A notícia dá conta de universidade milanesa que terá considerado cancelar um curso sobre Dostoiévski, assim como de pedidos para remover uma estátua do romancista em Florença. Tolstoi deve estar a dar voltas na campa por não se terem lembrado dele.
sábado, 12 de março de 2022
sexta-feira, 11 de março de 2022
quarta-feira, 2 de março de 2022
Primatas como nós
«Sei que os meus pais não eram apenas aquilo que as minhas memórias de criança garantem que foram. Mas tive de chegar aos quarenta e um anos, tendo sido protagonista do medo, do falhanço, da imprudência, do enfado, do desgosto, da injustiça, do egoísmo, do remorso e da vergonha, para perceber que, embora sublimados na minha infância, eles seriam afinal como eu, como todos os outros: primatas de ânimo inconstante e satisfação temporária, julgando-se especiais de manhã e uma merda à noite; tão paralisados pela dúvida como errados nas certezas; irascíveis por estarem com fome ou sono; mesquinhos no exercício do poder, transportadores de arrependimentos, culpas e mentiras; trabalhando em algo de que não gostavam, ficando na cama numa manhã escura de janeiro; em pânico com a doença, cansados, com ciúmes, suscetíveis ao mau agoiro do boletim meteorológico; dispostos a morrer pelos filhos num dia, mas a atirá-los pela janela no outro.»
Filho da mãe, Hugo Gonçalves
terça-feira, 1 de março de 2022
Reflexologia
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022
Some Kind of Monster
A Netflix resolveu sugerir-me um certo e determinado documentário dos Metallica chamado Some Kind of Monster. O tal que pretendia captar o processo criativo da banda e acabou por ter muito mais do que isso, incluindo crises existenciais, brigas e insultos, uma ida para uma clínica de desintoxicação e sessões de grupo de terapia. De certa forma, dada a coincidência temporal, quase parece uma versão heavy metal dos Sopranos: basta trocar os mafiosos porque tipos cabeludos vestidos de preto e de guitarra em riste.
A verdade é que foi mesmo um momento crítico na existência da banda, uma espécie de vai ou racha, que possivelmente foi desencadeado pelo bater de porta do anterior baixista Jason Newsted, que acabou por trazer ao de cima um conjunto de problemas que necessitavam ser encarados, sob pena de os restantes membros se afastarem de vez.
Agora como é que alguém como eu, que passou uma parte considerável da adolescência borbulhenta a decorar, de cor e salteado, todas as músicas de Metallica, acaba por ver este documentário quase 20 anos depois de ter sido divulgado (que é como quem diz, com quase 20 anos de atraso)?
É uma excelente pergunta e tenho passado os últimos dias a pensar nisso. O afastamento começou a surgir por alturas do Load, o disco que veio logo a seguir ao designado Black Album e que, com os ouvidos de então, me pareceu abaixo da expectativa. Pelo menos foi aí que parou a minha colecção, não tenho mais nenhum depois desse, nem sequer o imediatamente seguinte Reload, que foi baptizado de uma forma relativamente preguiçosa.
Tenho de admitir: chega ao ponto de que, até há pouco, nem sequer sabia que, desde então, a banda lançou três álbuns de estúdio. Quer dizer, do St. Anger tinha alguma ideia - lembro-me, por exemplo, do teledisco filmado na prisão de St. Quentin. Mas desconhecia em absoluto Death Magnetic e Hardwired to Self-Destruct. E isto apesar de, nos anos 2000 ter visto uma ou outra vez a banda ao vivo, quando veio a Portugal.
Passei a tarde de hoje a colmatar parte destas falhas, com um certo sentimento de conforto de quem regressa a casa após uma longa viagem, misturado com a nostalgia da evocação de tempos passados. Um certo tipo de monstruosidade.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022
1º andar
Com o olhar dividido entre a morada que procurei no telemóvel e o número dos prédios da rua, parei à frente de uma porta e achei estranho que o aparelho apenas me dissesse o número do andar, e não se se tratava do esquerdo ou direito. O mistério foi de imediato desfeito pela campainha do prédio: tratavam-se de andares únicos e, por isso, sem mais demoras e sem pensar mais no assunto, carreguei no botão comprido que indicava o número 1. A voz de uma senhora que surgiu do outro lado desarmou-me um pouco; enfim, não tanto a voz, mais o facto de ter respondido de uma forma que não correspondia ao que estaria à espera e, por isso, para quebrar o impasse da comunicação ou ausência da mesma, perguntei
Consultório de oftalmologia?
Não me lembro ipsis verbis da resposta da senhora - seguramente já gizada e farta destas lides - mas insinuava que, claramente, se via que necessitava de ir a uma consulta dessa mesma especialidade. Do outro lado da garagem, disse-me ela, achando apropriado explicar-me que a resposta anterior tinha uma elevada carga irónica. Percebi perfeitamente a ironia, disse-lhe melhor que a localização correcta: a porta imediatamente anterior, pela qual passei sem dar conta, com uma garagem a separá-la daquela onde toquei erradamente à campainha.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2022
Irreverente e irrelevante
«I bought stacks of books, but I didn't read them. I taped sheets of paper to the wall, but I didn't draw. I slid my guitar under the bed. At night, alone, I just sat and waited. Once again I found myself contemplating what I should be doing to do something of worth. Everything I came up with seemed irreverent or irrelevant.»
Just Kids, Patti Smith
domingo, 23 de janeiro de 2022
Embarrassment of riches
quinta-feira, 20 de janeiro de 2022
Só miúdos
«We were walking toward the fountain, the epicentre of activity, when an older couple stopped and openly observed us. Robert enjoyed being noticed, and he affectionately squeezed my hand.
"Oh, take their picture," said the woman to her bemused husband, "I think they're artists."
"Oh, go on," he shrugged. "They're just kids."»
Just kids, Patti Smith
domingo, 9 de janeiro de 2022
Não saber o que é preciso fazer para fazer o que é preciso fazer.
Não ter sequer noção por onde começar. Que, normalmente, se manifesta por um conjunto de arranques inconsequentes, que invariavelmente terminam em embates de frente contra paredes de betão armado. Isso e andar um bocado aos círculos, sem sair do mesmo sítio. No limite, não saber sequer o que é preciso fazer.
Por vezes, o nó Górdio é tão temporário como um fim-de-semana, uns quantos dias de confusão e nevoeiro mental, falta de discernimento. O problema é quando é mais longo: é um exercício bem difícil aceitar que não vale a pena insistir. Olha para outro lado, muda de perspectiva, tudo coisas que não agradam à teimosia.
sábado, 8 de janeiro de 2022
A insustentável leveza do sintoma
domingo, 2 de janeiro de 2022
Dizia-nos que parecia um ferro de engomar.
Porque, vista da estrada, a casa só parecia ter a largura do portão que dava acesso aos carros. Uma vez lá dentro, percebíamos a real dimensão daquela casa onde passámos umas semanas de verão. Eu era um adolescente e lidava mal com os dias de férias no Algarve, que me pareciam repetir-se uns aos outros, sempre iguais, qual Groundhog Day: acordar cedo, ficar à espera que os restantes acordassem sem fazer barulho, tirar senha para ir à única casa-de-banho, sair para a praia (sempre para a da Falésia, apesar das constantes queixas relativas à dificuldade da subida da escadaria e da estrada até ao carro) à hora do cancro, ficar o dia todo a aboborar entre areia e água, regressar, tomar banho, jantar e dormir. Não admira que levasse sempre vários livros e cassetes para o walkman.
Por isso, naquele verão, a possibilidade de passar tempo com outra gente de idades mais próximas da minha e sem ser num apartamento onde estávamos sempre a chocar uns nos outros, foi um verdadeiro bálsamo. Das poucas vezes - senão mesmo a única - que efectivamente gostei daquelas férias. Lembro-me quando descíamos, de manhã, pelo pinhal para a praia de Santa Eulália, e nos deitávamos na areia, na galhofa. Lembro-me de regressar para o almoço, esganados de fome e, umas horas depois, voltar para uma segunda dose de praia de tarde. Houve, inclusivamente, noites em que até fomos à água, sob o céu estrelado, só pela piada.
Pouco tempo depois deste verão, o Algarve acabou-se: passei a ter idade suficiente para conseguir convencer os meus pais a não ir para aquele suplício e ficar na capital. A opção prolongou-se para lá do final da adolescência e pelos primeiros anos e décadas de adulto. Só mais recentemente pus fim ao interregno e recomecei a ir, com alguma frequência. Algumas vezes - ironia do destino - buscando activamente um conjunto de Groundhog Days, daqueles que servem para alhear o cérebro e recarregar baterias.
Num desses dias, fiz a estrada a caminho de Albufeira e, ao passar pelo portão estreito, com a cor pálida a pedir uma nova demão de tinta e ervas a sair pelos intervalos das grades, lembrei-me do ferro de engomar.
domingo, 26 de dezembro de 2021
O casal vinha à minha frente, caminhava pelo passeio da Avenida da República.
Ela do lado esquerdo, ele do lado direito. Quando me aproximei, em passo de corrida, para os ultrapassar, reparei no tubo de borracha, meio azulada, entre os dois, separados por cerca de metro, metro e meio. Ao passar ao lado dela, um relance confirmou a minha suspeita: era o tubo de uma algália, o saco estava dentro da mala que ela levava ao ombro. O contraste: por um lado, o saco escondido dentro de uma mala, para que não se visse o conteúdo; por outro lado, a despreocupação com o tubo exposto.
quarta-feira, 10 de novembro de 2021
Dirijo-me ao segurança, como todos as manhãs, à entrada.
Está a atender uma pessoa à minha frente e demora algum tempo. Quando finalmente chega à minha vez, começa por apontar o aparelho ao pulso direito, que lhe estendo de imediato, ainda antes de dizer "bom dia". Que a leitura não saia à primeira, é já algo a que estou habituado, por isso não estranho que vá percorrendo diversas zonas do pulso, enquando carrega no botão. Nem sequer é incomum que, após meia dúzia de tentativas frustradas, me peça para medir a temperatura na testa. Acedo ao pedido e, com alguma vergonha, afasto desajeitadamente a minha franja Justin Bieberesca da testa.
O processo transforma-se oficialmente num problema quando nem literalmente de arma apontada à cabeça o meu corpo resolve fornecer uma temperatura. Aos poucos, a atrapalhação do segurança cresce e ultrapassa a minha. Em desespero de causa, pede-me para medir no pulso esquerdo, pode ser que resulte aí: está-se mesmo a ver que não resultar e, de facto, não resulta.
Com isto, formou-se uma longa fila atrás de mim, que se prolonga até à porta. Pede-me para esperar um pouco enquanto testa a máquina nas restantes pessoas que, uma a seguir à outra, são rapidamente processadas, sem nenhum problema. Observo, desconsolado, a facilidade com a que máquina lê outros pulsos e testas, crescentemente convencido de que o problema sou eu. Após ter varrido toda a fila e as pessoas terem ido à sua vida, volta a mim. Tenta novamente e, novamente, não tem sucesso.
Estamos numa encruzilhada: a ausência de uma temperatura que permita tomar uma decisão sobre a minha entrada é um vazio legal não previsto no protocolo. Não faz ideia como agir nestes casos. Pega no telefone e liga a quem de direito para saber o que fazer. A instrução é para me deixar entrar: segundo o informam, devo estar "demasiado frio" para que o aparelho possa fazer o seu trabalho em condições. Entro a matutar na frieza deste comentário.
domingo, 7 de novembro de 2021
Tell me why
«Que importância tem que eu acredite ou não? Escolhi este caminho, sinto-me útil! Que interesse tem saber se faço isso com sinceridade ou não? Faço alguma coisa, estou ao serviço de uma...[causa]»
Cevdet Bei e os seus filhos, Orhan Pamuk
segunda-feira, 25 de outubro de 2021
Não me lembro da última vez que me pediram fotos de tipo passe.
Os modernos cartões de identificação dispensam-nas e, fora uma ou outra vez que me sentei num fotomaton a fazer caretas para o aparelho, não me ocorre mais nenhuma utilidade para as mesmas.
Acontece que, recentemente, necessitei desse tipo de fotografias. E, pasme-se, para um documento oficial. Acto contínuo googlei onde as poderia fazer e descobri que as lojas da Fotosport ainda prestam o serviço. Sentando num banco alto, costas direitas a pedido da funcionária, olhei, de sorriso amarelo, para a máquina fotográfica à minha frente, qual índio que sente a alma a ser capturada pelo obturador.
O resultado, cerca de 10 minutos depois, foi um envelope com um conjunto de fotos da dimensão pretendida, assim como uma maior, aparentemente oferta.
Em miúdo, sempre que fazia fotos de tipo passe, a minha avó pedia-me uma da colecção para guardar. Eu fazia sempre o figurão de lhe dar esta foto maior, não necessária para o propósito que me levava ao fotógrafo, mas de grande utilidade para a questão familiar.
quinta-feira, 26 de agosto de 2021
segunda-feira, 23 de agosto de 2021
No brainer
«For a long time I didn't understand why so many black people had abandoned their indigenous faith for Christianity. But the more we went to church and the longer I sat in those pews the more I learned about how Christianity works: If you're Native American and you pray to the wolves, you' re a savage. If you're Afrian and you pray to your ancestors, you're primitive. But when white people pray to a guy who turns water into wine, well, that's just common sense.»
Born a crime, Trevor Noah
sábado, 14 de agosto de 2021
Os pais sentam a criança à mesa com um tablet à frente.
Durante todo o jantar, o aparelho passa desenhos-animados. Mas com uma particularidade: com o volume alto. Bem alto. A técnica usada para manter a criança sossegada e em silêncio o ruído do aparelho na etiqueta do preço. Como se estabelecesse um trade off, que permite trocar o ruído da criança barulhenta pelo do tablet.
