Como qualquer aluno de secundário tive que passar pela experiência marcante de dividir orações na disciplina de Português (B, no meu caso). Normalmente, as melhores recordações que guardamos desse período escolar não estão associadas a essa tarefa e eu não sou excepção. Lembro-me de um caso concreto que me parecia particularmente difícil de destrinçar, o das frases relativas e integrantes. Sem conseguir perceber o que as distinguia, a minha estratégia, sempre que questionado directamente – de outra forma não me atrevia a abrir a boca – era apostar na Lei de Laplace: um caso favorável e dois possíveis davam-me cinquenta por cento de probabilidade de acertar.
Só mais tarde e à custa de algum francês, entendi qual a dificuldade de perceber se o “que” é relativo ou integrante. É que, enquanto em português tudo é “que”, em francês temos não só o “que”, mas também o “qui”. O primeiro é integrante (“je pense que”) e o segundo refere-se ao complemento de objecto directo, ou seja, é relativo (“L’homme, qui est vieux, (…)”). Percebido isto, acabaram-se as dúvidas.
O mesmo é válido para alemão (russo também segue a mesma lógica). Neste caso com uma precisão ainda maior no caso do “que” relativo porque a forma é diferente para os três géneros que esta língua tem: masculino (“Der Mann, der alt ist, (…)”); feminino (“Die Frau, die alt ist, (…)”) e neutro (“Das Auto, das alt ist(…)”). E, para distinguir do caso em que é relativo, “dass” é o equivalente ao “que” integrante em português (“Ich denke dass”).
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Trapos de língua #22
Estamos isolados quando classificamos palavras como “viagem” e “mensagem” de femininas: “el viaje” e “le voyage”; “el mesaje” e “le message”. Na verdade, qualquer palavra terminada em “aje” em espanhol e “age” em francês, é masculina por definição (com algumas excepções, claro está, como “la plage”)
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Trapos de língua #21
É curioso como nas línguas latinas arrumamos tudo em dois géneros. Não há nada que não seja passível de ser classificado como masculino ou feminino. E, no limite, há tanta coisa que não faz sentido encaixada nesta lógica. As línguas germânicas e eslavas resolveram esta questão e arranjaram um terceiro género, o neutro, que resolve os casos em que atribuir um género é complicado. Por exemplo, “carro” é, para nós, uma palavra masculina. Pensando friamente no assunto, tenho alguma dificuldade em perceber por que carga de água será um carro masculino – aparte a óbvia associação sexista de homens a carros.
Em alemão, “Auto” é uma palavra neutra.
Mais. “O homem”, “der Mann” é claramente masculino; “a mulher”, “die Frau”, é claramente feminino; mas “a criança”, feminino para nós, é, na verdade, uma palavra que se pode referir tanto a um rapaz como a uma rapariga. Os alemães resolvem a questão com “das Kind”.
Em alemão, “Auto” é uma palavra neutra.
Mais. “O homem”, “der Mann” é claramente masculino; “a mulher”, “die Frau”, é claramente feminino; mas “a criança”, feminino para nós, é, na verdade, uma palavra que se pode referir tanto a um rapaz como a uma rapariga. Os alemães resolvem a questão com “das Kind”.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Trapos de língua #20
“Faire un bordel” é fazer confusão. Um “con” é um tipo parvo. Só isso. Em contrapartida, chamar “conas” a um português pode ter exactamente o mesmo propósito mas tem muito mais força, continua a ser uma palavra com impacto. Outro: o “je m’en fous” está mais próximo do “não quero saber” do que do “estou a foder-me para isso”. Embora, literalmente, seja igual ao segundo.
Ou seja, de certa forma, as "gros mos" são tão corriqueiramente usadas que acabaram por perder parte do seu significado. Esta desacralização dos palavrões é interessante, é uma quase democratização de todas as palavras, como se nenhuma fosse mais baixa do que outra, e que não existe em português – pelo menos não ao mesmo nível. Mas tem certamente os seus inconvenientes. No dia em que quiserem mesmo insultar alguém, os espanhóis e os franceses vão ter menos pedras para mandar aos outros que nós.
Ou seja, de certa forma, as "gros mos" são tão corriqueiramente usadas que acabaram por perder parte do seu significado. Esta desacralização dos palavrões é interessante, é uma quase democratização de todas as palavras, como se nenhuma fosse mais baixa do que outra, e que não existe em português – pelo menos não ao mesmo nível. Mas tem certamente os seus inconvenientes. No dia em que quiserem mesmo insultar alguém, os espanhóis e os franceses vão ter menos pedras para mandar aos outros que nós.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Trapos de língua #19
E ainda há forma como se dizem as coisas. Que, por experiência, vamos adquirindo. Muitas vezes sem percepção. À boa moda portuguesa, “façam silêncio” é uma expressão perfeitamente aceitável; no entanto, ninguém no seu perfeito juízo se atreveria a dizer “make silence”. Também não diríamos “fazer os pratos” – a não ser que, por exemplo, trabalhássemos na Marinha Grande – mas os ingleses têm o “do the dishes”. Uma das expressões mais giras que temos foi-me explicada por um alemão: “limpar o pó”. O que é que é limpar o pó? Vocês limpam os grãozinhos de pó? O pó tira-se e manda-se fora, não se limpa. E, de facto, “Staub wischen” é exactamente isso.
domingo, 27 de dezembro de 2009
Trapos de língua #18
As línguas germânicas têm um conjunto mais vasto de significados que os das línguas latinas. Talvez seja esta a característica que torna o inglês numa língua tão prática. Vamos a exemplos. A junção do “over” com o “sleep” na palavra inglesa “oversleep” resulta num significado que não possuímos em português: “deixei-me dormir” será, talvez, a expressão que mais usamos para estes casos, mas é algo que também pode ser dito na simples situação em que nos deixamos dormir. O “outplay” é fabuloso. Numa palavra, explicamos que dado jogador (ou equipa) jogou mais ou melhor que o adversário. Muitas vezes o “outplay” acaba em “outclass”: quando o tal jogador “outplay” em demasia o adversário e ganha com uma margem confortável, então entramos no campo do “outclass”. Outro que me apraz muito é o “clockwise”, que numa palavra arruma a um canto a expressão “no sentido dos ponteiros do relógio”. O “verpassen” alemão é interessante. Nós dizemos “perder o autocarro” o que pode ser estranho porque dá a entender que o autocarro, propriedade nossa, desapareceu do nosso alcance, não sabemos onde o pusemos. Lá está, os alemães têm esta palavra que traduz o verdadeiro significado de chegar demasiado tarde à paragem, depois de o transporte já ter passado.
Normalmente associa-se a elegância às línguas que soam bem, como italiano ou francês. Pois eu acho que esta lógica, esta maleabilidade e adaptabilidade das línguas germânicas é uma demonstração de elegância à prova de bala.
Normalmente associa-se a elegância às línguas que soam bem, como italiano ou francês. Pois eu acho que esta lógica, esta maleabilidade e adaptabilidade das línguas germânicas é uma demonstração de elegância à prova de bala.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
Trapos de língua #17
Não é que as formas simples (leia-se, sem verbo auxiliar) de passado não existam em francês e alemão. Elas existem mas não muito empregues na oralidade. Estão reservadas sobretudo para a escrita e dão um carácter formalismo ao discurso, sobretudo no caso do francês. Na prática, as construções do tipo “j’ai mangé” ou “ich habe gegessen” são regra. Não é comum ver por aí gente a dizer “je mangeais” ou “ich aβ”. O mesmo existe no espanhol, embora de forma ligeiramente diferente. A construção com auxiliar refere-se a um tempo que está mais próximo enquanto a versão sem auxiliar usa-se para acções mais distantes e não há nenhuma relação com níveis de formalismo diferentes. Por exemplo, “hoy he comido” mas “ayer comí”, “esta semana he comido” mas “la semana pasada comí”, “este año he comido” mas “el año pasado comí”. No entanto, estamos sempre a falar de acções isoladas que decorreram e terminaram no passado.
Em português, nenhuma destas lógicas existe. Não há qualquer diferenciamento em termos do registo de linguagem (mais formal, menos formal). Há apenas alguma noção da proximidade da acção. Se disser “Eu comi” refiro-me a uma acção isolada e terminada. Se disser “Eu tenho comido” então estarei a: dar uma noção de que a acção decorreu recentemente; introduzir um carácter de repetição, como se acrescentasse “nos últimos tempos” ou “ultimamente” à frase. Para além disso, esta acção poderá prolongar-se para o futuro, como se se tratasse de um hábito recém-adquirido.
Em português, nenhuma destas lógicas existe. Não há qualquer diferenciamento em termos do registo de linguagem (mais formal, menos formal). Há apenas alguma noção da proximidade da acção. Se disser “Eu comi” refiro-me a uma acção isolada e terminada. Se disser “Eu tenho comido” então estarei a: dar uma noção de que a acção decorreu recentemente; introduzir um carácter de repetição, como se acrescentasse “nos últimos tempos” ou “ultimamente” à frase. Para além disso, esta acção poderá prolongar-se para o futuro, como se se tratasse de um hábito recém-adquirido.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Trapos de língua #16
O condicional é um tempo verbal que tem a ingrata tarefa de, muitas vezes, atribuir um certo formalismo ao discurso. No mínimo, dá um toque de sofisticação à frase, torna-a mais chique. Talvez por isso, na linguagem oral corrente e coloquial, evitamos a sua utilização, substituindo-o frequentemente pelo pretérito imperfeito. Por exemplo, dizemos, a torto e a direito, coisas como “se eu fosse a ti, fazia…” quando a forma correcta é “se eu fosse a ti, faria…”.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Trapos de língua #15
Só percebi quando percebi que não percebia os condicionais em francês. Nem eram tanto os condicionais, era o primeiro condicional. Porque “si je peux, j’irais” ou “si j’ai l’argent, j’achete” não faz sentido quando a comparação imediata que eu tinha à minha disposição era “se posso, vou” ou “se tenho dinheiro, compro”. E ela dizia-me que eu estava a exagerar e a complicar o que era fácil ao que respondia que aquilo não soava nada bem e acrescentava a forma que me era correcta, “se puder”, “se tiver dinheiro”.
O inglês nunca tinha tido este efeito. Talvez porque é suficientemente distante. “If I can”, “if I have”, não fazem disparar o alarme. Mas a sensação voltou com o espanhol, embora agora já estivesse, de certa forma, preparado para ela: “si puedo”, “si tengo dinero”.
Habituei-me. Mas, ainda hoje, a minha primeira reacção é achar que está errado.
O inglês nunca tinha tido este efeito. Talvez porque é suficientemente distante. “If I can”, “if I have”, não fazem disparar o alarme. Mas a sensação voltou com o espanhol, embora agora já estivesse, de certa forma, preparado para ela: “si puedo”, “si tengo dinero”.
Habituei-me. Mas, ainda hoje, a minha primeira reacção é achar que está errado.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Trapos de língua #14
O futuro próximo em português e francês: “Amanhã vou a Lisboa” e “Demain je vais à Paris”. Mas, em espanhol: “Mañana voy a ir a Madrid”.
O verbo “ir” repetido parece estranho. Aparentemente, nós e os franceses suprimimos esta repetição que parece redundante. Embora a primeira aparição do verbo diga respeito ao tempo da acção e só o segundo explicite qual é, de facto, a acção em causa.
O verbo “ir” repetido parece estranho. Aparentemente, nós e os franceses suprimimos esta repetição que parece redundante. Embora a primeira aparição do verbo diga respeito ao tempo da acção e só o segundo explicite qual é, de facto, a acção em causa.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Trapos de língua #13
O mais elaborado dos números em alemão surge quando se atinge os vinte e um. Passamos por toda a zona dos onze aos dezanove a dizer coisas como “vierzehn” e “achtzehn” e, de repente, “einundzwantig”. Assim, sem mais nem menos. Parece ao contrário: literalmente, “um e vinte”. Já para não dizer que fica tudo pegado, com o “und” no meio a colar duas palavras. E a lógica segue. “Dreiundviertzig” é o quarenta e três e “funfundfunfzig” é o cinquenta e cinco. Ora o problema está na analogia com o inglês. Estes casos seriam, respectivamente, “twenty one”, “forty three” e “fifty five”, o que vai ao encontro do que parece instintivamente lógico.
Mas é curioso verificar que os alemães mantém uma certa coerência. Os números entre dez e vinte são compostos por um algarismo somado de dez: “sechzehn” é a soma de “sech” e “zehn”, ou seja, “seis” e “dez”. E é essa a coerência que é continuada para os vintes, como o tal “einundzwantig” ou “um e vinte”. Nós fazemos uma coisa parecida mas pela ordem inversa. Ou seja, dizemos, “dezasseis”, “dez” mais “seis” e depois “vinte e um”, “vinte” mais “um”. Quem baralha duas lógicas diferentes, afinal, são os anglo-saxónicos. Veja-se o “sixteen”, “six” mais “ten” e o “twenty one”, “twenty” mais “one”.
Mas é curioso verificar que os alemães mantém uma certa coerência. Os números entre dez e vinte são compostos por um algarismo somado de dez: “sechzehn” é a soma de “sech” e “zehn”, ou seja, “seis” e “dez”. E é essa a coerência que é continuada para os vintes, como o tal “einundzwantig” ou “um e vinte”. Nós fazemos uma coisa parecida mas pela ordem inversa. Ou seja, dizemos, “dezasseis”, “dez” mais “seis” e depois “vinte e um”, “vinte” mais “um”. Quem baralha duas lógicas diferentes, afinal, são os anglo-saxónicos. Veja-se o “sixteen”, “six” mais “ten” e o “twenty one”, “twenty” mais “one”.
sábado, 7 de novembro de 2009
Trapos de língua #12
Os verbos “ser” e “ir” são normalmente uns bichos muito raros em qualquer língua que se preze. Altamente irregulares e cheios de coisas estranhas que só lá vão à lei da bala, ou seja, decorando. Um aspecto que me parece muito curioso em português e espanhol é o facto de que a conjugação do pretérito perfeito é exactamente igual (eu fui, tu foste, etc…). Dois verbos com significados tão díspares e, no entanto, são exactamente iguais neste tempo verbal. E só neste tempo verbal; nos restantes mantêm a sua diferença.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Trapos de língua #11
Se é verdade que a proximidade entre o português e o espanhol torna a aprendizagem mais fácil, também não é mentira que, por vezes, essa mesma proximidade não seja enganadora. Claro que em termos líquidos, são mais as vantagens do que as desvantagens.
O exemplo típico das desvantagens é o dos falsos amigos. E que normalmente até tem alguma graça. Ver a palavra “pilas” escrito num recipiente com um orifício pequeno que, na verdade, serve para depositar pilhas usadas para reciclar tem a sua graça. E, se Cuenca é uma cidade a roçar a palavra “cueca”, Braga é mesmo a versão feminina desse termo em espanhol.
São inúmeros os casos do género. O preferido da María, a maior responsável pela minha pronúncia, é o da “folha”: não é capaz de pedir um bocado de papel sem fazer um sorriso. Levado o exercício ao extremo, adora entrar numa pastelaria e pedir um café e um mil-folhas.
O exemplo típico das desvantagens é o dos falsos amigos. E que normalmente até tem alguma graça. Ver a palavra “pilas” escrito num recipiente com um orifício pequeno que, na verdade, serve para depositar pilhas usadas para reciclar tem a sua graça. E, se Cuenca é uma cidade a roçar a palavra “cueca”, Braga é mesmo a versão feminina desse termo em espanhol.
São inúmeros os casos do género. O preferido da María, a maior responsável pela minha pronúncia, é o da “folha”: não é capaz de pedir um bocado de papel sem fazer um sorriso. Levado o exercício ao extremo, adora entrar numa pastelaria e pedir um café e um mil-folhas.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Trapos de língua #10
Há uma certa uniformidade nos “nãos” de várias línguas. Por exemplo, “no”, “non”, “nein”, “niet”. Os “sins”, contrariamente, são diferentes. Por exemplo, “sí”, “oui”, “ja”, “yes”, “da”.
domingo, 25 de outubro de 2009
Trapos de língua #9
Para um português, o verbo “esquecer” é, sem dúvida, reflexivo. “Eu esqueço-me com facilidade”, “esqueci-me de te telefonar”. Para um brasileiro, o mesmo já não é verdade: “eu esqueci” é suficiente, não é preciso mais nada. Os espanhois recorrem ao “olvidar” mas também dizem “he olvidado” e não acrescentam mais nada. Em alemão, a mesma coisa, “ich habe vergessen” e acabou-se a conversa.
Os franceses têm duas possibilidades. O verbo “oublier” não reflexivo é a tradução do “esquecer”. “J’ai oublié de t'appeler”. Agora, a variante reflexiva do mesmo verbo tem um significado bastante diferente: “Elle s’est oubliée”, na tradução mais adequada que me ocorre para português, será “ela descuidou-se”.
Escusado será de dizer já me descuidei imensas vezes em francês, não resisto a conjugar o verbo na forma reflexiva, influenciado pelo “esquecer-me”.
Os franceses têm duas possibilidades. O verbo “oublier” não reflexivo é a tradução do “esquecer”. “J’ai oublié de t'appeler”. Agora, a variante reflexiva do mesmo verbo tem um significado bastante diferente: “Elle s’est oubliée”, na tradução mais adequada que me ocorre para português, será “ela descuidou-se”.
Escusado será de dizer já me descuidei imensas vezes em francês, não resisto a conjugar o verbo na forma reflexiva, influenciado pelo “esquecer-me”.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Trapos de língua #8
Ela insistia no “je me lave les mains” e eu continuava a achar um absurdo. Aquele “me” estava claramente a mais. Não faz sentido nenhum. Mas é óbvio que eu lavo as minhas próprias mãos; você anda para aí a lavar as mãos de outros? E discutimos mais. Ela insistia: o verbo é reflexivo, tem que ter o pronome.
E depois desarmou-me. “Je me lave”, pura e simplesmente. Porque em português, à boa moda do Pilates, eu diria “lavo as mãos” mas poria sempre o “me” – este luso – da discórdia para dizer “eu lavo-me”. Sem as duas letrinhas a seguir ao hífen posso estar não só a mim próprio, mas também à louça suja, ao carro, etc.
Finalmente comecei a atribuir alguma lógica a “lavar-me as mãos”. Ainda para mais porque em espanhol e alemão também há, respectivamente, um “me” – este castelhano – e um “mich” algures na frase equivalente. Agora, uma coisa é certa: soa terrivelmente mal e ninguém me convence do contrário.
E depois desarmou-me. “Je me lave”, pura e simplesmente. Porque em português, à boa moda do Pilates, eu diria “lavo as mãos” mas poria sempre o “me” – este luso – da discórdia para dizer “eu lavo-me”. Sem as duas letrinhas a seguir ao hífen posso estar não só a mim próprio, mas também à louça suja, ao carro, etc.
Finalmente comecei a atribuir alguma lógica a “lavar-me as mãos”. Ainda para mais porque em espanhol e alemão também há, respectivamente, um “me” – este castelhano – e um “mich” algures na frase equivalente. Agora, uma coisa é certa: soa terrivelmente mal e ninguém me convence do contrário.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Trapos de língua #7
De início fazia-me alguma confusão que fosse preciso ter sempre o pronome perto do verbo conjugado. “Je sais”, “I know”. Porque em português eu podia dizer “sei” e estava arrumado o assunto, toda a gente sabia que era eu que sabia. Depois reparei na relação unívoca entre as formas verbais e as pessoas a que se referem. A forma “sei” não se confunde com a de outra pessoa e, portanto, só posso estar a referir-me ao “eu”. Da mesma forma que, por exemplo, “sabes” só pode ser “tu” e “sabemos” “nós”. E da mesma forma que os espanhóis, porque “sé” só se for “yo”, “sabes” “tu”, etc.
É claro que em inglês isto é impossível. O “know” pode referir-se a “I”, “you” (singular e plural), “we”, “they”. Em francês, embora a escrita permita diferenciar alguns dos casos (primeira e segunda pessoas da terceira, no caso do verbo “savoir”) a fonética é exactamente igual: “je sais”, “tu sais”, “il sait” não têm nenhuma diferença excepto no pronome. Com verbos regulares do primeiro grupo, a confusão alastra um pouco mais: “je mange”,”tu manges”, “il mange”, “ils mangent”. Em alemão, a primeira e terceira pessoas do plural, no presente, são iguais ao infinitivo do verbo: “wir wissen” e “sie wissen”.
Só num pormenor a lógica falha: nas terceiras pessoas. “Ele” ou “ela” “sabe”; “eles” ou “elas” “sabem”?
É claro que em inglês isto é impossível. O “know” pode referir-se a “I”, “you” (singular e plural), “we”, “they”. Em francês, embora a escrita permita diferenciar alguns dos casos (primeira e segunda pessoas da terceira, no caso do verbo “savoir”) a fonética é exactamente igual: “je sais”, “tu sais”, “il sait” não têm nenhuma diferença excepto no pronome. Com verbos regulares do primeiro grupo, a confusão alastra um pouco mais: “je mange”,”tu manges”, “il mange”, “ils mangent”. Em alemão, a primeira e terceira pessoas do plural, no presente, são iguais ao infinitivo do verbo: “wir wissen” e “sie wissen”.
Só num pormenor a lógica falha: nas terceiras pessoas. “Ele” ou “ela” “sabe”; “eles” ou “elas” “sabem”?
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Trapos de língua #6
É um castigo saber os dias da semana noutras línguas. Em miúdo, das coisas que mais me custou foi distinguir “tuesday” de “thursday”. Lembro-me das aulas na escola, íamos rotativamente ao quadro escrever o “summary” e isso implicava escrever a data. Por extenso. Houve um ano em que as aulas eram às terças e quintas e, de todas as vezes que percorria o caminho entre a última fila de cadeiras (sim, eu ficava sempre lá ao fundo) e o quadro, ia a fazer contas de cabeça. Em princípio, não me enganava. Mas tinha que pensar, usar mnemónicas, nunca foi algo que saísse naturalmente.
E não ficou por aqui. Depois foi “mardi” e a “jeudi”. E “lundi”. Por qualquer razão “mercredi” e “vendredi” foram fáceis. Assim como “miercoles” e “viernes”, embora, lá está, “martes” e “jueves” não sejam nada naturais. “Mittwoch” é fácil porque é auto-explicativa: meia semana. Agora “Dienstag” e “Donnerstag” ainda terão que ser bem treinadas.
É curioso notar que o sábado e o domingo nunca foram dias problemáticos. A proximidade com português é bastante maior. E quebrou-se aquela associação natural que não consigo deixar de fazer entre dias da semana e números. Do dois ao seis. E é isso que depois me dificulta a transposição para as terças-feiras e quintas-feiras das outras línguas: falta-lhes o número do dia.
E não ficou por aqui. Depois foi “mardi” e a “jeudi”. E “lundi”. Por qualquer razão “mercredi” e “vendredi” foram fáceis. Assim como “miercoles” e “viernes”, embora, lá está, “martes” e “jueves” não sejam nada naturais. “Mittwoch” é fácil porque é auto-explicativa: meia semana. Agora “Dienstag” e “Donnerstag” ainda terão que ser bem treinadas.
É curioso notar que o sábado e o domingo nunca foram dias problemáticos. A proximidade com português é bastante maior. E quebrou-se aquela associação natural que não consigo deixar de fazer entre dias da semana e números. Do dois ao seis. E é isso que depois me dificulta a transposição para as terças-feiras e quintas-feiras das outras línguas: falta-lhes o número do dia.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Trapos de língua #5
“De dez em dez minutos uma pessoa é assaltada em Nova Iorque”. A interpretação normal desta frase seria presumir que as vítimas dos assaltos são pessoas distintas. No entanto, esta frase é ambígua porque também pode ser empregue para referir o caso em que é sempre o(a) mesmo(a) infeliz que é assaltado(a) vezes sem conta. A razão para a escolha da primeira interpretação é simples: o primeiro caso é mais provável do que o segundo caso.
Há um princípio economicista por detrás da evolução das línguas. Aparentemente, tornar o discurso “desambiguo” é custoso. E, portanto, para uma frase que possa ter mais do que um significado mas em que um deles tem uma probabilidade suficientemente grande (ou suficientemente pequena), introduzir uma explicação adicional que resolva essa ambiguidade é de uma utilidade praticamente nula. Esta ideia de que todos nós fazemos uma espécie de análise de máxima verosimilhança quando comunicamos é o que diz (de outra forma e mais coisa menos coisa) a regra de Horn.
Há um princípio economicista por detrás da evolução das línguas. Aparentemente, tornar o discurso “desambiguo” é custoso. E, portanto, para uma frase que possa ter mais do que um significado mas em que um deles tem uma probabilidade suficientemente grande (ou suficientemente pequena), introduzir uma explicação adicional que resolva essa ambiguidade é de uma utilidade praticamente nula. Esta ideia de que todos nós fazemos uma espécie de análise de máxima verosimilhança quando comunicamos é o que diz (de outra forma e mais coisa menos coisa) a regra de Horn.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Trapos de Língua #4
Não foram os primeiros, longe disso, a perguntar-me se temos outra língua ou dialecto. Falei-lhes do mirandês, língua com a qual praticamente nunca tive qualquer tipo de contacto. Ficam um pouco admirados. Mais nada? Sim, só o mirandês. Não temos mais nenhuma língua oficial ou dialecto que eu conheça. Temos diferentes sotaques regionais mas é só isso. De resto, só unidade linguística.
E depois ficámos a remoer. Eles, espanhóis, tinham, para além do castelhano, o catalão, o basco, o galego, para dar como exemplos. Síndrome de país pequeno? Não. Lembrei-me da Holanda. Os dialectos. Todos falam flamengo, com sotaques diferente no norte e no sul. E depois, nas vilas e aldeias do Limburgo, cada um daqueles holandeses vai para casa falar um qualquer dialecto com os pais, dialecto esse cujo uso está confinado a uma área geográfica bastante restrita.
E depois ficámos a remoer. Eles, espanhóis, tinham, para além do castelhano, o catalão, o basco, o galego, para dar como exemplos. Síndrome de país pequeno? Não. Lembrei-me da Holanda. Os dialectos. Todos falam flamengo, com sotaques diferente no norte e no sul. E depois, nas vilas e aldeias do Limburgo, cada um daqueles holandeses vai para casa falar um qualquer dialecto com os pais, dialecto esse cujo uso está confinado a uma área geográfica bastante restrita.
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