«I bought stacks of books, but I didn't read them. I taped sheets of paper to the wall, but I didn't draw. I slid my guitar under the bed. At night, alone, I just sat and waited. Once again I found myself contemplating what I should be doing to do something of worth. Everything I came up with seemed irreverent or irrelevant.»
Possivelmente devido a insistência minha, a minha mãe fez-se sócia de um clube de vídeo, quando eu era miúdo e os meus amigos passavam a vida alugar filmes. A experiência não durou muito tempo: perdi a conta à quantidade de vezes em que, após pegar numa caixa de VHS vazia no escaparate e expressar a vontade de alugar aquele filme, recebi a resposta frustrante de que não estava disponível porque já estava alugado. Esta frase vinha quase sempre seguida de uma sugestão de um filme semelhante que pudesse satisfazer a minha vontade de ver um filme e evitar que regressasse a casa de mãos a abanar. Infelizmente, a sugestão era, quase invariavelmente, de um filme de qualidade inferior face à minha escolha inicial.
Tornou-se claro que muitos dos filmes em disposição não estavam disponíveis não porque já estivessem alugados, mas sim porque, pura e simplesmente, o vídeo clube não os tinha para alugar. E, no entanto, ali estavam as respectivas caixas de plástico, com as lombadas coloridas nos escaparates, para ludibriar os mais incautos.
Hoje em dia, a história do velho vídeo clube vêm-me, por vezes, à memória, mas pela razão oposta: são várias as vezes que percorro os vários canais e plataformas de streaming disponíveis e nenhuma série ou filme me suscita a curiosidade. E, no entanto, não tenho a mínima dúvida que a oferta que aparece no cardápio está toda efectivamente disponível.
«We were walking toward the fountain, the epicentre of activity, when an older couple stopped and openly observed us. Robert enjoyed being noticed, and he affectionately squeezed my hand.
"Oh, take their picture," said the woman to her bemused husband, "I think they're artists."
O debate entre André Ventura e Francisco Rodrigues dos Santos mais parecia ter lugar num balneário de uma aula de educação física do ensino básico. Só faltaram frases iniciadas com "a tua mãe".
A grande (única?) questão devia ser só quem termina com o melhor palmarés. Em si, a questão não é, neste momento, fácil de responder. A métrica que costumava servir para qualquer desempate teima em mostrar um empate redondo: três jogadores com 20 títulos de Grand Slam cada um. Na senda de arranjar uma tira-teimas, há quem olhe para vitórias nos torneios que se seguem na hierarquia (Masters 1000 e a respectiva final), bem como para o confronto directo. Em ambos os critérios, Djokovic sairia por cima: no primeiro, está tangencialmente à frente de Nadal (mais uma vitória) e claramente à frente de Federer (mais nove vitórias); no segundo critério, é o único que tem frente-a-frente favorável face aos outros dois (Nadal tem face a Federer e o suíço tem desfavorável face aos dois).
Donde uma vitória adicional num Grand Slam poderia ser o ponto final na discussão de quem é o tenista com melhor percurso. Não aconteceu o ano passado, na final do US Open, na qual Djokovic perdeu o controle emocional e nem mesmo ele, Houdini que consegue evadir-se das situações mais complicadas no court, mostrou um indício de ser capaz de dar a volta a um marcador que lhe foi sempre desfavorável. Já para não falar do episódio do US Open de 2020, de uma da bola atirada num rasgo de frustração e que veio a atingir um juiz de linha na cara. E que, claro, não obstante não ter sido intencional, acabou com a imediata desqualificação (como não podia deixar de ser).
É é assim que chegamos ao início da época de 2022. Uma nova (e, já sabemos, desperdiçada) hipótese de ultrapassar Nadal e Federer voltava a presentear-se, desta feita no court onde foi mais bem sucedido: nove vitórias em Melbourne, quase metade de todos os Grand Slams. Resta saber as implicações adicionais que a decisão das autoridades australianas poderá vir a ter, designadamente, se a deportação implica que Nole não poderá entrar na Austrália nos próximos três anos. E, claro, quais as regras que outros países e torneios terão em vigor: para já, França e Roland Garros parecem vir a exigir também a vacinação dos atletas.
Como entusiasta de ténis - e sem, de maneira nenhuma, querer desculpabilizá-lo -, é uma pena não poder ver o sérvio jogar nesta edição do Open da Austrália e gostaria que não fosse afastado de mais nenhum torneio. Mas é só mesmo nessa qualidade.
No primeiro debate das legislativas que assisti, Rui Rio constatou o que parece óbvio: nem o PS nem o PSD conseguirão governar sozinhos, independentemente de quem ganhe. Não haverá maioria absoluta e será necessário chegar a um entendimento com outros partidos do chamado "arco da governação" para formar uma solução de governo. E é possível que esta seja uma característica que tenha vindo para ficar e que o tempo em que faziam constantes apelos a maiorias absolutas e a votos úteis tenha ficado para trás.
Coligações e acordos parlamentares sãos seguramente menos estáveis e têm maior probabilidade de desmoronar do que soluções em que só um partido é suficiente para governar. Relativamente aos acordos parlamentares, a experiência da "geringonça" está muito fresca na memória colectiva que, acaso necessitasse, facilmente seria avivada com as constantes referências que têm surgido na actual campanha. No caso das coligações, basta recuar uns 10 anos até aos atritos entre PSD e CDS no governo de Passos Coelho, cujo expoente máximo terá possivelmente tido lugar aquando do célebre episódio do "irrevogável".
No papel onde a teoria é escrita, o produto que resulta do diálogo - de falar e de ouvir, de entendimentos e desentendimentos, negociações com exigências e cedências - terá uma boa probabilidade de melhor reflectir diferentes opiniões e sensibilidades e, por isso, ser mais inclusivo. A questão é saber qual dos dois pesa mais: se aquilo que se ganha com a estabilidade ou com a diversidade. Tendo a achar que, à medida que nos habituamos à ideia de que maiorias absolutas são coisa do passado, as soluções governativas a várias mãos tenderão a ser mais estáveis.
Não ter sequer noção por onde começar. Que, normalmente, se manifesta por um conjunto de arranques inconsequentes, que invariavelmente terminam em embates de frente contra paredes de betão armado. Isso e andar um bocado aos círculos, sem sair do mesmo sítio. No limite, não saber sequer o que é preciso fazer.
Por vezes, o nó Górdio é tão temporário como um fim-de-semana, uns quantos dias de confusão e nevoeiro mental, falta de discernimento. O problema é quando é mais longo: é um exercício bem difícil aceitar que não vale a pena insistir. Olha para outro lado, muda de perspectiva, tudo coisas que não agradam à teimosia.
Era normal que a garganta se ressentisse da cantoria da noite anterior, pelo que não fez disparar o alarme. Da mesma forma que o nariz um pouco entupido não é nada de novo, acontece com alguma frequência e é defeito de fabrico. Por isso, a indisposição da manhã seguinte - a dor de cabeça, o calor seguido de arrepios de frio, o cansaço e o corpo moído - não foram propriamente antecipados. Muito menos a febre, fenómeno que, tirando um final de dia há uns 5 ou 6 anos, não sentia na pele desde a adolescência.
Ao descrever os sintomas a quem tem maior familiaridade com eles levei como resposta "então mas isso é ter febre". Nada de novo, portanto. E, de facto, nada que o bom velho paracetamol não conseguisse resolver, passado algumas horas de ingestão de 1000 mg. A dor de cabeça, as variações de temperatura, o cansaço, a dor no pescoço, tudo isso desapareceu quase por completo. Ficou o tal nariz entupido do costume e a garganta dorida, que lhe costuma fazer companhia. A certa altura, chamaram a tosse para se juntar e fazer um trio que, por duas noites, resolveu fazer as suas performances sobretudo madrugada dentro, lá para as 3h, 4h da manhã, desnecessariamente interrompendo o meu rico sono.
Os sobreviventes tornados peritos em Ómicron diziam-me que tinham tido só uma coisa leve, sem grandes repercussões e que passou depressa. Sintomas ligeiros, sintomas moderados, o Saúde24 que decida como os quer oficialmente classificar (quando resolver atender) - até porque parece que essa distinção pode influir com o número de dias de clausura. A mim, ninguém me tira da ideia que esta é das piores gripes que tive em muitos anos. E a febre, bem como os sintomas conexos, contribuíram largamente para a minha classificação.
Porque, vista da estrada, a casa só parecia ter a largura do portão que dava acesso aos carros. Uma vez lá dentro, percebíamos a real dimensão daquela casa onde passámos umas semanas de verão. Eu era um adolescente e lidava mal com os dias de férias no Algarve, que me pareciam repetir-se uns aos outros, sempre iguais, qual Groundhog Day: acordar cedo, ficar à espera que os restantes acordassem sem fazer barulho, tirar senha para ir à única casa-de-banho, sair para a praia (sempre para a da Falésia, apesar das constantes queixas relativas à dificuldade da subida da escadaria e da estrada até ao carro) à hora do cancro, ficar o dia todo a aboborar entre areia e água, regressar, tomar banho, jantar e dormir. Não admira que levasse sempre vários livros e cassetes para o walkman.
Por isso, naquele verão, a possibilidade de passar tempo com outra gente de idades mais próximas da minha e sem ser num apartamento onde estávamos sempre a chocar uns nos outros, foi um verdadeiro bálsamo. Das poucas vezes - senão mesmo a única - que efectivamente gostei daquelas férias. Lembro-me quando descíamos, de manhã, pelo pinhal para a praia de Santa Eulália, e nos deitávamos na areia, na galhofa. Lembro-me de regressar para o almoço, esganados de fome e, umas horas depois, voltar para uma segunda dose de praia de tarde. Houve, inclusivamente, noites em que até fomos à água, sob o céu estrelado, só pela piada.
Pouco tempo depois deste verão, o Algarve acabou-se: passei a ter idade suficiente para conseguir convencer os meus pais a não ir para aquele suplício e ficar na capital. A opção prolongou-se para lá do final da adolescência e pelos primeiros anos e décadas de adulto. Só mais recentemente pus fim ao interregno e recomecei a ir, com alguma frequência. Algumas vezes - ironia do destino - buscando activamente um conjunto de Groundhog Days, daqueles que servem para alhear o cérebro e recarregar baterias.
Num desses dias, fiz a estrada a caminho de Albufeira e, ao passar pelo portão estreito, com a cor pálida a pedir uma nova demão de tinta e ervas a sair pelos intervalos das grades, lembrei-me do ferro de engomar.
Ela do lado esquerdo, ele do lado direito. Quando me aproximei, em passo de corrida, para os ultrapassar, reparei no tubo de borracha, meio azulada, entre os dois, separados por cerca de metro, metro e meio. Ao passar ao lado dela, um relance confirmou a minha suspeita: era o tubo de uma algália, o saco estava dentro da mala que ela levava ao ombro. O contraste: por um lado, o saco escondido dentro de uma mala, para que não se visse o conteúdo; por outro lado, a despreocupação com o tubo exposto.
Acho sempre que os meus vizinhos vão pensar que tenho um problema com alcool quando oiço o barulho estridente das garrafas a cair no interior do vidrão do prédio.
Está a atender uma pessoa à minha frente e demora algum tempo. Quando finalmente chega à minha vez, começa por apontar o aparelho ao pulso direito, que lhe estendo de imediato, ainda antes de dizer "bom dia". Que a leitura não saia à primeira, é já algo a que estou habituado, por isso não estranho que vá percorrendo diversas zonas do pulso, enquando carrega no botão. Nem sequer é incomum que, após meia dúzia de tentativas frustradas, me peça para medir a temperatura na testa. Acedo ao pedido e, com alguma vergonha, afasto desajeitadamente a minha franja Justin Bieberesca da testa.
O processo transforma-se oficialmente num problema quando nem literalmente de arma apontada à cabeça o meu corpo resolve fornecer uma temperatura. Aos poucos, a atrapalhação do segurança cresce e ultrapassa a minha. Em desespero de causa, pede-me para medir no pulso esquerdo, pode ser que resulte aí: está-se mesmo a ver que não resultar e, de facto, não resulta.
Com isto, formou-se uma longa fila atrás de mim, que se prolonga até à porta. Pede-me para esperar um pouco enquanto testa a máquina nas restantes pessoas que, uma a seguir à outra, são rapidamente processadas, sem nenhum problema. Observo, desconsolado, a facilidade com a que máquina lê outros pulsos e testas, crescentemente convencido de que o problema sou eu. Após ter varrido toda a fila e as pessoas terem ido à sua vida, volta a mim. Tenta novamente e, novamente, não tem sucesso.
Estamos numa encruzilhada: a ausência de uma temperatura que permita tomar uma decisão sobre a minha entrada é um vazio legal não previsto no protocolo. Não faz ideia como agir nestes casos. Pega no telefone e liga a quem de direito para saber o que fazer. A instrução é para me deixar entrar: segundo o informam, devo estar "demasiado frio" para que o aparelho possa fazer o seu trabalho em condições. Entro a matutar na frieza deste comentário.
O impacto da digitalização e robotização no mercado laboral não é uma discussão recente. O espectro de profissões que podem vir a ser afectadas é bastante alargado mas há algumas, tais como os condutores de camiões, que são consideradas quase como casos paradigmáticos. Os progressos no desenvolvimento de tecnologias de condução automática passaram a ser uma espécie de espada de Dâmocles que paira sobre a cabeça dos profissionais do sector.
Por isso é que os mais recentes relatos de escassez de condutores de camiões têm alguma piada. Primeiro foi no Reino Unido, relacionado com as dificuldades de obtenção de visto de mão-de-obra estrangeira. Mais recentemente, nos EUA, onde muitos trabalhadores do sector (assim como de outros, tais como a resturação e hotelaria) decidiram abandonar os empregos duros, fisicamente exigentes, que em alguns casos causam disrupção na vida pessoal e familiar e, ainda para mais, não fantasticamente bem pagos.
«Que importância tem que eu acredite ou não? Escolhi este caminho, sinto-me útil! Que interesse tem saber se faço isso com sinceridade ou não? Faço alguma coisa, estou ao serviço de uma...[causa]»
Os modernos cartões de identificação dispensam-nas e, fora uma ou outra vez que me sentei num fotomaton a fazer caretas para o aparelho, não me ocorre mais nenhuma utilidade para as mesmas.
Acontece que, recentemente, necessitei desse tipo de fotografias. E, pasme-se, para um documento oficial. Acto contínuo googlei onde as poderia fazer e descobri que as lojas da Fotosport ainda prestam o serviço. Sentando num banco alto, costas direitas a pedido da funcionária, olhei, de sorriso amarelo, para a máquina fotográfica à minha frente, qual índio que sente a alma a ser capturada pelo obturador.
O resultado, cerca de 10 minutos depois, foi um envelope com um conjunto de fotos da dimensão pretendida, assim como uma maior, aparentemente oferta.
Em miúdo, sempre que fazia fotos de tipo passe, a minha avó pedia-me uma da colecção para guardar. Eu fazia sempre o figurão de lhe dar esta foto maior, não necessária para o propósito que me levava ao fotógrafo, mas de grande utilidade para a questão familiar.
A certa altura, o comentador disse "o importante é que a equipa do Porto não perca o norte". Por um momento, julguei ter ouvido um "n" maiúsculo na última palavra.
O sentimento de nostalgia pré-regresso começou progressivamente a instalar-se. Não limitou os planos de última hora: no últimos sábado, fizemos de tudo quase um pouco, incluindo mercados, parque, fish and chips, jazz e sing along. No dia seguinte, o despertador tocou relativamente cedo. Arrumámos as últimas coisas e preparámos a casa para os nossos anfitriões, já ausentes de nossa casa, e prestes a embarcar para regressar a casa, a partir de Itália.
Uma última olhadela para ver se não nos esquecemos de nada. E mais outra última olhadela, que às vezes as coisas são fugidias e gostam de se esconder onde não devem. Saco às costas, porta fechada, chaves na caixa do correio. Dali apanhámos um Uber (ou Freenow ou Bolt) até ao expresso para o aeroporto, com tempo suficiente para acautelar possíveis atrasos e complicações decorrentes dos requisitos adicionais associados a viajar com pandemias em curso.
Mala despachada, passagem pela segurança e o terminal abriu-se à nossa frente. No quadro do aeroporto de Stansted, à frente dos voos que ainda não têm porta de embarque atribuída, lê-se a palavra "relax".
As ruas do Soho estavam repletas de mesas a ocupar o asfalto, onde gente descontraída conversava, enquanto bebia. Galgámos, em passo estugado, as centenas de metros de distância a que o Uber (ou Free Now ou Bolt) teve de nos deixar, devido a um trajecto temporariamente bloqueado. Já passava das 17h30 a que as portas abriam e os lugares não eram marcados, apenas a zona dos bilhetes era pré-definida. A hora não era a melhor, mas a segunda sessão da noite, assim como as datas de sábado, já só tinham zonas de visibilidade reduzida disponíveis. Foi assim que decidimos optar por esta solução de final de tarde de 6a feira, cientes de que seguramente iria envolver uma correria para conseguir despachar o trabalho e sair a tempo de navegar na hora de ponta.
Pela segunda vez, dei por mim na fila para entrar no Ronnie Scott's. Desta vez para o espectáculo principal: da primeira vez, estive no espectáculo de menos destaque, que tem lugar no "upstairs". Dei o meu nome ao recepcionista e uma funcionária levou-nos às cabines disponíveis para sentar. Ficámos do lado direito do palco e aproveitámos para pedir jantar de imediato e evitar fazê-lo depois da música começar.
O espectáculo em causa foi escolhido em função das datas em que estaríamos em Londres e não - sem qualquer desprimor, mais uma consequência de ignorância - porque conhecesse os artistas em causa. Enfim, em boa verdade, resultou de uma busca online dentre as várias alternativas existentes: a possibilidade de ver uma banda homenagem a Jimi Hendrix é sempre difícil de descartar.
E depois há as características da banda, que só se tornam possíveis num local destes. Uma big band que, para além do guitarrista, líder da banda, de um teclista e da secção rítmica, tem três naipes de sopros, de quatro elementos cada: saxofones (barítono, tenor e alto), trompetes e trombone de varas. Ou seja, um total de 16 (sim, dezasseis) músicos em palco. Esta não é uma formação típica de bar de jazz, pelo menos aqueles que associamos a caves pequenas e escuras; em alguns, nem caberiam no palco. É necessário uma audiência grande e bem pagante, com jantar incluido, e duas sessões por noite, para que uma formação do género possa ser rentável.
Ou seja, dito de outra forma: entre bilhetes e jantar, gastámos uma pipa de massa. Mas valeu bem a pena. O concerto arrancou com o Ain't no telling (primeiro vídeo abaixo), que me pôs de imediato a cantar e, no final, a responder à pergunta "quem sabe o nome desta música?", o que mereceu um gesto de aprovação do saxofonista alto. Depois disso foi uma enxurrada de temas de Hendrix, com óptimos arranjos, que deram uso e exploraram os inúmeros recursos que uma formação destas permite. Passado umas duas horas, regressámos à movimentadas ruas do Soho com uma barrigada que era mais de groove do que do jantar em si.
(o segundo vídeo é de uma gravação de um espectáculo feito no início do ano, sem público, durante o confinamento)
Ao passar a porta do prédio para a rua, de manhã, o céu ainda estava encoberto. Corria um ventilo matinal, que justificava uma camisola fina. Algumas horas depois, quando saí das entranhas da terra, depois da visita aos Cabinet War Rooms, fui recebido por um céu azul e um calor abafado pouco condizentes com a latitude.
Caminhei por entre pessoas vestidas com equipamento de desporto e dorsais: aparentemente, tinha acabado uma qualquer prova de desporto. Perto de Westminster, apanhei um autocarro até ao Marble Arch, a poucos passos do Speaker's Corner do Hyde Park, onde fiquei a observar (à sombra e à distância, claro está) os oradores e a interacção acesa que mantiveram com alguns dos espectadores.
No local onde tínhamos uma mesa reservada para um sunday roast, pedimos para ficar dentro em vez de na esplanada, à beira canal. De barriga cheia, seguimos para o Tate Modern, aproveitando para tirar fotos na Millennium Bridge. A visita ao museu durou pouco, chegámos perto da hora de encerramento. Dali, resolvemos caminhar ao longo da margem do Tamisa, até chegar à Torre Bridge, onde uma multidão aproveitava o fim do dia.
Dois eventos marcantes da vida britânica durante a nossa estadia.
A primeira, uma questão política: o anúncio - precedida de uns zunzuns, como costuma ser apanágio das notícias de relevo - de um aumento de impostos, destinado a financiar o famoso National Health Service, pressionado pela Covid. Uma das motivações para o financiamento adicional é o tratamento das pessoas que ficaram em lista de espera, resultantes da reordenação de emergência de recursos para o combate à pandemia, em detrimento de outras necessidades assistenciais. A reacção foi acesa, como com qualquer outro anúncio de aumento de impostos, ainda para mais porque emanou de um governo de direita.
A segunda, no campo do desporto: o desempenho da jovem britânica Emma Raducanu no US Open. A cada ronda que passava, a imprensa jubilava. Vinda do qualifying, foi despachando todas as adversárias que lhe passaram pela frente, sem apelo nem agravo. Após os quartos de final, seria a primeira tenista nestas condições a chegar tão longe num US Open. Depois tornou-se a primeira chegar à final e depois tornou-se a primeira a ganhar. Como se tudo isto não fosse ainda suficiente, Raducanu resolveu ganhar um Slam sem perder sequer um set.
A Covid morreu. Poderia ser o lema, o mote dos britânicos, a fazer lembrar a célebre frase de Nietzsche. Ou pelo menos assim parece: há poucas pessoas a usar máscara em locais públicos, mesmo que fechados. Por exemplo, nos transportes públicos, nas lojas e supermercados, no cinema, nos espectáculos. Contrastamos de tal forma que, por vezes, sentimo-nos extra-terrestres de máscara posta. Apenas uma vez - para ver um concerto no Royal Albert Hall - nos foi exigido o certificado de vacinação.
É difícil conceber, tendo em conta o elevado número de casos diários de infeção e que os níveis de vacinação já não parecem assim tão impressionantes. Ainda para mais, a experiência de Israel - a candeia que alumia duas vezes ou canary in the coal mine - já havia exemplificado como 60-70% de pessoas totalmente vacinadas não impede o surgimento de surtos.
No regresso a Lisboa - onde a percentagem de pessoas vacinadas é mais elevada e o número de infeções muito mais baixo -, dou por mim a andar na rua sem máscara e - uma vez mais, pelo contraste - a sentir a pressão social de a pôr.
É importante não tirar férias: trabalhar, mesmo que seja à distância, torna a experiência mais interessante. E, acaso seja possível usar este termo neste circunstância, até mesmo autêntica, na medida em que permite afastar, em certa medida, a percepção de turismo. E, dessa forma, contribui para gerar a ideia (ilusão?) de que somos residentes da cidade. É certo que programamos os fins de dia de semana e os fins-de-semana ao milímetro, para aproveitar todos os bocadinhos de tempo disponível, de uma forma que não faríamos se fossemos verdadeiramente locais - não seria necessária esta correria, esta ânsia. Nem a carteira aguentaria tamanho rombo, entre restaurantes, bilhetes de museus, espectáculos, concertos. O resultado final fica algures entre ser um local e um turista.
De repente, no meio dos preparativos sou assolado por uma dúvida: será que posso entrar no Reino Unido apenas com o cartão de cidadão, agora que o país saiu oficialmente da União Europeia? A dúvida coloca-se porque o meu passaporte caducou algures no início do ano, quando o país (e grande parte do mundo) estava totalmente fechado e as infecções e mortes por Covid se sucediam a um ritmo assustador. Como não podia deixar de ser, os serviços para renovar documentos foram encerrados e a validade de alguns documentos oficiais foi excepcionalmente prolongada. Em Maio, consegui fazer uma marcação para renovar o passaporte, mas só para meados de Setembro, demasiado tarde para o pretendido.
De imediato procurei no (entretanto relativamente familiar) site do governo britânico e, para meu (nosso) descanso, verifiquei que ainda era possível. Mas tangencialmente: a entrada com os cartões nacionais dos países do UE só é permitida até 30 de Setembro; a partir de 1 de Outubro, é necessário um passaporte válido, tal como para os países extra-comunitários, que o Reino Unido resolveu voltar a ser. No meio de alguns azares, nesta questão tivemos sorte.
A parte menos simpática - - foi a fila do controlo fronteiriço no aeroporto de Stansted. Com o passaporte, poderíamos ter evitado a longa espera passando numa das máquina electrónicas. O problema já se colocava antes e justificava plenamente o recurso à utilização do passaporte electrónico muito antes de Brexit sequer pairar no horizonte: o Reino Unido não pertencia ao espaço Schengen e, portanto, havia sempre que passar no controlo fronteiriço. Ser sujeito a este processo, ainda para mais demorado, nesta altura, fez-me sentir a barreira com mais intensidade.
A ideia parte de uma premissa simples: eles vivem em Londres e gostariam de vir passar uns dias em Lisboa: nós vivemos em Lisboa e gostaríamos de passar uns dias em Londres. Os quatro preferimos não pagar alojamento, se possível. Nem taxas de intermediários, de sites que funcionam como uma espécie de Tinder do imobiliário de curto-prazo.
Parece que se designa "house swap", um termo que, até então, me era totalmente desconhecido. E não estava sozinho na ignorância: já depois de ter dito a alguns amigos que ia fazer uma troca de domicílio por umas semanas, um deles perguntou-me se sempre ia fazer o tal "swing".
O resto é história. Enfim, uma história um pouco mais longa e com alguns contratempos. A primeira tentativa foi em Maio, com data prevista para Junho. Infelizmente, já com tudo combinado com a outra parelha, bilhetes comprados, testes à Covid comprados e muito investimento emocional, o governo britânico colocou Portugal na lista âmbar. Parece pouco significativo mudar de verde para uma espécie de amarelo mas esta alteração implicaria uma quarentena de 14 dias à chegada ao Reino Unido, mesmo que tivéssemos testes à Covid negativos. Escusado será de dizer que 14 dias obrigatoriamente em casa deitariam por terra o propósito da aventura.
Enterrámos o assunto, chateados. O Freud diria que a experiência ficou recalcada e eu digo que gerou mau-humor e frustração. Sem antever um upgrade de Portugal que levasse o país novamente ao topo-de-gama da lista verde, não haveria outra possibilidade, disse eu, a certa altura, pesaroso e pouco esperançado.
Até que houve: apesar do Euro-cepticismo o governo britânico passou (finalmente!) a aceitar o certificado de vacinação da União Europeia (aquela coisa da qual faziam parte até há coisa de uns dias). Em consequência, mesmo oriundos de um país colocado na lista âmbar, ser-nos-ia permitido entrar em terras de Sua Majestade sem obrigatoriedade de quarentena.
Falámos novamente com a parelha. Exumámos a ideia, ajustando os dias para o final do verão. Marcámos o voo para o dia imediatamente a seguir aos 14 dias sobre a data de última vacina do meu certificado. E foi assim que aqui chegámos.
«For a long time I didn't understand why so many black people had abandoned their indigenous faith for Christianity. But the more we went to church and the longer I sat in those pews the more I learned about how Christianity works: If you're Native American and you pray to the wolves, you' re a savage. If you're Afrian and you pray to your ancestors, you're primitive. But when white people pray to a guy who turns water into wine, well, that's just common sense.»
O projecto artístico tinha tanto de simples como de questionável: pintar paredes e muros de branco. Talvez numa alusão à pureza e simplicidade. Arrancou em Lisboa, com alguma pompa e circunstância. Seguiu, pouco depois, para Madrid, com a perspetiva de continuar em direcção a Paris e ir essa Europa fora. O progresso foi bruscamente interrompido quando o prenderam por branqueamento de capitais.
«The problem of outsourcing morality is that it exacerbates the original problem of the absence of internal inhibitions or constraints. Everyone either will try to walk the fine line between legality and illegality (doing things that are unethical but technically legal) or will break the law while trying not to be caught. Breaking the law is not unique to today's commercialized societies. But what is unique is for people to claim that they have done everything in the most ethical manner possible if they have remained just barely on the right side of the law, or, if they have strayed into illegality, that is the business of others to catch them and prove they have broken the law. Internal check, stemming from one's own belief in what is moral and what is not, seem to play no role whatsoever.
This is perhaps most obvious in commercialized sports, where the old-fashioned notions of fair play, which internalised acceptable conduct, have all but disappeared and have been replaced by behavior that, in some cases openly breaks the rules. Such behavior is fully accepted and even encouraged, since people believe that it is up to the referees alone to enforce the rules. Take the 2009 example of the famous soccer goal marked by hand by Thierry Henry, which allowed the French national team to qualify for the World Cup and sent the Irish team home. No one, from Henry to the last French supporter, denies that the goal was scored by hand, that it was illegal, and that is should not have been allowed to stand. But they would not draw the obvious consequences. In everyone's opinion the matter was not to be decided by Henry (say, by his telling the referee that the goal was illegal) or by his teammates (doing the same thing), but solely by the referee. Once the referee, not having seen how the goal was scored, has accepted it, the goal is as legal as can be, and there is no shame in celebrating it. Or even bragging about it.»
«Global inequality of opportunity is not generally considered a problem at all, much less a problem in need of a solution. Within nation-states, many people regard the intergenerational transmission of family-acquired wealth as rather objectionable; but among nations, the intergenerational transmission of collectively acquired wealth is not considered an object of concern. This is interesting because individuals' links to their family are closer than their links to an entire community, and one might thing that the transmission of family wealth across generations could be viewed as less objectionable than the transmission of societal wealth across generations of unrelated individuals. The reason that it is not seems to lie in one crucial difference, namely that in the first case, where the intergenerational transmission of wealth tase place within the same community, individuals can easily compare their positions with each other, and they resent injustice; in the other case, inequality is international, and individuals cannot easily compare themselves or perhaps they do not care to do so (or, at least, the rich do not). Distance, as Aristotle noted, often makes people indifferent to the lot of others, perhaps because they do not see them as peers with whom they compare their income or wealth.»
Durante todo o jantar, o aparelho passa desenhos-animados. Mas com uma particularidade: com o volume alto. Bem alto. A técnica usada para manter a criança sossegada e em silêncio o ruído do aparelho na etiqueta do preço. Como se estabelecesse um trade off, que permite trocar o ruído da criança barulhenta pelo do tablet.
Subimos uns degraus que levam ao topo de uma espécie de fortaleza que ladeia e protege a praia. Percorremos aquele pequeno trilho elevado na expectativa de encontrar um novo conjunto de degraus que nos permita descer para a areia. Resignados, descemos mais à frente, após o areal, para o lado oposto onde está a estrada. Só então nos apercebemos que a entrada é feita por um arco na mesma estrutura, no topo da qual caminhámos antes. Como se a praia tivesse uma porta que a guardasse de visitantes indesejados.
Pares de espreguiçadeiras com um guarda-sol de palha no meio preenchem uma parte da areia escura. Há algumas livres e decidimos usar um par. Resolvo ir perguntar à rapariga que trabalha no café que fica à direita da entrada quanto é o aluguer das ditas espreguiçadeiras. Recebo uma resposta, repleta de sotaque, que deita por terra a minha pré-concepção do urbana do mundo
Ó senhor não custa nada, as espreguiçadeiras são públicas.
Uns dias antes da chegada, perguntamos ao senhor que nos aluga o carro como fazer o levantamento, que tínhamos pedido para o aeroporto. Diz-nos que um Toyota Corolla, cinza prata, a gasolina, com a matrícula assim-assado, estará à nossa espera nas últimas filas do parque de estacionamento, perto das árvores, com a chave no cinzeiro. É precisamente aí que o volto a deixar, passados dois dias, antes de ir para o voo de regresso à Terceira: praticamente no mesmo lugar de estacionamento (só não é no mesmo porque estava ocupado) e com a chave no cinzeiro.
Os deuses da meteorologia estão contra nós. A chuva e o nevoeiro denso teimam em não desaparecer e, com base nos conselhos dos entendidos, rapidamente percebemos que não vai ser possível fazer o trilho que liga a Serra do Topo à Fajã dos Cubres, passando pela Fajã da Caldeira de Santo Cristo, um dos ex-libris da ilha. Para além de perdermos a vista que motiva a caminhada, o chão fica enlameado e convidativo a escorregadelas.
Desapontados, rumamos ainda assim à Fajã dos Cubres, onde tipicamente os caminheiros estacionam os carros, que ali fica à espera até que terminem o trajecto, e arranjam boleia que os leve até ao início. Como a esmagadora maioria das estradas que levam às fajãs, esta é também sinuosa e apertada. Faço figas e rezo a todos os santinhos para não me cruzar com outro veículo. O nevoeiro denso dissipa-se, aos poucos, à medida que vamos descendo. Pelo caminho, abrandamos perto de um senhor que vem no sentido ascendente e nos sossega: lá em baixo o tempo está aberto.
À chegada ao pequeno parque de estacionamento, perto da igreja, ocorre-me que há forma de minimizar o estrago: pode ser que consigamos fazer apenas a parte do trajecto que liga as duas fajãs e voltar, mantendo-nos sempre ao nível do mar. A senhora do quiosque onde compramos umas garrafas de água confirma que é perfeitamente possível e demora uns 45 minutos.
Fazemo-nos ao caminho. São cerca de 4.5 kms, feitos com algumas subidas e descidas entre as fajãs, muito humidade e calor. A paisagem compensa largamente o esforço e a T-shirt empapada, que exibimos com algum orgulho aos desistentes que se socorrem do serviço de tipos de moto 4.
No regresso, sentamo-nos na esplanada de outra roulotte e completamos o ritual: pedimos uma dose das grandes, vistosas e caras ameijoas da Fajã da Caldeira de Santo Cristo, o único sítio da ilha onde estes lindos espécimes são cultivados. Acompanhadas de pão para o molho, uns camarões fritos e duas minis fresquinhas, é a recompensa pelos 10kms de caminhada. Isso e um duche à chegada ao alojamento.
Em entrevista ao Expresso, um dos fundadores da biofarmacêutica Moderna - entretanto afastado da gestão da mesma há anos - afirma que recebeu a vacina da Pfizer. Apenas por uma questão de conveniência, porque uma entidade com a qual colaborou o contactou para ser vacinado e, à chegada, era essa a vacina disponível. Ainda assim, uma afirmação interessante - e respeitável, pela candura - para alguém que ainda tem uma posição accionista na Moderna.
Faço contagens decrescentes até ao dia da partida. Na véspera durmo mal, muito mal, tal não é a excitação. Desta vez é diferente o que sinto: não é tanto excitação, é mais ansiedade. Ou seja, tem um cariz mais negativo do que positivo. E acho que nunca estive assim ansioso porque é a primeira vez que a realização de uma viagem está dependente do resultado de um teste PCR. Eu não acho que o resultado do teste venha a ser positivo: porque estou de saúde, porque não tive contactos de risco, porque me protejo. Mas mas não vou conseguir descansar enquanto não receber uma mensagem com a palavra "negativo" lá pelo meio. E nem sequer pude ir a correr tratar do assunto para acabar com a minha miséria mais cedo, porque o dito teste tem que ser, no máximo, uns dias antes de partir. Talvez lá para o início da tarde de amanhã - altura em que espero já ter recebido o tão aguardado resultado - possa transformar a ansiedade na mais simpática excitação. E, a partir de um resultado negativo, passe para uma emoção positiva.
Costuma dizer-se que, com a idade, aprendemos a preocupar-nos apenas com aquilo que interessa. E, em certa medida, é verdade. Aprende-se a relativizar: determinadas coisas que poderiam parecer bichos de sete cabeças em décadas idas são agora meros pormenores, relegados à insignificância. Mas também se aprende a identificar chatices e reconhecer perigos onde dantes, em idade mais tenra, não se vislumbrava nada. A despreocupação da ignorância é substituída pela preocupação de quem está mesmo a ver o filme.
Gendarme é daquelas palavras que têm uma lógica auto-explicativa bastante vincada. Lembro-me quando, em miúdo, me explicaram o que me deveria ser óbvio mas não era. A palavra foi-me pronunciada devagar, separando o "gens" de "d'armes", de forma quase teatral. A associação destas pessoas com armas a uma força policial, por seu turno, foi imediata.
O modelo de força militar com responsabilidades policiais e de assegurar o cumprimento da lei foi exportado para vários países, incluindo para a portuguesa Guarda Nacional Republicana. Nem todos conservaram a piada da palavra (uma vez mais, como a GNR); já os italianos desenrascaram-se lindamente com os carabinieri.
Ocorreu-me que, pela força da razão do significado da palavra, a solução francesa não funcionaria em todo o lado: por exemplo, nos EUA falar em pessoas com armas não permite distinguir forças policiais de qualquer outro cidadão.
«The assiduous food-habit of a lifetime had trained the English body to the pitch of producing a punctual nervous excitation in the upper belly at the fixed hour of each meal: and we sometimes gave the honoured name of hunger to this sign that our gut had cubic space for more stuff. Arab hunger was the cry of a long-empty labouring body fainting with weakness. They lived on a fraction of our bulk-food and their systems made exhaustive use of what they got.»
Pouca gente consideraria interessante a hipótese de ir a um restaurante ou beber um copo com vista para um parque de estacionamento. No entanto, é perfeitamente fazerem-no num parque de estacionamento de barcos, vulgarmente conhecido como marina.
Há quase 10 anos, no filme Her, um Joaquin Phoenix contemplativo apaixona-se por uma Scarlett Johansson assistente virtual de computador. Com este enredo, o realizador Spike Jonze testou-nos ao confrontar-nos com o nascimento e desenvolvimento de uma relação que, por gritantemente heterodoxa que seja, acaba por ter traços verdadeiramente humanos em terreno onde não parecia ser possível vê-los nascer.
Hoje leio esta notícia sobre o recurso a bots para sessões terapêuticas.
Vivia mesmo ao pé da paragem de autocarro onde eu costuma esperar pelo 413 ou 423 para ir para a escola. Magro, alto, cabelo loiro. Conhecia-o de vista e até sabia o seu nome e calculo que também me conhecesse a mim. Não só porque morávamos perto mas também porque andávamos na mesma escola, temos sensivelmente a mesma idade. E, no entanto, nunca tínhamos falado um com o outro.
Naquele dia, esperava o tal 413 ou 423 como em tantos outros, sozinho na paragem. Apareceu e meteu conversa comigo, não me lembro exactamente a que propósito. Mas lembro-me que, a certa altura, me perguntou se podia ser meu amigo, uma pergunta que parece algo inusitada, como se a amizade pudesse ser decretada com base num pedido e numa anuência (ao contrário do namoro: esse sim, pode ser solicitado). Respondi-lhe que sim, embora nunca tivéssemos verdadeiramente ficado amigos - lá está, é uma relação que precisa de um crescimento orgânico, não pode ser determinada por uma resposta afirmativa a uma simples pergunta. E a verdade é que não tínhamos grande contacto para que pudesse verdadeiramente existir.
A excepção são as amizades virtualmente solicitadas dos dias de hoje. Aquelas que nascem de um click num botão, que desencadeia uma notificação ao solicitado.
«Se a História, no sentido restrito do «conhecimento do historiável», é o horizonte próprio onde melhor se apercebe o que é ou não é a realidade nacional, a mais sumária autópsia da nossa historiografia revela o irrealismo prodigioso da imagem que os Portugueses se fazem de si mesmos.»
«O direito não é aquilo que eu desejo muito ou que sinto fortemente que me é devido. O direito é aquilo que os outros reconhecem como sendo o meu direito. Se os outros não reconhecem o meu direito, ou se só uma parte reconhece, ou ainda se reconhecem apenas em parte, nesse caso o que tenho não é um direito mas uma exigência.»
Para além das agruras típicas de casos análogos de traição, o(a) unicórnio(a) traído(a) ainda tem a complicação adicional de ficar com a designação desactualizada.
Quando, após um suspiro, digo que só tenho coisas que me ralem, normalmente não estou a pensar literalmente. Por isso, fico bastante surpreendido quando me distraio e corto um bocado do polegar a ralar cenoura.
Fui, de imediato transportado para a minha infância, para uma versão da música que julgo não ouvia desde essa altura. A única coisa que sabia é que fazia parte de um álbum ao vivo do Paul McCartney, duas cassetes que ouvia furiosamente num rádio amarelão dos meus pais. Não me restava outra coisa senão fazer aquilo que hoje em dia temos a possibilidade de fazer. Não foi à primeira pesquisa informática que descobri, mas foi à segunda. O álbum chama-se Tripping the Life Fantastic e tem uma foto algo desfocada, como se estivesse em movimento, do mítico baixo Höfner, imagem de marca.
Entretanto já (re)ouvi umas boas dezenas de vezes, desta feita na Apple Music, que dispensa mudar de lado da cassete. Uma série de clássicos dos Beatles e da carreira a solo do próprio McCartney, gravados em diversos concertos, um pouco por todo o mundo, no final dos anos 80 e início dos 90. Por exemplo, o Fool on the Hill, que Sir Paul dedica a "three mates of mine". Assim como o Eleanor Rigby, que quanto mais ouço mais gosto; ao contrário do Ebony and Ivory que, quanto mais ouço, mais pindérico me parece. O Can't Buy Me Love, banda sonora dos tempos em que o Patrick Dempsey se passeava em cima de um cortador de relva. Hey Jude, Back in the U.S.S.R., Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. É assim com os aqueles quatro moços de Liverpool: são umas atrás das outras.
Pede-me ajuda para preencher um formulário online em inglês. Sentamo-nos os dois à frente do computador. Eu vou explicando o que é solicitado e pedindo os dados à medida que as perguntas vão surgindo. Ao terceiro ou quarto separador, pedem a filiação e eu pergunto-lhe qual o nome do pai. Responde-me
Não sei
uma resposta que, no primeiro momento, me desarma até, uma fracção de segundo depois, perceber o que está em causa. Ela procura o cartão de cidadão, vira-o e mostra-me: naquele campo onde a (esmagadora?) maioria de nós tem dois nomes, ela tem apenas um, o da mãe.
Carrego no ponto de interrogação, encaixado dentro de uma bolinha, à direita deste campo de preenchimento obrigatório. Na janela que se abre, pedem para, nestes casos, escrever
UNKNOWN
assim, em letras garrafais. Escrevo duas vezes: uma no nome próprio, outra no apelido.
«To be an unbeliever is not to be merely "open-minded". It is, rather, a decisive admission of uncertainty that is dialectically connected to the repudiation of the totalitarian principle, in the mind as well as in politics.»
"O meu viés..." diz-me quando inicia a explicação daquilo que consideraria ser, simplesmente, a sua opinião. A expressão aterra-me na cabeça de tal forma que me abstraio das palavras seguintes. Como se não fosse possível ter uma opinião que não seja, por definição, enviesada. Assim como solicitar uma opinião isenta, a alguém que consideremos imparcial.
Na sua autobiografia - intitulada Hitch-22 -, Christopher Hitchens fala da experiência de ser um britânico nos EUA, assim um pouco à semelhança do célebre tema de Sting. Um dos aspectos que realça são as diferenças na utilização da língua inglesa. Refere, inclusivamente - e este é um fenómeno que, segundo consta, abrange outros anglo-falantes não-americanos em terras do tio Sam - que a sua sonoridade britânica teria sido, em algumas circunstâncias, uma boa alavanca para conquistas junto do sexo oposto. Neste contexto, relata o episódio de uma jovem, que se terá referido ao seu "sotaque"; Hitchens respondeu-lhe, de imediato, que seguramente ele não tinha sotaque, mas sim o contrário: ela é que tinha.
Este episódio, por sua vez, fez-me recordar um outro muito semelhante, protagonizado por José Saramago: no decurso de uma entrevista, uma jornalista brasileira disse-lhe que tinha dificuldade em perceber o seu "sotaque", ao que Saramago de imediato retorquiu, com o tom seco e austero que o caracterizava, que "sotaque tem a senhora". O escritor português não avançou, contudo, se, na sua experiência, o sotaque, perdão, o português de Portugal granjeia qualquer tipo de vantagem junto do sexo feminino luso-falante doutras latitudes.
A noção da ausência de sotaque no país de origem da língua, para além de soar um certo toque de sobranceria, acarreta, em si, algumas inconsistências. Desde logo porque não permite categorizar os diferentes sotaques dentro do próprio país de origem. Das duas uma: ou nenhum é sotaque - o que é chato porque eu ia jurar que já ouvi o sotaque do Porto, açoreano, madeirense, alentejano, algarvio, das Beiras, de Setúbal, de Viseu, etc.; ou são todos excepto um, que é o não-sotaque, e em cujo caso é necessário definir qual é exactamente este último.
Costuma dizer-se que o português falado na região de Coimbra é o mais correcto ou mais aproximado do padrão da língua. Mas, acaso este fosse o não-sotaque, teríamos outro problema: do ponto de vista da origem - a lógica aparentemente subjacente aos comentários de Hitchens e Saramago - Coimbra não fará sentido. Certamente teríamos que rumar mais a norte.
A minha sugestão simplificadora é aceitar que todos temos sotaque. Embora um(ns) coincida(m) com a forma como a língua se fala numa parte do território onde originariamente se formou.
À pergunta do jornalista sobre a ausência de processo anterior na política, Nuno Graciano retorque que tal não é correcto: o candidato do Chega à Câmara Municipal de Lisboa foi presidente (ou coisa que o valha) da associação de estudantes (ou coisa que o valha) no liceu e na universidade (ou coisa que o valha).
Em bom rigor, Orbán apenas se antecipou a uma provável expulsão, espoletada por alterações às regras do partido recentemente aprovadas. Ainda assim, o registo do governo húngaro não é mau: só agora saem do partido de centro-direita. E este parece um desenlace pouco dramático, já que, pelo menos em tese, o regime autocrático da Hungria - assim como dos restantes países do grupo de Visegrado - colide frontalmente com os valores democráticos da União Europeia.
A única vez que a porta de saída da UE foi mostrada a um país foi à Grécia do Syriza. É certo que também havia umas pequeníssimas questões pecuniárias envolvidas e, ao que parece, o dinheiro tem o dom de se imiscuir em muitas decisões. Ainda assim, parece haver maior tolerância europeia para países com regimes irritantes mas de direita, do que outros com regimes igualmente irritantes mas de esquerda.
«Somos cães a correr atrás da própria cauda, sempre à procura, longe de nós, de algo que temos a abanar nas costas. O sentido da vida é como aquela brincadeira perpetuada pelos cretinos que existem em todos os empregos e que consiste em colar um papel nas costas de um colega, com algum insulto escrito. É isso a vida, um papel colado nas costas. Andamos a fazer figuras, a perguntar-nos a que se deve a felicidade dos outros, e o segredo está colado nas nossas costas.»
(Para evitar estragar a piada, vamos esquecer que, na génese da expressão não estão, aparentemente, os indianos, mas sim os índios americanos, que caminhavam uns atrás dos outros para ocultar as pegadas)
«The conventional word that is employed to describe tyranny is "systematic". The true essence of a dictatorship is in fact not its regularity but its unpredictability and caprice; those who live under it must never be able to relax, must never be quite sure if they have followed the rules correctly or not. (The only rule of thumb was: whatever is not compulsory is forbidden.) Thus, the ruled can always be found to be in the wrong.»
«Power, let us not forget, is not just about being able to buy whatever you want; that is mere wealth. Power is about being able to get whatever you want at below the market price. It is about being able to get people to perform services or part with goods that they would not ordinarily offer to sell at any price.»
Walter - um Bruce Willis novo e com mais cabelo do que agora nos lembramos que alguma vez teve - algo reticente deixa-se, ainda assim convencer, por um amigo, a ir a um encontro às cegas. She is a really nice girl. Do outro lado do encontro está Nadia, uma Kim Basinger estonteantemente vestida de vermelho, de cima a baixo, incluindo a mala e o verniz das unhas.
O encontro corre bem e Walter resolve arriscar e levar Nadia a um estúdio de música, munido de uma garrafa de champagne, comprada numa loja de conveniência. Lá dentro, a gravar enquanto bebem champagne com copos de plástico e trocam o primeiro beijo, está Stanley Jordan a fazer um cameo.
«There is plainly much more longing than can be realised legitimately in the age of freedom and entrepreneurship; more desires for objects of consumption than can be fulfilled by actual income; more dreams than can be fused with stable society by redistribution an greater opportunity; more discontents than can be allayed by politics or traditional therapies; more demand for status symbols and brand names than can be met by non-criminal means; more claims made on celebrity than can be met by increasingly divided attention spans; more stimulus from the news media than can be converted into action; and more outrage than can be expressed by social media.
Simply defined, the energy and ambition released by the individual will to power far exceed the capacity of existing political, social and economic institutions. Thus, the trolls of Twitter as much as the dupes of ISIS lurch between feelings of impotence and fantasies of violent revenge.»
As recentes notícias relativas à apropriação indevida de vacinas para a Covid-19 têm um certo travo a inevitabilidade, a estava-se-mesmo-a-ver que tem tanto de indignação como de resignação. Pior: permitem fazer uma extrapolação - já tão vastamente badalada como, rapidamente, rebatida - da possibilidade de um comportamento análogo aquando da recepção de fundos europeus, que choverão fortemente nos próximos tempos.