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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Some Kind of Monster

A Netflix resolveu sugerir-me um certo e determinado documentário dos Metallica chamado Some Kind of Monster. O tal que pretendia captar o processo criativo da banda e acabou por ter muito mais do que isso, incluindo crises existenciais, brigas e insultos, uma ida para uma clínica de desintoxicação e sessões de grupo de terapia. De certa forma, dada a coincidência temporal, quase parece uma versão heavy metal dos Sopranos: basta trocar os mafiosos porque tipos cabeludos vestidos de preto e de guitarra em riste. 

A verdade é que foi mesmo um momento crítico na existência da banda, uma espécie de vai ou racha, que possivelmente foi desencadeado pelo bater de porta do anterior baixista Jason Newsted, que acabou por trazer ao de cima um conjunto de problemas que necessitavam ser encarados, sob pena de os restantes membros se afastarem de vez. 

Agora como é que alguém como eu, que passou uma parte considerável da adolescência borbulhenta a decorar, de cor e salteado, todas as músicas de Metallica, acaba por ver este documentário quase 20 anos depois de ter sido divulgado (que é como quem diz, com quase 20 anos de atraso)?

É uma excelente pergunta e tenho passado os últimos dias a pensar nisso. O afastamento começou a surgir por alturas do Load, o disco que veio logo a seguir ao designado Black Album e que, com os ouvidos de então, me pareceu abaixo da expectativa. Pelo menos foi aí que parou a minha colecção, não tenho mais nenhum depois desse, nem sequer o imediatamente seguinte Reload, que foi baptizado de uma forma relativamente preguiçosa. 

Tenho de admitir: chega ao ponto de que, até há pouco, nem sequer sabia que, desde então, a banda lançou três álbuns de estúdio. Quer dizer, do St. Anger tinha alguma ideia - lembro-me, por exemplo, do teledisco filmado na prisão de St. Quentin. Mas desconhecia em absoluto Death Magnetic e Hardwired to Self-Destruct. E isto apesar de, nos anos 2000 ter visto uma ou outra vez a banda ao vivo, quando veio a Portugal. 

Passei a tarde de hoje a colmatar parte destas falhas, com um certo sentimento de conforto de quem regressa a casa após uma longa viagem, misturado com a nostalgia da evocação de tempos passados. Um certo tipo de monstruosidade. 


domingo, 30 de janeiro de 2022

Dig

«I was excited to go. I put on my straw hat and walked downtown, but when I got there, I couldn't bring myself to go in. By chance, Jimi Hendrix came up the stairs and found me sitting there like some hick wallflower and grinned. He had to catch a plane to London to the Isle of Wight Festival. When I told him I was too chicken to go in, he laughed softly and said that contrary to what people might think, he was shy, and parties made him nervous. He spent a little time with me on the stairs and told me his vision of what he wanted to do with the studio. He dreamed of amassing musicians from all over the world in Woodstock and they would sit in a field in a circle and play. It didn't matter what key or tempo or what melody, they would keep on playing through their discordance until they found a common language. Eventually they would record this abstract universal language of music in his new studio.

"The language of peace. You dig?" I did.»

Just Kids, Patti Smith 

terça-feira, 6 de abril de 2021

Tudo começou porque, no meio das músicas que estava a ouvir, surgiu o Band on the Run.

Fui, de imediato transportado para a minha infância, para uma versão da música que julgo não ouvia desde essa altura. A única coisa que sabia é que fazia parte de um álbum ao vivo do Paul McCartney, duas cassetes que ouvia furiosamente num rádio amarelão dos meus pais. Não me restava outra coisa senão fazer aquilo que hoje em dia temos a possibilidade de fazer. Não foi à primeira pesquisa informática que descobri, mas foi à segunda. O álbum chama-se Tripping the Life Fantastic e tem uma foto algo desfocada, como se estivesse em movimento, do mítico baixo Höfner, imagem de marca.

Entretanto já (re)ouvi umas boas dezenas de vezes, desta feita na Apple Music, que dispensa mudar de lado da cassete. Uma série de clássicos dos Beatles e da carreira a solo do próprio McCartney, gravados em diversos concertos, um pouco por todo o mundo, no final dos anos 80 e início dos 90. Por exemplo, o Fool on the Hill, que Sir Paul dedica a "three mates of mine". Assim como o Eleanor Rigby, que quanto mais ouço mais gosto; ao contrário do Ebony and Ivory que, quanto mais ouço, mais pindérico me parece. O Can't Buy Me Love, banda sonora dos tempos em que o Patrick Dempsey se passeava em cima de um cortador de relva. Hey Jude, Back in the U.S.S.R., Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. É assim com os aqueles quatro moços de Liverpool: são umas atrás das outras.  

sábado, 6 de fevereiro de 2021

O filme é do final da década de 80 e chama-se Blind Date.

Walter - um Bruce Willis novo e com mais cabelo do que agora nos lembramos que alguma vez teve - algo reticente deixa-se, ainda assim convencer, por um amigo, a ir a um encontro às cegas. She is a really nice girl. Do outro lado do encontro está Nadia, uma Kim Basinger estonteantemente vestida de vermelho, de cima a baixo, incluindo a mala e o verniz das unhas.  

O encontro corre bem e Walter resolve arriscar e levar Nadia a um estúdio de música, munido de uma garrafa de champagne, comprada numa loja de conveniência. Lá dentro, a gravar enquanto bebem champagne com copos de plástico e trocam o primeiro beijo, está Stanley Jordan a fazer um cameo.



domingo, 17 de janeiro de 2021

Slooshying

«I don't mind about the ultra-violence and all that cal. I can put up with that. But it's not fair on the music. It's not fair I should feel ill when I'm slooshying lovely Ludwig van and G. F. Handel and others. All that shows you're and evil lot of bastards and I shall never forgive you, sods.»

A clockwork orange, Anthony Burgess

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Quando me apercebi já só havia bilhetes para a data extra, adicionada ao calendário da Culturgest para tentar acomodar a avalanche de interesse.

IV. "Psalm" E às 11h, qual missa matinal, para tentar acomodar as restrições sanitárias. O habitual quarteto entra em palco em forma alargada: há um segundo baterista, assim como um saxofonista barítono e um trompetista. 

III "Pursuance" O formato é tão simples como, naturalmente, arriscado: pegar no Love Supreme e tocá-lo de fio a pavio. Os títulos dos andamentos (chamemos-lhes andamentos, como nas peças clássicas) são projectados no início de cada, com a respectiva numeração romana. 

II "Resolution" A duração é algo alargada face ao original, com a introdução em solo de baterias (interessante chamar solo à performance de dois instrumentistas) e outras artimanhas usadas como uma espécie de cola entre os diversos momentos. De resto, Toscano mergulha de cabeça no som, na voz, no saxofone de Coltrane. Sem medo. Eventualmente também sem olhar para trás e sem pensar duas vezes. 

I. Acknowledgement O resultado está à vista: com uma maturidade musical pouco característica e natural na idade, Toscano é, merecidamente, um dos nomes mais relevantes da actualidade.  

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Ácido

No recente documentário sobre Miles Davis "Birth of the cool", Carlos Santana descreve o acid jazz, ao qual o músico do trompete a certa altura se dedicou, como música que tinha o condão de pôr sóbrios os que estavam a tripar em ácidos e pedrados os que estavam sóbrios.