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quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A blackfriar walks into a whitechapel #8

O sentimento de nostalgia pré-regresso começou progressivamente a instalar-se. Não limitou os planos de última hora: no últimos sábado, fizemos de tudo quase um pouco, incluindo mercados, parque, fish and chips, jazz e sing along. No dia seguinte, o despertador tocou relativamente cedo. Arrumámos as últimas coisas e preparámos a casa para os nossos anfitriões, já ausentes de nossa casa, e prestes a embarcar para regressar a casa, a partir de Itália. 

Uma última olhadela para ver se não nos esquecemos de nada. E mais outra última olhadela, que às vezes as coisas são fugidias e gostam de se esconder onde não devem. Saco às costas, porta fechada, chaves na caixa do correio. Dali apanhámos um Uber (ou Freenow ou Bolt) até ao expresso para o aeroporto, com tempo suficiente para acautelar possíveis atrasos e complicações decorrentes dos requisitos adicionais associados a viajar com pandemias em curso.

Mala despachada, passagem pela segurança e o terminal abriu-se à nossa frente. No quadro do aeroporto de Stansted, à frente dos voos que ainda não têm porta de embarque atribuída, lê-se a palavra "relax".  

terça-feira, 28 de setembro de 2021

A blackfriar walks into a whitechapel #7

As ruas do Soho estavam repletas de mesas a ocupar o asfalto, onde gente descontraída conversava, enquanto bebia. Galgámos, em passo estugado, as centenas de metros de distância a que o Uber (ou Free Now ou Bolt) teve de nos deixar, devido a um trajecto temporariamente bloqueado. Já passava das 17h30 a que as portas abriam e os lugares não eram marcados, apenas a zona dos bilhetes era pré-definida. A hora não era a melhor, mas a segunda sessão da noite, assim como as datas de sábado, já só tinham zonas de visibilidade reduzida disponíveis. Foi assim que decidimos optar por esta solução de final de tarde de 6a feira, cientes de que seguramente iria envolver uma correria para conseguir despachar o trabalho e sair a tempo de navegar na hora de ponta. 

Pela segunda vez, dei por mim na fila para entrar no Ronnie Scott's. Desta vez para o espectáculo principal: da primeira vez, estive no espectáculo de menos destaque, que tem lugar no "upstairs". Dei o meu nome ao recepcionista e uma funcionária levou-nos às cabines disponíveis para sentar. Ficámos do lado direito do palco e aproveitámos para pedir jantar de imediato e evitar fazê-lo depois da música começar.  

O espectáculo em causa foi escolhido em função das datas em que estaríamos em Londres e não - sem qualquer desprimor, mais uma consequência de ignorância - porque conhecesse os artistas em causa. Enfim, em boa verdade, resultou de uma busca online dentre as várias alternativas existentes: a possibilidade de ver uma banda homenagem a Jimi Hendrix é sempre difícil de descartar. 

E depois há as características da banda, que só se tornam possíveis num local destes. Uma big band que, para além do guitarrista, líder da banda, de um teclista e da secção rítmica, tem três naipes de sopros, de quatro elementos cada: saxofones (barítono, tenor e alto), trompetes e trombone de varas. Ou seja, um total de 16 (sim, dezasseis) músicos em palco. Esta não é uma formação típica de bar de jazz, pelo menos aqueles que associamos a caves pequenas e escuras; em alguns, nem caberiam no palco. É necessário uma audiência grande e bem pagante, com jantar incluido, e duas sessões por noite, para que uma formação do género possa ser rentável.

Ou seja, dito de outra forma: entre bilhetes e jantar, gastámos uma pipa de massa. Mas valeu bem a pena. O concerto arrancou com o Ain't no telling (primeiro vídeo abaixo), que me pôs de imediato a cantar e, no final, a responder à pergunta "quem sabe o nome desta música?", o que mereceu um gesto de aprovação do saxofonista alto. Depois disso foi uma enxurrada de temas de Hendrix, com óptimos arranjos, que deram uso e exploraram os inúmeros recursos que uma formação destas permite.  Passado umas duas horas, regressámos à movimentadas ruas do Soho com uma barrigada que era mais de groove do que do jantar em si. 

(o segundo vídeo é de uma gravação de um espectáculo feito no início do ano, sem público, durante o confinamento)






 

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

A blackfriar walks into a whitechapel #6

Ao passar a porta do prédio para a rua, de manhã, o céu ainda estava encoberto. Corria um ventilo matinal, que justificava uma camisola fina. Algumas horas depois, quando saí das entranhas da terra, depois da visita aos Cabinet War Rooms, fui recebido por um céu azul e um calor abafado pouco condizentes com a latitude.

Caminhei por entre pessoas vestidas com equipamento de desporto e dorsais: aparentemente, tinha acabado uma qualquer prova de desporto. Perto de Westminster, apanhei um autocarro até ao Marble Arch, a poucos passos do Speaker's Corner do Hyde Park, onde fiquei a observar (à sombra e à distância, claro está) os oradores e a interacção acesa que mantiveram com alguns dos espectadores. 

No local onde tínhamos uma mesa reservada para um sunday roast, pedimos para ficar dentro em vez de na esplanada, à beira canal. De barriga cheia, seguimos para o Tate Modern, aproveitando para tirar fotos na Millennium Bridge. A visita ao museu durou pouco, chegámos perto da hora de encerramento. Dali, resolvemos caminhar ao longo da margem do Tamisa, até chegar à Torre Bridge, onde uma multidão aproveitava o fim do dia. 

terça-feira, 21 de setembro de 2021

A blackfriar walks into a whitechapel #5

Dois eventos marcantes da vida britânica durante a nossa estadia. 

A primeira, uma questão política: o anúncio - precedida de uns zunzuns, como costuma ser apanágio das notícias de relevo - de um aumento de impostos, destinado a financiar o famoso National Health Service, pressionado pela Covid. Uma das motivações para o financiamento adicional é o tratamento das pessoas que ficaram em lista de espera, resultantes da reordenação de emergência de recursos para o combate à pandemia, em detrimento de outras necessidades assistenciais. A reacção foi acesa, como com qualquer outro anúncio de aumento de impostos, ainda para mais porque emanou de um governo de direita.  

A segunda, no campo do desporto: o desempenho da jovem britânica Emma Raducanu no US Open. A cada ronda que passava, a imprensa jubilava. Vinda do qualifying, foi despachando todas as adversárias que lhe passaram pela frente, sem apelo nem agravo. Após os quartos de final, seria a primeira tenista nestas condições a chegar tão longe num US Open. Depois tornou-se a primeira chegar à final e depois tornou-se a primeira a ganhar. Como se tudo isto não fosse ainda suficiente, Raducanu resolveu ganhar um Slam sem perder sequer um set.

domingo, 19 de setembro de 2021

A blackfriar walks into a whitechapel #4

A Covid morreu. Poderia ser o lema, o mote dos britânicos, a fazer lembrar a célebre frase de Nietzsche. Ou pelo menos assim parece: há poucas pessoas a usar máscara em locais públicos, mesmo que fechados. Por exemplo, nos transportes públicos, nas lojas e supermercados, no cinema, nos espectáculos. Contrastamos de tal forma que, por vezes, sentimo-nos extra-terrestres de máscara posta. Apenas uma vez - para ver um concerto no Royal Albert Hall - nos foi exigido o certificado de vacinação.

É difícil conceber, tendo em conta o elevado número de casos diários de infeção e que os níveis de vacinação já não parecem assim tão impressionantes. Ainda para mais, a experiência de Israel - a candeia que alumia duas vezes ou canary in the coal mine - já havia exemplificado como 60-70% de pessoas totalmente vacinadas não impede o surgimento de surtos.  

No regresso a Lisboa - onde a percentagem de pessoas vacinadas é mais elevada e o número de infeções muito mais baixo -, dou por mim a andar na rua sem máscara e - uma vez mais, pelo contraste - a sentir a pressão social de a pôr.


sábado, 18 de setembro de 2021

A blackfriar walks into a whitechapel #3

É importante não tirar férias: trabalhar, mesmo que seja à distância, torna a experiência mais interessante. E, acaso seja possível usar este termo neste circunstância, até mesmo autêntica, na medida em que permite afastar, em certa medida, a percepção de turismo. E, dessa forma, contribui para gerar a ideia (ilusão?) de que somos residentes da cidade. É certo que programamos os fins de dia de semana e os fins-de-semana ao milímetro, para aproveitar todos os bocadinhos de tempo disponível, de uma forma que não faríamos se fossemos verdadeiramente locais - não seria necessária esta correria, esta ânsia. Nem a carteira aguentaria tamanho rombo, entre restaurantes, bilhetes de museus, espectáculos, concertos. O resultado final fica algures entre ser um local e um turista.  

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

A blackfriar walks into a whitechapel #2

De repente, no meio dos preparativos sou assolado por uma dúvida: será que posso entrar no Reino Unido apenas com o cartão de cidadão, agora que o país saiu oficialmente da União Europeia? A dúvida coloca-se porque o meu passaporte caducou algures no início do ano, quando o país (e grande parte do mundo) estava totalmente fechado e as infecções e mortes por Covid se sucediam a um ritmo assustador. Como não podia deixar de ser, os serviços para renovar documentos foram encerrados e a validade de alguns documentos oficiais foi excepcionalmente prolongada. Em Maio, consegui fazer uma marcação para renovar o passaporte, mas só para meados de Setembro, demasiado tarde para o pretendido. 

De imediato procurei no (entretanto relativamente familiar) site do governo britânico e, para meu (nosso) descanso, verifiquei que ainda era possível. Mas tangencialmente: a entrada com os cartões nacionais dos países do UE só é permitida até 30 de Setembro; a partir de 1 de Outubro, é necessário um passaporte válido, tal como para os países extra-comunitários, que o Reino Unido resolveu voltar a ser. No meio de alguns azares, nesta questão tivemos sorte.

A parte menos simpática -  - foi a fila do controlo fronteiriço no aeroporto de Stansted. Com o passaporte, poderíamos ter evitado a longa espera passando numa das máquina electrónicas. O problema já se colocava antes e justificava plenamente o recurso à utilização do passaporte electrónico muito antes de Brexit sequer pairar no horizonte: o Reino Unido não pertencia ao espaço Schengen e, portanto, havia sempre que passar no controlo fronteiriço. Ser sujeito a este processo, ainda para mais demorado, nesta altura, fez-me sentir a barreira com mais intensidade. 

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

A blackfriar walks into a whitechapel #1

A ideia parte de uma premissa simples: eles vivem em Londres e gostariam de vir passar uns dias em Lisboa: nós vivemos em Lisboa e gostaríamos de passar uns dias em Londres. Os quatro preferimos não pagar alojamento, se possível. Nem taxas de intermediários, de sites que funcionam como uma espécie de Tinder do imobiliário de curto-prazo.  

Parece que se designa "house swap", um termo que, até então, me era totalmente desconhecido. E não estava sozinho na ignorância: já depois de ter dito a alguns amigos que ia fazer uma troca de domicílio por umas semanas, um deles perguntou-me se sempre ia fazer o tal "swing". 

O resto é história. Enfim, uma história um pouco mais longa e com alguns contratempos. A primeira tentativa foi em Maio, com data prevista para Junho. Infelizmente, já com tudo combinado com a outra parelha, bilhetes comprados, testes à Covid comprados e muito investimento emocional, o governo britânico colocou Portugal na lista âmbar. Parece pouco significativo mudar de verde para uma espécie de amarelo mas esta alteração implicaria uma quarentena de 14 dias à chegada ao Reino Unido, mesmo que tivéssemos testes à Covid negativos. Escusado será de dizer que 14 dias obrigatoriamente em casa deitariam por terra o propósito da aventura. 

Enterrámos o assunto, chateados. O Freud diria que a experiência ficou recalcada e eu digo que gerou mau-humor e frustração. Sem antever um upgrade de Portugal que levasse o país novamente ao topo-de-gama da lista verde, não haveria outra possibilidade, disse eu, a certa altura, pesaroso e pouco esperançado. 

Até que houve: apesar do Euro-cepticismo o governo britânico passou (finalmente!) a aceitar o certificado de vacinação da União Europeia (aquela coisa da qual faziam parte até há coisa de uns dias). Em consequência, mesmo oriundos de um país colocado na lista âmbar, ser-nos-ia permitido entrar em terras de Sua Majestade sem obrigatoriedade de quarentena. 

Falámos novamente com a parelha. Exumámos a ideia, ajustando os dias para o final do verão. Marcámos o voo para o dia imediatamente a seguir aos 14 dias sobre a data de última vacina do meu certificado. E foi assim que aqui chegámos.  

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Ilha Graciosa II

Subimos uns degraus que levam ao topo de uma espécie de fortaleza que ladeia e protege a praia. Percorremos aquele pequeno trilho elevado na expectativa de encontrar um novo conjunto de degraus que nos permita descer para a areia. Resignados, descemos mais à frente, após o areal, para o lado oposto onde está a estrada. Só então nos apercebemos que a entrada é feita por um arco na mesma estrutura, no topo da qual caminhámos antes. Como se a praia tivesse uma porta que a guardasse de visitantes indesejados. 

Pares de espreguiçadeiras com um guarda-sol de palha no meio preenchem uma parte da areia escura. Há algumas livres e decidimos usar um par. Resolvo ir perguntar à rapariga que trabalha no café que fica à direita da entrada quanto é o aluguer das ditas espreguiçadeiras. Recebo uma resposta, repleta de sotaque, que deita por terra a minha pré-concepção do urbana do mundo

Ó senhor não custa nada, as espreguiçadeiras são públicas. 


É verdade, ainda há disto.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Ilha Graciosa

Uns dias antes da chegada, perguntamos ao senhor que nos aluga o carro como fazer o levantamento, que tínhamos pedido para o aeroporto. Diz-nos que um Toyota Corolla, cinza prata, a gasolina, com a matrícula assim-assado, estará à nossa espera nas últimas filas do parque de estacionamento, perto das árvores, com a chave no cinzeiro. É precisamente aí que o volto a deixar, passados dois dias, antes de ir para o voo de regresso à Terceira: praticamente no mesmo lugar de estacionamento (só não é no mesmo porque estava ocupado) e com a chave no cinzeiro.

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

São Jorge ou fajã-hopping

Os deuses da meteorologia estão contra nós. A chuva e o nevoeiro denso teimam em não desaparecer e, com base nos conselhos dos entendidos, rapidamente percebemos que não vai ser possível fazer o trilho que liga a Serra do Topo à Fajã dos Cubres, passando pela Fajã da Caldeira de Santo Cristo, um dos ex-libris da ilha. Para além de perdermos a vista que motiva a caminhada, o chão fica enlameado e convidativo a escorregadelas.  

Desapontados, rumamos ainda assim à Fajã dos Cubres, onde tipicamente os caminheiros estacionam os carros, que ali fica à espera até que terminem o trajecto, e arranjam boleia que os leve até ao início. Como a esmagadora maioria das estradas que levam às fajãs, esta é também sinuosa e apertada. Faço figas e rezo a todos os santinhos para não me cruzar com outro veículo. O nevoeiro denso dissipa-se, aos poucos, à medida que vamos descendo. Pelo caminho, abrandamos perto de um senhor que vem no sentido ascendente e nos sossega: lá em baixo o tempo está aberto. 

 

À chegada ao pequeno parque de estacionamento, perto da igreja, ocorre-me que há forma de minimizar o estrago: pode ser que consigamos fazer apenas a parte do trajecto que liga as duas fajãs e voltar, mantendo-nos sempre ao nível do mar. A senhora do quiosque onde compramos umas garrafas de água confirma que é perfeitamente possível e demora uns 45 minutos.

 

Fazemo-nos ao caminho. São cerca de 4.5 kms, feitos com algumas subidas e descidas entre as fajãs, muito humidade e calor. A paisagem compensa largamente o esforço e a T-shirt empapada, que exibimos com algum orgulho aos desistentes que se socorrem do serviço de tipos de moto 4.  

 

No regresso, sentamo-nos na esplanada de outra roulotte e completamos o ritual: pedimos uma dose das grandes, vistosas e caras ameijoas da Fajã da Caldeira de Santo Cristo, o único sítio da ilha onde estes lindos espécimes são cultivados. Acompanhadas de pão para o molho, uns camarões fritos e duas minis fresquinhas, é a recompensa pelos 10kms de caminhada. Isso e um duche à chegada ao alojamento.  

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Desde miúdo que fico em polvorosa com viagens.

Faço contagens decrescentes até ao dia da partida. Na véspera durmo mal, muito mal, tal não é a excitação. Desta vez é diferente o que sinto: não é tanto excitação, é mais ansiedade. Ou seja, tem um cariz mais negativo do que positivo. E acho que nunca estive assim ansioso porque é a primeira vez que a realização de uma viagem está dependente do resultado de um teste PCR. Eu não acho que o resultado do teste venha a ser positivo: porque estou de saúde, porque não tive contactos de risco, porque me protejo. Mas mas não vou conseguir descansar enquanto não receber uma mensagem com a palavra "negativo" lá pelo meio. E nem sequer pude ir a correr tratar do assunto para acabar com a minha miséria mais cedo, porque o dito teste tem que ser, no máximo, uns dias antes de partir. Talvez lá para o início da tarde de amanhã - altura em que espero já ter recebido o tão aguardado resultado - possa transformar a ansiedade na mais simpática excitação. E, a partir de um resultado negativo, passe para uma emoção positiva. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

A depressão de final de férias começou lentamente a instalar-se.

Faltava agora apenas o trajecto do Etosha até Windhoek para terminar a viagem. Pelo caminho, tínhamos uma noite no parque de Waterberg. Dos quartos do sopé da estrutura que forma o planalto ouvia-se constantemente os barulhos agressivos dos macacos, que nos obrigavam a ter as portas e janelas constantemente fechadas para evitar invasões e roubos.

Mais perto do final da tarde, depois da hora de maior intensidade do calor passar, fazemos o trajecto de de 30-40 minutos até ao topo do planalto, de cima do qual a vista para não abarcar o horizonte todo. A sessão de fotografias é intensa. À noite, fazemos um churrasco nas instalações do lodge e sentamo-nos a ouvir, pela última vez, as histórias do Gibson. No dia seguinte, pela hora de almoço, estamos de novo no hotel em Windhoek, prontos para as despedidas.

domingo, 26 de janeiro de 2020

Depois de uma primeira tarde de game drive no Etosha desapontante, notava-se alguma apreensão nas caras, quando nos preparávamos para sair.

Pela frente estava um dia totalmente dedicado a ver bicharada no parque, das sete da manhã às seis da tarde, para aproveitar a extensão total do horário de abertura.

A apreensão foi desfeita não muito depois quando nos dirigimos até um aglomerado de veículos. Não sabíamos o que estariam a ver, apenas que certamente seria algo interessante: um conjunto de leões. Sem possibilidade de obter um bom posicionamento – por sermos dos últimos a chegar e pela dimensão do Elefante – optámos por tentar seguir um primeiro subgrupo, que abandonou a sombra da árvore e começou a caminhar.

Lá mais à frente, parados na estrada a ver os leões a afastar-se por terreno sem acesso aos veículos, tivemos a primeira tirada de sorte do dia: as duas leoas que tinham ficado para trás na árvore, levantaram-se e começaram a caminhar em direcção ao resto do grupo, no preciso momento em que estávamos parados entre os dois grupos. Lentamente, languidamente, vieram na nossa direcção, passaram mesmo ao lado do Elefante, uma deitou-se à sombra do veículo, até novamente se levantar e se afastar. Com isto, tivemos todo o tempo para apreciar e tirar uma dose industrial de fotografias, tentando que a excitação do momento não fizesse esquecer as instruções do Gibson de não pôr os braços de fora das janelas do camião.

O momento alto (mais ainda) viria ao início da tarde, quando avistámos uma chita com duas crias, abrigados à exígua sombra de uma árvore. Permanecemos parados algum tempo, a tentar observar por entra aquilo que a vegetação nos deixava ver. Até que o barulho de uma máquina, que passou no sentido contrário, foi a última gota: assustadas, as crias levantaram-se e começaram a afastar-se da mãe. Se, por um lado, perdemos a possibilidade de ver durante mais tempos os animais, por outro lado conseguimos vê-los sem a barreira da árvore e dos ramos.

A terminar o dia, uma manada de elefantes aproxima-se de um charco. Começam por beber, à beira da água. Após satisfazer a sede, vão progressivamente entrando na água, aproveitando para arrefecer o corpo do calor implacável. Cresce-nos um sorriso na cara enquanto os vemos salpicar água pelo corpo com a tromba.

sábado, 25 de janeiro de 2020

O dono do lodge – um afrikaanse magro e grisalho – sobe as escadas do Elefante e dá-nos algumas informações.

Explica-nos que os quartos ficam naturalmente muito quentes quando estão fechados e que não há ar-condicionado. Para dormir, podemos abrir todas as janelas à vontade, nenhum animal vai entrar e não há mosquitos. É como se estivéssemos a dormir ao relento. É recebido com algum cepticismo. Mas, claro, resolvemos testar.

Cada quarto é como uma pequena habitação individual, separado alguns metros dos restantes. A parede onde fica a porta, e onde estão as camas, é a única que não tem janela. À direita das camas, um janelão abre de cima a baixo, a quase totalidade da largura do quarto, para um pequeno terraço, com uma mesa e cadeiras cheias de pó. De frente para as camas, outra parede que é também praticamente só vidro. Finalmente, a parede do fundo tem duas pequenas janelas, entre as divisões que têm o chuveiro e a sanita. No meio das janelas está um lavatório.

Tal como nos havia sido dito, as zebras começam a aparecer ao lusco-fusco, lá ao fundo. Aproximam-se lentamente, dão alguns passos na direcção do buraco de água e param. Esperam um pouco, avaliam a situação, até voltar a ganhar coragem para dar mais outros passos e parar novamente. Sentamo-nos a ver esta aproximação. Torço para que se despachem, é cada vez mais difícil tirar fotografias à medida que a luz vai desaparecendo. Ao mesmo tempo, um cão pequenito e velhote, constantemente a arfar e com uma espécie de carraças a percorrer o lombo, dá voltas consecutivas à propriedade. Surge sempre pela mesma janela da zona do bar e segue pela direita para, passado um pouco, aparecer novamente pela mesma janela, como se estivesse preso numa espécie de Groundhog Day de frequência superior à diária.

Sentamo-nos no terraço a ver as estrelas e as zebras a beber água lá à frente. Embora houvesse um em praticamente todas as camas que passamos, esta foi a única vez na viagem que usei um edredon. Soube bem voltar a dormir tapado. De manhã vemos o nascer do sol.

O dia começa muito cedo, pelas 6h saímos em direcção à Sossusvlei, por forma a evitar a hora de maior calor.

Ironia do destino, acabamos por perder tempo precioso: o Elefante foi vítima de um furo. Quando passámos o portão que dá acesso ao parque, já deveria passar das 11h. A longa e direita estrada corta por uma paisagem de elevações enormes de areia de um cor-de-laranja forte e carregado, que contrasta fortemente com o azul do céu.

A certa altura, a estrada é tomada pela areia e é necessário deixar os veículos num parque, a alguma distância, e apanhar um dos jeeps. A fila de turistas à espera é relativamente grande. Aliás, de todas as atracções turísticas, esta foi a mais concorrida. Esperamos ainda alguns minutos até finalmente ser conduzidos.

À nossa frente está o Big Daddy, uma duna com sensivelmente 325 metros de altura. A estrutura é impressionante: começa do lado direito, por uma pequena elevação, que decai um pouco passados alguns metros, perpendicularmente face ao nosso olhar; depois volta a subir novamente, faz uma viragem à direita quando já está à esquerda do nosso olhar, e continua ininterruptamente até mesmo lá em cima, ao topo, quase a perder de vista.

A maior parte dos aventureiros começa exactamente pelo lado direito, apanhando uma cumeada que percorre todo aquele trajecto. Gibson não considera essa estratégia avisada: segundo ele, são muitos os que, depois de fazer a pequena descida após a primeira elevação, desmoralizam quando vêem a segunda subida, bem mais longa e íngreme. Para evitar este problema, seguimo-lo pelo vale até chegar perto ao local onde a duna atinge o ponto mais baixo, após a primeira elevação. Aí, subimos a face da duna, a parte mais dura de todo o processo, até atingir a cumeada. A partir daí, não tem nada que saber, é sempre a subir. Uma vez chegado ao cume, é preciso fazer alguma ginástica para alcançar os melhores locais, contornado os restantes que ali apreciam a vista e aproveitam o ar mais fresco e a brisa ligeira.

A parte mais curiosa é a descida. Vemos o Gibson sair disparado pela face da duna até chegar ao vale. Resolvemos lançar-nos também com velocidade. Os pés enterram-se na areia áspera, que evita que percamos o balanço e caiamos a face inclinada. Com o movimento, os pés soltam um som grave, que já havíamos ouvido no topo da duna, mas que não percebíamos donde vinha. Quase apetece fazer o esforço de subir novamente para repetir a descida. Uma vez no vale, descalçamo-nos e sacudidos violentamente os ténis para tirar os quilos de areia. Semanas depois, já em Lisboa, ainda descobri areia nos ténis.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Uns minutos depois da pequena casa que serve de recepção, começamos a ver o lodge ao fundo do caminho de terra, na encosta de um pequeno monte rochoso.

São apenas seis quartos e, no meio, uma divisão comum, com uma cozinha, uma mesa comprida e sofás. Em frente a esta divisão comum, a piscina da praxe, virada para o buraco da praxe, a fazer de chamariz para os animais da praxe. Claro está, não há internet nem televisores mas, mais do que isso, nem sequer rede de telemóvel. Numa das noites, a electricidade falha e complica a vida ao grupo de funcionários que ali se deslocou para nos preparar o jantar.

Este foi o momento de ripanço da viagem, sensivelmente a meio dos 16 dias. No final do dia em que chegámos, caminhámos até ao topo do monte ao lado, para ver o pôr-do-sol e lutámos um pouco na descida escorregadia e pouco iluminada. No dia seguinte, saímos de manhã cedo para um passeio, antes do sol se tornar ainda mais impiedoso. A meio da manhã estávamos de regresso para o pequeno-almoço. À noite, depois de jantar, deitámo-nos na espreguiçadeira a contemplar o céu estrelado e a contar as estrelas cadentes.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Parece o cenário de um filme, um pequeno casario espalhado no meio da areia.

Por momentos, leva-me até aos estúdios de cinema que se podem visitar em Marrocos. Mas, contrariamente a essas localidades fictícias que só tiveram existência em filmes, Kolmanskop foi efectivamente, a determinada altura, uma povoação. Fundada no início do século passado, esteve associada à exploração de diamantes no deserto. Após a segunda guerra mundial, a progressiva escassez de diamantes levou a que fosse trocada e abandonada por outros locais onde, entretanto, foram descobertos minérios.

Hoje, a cidade-fantasma a poucos quilómetros da costa é uma atracção turística. Guias exprimindo-se em inglês, alemão e afrikaanse, conduzem rebanhos de turistas pelas antigas construções. Começando no salão de baile – onde o guia de língua inglesa nos mostra a acústica com uma interpretação do “Aleluia”, versão Jeff Buckley, e tocando piano – passamos pelo hospital, pela loja, pela casa do engenheiro, do médico, do governador, entre outros. Para um povoado que contou com algumas centenas de habitantes, há um conjunto de equipamentos relativamente impressionantes, a começar pela máquina de gelo e a pista de bowling, e terminando na máquina de raio-X, a primeira no hemisfério sul.

Pouco tempo antes de ali estarmos, o local foi utilizado para uma sessão fotográfica de moda. A particularidade do local tem atraído, ao longo do tempo, a atenção de fotógrafos e não só. A mais recente alusão ao local é a imagem da capa do álbum Slow Rush dos Tame Impala, cuja divulgação está agendada para o próximo mês.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

O dia seguinte traz-nos uma das deslocações mais longas.

São quase 600 quilómetros de estrada, por vezes duvidosa, até perto da fronteira com a África do Sul. Estamos em pleno deserto do Kalahari que, como ficamos a saber, afinal é apenas um semi-deserto, já que o nível de pluviosidade é um pouco superior ao dos desertos a sério. Até nos desertos há discriminação.

Fazemos um pequeno passeio até ao topo de uma elevação, onde foi instalada uma plataforma de observação. Dali vemos o pôr-do-sol, bombardeados pelo vento que, lá em baixo, faz pequenos tornados, de curta duração, com o pó. Descemos e aproveitamos a pequena piscina, de água um pouco salgada do (semi-)deserto, virada para o buraco de água onde os springboks e os órix abastecem. Não o sabemos ainda nesta fase, mas a piscina virada para o chamariz dos animais vai ser uma constante desta viagem. À noite, bebemos chá rooibos nas cadeiras da rua, a partilhar um cigarro, repletos de repelente de mosquitos.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Gibson chama Elefante ao camião.

Parece um daqueles camiões de abastecimento dos supermercados com a diferença de, onde normalmente está a caixa frigorífica onde vão os alimentos, foi colocada uma vintena de bancos. As janelas do veículo são enormes o que, aliado à própria altura, torna o veículo num óptimo posto de observação.

Ao fundo, há um conjunto de cacifos onde guardamos os sacos de viagem e um frigorífico que mantém a nossa água e alimentos frescos enquanto o motor está a funcionar. A entrada faz-se por uma porta que, quando abre, desdobra umas escadas metálicas, ao estilo dos aviões. De lado, o Elefante tem ainda um conjunto de estruturas amovíveis, que abrem utensílios para fazer e servir refeições.