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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Ler e escrever

Dizer "lês bem" é reservado a crianças, que estão a ser alfabetizadas. Quem sabe ler, sabe ler bem: em si, ler, é uma capacidade mecânica e, se tiver um cariz mais artístico, passa a ser entoar. Já dizer "escreves bem" é uma constatação de uma capacidade que está para lá mera mecânica da escrita de palavras, frases, textos. Quem sabe escrever não sabe necessariamente escrever bem.  

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Oratória de balneário

O debate entre André Ventura e Francisco Rodrigues dos Santos mais parecia ter lugar num balneário de uma aula de educação física do ensino básico. Só faltaram frases iniciadas com "a tua mãe".  

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Os 60 Grand Slams

A grande (única?) questão devia ser só quem termina com o melhor palmarés. Em si, a questão não é, neste momento, fácil de responder. A métrica que costumava servir para qualquer desempate teima em mostrar um empate redondo: três jogadores com 20 títulos de Grand Slam cada um. Na senda de arranjar uma tira-teimas, há quem olhe para vitórias nos torneios que se seguem na hierarquia (Masters 1000 e a respectiva final), bem como para o confronto directo. Em ambos os critérios, Djokovic sairia por cima: no primeiro, está tangencialmente à frente de Nadal (mais uma vitória) e claramente à frente de Federer (mais nove vitórias); no segundo critério, é o único que tem frente-a-frente favorável face aos outros dois (Nadal tem face a Federer e o suíço tem desfavorável face aos dois). 

Donde uma vitória adicional num Grand Slam poderia ser o ponto final na discussão de quem é o tenista com melhor percurso. Não aconteceu o ano passado, na final do US Open, na qual Djokovic perdeu o controle emocional e nem mesmo ele, Houdini que consegue evadir-se das situações mais complicadas no court, mostrou um indício de ser capaz de dar a volta a um marcador que lhe foi sempre desfavorável. Já para não falar do episódio do US Open de 2020, de uma da bola atirada num rasgo de frustração e que veio a atingir um juiz de linha na cara. E que, claro, não obstante não ter sido intencional, acabou com a imediata desqualificação (como não podia deixar de ser). 

É é assim que chegamos ao início da época de 2022. Uma nova (e, já sabemos, desperdiçada) hipótese de ultrapassar Nadal e Federer voltava a presentear-se, desta feita no court onde foi mais bem sucedido: nove vitórias em Melbourne, quase metade de todos os Grand Slams. Resta saber as implicações adicionais que a decisão das autoridades australianas poderá vir a ter, designadamente, se a deportação implica que Nole não poderá entrar na Austrália nos próximos três anos. E, claro, quais as regras que outros países e torneios terão em vigor: para já, França e Roland Garros parecem vir a exigir também a vacinação dos atletas.  

Como entusiasta de ténis - e sem, de maneira nenhuma, querer desculpabilizá-lo -, é uma pena não poder ver o sérvio jogar nesta edição do Open da Austrália e gostaria que não fosse afastado de mais nenhum torneio. Mas é só mesmo nessa qualidade. 


sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

A várias mãos

No primeiro debate das legislativas que assisti, Rui Rio constatou o que parece óbvio: nem o PS nem o PSD conseguirão governar sozinhos, independentemente de quem ganhe. Não haverá maioria absoluta e será necessário chegar a um entendimento com outros partidos do chamado "arco da governação" para formar uma solução de governo. E é possível que esta seja uma característica que tenha vindo para ficar e que o tempo em que faziam constantes apelos a maiorias absolutas e a votos úteis tenha ficado para trás. 

Coligações e acordos parlamentares sãos seguramente menos estáveis e têm maior probabilidade de desmoronar do que soluções em que só um partido é suficiente para governar. Relativamente aos acordos parlamentares, a experiência da "geringonça" está muito fresca na memória colectiva que, acaso necessitasse, facilmente seria avivada com as constantes referências que têm surgido na actual campanha. No caso das coligações, basta recuar uns 10 anos até aos atritos entre PSD e CDS no governo de Passos Coelho, cujo expoente máximo terá possivelmente tido lugar aquando do célebre episódio do "irrevogável".

No papel onde a teoria é escrita, o produto que resulta do diálogo - de falar e de ouvir, de entendimentos e desentendimentos, negociações com exigências e cedências - terá uma boa probabilidade de melhor reflectir diferentes opiniões e sensibilidades e, por isso, ser mais inclusivo. A questão é saber qual dos dois pesa mais: se aquilo que se ganha com a estabilidade ou com a diversidade. Tendo a achar que, à medida que nos habituamos à ideia de que maiorias absolutas são coisa do passado, as soluções governativas a várias mãos tenderão a ser mais estáveis. 

 

terça-feira, 9 de novembro de 2021

It's all in the reflexes

O impacto da digitalização e robotização no mercado laboral não é uma discussão recente. O espectro de profissões que podem vir a ser afectadas é bastante alargado mas há algumas, tais como os condutores de camiões, que são consideradas quase como casos paradigmáticos. Os progressos no desenvolvimento de tecnologias de condução automática passaram a ser uma espécie de espada de Dâmocles que paira sobre a cabeça dos profissionais do sector. 

Por isso é que os mais recentes relatos de escassez de condutores de camiões têm alguma piada. Primeiro foi no Reino Unido, relacionado com as dificuldades de obtenção de visto de mão-de-obra estrangeira. Mais recentemente, nos EUA, onde muitos trabalhadores do sector (assim como de outros, tais como a resturação e hotelaria) decidiram abandonar os empregos duros, fisicamente exigentes, que em alguns casos causam disrupção na vida pessoal e familiar e, ainda para mais, não fantasticamente bem pagos. 

The biggest kink in America's supply chain: not enough truckers


segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Outsourcing

 «The problem of outsourcing morality is that it exacerbates the original problem of the absence of internal inhibitions or constraints. Everyone either will try to walk the fine line between legality and illegality (doing things that are unethical but technically legal) or will break the law while trying not to be caught. Breaking the law is not unique to today's commercialized societies. But what is unique is for people to claim that they have done everything in the most ethical manner possible if they have remained just barely on the right side of the law, or, if they have strayed into illegality, that is the business of others to catch them and prove they have broken the law. Internal check, stemming from one's own belief in what is moral and what is not, seem to play no role whatsoever. 

This is perhaps most obvious in commercialized sports, where the old-fashioned notions of fair play, which internalised acceptable conduct, have all but disappeared and have been replaced by behavior that, in some cases openly breaks the rules. Such behavior is fully accepted and even encouraged, since people believe that it is up to the referees alone to enforce the rules. Take the 2009 example of the famous soccer goal marked by hand by Thierry Henry, which allowed the French national team to qualify for the World Cup and sent the Irish team home. No one, from Henry to the last French supporter, denies that the goal was scored by hand, that it was illegal, and that is should not have been allowed to stand. But they would not draw the obvious consequences. In everyone's opinion the matter was not to be decided by Henry (say, by his telling the referee that the goal was illegal) or by his teammates (doing the same thing), but solely by the referee. Once the referee, not having seen how the goal was scored, has accepted it, the goal is as legal as can be, and there is no shame in celebrating it. Or even bragging about it.»

Capitalism, Alone, Branko Milanovic

domingo, 15 de agosto de 2021

Distância

«Global inequality of opportunity is not generally considered a problem at all, much less a problem in need of a solution. Within nation-states, many people regard the intergenerational transmission of family-acquired wealth as rather objectionable; but among nations, the intergenerational transmission of collectively acquired wealth is not considered an object of concern. This is interesting because individuals' links to their family are closer than their links to an entire community, and one might thing that the transmission of family wealth across generations could be viewed as less objectionable than the transmission of societal wealth across generations of unrelated individuals. The reason that it is not seems to lie in one crucial difference, namely that in the first case, where the intergenerational transmission of wealth tase place within the same community, individuals can easily compare their positions with each other, and they resent injustice; in the other case, inequality is international, and individuals cannot easily compare themselves or perhaps they do not care to do so (or, at least, the rich do not). Distance, as Aristotle noted, often makes people indifferent to the lot of others, perhaps because they do not see them as peers with whom they compare their income or wealth.» 

Capitalism, Alone, Branko Milanovic

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Pessoas de armas

Gendarme é daquelas palavras que têm uma lógica auto-explicativa bastante vincada. Lembro-me quando, em miúdo, me explicaram o que me deveria ser óbvio mas não era. A palavra foi-me pronunciada devagar, separando o "gens" de "d'armes", de forma quase teatral. A associação destas pessoas com armas a uma força policial, por seu turno, foi imediata. 

O modelo de força militar com responsabilidades policiais e de assegurar o cumprimento da lei foi exportado para vários países, incluindo para a portuguesa Guarda Nacional Republicana. Nem todos conservaram a piada da palavra (uma vez mais, como a GNR); já os italianos desenrascaram-se lindamente com os carabinieri. 

Ocorreu-me que, pela força da razão do significado da palavra, a solução francesa não funcionaria em todo o lado: por exemplo, nos EUA falar em pessoas com armas não permite distinguir forças policiais de qualquer outro cidadão. 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Porsches e cozinhas

Não, até porque o foco está muito na pequena fraude com os fundos, estão a recuperar-se as histórias que ocorreram nos anos de 1980, 1990, do empresário que recebeu o dinheiro dos fundos europeus e que em vez de o investir foi comprar um Porsche. Essas fraudes, neste momento, estão muito mais controladas, diria que já não se fazem, mas que permitem ao discurso político vir dizer: ‘Como viram, isto correu tudo bem porque já ninguém comprou Porsches ou renovou a cozinha’. E é verdade que está tudo mais informatizado e é mais difícil fazer uma fraude desse género neste momento. Mas com o foco neste tipo de fraudes, esquece-se todo o resto, que é o que acontece a montante, e isto de duas formas: a primeira, é com a escolha dos projetos que são financiados, há vários tipos de financiamentos europeus, diversas formas de fazer o financiamento, que podem ir, por exemplo, para aquelas linhas de financiamento das empresas, e quando se fala de fraude, e é aí que devemos ter agora alguma da atenção. Mas há outras coisas. As grandes obras públicas têm sido financiadas por fundos europeus, e aí a questão não é tanto quem é que ficou com o dinheiro. Imagine-se que se volta a fazer um TGV, a escolha do TGV ou a opção por fazer um novo aeroporto, temos que pode ser desnecessária a obra em si, ou desnecessário o tamanho da obra, mas que se decide fazer porque se sabe que isso vai favorecer determinados grupos económicos, ou até a localização das obras. Fazendo-se uma grande obra no município x em vez de se fazer no município y, porque o município x é governado pelo partido do poder ou porque é necessário, também por razões políticas, que ali haja um determinado benefício.

terça-feira, 1 de junho de 2021

Bot

Há quase 10 anos, no filme Her, um Joaquin Phoenix contemplativo apaixona-se por uma Scarlett Johansson assistente virtual de computador. Com este enredo, o realizador Spike Jonze testou-nos ao confrontar-nos com o nascimento e desenvolvimento de uma relação que, por gritantemente heterodoxa que seja, acaba por ter traços verdadeiramente humanos em terreno onde não parecia ser possível vê-los nascer. 

Hoje leio esta notícia sobre o recurso a bots para sessões terapêuticas. 

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Irrealismo prodigioso

«Se a História, no sentido restrito do «conhecimento do historiável», é o horizonte próprio onde melhor se apercebe o que é ou não é a realidade nacional, a mais sumária autópsia da nossa historiografia revela o irrealismo prodigioso da imagem que os Portugueses se fazem de si mesmos.»

O labirinto da saudade, Eduardo Lourenço

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Direito

«O direito não é aquilo que eu desejo muito ou que sinto fortemente que me é devido. O direito é aquilo que os outros reconhecem como sendo o meu direito. Se os outros não reconhecem o meu direito, ou se só uma parte reconhece, ou ainda se reconhecem apenas em parte, nesse caso o que tenho não é um direito mas uma exigência.» 

Caros fanáticos, Amos Oz 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Totalitário

«To be an unbeliever is not to be merely "open-minded". It is, rather, a decisive admission of uncertainty that is dialectically connected to the repudiation of the totalitarian principle, in the mind as well as in politics.»

Hitch-22, Christopher Hitchens


segunda-feira, 22 de março de 2021

Sotaque

Na sua autobiografia - intitulada Hitch-22 -, Christopher Hitchens fala da experiência de ser um britânico nos EUA, assim um pouco à semelhança do célebre tema de Sting. Um dos aspectos que realça são as diferenças na utilização da língua inglesa. Refere, inclusivamente - e este é um fenómeno que, segundo consta, abrange outros anglo-falantes não-americanos em terras do tio Sam - que a sua sonoridade britânica teria sido, em algumas circunstâncias, uma boa alavanca para conquistas junto do sexo oposto. Neste contexto, relata o episódio de uma jovem, que se terá referido ao seu "sotaque"; Hitchens respondeu-lhe, de imediato, que seguramente ele não tinha sotaque, mas sim o contrário: ela é que tinha.  

Este episódio, por sua vez, fez-me recordar um outro muito semelhante, protagonizado por José Saramago: no decurso de uma entrevista, uma jornalista brasileira disse-lhe que tinha dificuldade em perceber o seu "sotaque", ao que Saramago de imediato retorquiu, com o tom seco e austero que o caracterizava, que "sotaque tem a senhora". O escritor português não avançou, contudo, se, na sua experiência, o sotaque, perdão, o português de Portugal granjeia qualquer tipo de vantagem junto do sexo feminino luso-falante doutras latitudes. 

A noção da ausência de sotaque no país de origem da língua, para além de soar um certo toque de sobranceria, acarreta, em si, algumas inconsistências. Desde logo porque não permite categorizar os diferentes sotaques dentro do próprio país de origem. Das duas uma: ou nenhum é sotaque - o que é chato porque eu ia jurar que já ouvi o sotaque do Porto, açoreano, madeirense, alentejano, algarvio, das Beiras, de Setúbal, de Viseu, etc.; ou são todos excepto um, que é o não-sotaque, e em cujo caso é necessário definir qual é exactamente este último. 

Costuma dizer-se que o português falado na região de Coimbra é o mais correcto ou mais aproximado do padrão da língua. Mas, acaso este fosse o não-sotaque, teríamos outro problema: do ponto de vista da origem - a lógica aparentemente subjacente aos comentários de Hitchens e Saramago - Coimbra não fará sentido. Certamente teríamos que rumar mais a norte.

A minha sugestão simplificadora é aceitar que todos temos sotaque. Embora um(ns) coincida(m) com a forma como a língua se fala numa parte do território onde originariamente se formou.  

quarta-feira, 17 de março de 2021

Equivalência

À pergunta do jornalista sobre a ausência de processo anterior na política, Nuno Graciano retorque que tal não é correcto: o candidato do Chega à Câmara Municipal de Lisboa foi presidente (ou coisa que o valha) da associação de estudantes (ou coisa que o valha) no liceu e na universidade (ou coisa que o valha).