terça-feira, 18 de fevereiro de 2020
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020
domingo, 16 de fevereiro de 2020
Endogeneidade
A cebola cortou-se acidentalmente e, acto contínuo, sentiu um ardor nos olhos e começou a lacrimejar.
sábado, 15 de fevereiro de 2020
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
Não admira que a circulação seja, amiúde, caótica:
investiu-se fortemente na construção de artérias rodoviárias mas literalmente nada em veias.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020
O corredor de janelas, dividido por uma varanda, percorre praticamente toda a parede externa.
Está virado sensivelmente a poente, a descair um bocadito no sentido sudoeste. Espreita sobre o interior do quarteirão. Para além das casas, construções de baixa altura, das árvores, há uma espécie de logradouro interior, um local com alguns lugares de estacionamento. Ao fundo, três ou quatro dos arranha-céus mais emblemáticos, preenchem o horizonte. Da confusão de uma das principais artérias rodoviárias, mesmo ali ao lado, apenas aqui chega um apagado som do barulho estridente das ambulâncias ou veículos da polícia. O que se ouve verdadeiramente bem - até demais, diga-se de passagem - são os corvos e, ao sábado à tarde e domingo de manhã, os sinos da igreja um pouco ao lado, a chamar os crentes para a missa. De resto, só se ouve o vento, quando sopra, e o sossego.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
Pessoas que fecham as mochilas com os fechos a encontrarem-se algures a meio do trajecto.
Já eu encosto sempre a um dos lados.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2020
Depois de todo este tempo, já não há muita coisa tua.
Coisas mais físicas ou palpáveis; as memórias agarram-se como lapas, com uma viscosidade que demora a descolar. Há uma que sobreviveu e que, apesar de um hiato, tem uma presença recorrente: um album cujos ficheiros mp3 me passaste. Foi transitando de computador em computador e, em momentos em que a colecção de volumes musicais não está disponível (essencialmente, viagens e desterros), tem sempre um espaço reservado. E é curioso como, progressivamente, foi ganhando um distanciamento cada vez maior. Ao ponto de, agora, é como se este conjunto de ficheiros mp3 já fosse meu, num sentido mais lato que este pronome possessivo normalmente tem.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020
É inevitável a sensação de déjà vu, salpicada de novidades aqui e ali.
Prédios e construções que não existiam na altura. Alguns que estavam em construção e agora já são maiores e vacinados. Talvez esta seja a maior marca, a que mais facilmente salta à vista. Às vezes, até elementos e pormenores que já existiam e nos quais nunca tinha reparado e agora parecem tão evidentes e quase incontornáveis. Outros que passaram a existir pelas vicissitudes e motivos de forma maior: os vários blocos enormes de cimento, colocados de forma a bloquear a entrada de veículos em zonas pedonais. Mas a maior novidade seguramente advém das coisas mais simples: viver num bairro diferente e trabalhar noutra localização. Esta diferença torna, passo a redundância, tudo diferente.
domingo, 9 de fevereiro de 2020
Self-loathing
«His desire for her had died in the first week of their marriage. What remained was only a need which he was unable to destroy. He had never entered a whorehouse; he thought, at times, that the self-loathing he would experience there could be no worse than what he felt when he was driven to enter his wife’s bedroom.
He would often find her reading a book. She would put it aside, with a white ribbon to mark the pages. When he lay exhausted, his eyes closed, still breathing in gasps, she would turn on the light, pick up the book and continue the reading.
He told himself that he deserved the torture, because he had whished never to touch her again and was unable to maintain his decision. He despised himself for that. He despised a need which now held no shred of joy or meaning, which had become the mere need of a woman’s body, an anonymous body that belonged to a woman whom he had to forget while he held it. He became convinced that the need was depravity.»
Atlas shrugged, Ayn Rand
He would often find her reading a book. She would put it aside, with a white ribbon to mark the pages. When he lay exhausted, his eyes closed, still breathing in gasps, she would turn on the light, pick up the book and continue the reading.
He told himself that he deserved the torture, because he had whished never to touch her again and was unable to maintain his decision. He despised himself for that. He despised a need which now held no shred of joy or meaning, which had become the mere need of a woman’s body, an anonymous body that belonged to a woman whom he had to forget while he held it. He became convinced that the need was depravity.»
Atlas shrugged, Ayn Rand
terça-feira, 4 de fevereiro de 2020
A sabedoria popular é, normalmente, inequívoca.
Não deixa grande margem para dúvidas. Não há, tanto quanto sei, um equivalente a "deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer" que admita a possibilidade de que deitar tarde e acordar tarde possa ser salutar. "Quem ri por último ri (de facto) melhor". E "não adianta (mesmo) chorar sobre leite derramado". Em alguns casos, até há mais do que um provérbio para vincar a mesma ideia. Por exemplo, "quem anda à chuva molha-se" e "quem brinca com o fogo queima-se" (ou molha a cama).
Mas há também os casos estranhos de provérbios que se contradizem: "quem espera sempre alcança" vs "quem espera desespera" e "quem não chora não mama" vs "ovelha que berra, bocado que perde".
Associo-me à indecisão destes dois exemplos; não sou dos que questionam em que é nos ficamos. Quantas vezes é preciso saber esperar pelo momento correcto mas quantas vezes a espera é infrutífera porque o momento nunca vem. E quantas vezes é preciso fazer barulho e partir para a guerra e quantas vezes o tiro sai pela culatra e a emenda é pior que o soneto.
Conseguir equilibrar e atingir a proporção exacta dos dois é a grande dificuldade.
Mas há também os casos estranhos de provérbios que se contradizem: "quem espera sempre alcança" vs "quem espera desespera" e "quem não chora não mama" vs "ovelha que berra, bocado que perde".
Associo-me à indecisão destes dois exemplos; não sou dos que questionam em que é nos ficamos. Quantas vezes é preciso saber esperar pelo momento correcto mas quantas vezes a espera é infrutífera porque o momento nunca vem. E quantas vezes é preciso fazer barulho e partir para a guerra e quantas vezes o tiro sai pela culatra e a emenda é pior que o soneto.
Conseguir equilibrar e atingir a proporção exacta dos dois é a grande dificuldade.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
quarta-feira, 29 de janeiro de 2020
Autismo testosterónico
«É difícil falar com algumas pessoas; a maior parte das vezes com homens. Tenho uma Teoria sobre o assunto. Muitos homens, com a idade, caem num autismo testosterónico que se manifesta no lento desaparecimento da inteligência social e da capacidade de comunicar com outras pessoas, o que também afecta a faculdade de formular pensamento. Acometido por esta Maleita, o Homem torna-se taciturno e parece mergulhar em profunda meditação. Interessa-se mais por diversos Utensílios e maquinetas. Sente-se mais atraído pela Segunda Guerra Mundial e pelas biografias de pessoas conhecidas, particularmente de políticos e malfeitores. A sua capacidade de ler romances desaparece quase completamente; o autismo testosterónico perturba o entendimento psicológico das personagens.»
Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos, Olga Tokarczuk
Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos, Olga Tokarczuk
segunda-feira, 27 de janeiro de 2020
A depressão de final de férias começou lentamente a instalar-se.
Faltava agora apenas o trajecto do Etosha até Windhoek para terminar a viagem. Pelo caminho, tínhamos uma noite no parque de Waterberg. Dos quartos do sopé da estrutura que forma o planalto ouvia-se constantemente os barulhos agressivos dos macacos, que nos obrigavam a ter as portas e janelas constantemente fechadas para evitar invasões e roubos.
Mais perto do final da tarde, depois da hora de maior intensidade do calor passar, fazemos o trajecto de de 30-40 minutos até ao topo do planalto, de cima do qual a vista para não abarcar o horizonte todo. A sessão de fotografias é intensa. À noite, fazemos um churrasco nas instalações do lodge e sentamo-nos a ouvir, pela última vez, as histórias do Gibson. No dia seguinte, pela hora de almoço, estamos de novo no hotel em Windhoek, prontos para as despedidas.
Mais perto do final da tarde, depois da hora de maior intensidade do calor passar, fazemos o trajecto de de 30-40 minutos até ao topo do planalto, de cima do qual a vista para não abarcar o horizonte todo. A sessão de fotografias é intensa. À noite, fazemos um churrasco nas instalações do lodge e sentamo-nos a ouvir, pela última vez, as histórias do Gibson. No dia seguinte, pela hora de almoço, estamos de novo no hotel em Windhoek, prontos para as despedidas.
domingo, 26 de janeiro de 2020
Depois de uma primeira tarde de game drive no Etosha desapontante, notava-se alguma apreensão nas caras, quando nos preparávamos para sair.
Pela frente estava um dia totalmente dedicado a ver bicharada no parque, das sete da manhã às seis da tarde, para aproveitar a extensão total do horário de abertura.
A apreensão foi desfeita não muito depois quando nos dirigimos até um aglomerado de veículos. Não sabíamos o que estariam a ver, apenas que certamente seria algo interessante: um conjunto de leões. Sem possibilidade de obter um bom posicionamento – por sermos dos últimos a chegar e pela dimensão do Elefante – optámos por tentar seguir um primeiro subgrupo, que abandonou a sombra da árvore e começou a caminhar.
Lá mais à frente, parados na estrada a ver os leões a afastar-se por terreno sem acesso aos veículos, tivemos a primeira tirada de sorte do dia: as duas leoas que tinham ficado para trás na árvore, levantaram-se e começaram a caminhar em direcção ao resto do grupo, no preciso momento em que estávamos parados entre os dois grupos. Lentamente, languidamente, vieram na nossa direcção, passaram mesmo ao lado do Elefante, uma deitou-se à sombra do veículo, até novamente se levantar e se afastar. Com isto, tivemos todo o tempo para apreciar e tirar uma dose industrial de fotografias, tentando que a excitação do momento não fizesse esquecer as instruções do Gibson de não pôr os braços de fora das janelas do camião.
O momento alto (mais ainda) viria ao início da tarde, quando avistámos uma chita com duas crias, abrigados à exígua sombra de uma árvore. Permanecemos parados algum tempo, a tentar observar por entra aquilo que a vegetação nos deixava ver. Até que o barulho de uma máquina, que passou no sentido contrário, foi a última gota: assustadas, as crias levantaram-se e começaram a afastar-se da mãe. Se, por um lado, perdemos a possibilidade de ver durante mais tempos os animais, por outro lado conseguimos vê-los sem a barreira da árvore e dos ramos.
A terminar o dia, uma manada de elefantes aproxima-se de um charco. Começam por beber, à beira da água. Após satisfazer a sede, vão progressivamente entrando na água, aproveitando para arrefecer o corpo do calor implacável. Cresce-nos um sorriso na cara enquanto os vemos salpicar água pelo corpo com a tromba.
A apreensão foi desfeita não muito depois quando nos dirigimos até um aglomerado de veículos. Não sabíamos o que estariam a ver, apenas que certamente seria algo interessante: um conjunto de leões. Sem possibilidade de obter um bom posicionamento – por sermos dos últimos a chegar e pela dimensão do Elefante – optámos por tentar seguir um primeiro subgrupo, que abandonou a sombra da árvore e começou a caminhar.
Lá mais à frente, parados na estrada a ver os leões a afastar-se por terreno sem acesso aos veículos, tivemos a primeira tirada de sorte do dia: as duas leoas que tinham ficado para trás na árvore, levantaram-se e começaram a caminhar em direcção ao resto do grupo, no preciso momento em que estávamos parados entre os dois grupos. Lentamente, languidamente, vieram na nossa direcção, passaram mesmo ao lado do Elefante, uma deitou-se à sombra do veículo, até novamente se levantar e se afastar. Com isto, tivemos todo o tempo para apreciar e tirar uma dose industrial de fotografias, tentando que a excitação do momento não fizesse esquecer as instruções do Gibson de não pôr os braços de fora das janelas do camião.
O momento alto (mais ainda) viria ao início da tarde, quando avistámos uma chita com duas crias, abrigados à exígua sombra de uma árvore. Permanecemos parados algum tempo, a tentar observar por entra aquilo que a vegetação nos deixava ver. Até que o barulho de uma máquina, que passou no sentido contrário, foi a última gota: assustadas, as crias levantaram-se e começaram a afastar-se da mãe. Se, por um lado, perdemos a possibilidade de ver durante mais tempos os animais, por outro lado conseguimos vê-los sem a barreira da árvore e dos ramos.
A terminar o dia, uma manada de elefantes aproxima-se de um charco. Começam por beber, à beira da água. Após satisfazer a sede, vão progressivamente entrando na água, aproveitando para arrefecer o corpo do calor implacável. Cresce-nos um sorriso na cara enquanto os vemos salpicar água pelo corpo com a tromba.
sábado, 25 de janeiro de 2020
O dono do lodge – um afrikaanse magro e grisalho – sobe as escadas do Elefante e dá-nos algumas informações.
Explica-nos que os quartos ficam naturalmente muito quentes quando estão fechados e que não há ar-condicionado. Para dormir, podemos abrir todas as janelas à vontade, nenhum animal vai entrar e não há mosquitos. É como se estivéssemos a dormir ao relento. É recebido com algum cepticismo. Mas, claro, resolvemos testar.
Cada quarto é como uma pequena habitação individual, separado alguns metros dos restantes. A parede onde fica a porta, e onde estão as camas, é a única que não tem janela. À direita das camas, um janelão abre de cima a baixo, a quase totalidade da largura do quarto, para um pequeno terraço, com uma mesa e cadeiras cheias de pó. De frente para as camas, outra parede que é também praticamente só vidro. Finalmente, a parede do fundo tem duas pequenas janelas, entre as divisões que têm o chuveiro e a sanita. No meio das janelas está um lavatório.
Tal como nos havia sido dito, as zebras começam a aparecer ao lusco-fusco, lá ao fundo. Aproximam-se lentamente, dão alguns passos na direcção do buraco de água e param. Esperam um pouco, avaliam a situação, até voltar a ganhar coragem para dar mais outros passos e parar novamente. Sentamo-nos a ver esta aproximação. Torço para que se despachem, é cada vez mais difícil tirar fotografias à medida que a luz vai desaparecendo. Ao mesmo tempo, um cão pequenito e velhote, constantemente a arfar e com uma espécie de carraças a percorrer o lombo, dá voltas consecutivas à propriedade. Surge sempre pela mesma janela da zona do bar e segue pela direita para, passado um pouco, aparecer novamente pela mesma janela, como se estivesse preso numa espécie de Groundhog Day de frequência superior à diária.
Sentamo-nos no terraço a ver as estrelas e as zebras a beber água lá à frente. Embora houvesse um em praticamente todas as camas que passamos, esta foi a única vez na viagem que usei um edredon. Soube bem voltar a dormir tapado. De manhã vemos o nascer do sol.
Cada quarto é como uma pequena habitação individual, separado alguns metros dos restantes. A parede onde fica a porta, e onde estão as camas, é a única que não tem janela. À direita das camas, um janelão abre de cima a baixo, a quase totalidade da largura do quarto, para um pequeno terraço, com uma mesa e cadeiras cheias de pó. De frente para as camas, outra parede que é também praticamente só vidro. Finalmente, a parede do fundo tem duas pequenas janelas, entre as divisões que têm o chuveiro e a sanita. No meio das janelas está um lavatório.
Tal como nos havia sido dito, as zebras começam a aparecer ao lusco-fusco, lá ao fundo. Aproximam-se lentamente, dão alguns passos na direcção do buraco de água e param. Esperam um pouco, avaliam a situação, até voltar a ganhar coragem para dar mais outros passos e parar novamente. Sentamo-nos a ver esta aproximação. Torço para que se despachem, é cada vez mais difícil tirar fotografias à medida que a luz vai desaparecendo. Ao mesmo tempo, um cão pequenito e velhote, constantemente a arfar e com uma espécie de carraças a percorrer o lombo, dá voltas consecutivas à propriedade. Surge sempre pela mesma janela da zona do bar e segue pela direita para, passado um pouco, aparecer novamente pela mesma janela, como se estivesse preso numa espécie de Groundhog Day de frequência superior à diária.
Sentamo-nos no terraço a ver as estrelas e as zebras a beber água lá à frente. Embora houvesse um em praticamente todas as camas que passamos, esta foi a única vez na viagem que usei um edredon. Soube bem voltar a dormir tapado. De manhã vemos o nascer do sol.
O dia começa muito cedo, pelas 6h saímos em direcção à Sossusvlei, por forma a evitar a hora de maior calor.
Ironia do destino, acabamos por perder tempo precioso: o Elefante foi vítima de um furo. Quando passámos o portão que dá acesso ao parque, já deveria passar das 11h. A longa e direita estrada corta por uma paisagem de elevações enormes de areia de um cor-de-laranja forte e carregado, que contrasta fortemente com o azul do céu.
A certa altura, a estrada é tomada pela areia e é necessário deixar os veículos num parque, a alguma distância, e apanhar um dos jeeps. A fila de turistas à espera é relativamente grande. Aliás, de todas as atracções turísticas, esta foi a mais concorrida. Esperamos ainda alguns minutos até finalmente ser conduzidos.
À nossa frente está o Big Daddy, uma duna com sensivelmente 325 metros de altura. A estrutura é impressionante: começa do lado direito, por uma pequena elevação, que decai um pouco passados alguns metros, perpendicularmente face ao nosso olhar; depois volta a subir novamente, faz uma viragem à direita quando já está à esquerda do nosso olhar, e continua ininterruptamente até mesmo lá em cima, ao topo, quase a perder de vista.
A maior parte dos aventureiros começa exactamente pelo lado direito, apanhando uma cumeada que percorre todo aquele trajecto. Gibson não considera essa estratégia avisada: segundo ele, são muitos os que, depois de fazer a pequena descida após a primeira elevação, desmoralizam quando vêem a segunda subida, bem mais longa e íngreme. Para evitar este problema, seguimo-lo pelo vale até chegar perto ao local onde a duna atinge o ponto mais baixo, após a primeira elevação. Aí, subimos a face da duna, a parte mais dura de todo o processo, até atingir a cumeada. A partir daí, não tem nada que saber, é sempre a subir. Uma vez chegado ao cume, é preciso fazer alguma ginástica para alcançar os melhores locais, contornado os restantes que ali apreciam a vista e aproveitam o ar mais fresco e a brisa ligeira.
A parte mais curiosa é a descida. Vemos o Gibson sair disparado pela face da duna até chegar ao vale. Resolvemos lançar-nos também com velocidade. Os pés enterram-se na areia áspera, que evita que percamos o balanço e caiamos a face inclinada. Com o movimento, os pés soltam um som grave, que já havíamos ouvido no topo da duna, mas que não percebíamos donde vinha. Quase apetece fazer o esforço de subir novamente para repetir a descida. Uma vez no vale, descalçamo-nos e sacudidos violentamente os ténis para tirar os quilos de areia. Semanas depois, já em Lisboa, ainda descobri areia nos ténis.
A certa altura, a estrada é tomada pela areia e é necessário deixar os veículos num parque, a alguma distância, e apanhar um dos jeeps. A fila de turistas à espera é relativamente grande. Aliás, de todas as atracções turísticas, esta foi a mais concorrida. Esperamos ainda alguns minutos até finalmente ser conduzidos.
À nossa frente está o Big Daddy, uma duna com sensivelmente 325 metros de altura. A estrutura é impressionante: começa do lado direito, por uma pequena elevação, que decai um pouco passados alguns metros, perpendicularmente face ao nosso olhar; depois volta a subir novamente, faz uma viragem à direita quando já está à esquerda do nosso olhar, e continua ininterruptamente até mesmo lá em cima, ao topo, quase a perder de vista.
A maior parte dos aventureiros começa exactamente pelo lado direito, apanhando uma cumeada que percorre todo aquele trajecto. Gibson não considera essa estratégia avisada: segundo ele, são muitos os que, depois de fazer a pequena descida após a primeira elevação, desmoralizam quando vêem a segunda subida, bem mais longa e íngreme. Para evitar este problema, seguimo-lo pelo vale até chegar perto ao local onde a duna atinge o ponto mais baixo, após a primeira elevação. Aí, subimos a face da duna, a parte mais dura de todo o processo, até atingir a cumeada. A partir daí, não tem nada que saber, é sempre a subir. Uma vez chegado ao cume, é preciso fazer alguma ginástica para alcançar os melhores locais, contornado os restantes que ali apreciam a vista e aproveitam o ar mais fresco e a brisa ligeira.
A parte mais curiosa é a descida. Vemos o Gibson sair disparado pela face da duna até chegar ao vale. Resolvemos lançar-nos também com velocidade. Os pés enterram-se na areia áspera, que evita que percamos o balanço e caiamos a face inclinada. Com o movimento, os pés soltam um som grave, que já havíamos ouvido no topo da duna, mas que não percebíamos donde vinha. Quase apetece fazer o esforço de subir novamente para repetir a descida. Uma vez no vale, descalçamo-nos e sacudidos violentamente os ténis para tirar os quilos de areia. Semanas depois, já em Lisboa, ainda descobri areia nos ténis.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
Uns minutos depois da pequena casa que serve de recepção, começamos a ver o lodge ao fundo do caminho de terra, na encosta de um pequeno monte rochoso.
São apenas seis quartos e, no meio, uma divisão comum, com uma cozinha, uma mesa comprida e sofás. Em frente a esta divisão comum, a piscina da praxe, virada para o buraco da praxe, a fazer de chamariz para os animais da praxe. Claro está, não há internet nem televisores mas, mais do que isso, nem sequer rede de telemóvel. Numa das noites, a electricidade falha e complica a vida ao grupo de funcionários que ali se deslocou para nos preparar o jantar.
Este foi o momento de ripanço da viagem, sensivelmente a meio dos 16 dias. No final do dia em que chegámos, caminhámos até ao topo do monte ao lado, para ver o pôr-do-sol e lutámos um pouco na descida escorregadia e pouco iluminada. No dia seguinte, saímos de manhã cedo para um passeio, antes do sol se tornar ainda mais impiedoso. A meio da manhã estávamos de regresso para o pequeno-almoço. À noite, depois de jantar, deitámo-nos na espreguiçadeira a contemplar o céu estrelado e a contar as estrelas cadentes.
Este foi o momento de ripanço da viagem, sensivelmente a meio dos 16 dias. No final do dia em que chegámos, caminhámos até ao topo do monte ao lado, para ver o pôr-do-sol e lutámos um pouco na descida escorregadia e pouco iluminada. No dia seguinte, saímos de manhã cedo para um passeio, antes do sol se tornar ainda mais impiedoso. A meio da manhã estávamos de regresso para o pequeno-almoço. À noite, depois de jantar, deitámo-nos na espreguiçadeira a contemplar o céu estrelado e a contar as estrelas cadentes.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2020
Parece o cenário de um filme, um pequeno casario espalhado no meio da areia.
Por momentos, leva-me até aos estúdios de cinema que se podem visitar em Marrocos. Mas, contrariamente a essas localidades fictícias que só tiveram existência em filmes, Kolmanskop foi efectivamente, a determinada altura, uma povoação. Fundada no início do século passado, esteve associada à exploração de diamantes no deserto. Após a segunda guerra mundial, a progressiva escassez de diamantes levou a que fosse trocada e abandonada por outros locais onde, entretanto, foram descobertos minérios.
Hoje, a cidade-fantasma a poucos quilómetros da costa é uma atracção turística. Guias exprimindo-se em inglês, alemão e afrikaanse, conduzem rebanhos de turistas pelas antigas construções. Começando no salão de baile – onde o guia de língua inglesa nos mostra a acústica com uma interpretação do “Aleluia”, versão Jeff Buckley, e tocando piano – passamos pelo hospital, pela loja, pela casa do engenheiro, do médico, do governador, entre outros. Para um povoado que contou com algumas centenas de habitantes, há um conjunto de equipamentos relativamente impressionantes, a começar pela máquina de gelo e a pista de bowling, e terminando na máquina de raio-X, a primeira no hemisfério sul.
Pouco tempo antes de ali estarmos, o local foi utilizado para uma sessão fotográfica de moda. A particularidade do local tem atraído, ao longo do tempo, a atenção de fotógrafos e não só. A mais recente alusão ao local é a imagem da capa do álbum Slow Rush dos Tame Impala, cuja divulgação está agendada para o próximo mês.
Hoje, a cidade-fantasma a poucos quilómetros da costa é uma atracção turística. Guias exprimindo-se em inglês, alemão e afrikaanse, conduzem rebanhos de turistas pelas antigas construções. Começando no salão de baile – onde o guia de língua inglesa nos mostra a acústica com uma interpretação do “Aleluia”, versão Jeff Buckley, e tocando piano – passamos pelo hospital, pela loja, pela casa do engenheiro, do médico, do governador, entre outros. Para um povoado que contou com algumas centenas de habitantes, há um conjunto de equipamentos relativamente impressionantes, a começar pela máquina de gelo e a pista de bowling, e terminando na máquina de raio-X, a primeira no hemisfério sul.
Pouco tempo antes de ali estarmos, o local foi utilizado para uma sessão fotográfica de moda. A particularidade do local tem atraído, ao longo do tempo, a atenção de fotógrafos e não só. A mais recente alusão ao local é a imagem da capa do álbum Slow Rush dos Tame Impala, cuja divulgação está agendada para o próximo mês.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2020
O dia seguinte traz-nos uma das deslocações mais longas.
São quase 600 quilómetros de estrada, por vezes duvidosa, até perto da fronteira com a África do Sul. Estamos em pleno deserto do Kalahari que, como ficamos a saber, afinal é apenas um semi-deserto, já que o nível de pluviosidade é um pouco superior ao dos desertos a sério. Até nos desertos há discriminação.
Fazemos um pequeno passeio até ao topo de uma elevação, onde foi instalada uma plataforma de observação. Dali vemos o pôr-do-sol, bombardeados pelo vento que, lá em baixo, faz pequenos tornados, de curta duração, com o pó. Descemos e aproveitamos a pequena piscina, de água um pouco salgada do (semi-)deserto, virada para o buraco de água onde os springboks e os órix abastecem. Não o sabemos ainda nesta fase, mas a piscina virada para o chamariz dos animais vai ser uma constante desta viagem. À noite, bebemos chá rooibos nas cadeiras da rua, a partilhar um cigarro, repletos de repelente de mosquitos.
Fazemos um pequeno passeio até ao topo de uma elevação, onde foi instalada uma plataforma de observação. Dali vemos o pôr-do-sol, bombardeados pelo vento que, lá em baixo, faz pequenos tornados, de curta duração, com o pó. Descemos e aproveitamos a pequena piscina, de água um pouco salgada do (semi-)deserto, virada para o buraco de água onde os springboks e os órix abastecem. Não o sabemos ainda nesta fase, mas a piscina virada para o chamariz dos animais vai ser uma constante desta viagem. À noite, bebemos chá rooibos nas cadeiras da rua, a partilhar um cigarro, repletos de repelente de mosquitos.
terça-feira, 21 de janeiro de 2020
Gibson chama Elefante ao camião.
Parece um daqueles camiões de abastecimento dos supermercados com a diferença de, onde normalmente está a caixa frigorífica onde vão os alimentos, foi colocada uma vintena de bancos. As janelas do veículo são enormes o que, aliado à própria altura, torna o veículo num óptimo posto de observação.
Ao fundo, há um conjunto de cacifos onde guardamos os sacos de viagem e um frigorífico que mantém a nossa água e alimentos frescos enquanto o motor está a funcionar. A entrada faz-se por uma porta que, quando abre, desdobra umas escadas metálicas, ao estilo dos aviões. De lado, o Elefante tem ainda um conjunto de estruturas amovíveis, que abrem utensílios para fazer e servir refeições.
Ao fundo, há um conjunto de cacifos onde guardamos os sacos de viagem e um frigorífico que mantém a nossa água e alimentos frescos enquanto o motor está a funcionar. A entrada faz-se por uma porta que, quando abre, desdobra umas escadas metálicas, ao estilo dos aviões. De lado, o Elefante tem ainda um conjunto de estruturas amovíveis, que abrem utensílios para fazer e servir refeições.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2020
A visita a Windhoek é necessariamente curta:
a cidade é pequena e não tem propriamente muitos pontos de interesse turístico. Para além de Gibson, o guia com nome de guitarra que andará connosco 15 dias, somos acompanhados por um guia local, um miúdo novo que, se bem me lembro, tinha acabado um curso superior em marketing.
This is my brother from another mother
Assim o apresenta Gibson, uma frase de antologia que vamos ouvir (e dizer) inúmeras vezes ao longo dos tais 15 dias.
Depois de uma visita ao museu que conta a história do colonização e independência da Namíbia, somos conduzidos até à township de Katutura. Gibson pára o camião à beira de uma pequena encosta e o guia novo enfia-se pela abertura entre a cabine do camião e a caixa onde estamos para falar connosco mais facilmente
This is where people come when nature calls
E aí percebo que aquilo que vejo são pedaços de papel higiénico que abanam ao sabor do vento. E ele sabe bem do que fala, ele próprio é de Katutura e já usou estas instalações.
Uma canalha de miúdos vê os turistas dentro do camião e tenta interagir. Não temos, porém, autorização para sair da fortaleza sobre rodas por razões de segurança (you never know). Ainda não tivemos o primeiro game drive e parece que já estamos a ver animais num parque.
This is my brother from another mother
Assim o apresenta Gibson, uma frase de antologia que vamos ouvir (e dizer) inúmeras vezes ao longo dos tais 15 dias.
Depois de uma visita ao museu que conta a história do colonização e independência da Namíbia, somos conduzidos até à township de Katutura. Gibson pára o camião à beira de uma pequena encosta e o guia novo enfia-se pela abertura entre a cabine do camião e a caixa onde estamos para falar connosco mais facilmente
This is where people come when nature calls
E aí percebo que aquilo que vejo são pedaços de papel higiénico que abanam ao sabor do vento. E ele sabe bem do que fala, ele próprio é de Katutura e já usou estas instalações.
Uma canalha de miúdos vê os turistas dentro do camião e tenta interagir. Não temos, porém, autorização para sair da fortaleza sobre rodas por razões de segurança (you never know). Ainda não tivemos o primeiro game drive e parece que já estamos a ver animais num parque.
domingo, 19 de janeiro de 2020
Cinco horas
Fez uns meses de tropa na Suíça, um dos poucos países europeus onde ainda é obrigatório. Por curiosidade, perguntei-lhe o que é um dia típico de recruta. De tudo o que me explicou - dos exercícios físicos, dos treinos, das aulas, de fazer a cama e lavar pratos - só uma coisa me fez verdadeiramente arregalar os olhos: a hora de recolher era a meia-noite e a alvorada era às 5 da manhã. We were constantly sleep deprived, acrescentou.
sábado, 18 de janeiro de 2020
quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
Spiel mit mir
Um conjunto de lençóis não é a primeira coisa que vem à cabeça a propósito da expressão "jogo de cama".
terça-feira, 14 de janeiro de 2020
segunda-feira, 13 de janeiro de 2020
Regras
«To grow up is to realize the extent to which your existence has been governed by systems of rules, vague guidelines, and increasingly insupportable norms that have been imposed on you without your consent and are subject to change at a moment's notice. There were even some rules that you'd only find out about after you'd violated them.»
Permanent record, Edward Snowden
Permanent record, Edward Snowden
domingo, 12 de janeiro de 2020
The enemy within
Os intolerantes à lactose esperam que a tecnologia lhes permita viajar para fora da Via Láctea.
sábado, 11 de janeiro de 2020
The proof of the pudding
«A datação através de carbono 14 torna improvável que o Sudário [de Turim] tenha dois mil anos. Ainda bem que é assim, porque o catolicismo viveu demasiado tempo ligado a relíquias, fetichismos. Quem quer acreditar que houve um homem que foi martirizado, morreu, esteve sepultado e ressuscitou, deve acreditar sem provas materiais. A fé dispensa provas.»
Imagens imaginadas, Pedro Mexia
Imagens imaginadas, Pedro Mexia
sexta-feira, 10 de janeiro de 2020
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
Basta chegar ali à marginal e esticar o braço, aparece logo alguém.
A alternativa seria apanhar um táxi, que é consideravelmente mais caro: uma mota andará pelas quarenta dobras, um táxi umas duzentas e cinquenta. E ir a pé é uma alternativa pouco apetecível, ainda é um pouco longe. Já tinha ido ao forte de São Sebastião durante o dia, não me apetecia fazer os três quilómetros e tal da guesthouse ao restaurante. Para além de quê, segundo me tinham avisado, não é fácil dar com o local.
Meu dito meu feito: seguindo o conselho do proprietário da guesthouse, levantei o braço quando vi a primeira moto que, no entanto, não ligou nenhuma. Virei-me novamente para frente e ia continuar a caminhar pelo passeio quando, uma outra moto apareceu sem que percebesse donde. Digo-lhe
Para a Dona Tété
Responde-me que sim quando esperava que me dissesse um preço. Provoco a resposta e não mostro a minha cara de contentamento quando me diz que são vinte dobras. Salto para o banco de trás e, com o estômago ainda cheio de chocolate da prova que tinha feito, ao final da tarde, na fábrica de Claudio Corallo, tento esconder a minha outra cara, a de quem não gosta de motos.
O percurso, se não é exactamente igual ao que me mostraram no mapa, é muito parecido. E, como me tinha dito o proprietário da guesthouse, a certa altura saímos da estrada e andamos num carreiro de terra, atravessamos um pequeno curso de água e seguimos por outro caminho meio obscuro. Confirma-se: sem ajuda, iria ser um desafio dar com o local.
Ainda é cedo e, lá dentro estão poucas pessoas. Algumas das quais, seguindo uma tendência que se verifica abundantemente por estas paragens, são caras que já vi: um dos grupos esteve, poucas horas antes, na tal degustação de chocolate na qual a filha de Claudio Corallo nos explica a particularidade do cacau que não é amargo. Sento-me numa mesa pequena, no jardim, peço o cherne grelhado e, de entrada, um petisco de búzios.
Tudo somado, o farto repasto deixa-me algo empertigado. E, ao percorrer os caminhos de terra que levam de regresso à estrada principal, apontando a lanterna do telemóvel para ver onde ponho os pés, ocorre-me que o ideal seria caminhar um pouco para ajudar o meu estômago a processar a quantidade obscena de comida. Pouco a pouco, faço os tais 3 e tal quilómetros, passando pelas avenidas largas, pelo palácio presidencial e pela igreja, pelo Instituto Camões, pelo mercado, agora às moscas, mas igualmente sujo. Recuso uma ou outra oferta de transporte das poucas motos que se oferecem.
Meu dito meu feito: seguindo o conselho do proprietário da guesthouse, levantei o braço quando vi a primeira moto que, no entanto, não ligou nenhuma. Virei-me novamente para frente e ia continuar a caminhar pelo passeio quando, uma outra moto apareceu sem que percebesse donde. Digo-lhe
Para a Dona Tété
Responde-me que sim quando esperava que me dissesse um preço. Provoco a resposta e não mostro a minha cara de contentamento quando me diz que são vinte dobras. Salto para o banco de trás e, com o estômago ainda cheio de chocolate da prova que tinha feito, ao final da tarde, na fábrica de Claudio Corallo, tento esconder a minha outra cara, a de quem não gosta de motos.
O percurso, se não é exactamente igual ao que me mostraram no mapa, é muito parecido. E, como me tinha dito o proprietário da guesthouse, a certa altura saímos da estrada e andamos num carreiro de terra, atravessamos um pequeno curso de água e seguimos por outro caminho meio obscuro. Confirma-se: sem ajuda, iria ser um desafio dar com o local.
Ainda é cedo e, lá dentro estão poucas pessoas. Algumas das quais, seguindo uma tendência que se verifica abundantemente por estas paragens, são caras que já vi: um dos grupos esteve, poucas horas antes, na tal degustação de chocolate na qual a filha de Claudio Corallo nos explica a particularidade do cacau que não é amargo. Sento-me numa mesa pequena, no jardim, peço o cherne grelhado e, de entrada, um petisco de búzios.
Tudo somado, o farto repasto deixa-me algo empertigado. E, ao percorrer os caminhos de terra que levam de regresso à estrada principal, apontando a lanterna do telemóvel para ver onde ponho os pés, ocorre-me que o ideal seria caminhar um pouco para ajudar o meu estômago a processar a quantidade obscena de comida. Pouco a pouco, faço os tais 3 e tal quilómetros, passando pelas avenidas largas, pelo palácio presidencial e pela igreja, pelo Instituto Camões, pelo mercado, agora às moscas, mas igualmente sujo. Recuso uma ou outra oferta de transporte das poucas motos que se oferecem.
terça-feira, 7 de janeiro de 2020
À saída do Jalé, apanho três miúdos que entram no banco traseiro do jeep de catana na mão.
Temos alguma dificuldade de comunicação, a língua franca deles não é decididamente o português (angolar?). Percebo que querem ir para lá de Porto Alegre e combinamos que me avisam quando quiserem sair. Falam, entre eles, com um sorriso rasgado na cara, por vezes acenam quando passamos por outras pessoas. Quando chega a altura, fazem-me sinal, encosto onde posso
Obrigado, amigo!
Um bom bocado depois, passada a pior parte e de regresso a asfalto regular, a 5 ou 6 quilómetro de São João dos Angolares, uma senhora de idade, de balde e catana na mão grita-me
Boleia, boleia!
Encosto, aproxima-se do vidro aberto e pergunto-lhe para onde vai
Para os Angolares
Enquanto lhe digo que é exactamente para aí que vou, tiro a mochila do banco do pendura e passo-a para trás, para que se possa sentar ao meu lado, o que a deixa um pouco perplexa
Mas... aí??
Coloca o balde delicadamente, senta-se envergonhada, encolhida ao meu lado. Meto conversa, pergunto-lhe como iria para os Angolares caso não tivesse boleia e ela diz-me que teria de esperar por uma carrinha que passa umas boas mais tarde.
Estamos nesta conversa de circunstância quando, após mais uma das inúmeras curvas, vejo um polícia que me manda encostar. Chega-se à minha janela
Desligue a viatura, por favor.
Desligo o motor.
Documentos da viatura, por favor.
Peço licença à senhora para esticar o braço até ao porta luvas, onde o tipo da empresa de aluguer me disse que estavam os documentos. Pego no pequeno livrete verde e tiro da carteira a minha carta de condução, saio do jeep e entrego ao agente, que os inspecciona.
A viatura é alugada?
Sim
E tem todos os equipamentos necessários? Macaco? Triângulo?
Sim
Posso ver?
Dirijo-me à bagageira, retiro a caixa do triângulo, abro à sua frente.
E o macaco?
Peço licença, retiro o meu saco e levanto a pequena tampa, debaixo da qual estão as chaves e o macaco para mudar o pneu, de acordo com o que me tinha sido dito.
Quando é que o senhor entrou em São Tomé?
Respondo.
Quando é que regressa?
Respondo.
Faz uma pequena pausa, volta a colocar a papelada dentro do pequeno livrete, devolve-me tudo
Ok, pode seguir.
Agradeço, despeço-me e volto a sentar-me ao volante. Espero até ter algumas curvas de distância em relação ao polícia até recomeçar a conversa com a senhora que, durante este tempo todo, esteve na mesma posição encolhida no banco do pendura. Faz uma exclamação em relação ao facto de o polícia ter mandado parar um branco
Brranco tem documento!
Deixo-a no centro da povoação, agradece-me de mãos juntas. Sigo mais um pouco até virar para a estrada que dá acesso à Roça de São João de Angolares, onde passo a noite.
Obrigado, amigo!
Um bom bocado depois, passada a pior parte e de regresso a asfalto regular, a 5 ou 6 quilómetro de São João dos Angolares, uma senhora de idade, de balde e catana na mão grita-me
Boleia, boleia!
Encosto, aproxima-se do vidro aberto e pergunto-lhe para onde vai
Para os Angolares
Enquanto lhe digo que é exactamente para aí que vou, tiro a mochila do banco do pendura e passo-a para trás, para que se possa sentar ao meu lado, o que a deixa um pouco perplexa
Mas... aí??
Coloca o balde delicadamente, senta-se envergonhada, encolhida ao meu lado. Meto conversa, pergunto-lhe como iria para os Angolares caso não tivesse boleia e ela diz-me que teria de esperar por uma carrinha que passa umas boas mais tarde.
Estamos nesta conversa de circunstância quando, após mais uma das inúmeras curvas, vejo um polícia que me manda encostar. Chega-se à minha janela
Desligue a viatura, por favor.
Desligo o motor.
Documentos da viatura, por favor.
Peço licença à senhora para esticar o braço até ao porta luvas, onde o tipo da empresa de aluguer me disse que estavam os documentos. Pego no pequeno livrete verde e tiro da carteira a minha carta de condução, saio do jeep e entrego ao agente, que os inspecciona.
A viatura é alugada?
Sim
E tem todos os equipamentos necessários? Macaco? Triângulo?
Sim
Posso ver?
Dirijo-me à bagageira, retiro a caixa do triângulo, abro à sua frente.
E o macaco?
Peço licença, retiro o meu saco e levanto a pequena tampa, debaixo da qual estão as chaves e o macaco para mudar o pneu, de acordo com o que me tinha sido dito.
Quando é que o senhor entrou em São Tomé?
Respondo.
Quando é que regressa?
Respondo.
Faz uma pequena pausa, volta a colocar a papelada dentro do pequeno livrete, devolve-me tudo
Ok, pode seguir.
Agradeço, despeço-me e volto a sentar-me ao volante. Espero até ter algumas curvas de distância em relação ao polícia até recomeçar a conversa com a senhora que, durante este tempo todo, esteve na mesma posição encolhida no banco do pendura. Faz uma exclamação em relação ao facto de o polícia ter mandado parar um branco
Brranco tem documento!
Deixo-a no centro da povoação, agradece-me de mãos juntas. Sigo mais um pouco até virar para a estrada que dá acesso à Roça de São João de Angolares, onde passo a noite.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2020
Pouco antes das 21h vejo a luz vermelha de uma lanterna aproximar-se da porta do bungalow.
Ponho a cabeça de fora, trocamos umas palavras, relembra-me que tenho de fazer um pagamento. Visto-me rapidamente, enfio os pés nas havaianas, pego no meu frontal (com a luz vermelha ligada, que não incomoda os bichos) e acompanho-o. Pelo caminho, reparo que calça umas galochas e pergunto-lhe se as havaianas estão bem. Diz-me que não há problema, vamos andar pouco, que as tartarugas estão mesmo perto do lodge.
E, de facto, poucos metros depois do bungalow onde são servidas as refeições, deparo-me com uma enorme carapaça, bem maior do que aquilo que estava à espera. A cabeça está tapada pela vegetação. Fico algo hipnotizado, meio catatónico a observar, enquanto a chuva miudinha vai lentamente ensopando a minha t-shirt. Enquanto isso, ele toma notas num caderno protegido com uma capa plástica, faz medições das dimensões do bicho, coloca identificadores nas patas dianteiras.
O processo repete-se com uma segunda tartaruga, ainda mais perto do bungalow. Desta vez, a cabeça do animal não está tapada e, uma vez mais, fico estarrecido a olhar. Uma parte de mim sente-se algo desconfortável, como se estivesse a invadir a privacidade do bicho.
A chuva intensifica-se e ficamos debaixo de um telheiro, à espera que abrande, enquanto enxotamos os mosquitos como podemos. Por esta altura, os meus pés já estão devidamente repletos de pequenas manchas vermelhas e é difícil resistir à tentação de coçar fortemente. Em vez de abrandar, a chuva fica cada vez mais forte. Acabo por me despedir deles e fazer o caminho até ao meu bungalow o mais rápido que posso. Pouco tempo depois de retirar a roupa molhada, caem os primeiros relâmpagos, imediatamente seguidos de trovões que quase fazem tremer a terra.
Por casualidade, fico a saber posteriormente – no dia do meu regresso a Lisboa, na sala de embarque do aeroporto, sentou-se ao meu lado uma senhora que esteve num dos outros bungalows na mesma noite – que as ondas estavam tão fortes que galgaram o desnível entre o fim da areia e início da terra e passaram por debaixo dos bungalows suspensos em estacas de madeira.
E, de facto, poucos metros depois do bungalow onde são servidas as refeições, deparo-me com uma enorme carapaça, bem maior do que aquilo que estava à espera. A cabeça está tapada pela vegetação. Fico algo hipnotizado, meio catatónico a observar, enquanto a chuva miudinha vai lentamente ensopando a minha t-shirt. Enquanto isso, ele toma notas num caderno protegido com uma capa plástica, faz medições das dimensões do bicho, coloca identificadores nas patas dianteiras.
O processo repete-se com uma segunda tartaruga, ainda mais perto do bungalow. Desta vez, a cabeça do animal não está tapada e, uma vez mais, fico estarrecido a olhar. Uma parte de mim sente-se algo desconfortável, como se estivesse a invadir a privacidade do bicho.
A chuva intensifica-se e ficamos debaixo de um telheiro, à espera que abrande, enquanto enxotamos os mosquitos como podemos. Por esta altura, os meus pés já estão devidamente repletos de pequenas manchas vermelhas e é difícil resistir à tentação de coçar fortemente. Em vez de abrandar, a chuva fica cada vez mais forte. Acabo por me despedir deles e fazer o caminho até ao meu bungalow o mais rápido que posso. Pouco tempo depois de retirar a roupa molhada, caem os primeiros relâmpagos, imediatamente seguidos de trovões que quase fazem tremer a terra.
Por casualidade, fico a saber posteriormente – no dia do meu regresso a Lisboa, na sala de embarque do aeroporto, sentou-se ao meu lado uma senhora que esteve num dos outros bungalows na mesma noite – que as ondas estavam tão fortes que galgaram o desnível entre o fim da areia e início da terra e passaram por debaixo dos bungalows suspensos em estacas de madeira.
domingo, 5 de janeiro de 2020
Deixo o Ilhéu das Rolas no barco das 9h da manhã.
O barco do Pestana leva os turistas e é seguido, pouco depois, por uma barcaça de pescador, onde vão alguns dos locais e as nossas bagagens. Um grupo está à nossa espera para tocar e cantar músicas tradicionais. Enquanto sou forçado a esperar pela bagagem, finjo um interesse maior do que o genuíno na actuação, para evitar o tipo chato que vende artesanato.
Não são muitos os quilómetros que vou ter de fazer, mas a estrada, tal como esperado, fica progressivamente pior. A saída da última povoação no extremo sul da ilha é feita por uma estrada de pedras grandes, que vai dar a uma outra de terra, que segue ao longo de um campo de futebol improvisado. São sensivelmente três quilómetros de terra e buracos, passando pelo desvio para a praia do Inhame, até chegar.
São três bungalows e, ao fundo, depois de passar uma pequena construção, em frente à qual se senta um segurança numa cadeira de plástico com o encosto meio partido, uma outra construção com a sala de refeições, cozinha e uns balneários, que podem ser usados mediante o pagamento de 25 dobras.
O chuveiro não tem água quente. Há electricidade entre sensivelmente as 18h e as 21h, hora a partir da qual o segurança desliga o gerador e a penumbra se instala. Durante estes dias, o telemóvel apenas vai servir para ouvir música e, uma vez, para me guiar o caminho numa caminhada.
Não são muitos os quilómetros que vou ter de fazer, mas a estrada, tal como esperado, fica progressivamente pior. A saída da última povoação no extremo sul da ilha é feita por uma estrada de pedras grandes, que vai dar a uma outra de terra, que segue ao longo de um campo de futebol improvisado. São sensivelmente três quilómetros de terra e buracos, passando pelo desvio para a praia do Inhame, até chegar.
São três bungalows e, ao fundo, depois de passar uma pequena construção, em frente à qual se senta um segurança numa cadeira de plástico com o encosto meio partido, uma outra construção com a sala de refeições, cozinha e uns balneários, que podem ser usados mediante o pagamento de 25 dobras.
O chuveiro não tem água quente. Há electricidade entre sensivelmente as 18h e as 21h, hora a partir da qual o segurança desliga o gerador e a penumbra se instala. Durante estes dias, o telemóvel apenas vai servir para ouvir música e, uma vez, para me guiar o caminho numa caminhada.
sábado, 4 de janeiro de 2020
A meia hora que me tinham dito que demoraria a chegar à Ponta Baleia transforma-se em mais de uma hora.
Expectavelmente, devo dizer, nenhuma deslocação é tão curta como o apregoam. A estrada piora consideravelmente de qualidade, são várias as secções onde o asfalto é substituído por pequenas pedras, que colmatam a ausência de alcatrão e evitam a acumulação de terra e lama. À medida que se segue para sul, cada vez mais sentimos a crueza da natureza da ilha.
Pouco depois de uma das poucas povoações nestas paragens, está uma placa a indicar a saída para a Ponta Baleia, onde também se lê Pestana. Um local pede-me para parar e tenta negociar comigo uma travessia e refeições no ilhéu; quando lhe explico que sou cliente do Pestana e tenho tudo isso incluído (enfim, o transfer de barco acaba por me ser cobrado), aceita facilmente a ausência de possibilidade de um acordo mutuamente vantajoso e despede-se.
Com alguma (bastante) sorte, o barco está quase a chegar ao ancoradouro quando estaciono o jeep no local onde ficará duas noites. Há uma excursão numerosa, de uma nacionalidade que não consigo identificar, e calculo que seja por isso que seja realizada esta travessia extraordinária do barco do Pestana, à qual acabo por me juntar (venho a saber mais tarde que o barco só tem duas travessias diárias agendadas e que, àquela hora, a da manhã já tinha tido lugar).
Depois do check in na recepção mesmo à saída do cais, sou acompanhado por um funcionário ao meu quarto. O interior está gelado e a primeira coisa que faço após ficar sozinho é desligar o ar-condicionado esforçado. No pequeno televisor, para além do canal da televisão local, tenho acesso à SIC notícias, bem como a Al Jazeera.
O restaurante onde são servidas as refeições buffet fica logo a seguir à piscina, à distância de um lance de escadas. Há vários pratos à escolha, incluindo arroz de pato, vitela, caldo verde e sopa da pedra. Na secção de grelhados na chapa, para além de pedaços de frango, há também umas postas de peixe muito desengraçadas, que mais parecem medalhões congelados da Pescanova. Vai ser a única vez que não vou comer peixe em quinze dias.
Este é um antro de homens grisalhos, de cabelo penteado para trás, calções garridos e camisas vermelhas às riscas, sapatos de vela sem meias. Na mão, para além do telemóvel e da carteira, trazem um maço de cigarros. Elas lêem livros daqueles de capa vistosa dos escaparates das novidades, põem lenços por cima do biquíni antes de percorrer os metros que separam a espreguiçadeira do quarto e, ao jantar, aparecem maquilhadas e de vestido negro.
Estes vão ser os meus dias de verdadeira détente. Troco o papel que me deram por uma toalha e deito-me numa espreguiçadeira, entre a piscina e água azul muito claro. Por esta altura, estou a ler um livro do Norman Mailer sobre o combate entre Muhammad Ali e George Foreman, no antigo Zaire. Sem nunca ter ligado nenhuma a boxe, dou por mim a ver o combate no youtube, algo que a ligação wifi, neste local, permite. Numa das tardes, dou uma pequena volta ao ilhéu e visito o célebre marco do equador. Tiro umas fotografias, que o iPhone localiza no Ilhéu Gago Coutinho.
Pouco depois de uma das poucas povoações nestas paragens, está uma placa a indicar a saída para a Ponta Baleia, onde também se lê Pestana. Um local pede-me para parar e tenta negociar comigo uma travessia e refeições no ilhéu; quando lhe explico que sou cliente do Pestana e tenho tudo isso incluído (enfim, o transfer de barco acaba por me ser cobrado), aceita facilmente a ausência de possibilidade de um acordo mutuamente vantajoso e despede-se.
Com alguma (bastante) sorte, o barco está quase a chegar ao ancoradouro quando estaciono o jeep no local onde ficará duas noites. Há uma excursão numerosa, de uma nacionalidade que não consigo identificar, e calculo que seja por isso que seja realizada esta travessia extraordinária do barco do Pestana, à qual acabo por me juntar (venho a saber mais tarde que o barco só tem duas travessias diárias agendadas e que, àquela hora, a da manhã já tinha tido lugar).
Depois do check in na recepção mesmo à saída do cais, sou acompanhado por um funcionário ao meu quarto. O interior está gelado e a primeira coisa que faço após ficar sozinho é desligar o ar-condicionado esforçado. No pequeno televisor, para além do canal da televisão local, tenho acesso à SIC notícias, bem como a Al Jazeera.
O restaurante onde são servidas as refeições buffet fica logo a seguir à piscina, à distância de um lance de escadas. Há vários pratos à escolha, incluindo arroz de pato, vitela, caldo verde e sopa da pedra. Na secção de grelhados na chapa, para além de pedaços de frango, há também umas postas de peixe muito desengraçadas, que mais parecem medalhões congelados da Pescanova. Vai ser a única vez que não vou comer peixe em quinze dias.
Este é um antro de homens grisalhos, de cabelo penteado para trás, calções garridos e camisas vermelhas às riscas, sapatos de vela sem meias. Na mão, para além do telemóvel e da carteira, trazem um maço de cigarros. Elas lêem livros daqueles de capa vistosa dos escaparates das novidades, põem lenços por cima do biquíni antes de percorrer os metros que separam a espreguiçadeira do quarto e, ao jantar, aparecem maquilhadas e de vestido negro.
Estes vão ser os meus dias de verdadeira détente. Troco o papel que me deram por uma toalha e deito-me numa espreguiçadeira, entre a piscina e água azul muito claro. Por esta altura, estou a ler um livro do Norman Mailer sobre o combate entre Muhammad Ali e George Foreman, no antigo Zaire. Sem nunca ter ligado nenhuma a boxe, dou por mim a ver o combate no youtube, algo que a ligação wifi, neste local, permite. Numa das tardes, dou uma pequena volta ao ilhéu e visito o célebre marco do equador. Tiro umas fotografias, que o iPhone localiza no Ilhéu Gago Coutinho.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2020
O GPS envia-me para o centro da localidade, para uma rua de aspecto mais pedonal que outra coisa.
Antes de prosseguir no que me parece uma indicação altamente duvidosa, abordo dois locais. Não reconhecem a pousada pelo nome. Mostro-lhes a confirmação da reserva e tudo se esclarece: é uma pousada recente, fica fora da povoação e o dono, o Silvino, esteve com eles há uns minutos atrás.
Liga e diz-lhe que estás ao pé do Carlos que ele sabe
Ligo para o número indicado e, em alta voz, identifico-me e digo que estou com o Carlos ao pé da escola primária. Uns minutos depois, enquanto falo um pouco com o Carlos e o amigo, Silvino aparece.
Esclarece que a indicação de localização que colocou no site do booking está errada e precisa de a corrigir. Voltamos atrás uns quilómetros na estrada principal até sair por um caminho de terra que continua por um promontório. Ao fundo, mesmo antes da terra terminar numa descida abrupta para as rochas e o mar, está uma pequena construção de pedra, com uns cadeirões e mesas de refeição e, no piso de cima, três quartos simples, e com uma varanda a toda a volta.
Sou, uma vez mais, o único hóspede numa instalação inaugurada há poucos meses. Escolho o quarto virado a nascente. Depois de combinar com o cozinheiro, que já trabalhou na Roça de São João dos Angolares, a hora a que o jantar vai ser servido – escolho o polvo grelhado – dou um salto até à praia do Micondó, a poucos quilómetros dali.
Qual gato escaldado, evito a zona o caminho que leva até mesmo perto da praia, deixo o jeep parado mesmo à saída da estrada principal e caminho o resto. Na praia, dou de caras com a hospedeira eslava do voo entre São Tomé e o Príncipe, e é assim que, sem resistir a perguntar, fico a saber que é a ela e a tripulação (estão mais à frente, pendurados num ramo de árvore meio submerso) são ucranianos e que vêm para aquelas ilhas por períodos de alguns meses.
Fico até o sol se esconder atrás das árvores e a areia ficar sem luz. Regresso para um duche semi-frio e o tal polvo grelhado. À noite, o céu nublado impede-me de ver as estrelas. Acordo inundado da luz do nascer do sol. Depois de um pequeno-almoço servido nas mesas exteriores, no limite da terra, faço-me novamente à estrada.
Liga e diz-lhe que estás ao pé do Carlos que ele sabe
Ligo para o número indicado e, em alta voz, identifico-me e digo que estou com o Carlos ao pé da escola primária. Uns minutos depois, enquanto falo um pouco com o Carlos e o amigo, Silvino aparece.
Esclarece que a indicação de localização que colocou no site do booking está errada e precisa de a corrigir. Voltamos atrás uns quilómetros na estrada principal até sair por um caminho de terra que continua por um promontório. Ao fundo, mesmo antes da terra terminar numa descida abrupta para as rochas e o mar, está uma pequena construção de pedra, com uns cadeirões e mesas de refeição e, no piso de cima, três quartos simples, e com uma varanda a toda a volta.
Sou, uma vez mais, o único hóspede numa instalação inaugurada há poucos meses. Escolho o quarto virado a nascente. Depois de combinar com o cozinheiro, que já trabalhou na Roça de São João dos Angolares, a hora a que o jantar vai ser servido – escolho o polvo grelhado – dou um salto até à praia do Micondó, a poucos quilómetros dali.
Qual gato escaldado, evito a zona o caminho que leva até mesmo perto da praia, deixo o jeep parado mesmo à saída da estrada principal e caminho o resto. Na praia, dou de caras com a hospedeira eslava do voo entre São Tomé e o Príncipe, e é assim que, sem resistir a perguntar, fico a saber que é a ela e a tripulação (estão mais à frente, pendurados num ramo de árvore meio submerso) são ucranianos e que vêm para aquelas ilhas por períodos de alguns meses.
Fico até o sol se esconder atrás das árvores e a areia ficar sem luz. Regresso para um duche semi-frio e o tal polvo grelhado. À noite, o céu nublado impede-me de ver as estrelas. Acordo inundado da luz do nascer do sol. Depois de um pequeno-almoço servido nas mesas exteriores, no limite da terra, faço-me novamente à estrada.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2020
Hugo aborda-me assim que me vê passar de jeep.
Explica-me que é aluno do 11º ano e, exibindo o cartão que trás ao pescoço, que é “certificado” para fazer de guia para turistas ali na Roça Água Izé.
Já foste ao hospital?
Explico que acabei de chegar e ainda não tive tempo de ver nada e ele rapidamente oferece um cardápio que inclui não só o hospital, mas também o centro de artesanato e a boca do inferno.
Convida-me a ir na sua moto, algo que tento, sem sucesso, evitar exibindo o mais que óbvio (e com quatro rodas) jeep
Não confias em mim?
atira-me. Que remédio, penso enquanto me sento atrás dele, agarrado à grelha atrás do banco, por cima da roda traseira.
Subimos a estrada de terra até ao impressionante edifício do antigo hospital, uma imagem que já tinha visto em pesquisas online. Ali entramos e subimos as escadas, enquanto me vai fornecendo alguns detalhes da vida, no local, em tempos idos. Encontramos alguns companheiros de trabalho de Hugo que, com o mesmo cartão de identificação ao pescoço, aguardam a chegada de um turista com interesse numa rápida contratação.
O centro de artesanato fica lá em baixo, no outro extremo da roça, num antigo armazém. Hugo deixa-me nas mãos de Zezinha, que me oferece uma visita guiada ao centro. Para além das peças de madeira e de tecidos, há uma zona onde se aprende a fazer peças de artesanato com resíduos, como garrafas de plástico. Dois coelhos com uma cajadada: para além de permitir colocar algum dinheiro nos bolsos dos artesãos, a actividade contribui para evitar a acumulação de resíduos.
O último ponto da excursão é a boca do inferno, a uns minutos da roça. Diz a lenda que um cavaleiro português era o único que conseguia entrar ileso na formação rochosa e que, inclusivamente, saia do outro lado, na boca do inferno de Cascais. Hugo confessa-me, com uma expressão mais carregada, que, na opinião dele, se trata apenas de uma lenda, que não existe mesmo o tal cavaleiro capaz de entrar naquela formação rochosa do oeste da ilha de São Tomé e sair numa região de Portugal. Pergunta-me se concordo e eu avento que sim, que me parece tratar-se apenas de uma lenda.
Regressado ao jeep, desejo-lhe felicidades para cumprir os planos de terminar o 12º e conseguir uma bolsa para continuar os estudos no estrangeiro. Sigo pela estrada costeira até São João dos Angolares, olhando em todas as direcções, à procura do próximo local de pernoita.
Já foste ao hospital?
Explico que acabei de chegar e ainda não tive tempo de ver nada e ele rapidamente oferece um cardápio que inclui não só o hospital, mas também o centro de artesanato e a boca do inferno.
Convida-me a ir na sua moto, algo que tento, sem sucesso, evitar exibindo o mais que óbvio (e com quatro rodas) jeep
Não confias em mim?
atira-me. Que remédio, penso enquanto me sento atrás dele, agarrado à grelha atrás do banco, por cima da roda traseira.
Subimos a estrada de terra até ao impressionante edifício do antigo hospital, uma imagem que já tinha visto em pesquisas online. Ali entramos e subimos as escadas, enquanto me vai fornecendo alguns detalhes da vida, no local, em tempos idos. Encontramos alguns companheiros de trabalho de Hugo que, com o mesmo cartão de identificação ao pescoço, aguardam a chegada de um turista com interesse numa rápida contratação.
O centro de artesanato fica lá em baixo, no outro extremo da roça, num antigo armazém. Hugo deixa-me nas mãos de Zezinha, que me oferece uma visita guiada ao centro. Para além das peças de madeira e de tecidos, há uma zona onde se aprende a fazer peças de artesanato com resíduos, como garrafas de plástico. Dois coelhos com uma cajadada: para além de permitir colocar algum dinheiro nos bolsos dos artesãos, a actividade contribui para evitar a acumulação de resíduos.
O último ponto da excursão é a boca do inferno, a uns minutos da roça. Diz a lenda que um cavaleiro português era o único que conseguia entrar ileso na formação rochosa e que, inclusivamente, saia do outro lado, na boca do inferno de Cascais. Hugo confessa-me, com uma expressão mais carregada, que, na opinião dele, se trata apenas de uma lenda, que não existe mesmo o tal cavaleiro capaz de entrar naquela formação rochosa do oeste da ilha de São Tomé e sair numa região de Portugal. Pergunta-me se concordo e eu avento que sim, que me parece tratar-se apenas de uma lenda.
Regressado ao jeep, desejo-lhe felicidades para cumprir os planos de terminar o 12º e conseguir uma bolsa para continuar os estudos no estrangeiro. Sigo pela estrada costeira até São João dos Angolares, olhando em todas as direcções, à procura do próximo local de pernoita.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2020
O caminho indicado pelo GPS não parece ser difícil.
Na cidade de Trindade, viro num cruzamento e vou subindo. No entanto, a estrada de alcatrão tornou-se, progressivamente, numa de terra e pedras e cada vez mais estreita. Continuo a subir, já não faltam muitos quilómetros, por entre gente de catana na mão, outros a trabalhar a terra, senhoras de alguidares e baldes na cabeça.
Para me sentir um pouco mais confortável (se tal fosse possível nesta circunstância), resolvo confirmar com um senhor que, simpaticamente, me diz que estava quase na Roça Saudade. Quer dizer, até já estava nos terrenos da dita mas os edifícios são mais acima. Continuo, em primeira, pela estrada difícil até passar, com muito jeito, ao lado de duas senhoras que lavavam louça em alguidares, e vou desembocar a uma espécie de praça.
Sigo, devagar, olhando para os dois lados, aliás, para todos os lados sem, no entanto, conseguir identificar o local onde vou pernoitar. A pequena praça tem uma estrada empedrada, ladeada, ao fundo à esquerda, por um muro alto, que deduzo ser o da roça. Sigo ao longo do muro, procurando uma entrada e, pouco depois, desemboco numa estrada alcatroada, em óptimas condições. Olho para o GPS com vontade de o estrafegar: bastava ter feito a viragem em Trindade no cruzamento seguinte e ter-me-ia poupado mais uma aventura de condução todo-o-terreno.
Descoberta esta estrada, por descobrir a entrada para a roça. Faço o percurso inverso e, quase a chegar novamente à pequena praça, vejo um portão velho entreaberto e gente lá dentro: aproveito para perguntar. O miúdo que se prontifica a ajudar não reconhece a Pousada da Roça Saudade. Até que me pergunta se tenho uma imagem. Mostro-lhe o email de confirmação da reserva, que acaba por ser suficiente. Entra pela porta mesmo ao lado das senhoras que continuam a lavar a louça e só então reparo no letreiro da Casa Museu Almada Negreiros. Está virado na direcção de quem vem da estrada principal e não do caminho tortuoso que fiz, por isso não tinha reparado.
Lá de dentro sai um funcionário, passados alguns minutos, que parece algo perplexo a olhar para o email de confirmação. Mais tarde fico a saber que é conhecido por Mola, depois de me dizer o nome do qual, entretanto, me esqueci. Mostra-me a Casa Museu, a estátua do Almada na entrada, a pequena divisão com peças de artesanato e réplicas de gravuras, um poster da exposição da Gulbenkian em 2017. Mais à frente, mostra-me a ainda mais pequena divisão que guarda alguns livros velhos, gastos, que foram coleccionando.
A pousada fica do outro lado da rua, onde as senhoras continuam a lavar, subindo umas escadas de pedra, que vão dar a um portão de correr e um pequeno jardim. Lá em cima, são três os quartos que dão para uma sala comum ampla, com uma enorme varanda de onde se avista a cidade, lá em baixo, à beira-mar.
A construção do espaço terminou há poucos meses. As paredes estão cheias de gravuras e de citações do Almada: “o Dantas cheira mal da boca”, “ Morra o Dantas, morra pim”. Nas mesas de apoio aos sofás e cadeirões, vários livros do e sobre o Almada.
Passada talvez uma meia-hora, surge o dono do estabelecimento. Pede desculpa por não ter estado para me receber. Diz-me que houve uma série de cancelamentos de última hora das reservas, por causa de um incidente: uma manifestação religiosa terminou em protestos violentos e houve uma morte. Assumiu que eu iria também cancelar. Falamos um pouco. Tem uma ideia muito clara e lúcida do que quer para aquele espaço. Dou-lhe os parabéns, digo-lhe que está muito bem conseguido. Depois aconselha-me a ir a Monte Café (ensina-me um atalho) e à cascata a pé. É dos poucos que me incentiva a passear e visitar a comunidade local.
Para me sentir um pouco mais confortável (se tal fosse possível nesta circunstância), resolvo confirmar com um senhor que, simpaticamente, me diz que estava quase na Roça Saudade. Quer dizer, até já estava nos terrenos da dita mas os edifícios são mais acima. Continuo, em primeira, pela estrada difícil até passar, com muito jeito, ao lado de duas senhoras que lavavam louça em alguidares, e vou desembocar a uma espécie de praça.
Sigo, devagar, olhando para os dois lados, aliás, para todos os lados sem, no entanto, conseguir identificar o local onde vou pernoitar. A pequena praça tem uma estrada empedrada, ladeada, ao fundo à esquerda, por um muro alto, que deduzo ser o da roça. Sigo ao longo do muro, procurando uma entrada e, pouco depois, desemboco numa estrada alcatroada, em óptimas condições. Olho para o GPS com vontade de o estrafegar: bastava ter feito a viragem em Trindade no cruzamento seguinte e ter-me-ia poupado mais uma aventura de condução todo-o-terreno.
Descoberta esta estrada, por descobrir a entrada para a roça. Faço o percurso inverso e, quase a chegar novamente à pequena praça, vejo um portão velho entreaberto e gente lá dentro: aproveito para perguntar. O miúdo que se prontifica a ajudar não reconhece a Pousada da Roça Saudade. Até que me pergunta se tenho uma imagem. Mostro-lhe o email de confirmação da reserva, que acaba por ser suficiente. Entra pela porta mesmo ao lado das senhoras que continuam a lavar a louça e só então reparo no letreiro da Casa Museu Almada Negreiros. Está virado na direcção de quem vem da estrada principal e não do caminho tortuoso que fiz, por isso não tinha reparado.
Lá de dentro sai um funcionário, passados alguns minutos, que parece algo perplexo a olhar para o email de confirmação. Mais tarde fico a saber que é conhecido por Mola, depois de me dizer o nome do qual, entretanto, me esqueci. Mostra-me a Casa Museu, a estátua do Almada na entrada, a pequena divisão com peças de artesanato e réplicas de gravuras, um poster da exposição da Gulbenkian em 2017. Mais à frente, mostra-me a ainda mais pequena divisão que guarda alguns livros velhos, gastos, que foram coleccionando.
A pousada fica do outro lado da rua, onde as senhoras continuam a lavar, subindo umas escadas de pedra, que vão dar a um portão de correr e um pequeno jardim. Lá em cima, são três os quartos que dão para uma sala comum ampla, com uma enorme varanda de onde se avista a cidade, lá em baixo, à beira-mar.
A construção do espaço terminou há poucos meses. As paredes estão cheias de gravuras e de citações do Almada: “o Dantas cheira mal da boca”, “ Morra o Dantas, morra pim”. Nas mesas de apoio aos sofás e cadeirões, vários livros do e sobre o Almada.
Passada talvez uma meia-hora, surge o dono do estabelecimento. Pede desculpa por não ter estado para me receber. Diz-me que houve uma série de cancelamentos de última hora das reservas, por causa de um incidente: uma manifestação religiosa terminou em protestos violentos e houve uma morte. Assumiu que eu iria também cancelar. Falamos um pouco. Tem uma ideia muito clara e lúcida do que quer para aquele espaço. Dou-lhe os parabéns, digo-lhe que está muito bem conseguido. Depois aconselha-me a ir a Monte Café (ensina-me um atalho) e à cascata a pé. É dos poucos que me incentiva a passear e visitar a comunidade local.
terça-feira, 31 de dezembro de 2019
Amigo, se não houver ninguém na praia, não vá se banhar.
Enquanto vais à água eles levam tudo. Eles não fazem mal mas tudo o que houver de bom eles levam.
Faço a pé o curto caminho da guesthouse até à praia de Tamarindos que, adivinhe-se, à excepção de um pescador que se cruza comigo pelo caminho, ao ir-se embora, não tem mais ninguém. O sofrimento de não ir à água não é muito grande, o tempo chuvoso e o mar não são convidativos. Isso e os mosquitos que, após atravessar as rochas ao fundo, que permitem aceder à praia seguinte, incomodam irritantemente, como é seu apanágio. Quando olho, vejo um enxame de moscas pousado no preto da mochila.
Ao final da tarde, enquanto espero pela barracuda grelhada e a banana frita com arroz do jantar, Mateus, o filho do casal, aborda-me, embora seja parco de palavras. Quer mostrar-me a bicicleta, a bola. A mãe, preocupada que o miúdo possa estar a incomodar o hóspede, liga-lhe o televisor. Na TVS está a dar telenovela brasileira.
De manhã, ao pequeno-almoço, a propósito da omelete com micocó, a planta local para cuja existência e propriedades afrodisíacas já tinha sido alertado na Roça Agostinho Neto, reitera a convicção de que “é bom para o homem”.
À noite, depois de jantar, bebes um chá de micocó e estás pronto para a cama.
Faço a pé o curto caminho da guesthouse até à praia de Tamarindos que, adivinhe-se, à excepção de um pescador que se cruza comigo pelo caminho, ao ir-se embora, não tem mais ninguém. O sofrimento de não ir à água não é muito grande, o tempo chuvoso e o mar não são convidativos. Isso e os mosquitos que, após atravessar as rochas ao fundo, que permitem aceder à praia seguinte, incomodam irritantemente, como é seu apanágio. Quando olho, vejo um enxame de moscas pousado no preto da mochila.
Ao final da tarde, enquanto espero pela barracuda grelhada e a banana frita com arroz do jantar, Mateus, o filho do casal, aborda-me, embora seja parco de palavras. Quer mostrar-me a bicicleta, a bola. A mãe, preocupada que o miúdo possa estar a incomodar o hóspede, liga-lhe o televisor. Na TVS está a dar telenovela brasileira.
De manhã, ao pequeno-almoço, a propósito da omelete com micocó, a planta local para cuja existência e propriedades afrodisíacas já tinha sido alertado na Roça Agostinho Neto, reitera a convicção de que “é bom para o homem”.
À noite, depois de jantar, bebes um chá de micocó e estás pronto para a cama.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
Uns minutos antes das 9h, a hora combinada, bate-me à porta do quarto a avisar que a boleia para o aeroporto já chegou.
Arrumo rapidamente as últimas coisas, desço o lance apertado de escadas. Dez minutos depois estamos à porta do pequeno terminal, que dá para a pequena pista, aberta no meio da densa floresta.
Enquanto uns funcionários tratam dos trâmites do check in, outros pedem para verificar a bagagem. Abro o saco e a mochila para que o funcionário possa passar a mão enluvada pelo interior. Completas estas medidas de segurança, regresso ao local do check in, onde me devolvem o passaporte e a minha impressão da reserva do voo, acompanhados de um bilhete que apenas tem o número do voo escrito à mão.
Ao lado, uma porta metálica abre para uma pequena divisória, dentro da qual outros dois funcionários tratam de percorrer os passageiros com aparelhos detectores de metais. Para demonstrar que não tenho nenhuma substância estranha na garrafa metálica, um deles pede-me que beba um pouco.
Cuidado com o degrau,
acrescenta quando transponho a porta para a sala de embarque. Algumas cadeiras à direita, na parede da esquerda, ao fundo, um televisor passa, em loop, um anúncio da fábrica de chocolates do Claudio Corallo. Calor, apesar da forte chuva que cai.
E é por causa dela que, pouco depois, funcionários com coletes entram na sala e, de forma quase solene, fazem o anúncio de que o voo está atrasado, que o avião não sairá de São Tomé antes do meio-dia, devido ao mau tempo. Somando uns 40 minutos de voo, o aparelho só deverá chegar pelas 12h40, mais o tempo de saída dos passageiros de São Tomé e embarque dos do Príncipe, calculamos que só um pouco depois das 13h deveremos arrancar, cerca de 3 horas depois da hora original.
Estou separado dos meus amigos de circunstância por duas cadeiras, ocupadas por duas portuguesas, que se levantam amiúde e falam muito e, por isso, não me deixam passar convenientemente pelas brasas. Queixam-se do calor e conseguem convencer as funcionárias a abrir mais janelas e a ligar as três ventoinhas do tecto. Uma delas repara que há uma rede wifi e pede a password a uma das funcionárias. Sigo-lhe as pisadas para avisar o fulano da empresa de aluguer de veículos, que está à minha espera no aeroporto de São Tomé, para me entregar o jeep. Enquanto digita a password no meu telefone, reparo que olha em frente: o código está escrito, a caneta, em letras e algarismos toscos, na parede amarela.
Alguns dos passageiros vão-se embora, os motoristas dos resorts de luxo levam-nos novamente para as instalações para que aguardem aí. A debandada é maior quando, pouco antes das 12h, recebemos um novo comunicado, uma vez mais com alguma pompa e circunstância: afinal, o voo já não vai sair de São Tomé senão pelas 14h, dado que persistem as condições adversas. Entretanto, no Príncipe, já havia parado de chover.
De repente, estamos só nós no pequeno terminal: eu, os meus companheiros de circunstância belgas e as 2 portuguesas. Os próprios funcionários desaparecem e não há nenhum sítio nas redondezas para onde possamos ir. A electricidade falha, ficamos sem ventoinhas e wifi. O belga, bem-disposto, brinca com a situação, que é inadmissível e que quer um reembolso. Acrescenta, em relação aos que regressaram aos resorts de luxo
They are tourists, we are travelers.
É a diferença, não trazemos a impaciência de quem vem para estes locais com a expectativa de que não vai haver nenhum impasse ou inconveniente.
Perto das 14h, os funcionários começam a regressar mas ainda não nos sabem dar nenhuma informação sobre o voo. Mas, aos poucos, os passageiros que foram esticar as pernas para os resorts – os tais turistas, na linguagem do belga – começam também a reaparecer. Trazem a boa nova de que o avião terá mesmo saído pelas 14h30.
A certa altura, há quem confunda o barulho de um carro com o das pás do bimotor. Falso alarme. Qual Fata Morgana, o Saab 340 faz-se à pista pelas 15h e picos, deixando umas 3 dezenas de pessoas extasiadas. O desembarque e reembarque são rápidos e, pelas 15h40, estamos sentados na máquina. A hospedeira embirra com a minha mochila porque estou sentado numa saída de emergência mas, como não a consegue encaixar nos compartimentos por cima dos lugares, acaba por a enfiar novamente debaixo do banco à minha frente.
Às 16h30 lá está o fulano à minha espera, com o meu nome num papel. Dá-me algumas indicações sobre o jeep e sobre o caminho até Neves. O sol põe-se pouco depois e os 40 kms em estrada esburacada, sem iluminação e com muita gente, levam-me hora e meia. Chego à roça onde vou passar a noite e estendo-me uma hora na cama até me chamarem para jantar.
Enquanto uns funcionários tratam dos trâmites do check in, outros pedem para verificar a bagagem. Abro o saco e a mochila para que o funcionário possa passar a mão enluvada pelo interior. Completas estas medidas de segurança, regresso ao local do check in, onde me devolvem o passaporte e a minha impressão da reserva do voo, acompanhados de um bilhete que apenas tem o número do voo escrito à mão.
Ao lado, uma porta metálica abre para uma pequena divisória, dentro da qual outros dois funcionários tratam de percorrer os passageiros com aparelhos detectores de metais. Para demonstrar que não tenho nenhuma substância estranha na garrafa metálica, um deles pede-me que beba um pouco.
Cuidado com o degrau,
acrescenta quando transponho a porta para a sala de embarque. Algumas cadeiras à direita, na parede da esquerda, ao fundo, um televisor passa, em loop, um anúncio da fábrica de chocolates do Claudio Corallo. Calor, apesar da forte chuva que cai.
E é por causa dela que, pouco depois, funcionários com coletes entram na sala e, de forma quase solene, fazem o anúncio de que o voo está atrasado, que o avião não sairá de São Tomé antes do meio-dia, devido ao mau tempo. Somando uns 40 minutos de voo, o aparelho só deverá chegar pelas 12h40, mais o tempo de saída dos passageiros de São Tomé e embarque dos do Príncipe, calculamos que só um pouco depois das 13h deveremos arrancar, cerca de 3 horas depois da hora original.
Estou separado dos meus amigos de circunstância por duas cadeiras, ocupadas por duas portuguesas, que se levantam amiúde e falam muito e, por isso, não me deixam passar convenientemente pelas brasas. Queixam-se do calor e conseguem convencer as funcionárias a abrir mais janelas e a ligar as três ventoinhas do tecto. Uma delas repara que há uma rede wifi e pede a password a uma das funcionárias. Sigo-lhe as pisadas para avisar o fulano da empresa de aluguer de veículos, que está à minha espera no aeroporto de São Tomé, para me entregar o jeep. Enquanto digita a password no meu telefone, reparo que olha em frente: o código está escrito, a caneta, em letras e algarismos toscos, na parede amarela.
Alguns dos passageiros vão-se embora, os motoristas dos resorts de luxo levam-nos novamente para as instalações para que aguardem aí. A debandada é maior quando, pouco antes das 12h, recebemos um novo comunicado, uma vez mais com alguma pompa e circunstância: afinal, o voo já não vai sair de São Tomé senão pelas 14h, dado que persistem as condições adversas. Entretanto, no Príncipe, já havia parado de chover.
De repente, estamos só nós no pequeno terminal: eu, os meus companheiros de circunstância belgas e as 2 portuguesas. Os próprios funcionários desaparecem e não há nenhum sítio nas redondezas para onde possamos ir. A electricidade falha, ficamos sem ventoinhas e wifi. O belga, bem-disposto, brinca com a situação, que é inadmissível e que quer um reembolso. Acrescenta, em relação aos que regressaram aos resorts de luxo
They are tourists, we are travelers.
É a diferença, não trazemos a impaciência de quem vem para estes locais com a expectativa de que não vai haver nenhum impasse ou inconveniente.
Perto das 14h, os funcionários começam a regressar mas ainda não nos sabem dar nenhuma informação sobre o voo. Mas, aos poucos, os passageiros que foram esticar as pernas para os resorts – os tais turistas, na linguagem do belga – começam também a reaparecer. Trazem a boa nova de que o avião terá mesmo saído pelas 14h30.
A certa altura, há quem confunda o barulho de um carro com o das pás do bimotor. Falso alarme. Qual Fata Morgana, o Saab 340 faz-se à pista pelas 15h e picos, deixando umas 3 dezenas de pessoas extasiadas. O desembarque e reembarque são rápidos e, pelas 15h40, estamos sentados na máquina. A hospedeira embirra com a minha mochila porque estou sentado numa saída de emergência mas, como não a consegue encaixar nos compartimentos por cima dos lugares, acaba por a enfiar novamente debaixo do banco à minha frente.
Às 16h30 lá está o fulano à minha espera, com o meu nome num papel. Dá-me algumas indicações sobre o jeep e sobre o caminho até Neves. O sol põe-se pouco depois e os 40 kms em estrada esburacada, sem iluminação e com muita gente, levam-me hora e meia. Chego à roça onde vou passar a noite e estendo-me uma hora na cama até me chamarem para jantar.
domingo, 29 de dezembro de 2019
Digo cobras e lagartos do caminho que, virando à direita à chegada à Roça Belo Monte, leva até às praias do nordeste da ilha.
A única indicação que tenho é a evitar descer até à praia Banana de carro, o dono da residencial alertou-me para uma secção que, à subida, é difícil de negociar. Por isso, no dia anterior, desci, a pé, a essa praia de difícil regresso. Segundo ele, de resto não há problema. Mas agora que tento chegar à praia Macaco, começo seriamente a duvidar dessa recomendação, enquanto tento manobrar o jeep pelo meio da terra, pedras e da lama.
Já relativamente perto, de acordo com as contas do GPS, a estrada bifurca e, nessa bifurcação, numa pequena construção abandonada, redonda, de tijolo e cimento, estão dois locais, que me desejam bom dia. Um deles aproxima-se de mim e pergunta-me onde quero ir. Aponta-me o caminho à minha esquerda que é, literalmente, um caminho de pedras. Espontaneamente solto um
Por aqui?
e ele conforta-me (ou tenta confortar) dizendo-me que está quase, estou perto. De facto, tem alguma razão: o caminho parece pior do que efectivamente é, basta descer devagar em primeira e, pouco depois, a praia surge.
Há algumas construções abandonadas ao longo do areal – que venho a saber a depois faziam parte de um projecto de resort turístico que acabou por não chegar a bom porto – e que dão um ar um pouco fantasmagórico ao local. O facto de não haver rigorosamente vivalma na praia também, devo dizer, contribuiu para essa sensação. Um pequeno pedaço de paraíso, de água azul e límpida, coqueiros e palmeiras a projectar sombra em parte da areia fina.
Passados alguns mergulhos e caminhadas na areia, surge um local, que me cumprimenta e volta a desaparecer, caminhando no areal. Pouco tempo depois, ouço um barulho por detrás de mim. Olho e vejo-o trepar um coqueiro com uma agilidade desconcertante. Uma vez no topo da árvore, manda uns quantos cocos para a areia e volta a descer com a mesma facilidade com que subiu. Bate fortemente com um dos cocos contra uma amurada da construção abandonada, retira-lhe a casca, abre uma pequena incisão com uma faca e, sem pronunciar uma palavra, oferece-me.
Já relativamente perto, de acordo com as contas do GPS, a estrada bifurca e, nessa bifurcação, numa pequena construção abandonada, redonda, de tijolo e cimento, estão dois locais, que me desejam bom dia. Um deles aproxima-se de mim e pergunta-me onde quero ir. Aponta-me o caminho à minha esquerda que é, literalmente, um caminho de pedras. Espontaneamente solto um
Por aqui?
e ele conforta-me (ou tenta confortar) dizendo-me que está quase, estou perto. De facto, tem alguma razão: o caminho parece pior do que efectivamente é, basta descer devagar em primeira e, pouco depois, a praia surge.
Há algumas construções abandonadas ao longo do areal – que venho a saber a depois faziam parte de um projecto de resort turístico que acabou por não chegar a bom porto – e que dão um ar um pouco fantasmagórico ao local. O facto de não haver rigorosamente vivalma na praia também, devo dizer, contribuiu para essa sensação. Um pequeno pedaço de paraíso, de água azul e límpida, coqueiros e palmeiras a projectar sombra em parte da areia fina.
Passados alguns mergulhos e caminhadas na areia, surge um local, que me cumprimenta e volta a desaparecer, caminhando no areal. Pouco tempo depois, ouço um barulho por detrás de mim. Olho e vejo-o trepar um coqueiro com uma agilidade desconcertante. Uma vez no topo da árvore, manda uns quantos cocos para a areia e volta a descer com a mesma facilidade com que subiu. Bate fortemente com um dos cocos contra uma amurada da construção abandonada, retira-lhe a casca, abre uma pequena incisão com uma faca e, sem pronunciar uma palavra, oferece-me.
sábado, 28 de dezembro de 2019
A residencial está localizada de frente para a igreja, onde está a haver uma celebração.
Do lado esquerdo da fachada da igreja, estão várias mesas de madeira compridas. As pessoas estão sentadas à conversa e a comer. Uma percentagem grande das raparigas tem vestidos brancos. O dono da residencial – nascido na roça Sundy, viveu 27 anos em Lisboa até regressar à ilha após a morte do pai, para tomar conta do negócio – explica-me que foram realizadas cerimónias religiosas (primeiras-comunhões, crismas) e as pessoas agora juntam-se para a festa. Tomo nota de um conjunto de dicas que me dá de sítios para visitar.
Saio para ver os edifícios que Estrela me apresentou na boleia conjunta. Vou até à rua que termina a praia. Duas raparigas estão sentadas na amurada. Faz-me lembrar o Malecon de Havana, embora, honestamente, não tenha assim tanto de parecido. Regresso por outra das ruas perpendiculares à praia e, depois de esperar um pouco debaixo de um telheiro para que uma carga de água passe, dirijo-me até à igreja.
É com algum espanto que reparo que a maioria das pessoas ainda ali está, apesar do dilúvio que acaba de cair. Mal tiro as primeiras fotos ao edifício e um grupo de miúdos vem ter comigo
Me pega
E eu certifico-me:
Querem que vos tire fotografias?
Fazem uma autêntica sessão fotográfica à minha frente – agora só eu, agora eu só com ele, agora só elas. Riem-se quando lhes mostro o resultado no visor da máquina. Recomeça a chuviscar e, a certa altura, tenho que lhes dizer que já chega.
Saio para ver os edifícios que Estrela me apresentou na boleia conjunta. Vou até à rua que termina a praia. Duas raparigas estão sentadas na amurada. Faz-me lembrar o Malecon de Havana, embora, honestamente, não tenha assim tanto de parecido. Regresso por outra das ruas perpendiculares à praia e, depois de esperar um pouco debaixo de um telheiro para que uma carga de água passe, dirijo-me até à igreja.
É com algum espanto que reparo que a maioria das pessoas ainda ali está, apesar do dilúvio que acaba de cair. Mal tiro as primeiras fotos ao edifício e um grupo de miúdos vem ter comigo
Me pega
E eu certifico-me:
Querem que vos tire fotografias?
Fazem uma autêntica sessão fotográfica à minha frente – agora só eu, agora eu só com ele, agora só elas. Riem-se quando lhes mostro o resultado no visor da máquina. Recomeça a chuviscar e, a certa altura, tenho que lhes dizer que já chega.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2019
Bem-vindo à capital mais pequena do mundo,
diz-me quando, a seguir a mais uma curva, a estrada vai desembocar à entrada de uma pequena baía e se lê, numa placa de trânsito, Santo António. Indica-me, à direita, a esquadra da polícia e a prisão. Brincamos com o facto de a própria ilha, de si, ser uma prisão, quem vai conseguir escapar daqui. Esta é a praça principal e, ali ao fundo, é o Palácio do Governo Regional. Aquele é o edifício da Assembleia Regional. Não estejas já a dizer tudo ao Sr. Daniel senão ele fica sem nada para fazer.
interrompe ele com um sorriso. Mas ela continua:
E este é o único sítio onde há internet à borla – acredita que é importante saber (no dia seguinte, à noite, lembrei-me da advertência quando vi uns quantos jovens encostados às paredes, de telemóvel na mão). E ali é a minha casa, informa-me pouco depois (muito pouco depois). Despedimo-nos, ela com um até logo que nunca veio a concretizar-se.
Vínhamos no mesmo voo, no bimotor Saab da São Tomé Airways, com indicações em cirílico por baixo das escritas em português e tripulação ucraniana, que assegura a ligação de 40 minutos, entre São Tomé e o Príncipe, a poucas dezenas de passageiros. À chegada, estaria alguém da residencial para me levar do pequeno aeroporto para a povoação.
Sr. Daniel?
Perguntam-me assim que cruzo a porta, de saco às costas. Seguimos até ao estacionamento e ela acompanha-nos. Dentro do jeep, é ele quem nos apresenta, após algumas perguntas de circunstância sobre o voo e sobre a minha proveniência em Portugal. Diz-me que partilho o carro com uma personalidade importante. Ela afasta essa caracterização. Explica-me porque chove mais, demasiado, no Príncipe do que em São Tomé (onde há zonas de savana) e a erosão que está a causar nos terrenos e nas praias. O seu nome incomum – Estrela Matilde – ajuda-me a que seja capaz de o recordar mais tarde e a procurar na internet da residencial. Aqui fica uma reportagem da TVI sobre esta alentejana que assentou arraiais naquele sítio remoto.
interrompe ele com um sorriso. Mas ela continua:
E este é o único sítio onde há internet à borla – acredita que é importante saber (no dia seguinte, à noite, lembrei-me da advertência quando vi uns quantos jovens encostados às paredes, de telemóvel na mão). E ali é a minha casa, informa-me pouco depois (muito pouco depois). Despedimo-nos, ela com um até logo que nunca veio a concretizar-se.
Vínhamos no mesmo voo, no bimotor Saab da São Tomé Airways, com indicações em cirílico por baixo das escritas em português e tripulação ucraniana, que assegura a ligação de 40 minutos, entre São Tomé e o Príncipe, a poucas dezenas de passageiros. À chegada, estaria alguém da residencial para me levar do pequeno aeroporto para a povoação.
Sr. Daniel?
Perguntam-me assim que cruzo a porta, de saco às costas. Seguimos até ao estacionamento e ela acompanha-nos. Dentro do jeep, é ele quem nos apresenta, após algumas perguntas de circunstância sobre o voo e sobre a minha proveniência em Portugal. Diz-me que partilho o carro com uma personalidade importante. Ela afasta essa caracterização. Explica-me porque chove mais, demasiado, no Príncipe do que em São Tomé (onde há zonas de savana) e a erosão que está a causar nos terrenos e nas praias. O seu nome incomum – Estrela Matilde – ajuda-me a que seja capaz de o recordar mais tarde e a procurar na internet da residencial. Aqui fica uma reportagem da TVI sobre esta alentejana que assentou arraiais naquele sítio remoto.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2019
Mau fígado
Enquanto não for determinado que outro órgão, para além do fígado, sofra da mesma maleita, declaro a expressão "cirrose hepática" um valente pleonasmo.
terça-feira, 24 de dezembro de 2019
Tribalismo
«(...), the claim that humans have an innate imperative to identify with a nation-state (...) is bad evolutionary psychology. Like the supposed innate imperative to belong to a religion, it confuses a vulnerability with a need. People undoubtedly feel solidarity with their tribe, but whatever intuition of "tribe" we are born with cannot be a nation-state, which is historical artefact of the 1648 Treaties of Westphalia. (Nor could it be race, since our evolutionary ancestors seldom met a person of another race.) In reality, the cognitive category of a tribe, in-group, or coalition is abstract and multidimensional. People see themselves as belonging to many overlapping tribes: their clan, hometown, native country, adopted country, religion, ethnic group, alma mater, fraternity or sorority, political party, employer, service organisation, sports team, even brand of camera equipment. (If you want to see tribalism at its fiercest, check out a "Nikon vs. Canon" Internet discussion group.)»
Enlightenment now, Steven Pinker
Enlightenment now, Steven Pinker
segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
sábado, 21 de dezembro de 2019
Repentinamente
De um momento para o outro, o orçamento de Estado para a orçamento do Estado. Confesso que ainda não me habituei.
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
Estávamos a ver os Jogos Olímpicos, não me lembro há quanto tempo.
Ele sentado na cadeira à minha direita, eu no sofá. Estavam a decorrer as provas de atletismo e a transmissão ia acompanhando as diferentes modalidades agendadas para o dia. Uma delas era o lançamento de peso ou de martelo, não me lembro exactamente qual, mas era seguramente uma das modalidades de força. E, um aspecto sobre o qual não tenho a mínima dúvida, tratava-se da vertente feminina.
A certa altura, a câmara foca uma das senhoras possantes, de cabelo curto, que se preparava para mais um ensaio. Sentado ao meu lado, soltou um riso contido e, com um sorriso na cara, olhou para mim e perguntou-me se sabia como se chama a uma mulher daquelas na terra dele. Respondi que não sabia e preparei-me para o que aí vinha.
Macha
disse-me, e não resisti a rir-me deste (chamemos-lhe) feminino de macho, que não destoa terrivelmente numa terra onde também há cadelos, raparigos, tomatas e ervo (na era do correcto automático, é um desafio escrever estes termos). Mas há ainda uma particularidade relevante nesta palavra "macha": tal como em muitos outros sítios do país, o "ch" é pronunciado como se fosse precedido de um "t", ou seja, é como, por exemplo, o "tch" de "tchouriça". Ou seja, "macha", na prática, diz-se "matcha".
E esta é a razão pela qual sempre que ouço falar no chá tradicional dos japoneses me vem à cabeça uma senhora de equipamento de desporto e um dorsal e, sobretudo, com poucos traços alusivos à sua condição feminina.
A certa altura, a câmara foca uma das senhoras possantes, de cabelo curto, que se preparava para mais um ensaio. Sentado ao meu lado, soltou um riso contido e, com um sorriso na cara, olhou para mim e perguntou-me se sabia como se chama a uma mulher daquelas na terra dele. Respondi que não sabia e preparei-me para o que aí vinha.
Macha
disse-me, e não resisti a rir-me deste (chamemos-lhe) feminino de macho, que não destoa terrivelmente numa terra onde também há cadelos, raparigos, tomatas e ervo (na era do correcto automático, é um desafio escrever estes termos). Mas há ainda uma particularidade relevante nesta palavra "macha": tal como em muitos outros sítios do país, o "ch" é pronunciado como se fosse precedido de um "t", ou seja, é como, por exemplo, o "tch" de "tchouriça". Ou seja, "macha", na prática, diz-se "matcha".
E esta é a razão pela qual sempre que ouço falar no chá tradicional dos japoneses me vem à cabeça uma senhora de equipamento de desporto e um dorsal e, sobretudo, com poucos traços alusivos à sua condição feminina.
terça-feira, 10 de dezembro de 2019
Energia
«Energy channeled by knowledge is the elixir with which we stave off entropy, and advances in energy capture are advances in human destiny. The invention of farming around ten thousand years ago multiplied the availability of calories from cultivated plants and domesticated animals, freed a portion of the population from the demands of hunting and gathering, and eventually gave them the luxury of writing, thinking, and accumulating their ideas. Around 500 BCE, in what philosopher Karl Jaspers called Axial Age, several widely separated cultures pivoted from systems of ritual sacrifice that merely warded off misfortune to systems of philosophical and religious belief that promoted selflessness and promised spiritual transcendence. Taoism and Confucianism in China, Hinduism, Buddhism, and Jainism in India, Zoroastrianism in Persia, Second Temple Judaism in Judea, and classical Greek philosophy and drama emerged within a few centuries of one another. (Confucius, Buddha, Pythagoras, Aeschylus, and the last of the Hebrew prophets walked the earth at the same time.) Recently an interdisciplinary team of scholars identified the common cause. It was not an aura of spirituality that descended on the planet but something more prosaic: energy capture.»
Enlightenment now, Steven Pinker
Enlightenment now, Steven Pinker
terça-feira, 12 de novembro de 2019
segunda-feira, 11 de novembro de 2019
Golden Arches
«Perhaps the most hubristic passage in Thomas Friedman's The Lexus ant the Olive Tree is his assertion that globalization 'increases the incentives for not making war and increases the costs of going to war in more ways than in the previous era in modern history'. To reinforce his point, Friedman propounds ´The Golden Arches Theory of Conflict Prevention', according to which no two countries, both of which have at least one McDonald's franchise, have gone to war. Friedman's book was published on 17 May 1999, less than two months after the United States had gone to war with the Republic of Yugoslavia - apparently oblivious to the well-advertised presence of McDonald's in Belgrade.»
The cash nexus, Niall Ferguson
The cash nexus, Niall Ferguson
quinta-feira, 7 de novembro de 2019
Já foi há alguns meses (um ano) que ouvi a melodia:
num programa do Colbert, foi tocada pela banda residente como separador ou como música de entrada de um convidado, não me lembro ao certo. De imediato reconheci, sabia perfeitamente que já tinha ouvido e tocado aquelas notas, mas não conseguia precisar que tema era. E, apesar de perfeitamente capaz de me recordar da melodia (ainda pensei que, passado algum tempo, me fosse esquecer), continuei na ignorância.
Há dias, a propósito deste post, fui novamente ouvir o álbum em questão, The real McCoy. E aí estava, logo na primeira faixa, a melodia em causa era a primeira parte do B do Passion Dance, com o qual me tinha cruzado há uns 10 anos e nunca mais tinha ouvido.
(com os devidos bemóis)
Mi Sol Lá Lá
Mi Sol Si Lá
Mi Sol Lá Lá
Mi Sol Si Lá
Há dias, a propósito deste post, fui novamente ouvir o álbum em questão, The real McCoy. E aí estava, logo na primeira faixa, a melodia em causa era a primeira parte do B do Passion Dance, com o qual me tinha cruzado há uns 10 anos e nunca mais tinha ouvido.
(com os devidos bemóis)
Mi Sol Lá Lá
Mi Sol Si Lá
Mi Sol Lá Lá
Mi Sol Si Lá
quarta-feira, 6 de novembro de 2019
domingo, 3 de novembro de 2019
Discriminatório
As letras dos frascos de shampoo e gel de banho dos hotéis são sempre pequeninas, apenas para pessoas que vêem bem.
sábado, 2 de novembro de 2019
Não faz sentido que as vozes dos aparelhos dos aparelhos de GPS sejam femininas:
É um estereótipo relativamente consensual que as senhoras têm um sentido de orientação menos apurado que o dos senhores.
quinta-feira, 31 de outubro de 2019
The real McCoy
De repente, a meio da conversa, oiço-a dizer "the real McCoy", não me lembro a propósito de quê. Aliás, é possível que tenha esquecido tudo o resto apenas porque a expressão me interessou tanto, sugou toda a minha atenção e fez-me desconsiderar todo o resto do que disse. Pergunto-lhe, de imediato, se é uma expressão comum e ela diz-me que sim. Significa algo como "the real thing". Explico-lhe o meu súbito interesse: é o nome de um álbum do pianista McCoy Tyner. Ela, que não conhecia o Tyner, gosta do jogo de palavras que o título do álbum encerra. Eu, que conhecia o álbum mas não a expressão, fico a gostar ainda mais do título.
quarta-feira, 30 de outubro de 2019
Tragédia
«But who is set up for the impossible that is going to happen? Who is set up for tragedy and the incomprehensibility of suffering? Nobody. The tragedy of the man not set up for tragedy - that is every man's tragedy.»
American Pastoral, Philip Roth
American Pastoral, Philip Roth
quarta-feira, 9 de outubro de 2019
Padrão de Oz
«In The Wizard of Oz, Dorothy, the Scarecrow, the Tin Man and the Lion have to follow a winding and hazardous 'yellow brick road' in order to reach their destination. Few devotees of the classic Judy Garland movie are aware that the original 1900 book by Frank Baum was a satire on America's entry into the gold standard.»
The cash nexus, Niall Ferguson
The cash nexus, Niall Ferguson
terça-feira, 8 de outubro de 2019
segunda-feira, 7 de outubro de 2019
Geringonça de Brad Mehldau atinge a maioria absoluta
(Publicado originalmente aqui)
Quis o destino que este concerto do trio de Brad Mehldau – que, ainda por cima, tem como mais recente álbum Seymour reads the constitution! –, tivesse lugar em dia de eleições legislativas. Duas horas após o fecho das urnas, e várias após este que vos escreve ter cumprido o seu dever cívico, os três músicos fizeram a sua entrada no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
Poder-se-ia considerar este trio como uma espécie de geringonça: Mehldau tem as rédeas do piano na mão mas necessita do apoio musical do baixo de Grenadier e da bateria de Jeff Ballard para governar harmónica e melodicamente e conseguir aprovar as suas propostas musicais. Até que ponto as negociações foram complicadas, intensas, até que ponto houve cedências de parte a parte, nada disso é conhecido. Sabemos, isso sim, que, de vez em quando, Mehldau prefere governar a solo, com ou sem maioria. Aliás, os restantes membros da coligação musical também têm os seus projectos alternativos, não existe qualquer tipo de exclusividade nesta relação. Mas, quando juntos no mesmo palco, surgem como uma frente unida, com um programa bem-definido, cuja implementação é seguida à risca.
A campanha parece ter resultado em cheio: o povo, galvanizado, compareceu em força, encheu a sala de espectáculos, que está praticamente lotada. O nível de abstenção é extremamente reduzido. Lá à frente, no palco, depois da tradicional vénia de mãos cerradas, Mehldau assume um posicionamento mais à esquerda, Grenadier ocupa o centro e Ballard o lado direito. Apesar desta disposição, Mehldau toca com a cabeça virada à direita, aproveitando para, de quando em quando, dar uma discreta piscadela de olho e tentar ocupar um pouco do espaço dos restantes membros.
Findo o terceiro tema e sensivelmente a meio do setlist, Mehldau dirige-se ao público pela primeira vez. Agradece, também na língua de Camões, diz-se “happy to be here” e apresenta os parceiros de palco. Depois dá-nos algumas palavras sobre o que acabámos de ouvir: o primeiro tema é um original, ainda sem nome e, por isso, com o original título “No title”; “Good old days” foi o segundo; o terceiro foi “Twiggy”, do álbum Ode que, segundo nos explica, designa alguém. Mais do que isso: “she’s here tonight and she knows who she is. But more on that later”.
Com este véu de mistério, vira-se novamente para o teclado e ataca as teclas. A retórica não é o seu forte, Mehldau é claramente um tecnocrata do piano, um daqueles personagens que só vêem pautas à frente e que estão concentrados em fazer apenas o que lhes competem. Passa pelo “I should care”, uma magnifíca versão que desagua numa deambulação solitária ao piano, e termina o set com “Highway rider”, tema que deu nome ao álbum lançado em 2010.
No segundo encore da noite, Mehldau entra sozinho em palco. Explica-nos que se encontra na mesma cidade que a sua esposa, Fleurine, e desvenda-nos o mistério que deixou no ar: é ela a tal “twiggy”, que dá o titulo à música, e irá coligar-se a ele para o próximo tema. Claramente Mehldau não tem medo dos críticos que tecem acusações de nepotismo – o pianista não tem qualquer dúvida sobre a competência da sua parceira musical e certamente garante que a sua escolha não está minimamente relacionada com os laços conjugais e/ou familiares. A holandesa entra, qual “flausine”, de vestido longo e viola ao pescoço, ajeita o microfone e fala ao público no seu português transatlântico com toque flamengo. Diz-nos que estará em Lisboa a tocar naquele mesmo Grande Auditório a 24 de Outubro e que o tema se chama “Sonhando”.
Sejam quais forem as cores e preferências de cada um, parece-me inegável afirmar que este trio se trata de uma geringonça bem oleada, entrosada, que funciona com poucas fricções. Não se notam quaisquer divergências programáticas entre os membros: os temas que executam parecem ser escolhas com as quais todos se revêem e das quais não precisam de se distanciar para evitar qualquer prejuízo junto das respectivas bases. Sondagens e impressões recolhidas à boca do Grande Auditório indicam que tem grande probabilidade de se manter por mais alguns ciclos eleitorais. Pela minha parte, faço já aqui a minha declaração de voto.
Quis o destino que este concerto do trio de Brad Mehldau – que, ainda por cima, tem como mais recente álbum Seymour reads the constitution! –, tivesse lugar em dia de eleições legislativas. Duas horas após o fecho das urnas, e várias após este que vos escreve ter cumprido o seu dever cívico, os três músicos fizeram a sua entrada no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
Poder-se-ia considerar este trio como uma espécie de geringonça: Mehldau tem as rédeas do piano na mão mas necessita do apoio musical do baixo de Grenadier e da bateria de Jeff Ballard para governar harmónica e melodicamente e conseguir aprovar as suas propostas musicais. Até que ponto as negociações foram complicadas, intensas, até que ponto houve cedências de parte a parte, nada disso é conhecido. Sabemos, isso sim, que, de vez em quando, Mehldau prefere governar a solo, com ou sem maioria. Aliás, os restantes membros da coligação musical também têm os seus projectos alternativos, não existe qualquer tipo de exclusividade nesta relação. Mas, quando juntos no mesmo palco, surgem como uma frente unida, com um programa bem-definido, cuja implementação é seguida à risca.
A campanha parece ter resultado em cheio: o povo, galvanizado, compareceu em força, encheu a sala de espectáculos, que está praticamente lotada. O nível de abstenção é extremamente reduzido. Lá à frente, no palco, depois da tradicional vénia de mãos cerradas, Mehldau assume um posicionamento mais à esquerda, Grenadier ocupa o centro e Ballard o lado direito. Apesar desta disposição, Mehldau toca com a cabeça virada à direita, aproveitando para, de quando em quando, dar uma discreta piscadela de olho e tentar ocupar um pouco do espaço dos restantes membros.
Findo o terceiro tema e sensivelmente a meio do setlist, Mehldau dirige-se ao público pela primeira vez. Agradece, também na língua de Camões, diz-se “happy to be here” e apresenta os parceiros de palco. Depois dá-nos algumas palavras sobre o que acabámos de ouvir: o primeiro tema é um original, ainda sem nome e, por isso, com o original título “No title”; “Good old days” foi o segundo; o terceiro foi “Twiggy”, do álbum Ode que, segundo nos explica, designa alguém. Mais do que isso: “she’s here tonight and she knows who she is. But more on that later”.
Com este véu de mistério, vira-se novamente para o teclado e ataca as teclas. A retórica não é o seu forte, Mehldau é claramente um tecnocrata do piano, um daqueles personagens que só vêem pautas à frente e que estão concentrados em fazer apenas o que lhes competem. Passa pelo “I should care”, uma magnifíca versão que desagua numa deambulação solitária ao piano, e termina o set com “Highway rider”, tema que deu nome ao álbum lançado em 2010.
No segundo encore da noite, Mehldau entra sozinho em palco. Explica-nos que se encontra na mesma cidade que a sua esposa, Fleurine, e desvenda-nos o mistério que deixou no ar: é ela a tal “twiggy”, que dá o titulo à música, e irá coligar-se a ele para o próximo tema. Claramente Mehldau não tem medo dos críticos que tecem acusações de nepotismo – o pianista não tem qualquer dúvida sobre a competência da sua parceira musical e certamente garante que a sua escolha não está minimamente relacionada com os laços conjugais e/ou familiares. A holandesa entra, qual “flausine”, de vestido longo e viola ao pescoço, ajeita o microfone e fala ao público no seu português transatlântico com toque flamengo. Diz-nos que estará em Lisboa a tocar naquele mesmo Grande Auditório a 24 de Outubro e que o tema se chama “Sonhando”.
Sejam quais forem as cores e preferências de cada um, parece-me inegável afirmar que este trio se trata de uma geringonça bem oleada, entrosada, que funciona com poucas fricções. Não se notam quaisquer divergências programáticas entre os membros: os temas que executam parecem ser escolhas com as quais todos se revêem e das quais não precisam de se distanciar para evitar qualquer prejuízo junto das respectivas bases. Sondagens e impressões recolhidas à boca do Grande Auditório indicam que tem grande probabilidade de se manter por mais alguns ciclos eleitorais. Pela minha parte, faço já aqui a minha declaração de voto.
domingo, 6 de outubro de 2019
O Gente Que Não Sabe Estar coloca um dilema de prisioneiro aos convidados.
Nenhum dos convidados tem grande vontade para ali estar, sujeito ao desconforto das perguntas incisivas e de ser alvo de gozação e chacota. A questão é que existe sempre o incentivo para ir: se um dado político for e o rival não for, aquele que vai faz boa figura e o que não vai faz má figura. O que não vai passa por alguém que não se sente à vontade num ambiente que não lhe é favorável, com pouco fair play e, até, com pouca coragem para enfrentar o escárnio do Ricardo Araújo Pereira e do resto da equipa. Esta hipótese é aquela que gera o resultado mais favorável para um dos elementos - aquele que vai ao programa - mas também o menos favorável - para aquele que não vai.
Ora, por causa disso, para evitar ser apanhado na curva e fazer má figura por não ir quando o outro vai, só resta mesma uma hipótese: dizer sempre que sim à produção do programa. Ou seja, todos lá vão, é este o equilíbrio de Nash. Neste caso, ninguém verdadeiramente se destaca e, por isso, acabam os vários rivais por fazer algo que, no fundo, não querem.
Antecipando este desenlace, o ideal seria que combinassem todos, à partida, não ir ao programa. Desta forma, ninguém teria que passar por aquele mau bocado e, ao mesmo tempo, nenhum deles pareceria estar a fazer birrinha por não ir quando o outro vai. O problema é que o incentivo para desviar deste equilíbrio é suficientemente forte que qualquer compromisso prévio não seria suficientemente credível. Não resta outra hipótese senão assistir à gozação é aos inúmeros sorrisos amarelos.
Ora, por causa disso, para evitar ser apanhado na curva e fazer má figura por não ir quando o outro vai, só resta mesma uma hipótese: dizer sempre que sim à produção do programa. Ou seja, todos lá vão, é este o equilíbrio de Nash. Neste caso, ninguém verdadeiramente se destaca e, por isso, acabam os vários rivais por fazer algo que, no fundo, não querem.
Antecipando este desenlace, o ideal seria que combinassem todos, à partida, não ir ao programa. Desta forma, ninguém teria que passar por aquele mau bocado e, ao mesmo tempo, nenhum deles pareceria estar a fazer birrinha por não ir quando o outro vai. O problema é que o incentivo para desviar deste equilíbrio é suficientemente forte que qualquer compromisso prévio não seria suficientemente credível. Não resta outra hipótese senão assistir à gozação é aos inúmeros sorrisos amarelos.
quinta-feira, 3 de outubro de 2019
Ubiquidade
Já tinha assistido àqueles que verificam o telefone entre exercícios, enquanto alongam. Por vezes nas posições mais estranhas e incómodas. Mas há sempre espaço para a novidade: assim que entrou na sauna, ainda não tinha tido tempo para fechar a porta atrás de si, ouviu-se o som do telemóvel a chamar a atenção para a recepção de uma mensagem. Foi então que reparei que tinha o aparelho na mão direita. Subiu o segundo nível do banco, sentou-se lá em cima, de lado, com as costas contra a madeira quente e as pernas esticadas ao longo das tábuas do banco. E assim ficou, entretido a responder às mensagens. E com o som do aparelho ligado: ouvíamos o barulhinho irritante de cada vez que teclava.
quarta-feira, 2 de outubro de 2019
Estômago
Difícil não ter algum respeito por Santana Lopes na actual posição: é preciso estômago para, com o percurso dele, se sentar no meio dos candidatos dos partidos sem representação na assembleia, no debate de 2a feira.
terça-feira, 1 de outubro de 2019
segunda-feira, 30 de setembro de 2019
Botão
De cada vez que se levanta para receber o convidado da segunda parte do programa, o RAP abotoa, rápida e atrapalhadamente, o blazer enquanto a vítima surge, cumprimenta, e volta a desabotoar, rápida atrapalhadamente, o mesmo blazer, a tempo de se sentar na cadeira. No total, o blazer permanece abotoado uns poucos segundos.
domingo, 29 de setembro de 2019
He tells it like it is
Uma das virtudes do presidente americano, de acordo com os apoiantes, é a frontalidade, de dizer as coisas tal como elas são ("He tells it like it is"), sem rodeios, doa a quem doer. Tendo em conta a elevada média diária de mentiras (por vezes gritantes) - e, quando confrontado com algumas, as constantes alegações de factos alternativos e acusações de fake news - é possível que a mentira e a desinformação sejam as coisas tal como elas são.
domingo, 22 de setembro de 2019
sábado, 21 de setembro de 2019
Despotismo
«"Democracy is the spawn of despotism," Frazier said, continuing to look out the window. "And like father, like son. Democracy is power and rule. It's not the will of the people, remember; it's the will of the majority." He turned and, in a husky voice which broke in flight like a tumbler pigeon on the word "out," he added, "My heart goes out to the everlasting minority." He seemed ready to cry, but I could not tell whether it was in sympathy for the oppressed or in rage at his failure to convince Castle.
"In a democracy," he went on, "there is no check against despotism, because the principle of democracy is supposed to be itself a check. But i guarantees only that the majority will not be despotically ruled."»
Walden Two, B. F. Skinner
"In a democracy," he went on, "there is no check against despotism, because the principle of democracy is supposed to be itself a check. But i guarantees only that the majority will not be despotically ruled."»
Walden Two, B. F. Skinner
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