Da minha experiência com a utilização de óleos essenciais, chego à conclusão que são um bocado dispensáveis.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022
1º andar
Com o olhar dividido entre a morada que procurei no telemóvel e o número dos prédios da rua, parei à frente de uma porta e achei estranho que o aparelho apenas me dissesse o número do andar, e não se se tratava do esquerdo ou direito. O mistério foi de imediato desfeito pela campainha do prédio: tratavam-se de andares únicos e, por isso, sem mais demoras e sem pensar mais no assunto, carreguei no botão comprido que indicava o número 1. A voz de uma senhora que surgiu do outro lado desarmou-me um pouco; enfim, não tanto a voz, mais o facto de ter respondido de uma forma que não correspondia ao que estaria à espera e, por isso, para quebrar o impasse da comunicação ou ausência da mesma, perguntei
Consultório de oftalmologia?
Não me lembro ipsis verbis da resposta da senhora - seguramente já gizada e farta destas lides - mas insinuava que, claramente, se via que necessitava de ir a uma consulta dessa mesma especialidade. Do outro lado da garagem, disse-me ela, achando apropriado explicar-me que a resposta anterior tinha uma elevada carga irónica. Percebi perfeitamente a ironia, disse-lhe melhor que a localização correcta: a porta imediatamente anterior, pela qual passei sem dar conta, com uma garagem a separá-la daquela onde toquei erradamente à campainha.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022
Da série "ao que isto chegou"
Objectivo do exercício: ler a pequena referência, escrita na parte interior da haste dos meus óculos. Problema: para proceder à leitura da dita referência, é preciso tirar os óculos o que, dada a necessidade de usar óculos para ver alguma cosa de jeito, naturalmente inviabiliza a leitura. Solução: tirar os óculos, pegar no telemóvel e tirar uma fotografia à dita referência, voltar a pôr os óculos, abrir a fotografia no telemóvel, ampliar bastante.
domingo, 6 de fevereiro de 2022
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022
segunda-feira, 31 de janeiro de 2022
21
Há uns meses, parecia inevitável que fosse Djokovic o primeiro a passar a fasquia dos 21 Slams. Não aconteceu no Open dos EUA e a potencial segunda oportunidade do Open da Austrália esfumou-se antes que tivesse pegado numa raquete.
Para quem não quer há muito, já dizia a minha avó e possivelmente a do Nadal também. O espanhol não se fez rogado. Numa final épica, conseguiu dar a volta a um encontro que parecia irremediavelmente perdido após o desfecho do 2o set, e ganhar o torneio onde foi menos bem sucedido.
É certo que as contas ainda não estão fechadas - enfim, com Federer possivelmente estarão - e Djokovic deve estar morto por reequilibrar a contenda. Mas com Roland Garros - o torneio onde é favorito como ninguém é favorito em mais nenhum torneio - à distância de uns meses e com o elevado astral desta vitória, quem sabe se, em vez de encurtar, a distância não poderá, ao invés, dilatar-se.

domingo, 30 de janeiro de 2022
Dig
«I was excited to go. I put on my straw hat and walked downtown, but when I got there, I couldn't bring myself to go in. By chance, Jimi Hendrix came up the stairs and found me sitting there like some hick wallflower and grinned. He had to catch a plane to London to the Isle of Wight Festival. When I told him I was too chicken to go in, he laughed softly and said that contrary to what people might think, he was shy, and parties made him nervous. He spent a little time with me on the stairs and told me his vision of what he wanted to do with the studio. He dreamed of amassing musicians from all over the world in Woodstock and they would sit in a field in a circle and play. It didn't matter what key or tempo or what melody, they would keep on playing through their discordance until they found a common language. Eventually they would record this abstract universal language of music in his new studio.
"The language of peace. You dig?" I did.»
Just Kids, Patti Smith
sábado, 29 de janeiro de 2022
quinta-feira, 27 de janeiro de 2022
Irreverente e irrelevante
«I bought stacks of books, but I didn't read them. I taped sheets of paper to the wall, but I didn't draw. I slid my guitar under the bed. At night, alone, I just sat and waited. Once again I found myself contemplating what I should be doing to do something of worth. Everything I came up with seemed irreverent or irrelevant.»
Just Kids, Patti Smith
quarta-feira, 26 de janeiro de 2022
segunda-feira, 24 de janeiro de 2022
À escolha
à entrada do restaurante, o funcionário pede-me o certificado. Pergunto-lhe qual prefere, o de vacinação ou de recuperação.
domingo, 23 de janeiro de 2022
Embarrassment of riches
quinta-feira, 20 de janeiro de 2022
Só miúdos
«We were walking toward the fountain, the epicentre of activity, when an older couple stopped and openly observed us. Robert enjoyed being noticed, and he affectionately squeezed my hand.
"Oh, take their picture," said the woman to her bemused husband, "I think they're artists."
"Oh, go on," he shrugged. "They're just kids."»
Just kids, Patti Smith
quarta-feira, 19 de janeiro de 2022
Cloreto de sódio grosso
A grande questão é se o sal grosso é um sal atraente ou bebeu uns copos a mais.
terça-feira, 18 de janeiro de 2022
Oratória de balneário
O debate entre André Ventura e Francisco Rodrigues dos Santos mais parecia ter lugar num balneário de uma aula de educação física do ensino básico. Só faltaram frases iniciadas com "a tua mãe".
segunda-feira, 17 de janeiro de 2022
Os 60 Grand Slams
A grande (única?) questão devia ser só quem termina com o melhor palmarés. Em si, a questão não é, neste momento, fácil de responder. A métrica que costumava servir para qualquer desempate teima em mostrar um empate redondo: três jogadores com 20 títulos de Grand Slam cada um. Na senda de arranjar uma tira-teimas, há quem olhe para vitórias nos torneios que se seguem na hierarquia (Masters 1000 e a respectiva final), bem como para o confronto directo. Em ambos os critérios, Djokovic sairia por cima: no primeiro, está tangencialmente à frente de Nadal (mais uma vitória) e claramente à frente de Federer (mais nove vitórias); no segundo critério, é o único que tem frente-a-frente favorável face aos outros dois (Nadal tem face a Federer e o suíço tem desfavorável face aos dois).
Donde uma vitória adicional num Grand Slam poderia ser o ponto final na discussão de quem é o tenista com melhor percurso. Não aconteceu o ano passado, na final do US Open, na qual Djokovic perdeu o controle emocional e nem mesmo ele, Houdini que consegue evadir-se das situações mais complicadas no court, mostrou um indício de ser capaz de dar a volta a um marcador que lhe foi sempre desfavorável. Já para não falar do episódio do US Open de 2020, de uma da bola atirada num rasgo de frustração e que veio a atingir um juiz de linha na cara. E que, claro, não obstante não ter sido intencional, acabou com a imediata desqualificação (como não podia deixar de ser).
É é assim que chegamos ao início da época de 2022. Uma nova (e, já sabemos, desperdiçada) hipótese de ultrapassar Nadal e Federer voltava a presentear-se, desta feita no court onde foi mais bem sucedido: nove vitórias em Melbourne, quase metade de todos os Grand Slams. Resta saber as implicações adicionais que a decisão das autoridades australianas poderá vir a ter, designadamente, se a deportação implica que Nole não poderá entrar na Austrália nos próximos três anos. E, claro, quais as regras que outros países e torneios terão em vigor: para já, França e Roland Garros parecem vir a exigir também a vacinação dos atletas.
Como entusiasta de ténis - e sem, de maneira nenhuma, querer desculpabilizá-lo -, é uma pena não poder ver o sérvio jogar nesta edição do Open da Austrália e gostaria que não fosse afastado de mais nenhum torneio. Mas é só mesmo nessa qualidade.
domingo, 16 de janeiro de 2022
Deportado
sábado, 15 de janeiro de 2022
A páginas tantas
A única situação em que o Expresso poderia ter mais páginas é quando se arrumam caixotes para uma mudança.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2022
A várias mãos
No primeiro debate das legislativas que assisti, Rui Rio constatou o que parece óbvio: nem o PS nem o PSD conseguirão governar sozinhos, independentemente de quem ganhe. Não haverá maioria absoluta e será necessário chegar a um entendimento com outros partidos do chamado "arco da governação" para formar uma solução de governo. E é possível que esta seja uma característica que tenha vindo para ficar e que o tempo em que faziam constantes apelos a maiorias absolutas e a votos úteis tenha ficado para trás.
Coligações e acordos parlamentares sãos seguramente menos estáveis e têm maior probabilidade de desmoronar do que soluções em que só um partido é suficiente para governar. Relativamente aos acordos parlamentares, a experiência da "geringonça" está muito fresca na memória colectiva que, acaso necessitasse, facilmente seria avivada com as constantes referências que têm surgido na actual campanha. No caso das coligações, basta recuar uns 10 anos até aos atritos entre PSD e CDS no governo de Passos Coelho, cujo expoente máximo terá possivelmente tido lugar aquando do célebre episódio do "irrevogável".
No papel onde a teoria é escrita, o produto que resulta do diálogo - de falar e de ouvir, de entendimentos e desentendimentos, negociações com exigências e cedências - terá uma boa probabilidade de melhor reflectir diferentes opiniões e sensibilidades e, por isso, ser mais inclusivo. A questão é saber qual dos dois pesa mais: se aquilo que se ganha com a estabilidade ou com a diversidade. Tendo a achar que, à medida que nos habituamos à ideia de que maiorias absolutas são coisa do passado, as soluções governativas a várias mãos tenderão a ser mais estáveis.
domingo, 9 de janeiro de 2022
Não saber o que é preciso fazer para fazer o que é preciso fazer.
Não ter sequer noção por onde começar. Que, normalmente, se manifesta por um conjunto de arranques inconsequentes, que invariavelmente terminam em embates de frente contra paredes de betão armado. Isso e andar um bocado aos círculos, sem sair do mesmo sítio. No limite, não saber sequer o que é preciso fazer.
Por vezes, o nó Górdio é tão temporário como um fim-de-semana, uns quantos dias de confusão e nevoeiro mental, falta de discernimento. O problema é quando é mais longo: é um exercício bem difícil aceitar que não vale a pena insistir. Olha para outro lado, muda de perspectiva, tudo coisas que não agradam à teimosia.
sábado, 8 de janeiro de 2022
A insustentável leveza do sintoma
quinta-feira, 6 de janeiro de 2022
Conta-gotas
Farto da lufa-lufa, do rame-rame e das lenga-lengas do dia-a-dia, o pobre-diabo aspirava por um fim-de-semana entregue ao deus-dará.
domingo, 2 de janeiro de 2022
Dizia-nos que parecia um ferro de engomar.
Porque, vista da estrada, a casa só parecia ter a largura do portão que dava acesso aos carros. Uma vez lá dentro, percebíamos a real dimensão daquela casa onde passámos umas semanas de verão. Eu era um adolescente e lidava mal com os dias de férias no Algarve, que me pareciam repetir-se uns aos outros, sempre iguais, qual Groundhog Day: acordar cedo, ficar à espera que os restantes acordassem sem fazer barulho, tirar senha para ir à única casa-de-banho, sair para a praia (sempre para a da Falésia, apesar das constantes queixas relativas à dificuldade da subida da escadaria e da estrada até ao carro) à hora do cancro, ficar o dia todo a aboborar entre areia e água, regressar, tomar banho, jantar e dormir. Não admira que levasse sempre vários livros e cassetes para o walkman.
Por isso, naquele verão, a possibilidade de passar tempo com outra gente de idades mais próximas da minha e sem ser num apartamento onde estávamos sempre a chocar uns nos outros, foi um verdadeiro bálsamo. Das poucas vezes - senão mesmo a única - que efectivamente gostei daquelas férias. Lembro-me quando descíamos, de manhã, pelo pinhal para a praia de Santa Eulália, e nos deitávamos na areia, na galhofa. Lembro-me de regressar para o almoço, esganados de fome e, umas horas depois, voltar para uma segunda dose de praia de tarde. Houve, inclusivamente, noites em que até fomos à água, sob o céu estrelado, só pela piada.
Pouco tempo depois deste verão, o Algarve acabou-se: passei a ter idade suficiente para conseguir convencer os meus pais a não ir para aquele suplício e ficar na capital. A opção prolongou-se para lá do final da adolescência e pelos primeiros anos e décadas de adulto. Só mais recentemente pus fim ao interregno e recomecei a ir, com alguma frequência. Algumas vezes - ironia do destino - buscando activamente um conjunto de Groundhog Days, daqueles que servem para alhear o cérebro e recarregar baterias.
Num desses dias, fiz a estrada a caminho de Albufeira e, ao passar pelo portão estreito, com a cor pálida a pedir uma nova demão de tinta e ervas a sair pelos intervalos das grades, lembrei-me do ferro de engomar.
sábado, 1 de janeiro de 2022
segunda-feira, 27 de dezembro de 2021
domingo, 26 de dezembro de 2021
O casal vinha à minha frente, caminhava pelo passeio da Avenida da República.
Ela do lado esquerdo, ele do lado direito. Quando me aproximei, em passo de corrida, para os ultrapassar, reparei no tubo de borracha, meio azulada, entre os dois, separados por cerca de metro, metro e meio. Ao passar ao lado dela, um relance confirmou a minha suspeita: era o tubo de uma algália, o saco estava dentro da mala que ela levava ao ombro. O contraste: por um lado, o saco escondido dentro de uma mala, para que não se visse o conteúdo; por outro lado, a despreocupação com o tubo exposto.
quarta-feira, 17 de novembro de 2021
A reciclagem de vidro é uma actividade que gera um elevado trauma.
Acho sempre que os meus vizinhos vão pensar que tenho um problema com alcool quando oiço o barulho estridente das garrafas a cair no interior do vidrão do prédio.
quarta-feira, 10 de novembro de 2021
Dirijo-me ao segurança, como todos as manhãs, à entrada.
Está a atender uma pessoa à minha frente e demora algum tempo. Quando finalmente chega à minha vez, começa por apontar o aparelho ao pulso direito, que lhe estendo de imediato, ainda antes de dizer "bom dia". Que a leitura não saia à primeira, é já algo a que estou habituado, por isso não estranho que vá percorrendo diversas zonas do pulso, enquando carrega no botão. Nem sequer é incomum que, após meia dúzia de tentativas frustradas, me peça para medir a temperatura na testa. Acedo ao pedido e, com alguma vergonha, afasto desajeitadamente a minha franja Justin Bieberesca da testa.
O processo transforma-se oficialmente num problema quando nem literalmente de arma apontada à cabeça o meu corpo resolve fornecer uma temperatura. Aos poucos, a atrapalhação do segurança cresce e ultrapassa a minha. Em desespero de causa, pede-me para medir no pulso esquerdo, pode ser que resulte aí: está-se mesmo a ver que não resultar e, de facto, não resulta.
Com isto, formou-se uma longa fila atrás de mim, que se prolonga até à porta. Pede-me para esperar um pouco enquanto testa a máquina nas restantes pessoas que, uma a seguir à outra, são rapidamente processadas, sem nenhum problema. Observo, desconsolado, a facilidade com a que máquina lê outros pulsos e testas, crescentemente convencido de que o problema sou eu. Após ter varrido toda a fila e as pessoas terem ido à sua vida, volta a mim. Tenta novamente e, novamente, não tem sucesso.
Estamos numa encruzilhada: a ausência de uma temperatura que permita tomar uma decisão sobre a minha entrada é um vazio legal não previsto no protocolo. Não faz ideia como agir nestes casos. Pega no telefone e liga a quem de direito para saber o que fazer. A instrução é para me deixar entrar: segundo o informam, devo estar "demasiado frio" para que o aparelho possa fazer o seu trabalho em condições. Entro a matutar na frieza deste comentário.
terça-feira, 9 de novembro de 2021
It's all in the reflexes
O impacto da digitalização e robotização no mercado laboral não é uma discussão recente. O espectro de profissões que podem vir a ser afectadas é bastante alargado mas há algumas, tais como os condutores de camiões, que são consideradas quase como casos paradigmáticos. Os progressos no desenvolvimento de tecnologias de condução automática passaram a ser uma espécie de espada de Dâmocles que paira sobre a cabeça dos profissionais do sector.
Por isso é que os mais recentes relatos de escassez de condutores de camiões têm alguma piada. Primeiro foi no Reino Unido, relacionado com as dificuldades de obtenção de visto de mão-de-obra estrangeira. Mais recentemente, nos EUA, onde muitos trabalhadores do sector (assim como de outros, tais como a resturação e hotelaria) decidiram abandonar os empregos duros, fisicamente exigentes, que em alguns casos causam disrupção na vida pessoal e familiar e, ainda para mais, não fantasticamente bem pagos.
The biggest kink in America's supply chain: not enough truckers
segunda-feira, 8 de novembro de 2021
In loco
Dar conselhos sobre saúde mental nas redes sociais é como alertar para as alterações climáticas numa central termoeléctrica.
domingo, 7 de novembro de 2021
Tell me why
«Que importância tem que eu acredite ou não? Escolhi este caminho, sinto-me útil! Que interesse tem saber se faço isso com sinceridade ou não? Faço alguma coisa, estou ao serviço de uma...[causa]»
Cevdet Bei e os seus filhos, Orhan Pamuk
sexta-feira, 29 de outubro de 2021
segunda-feira, 25 de outubro de 2021
Não me lembro da última vez que me pediram fotos de tipo passe.
Os modernos cartões de identificação dispensam-nas e, fora uma ou outra vez que me sentei num fotomaton a fazer caretas para o aparelho, não me ocorre mais nenhuma utilidade para as mesmas.
Acontece que, recentemente, necessitei desse tipo de fotografias. E, pasme-se, para um documento oficial. Acto contínuo googlei onde as poderia fazer e descobri que as lojas da Fotosport ainda prestam o serviço. Sentando num banco alto, costas direitas a pedido da funcionária, olhei, de sorriso amarelo, para a máquina fotográfica à minha frente, qual índio que sente a alma a ser capturada pelo obturador.
O resultado, cerca de 10 minutos depois, foi um envelope com um conjunto de fotos da dimensão pretendida, assim como uma maior, aparentemente oferta.
Em miúdo, sempre que fazia fotos de tipo passe, a minha avó pedia-me uma da colecção para guardar. Eu fazia sempre o figurão de lhe dar esta foto maior, não necessária para o propósito que me levava ao fotógrafo, mas de grande utilidade para a questão familiar.
terça-feira, 19 de outubro de 2021
Francamente
Cada um é como cada qual, mas parece-me que expressões como "é o que é" valem o que valem. E essa é que é essa.
terça-feira, 12 de outubro de 2021
domingo, 10 de outubro de 2021
sexta-feira, 8 de outubro de 2021
terça-feira, 5 de outubro de 2021
A leste
A certa altura, o comentador disse "o importante é que a equipa do Porto não perca o norte". Por um momento, julguei ter ouvido um "n" maiúsculo na última palavra.
quinta-feira, 30 de setembro de 2021
A blackfriar walks into a whitechapel #8
O sentimento de nostalgia pré-regresso começou progressivamente a instalar-se. Não limitou os planos de última hora: no últimos sábado, fizemos de tudo quase um pouco, incluindo mercados, parque, fish and chips, jazz e sing along. No dia seguinte, o despertador tocou relativamente cedo. Arrumámos as últimas coisas e preparámos a casa para os nossos anfitriões, já ausentes de nossa casa, e prestes a embarcar para regressar a casa, a partir de Itália.
terça-feira, 28 de setembro de 2021
A blackfriar walks into a whitechapel #7
As ruas do Soho estavam repletas de mesas a ocupar o asfalto, onde gente descontraída conversava, enquanto bebia. Galgámos, em passo estugado, as centenas de metros de distância a que o Uber (ou Free Now ou Bolt) teve de nos deixar, devido a um trajecto temporariamente bloqueado. Já passava das 17h30 a que as portas abriam e os lugares não eram marcados, apenas a zona dos bilhetes era pré-definida. A hora não era a melhor, mas a segunda sessão da noite, assim como as datas de sábado, já só tinham zonas de visibilidade reduzida disponíveis. Foi assim que decidimos optar por esta solução de final de tarde de 6a feira, cientes de que seguramente iria envolver uma correria para conseguir despachar o trabalho e sair a tempo de navegar na hora de ponta.
Pela segunda vez, dei por mim na fila para entrar no Ronnie Scott's. Desta vez para o espectáculo principal: da primeira vez, estive no espectáculo de menos destaque, que tem lugar no "upstairs". Dei o meu nome ao recepcionista e uma funcionária levou-nos às cabines disponíveis para sentar. Ficámos do lado direito do palco e aproveitámos para pedir jantar de imediato e evitar fazê-lo depois da música começar.
O espectáculo em causa foi escolhido em função das datas em que estaríamos em Londres e não - sem qualquer desprimor, mais uma consequência de ignorância - porque conhecesse os artistas em causa. Enfim, em boa verdade, resultou de uma busca online dentre as várias alternativas existentes: a possibilidade de ver uma banda homenagem a Jimi Hendrix é sempre difícil de descartar.
E depois há as características da banda, que só se tornam possíveis num local destes. Uma big band que, para além do guitarrista, líder da banda, de um teclista e da secção rítmica, tem três naipes de sopros, de quatro elementos cada: saxofones (barítono, tenor e alto), trompetes e trombone de varas. Ou seja, um total de 16 (sim, dezasseis) músicos em palco. Esta não é uma formação típica de bar de jazz, pelo menos aqueles que associamos a caves pequenas e escuras; em alguns, nem caberiam no palco. É necessário uma audiência grande e bem pagante, com jantar incluido, e duas sessões por noite, para que uma formação do género possa ser rentável.
Ou seja, dito de outra forma: entre bilhetes e jantar, gastámos uma pipa de massa. Mas valeu bem a pena. O concerto arrancou com o Ain't no telling (primeiro vídeo abaixo), que me pôs de imediato a cantar e, no final, a responder à pergunta "quem sabe o nome desta música?", o que mereceu um gesto de aprovação do saxofonista alto. Depois disso foi uma enxurrada de temas de Hendrix, com óptimos arranjos, que deram uso e exploraram os inúmeros recursos que uma formação destas permite. Passado umas duas horas, regressámos à movimentadas ruas do Soho com uma barrigada que era mais de groove do que do jantar em si.
(o segundo vídeo é de uma gravação de um espectáculo feito no início do ano, sem público, durante o confinamento)
quinta-feira, 23 de setembro de 2021
A blackfriar walks into a whitechapel #6
Ao passar a porta do prédio para a rua, de manhã, o céu ainda estava encoberto. Corria um ventilo matinal, que justificava uma camisola fina. Algumas horas depois, quando saí das entranhas da terra, depois da visita aos Cabinet War Rooms, fui recebido por um céu azul e um calor abafado pouco condizentes com a latitude.
Caminhei por entre pessoas vestidas com equipamento de desporto e dorsais: aparentemente, tinha acabado uma qualquer prova de desporto. Perto de Westminster, apanhei um autocarro até ao Marble Arch, a poucos passos do Speaker's Corner do Hyde Park, onde fiquei a observar (à sombra e à distância, claro está) os oradores e a interacção acesa que mantiveram com alguns dos espectadores.
No local onde tínhamos uma mesa reservada para um sunday roast, pedimos para ficar dentro em vez de na esplanada, à beira canal. De barriga cheia, seguimos para o Tate Modern, aproveitando para tirar fotos na Millennium Bridge. A visita ao museu durou pouco, chegámos perto da hora de encerramento. Dali, resolvemos caminhar ao longo da margem do Tamisa, até chegar à Torre Bridge, onde uma multidão aproveitava o fim do dia.
terça-feira, 21 de setembro de 2021
A blackfriar walks into a whitechapel #5
domingo, 19 de setembro de 2021
A blackfriar walks into a whitechapel #4
A Covid morreu. Poderia ser o lema, o mote dos britânicos, a fazer lembrar a célebre frase de Nietzsche. Ou pelo menos assim parece: há poucas pessoas a usar máscara em locais públicos, mesmo que fechados. Por exemplo, nos transportes públicos, nas lojas e supermercados, no cinema, nos espectáculos. Contrastamos de tal forma que, por vezes, sentimo-nos extra-terrestres de máscara posta. Apenas uma vez - para ver um concerto no Royal Albert Hall - nos foi exigido o certificado de vacinação.
É difícil conceber, tendo em conta o elevado número de casos diários de infeção e que os níveis de vacinação já não parecem assim tão impressionantes. Ainda para mais, a experiência de Israel - a candeia que alumia duas vezes ou canary in the coal mine - já havia exemplificado como 60-70% de pessoas totalmente vacinadas não impede o surgimento de surtos.
No regresso a Lisboa - onde a percentagem de pessoas vacinadas é mais elevada e o número de infeções muito mais baixo -, dou por mim a andar na rua sem máscara e - uma vez mais, pelo contraste - a sentir a pressão social de a pôr.
sábado, 18 de setembro de 2021
A blackfriar walks into a whitechapel #3
É importante não tirar férias: trabalhar, mesmo que seja à distância, torna a experiência mais interessante. E, acaso seja possível usar este termo neste circunstância, até mesmo autêntica, na medida em que permite afastar, em certa medida, a percepção de turismo. E, dessa forma, contribui para gerar a ideia (ilusão?) de que somos residentes da cidade. É certo que programamos os fins de dia de semana e os fins-de-semana ao milímetro, para aproveitar todos os bocadinhos de tempo disponível, de uma forma que não faríamos se fossemos verdadeiramente locais - não seria necessária esta correria, esta ânsia. Nem a carteira aguentaria tamanho rombo, entre restaurantes, bilhetes de museus, espectáculos, concertos. O resultado final fica algures entre ser um local e um turista.
sexta-feira, 17 de setembro de 2021
A blackfriar walks into a whitechapel #2
De repente, no meio dos preparativos sou assolado por uma dúvida: será que posso entrar no Reino Unido apenas com o cartão de cidadão, agora que o país saiu oficialmente da União Europeia? A dúvida coloca-se porque o meu passaporte caducou algures no início do ano, quando o país (e grande parte do mundo) estava totalmente fechado e as infecções e mortes por Covid se sucediam a um ritmo assustador. Como não podia deixar de ser, os serviços para renovar documentos foram encerrados e a validade de alguns documentos oficiais foi excepcionalmente prolongada. Em Maio, consegui fazer uma marcação para renovar o passaporte, mas só para meados de Setembro, demasiado tarde para o pretendido.
De imediato procurei no (entretanto relativamente familiar) site do governo britânico e, para meu (nosso) descanso, verifiquei que ainda era possível. Mas tangencialmente: a entrada com os cartões nacionais dos países do UE só é permitida até 30 de Setembro; a partir de 1 de Outubro, é necessário um passaporte válido, tal como para os países extra-comunitários, que o Reino Unido resolveu voltar a ser. No meio de alguns azares, nesta questão tivemos sorte.
A parte menos simpática - - foi a fila do controlo fronteiriço no aeroporto de Stansted. Com o passaporte, poderíamos ter evitado a longa espera passando numa das máquina electrónicas. O problema já se colocava antes e justificava plenamente o recurso à utilização do passaporte electrónico muito antes de Brexit sequer pairar no horizonte: o Reino Unido não pertencia ao espaço Schengen e, portanto, havia sempre que passar no controlo fronteiriço. Ser sujeito a este processo, ainda para mais demorado, nesta altura, fez-me sentir a barreira com mais intensidade.
sexta-feira, 10 de setembro de 2021
A blackfriar walks into a whitechapel #1
quinta-feira, 26 de agosto de 2021
segunda-feira, 23 de agosto de 2021
No brainer
«For a long time I didn't understand why so many black people had abandoned their indigenous faith for Christianity. But the more we went to church and the longer I sat in those pews the more I learned about how Christianity works: If you're Native American and you pray to the wolves, you' re a savage. If you're Afrian and you pray to your ancestors, you're primitive. But when white people pray to a guy who turns water into wine, well, that's just common sense.»
Born a crime, Trevor Noah
domingo, 22 de agosto de 2021
sábado, 21 de agosto de 2021
Branco o é
O projecto artístico tinha tanto de simples como de questionável: pintar paredes e muros de branco. Talvez numa alusão à pureza e simplicidade. Arrancou em Lisboa, com alguma pompa e circunstância. Seguiu, pouco depois, para Madrid, com a perspetiva de continuar em direcção a Paris e ir essa Europa fora. O progresso foi bruscamente interrompido quando o prenderam por branqueamento de capitais.
segunda-feira, 16 de agosto de 2021
Outsourcing
«The problem of outsourcing morality is that it exacerbates the original problem of the absence of internal inhibitions or constraints. Everyone either will try to walk the fine line between legality and illegality (doing things that are unethical but technically legal) or will break the law while trying not to be caught. Breaking the law is not unique to today's commercialized societies. But what is unique is for people to claim that they have done everything in the most ethical manner possible if they have remained just barely on the right side of the law, or, if they have strayed into illegality, that is the business of others to catch them and prove they have broken the law. Internal check, stemming from one's own belief in what is moral and what is not, seem to play no role whatsoever.
This is perhaps most obvious in commercialized sports, where the old-fashioned notions of fair play, which internalised acceptable conduct, have all but disappeared and have been replaced by behavior that, in some cases openly breaks the rules. Such behavior is fully accepted and even encouraged, since people believe that it is up to the referees alone to enforce the rules. Take the 2009 example of the famous soccer goal marked by hand by Thierry Henry, which allowed the French national team to qualify for the World Cup and sent the Irish team home. No one, from Henry to the last French supporter, denies that the goal was scored by hand, that it was illegal, and that is should not have been allowed to stand. But they would not draw the obvious consequences. In everyone's opinion the matter was not to be decided by Henry (say, by his telling the referee that the goal was illegal) or by his teammates (doing the same thing), but solely by the referee. Once the referee, not having seen how the goal was scored, has accepted it, the goal is as legal as can be, and there is no shame in celebrating it. Or even bragging about it.»
Capitalism, Alone, Branko Milanovic
domingo, 15 de agosto de 2021
Distância
«Global inequality of opportunity is not generally considered a problem at all, much less a problem in need of a solution. Within nation-states, many people regard the intergenerational transmission of family-acquired wealth as rather objectionable; but among nations, the intergenerational transmission of collectively acquired wealth is not considered an object of concern. This is interesting because individuals' links to their family are closer than their links to an entire community, and one might thing that the transmission of family wealth across generations could be viewed as less objectionable than the transmission of societal wealth across generations of unrelated individuals. The reason that it is not seems to lie in one crucial difference, namely that in the first case, where the intergenerational transmission of wealth tase place within the same community, individuals can easily compare their positions with each other, and they resent injustice; in the other case, inequality is international, and individuals cannot easily compare themselves or perhaps they do not care to do so (or, at least, the rich do not). Distance, as Aristotle noted, often makes people indifferent to the lot of others, perhaps because they do not see them as peers with whom they compare their income or wealth.»
Capitalism, Alone, Branko Milanovic
sábado, 14 de agosto de 2021
Os pais sentam a criança à mesa com um tablet à frente.
Durante todo o jantar, o aparelho passa desenhos-animados. Mas com uma particularidade: com o volume alto. Bem alto. A técnica usada para manter a criança sossegada e em silêncio o ruído do aparelho na etiqueta do preço. Como se estabelecesse um trade off, que permite trocar o ruído da criança barulhenta pelo do tablet.
quarta-feira, 11 de agosto de 2021
Ilha Graciosa II
Subimos uns degraus que levam ao topo de uma espécie de fortaleza que ladeia e protege a praia. Percorremos aquele pequeno trilho elevado na expectativa de encontrar um novo conjunto de degraus que nos permita descer para a areia. Resignados, descemos mais à frente, após o areal, para o lado oposto onde está a estrada. Só então nos apercebemos que a entrada é feita por um arco na mesma estrutura, no topo da qual caminhámos antes. Como se a praia tivesse uma porta que a guardasse de visitantes indesejados.
Pares de espreguiçadeiras com um guarda-sol de palha no meio preenchem uma parte da areia escura. Há algumas livres e decidimos usar um par. Resolvo ir perguntar à rapariga que trabalha no café que fica à direita da entrada quanto é o aluguer das ditas espreguiçadeiras. Recebo uma resposta, repleta de sotaque, que deita por terra a minha pré-concepção do urbana do mundo
Ó senhor não custa nada, as espreguiçadeiras são públicas.
É verdade, ainda há disto.
terça-feira, 10 de agosto de 2021
Ilha Graciosa
Uns dias antes da chegada, perguntamos ao senhor que nos aluga o carro como fazer o levantamento, que tínhamos pedido para o aeroporto. Diz-nos que um Toyota Corolla, cinza prata, a gasolina, com a matrícula assim-assado, estará à nossa espera nas últimas filas do parque de estacionamento, perto das árvores, com a chave no cinzeiro. É precisamente aí que o volto a deixar, passados dois dias, antes de ir para o voo de regresso à Terceira: praticamente no mesmo lugar de estacionamento (só não é no mesmo porque estava ocupado) e com a chave no cinzeiro.
segunda-feira, 9 de agosto de 2021
São Jorge ou fajã-hopping
Os deuses da meteorologia estão contra nós. A chuva e o nevoeiro denso teimam em não desaparecer e, com base nos conselhos dos entendidos, rapidamente percebemos que não vai ser possível fazer o trilho que liga a Serra do Topo à Fajã dos Cubres, passando pela Fajã da Caldeira de Santo Cristo, um dos ex-libris da ilha. Para além de perdermos a vista que motiva a caminhada, o chão fica enlameado e convidativo a escorregadelas.
Desapontados, rumamos ainda assim à Fajã dos Cubres, onde tipicamente os caminheiros estacionam os carros, que ali fica à espera até que terminem o trajecto, e arranjam boleia que os leve até ao início. Como a esmagadora maioria das estradas que levam às fajãs, esta é também sinuosa e apertada. Faço figas e rezo a todos os santinhos para não me cruzar com outro veículo. O nevoeiro denso dissipa-se, aos poucos, à medida que vamos descendo. Pelo caminho, abrandamos perto de um senhor que vem no sentido ascendente e nos sossega: lá em baixo o tempo está aberto.
À chegada ao pequeno parque de estacionamento, perto da igreja, ocorre-me que há forma de minimizar o estrago: pode ser que consigamos fazer apenas a parte do trajecto que liga as duas fajãs e voltar, mantendo-nos sempre ao nível do mar. A senhora do quiosque onde compramos umas garrafas de água confirma que é perfeitamente possível e demora uns 45 minutos.
Fazemo-nos ao caminho. São cerca de 4.5 kms, feitos com algumas subidas e descidas entre as fajãs, muito humidade e calor. A paisagem compensa largamente o esforço e a T-shirt empapada, que exibimos com algum orgulho aos desistentes que se socorrem do serviço de tipos de moto 4.
No regresso, sentamo-nos na esplanada de outra roulotte e completamos o ritual: pedimos uma dose das grandes, vistosas e caras ameijoas da Fajã da Caldeira de Santo Cristo, o único sítio da ilha onde estes lindos espécimes são cultivados. Acompanhadas de pão para o molho, uns camarões fritos e duas minis fresquinhas, é a recompensa pelos 10kms de caminhada. Isso e um duche à chegada ao alojamento.
sábado, 7 de agosto de 2021
Casa de biológo
quinta-feira, 22 de julho de 2021
Desde miúdo que fico em polvorosa com viagens.
Faço contagens decrescentes até ao dia da partida. Na véspera durmo mal, muito mal, tal não é a excitação. Desta vez é diferente o que sinto: não é tanto excitação, é mais ansiedade. Ou seja, tem um cariz mais negativo do que positivo. E acho que nunca estive assim ansioso porque é a primeira vez que a realização de uma viagem está dependente do resultado de um teste PCR. Eu não acho que o resultado do teste venha a ser positivo: porque estou de saúde, porque não tive contactos de risco, porque me protejo. Mas mas não vou conseguir descansar enquanto não receber uma mensagem com a palavra "negativo" lá pelo meio. E nem sequer pude ir a correr tratar do assunto para acabar com a minha miséria mais cedo, porque o dito teste tem que ser, no máximo, uns dias antes de partir. Talvez lá para o início da tarde de amanhã - altura em que espero já ter recebido o tão aguardado resultado - possa transformar a ansiedade na mais simpática excitação. E, a partir de um resultado negativo, passe para uma emoção positiva.
domingo, 4 de julho de 2021
Donde é difícil dizer qual o saldo líquido.
sexta-feira, 2 de julho de 2021
Pessoas de armas
Gendarme é daquelas palavras que têm uma lógica auto-explicativa bastante vincada. Lembro-me quando, em miúdo, me explicaram o que me deveria ser óbvio mas não era. A palavra foi-me pronunciada devagar, separando o "gens" de "d'armes", de forma quase teatral. A associação destas pessoas com armas a uma força policial, por seu turno, foi imediata.
O modelo de força militar com responsabilidades policiais e de assegurar o cumprimento da lei foi exportado para vários países, incluindo para a portuguesa Guarda Nacional Republicana. Nem todos conservaram a piada da palavra (uma vez mais, como a GNR); já os italianos desenrascaram-se lindamente com os carabinieri.
Ocorreu-me que, pela força da razão do significado da palavra, a solução francesa não funcionaria em todo o lado: por exemplo, nos EUA falar em pessoas com armas não permite distinguir forças policiais de qualquer outro cidadão.
quinta-feira, 1 de julho de 2021
segunda-feira, 28 de junho de 2021
Fome
domingo, 13 de junho de 2021
quarta-feira, 9 de junho de 2021
Chips
Quando oiço falar em semi-condutores, penso em pessoas que só fizeram metade das aulas de condução. Isso ou anões a conduzir carros.
terça-feira, 8 de junho de 2021
A anatomia da procrastinação
quarta-feira, 2 de junho de 2021
Parque de estacionamento
Pouca gente consideraria interessante a hipótese de ir a um restaurante ou beber um copo com vista para um parque de estacionamento. No entanto, é perfeitamente fazerem-no num parque de estacionamento de barcos, vulgarmente conhecido como marina.
terça-feira, 1 de junho de 2021
Bot
Há quase 10 anos, no filme Her, um Joaquin Phoenix contemplativo apaixona-se por uma Scarlett Johansson assistente virtual de computador. Com este enredo, o realizador Spike Jonze testou-nos ao confrontar-nos com o nascimento e desenvolvimento de uma relação que, por gritantemente heterodoxa que seja, acaba por ter traços verdadeiramente humanos em terreno onde não parecia ser possível vê-los nascer.
Hoje leio esta notícia sobre o recurso a bots para sessões terapêuticas.
segunda-feira, 31 de maio de 2021
A pergunta
Vivia mesmo ao pé da paragem de autocarro onde eu costuma esperar pelo 413 ou 423 para ir para a escola. Magro, alto, cabelo loiro. Conhecia-o de vista e até sabia o seu nome e calculo que também me conhecesse a mim. Não só porque morávamos perto mas também porque andávamos na mesma escola, temos sensivelmente a mesma idade. E, no entanto, nunca tínhamos falado um com o outro.
Naquele dia, esperava o tal 413 ou 423 como em tantos outros, sozinho na paragem. Apareceu e meteu conversa comigo, não me lembro exactamente a que propósito. Mas lembro-me que, a certa altura, me perguntou se podia ser meu amigo, uma pergunta que parece algo inusitada, como se a amizade pudesse ser decretada com base num pedido e numa anuência (ao contrário do namoro: esse sim, pode ser solicitado). Respondi-lhe que sim, embora nunca tivéssemos verdadeiramente ficado amigos - lá está, é uma relação que precisa de um crescimento orgânico, não pode ser determinada por uma resposta afirmativa a uma simples pergunta. E a verdade é que não tínhamos grande contacto para que pudesse verdadeiramente existir.
A excepção são as amizades virtualmente solicitadas dos dias de hoje. Aquelas que nascem de um click num botão, que desencadeia uma notificação ao solicitado.
terça-feira, 25 de maio de 2021
segunda-feira, 24 de maio de 2021
Irrealismo prodigioso
«Se a História, no sentido restrito do «conhecimento do historiável», é o horizonte próprio onde melhor se apercebe o que é ou não é a realidade nacional, a mais sumária autópsia da nossa historiografia revela o irrealismo prodigioso da imagem que os Portugueses se fazem de si mesmos.»
O labirinto da saudade, Eduardo Lourenço
terça-feira, 18 de maio de 2021
quarta-feira, 28 de abril de 2021
segunda-feira, 26 de abril de 2021
sexta-feira, 23 de abril de 2021
terça-feira, 13 de abril de 2021
segunda-feira, 12 de abril de 2021
Direito
«O direito não é aquilo que eu desejo muito ou que sinto fortemente que me é devido. O direito é aquilo que os outros reconhecem como sendo o meu direito. Se os outros não reconhecem o meu direito, ou se só uma parte reconhece, ou ainda se reconhecem apenas em parte, nesse caso o que tenho não é um direito mas uma exigência.»
Caros fanáticos, Amos Oz
sábado, 10 de abril de 2021
sexta-feira, 9 de abril de 2021
Pluricórnio
Para além das agruras típicas de casos análogos de traição, o(a) unicórnio(a) traído(a) ainda tem a complicação adicional de ficar com a designação desactualizada.
quinta-feira, 8 de abril de 2021
Coisas que me ralam
Quando, após um suspiro, digo que só tenho coisas que me ralem, normalmente não estou a pensar literalmente. Por isso, fico bastante surpreendido quando me distraio e corto um bocado do polegar a ralar cenoura.
quarta-feira, 7 de abril de 2021
terça-feira, 6 de abril de 2021
Tudo começou porque, no meio das músicas que estava a ouvir, surgiu o Band on the Run.
Fui, de imediato transportado para a minha infância, para uma versão da música que julgo não ouvia desde essa altura. A única coisa que sabia é que fazia parte de um álbum ao vivo do Paul McCartney, duas cassetes que ouvia furiosamente num rádio amarelão dos meus pais. Não me restava outra coisa senão fazer aquilo que hoje em dia temos a possibilidade de fazer. Não foi à primeira pesquisa informática que descobri, mas foi à segunda. O álbum chama-se Tripping the Life Fantastic e tem uma foto algo desfocada, como se estivesse em movimento, do mítico baixo Höfner, imagem de marca.
Entretanto já (re)ouvi umas boas dezenas de vezes, desta feita na Apple Music, que dispensa mudar de lado da cassete. Uma série de clássicos dos Beatles e da carreira a solo do próprio McCartney, gravados em diversos concertos, um pouco por todo o mundo, no final dos anos 80 e início dos 90. Por exemplo, o Fool on the Hill, que Sir Paul dedica a "three mates of mine". Assim como o Eleanor Rigby, que quanto mais ouço mais gosto; ao contrário do Ebony and Ivory que, quanto mais ouço, mais pindérico me parece. O Can't Buy Me Love, banda sonora dos tempos em que o Patrick Dempsey se passeava em cima de um cortador de relva. Hey Jude, Back in the U.S.S.R., Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. É assim com os aqueles quatro moços de Liverpool: são umas atrás das outras.
sábado, 3 de abril de 2021
Virtude
O prémio da virtude é a virtude,
É castigo do vício o próprio vício»
Bocage
UNKNOWN
Pede-me ajuda para preencher um formulário online em inglês. Sentamo-nos os dois à frente do computador. Eu vou explicando o que é solicitado e pedindo os dados à medida que as perguntas vão surgindo. Ao terceiro ou quarto separador, pedem a filiação e eu pergunto-lhe qual o nome do pai. Responde-me
Não sei
uma resposta que, no primeiro momento, me desarma até, uma fracção de segundo depois, perceber o que está em causa. Ela procura o cartão de cidadão, vira-o e mostra-me: naquele campo onde a (esmagadora?) maioria de nós tem dois nomes, ela tem apenas um, o da mãe.
Carrego no ponto de interrogação, encaixado dentro de uma bolinha, à direita deste campo de preenchimento obrigatório. Na janela que se abre, pedem para, nestes casos, escrever
UNKNOWN
assim, em letras garrafais. Escrevo duas vezes: uma no nome próprio, outra no apelido.
sexta-feira, 2 de abril de 2021
Totalitário
«To be an unbeliever is not to be merely "open-minded". It is, rather, a decisive admission of uncertainty that is dialectically connected to the repudiation of the totalitarian principle, in the mind as well as in politics.»
Hitch-22, Christopher Hitchens
quarta-feira, 31 de março de 2021
terça-feira, 30 de março de 2021
Suportabilidade
A utilização do verbo "suportar", à semelhança do inglês, como sinónimo de "apoiar", "consubstanciar" ou "dar assistência a" é um bocado insuportável.
segunda-feira, 29 de março de 2021
domingo, 28 de março de 2021
Distinto
«I distinguish remorse from regret in that remorse is sorrow for what one did do whereas regret is misery for what one did not do.»
Hitch-22, Christopher Hitchens
quinta-feira, 25 de março de 2021
Enviesado
"O meu viés..." diz-me quando inicia a explicação daquilo que consideraria ser, simplesmente, a sua opinião. A expressão aterra-me na cabeça de tal forma que me abstraio das palavras seguintes. Como se não fosse possível ter uma opinião que não seja, por definição, enviesada. Assim como solicitar uma opinião isenta, a alguém que consideremos imparcial.
segunda-feira, 22 de março de 2021
Sotaque
Na sua autobiografia - intitulada Hitch-22 -, Christopher Hitchens fala da experiência de ser um britânico nos EUA, assim um pouco à semelhança do célebre tema de Sting. Um dos aspectos que realça são as diferenças na utilização da língua inglesa. Refere, inclusivamente - e este é um fenómeno que, segundo consta, abrange outros anglo-falantes não-americanos em terras do tio Sam - que a sua sonoridade britânica teria sido, em algumas circunstâncias, uma boa alavanca para conquistas junto do sexo oposto. Neste contexto, relata o episódio de uma jovem, que se terá referido ao seu "sotaque"; Hitchens respondeu-lhe, de imediato, que seguramente ele não tinha sotaque, mas sim o contrário: ela é que tinha.
Este episódio, por sua vez, fez-me recordar um outro muito semelhante, protagonizado por José Saramago: no decurso de uma entrevista, uma jornalista brasileira disse-lhe que tinha dificuldade em perceber o seu "sotaque", ao que Saramago de imediato retorquiu, com o tom seco e austero que o caracterizava, que "sotaque tem a senhora". O escritor português não avançou, contudo, se, na sua experiência, o sotaque, perdão, o português de Portugal granjeia qualquer tipo de vantagem junto do sexo feminino luso-falante doutras latitudes.
A noção da ausência de sotaque no país de origem da língua, para além de soar um certo toque de sobranceria, acarreta, em si, algumas inconsistências. Desde logo porque não permite categorizar os diferentes sotaques dentro do próprio país de origem. Das duas uma: ou nenhum é sotaque - o que é chato porque eu ia jurar que já ouvi o sotaque do Porto, açoreano, madeirense, alentejano, algarvio, das Beiras, de Setúbal, de Viseu, etc.; ou são todos excepto um, que é o não-sotaque, e em cujo caso é necessário definir qual é exactamente este último.
Costuma dizer-se que o português falado na região de Coimbra é o mais correcto ou mais aproximado do padrão da língua. Mas, acaso este fosse o não-sotaque, teríamos outro problema: do ponto de vista da origem - a lógica aparentemente subjacente aos comentários de Hitchens e Saramago - Coimbra não fará sentido. Certamente teríamos que rumar mais a norte.
A minha sugestão simplificadora é aceitar que todos temos sotaque. Embora um(ns) coincida(m) com a forma como a língua se fala numa parte do território onde originariamente se formou.
domingo, 21 de março de 2021
Chumbo
Olhando para as pontuações que atribuem aos filmes, por vezes desconfio que os críticos de cinema, pura e simplesmente, não gostam de cinema.
quinta-feira, 18 de março de 2021
quarta-feira, 17 de março de 2021
Equivalência
À pergunta do jornalista sobre a ausência de processo anterior na política, Nuno Graciano retorque que tal não é correcto: o candidato do Chega à Câmara Municipal de Lisboa foi presidente (ou coisa que o valha) da associação de estudantes (ou coisa que o valha) no liceu e na universidade (ou coisa que o valha).
terça-feira, 16 de março de 2021
O Fidesz, partido de extrema-direita de Vitor Orbán, saiu do Partido Popular Europeu.
Em bom rigor, Orbán apenas se antecipou a uma provável expulsão, espoletada por alterações às regras do partido recentemente aprovadas. Ainda assim, o registo do governo húngaro não é mau: só agora saem do partido de centro-direita. E este parece um desenlace pouco dramático, já que, pelo menos em tese, o regime autocrático da Hungria - assim como dos restantes países do grupo de Visegrado - colide frontalmente com os valores democráticos da União Europeia.
A única vez que a porta de saída da UE foi mostrada a um país foi à Grécia do Syriza. É certo que também havia umas pequeníssimas questões pecuniárias envolvidas e, ao que parece, o dinheiro tem o dom de se imiscuir em muitas decisões. Ainda assim, parece haver maior tolerância europeia para países com regimes irritantes mas de direita, do que outros com regimes igualmente irritantes mas de esquerda.
sábado, 13 de março de 2021
Colado nas costas
«Somos cães a correr atrás da própria cauda, sempre à procura, longe de nós, de algo que temos a abanar nas costas. O sentido da vida é como aquela brincadeira perpetuada pelos cretinos que existem em todos os empregos e que consiste em colar um papel nas costas de um colega, com algum insulto escrito. É isso a vida, um papel colado nas costas. Andamos a fazer figuras, a perguntar-nos a que se deve a felicidade dos outros, e o segredo está colado nas nossas costas.»
Para onde vão os guarda-chuvas, Afonso Cruz
terça-feira, 9 de março de 2021
quinta-feira, 4 de março de 2021
Sequência
Na Índia, as pessoas fazem filas paquistanesas.
(Para evitar estragar a piada, vamos esquecer que, na génese da expressão não estão, aparentemente, os indianos, mas sim os índios americanos, que caminhavam uns atrás dos outros para ocultar as pegadas)
quarta-feira, 3 de março de 2021
Arbitrariedade
«The conventional word that is employed to describe tyranny is "systematic". The true essence of a dictatorship is in fact not its regularity but its unpredictability and caprice; those who live under it must never be able to relax, must never be quite sure if they have followed the rules correctly or not. (The only rule of thumb was: whatever is not compulsory is forbidden.) Thus, the ruled can always be found to be in the wrong.»
Hitch-22, Christopher Hitchens




