Estacionamos à sombra e, ao caminhar em direcção à entrada, olhamos para uma indicação. Para além dos meses do ano, há um conjunto de números seguidos de “KM”. Lutamos um pouco até perceber que não se trata de uma distância, mas sim de preços: “KM” é a designação dos marcos convertíveis e não quilómetros mas, desde esse momento, passam a ser informalmente conhecidos pela palavra que designa a unidade de distância.
Nos meses de verão, o preço é o equivalente a 5 euros por pessoa. Na bilheteira não aceitam cartão (refrescante) e só temos uma nota de 5 euros. Explicamos e o funcionário, muito simpaticamente, faz um gesto de cagandismo e deixa-nos entrar. Cruzamo-nos com pessoas no sentido inverso – para além de nós, não há ninguém a entrar àquela hora do final da tarde – e, à medida que vamos descendo, vamos comprovando a impressão de que se trata de um local de banho, e não apenas uma cascata que se pode visitar pela vista e pela fotografia.
Avistamos a parede da cascata que não é muito alta mas tem uma extensão relativamente grande. A água enche uma pequena enseada, que estreita e converge para um rio, atravessado por uma ponte que liga as duas partes onde as pessoas se estendem ao sol, e onde existem alguns cafés. Alguns tomam banho na água com uma cor esverdeada. Outros trepam as pedras escorregadias e posam para a fotografia com a cascata no fundo.
Descansamos um pouco até fazer o caminho de regresso. Faltam apenas alguns quilómetros até Mostar, uma meia-hora deverá ser suficiente para o trajecto final.
sexta-feira, 24 de agosto de 2018
quinta-feira, 23 de agosto de 2018
Na manhã seguinte, trepamos os cerca de 1500 degraus até à fortaleza que se ergue sobre a vila.
Os degraus são irregulares e não ajudam o processo e o calor não dá tréguas. Lá no alto, turistas transpirados tiram fotografias da vista de cortar a respiração. É a última imagem que registamos do Montenegro: em seguida, descemos a escadaria, fizemos algumas compras para a viagem e seguimos pela estrada que ladeia o lago.
Dado que o desvio que implicaria era pouco significativo, optámos por passar por Dubrovnik, onde poderíamos passar umas horas na cidade, e só depois seguir em direcção à Bósnia. Um dia que, desta forma, incluiria três países. O trajecto correu de acordo com o planeado desde Kotor até à fronteira mas aí tudo se complicou. A saída do Montenegro foi um pouco demorada mas o pior ainda estava para vir. A fila comprida de carros para entrar na Croácia era muito lenta. De motor desligado, as pessoas começaram a sair para apanhar ar e tentar perceber a razão da demora. Quando nos aproximámos das cabines dos guardas, fomos instruídos indelicadamente a regressar e esperar no carro. Nem ao pedido de uma casa-de-banho acederam.
Quando finalmente atravessámos a fronteira, já tinham decorrido duas preciosas horas, aquelas que estavam previstas para passear um pouco em Dubrovnik. Depois de uma paragem estratégica à beira da estrada para resolver assuntos inadiáveis, seguimos rapidamente mas limitámo-nos a passar ao lado da cidade. Não muito depois, à medida que nos afastámos da costa, a qualidade das estradas piora, mais estreitas e com curvas.
O posto fronteiriço dificilmente poderia ser mais diferente do que aquele pelo qual entrámos na Croácia. À nossa frente, não há mais nenhum carro e está um pré-fabricado. Lá dentro está um guarda que conversa com outras pessoas que também estão no cubículo. Sem interromper a conversa, recebe os documentos, processa a informação, e devolve-me-os.
Poucos metros (talvez 10?) à frente, há um segundo pré-fabricado que parece ser o homólogo da Bósnia. No entanto, parece fechado e ninguém aparece para nos receber. Decidimos avançar lentamente.
Dado que o desvio que implicaria era pouco significativo, optámos por passar por Dubrovnik, onde poderíamos passar umas horas na cidade, e só depois seguir em direcção à Bósnia. Um dia que, desta forma, incluiria três países. O trajecto correu de acordo com o planeado desde Kotor até à fronteira mas aí tudo se complicou. A saída do Montenegro foi um pouco demorada mas o pior ainda estava para vir. A fila comprida de carros para entrar na Croácia era muito lenta. De motor desligado, as pessoas começaram a sair para apanhar ar e tentar perceber a razão da demora. Quando nos aproximámos das cabines dos guardas, fomos instruídos indelicadamente a regressar e esperar no carro. Nem ao pedido de uma casa-de-banho acederam.
Quando finalmente atravessámos a fronteira, já tinham decorrido duas preciosas horas, aquelas que estavam previstas para passear um pouco em Dubrovnik. Depois de uma paragem estratégica à beira da estrada para resolver assuntos inadiáveis, seguimos rapidamente mas limitámo-nos a passar ao lado da cidade. Não muito depois, à medida que nos afastámos da costa, a qualidade das estradas piora, mais estreitas e com curvas.
O posto fronteiriço dificilmente poderia ser mais diferente do que aquele pelo qual entrámos na Croácia. À nossa frente, não há mais nenhum carro e está um pré-fabricado. Lá dentro está um guarda que conversa com outras pessoas que também estão no cubículo. Sem interromper a conversa, recebe os documentos, processa a informação, e devolve-me-os.
Poucos metros (talvez 10?) à frente, há um segundo pré-fabricado que parece ser o homólogo da Bósnia. No entanto, parece fechado e ninguém aparece para nos receber. Decidimos avançar lentamente.
quarta-feira, 22 de agosto de 2018
Fazemos um desvio para passar no parque natural do largo Skadar.
Percorremos uma estrada de cabras que nos leva até àquela que é porventura a imagem mais emblemática destas paragens: a “horseshoe bend”, uma curva do Rijeka Crnojevica, à semelhança da famosa curvatura do rio Colorado. Paramos o carro e saímos para tirar fotografias. Um barco percorre lentamente as águas do rio. As nuvens encobrem o sol e a cor não é ideal mas, pouco depois, os primeiros raios começam a ver-se, progressivamente, à medida que o sol se escapa daquela capa cinzenta. A fuga do sol é apenas temporária e a oportunidade de tirar uma fotografia com luz mais favorável não dura muito tempo, a próxima nuvem está mesmo ao lado e caminha rapidamente.
Daqui até Kotor – o fjord mais austral da Europa e único no Mediterrâneo – o percurso é relativamente rápido. O nosso hotel fica do lado oeste do lago, o lado oposto ao da vila. A estrada é bastante apertada e os constantes cruzamentos com outros carros são um castigo. Ao longo dela, são inúmeros os pequenos pontões e outros acessos à água. Como aquele mesmo perto do hotel onde, logo após deixar as malas no quarto com uma vista impressionante, aproveitamos para, de imediato, tomar um banho, ao mesmo tempo que o sol, lentamente, se esconde atrás do enorme rochedo. À noite fazemos os 3 a 4 quilómetros até à vila para jantar dentro das muralhas da povoação.
Daqui até Kotor – o fjord mais austral da Europa e único no Mediterrâneo – o percurso é relativamente rápido. O nosso hotel fica do lado oeste do lago, o lado oposto ao da vila. A estrada é bastante apertada e os constantes cruzamentos com outros carros são um castigo. Ao longo dela, são inúmeros os pequenos pontões e outros acessos à água. Como aquele mesmo perto do hotel onde, logo após deixar as malas no quarto com uma vista impressionante, aproveitamos para, de imediato, tomar um banho, ao mesmo tempo que o sol, lentamente, se esconde atrás do enorme rochedo. À noite fazemos os 3 a 4 quilómetros até à vila para jantar dentro das muralhas da povoação.
terça-feira, 21 de agosto de 2018
As estradas da Riviera Albanesa fazem-nos pagar caro pela vista.
Ziguezagues constantes, subidas e descidas e, claro, camiões lentos de fazer desesperar. E, ao fundo, o mar que, por vezes, ostenta um azul turquesa muito desejável. Outra tirada longa e cansativa, cortada a meio para uma noite perto da lagoa de Narta, para a segunda e última tarde de ripanço. Uma estirada final leva-nos até à capital Tirana.
Uma das principais atracções turísticas da cidade são os antigos bunkers do regime comunista albanês, recentemente abertos ao público. A cerca de 5 quilómetros do centro de Tirana encontra-se o Bunkart 1, o bunker construído para Enver Hoxha e os principais membros do seu regime. O bunker, que acabou por nunca ser usado, é enorme, um longo corredor que ramifica em cerca de meia dúzia de outros corredores. Lá dentro, vemos o quarto reservado a Hoxha, o único com casa-de-banho privativa, assim como um sem número de outros quartos. Nestes, foi construída uma exposição que nos leva aos primórdios do povo albanês, passando pelas invasões do Império Otomano, as guerras mundiais, a ocupação da Itália de Mussolini e, logo a seguir, da Alemanha nazi e, finalmente, ao regime comunista e à sua queda no início da década de 90. O ponto alto é a sala de reuniões, uma autêntica sala de espectáculos subterrânea.
Chove agora copiosamente e é complicado conduzir pelas ruas da cidade no meio da bátega e do trânsito errático. Depois de pararmos o carro no hotel, saímos de impermeável. Estamos apenas a algumas centenas de metros da praça Skanderberg, o centro da cidade, mas o curto trajecto é mais do que suficiente para ficar encharcado. Ao fundo, num dos extremos, está a entrada para o Bunkart 2, o segundo bunker do dia. Este tem uma dimensão menor, foi feito para o Ministro do Interior albanês e a exposição no interior dedica-se ao regime ditactorial comunista. As descrições das escutas, perseguições, torturas são detalhadas e pesadas, em alguns casos, verdadeiros murros no estômago. Pelo meio, também há elementos caricatos da paranoia do regime, como o barbeiro residente no aeroporto, encarregue de cortar cabelos e aparar barbas de estrangeiros que quisessem visitar o país e não apresentassem o decoro capilar necessário.
Para além destes dois bunkers convertidos em museu e preenchidos com exposições, há uma série de outros de menor relevância. No período de bunkerização do país, foram construídos mais de cem mil destas construções subterrâneas oficiais e há quem diga que as não oficiais são bastante mais. Pelo caminho, à beira da estrada, no meio dos campos, vemos, de vez em quando, as características abóbodas de cimento que sinalizam a sua entrada. Uns estão ao abandono, meio destruídos. Outros foram aproveitados e são estabelecimentos, como um que vimos que foi transformado numa loja de tatuagens.
À noite, depois de jantar literalmente à porta de um restaurante, andamos um pouco pelas ruas e passamos pela pirâmide de Tirana, o edifício desenhado pela filha arquitecta de Hoxha, com o intuito de vir a albergar um museu dedicado ao legado do pai, após a sua morte. Inaugurado em 1988, deixou de ser um museu após a queda do regime comunista e foi transformado num centro de conferências. Mais tarde, durante a guerra do Kosovo, chegou a servir de base da NATO. Hoje em dia, está abandonado, de vidros partidos e paredes cheias de graffitis.
Uma das principais atracções turísticas da cidade são os antigos bunkers do regime comunista albanês, recentemente abertos ao público. A cerca de 5 quilómetros do centro de Tirana encontra-se o Bunkart 1, o bunker construído para Enver Hoxha e os principais membros do seu regime. O bunker, que acabou por nunca ser usado, é enorme, um longo corredor que ramifica em cerca de meia dúzia de outros corredores. Lá dentro, vemos o quarto reservado a Hoxha, o único com casa-de-banho privativa, assim como um sem número de outros quartos. Nestes, foi construída uma exposição que nos leva aos primórdios do povo albanês, passando pelas invasões do Império Otomano, as guerras mundiais, a ocupação da Itália de Mussolini e, logo a seguir, da Alemanha nazi e, finalmente, ao regime comunista e à sua queda no início da década de 90. O ponto alto é a sala de reuniões, uma autêntica sala de espectáculos subterrânea.
Chove agora copiosamente e é complicado conduzir pelas ruas da cidade no meio da bátega e do trânsito errático. Depois de pararmos o carro no hotel, saímos de impermeável. Estamos apenas a algumas centenas de metros da praça Skanderberg, o centro da cidade, mas o curto trajecto é mais do que suficiente para ficar encharcado. Ao fundo, num dos extremos, está a entrada para o Bunkart 2, o segundo bunker do dia. Este tem uma dimensão menor, foi feito para o Ministro do Interior albanês e a exposição no interior dedica-se ao regime ditactorial comunista. As descrições das escutas, perseguições, torturas são detalhadas e pesadas, em alguns casos, verdadeiros murros no estômago. Pelo meio, também há elementos caricatos da paranoia do regime, como o barbeiro residente no aeroporto, encarregue de cortar cabelos e aparar barbas de estrangeiros que quisessem visitar o país e não apresentassem o decoro capilar necessário.
Para além destes dois bunkers convertidos em museu e preenchidos com exposições, há uma série de outros de menor relevância. No período de bunkerização do país, foram construídos mais de cem mil destas construções subterrâneas oficiais e há quem diga que as não oficiais são bastante mais. Pelo caminho, à beira da estrada, no meio dos campos, vemos, de vez em quando, as características abóbodas de cimento que sinalizam a sua entrada. Uns estão ao abandono, meio destruídos. Outros foram aproveitados e são estabelecimentos, como um que vimos que foi transformado numa loja de tatuagens.
À noite, depois de jantar literalmente à porta de um restaurante, andamos um pouco pelas ruas e passamos pela pirâmide de Tirana, o edifício desenhado pela filha arquitecta de Hoxha, com o intuito de vir a albergar um museu dedicado ao legado do pai, após a sua morte. Inaugurado em 1988, deixou de ser um museu após a queda do regime comunista e foi transformado num centro de conferências. Mais tarde, durante a guerra do Kosovo, chegou a servir de base da NATO. Hoje em dia, está abandonado, de vidros partidos e paredes cheias de graffitis.
segunda-feira, 20 de agosto de 2018
Ksamil fica numa espécie de península, uma língua de terra muito perto da fronteira com a Grécia.
É também dos poucos locais onde as praias têm areia em vez das pedras que magoam os pés e desafiam o equilíbrio, quais aprendizes de faquir que caminham sobre brasas. Num dos extremos, fica a antiga povoação de Butrint, originalmente grega, mas com mão romana posterior, foi classificada como Património Mundial da UNESCO em 1992. As ruinas incluem um anfiteatro, banhos romanos, capela e basílica, entre outros.
A visita, de manhã, é a única coisa que fazemos de cultural ou produtivo o dia todo. De resto, após o check in no hotel, limitamo-nos a uma merecida espreguiçadeira, bem perto de um mar de cor límpida. Pagamos ao rapaz que rapidamente surge para nos cobrar, depois de alguma conversa a propósito do câmbio que nos quer fazer: não temos a totalidade em leks e quer euros à taxa de 100 leks para 1 euro, quando 80 cêntimos bastariam para os tais 100 leks. Diz-nos que facilita os cálculos; rimo-nos e dizemos-lhe que, curiosamente, também o beneficia.
No café, pergunto se aceitam cartão e a resposta é negativa. Apesar de termos euros, não queremos sujeitar-nos à taxa de câmbio manipulada, pelo que não há outra forma senão dar uma saltada à caixa automática mais próxima, que a empregada nos diz ser a cerca de 10 minutos. Munimo-nos do estritamente suficiente para um almoço ligeiro (uma salada de frango ou atum) que permita continuar a mergulhar sem limitações. Peço um café, não à empregada, que nos atendeu mas a um tipo mais velho. Diz-me o que parece ser que não servem cafés, embora não o tenha entendido exactamente. Quando a empregada passa para levantar os pratos, pedimos-lhe o tal café mas, passado um pouco, quando regressa, diz-nos que a máquina está avariada. Claramente começa a cheirar a esturro.
É o dia da final do Campeonato do Mundo e consideramos a hipótese de nos sentar numa mesa a ver o jogo acompanhado do café que não bebemos ao almoço. Regressamos ao mesmo sítio e procuramos uma mesa livre no mar das que estão ocupadas. Manifestamos a nossa intenção ao dono do estabelecimento e somos, de imediato, rejeitados. Que aquilo são mesas para quem está a comer e não beber, estão a ver alguém a beber em algum sítio? Saímos sem antes o mandar a um determinado sítio.
O empregado do café ao lado mostra-se mais receptivo, embora a única mesa disponível esteja relativamente longe do televisor. Deixamos ali os leks remanescentes enquanto a Croácia empata e os espectadores vão ao rubro, não há a mínima dúvida em relação às preferências. Quando o árbitro faz a indicação de que quer rever as imagens de um lance na área e, logo a seguir, assinala grande penalidade a favor da França, apenas um tipo se levanta a regozijar. Ao intervalo, com o meu copo de frappé vazio, regressamos à espreguiçadeira e ao livro. Na areia com, agora, muito menor densidade populacional, vamos ouvindo as exclamações de sofrimento à medida que a França dilata o resultado e apenas uma alegria temporária aquando do frango de Lloris.
Antecipamos a resistência que certamente também vamos encontrar com o pagamento em cartão para o jantar. No primeiro sítio que vemos, perguntamos ao dono, que nos responde negativamente e acrescenta
Albanian people like to sleep with their money
juntamente com um gesto de quem coloca o dinheiro debaixo da cabeça, a fazer de almofada. Perguntamos em mais uma meia dúzia de locais enquanto descemos a rua até à inevitável caixa automática, só pela piada. Ninguém aceita cartão. Um diz que a máquina está avariada. Optamos pelo primeiro apenas porque teve a resposta mais gira. E optamos bem porque acabamos por jantar bastante bem.
A visita, de manhã, é a única coisa que fazemos de cultural ou produtivo o dia todo. De resto, após o check in no hotel, limitamo-nos a uma merecida espreguiçadeira, bem perto de um mar de cor límpida. Pagamos ao rapaz que rapidamente surge para nos cobrar, depois de alguma conversa a propósito do câmbio que nos quer fazer: não temos a totalidade em leks e quer euros à taxa de 100 leks para 1 euro, quando 80 cêntimos bastariam para os tais 100 leks. Diz-nos que facilita os cálculos; rimo-nos e dizemos-lhe que, curiosamente, também o beneficia.
No café, pergunto se aceitam cartão e a resposta é negativa. Apesar de termos euros, não queremos sujeitar-nos à taxa de câmbio manipulada, pelo que não há outra forma senão dar uma saltada à caixa automática mais próxima, que a empregada nos diz ser a cerca de 10 minutos. Munimo-nos do estritamente suficiente para um almoço ligeiro (uma salada de frango ou atum) que permita continuar a mergulhar sem limitações. Peço um café, não à empregada, que nos atendeu mas a um tipo mais velho. Diz-me o que parece ser que não servem cafés, embora não o tenha entendido exactamente. Quando a empregada passa para levantar os pratos, pedimos-lhe o tal café mas, passado um pouco, quando regressa, diz-nos que a máquina está avariada. Claramente começa a cheirar a esturro.
É o dia da final do Campeonato do Mundo e consideramos a hipótese de nos sentar numa mesa a ver o jogo acompanhado do café que não bebemos ao almoço. Regressamos ao mesmo sítio e procuramos uma mesa livre no mar das que estão ocupadas. Manifestamos a nossa intenção ao dono do estabelecimento e somos, de imediato, rejeitados. Que aquilo são mesas para quem está a comer e não beber, estão a ver alguém a beber em algum sítio? Saímos sem antes o mandar a um determinado sítio.
O empregado do café ao lado mostra-se mais receptivo, embora a única mesa disponível esteja relativamente longe do televisor. Deixamos ali os leks remanescentes enquanto a Croácia empata e os espectadores vão ao rubro, não há a mínima dúvida em relação às preferências. Quando o árbitro faz a indicação de que quer rever as imagens de um lance na área e, logo a seguir, assinala grande penalidade a favor da França, apenas um tipo se levanta a regozijar. Ao intervalo, com o meu copo de frappé vazio, regressamos à espreguiçadeira e ao livro. Na areia com, agora, muito menor densidade populacional, vamos ouvindo as exclamações de sofrimento à medida que a França dilata o resultado e apenas uma alegria temporária aquando do frango de Lloris.
Antecipamos a resistência que certamente também vamos encontrar com o pagamento em cartão para o jantar. No primeiro sítio que vemos, perguntamos ao dono, que nos responde negativamente e acrescenta
Albanian people like to sleep with their money
juntamente com um gesto de quem coloca o dinheiro debaixo da cabeça, a fazer de almofada. Perguntamos em mais uma meia dúzia de locais enquanto descemos a rua até à inevitável caixa automática, só pela piada. Ninguém aceita cartão. Um diz que a máquina está avariada. Optamos pelo primeiro apenas porque teve a resposta mais gira. E optamos bem porque acabamos por jantar bastante bem.
domingo, 19 de agosto de 2018
A praia é mesmo ao lado do hotel.
Um paredão com cadeiras e espreguiçadeiras e escadas de metal para aceder à água, como se fosse uma piscina. Está bastante vento e a aquela (chamemos-lhe) praia desprovida de areal ganha contornos muito pouco convidativos. Já para não dizer que a viagem entre o lago de Ohrid e Saranda, mais de seis horas para cerca de 300 kms, teve o seu desgaste: várias vezes fomos enviados pelo Google para caminhos sem saída ou estradas ao abandono; outras tantas, não reconheceu a existência de estradas que, manifestamente (juro!), existem.
Subimos até ao terceiro andar, uma vez mais sem um elevador que nos ajude com as malas, para o quarto com uma varanda virada para a varanda do prédio da frente – num canto, dá para ver um pouco da assim-designada praia. A casa de banho é mínima, o chuveiro é tão pequeno que seria impossível ter porta; nem sequer cortinado tem, o esforço de evitar encharcar o chão é a definição de inglório.
Com desejos de peixe, não satisfeitos pela oferta nas zonas servidas pelo lago – trutas, carpas e pouco mais, espécies que não aguçam muito o olho – aproveitamos o facto de estar na primeira zona costeira da viagem. O restaurante com a melhor classificação no trip advisor é um estabelecimento pequenino, familiar, com uma meia dúzia de mesas de duas pessoas, na rua, que quase bloqueiam o passeio. Dois casais de turistas, com pinta de alemães, terminam a refeição. O menu é curto e grosso. Pedimos uma dose de camarões, polvo e, supostamente, apenas uma dourada. Mas quando, após os primeiros pratos, o senhor aparece com dois pratos de dourada, sou incapaz de dizer que não.
Subimos até ao terceiro andar, uma vez mais sem um elevador que nos ajude com as malas, para o quarto com uma varanda virada para a varanda do prédio da frente – num canto, dá para ver um pouco da assim-designada praia. A casa de banho é mínima, o chuveiro é tão pequeno que seria impossível ter porta; nem sequer cortinado tem, o esforço de evitar encharcar o chão é a definição de inglório.
Com desejos de peixe, não satisfeitos pela oferta nas zonas servidas pelo lago – trutas, carpas e pouco mais, espécies que não aguçam muito o olho – aproveitamos o facto de estar na primeira zona costeira da viagem. O restaurante com a melhor classificação no trip advisor é um estabelecimento pequenino, familiar, com uma meia dúzia de mesas de duas pessoas, na rua, que quase bloqueiam o passeio. Dois casais de turistas, com pinta de alemães, terminam a refeição. O menu é curto e grosso. Pedimos uma dose de camarões, polvo e, supostamente, apenas uma dourada. Mas quando, após os primeiros pratos, o senhor aparece com dois pratos de dourada, sou incapaz de dizer que não.
sábado, 18 de agosto de 2018
Quando regressamos ao hotel, o televisor está ligado num canal onde estão a transmitir a primeira meia-final de Wimbledon.
O sul-africano Kevin Anderson e o americano John Isner disparam ases uns atrás dos outros. Sento-me nas cadeiras do lobby a ver o jogo e o funcionário da recepção vem ter comigo e pergunta-me se quero ver o jogo lá fora, na esplanada. Digo-lhe que sim e ele liga o televisor só para mim. Ficamos um pouco à conversa. Está, como eu, à espera da meia-final seguinte entre o Djokovic e o Nadal, e não propriamente interessado neste jogo aborrecido que, ainda por cima, havia de se prolongar por várias horas.
Está a torcer pelo sérvio, quer vê-lo regressar à forma que o levou a número um mundial e que lhe tem escapado nos últimos dois anos. Pergunto-lhe se é comum que as pessoas ali apoiem um sérvio e ele diz-me que sim, que sem dúvida sentem a proximidade e a comunhão com os restantes povos,
My father lived 40 years in Yugoslavia.
Pergunto-lhe se o sentimento é extensível ao futebol e à Croácia e responde que também. E, em relação à Croácia, fala-me também de Goran Ivanisevic, o jogador excêntrico, que surgiu nos anos 90 e acabou por conseguir ganhar em Wimbledon em 2001.
É ele que, após o nosso merecido duche, nos aconselha alguns restaurantes e, mais importante, nos põe ao telefone com alguém que organiza voos de parapente. Depois de alguma negociação ao telefone, agendamos para o dia seguinte às 9h00, hora a que nos apanham no hotel. Daí conduzem-nos até um local diferente do que havíamos combinado, que deixa de ser opção dadas as condições do vento.
Segue-se uma breve palestra de informação e segurança e a distribuição por cada um dos pilotos profissionais
When I tell you, you run
diz-me Goran, que ficou encarregue de me levar. Perguntamos-lhe se aprendeu a voar a ver uns tutorials no youtube na noite anterior. Ri-se
My friend, 22 years
Muitos anos de voo.
Ready?
E prende o meu arnês à estrutura da asa. À instrução dele, tento correr, lutando contra a força da asa, até sentir que os pés já não estão no chão e, de repente, estamos a voar. Permanecemos talvez 15 minutos no ar, não temos a sorte do parapente que vai à nossa frente, que se farta de apanhar térmicas e ganhar altitude.
Finda a aventura, somos conduzidos novamente até ao hotel. Pelo caminho, quando lhes dizemos o trajecto que já fizemos até agora e o que ainda nos falta fazer, dão-nos algumas dicas sobre a Albânia. Mas também advertências, a principal das quais é em relação à condução dos albaneses.
Albanians are strange, they are a strange people
Está a torcer pelo sérvio, quer vê-lo regressar à forma que o levou a número um mundial e que lhe tem escapado nos últimos dois anos. Pergunto-lhe se é comum que as pessoas ali apoiem um sérvio e ele diz-me que sim, que sem dúvida sentem a proximidade e a comunhão com os restantes povos,
My father lived 40 years in Yugoslavia.
Pergunto-lhe se o sentimento é extensível ao futebol e à Croácia e responde que também. E, em relação à Croácia, fala-me também de Goran Ivanisevic, o jogador excêntrico, que surgiu nos anos 90 e acabou por conseguir ganhar em Wimbledon em 2001.
É ele que, após o nosso merecido duche, nos aconselha alguns restaurantes e, mais importante, nos põe ao telefone com alguém que organiza voos de parapente. Depois de alguma negociação ao telefone, agendamos para o dia seguinte às 9h00, hora a que nos apanham no hotel. Daí conduzem-nos até um local diferente do que havíamos combinado, que deixa de ser opção dadas as condições do vento.
Segue-se uma breve palestra de informação e segurança e a distribuição por cada um dos pilotos profissionais
When I tell you, you run
diz-me Goran, que ficou encarregue de me levar. Perguntamos-lhe se aprendeu a voar a ver uns tutorials no youtube na noite anterior. Ri-se
My friend, 22 years
Muitos anos de voo.
Ready?
E prende o meu arnês à estrutura da asa. À instrução dele, tento correr, lutando contra a força da asa, até sentir que os pés já não estão no chão e, de repente, estamos a voar. Permanecemos talvez 15 minutos no ar, não temos a sorte do parapente que vai à nossa frente, que se farta de apanhar térmicas e ganhar altitude.
Finda a aventura, somos conduzidos novamente até ao hotel. Pelo caminho, quando lhes dizemos o trajecto que já fizemos até agora e o que ainda nos falta fazer, dão-nos algumas dicas sobre a Albânia. Mas também advertências, a principal das quais é em relação à condução dos albaneses.
Albanians are strange, they are a strange people
sexta-feira, 17 de agosto de 2018
No local que nos indicaram no hotel não se avista catamaran nenhum.
Apenas uns barcos mais rudimentares, de pescadores convertidos em taxistas aquáticos, mas um pouco distantes do sítio exacto. Sentamo-nos um pouco à espera, que acaba por ser curta. Pouco depois das 8h, vemos o pequeno catamaran, lentamente, aproximar-se do paredão até parar para que subamos a bordo.
O skipper chama-se Nicola. Veste uma camisola de manga cava amarela, que expõe uns braços avermelhados da intensidade do sol, e uns calções de uma cor muito parecida à dos braços queimados. Dentro do catamaran há outras duas famílias – pai, mãe e dois filhos, cada. Fazemos ainda outra paragem para recolher mãe e filha holandesas e estamos prontos a seguir caminho.
O rádio dispara música energética e Nicola, apesar do aspecto seco, parece estar bem disposto. Convida os miúdos, um pouco atónitos, a sentar-se ao volante do barco e a comandar os nossos destinos. Depois, aproxima-se de um dos outros catamarans que fazem o mesmo percurso para pedir uma garrafa que lhe é prontamente arremessada para as mãos. Serve, aos adultos, um pequeno copo de plástico de uma bebida, cujo sabor é parecido ao do whisky, e que, àquela hora da manhã, custa um pouco a mandar abaixo.
O primeiro destino é a Baía dos Ossos, na qual se encontra uma reconstituição de antigas povoações, que foram erigidas dentro do lago, com recurso a casas sobre estacas. Aliás, as estacas suportam uma estrutura rectangular, que faz de chão e sob a qual, por sua vez as habitações se encontram.
Mais à frente paramos num pequeno mosteiro, local onde aproveitamos para o primeiro mergulho do dia. Ainda a pingar, regressamos ao barco para nos dirigirmos ao Mosteiro de Saint Naum. Aqui, depois de visitar o mosteiro, ficamos algumas horas, na praia, até chegar a hora do regresso. Lá no alto, vemos um grupo a pairar de parapente. No trajecto, numa zona de águas calmas algures a meio do lago, paramos para mais um mergulho.
O skipper chama-se Nicola. Veste uma camisola de manga cava amarela, que expõe uns braços avermelhados da intensidade do sol, e uns calções de uma cor muito parecida à dos braços queimados. Dentro do catamaran há outras duas famílias – pai, mãe e dois filhos, cada. Fazemos ainda outra paragem para recolher mãe e filha holandesas e estamos prontos a seguir caminho.
O rádio dispara música energética e Nicola, apesar do aspecto seco, parece estar bem disposto. Convida os miúdos, um pouco atónitos, a sentar-se ao volante do barco e a comandar os nossos destinos. Depois, aproxima-se de um dos outros catamarans que fazem o mesmo percurso para pedir uma garrafa que lhe é prontamente arremessada para as mãos. Serve, aos adultos, um pequeno copo de plástico de uma bebida, cujo sabor é parecido ao do whisky, e que, àquela hora da manhã, custa um pouco a mandar abaixo.
O primeiro destino é a Baía dos Ossos, na qual se encontra uma reconstituição de antigas povoações, que foram erigidas dentro do lago, com recurso a casas sobre estacas. Aliás, as estacas suportam uma estrutura rectangular, que faz de chão e sob a qual, por sua vez as habitações se encontram.
Mais à frente paramos num pequeno mosteiro, local onde aproveitamos para o primeiro mergulho do dia. Ainda a pingar, regressamos ao barco para nos dirigirmos ao Mosteiro de Saint Naum. Aqui, depois de visitar o mosteiro, ficamos algumas horas, na praia, até chegar a hora do regresso. Lá no alto, vemos um grupo a pairar de parapente. No trajecto, numa zona de águas calmas algures a meio do lago, paramos para mais um mergulho.
quinta-feira, 16 de agosto de 2018
O condutor provou-me errado:
afinal ainda era possível levar mais pessoas naquela mini-van onde, aos meus olhos, não cabia nem mais uma ervilha. Primeiro uma senhora que se sentou no degrau ao fundo do corredor, antes da última fila de bancos. Um senhor de ficou de pé no corredor e um jovem acabou a partilhar banco com um dos passageiros que, gentilmente, lhe ofereceu parte do seu.
Pelo caminho, uma folha é posta a circular pelos passageiros para que escrevam os nomes e números de passaporte. Mesmo assim, as formalidades na fronteira são morosas. Os guardas recolhem os passaportes de todos, entram no posto e demoram a regressar e devolver os passaportes carimbados.
Chegamos à estação de autocarros cerca de duas hora e meia depois. O caminho em direcção ao centro da cidade faz-se pelo meio de um bairro habitacional, que vai desembocar a uma avenida movimentada, com várias lojas. Seguimos por essa avenida até nos depararmos com um primeiro ex libris: a estátua de um Bill Clinton sorridente, que acena com uma mão e, com a outra, segura um livro. Ao lado uma bandeira dos EUA. Ao fundo, prédios coloridos, velhos, sujos. Só depois de fotografar a estátua, vejo que avenida recebeu o nome do ex-presidente americano.
A próxima paragem, um pouco mais à frente, depois de um pequeno jardim, é a biblioteca universitária de Pristina, considerada, em alguns fóruns online, como um dos edifícios mais feios do mundo. Não muito longe, uma avenida pedonal repleta de esplanadas onde, ao fundo, crianças de fato-de-banho brincam nuns repuxos de água.
Quando damos por nós, estamos sentados a beber um café numa esplanada perto de um símbolo do território: um letreiro com letras metálicas bem grandes, que formam a palavra “newborn” e que, a propósito dos 10 anos da declaração unilateral de independência, foi alterado para new10rn”. Consultamos os horários de regresso a Skopje. Temos um autocarro dentro de meia hora. Consultamos o Google maps que calcula a duração do percurso a pé até à estação em meia-hora. Pagamos rapidamente e largamos a correr.
Compramos os bilhetes e dirigimo-nos à plataforma com um misto de expectativa e receio em relação ao que vamos encontrar. Desta vez, sentamo-nos num autocarro bastante maior mas também bastante mais velho, sem ar condicionado. Felizmente vai quase vazio, apenas alguns passageiros para além de nós. Por cima da porta, as indicações do número de lugares sentados e em pé estão em francês.
A agressividade do condutor não inspira grande confiança. Para além das inúmeras chamadas que atende ao longo do caminho, por vezes resolve observar as actualizações no Facebook. Quando já estamos perto da cidade, pára numa estação de serviço para abastecer. Deixa o veículo com o motor ligado e sai. Regressa já depois do abastecimento estar feito, traz dois sacos de compras na mão.
Mais à frente, o trânsito começa a adensar. Falam entre eles, calculamos que tenha acontecido qualquer coisa. Explicam-nos: há uma greve dos taxistas que está a gerar o pandemónio. Chegam à conclusão que não vale a pena insistir em chegar à estação de autocarros, que será mais fácil sairmos antes e fazer o percurso a pé. Ainda antes de sair, vemos um velhote num carro a tentar entrar numa estrada em contramão, a partir da saída. Um dos tipos atrás
Macedonia, ok
e rimo-nos. Saímos e, simpaticamente, dão-nos as indicações para regressarmos ao centro da cidade.
Pelo caminho, uma folha é posta a circular pelos passageiros para que escrevam os nomes e números de passaporte. Mesmo assim, as formalidades na fronteira são morosas. Os guardas recolhem os passaportes de todos, entram no posto e demoram a regressar e devolver os passaportes carimbados.
Chegamos à estação de autocarros cerca de duas hora e meia depois. O caminho em direcção ao centro da cidade faz-se pelo meio de um bairro habitacional, que vai desembocar a uma avenida movimentada, com várias lojas. Seguimos por essa avenida até nos depararmos com um primeiro ex libris: a estátua de um Bill Clinton sorridente, que acena com uma mão e, com a outra, segura um livro. Ao lado uma bandeira dos EUA. Ao fundo, prédios coloridos, velhos, sujos. Só depois de fotografar a estátua, vejo que avenida recebeu o nome do ex-presidente americano.
A próxima paragem, um pouco mais à frente, depois de um pequeno jardim, é a biblioteca universitária de Pristina, considerada, em alguns fóruns online, como um dos edifícios mais feios do mundo. Não muito longe, uma avenida pedonal repleta de esplanadas onde, ao fundo, crianças de fato-de-banho brincam nuns repuxos de água.
Quando damos por nós, estamos sentados a beber um café numa esplanada perto de um símbolo do território: um letreiro com letras metálicas bem grandes, que formam a palavra “newborn” e que, a propósito dos 10 anos da declaração unilateral de independência, foi alterado para new10rn”. Consultamos os horários de regresso a Skopje. Temos um autocarro dentro de meia hora. Consultamos o Google maps que calcula a duração do percurso a pé até à estação em meia-hora. Pagamos rapidamente e largamos a correr.
Compramos os bilhetes e dirigimo-nos à plataforma com um misto de expectativa e receio em relação ao que vamos encontrar. Desta vez, sentamo-nos num autocarro bastante maior mas também bastante mais velho, sem ar condicionado. Felizmente vai quase vazio, apenas alguns passageiros para além de nós. Por cima da porta, as indicações do número de lugares sentados e em pé estão em francês.
A agressividade do condutor não inspira grande confiança. Para além das inúmeras chamadas que atende ao longo do caminho, por vezes resolve observar as actualizações no Facebook. Quando já estamos perto da cidade, pára numa estação de serviço para abastecer. Deixa o veículo com o motor ligado e sai. Regressa já depois do abastecimento estar feito, traz dois sacos de compras na mão.
Mais à frente, o trânsito começa a adensar. Falam entre eles, calculamos que tenha acontecido qualquer coisa. Explicam-nos: há uma greve dos taxistas que está a gerar o pandemónio. Chegam à conclusão que não vale a pena insistir em chegar à estação de autocarros, que será mais fácil sairmos antes e fazer o percurso a pé. Ainda antes de sair, vemos um velhote num carro a tentar entrar numa estrada em contramão, a partir da saída. Um dos tipos atrás
Macedonia, ok
e rimo-nos. Saímos e, simpaticamente, dão-nos as indicações para regressarmos ao centro da cidade.
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Ainda não são 7h30 quando desço e peço, na recepção do hotel, para chamarem o táxi.
A hora que nos tinham dito no dia anterior que seria mais do que suficiente, uma vez que a viagem até à estação não demoraria mais de 10 minutos e já tínhamos comprado os bilhetes. A funcionária de cabelo curto apanhado demora um pouco até começar a mover-se languidamente para ir buscar o telefone. Depois, por azar, a primeira tentativa que faz revela-se infrutífera: a empresa não tem táxis disponíveis. Explica-me o sucedido e enceta uma segunda tentativa, enquanto os minutos continuam a passar e passam mesmo alguns até finalmente confirmar que está um táxi a caminho.
Passam outros tantos até ouvirmos o ruído de um veículo e é ela mesmo que nos diz que o táxi deverá ter chegado. E, de facto, vemos um táxi à saída do hotel mas, quando me dirijo para ele e começo a falar com o taxista, vejo-o a carregar uma mala e, logo em seguida, ser ocupado por uma senhora. O nosso táxi só virá um pouco depois e, por esta altura, começa a parecer muito à tangente face às 8h a que parte o nosso autocarro.
Para complicar ainda mais contas, os tais dez minutos que deveria demorar o trajecto até à estação de autocarros acabam por durar mais. Nesta altura já dizemos mal às nossas vidas e criticamo-nos por acreditar nas estimativas temporais realizadas nestas bandas que, invariavelmente, acabam por se revelar erradas e sempre no sentido da subestimação.
São 7h58 quando abro a porta do táxi e me lanço num sprint pela estação a dentro. O tipo que controla a entrada mediante a verificação dos bilhetes é sensível à nossa pressa e limita-se a indicar-nos o caminho após lhe termos dito o nosso destino. Quando vejo a plataforma 1 e uma mini-van onde esperaria ver um autocarro fico, por um curto instante, um pouco desnorteado. O condutor lá de dentro
Prí-ch-tina?
e eu digo-lhe que sim e ele faz-me sinal para entrar. Mas lá dentro está tudo cheio, a mini-van deve ter uns doze lugares e já só sobra o banco que se abre nas costas dos bancos da frente, virado para o corredor, como os assentos dos membros da tripulação dos aviões. É neste banco e no último disponível dos dois da frente que nos sentamos e, muito pouco depois, a mini-van arranca, com o som embalador do ar condicionado a fazer-se ouvir.
Passam outros tantos até ouvirmos o ruído de um veículo e é ela mesmo que nos diz que o táxi deverá ter chegado. E, de facto, vemos um táxi à saída do hotel mas, quando me dirijo para ele e começo a falar com o taxista, vejo-o a carregar uma mala e, logo em seguida, ser ocupado por uma senhora. O nosso táxi só virá um pouco depois e, por esta altura, começa a parecer muito à tangente face às 8h a que parte o nosso autocarro.
Para complicar ainda mais contas, os tais dez minutos que deveria demorar o trajecto até à estação de autocarros acabam por durar mais. Nesta altura já dizemos mal às nossas vidas e criticamo-nos por acreditar nas estimativas temporais realizadas nestas bandas que, invariavelmente, acabam por se revelar erradas e sempre no sentido da subestimação.
São 7h58 quando abro a porta do táxi e me lanço num sprint pela estação a dentro. O tipo que controla a entrada mediante a verificação dos bilhetes é sensível à nossa pressa e limita-se a indicar-nos o caminho após lhe termos dito o nosso destino. Quando vejo a plataforma 1 e uma mini-van onde esperaria ver um autocarro fico, por um curto instante, um pouco desnorteado. O condutor lá de dentro
Prí-ch-tina?
e eu digo-lhe que sim e ele faz-me sinal para entrar. Mas lá dentro está tudo cheio, a mini-van deve ter uns doze lugares e já só sobra o banco que se abre nas costas dos bancos da frente, virado para o corredor, como os assentos dos membros da tripulação dos aviões. É neste banco e no último disponível dos dois da frente que nos sentamos e, muito pouco depois, a mini-van arranca, com o som embalador do ar condicionado a fazer-se ouvir.
terça-feira, 14 de agosto de 2018
Barrigudo e de sorriso na cara, cumprimenta-nos com o “dobro den” da praxe.
Entrego-lhe os passaportes e os documentos do carro. Olha alguns segundos e, antes de me os devolver, diz três palavras
Portugal football out
Respondemos-lhe – seguindo a mesma lógica de debitar algumas palavras sem grande consideração para com a construção frásica – que sim, que foi demasiado cedo, com uma cara de “que é que se há-de fazer?”. Seguimos caminho por estradas onde as placas estão escritas em cirílico, alfabeto latino e em albanês
É difícil colocar Skopje (recuso-me a escrever Escópia) numa dada gaveta, arrumá-la numa determinada prateleira. Não se parece com nada que conheça. Não tem as características das cidades europeias, seja as dos países de leste que lhe são mais próximos, seja das mais ocidentais. Mas também não é uma cidade de um país muçulmano, apesar das mesquitas. Deixa-me uma impressão quase inconsequente: sem nunca ter estado num desses países, remete-me (como se fosse possível) para as cidades da ex-repúblicas soviéticas.
Ao longo do rio de aspecto muito pouco convidativo, são vários os bares e restaurantes com boa pinta e aspecto internacional. À noite, estão a rebentar pelas costuras e é difícil arranjar uma mesa sem reserva. Durante a refeição, pedintes, maioritariamente de etnia cigana, tocam-me no braço e estendem a mão até ser corridos pelos empregados. Aqui assistimos à meia final entre a Croácia e a Inglaterra e a esmagadora maioria dos clientes feitos espectadores torceu pela equipa de camisola aos quadrados.
Portugal football out
Respondemos-lhe – seguindo a mesma lógica de debitar algumas palavras sem grande consideração para com a construção frásica – que sim, que foi demasiado cedo, com uma cara de “que é que se há-de fazer?”. Seguimos caminho por estradas onde as placas estão escritas em cirílico, alfabeto latino e em albanês
É difícil colocar Skopje (recuso-me a escrever Escópia) numa dada gaveta, arrumá-la numa determinada prateleira. Não se parece com nada que conheça. Não tem as características das cidades europeias, seja as dos países de leste que lhe são mais próximos, seja das mais ocidentais. Mas também não é uma cidade de um país muçulmano, apesar das mesquitas. Deixa-me uma impressão quase inconsequente: sem nunca ter estado num desses países, remete-me (como se fosse possível) para as cidades da ex-repúblicas soviéticas.
Ao longo do rio de aspecto muito pouco convidativo, são vários os bares e restaurantes com boa pinta e aspecto internacional. À noite, estão a rebentar pelas costuras e é difícil arranjar uma mesa sem reserva. Durante a refeição, pedintes, maioritariamente de etnia cigana, tocam-me no braço e estendem a mão até ser corridos pelos empregados. Aqui assistimos à meia final entre a Croácia e a Inglaterra e a esmagadora maioria dos clientes feitos espectadores torceu pela equipa de camisola aos quadrados.
segunda-feira, 13 de agosto de 2018
Paramos o carro numa rua muito perto do hotel, cansados de uma espera de mais de uma hora para completar os trâmites na fronteira.
O quarto ainda não estava pronto, deixamos as malas com a recepcionista, de unhas roídas bem rente, e, depois de lhe dizermos onde temos o carro, indica-nos um parque de estacionamento com o qual o hotel tem um acordo. Quando saímos novamente, a rua onde o carro está parado está intransitável: uma conduta de água deve ter rebentado e um carro dos bombeiros está a bloquear o cruzamento ao fundo, enquanto tentam resolver o problema.
Resolvemos beber um café enquanto esperamos que o problema seja resolvido, depois de abordar os trabalhadores e lhes perguntar uma estimativa de tempo para a resolução. Descemos um pouco por uma rua pedonal onde, após algumas tentativas, nos sentamos.
Não passou muito tempo (meia hora, três quartos de hora) até regressarmos novamente. A rua já está novamente aberta mas, ao nos aproximarmos do carro, vemos um papelinho preso no limpa para-brisas, a sacudir com o vento e, pior ainda, a roda dianteira do lado do condutor bloqueada.
Voltamos à recepcionista do hotel que, quando vê o papel, resolve fazer a advertência, ligeiramente tardia, de que, naquela rua, não se pode estacionar e que a EMEL local é particularmente atenta. Pedimos-lhe que ligue para o número indicado para virem desbloquear o carro e ficamos à espera.
Poucos minutos depois (dez, quinze), surgem dois carros, donde saem uns tipos de coletes com a inscrição do organismo ou instituição para a qual trabalham, e pedem os 30 lev (ou 15 euros) da multa para soltarem a roda do carro. Explicamos (ou pelo menos tentamos) que a rua estava bloqueada e, por isso, deixámos o carro ali.
Totalmente escusado. Entre barreiras linguísticas e alguma má vontade, ficamos num beco sem saída. Oferecem-nos um número para o qual podemos ligar e fazer a nossa queixa em inglês. Desistimos e cedemos os 15 euros. Desbloqueiam a roda e desaparecem rapidamente, visivelmente irritados com a nossa contestação.
No hotel, o quarto já está arranjado mas esqueceram-nos de nos deixar toalhas. Ouve-se o som das empregadas de limpeza no corredor mas só se vê o carrinho por perto. Aproveitamos para nos servir das toalhas, à discrição, incluindo uma que segue caminho para a viagem, e que virá a dar muito jeito nos dias de praia (está aqui em casa).
A visita pela cidade é polvilhada com uma chuva miudinha, que acalma o calor do dia. O tempo encoberto enche as fotografias da catedral com a tristeza monótona do tom cinzento do céu. Terminamos o dia num restaurante onde cometemos o erro de pedir um gin tónico: recebemos um copo com pouco gelo e algum gin no fundo e uma lata de água tónica para misturar a gosto.
No dia seguinte, passamos pelo supermercado para abastecer para a viagem. O caixa faz-nos um sorriso desdentado e castanho e pergunta-nos donde somos. Assim que respondemos
Tudo bem?
com um sotaque engraçado. De imediato a conversa vai para o futebol e confessa-se fã do Sporting. À menção dos nomes de alguns búlgaros que passaram e se notabilizaram no clube, faz uma cara séria e estende a mão para um cumprimento.
Resolvemos beber um café enquanto esperamos que o problema seja resolvido, depois de abordar os trabalhadores e lhes perguntar uma estimativa de tempo para a resolução. Descemos um pouco por uma rua pedonal onde, após algumas tentativas, nos sentamos.
Não passou muito tempo (meia hora, três quartos de hora) até regressarmos novamente. A rua já está novamente aberta mas, ao nos aproximarmos do carro, vemos um papelinho preso no limpa para-brisas, a sacudir com o vento e, pior ainda, a roda dianteira do lado do condutor bloqueada.
Voltamos à recepcionista do hotel que, quando vê o papel, resolve fazer a advertência, ligeiramente tardia, de que, naquela rua, não se pode estacionar e que a EMEL local é particularmente atenta. Pedimos-lhe que ligue para o número indicado para virem desbloquear o carro e ficamos à espera.
Poucos minutos depois (dez, quinze), surgem dois carros, donde saem uns tipos de coletes com a inscrição do organismo ou instituição para a qual trabalham, e pedem os 30 lev (ou 15 euros) da multa para soltarem a roda do carro. Explicamos (ou pelo menos tentamos) que a rua estava bloqueada e, por isso, deixámos o carro ali.
Totalmente escusado. Entre barreiras linguísticas e alguma má vontade, ficamos num beco sem saída. Oferecem-nos um número para o qual podemos ligar e fazer a nossa queixa em inglês. Desistimos e cedemos os 15 euros. Desbloqueiam a roda e desaparecem rapidamente, visivelmente irritados com a nossa contestação.
No hotel, o quarto já está arranjado mas esqueceram-nos de nos deixar toalhas. Ouve-se o som das empregadas de limpeza no corredor mas só se vê o carrinho por perto. Aproveitamos para nos servir das toalhas, à discrição, incluindo uma que segue caminho para a viagem, e que virá a dar muito jeito nos dias de praia (está aqui em casa).
A visita pela cidade é polvilhada com uma chuva miudinha, que acalma o calor do dia. O tempo encoberto enche as fotografias da catedral com a tristeza monótona do tom cinzento do céu. Terminamos o dia num restaurante onde cometemos o erro de pedir um gin tónico: recebemos um copo com pouco gelo e algum gin no fundo e uma lata de água tónica para misturar a gosto.
No dia seguinte, passamos pelo supermercado para abastecer para a viagem. O caixa faz-nos um sorriso desdentado e castanho e pergunta-nos donde somos. Assim que respondemos
Tudo bem?
com um sotaque engraçado. De imediato a conversa vai para o futebol e confessa-se fã do Sporting. À menção dos nomes de alguns búlgaros que passaram e se notabilizaram no clube, faz uma cara séria e estende a mão para um cumprimento.
domingo, 12 de agosto de 2018
Mentalizámo-nos que precisávamos de uma forma alternativa de ir ao Kosovo, à medida que a caixa do meu email se foi enchendo de respostas negativas das companhias de aluguer de carros.
Um aspecto crucial que, na nossa ignorância, não considerámos convenientemente logo no início: as empresas de aluguer sérvias não são propriamente atreitas a permitir que os seus carros atravessam a fronteira para o Kosovo e a Albânia. Muitas consultas depois, conseguimos uma que permitia a entrada na Albânia, sem a qual iriamos ter sérios problemas logísticos. A busca revelou-se infrutífera em relação ao Kosovo – em retrospectiva, um resultado lógico e óbvio.
Mas, pelo menos, conseguíamos tornear a impossibilidade de conduzir no Kosovo: a ideia era deixar o carro em Nis (lê-se “Nich”, tem um acento circunflexo invertido sobre o “n”), no sul do país e perto daquela região, apanhar um autocarro para Pristina e fazer as demais deslocações de transportes. Simples. Segundo as informações que vimos online, teríamos um autocarro às 8h, pelo que, no tal dia, tínhamos a estação de autocarros à nossa frente, um bocado antes da hora de partida. Na mochila, tínhamos as sandes que simpaticamente nos prepararam no hotel para comermos pelo caminho, porque o pequeno-almoço só começava às 7h30.
Dirigimo-nos à primeira coisa que nos pareceu ser uma bilheteira e aí, indicaram-nos outra. Na segunda bilheteira, a mulher demorou um pouco à procura no computador. Depois disse-nos que tínhamos um autocarro às 18h. As subsequentes tentativas de lhe tentar, assim como à colega do lado que falava melhor inglês, mostrar o que estava no site embateram sempre no mesmo problema: a informação que tinha era que havia um autocarro às 7h (onde é que esse já ia) e outro às 18h. Parecia o “computer says no” do Little Britain.
Desistimos, apesar de a desfeita ainda ter levado uns minutos a ser verdadeiramente assimilada e interiorizada. Não valia a pena esperar 10 horas pelo autocarro da tarde – não havia nada de interessante para passar o tempo – e podíamos vir a deparar-nos com dificuldades análogas no regresso.
E foi assim, que, frustrados, rapidamente congeminámos o plano alternativo de ir até Sófia. Afinal não era assim tão longe. Mas antes, uma paragem estratégica num café com wifi permitiu-nos explorar a possibilidade de tentar visitar o Kosovo a partir da Macedónia (assim como escolher um hotel na capital búlgara). Porque, assim como com as questões do carro alugado, certamente a dificuldade de transporte será maior do lado da Sérvia. Confirmou-se: há bastante informação sobre autocarros para o Kosovo a partir de Skopje e com muito mais possibilidades de horário.
Com este plano na manga, voltámos ao nosso carro e fizemos os cerca de 250 quilómetros até à capital búlgara.
Mas, pelo menos, conseguíamos tornear a impossibilidade de conduzir no Kosovo: a ideia era deixar o carro em Nis (lê-se “Nich”, tem um acento circunflexo invertido sobre o “n”), no sul do país e perto daquela região, apanhar um autocarro para Pristina e fazer as demais deslocações de transportes. Simples. Segundo as informações que vimos online, teríamos um autocarro às 8h, pelo que, no tal dia, tínhamos a estação de autocarros à nossa frente, um bocado antes da hora de partida. Na mochila, tínhamos as sandes que simpaticamente nos prepararam no hotel para comermos pelo caminho, porque o pequeno-almoço só começava às 7h30.
Dirigimo-nos à primeira coisa que nos pareceu ser uma bilheteira e aí, indicaram-nos outra. Na segunda bilheteira, a mulher demorou um pouco à procura no computador. Depois disse-nos que tínhamos um autocarro às 18h. As subsequentes tentativas de lhe tentar, assim como à colega do lado que falava melhor inglês, mostrar o que estava no site embateram sempre no mesmo problema: a informação que tinha era que havia um autocarro às 7h (onde é que esse já ia) e outro às 18h. Parecia o “computer says no” do Little Britain.
Desistimos, apesar de a desfeita ainda ter levado uns minutos a ser verdadeiramente assimilada e interiorizada. Não valia a pena esperar 10 horas pelo autocarro da tarde – não havia nada de interessante para passar o tempo – e podíamos vir a deparar-nos com dificuldades análogas no regresso.
E foi assim, que, frustrados, rapidamente congeminámos o plano alternativo de ir até Sófia. Afinal não era assim tão longe. Mas antes, uma paragem estratégica num café com wifi permitiu-nos explorar a possibilidade de tentar visitar o Kosovo a partir da Macedónia (assim como escolher um hotel na capital búlgara). Porque, assim como com as questões do carro alugado, certamente a dificuldade de transporte será maior do lado da Sérvia. Confirmou-se: há bastante informação sobre autocarros para o Kosovo a partir de Skopje e com muito mais possibilidades de horário.
Com este plano na manga, voltámos ao nosso carro e fizemos os cerca de 250 quilómetros até à capital búlgara.
sábado, 11 de agosto de 2018
A fortaleza era o único ponto de interesse que tinha no planeamento.
Do pouco que me informei online, pensei que seria capaz de nos entreter: tínhamos feito uns 200 e picos quilómetros desde Belgrado – um trajecto muito simples face à bitola média de toda a viagem (já lá vamos) – e ocupávamos agora o remanescente da tarde. Depois de entrar na muralha – que, ainda assim, mereceu o benefício da dúvida – deparámo-nos, no interior, com o que poderia ser um qualquer parque. Rapidamente se esgotou e ficámos sem mais para explorar.
Depois de ter visto sinais de proibição de armas de fogo na porta de alguns restaurantes, acabámos por nos sentar na esplanada de um com aspecto de ter pouca experiência com turistas. Após alguma luta para decifrar o que constava do menu, pedimos, ao empregado de trato seco, uma sopa, para abrir as hostilidades, e depois as típicas carnes grelhadas. Estas (supostamente) viriam acompanhadas de batatas fritas e eu pedi para adicionar uma, como estava escrito no cardápio, “albanian salad.”
A sopa chegou e veio acompanhada de um prato de pão polvilhado com umas especiarias que se vieram a revelar particularmente picantes. É certo que referiu que se tratava de algo albanês, assumimos que seria algo que se servissem tradicionalmente com a sopa. Quando chegou a vez da carne grelhada, não vimos nem batatas fritas nem a dita salada e optámos por não levantar a questão, até porque, seguramente, já não viria a tempo.
Mas, claro, redobrámos a atenção quando veio o papel manuscrito com a conta que, ainda assim, incluía a tal salada albanesa (detectada pelo preço, não pelo rabisco). Quando chamámos a atenção para a questão, recebemos a explicação, altamente duvidosa, de que aquele prato de pão picante que me fez beber a cerveja fresca era, efectivamente, a “albanian salad”.
Depois de ter visto sinais de proibição de armas de fogo na porta de alguns restaurantes, acabámos por nos sentar na esplanada de um com aspecto de ter pouca experiência com turistas. Após alguma luta para decifrar o que constava do menu, pedimos, ao empregado de trato seco, uma sopa, para abrir as hostilidades, e depois as típicas carnes grelhadas. Estas (supostamente) viriam acompanhadas de batatas fritas e eu pedi para adicionar uma, como estava escrito no cardápio, “albanian salad.”
A sopa chegou e veio acompanhada de um prato de pão polvilhado com umas especiarias que se vieram a revelar particularmente picantes. É certo que referiu que se tratava de algo albanês, assumimos que seria algo que se servissem tradicionalmente com a sopa. Quando chegou a vez da carne grelhada, não vimos nem batatas fritas nem a dita salada e optámos por não levantar a questão, até porque, seguramente, já não viria a tempo.
Mas, claro, redobrámos a atenção quando veio o papel manuscrito com a conta que, ainda assim, incluía a tal salada albanesa (detectada pelo preço, não pelo rabisco). Quando chamámos a atenção para a questão, recebemos a explicação, altamente duvidosa, de que aquele prato de pão picante que me fez beber a cerveja fresca era, efectivamente, a “albanian salad”.
sexta-feira, 10 de agosto de 2018
Passamos na recepção do hotel para fazer o check out mas a única funcionária que se encontra diz que não sabe usar a máquina do cartão de crédito.
Diz-nos que a colega foi só à Polícia (?), que lhe telefonou e que ela disse que estaria de volta dentro de dez minutos. Sentamo-nos na sala onde nos serviram o pequeno-almoço à espera. Quando esses dez minutos passam, diz-nos que deve estar a chegar noutros tantos minutos. Nessa altura, saímos e dizemos que passamos depois. Pergunta-nos quando regressaremos e a resposta dificilmente poderia ser outra
Ten minutes
A caminho da fortaleza da cidade, passamos por uma pequena feira onde comerciantes vendem bugigangas para os turistas, miúdos jogam à bola e velhotes defrontam-se em tabuleiros de xadrez, ladeados por alguns mirones, em pé. Entramos na muralha e, lá em cima, temos a vista privilegiada para a importante mas pouco espectacular confluência entre os rios Danúbio e Sava.
De regresso da fortaleza, passamos novamente na recepção do hotel, calculando que, finalmente, os dez minutos sérvios tenham passado. A recepcionista está sentada atrás do balcão. Tem o cabelo apanhado, uma camisa com os ombros descobertos, um sorriso plástico, uma dose industrial de maquilhagem. E unhas de gel coloridas que matariam de susto as cordas de uma guitarra.
Descemos a rua que leva da Praça da República até ao Templo de São Sava, a segunda maior igreja ortodoxa do mundo. Impressionante por fora – tiramos várias fotografias – está, no entanto, repleta de andaimes por dentro. Com alguma desolação, apenas conseguimos ver um pouco dos mosaicos da cúpula.
No regresso, passamos pela praça onde fizeram uma fonte luminosa. Mais à frente, o muro da Assembleia Nacional está coberto por uma faixa gigantesca. Para além do que está escrito em sérvio, há uma inscrição enorme em espanhol, onde se lê “España:” – as letras com as cores da bandeira espanhola – “Kosovo” – com uma imagem do território – seguido de uma seta que liga a “EU” e, de seguida, em preto, com letras ainda mais garrafais, “no pasarán”. Fruto dos movimentos secessionistas com que se depara, os nossos vizinhos ibéricos fazem parte do conjunto de países que não reconhece a independência do Kosovo e, por arrastro a sua adesão à UE. Nada contra aquele território em concreto, a reacção espanhola à ameaça de independência da Escócia aquando do referendo do Brexit é prova que o problema está na abertura do precedente e não em que desencadeia o processo.
Um cappuccino depois, num café da Praça da República, e tiramos o carro da garagem para seguir viagem.
Ten minutes
A caminho da fortaleza da cidade, passamos por uma pequena feira onde comerciantes vendem bugigangas para os turistas, miúdos jogam à bola e velhotes defrontam-se em tabuleiros de xadrez, ladeados por alguns mirones, em pé. Entramos na muralha e, lá em cima, temos a vista privilegiada para a importante mas pouco espectacular confluência entre os rios Danúbio e Sava.
De regresso da fortaleza, passamos novamente na recepção do hotel, calculando que, finalmente, os dez minutos sérvios tenham passado. A recepcionista está sentada atrás do balcão. Tem o cabelo apanhado, uma camisa com os ombros descobertos, um sorriso plástico, uma dose industrial de maquilhagem. E unhas de gel coloridas que matariam de susto as cordas de uma guitarra.
Descemos a rua que leva da Praça da República até ao Templo de São Sava, a segunda maior igreja ortodoxa do mundo. Impressionante por fora – tiramos várias fotografias – está, no entanto, repleta de andaimes por dentro. Com alguma desolação, apenas conseguimos ver um pouco dos mosaicos da cúpula.
No regresso, passamos pela praça onde fizeram uma fonte luminosa. Mais à frente, o muro da Assembleia Nacional está coberto por uma faixa gigantesca. Para além do que está escrito em sérvio, há uma inscrição enorme em espanhol, onde se lê “España:” – as letras com as cores da bandeira espanhola – “Kosovo” – com uma imagem do território – seguido de uma seta que liga a “EU” e, de seguida, em preto, com letras ainda mais garrafais, “no pasarán”. Fruto dos movimentos secessionistas com que se depara, os nossos vizinhos ibéricos fazem parte do conjunto de países que não reconhece a independência do Kosovo e, por arrastro a sua adesão à UE. Nada contra aquele território em concreto, a reacção espanhola à ameaça de independência da Escócia aquando do referendo do Brexit é prova que o problema está na abertura do precedente e não em que desencadeia o processo.
Um cappuccino depois, num café da Praça da República, e tiramos o carro da garagem para seguir viagem.
quinta-feira, 9 de agosto de 2018
Contestamos os 170 euros que nos quer cobrar pelo condutor adicional.
Explica-nos como calculou o valor, tantos euros por tantos dias de aluguer dá tanto para o total do aluguer. Tentamos argumentar que tínhamos visto online o valor e que o mais certo é até já o termos incluído no aluguer (mentira, não estava incluído, explico em português). Ela volta a tocar as teclas do computador com as unhas de gel compridas, que soltam um ploc ploc plástico. Diz-nos que não tem nenhuma indicação nesse sentido no sistema (claro que não tem). Tentamos procurar a reserva no telefone (para mostrar algo que não existe), usando o sinal fraco grátis mas disponibilizado pelo aeroporto Nicola Tesla e, no meio das tentativas para introduzir o número de reserva que não abre nada em nenhum dos telefones,
Could you check again?
E regressa o ploc ploc enquanto continuamos (sem convicção interior mas alguma exterior) a tentar procurar a reserva (que não tem o condutor adicional) no telefone (ligado a uma rede da treta), uma vez mais
Sorry
Não tem nada no sistema (é óbvio que não tem). Gera-se um pequeno impasse, que vai crescendo porque não estamos dispostos a pagar tanto, o valor é demasiado elevado. Pelo meio, no decurso da conversa e sem que me consiga relembrar a que propósito, referimos o campeonato do mundo de futebol e afirmamos, de forma interrogativa, que calculamos que não vão torcer pela Croácia. E o colega, que está sentado ao lado, à espera que resolvamos a disputa sem nenhum interesse em participar nela – limita-se a falar com ela em sérvio quando ela o interpela –, de imediato e de forma bastante enfática, confirma a suspeita. Rimo-nos.
O tempo que leva até chegar ao passo seguinte também é algo que me escapa, mas a certa altura, os 170 como que se esfumam e passam a 70 porque, afinal, explica-nos a funcionária de unhas wolverinescas, apesar de o cálculo estar correcto, há um limite máximo ao valor a cobrar para o efeito
Sorry, my mistake
Diz-nos, com um sorriso forçado. Aproveitamos para rir mais um bocado e referir que esse já parece um valor mais plausível, embora ainda tentemos, uma vez mais, a possibilidade (impossível) de que já tenhamos incluído o condutor extra na reserva. Dado o beco sem saída, socorremo-nos da marcha-atrás e optamos pela saída airosa de que vamos procurar melhor na nossa documentação e resolvemos a questão quando devolvermos o carro.
Tiro o cartão de crédito da carteira para que possa bloquear a quantia de depósito e só aqui refere qual o pecúlio
Eighteen hundred
E eu
Eighteen hundred??
E ela
Yes
E eu
Are we taking a Mercedes??
Está escrito nas condições do aluguer. Em qual das 5 páginas é que aparecem esses 1800 euros? Até já o colega silencioso abre a boca e ri perante a minha surpresa. E é ele que, finalmente, nos leva até ao Opel Astra vermelho, categoria superior à que tínhamos escolhido na reserva, que nos acompanhará – mais do que isso, carregará –, ao longo de duas semanas, por um pouco mais de 2500kms e uma mão cheia de países.
Could you check again?
E regressa o ploc ploc enquanto continuamos (sem convicção interior mas alguma exterior) a tentar procurar a reserva (que não tem o condutor adicional) no telefone (ligado a uma rede da treta), uma vez mais
Sorry
Não tem nada no sistema (é óbvio que não tem). Gera-se um pequeno impasse, que vai crescendo porque não estamos dispostos a pagar tanto, o valor é demasiado elevado. Pelo meio, no decurso da conversa e sem que me consiga relembrar a que propósito, referimos o campeonato do mundo de futebol e afirmamos, de forma interrogativa, que calculamos que não vão torcer pela Croácia. E o colega, que está sentado ao lado, à espera que resolvamos a disputa sem nenhum interesse em participar nela – limita-se a falar com ela em sérvio quando ela o interpela –, de imediato e de forma bastante enfática, confirma a suspeita. Rimo-nos.
O tempo que leva até chegar ao passo seguinte também é algo que me escapa, mas a certa altura, os 170 como que se esfumam e passam a 70 porque, afinal, explica-nos a funcionária de unhas wolverinescas, apesar de o cálculo estar correcto, há um limite máximo ao valor a cobrar para o efeito
Sorry, my mistake
Diz-nos, com um sorriso forçado. Aproveitamos para rir mais um bocado e referir que esse já parece um valor mais plausível, embora ainda tentemos, uma vez mais, a possibilidade (impossível) de que já tenhamos incluído o condutor extra na reserva. Dado o beco sem saída, socorremo-nos da marcha-atrás e optamos pela saída airosa de que vamos procurar melhor na nossa documentação e resolvemos a questão quando devolvermos o carro.
Tiro o cartão de crédito da carteira para que possa bloquear a quantia de depósito e só aqui refere qual o pecúlio
Eighteen hundred
E eu
Eighteen hundred??
E ela
Yes
E eu
Are we taking a Mercedes??
Está escrito nas condições do aluguer. Em qual das 5 páginas é que aparecem esses 1800 euros? Até já o colega silencioso abre a boca e ri perante a minha surpresa. E é ele que, finalmente, nos leva até ao Opel Astra vermelho, categoria superior à que tínhamos escolhido na reserva, que nos acompanhará – mais do que isso, carregará –, ao longo de duas semanas, por um pouco mais de 2500kms e uma mão cheia de países.
quarta-feira, 8 de agosto de 2018
A carga de água faz-me mudar de ideias.
O único autocarro disponível deixa-me a cerca de um quilómetro do hotel, uma perspectiva que deixa de me parecer razoável mediante as condições. Opto pelo táxi oficial de preço tabelado, apesar das inúmeras solicitações que recebo no pequeno trajecto após a passagem da alfândega – onde sou interrogado e a minha mochila perscrutada – e o balcão.
Indico o destino numa banca à saída do aeroporto. A mulher mal-encarada escreve num papel o montante tabelado que devo entregar ao taxista. Lá fora, alguns turistas como eu tentam perceber onde começa (e acaba) a fila para os táxis. Quando chega aquele que parece o meu, tendo em conta a ordem do universo, o tipo faz-me sinal negativo e dirige-se antes à família de locais que estava antes de mim e ficam ali, parados, à conversa. Finalmente chega o táxi que me há de levar.
De imediato me diz que não me pode deixar exactamente à porta, porque é numa rua pedonal, mas deixa-me no início da mesma e dá-me a indicação para onde me devo dirigir, não muito longe. Alguns pingos de chuva depois e estou à porta, que dá para um lance de escadas que, por sua vez, termina na porta que dá acesso à recepção.
Lá dentro, está um grupo a fazer check in. O tipo alto e grande que está na recepção pede-me para esperar. Ainda não tinha acabado de receber o primeiro grupo quando chegou outro ainda maior, casais com vários filhos que rapidamente ficam irrequietos de esperar naquele sítio apertado.
Quando chega a minha vez, pede-me desculpa pela confusão. Depois dá-me a excelente notícia de que me colocou num apartamento noutro edifício, para que estejamos mais à-vontade, longe da confusão destes grupos e das crianças, e pelo preço do quarto que marcámos. Pergunta-me – enquanto limpa o suor da testa – se posso passar depois pela recepção, se pode para já levar-me só ao apartamento e depois regressar para receber o outro grupo e tratar da papelada depois disso.
Digo-lhe que sim e atravessamos rapidamente a rua, onde aproveita para me perguntar o que passa com o Sporting. Dou-lhe uma resposta abreviada (até porque não sei muito) e fico surpreendido pelo bem informado que ele está, não só sobre as questões extra-desportivas, mas também sobre o campeonato português em geral.
O apartamento é realmente enorme, muito espaçoso. Recebo algumas instruções rápidas – a porta tem uma pequena manha e nada de desligar o interruptor que liga a caldeira senão lá se vai a água quente – e ele sai apressado. Três quartos de hora depois, após uma luta inglória com a ligação do wifi, regresso à recepção. Agora já não está ninguém e ele está mais calmo. Devolve-me o passaporte, dá-me um mapa de Belgrado onde rabisca a localização de alguns dos ex-libris, assim como zonas com os melhores restaurantes, daqueles onde se come a carne sem muitos temperos, como fazem noutros locais.
I like the meat clean
acrescenta e eu sinto-me forçado a concordar. Não contém a curiosidade e pergunta-me quais são os planos de viagem e explico-lhe abreviadamente. Agradeço-lhe, terminamos a conversa e saio para a rua.
Indico o destino numa banca à saída do aeroporto. A mulher mal-encarada escreve num papel o montante tabelado que devo entregar ao taxista. Lá fora, alguns turistas como eu tentam perceber onde começa (e acaba) a fila para os táxis. Quando chega aquele que parece o meu, tendo em conta a ordem do universo, o tipo faz-me sinal negativo e dirige-se antes à família de locais que estava antes de mim e ficam ali, parados, à conversa. Finalmente chega o táxi que me há de levar.
De imediato me diz que não me pode deixar exactamente à porta, porque é numa rua pedonal, mas deixa-me no início da mesma e dá-me a indicação para onde me devo dirigir, não muito longe. Alguns pingos de chuva depois e estou à porta, que dá para um lance de escadas que, por sua vez, termina na porta que dá acesso à recepção.
Lá dentro, está um grupo a fazer check in. O tipo alto e grande que está na recepção pede-me para esperar. Ainda não tinha acabado de receber o primeiro grupo quando chegou outro ainda maior, casais com vários filhos que rapidamente ficam irrequietos de esperar naquele sítio apertado.
Quando chega a minha vez, pede-me desculpa pela confusão. Depois dá-me a excelente notícia de que me colocou num apartamento noutro edifício, para que estejamos mais à-vontade, longe da confusão destes grupos e das crianças, e pelo preço do quarto que marcámos. Pergunta-me – enquanto limpa o suor da testa – se posso passar depois pela recepção, se pode para já levar-me só ao apartamento e depois regressar para receber o outro grupo e tratar da papelada depois disso.
Digo-lhe que sim e atravessamos rapidamente a rua, onde aproveita para me perguntar o que passa com o Sporting. Dou-lhe uma resposta abreviada (até porque não sei muito) e fico surpreendido pelo bem informado que ele está, não só sobre as questões extra-desportivas, mas também sobre o campeonato português em geral.
O apartamento é realmente enorme, muito espaçoso. Recebo algumas instruções rápidas – a porta tem uma pequena manha e nada de desligar o interruptor que liga a caldeira senão lá se vai a água quente – e ele sai apressado. Três quartos de hora depois, após uma luta inglória com a ligação do wifi, regresso à recepção. Agora já não está ninguém e ele está mais calmo. Devolve-me o passaporte, dá-me um mapa de Belgrado onde rabisca a localização de alguns dos ex-libris, assim como zonas com os melhores restaurantes, daqueles onde se come a carne sem muitos temperos, como fazem noutros locais.
I like the meat clean
acrescenta e eu sinto-me forçado a concordar. Não contém a curiosidade e pergunta-me quais são os planos de viagem e explico-lhe abreviadamente. Agradeço-lhe, terminamos a conversa e saio para a rua.
segunda-feira, 6 de agosto de 2018
domingo, 5 de agosto de 2018
sábado, 4 de agosto de 2018
sexta-feira, 3 de agosto de 2018
A música de John Zorn é uma marioneta nas mãos do Highsmith Trio
(Publicado originalmente aqui)
A temperatura começou a subir na quarta-feira. O termómetro deu um primeiro pulo, ainda assim, relativamente comportável. Na quinta-feira, o salto mais pronunciado, em direcção ao céu, dando a entender que, apenas ele, parece ser o limite. Após uma máxima em torno dos 40 graus em Lisboa, estão uns ligeiramente mais suportáveis 32 graus às 21h30, hora a que arranca, no auditório ao ar livre mais um concerto do Jazz em Agosto da Fundação Calouste Gulbenkian.
Trata-se da 35ª edição deste festival, uma edição dedicada à música do saxofonista (enfim, multi-instrumentista?) americano John Zorn, na primeira vez que um único músico é alvo de uma homenagem do género. Os espectadores sentam-se nos bancos de cimento, tornados cómodos por almofadas compridas coloridas. Ao contrário de edições anteriores, não nos é oferecido o panfleto com informação do concerto e dos músicos da noite, uma simpatia que hoje teria a vantagem adicional de poder servir de abanico.
Highsmith Trio é o nome do projecto que surgiu inicialmente no formato de duo, com o cruzamento entre a música do pianista Craig Taborn e da, chamemos-lhe assim, laptopista (pelo menos é assim que Jim Black a apresentará daqui a pouco) Ikue Mori. Jim Black juntou-se posteriormente a estes dois para completar o actual trio.
Mais do que apresentar os membros da banda – Craig Taborn on piano, Ikue Mori on laptop (eu não disse?) – Jim Black diz umas palavras sobre a música de John Zorn que vão tocar. Menciona duas características: “intimacy and immediacy”. E dá um exempo da sua aplicação: John Zorn considera que a música é feita para aquele conjunto de pessoas naquele dado momento. E, por isso, não gosta nem autoriza gravações das suas performances: têm significado apenas no espectáculo, esgotam-se no concerto, não fazem sentido noutro local, noutra altura.
Mais do que tocar temas de John Zorn, estes três pretendem pôr em prática esta filosofia durante cerca de uma hora: tocar música que nasce e morre à frente dos olhos e dos ouvidos dos que se deslocaram à Gulbenkian na noite de 2 de Agosto.
Ikue Mori senta-se a uma mesa com o MacBook à sua frente, qual criança na carteira de uma sala de aula, muito direita, com os pés juntinhos. A sua cara vai permanecer sem expressão durante todo o concerto. Os gestos curtos e quase indistintos ao teclado do computador contrastam fortemente com as mãos de Craig Taborn, que atravessam vezes sem conta as oitentas e muitas teclas do piano, por vezes rapidamente, outras lentamente. Cruzam-se e sobrepõem-se, ultrapassam o tampo do piano e tocam directamente nas cordas.
A música é eficaz e certeira, embora repleta de liberdade – estamos a ouvir algo que mais ninguém vai ouvir. Gatos correm lá atrás no verde do jardim da Gulbenkian enquanto a sonoridade passa de dissonante a melodiosa; mosquitos dançam por cima dos executantes, bailando à luz dos holofotes, enquanto o ritmo suave se acelera e se transforma, se galvaniza. Talvez seja como sushi: simples mas elaborada, crua mas delicada. Tradicional mas pouco ortodoxa. Irreverente sem deixar de ser consensual.
John Zorn é como aqueles governos fantoches dos países satélite: a sua música parece ser controlada à distância pelos governos das grandes potências. Neste caso, pelas seis mãos das três cabeças deste trio, accionam os comandos que produzem os sons e os ritmos. “Arigato gozaimazu”, agradece Jim Black ao microfone quando o trio regressa ao palco para um encore único.
A temperatura começou a subir na quarta-feira. O termómetro deu um primeiro pulo, ainda assim, relativamente comportável. Na quinta-feira, o salto mais pronunciado, em direcção ao céu, dando a entender que, apenas ele, parece ser o limite. Após uma máxima em torno dos 40 graus em Lisboa, estão uns ligeiramente mais suportáveis 32 graus às 21h30, hora a que arranca, no auditório ao ar livre mais um concerto do Jazz em Agosto da Fundação Calouste Gulbenkian.
Trata-se da 35ª edição deste festival, uma edição dedicada à música do saxofonista (enfim, multi-instrumentista?) americano John Zorn, na primeira vez que um único músico é alvo de uma homenagem do género. Os espectadores sentam-se nos bancos de cimento, tornados cómodos por almofadas compridas coloridas. Ao contrário de edições anteriores, não nos é oferecido o panfleto com informação do concerto e dos músicos da noite, uma simpatia que hoje teria a vantagem adicional de poder servir de abanico.
Highsmith Trio é o nome do projecto que surgiu inicialmente no formato de duo, com o cruzamento entre a música do pianista Craig Taborn e da, chamemos-lhe assim, laptopista (pelo menos é assim que Jim Black a apresentará daqui a pouco) Ikue Mori. Jim Black juntou-se posteriormente a estes dois para completar o actual trio.
Mais do que apresentar os membros da banda – Craig Taborn on piano, Ikue Mori on laptop (eu não disse?) – Jim Black diz umas palavras sobre a música de John Zorn que vão tocar. Menciona duas características: “intimacy and immediacy”. E dá um exempo da sua aplicação: John Zorn considera que a música é feita para aquele conjunto de pessoas naquele dado momento. E, por isso, não gosta nem autoriza gravações das suas performances: têm significado apenas no espectáculo, esgotam-se no concerto, não fazem sentido noutro local, noutra altura.
Mais do que tocar temas de John Zorn, estes três pretendem pôr em prática esta filosofia durante cerca de uma hora: tocar música que nasce e morre à frente dos olhos e dos ouvidos dos que se deslocaram à Gulbenkian na noite de 2 de Agosto.
Ikue Mori senta-se a uma mesa com o MacBook à sua frente, qual criança na carteira de uma sala de aula, muito direita, com os pés juntinhos. A sua cara vai permanecer sem expressão durante todo o concerto. Os gestos curtos e quase indistintos ao teclado do computador contrastam fortemente com as mãos de Craig Taborn, que atravessam vezes sem conta as oitentas e muitas teclas do piano, por vezes rapidamente, outras lentamente. Cruzam-se e sobrepõem-se, ultrapassam o tampo do piano e tocam directamente nas cordas.
A música é eficaz e certeira, embora repleta de liberdade – estamos a ouvir algo que mais ninguém vai ouvir. Gatos correm lá atrás no verde do jardim da Gulbenkian enquanto a sonoridade passa de dissonante a melodiosa; mosquitos dançam por cima dos executantes, bailando à luz dos holofotes, enquanto o ritmo suave se acelera e se transforma, se galvaniza. Talvez seja como sushi: simples mas elaborada, crua mas delicada. Tradicional mas pouco ortodoxa. Irreverente sem deixar de ser consensual.
John Zorn é como aqueles governos fantoches dos países satélite: a sua música parece ser controlada à distância pelos governos das grandes potências. Neste caso, pelas seis mãos das três cabeças deste trio, accionam os comandos que produzem os sons e os ritmos. “Arigato gozaimazu”, agradece Jim Black ao microfone quando o trio regressa ao palco para um encore único.
quinta-feira, 2 de agosto de 2018
quarta-feira, 1 de agosto de 2018
"Há sopa de caldo verde"
Escrito em letras garrafais, numa folha A4, colada com fita cola no vidro de um café/restaurante.
terça-feira, 31 de julho de 2018
segunda-feira, 30 de julho de 2018
sábado, 28 de julho de 2018
sexta-feira, 27 de julho de 2018
Grande Guerra Patriótica
A forma como na Rússia se refere à II Guerra Mundial.
quinta-feira, 26 de julho de 2018
PSL é um granda partido
A minha sugestão de slogan para o suposto novo partido que o Santana Lopes ameaçou vir a criar.
quarta-feira, 25 de julho de 2018
terça-feira, 24 de julho de 2018
segunda-feira, 23 de julho de 2018
domingo, 22 de julho de 2018
Segredos
«"There's the imperative to keep secrets, and the imperative to have them known. How do you know that you're a person, distinct from other people? By keeping certain things to yourself. You guard them inside you, because, if you don't, there's no distinction between inside and outside. Secrets are the way you know you even have an inside. A radical exhibitionist is a person who has forfeited his identity. But identity in a vacuum is also meaningless. Sooner or later, the inside of you needs a witness. Otherwise you're just a cow, a cat, a stone, a thing in the world, trapped in your thingness. To have an identity, you have to believe that other identities equally exist. You need closeness with other people. And how is closeness built? By sharing secrets. (...)»
Purity, Jonathan Franzen
Purity, Jonathan Franzen
sexta-feira, 6 de julho de 2018
quinta-feira, 5 de julho de 2018
quarta-feira, 4 de julho de 2018
Prova indiscutível
«Assim como as fotografias proporcionam a posse imaginária de um passado irreal, também ajudam a dominar o espaço em que as pessoas se sentem inseguras. Assim, a fotografia desenvolve-se em consonância com uma das actividades mais características da actualidade: o turismo. Pela primeira vez na história, um largo sector da população sai regularmente do seu meio habitual por curtos períodos de tempo. E parece bem pouco natural passear sem levar a câmera fotográfica. A fotografia será a prova indiscutível de que a viagem foi feita, de que o programa se cumpriu e de que as pessoas se divertiram.»
Ensaios sobre fotografia, Susan Sontag
Ensaios sobre fotografia, Susan Sontag
terça-feira, 3 de julho de 2018
Bola neutra
Pegou na bola necessária ao exercício e, enquanto se deslocava na minha direcção, disse
Esta bola chama-se bola de água porque
prolongando a última palavra, à espera que eu completasse a frase. Coisa que não fiz, permaneci impávido e sereno, com o mesmo olhar, a boca fechada a sete chaves. Até que o silêncio se tornou demasiado incómodo e ele se viu forçado a finalizar a frase que tinha começado.
tem água lá dentro!
acrescentou, com um sorriso desajeitado de quem tenta uma piada que não surte o efeito desejado. Mantive o mesmo olhar e, apontando para as bolas maiores ao lado
E aquelas são bolas suíças porque têm umas Suíças lá dentro?
Esta bola chama-se bola de água porque
prolongando a última palavra, à espera que eu completasse a frase. Coisa que não fiz, permaneci impávido e sereno, com o mesmo olhar, a boca fechada a sete chaves. Até que o silêncio se tornou demasiado incómodo e ele se viu forçado a finalizar a frase que tinha começado.
tem água lá dentro!
acrescentou, com um sorriso desajeitado de quem tenta uma piada que não surte o efeito desejado. Mantive o mesmo olhar e, apontando para as bolas maiores ao lado
E aquelas são bolas suíças porque têm umas Suíças lá dentro?
segunda-feira, 2 de julho de 2018
Como passei a minha noite com Pat Metheny
(Publicado originalmente aqui)
No trajecto do centro comercial Vasco da Gama até à Sala Tejo, as pessoas tentam abrigar-se dos pingos de chuva. Para além de carregarem chapéus de chuva fora de época, estas vítimas das alterações climáticas têm também alguma dificuldade em perceber a localização da Sala Tejo, um recinto – mais parece um pavilhão desportivo – que não costuma fazer parte dos principais roteiros.
Passa cerca de quinze minutos da hora de início do espectáculo quando, após um pedido para desligarmos o telemóvel, nos pedem “would you please give a warm welcome to Pat Metheny”. E a recepção é, efectivamente, calorosa e o americano de t-shirt às riscas horizontais, calças de ganga pretas, ténis de desporto branquinhos e o eterno cabelo, farto e volumoso, surge sozinho em palco. Se anteriormente o critério etário era o único que não cumpria para parecer um reformado americano a viver na Flórida, agora já nem esse é um impedimento: segundo o que a minha breve consulta online permitiu apurar, o guitarrista está a cerca de um mês e meio de chegar aos 64 anos.
Disse que o americano pisou o palco sozinho mas, agora que penso melhor no assunto, apercebo-me que até estava bastante bem acompanhado. Trazia, na mão, aquela que deverá ser a mais badalada das suas guitarras feitas à medida: com dois braços e cordas que percorrem obliquamente o corpo de dimensão superior à normal, o instrumento – que mais parece o resultado de uma noite de paixão entre uma guitarra, uma cítara e uma harpa – produz uma gama de sons surpreendente que, infelizmente, a acústica da sala não permite desfrutar ao máximo.
Findo este primeiro tema, ainda sentado na cadeira, Metheny espera pelos restantes membros do quarteto, com quem tem tocado nos últimos dois anos: na bateria, o mexicano Antonio Sanchez, uma presença de já há alguns anos a esta parte; a malaia Linda Oh no contrabaixo; e o britânico Gwinlym Simcock no piano. Dado que se encontra a preencher o lugar que durante bastante tempo foi ocupado pelo grande Lyle Mays, não consigo deixar de pensar que Simcock deverá ser ou bastante corajoso ou totalmente inconsciente.
Os primeiros acordes são ainda feitos com a guitarra XPTO, mas só mesmo os primeiros. Assim que os restantes membros arrancam, Metheny levanta-se rapidamente e troca para um instrumento tradicional, que não deixará durante grande desta “evening with Pat Metheny”, um título que parece conter uma proposta indecente.
Este é um dos músicos com maior projecção de um estilo que, normalmente, não tem uma projecção muito grande. Há um público que, apesar de não ter grande afinidade com a música jazz ou de fusão, segue, não obstante, de perto o percurso deste guitarrista. Os números falam por si: vinte Grammys no bolso, uma discografia enorme que rendeu uns bons milhões de vendas, e um dos únicos quatro guitarristas membros do Downbeat Hall of Fame (os outros são Django Reinhardt, Charlie Christian e Wes Montgomery).
Da única vez que se dirige verdadeiramente ao público, uma hora depois de o concerto ter arrancado, apresenta a banda como se fosse um entertainer num combate de boxe
Antooniooo Saaaancheeeez!!
Liiiindaaaa Ooooh!!
Gwiinlyyym Siimcooock!!
com a sua voz quase tão aguda como os registos mais altos da guitarra.
“I feel like I should say goal”, acrescenta em conversa que soa de circunstância, exultando o espírito e orgulho nacionais do público, e aproveitando para mencionar também México e Inglaterra, dirigindo-se ao baterista e pianista, respectivamente, para depois completar com “We’re out”, um “nós” que o junta à contrabaixista.
De seguida, Metheny explica-nos o mote daquele quarteto. Trata-se da revisitação dos temas que marcaram a sua longa carreira. Mas “old tunes but played in a diferente way”, tocadas pela forma que emerge da junção destes músicos, neste momento. E depois vem algo que cimenta a minha convicção que o Metheny só quer mesmo saber da música: alguns seguramente vão identificar os temas mas ele não se vai dar ao trabalho de listá-los porque, pura e simplesmente, não sabe de cor os nomes dos seus temas.
A esta confissão devo adicionar uma outra da minha autoria. Eu próprio estava a travar uma intensa batalha (e a perder rotundamente) com os títulos dos temas. Pelo que, após aquelas palavras, convenientemente conclui que não me deveria martirizar mais e aceitar que, apesar de ter reconhecido vários dos temas, foram muito poucos aqueles aos quais consegui associar um nome. Enfim, dando seguimento à confissão, foram apenas dois e um possível terceiro: o tema lento “Always and forever”, um trecho de “James” que surgiu no medley a solo com que abriu os três encores da noite, e o que me pareceu ser o “Part One” do álbum “The way up”.
Este manifesto desinteresse por elementos totalmente secundários, tais como títulos de músicas (por favor...), está também patente, por exemplo, nos intervalos entre temas (ou na sua ausência). O quarteto nem dá tempo ao público para expressar o seu agrado e contentamento pela música que ouve, com o recurso tradicional que tem ao seu dispor: a rápida cadência dos temas nem sequer permite que a ovação termine espontaneamente, o final da salva de palmas é forçado pelo início do tema seguinte. De facto, não se vislumbra nenhuma razão que justifique esperar pelo fim daquele som das palmas das mãos a bater umas contra as outras.
No total, são quase duas horas e meia de música, encores incluídos. Esta é, aliás, outra das características dos concertos de Metheny: são uma autêntica barrigada. Alguns não têm estômago para tanto, há um conjunto de desistências, pessoas que se encaminham, exaustas, para a saída, através da escuridão da sala. Outros, que não abusaram das entradas ou tomaram sais de fruta, permanecem na cadeira que, por força das horas ali passadas, se tornou desconfortável. Outros, ainda mais deliciados a absorver todas as notas, inclusivamente trauteiam os temas, como um senhor atrás de mim que fez o favor de partilhar efusivamente a sua interpretação dos temas. Confesso que também gostei mas parece-me que este senhor terá uma ainda melhor apreciação que a minha desta noite passada com Pat Metheny.
No trajecto do centro comercial Vasco da Gama até à Sala Tejo, as pessoas tentam abrigar-se dos pingos de chuva. Para além de carregarem chapéus de chuva fora de época, estas vítimas das alterações climáticas têm também alguma dificuldade em perceber a localização da Sala Tejo, um recinto – mais parece um pavilhão desportivo – que não costuma fazer parte dos principais roteiros.
Passa cerca de quinze minutos da hora de início do espectáculo quando, após um pedido para desligarmos o telemóvel, nos pedem “would you please give a warm welcome to Pat Metheny”. E a recepção é, efectivamente, calorosa e o americano de t-shirt às riscas horizontais, calças de ganga pretas, ténis de desporto branquinhos e o eterno cabelo, farto e volumoso, surge sozinho em palco. Se anteriormente o critério etário era o único que não cumpria para parecer um reformado americano a viver na Flórida, agora já nem esse é um impedimento: segundo o que a minha breve consulta online permitiu apurar, o guitarrista está a cerca de um mês e meio de chegar aos 64 anos.
Disse que o americano pisou o palco sozinho mas, agora que penso melhor no assunto, apercebo-me que até estava bastante bem acompanhado. Trazia, na mão, aquela que deverá ser a mais badalada das suas guitarras feitas à medida: com dois braços e cordas que percorrem obliquamente o corpo de dimensão superior à normal, o instrumento – que mais parece o resultado de uma noite de paixão entre uma guitarra, uma cítara e uma harpa – produz uma gama de sons surpreendente que, infelizmente, a acústica da sala não permite desfrutar ao máximo.
Findo este primeiro tema, ainda sentado na cadeira, Metheny espera pelos restantes membros do quarteto, com quem tem tocado nos últimos dois anos: na bateria, o mexicano Antonio Sanchez, uma presença de já há alguns anos a esta parte; a malaia Linda Oh no contrabaixo; e o britânico Gwinlym Simcock no piano. Dado que se encontra a preencher o lugar que durante bastante tempo foi ocupado pelo grande Lyle Mays, não consigo deixar de pensar que Simcock deverá ser ou bastante corajoso ou totalmente inconsciente.
Os primeiros acordes são ainda feitos com a guitarra XPTO, mas só mesmo os primeiros. Assim que os restantes membros arrancam, Metheny levanta-se rapidamente e troca para um instrumento tradicional, que não deixará durante grande desta “evening with Pat Metheny”, um título que parece conter uma proposta indecente.
Este é um dos músicos com maior projecção de um estilo que, normalmente, não tem uma projecção muito grande. Há um público que, apesar de não ter grande afinidade com a música jazz ou de fusão, segue, não obstante, de perto o percurso deste guitarrista. Os números falam por si: vinte Grammys no bolso, uma discografia enorme que rendeu uns bons milhões de vendas, e um dos únicos quatro guitarristas membros do Downbeat Hall of Fame (os outros são Django Reinhardt, Charlie Christian e Wes Montgomery).
Da única vez que se dirige verdadeiramente ao público, uma hora depois de o concerto ter arrancado, apresenta a banda como se fosse um entertainer num combate de boxe
Antooniooo Saaaancheeeez!!
Liiiindaaaa Ooooh!!
Gwiinlyyym Siimcooock!!
com a sua voz quase tão aguda como os registos mais altos da guitarra.
“I feel like I should say goal”, acrescenta em conversa que soa de circunstância, exultando o espírito e orgulho nacionais do público, e aproveitando para mencionar também México e Inglaterra, dirigindo-se ao baterista e pianista, respectivamente, para depois completar com “We’re out”, um “nós” que o junta à contrabaixista.
De seguida, Metheny explica-nos o mote daquele quarteto. Trata-se da revisitação dos temas que marcaram a sua longa carreira. Mas “old tunes but played in a diferente way”, tocadas pela forma que emerge da junção destes músicos, neste momento. E depois vem algo que cimenta a minha convicção que o Metheny só quer mesmo saber da música: alguns seguramente vão identificar os temas mas ele não se vai dar ao trabalho de listá-los porque, pura e simplesmente, não sabe de cor os nomes dos seus temas.
A esta confissão devo adicionar uma outra da minha autoria. Eu próprio estava a travar uma intensa batalha (e a perder rotundamente) com os títulos dos temas. Pelo que, após aquelas palavras, convenientemente conclui que não me deveria martirizar mais e aceitar que, apesar de ter reconhecido vários dos temas, foram muito poucos aqueles aos quais consegui associar um nome. Enfim, dando seguimento à confissão, foram apenas dois e um possível terceiro: o tema lento “Always and forever”, um trecho de “James” que surgiu no medley a solo com que abriu os três encores da noite, e o que me pareceu ser o “Part One” do álbum “The way up”.
Este manifesto desinteresse por elementos totalmente secundários, tais como títulos de músicas (por favor...), está também patente, por exemplo, nos intervalos entre temas (ou na sua ausência). O quarteto nem dá tempo ao público para expressar o seu agrado e contentamento pela música que ouve, com o recurso tradicional que tem ao seu dispor: a rápida cadência dos temas nem sequer permite que a ovação termine espontaneamente, o final da salva de palmas é forçado pelo início do tema seguinte. De facto, não se vislumbra nenhuma razão que justifique esperar pelo fim daquele som das palmas das mãos a bater umas contra as outras.
No total, são quase duas horas e meia de música, encores incluídos. Esta é, aliás, outra das características dos concertos de Metheny: são uma autêntica barrigada. Alguns não têm estômago para tanto, há um conjunto de desistências, pessoas que se encaminham, exaustas, para a saída, através da escuridão da sala. Outros, que não abusaram das entradas ou tomaram sais de fruta, permanecem na cadeira que, por força das horas ali passadas, se tornou desconfortável. Outros, ainda mais deliciados a absorver todas as notas, inclusivamente trauteiam os temas, como um senhor atrás de mim que fez o favor de partilhar efusivamente a sua interpretação dos temas. Confesso que também gostei mas parece-me que este senhor terá uma ainda melhor apreciação que a minha desta noite passada com Pat Metheny.
domingo, 1 de julho de 2018
sábado, 30 de junho de 2018
Instrumento de poder
«A fotografia, mais recentemente, transformou-se num divertimento quase tão praticado como o sexo e a dança, o que significa que, como todas as formas de arte de massas, a fotografia não é praticada pela maioria das pessoas como arte. É sobretudo um rito social, uma defesa contra a ansiedade e um instrumento de poder.»
Ensaios sobre fotografia, Susan Sontag
Ensaios sobre fotografia, Susan Sontag
quinta-feira, 28 de junho de 2018
Sinais dos tempos
A livraria fechou e, no seu lugar, abriu uma imobiliária.
quarta-feira, 27 de junho de 2018
Unorthodoxy
«'(...) Consider the matter dispassionately, Mr Foster, and you will see that no offence is so heinous as unorthodoxy of behaviour. Murder kills only the individual - and, after all, what is an individual?' With a sweeping gesture he indicated the rows of microscopes, the test-tubes, the incubators. 'We can make a new one with the greatest ease - as many as we like. Unorthodoxy threatens more than the life of a mere individual; it strikes at Society itself. Yes, at Society itself,' he repeated.»
Brave New World, Aldous Huxley
Brave New World, Aldous Huxley
terça-feira, 26 de junho de 2018
segunda-feira, 25 de junho de 2018
domingo, 24 de junho de 2018
sábado, 23 de junho de 2018
sexta-feira, 22 de junho de 2018
quinta-feira, 21 de junho de 2018
O banho acabou por acontecer (não podia falhar) numa praia de areia escura.
Sem vivalma, incluindo pescadores daqueles peixes estranhos. Um mergulho rápido na água fria e traiçoeira, com uma corrente forte e um fundão profundo a surgir pouco depois dos primeiros passos. Embora o céu esteja parcialmente encoberto, prefiro não arriscar e não passar muito tempo exposto porque não temos protector solar. Apesar deste cuidado, fico um pouco vermelho em algumas zonas.
Nessa noite, jantamos no Genuíno, o restaurante do único português a realizar duas voltas ao mundo a solo. A empregada de mesa é brasileira, espirituosa. A sopa de peixe e o pargo grelhado estão óptimos, assim como o pudim de inhame de sobremesa. Depois regressamos ao Peter’s, onde tínhamos jantado na noite anterior, para mais um gin do mar, no meio da multidão de estrangeiros.
No dia seguinte, após uma curta volta pela Horta, apanhamos novamente o ferry de meia-hora para a Madalena, seguido de um táxi – uma senhora de idade que conduz uma carrinha de nove lugares – até ao aeroporto da ilha do Pico. Fazemos o drop off da mala num dos únicos dois balcões disponíveis e aguardamos pela abertura das portas que dão acesso ao controle de segurança e, depois disso, às portas de embarque.
À hora marcada, somos chamados a mostrar os cartões de embarque e os documentos que comprovam a identidade e a percorrer os metros de alcatrão entre o terminal do aeroporto e o avião da Sata. Levantamos voo uns bons 15 a 20 minutos antes da hora e aterramos igualmente mais cedo do que o previsto na Portela.
Nessa noite, jantamos no Genuíno, o restaurante do único português a realizar duas voltas ao mundo a solo. A empregada de mesa é brasileira, espirituosa. A sopa de peixe e o pargo grelhado estão óptimos, assim como o pudim de inhame de sobremesa. Depois regressamos ao Peter’s, onde tínhamos jantado na noite anterior, para mais um gin do mar, no meio da multidão de estrangeiros.
No dia seguinte, após uma curta volta pela Horta, apanhamos novamente o ferry de meia-hora para a Madalena, seguido de um táxi – uma senhora de idade que conduz uma carrinha de nove lugares – até ao aeroporto da ilha do Pico. Fazemos o drop off da mala num dos únicos dois balcões disponíveis e aguardamos pela abertura das portas que dão acesso ao controle de segurança e, depois disso, às portas de embarque.
À hora marcada, somos chamados a mostrar os cartões de embarque e os documentos que comprovam a identidade e a percorrer os metros de alcatrão entre o terminal do aeroporto e o avião da Sata. Levantamos voo uns bons 15 a 20 minutos antes da hora e aterramos igualmente mais cedo do que o previsto na Portela.
quarta-feira, 20 de junho de 2018
O vulcão dos Capelinhos está ao nosso lado.
Os meus ténis estão cheios de pó depois de ter subido aquela estrutura, enxertada à anterior faixa de costa da ilha e completamente diferente. Por momentos, parece que estamos num planeta diferente ou numa cratera da lua, caminhando naquela areia cinzenta, com algumas pedras rugosas e escuras. Lá em cima, a tonalidade é um pouco mais avermelhada (Marte?). Um carreiro leva-nos até à arriba que termina na água do mar.
O calor é potenciado pela cor escura daquela terra, que absorve os raios do sol e retém em vez de reflectir. Cansados da subida, decidimos refrescar nas piscinas naturais ali ao lado. Visto os calções e calço os chinelos que pouco antes havia comprado na Sportzone da Horta – estupidamente, nem me passou pela cabeça trazer comigo – e dirigimo-nos às piscinas naturais. Reparo que não há ninguém dentro de água mas apenas um grupo de uma dezena de pescadores que, do topo das rochas, erguem as canas de pesca.
Neste momento estou só a pensar na possibilidade de termos alguma dificuldade em navegar pelo meio de todas estas linhas de pesca e de gerarmos alguma crise diplomática com os pescadores. Mas, assim que me aproximo e ponho os pés na água fria, uma senhora que se dedica à pesca diz-me
Cuidado que está cheio de piranhas
Devo ter feito uma cara de total incompreensão ou pura e simples estupidez que ela se sentiu na necessidade de fornecer mais esclarecimentos.
Piranhas dos Açores
E pega num dos bichos que já capturou, deitado na pedra, com os dedos nos orifícios dos olhos, e mostra-me a dentadura afiada da criatura, que ainda se debate um pouco para respirar.
Faz uns bons filetes
Resolve acrescentar, como se precisasse de justificar a razão pela qual se dedica àquela actividade, não fosse eu pensar que era meramente por desporto ou para passar o tempo.
Face ao exposto, decidimos molhar apenas um pouco os pés e apanhar antes um banho de sol, o suficiente para uma pequena zona de vermelhidão nos ombros. Fico a observar a faina desta gente, que apanha peixe atrás de peixe. Basta colocar a cana na água e, pouco tempo depois, estão a içar mais outro daqueles peixes estranhos para fora da água, que aguentam bastante tempo, em agonia, até morrer.
O calor é potenciado pela cor escura daquela terra, que absorve os raios do sol e retém em vez de reflectir. Cansados da subida, decidimos refrescar nas piscinas naturais ali ao lado. Visto os calções e calço os chinelos que pouco antes havia comprado na Sportzone da Horta – estupidamente, nem me passou pela cabeça trazer comigo – e dirigimo-nos às piscinas naturais. Reparo que não há ninguém dentro de água mas apenas um grupo de uma dezena de pescadores que, do topo das rochas, erguem as canas de pesca.
Neste momento estou só a pensar na possibilidade de termos alguma dificuldade em navegar pelo meio de todas estas linhas de pesca e de gerarmos alguma crise diplomática com os pescadores. Mas, assim que me aproximo e ponho os pés na água fria, uma senhora que se dedica à pesca diz-me
Cuidado que está cheio de piranhas
Devo ter feito uma cara de total incompreensão ou pura e simples estupidez que ela se sentiu na necessidade de fornecer mais esclarecimentos.
Piranhas dos Açores
E pega num dos bichos que já capturou, deitado na pedra, com os dedos nos orifícios dos olhos, e mostra-me a dentadura afiada da criatura, que ainda se debate um pouco para respirar.
Faz uns bons filetes
Resolve acrescentar, como se precisasse de justificar a razão pela qual se dedica àquela actividade, não fosse eu pensar que era meramente por desporto ou para passar o tempo.
Face ao exposto, decidimos molhar apenas um pouco os pés e apanhar antes um banho de sol, o suficiente para uma pequena zona de vermelhidão nos ombros. Fico a observar a faina desta gente, que apanha peixe atrás de peixe. Basta colocar a cana na água e, pouco tempo depois, estão a içar mais outro daqueles peixes estranhos para fora da água, que aguentam bastante tempo, em agonia, até morrer.
terça-feira, 19 de junho de 2018
O semi-rígido com duas fileiras de bancos almofadados está por nossa conta.
Para além de nós, só está no barco o skipper e a guia que ajudará a identificar as espécies de animais. Com um oleado pesado e um colete salva-vidas por cima, sentamo-nos enquanto o barco lentamente se aproxima da saída do pequeno porto e, após passar o molhe, acelera no mar aberto.
A direcção é definida com recurso a uma intensa troca de informações com outro barco que procura cetáceos e com o pessoal em terra. Pouco depois, temos à nossa frente um grupo de cachalotes, identificáveis pelo sopro que se projecta para a frente e para a esquerda, dada a colocação do espiráculo. Algumas baforadas de ar e espuma e vemos as caudas erguer para o mergulho profundo, do qual só deverão voltar a surgir após uns bons três quartos de hora.
Seguimos à procura de mais fauna marítima e vamos deparar-nos com alguns grupos de golfinhos moleiros, criaturas que, contrariamente aos golfinhos que estamos mais habituados, não são sociáveis. Afastam-se do barco, é necessário estar constantemente a procurá-los no meio das ondas. São poucas as vezes que temos oportunidade de ver o corpo destes animais, de focinho arredondado e sem a forma pontiaguda.
No regresso, a visão apurada dos nossos anfitriões levam-nos a interromper a o motor que faz o barco deslocar-se a grande velocidade. Na água, vislumbramos uma tartaruga boba, que se mantém alguns instantes perto da superfície antes de iniciar o seu mergulho.
De regresso a terra firme, somos presenteados com um diploma que atesta as espécies que vimos, assim como um chá quente, bolachas mulatas e um óptimo licor.
A direcção é definida com recurso a uma intensa troca de informações com outro barco que procura cetáceos e com o pessoal em terra. Pouco depois, temos à nossa frente um grupo de cachalotes, identificáveis pelo sopro que se projecta para a frente e para a esquerda, dada a colocação do espiráculo. Algumas baforadas de ar e espuma e vemos as caudas erguer para o mergulho profundo, do qual só deverão voltar a surgir após uns bons três quartos de hora.
Seguimos à procura de mais fauna marítima e vamos deparar-nos com alguns grupos de golfinhos moleiros, criaturas que, contrariamente aos golfinhos que estamos mais habituados, não são sociáveis. Afastam-se do barco, é necessário estar constantemente a procurá-los no meio das ondas. São poucas as vezes que temos oportunidade de ver o corpo destes animais, de focinho arredondado e sem a forma pontiaguda.
No regresso, a visão apurada dos nossos anfitriões levam-nos a interromper a o motor que faz o barco deslocar-se a grande velocidade. Na água, vislumbramos uma tartaruga boba, que se mantém alguns instantes perto da superfície antes de iniciar o seu mergulho.
De regresso a terra firme, somos presenteados com um diploma que atesta as espécies que vimos, assim como um chá quente, bolachas mulatas e um óptimo licor.
segunda-feira, 18 de junho de 2018
Fim da picada
Não chego a conseguir dormir verdadeiramente, apenas passar um pouco pelas brasas. Não só porque são 22h, o que é cedo para que o corpo peça cama, mas também porque não consigo ignorar o som característico e desagradável dos cagarros. Um pouco antes das meia noite levantamo-nos. Fazemos os últimos preparativos e seguimos em direcção à Madalena. Pelo caminho, na estrada, está o Jeep do nosso guia, que seguimos pela estrada que leva até à Casa da Montanha.
Com um polar vestido e um lenço a proteger a zona do pescoço, calções justos a fazer lembrar os dos ciclistas, que expõe pernas musculadas e, sobretudo, bastante bem depiladas. É possível que o reflexo da pele daquelas pernas seja a luz mais intensa que vamos ver durante toda a escalada nocturna que se avizinha.
Depois das apresentações, tratamos das formalidades – da inscrição do nosso nome e da recepção do aparelho de GPS que nos acompanhará na subida – e do equipamento – lanternas frontais, bastões de escalada e um saco-cama na mochila que já contém comida, água e roupa adicional. Uma passagem estratégica pela casa-de-banho e perto das 2h saímos a porta que dá acesso a uma curta escadaria e, a partir daí, começa o trilho de terra e pedras que nos levará ao topo da montanha mais alta de Portugal.
É difícil ser mais experiente que o nosso guia de perna reluzente: já fez esta subida mais de 2100 vezes, se não me falha a memória. Tendo em conta que, entre subir e descer, são cerca de oito quilómetros, já fez quase 20 mil quilómetros naquela montanha.
O caminho é sinuoso, como seria de esperar, mas de um grau de dificuldade relativamente acessível. O maior obstáculo talvez seja a hora: não só porque não é fácil perceber o caminho à noite, apesar das lanternas e dos 47 pequenos postes de sinalização (daí a utilidade do guia), mas também porque vamos subir um pouco mais de um quilómetro vertical em cerca de quatro quilómetros após uma noite em branco.
Não obstante, os deuses, estão connosco. Não há praticamente vento nenhum e a sensação térmica não é tão intensa quanto seria em condições normais. Já na fase final da subida, ponto que, segundo o guia, uma vez atingido desfaz qualquer dúvida em relação a atingir o cume, começamos a ver o céu limpo, a ausência de nuvens. Estamos agora a dez minutos da cratera e outros vinte do cume e vemos a lua avermelhada, enganadoradamente em quarto minguante. Isto acontece uma a duas vezes por mês no verão, diz-nos o guia, acusando-nos de ser uns sortudos.
A cratera está debaixo dos nossos pés e, pela frente, está a última formação, o “piquinho” que se ergue mais uns metros para lá da caldeira do vulcão. Aqui deixamos os bastões de lado, a subida é mais complicada e vamos precisar do auxílio das mãos nas rochas. Numa das passagens, vemos e sentimos o vapor de água, que nos recorda a natureza do local onde nos encontramos.
Pouco depois, atingimos o topo, três horas e meia depois de termos começado a subida. Lá em cima está um espanhol a fazer um time lapse com uma câmara e um casal um pouco mais afastado. Deitamo-nos dentro dos sacos-cama no pouco espaço disponível abrigado por um pequeno muro de pedra, a mochila a servir de almofada. Apesar do frio, adormeço e acordo a tempo de ver o nascer do sol com o barulho de outro grupo.
A vista é imponente. À nossa frente estão São Jorge, a Terceira e, mais ao fundo, por detrás de São Jorge, a Graciosa. Atrás, muito perto do extremo da ilha do Pico onde fica a vila da Madalena, o Faial ainda às escuras, à espera que o sol chegue. A quantidade de fotografias que tiramos é pornográfica, uma tarefa só interrompida pelo café açucarado e os biscoitos com que o guia nos brinda. De pé, ao pé da zona das rochas onde sai um pouco daquele mesmo vapor, vamos aquecendo o corpo e a alma.
Começamos a descida pelas oito horas e, apesar de todos os santos prestarem a respectiva ajuda, acabamos por demorar mais neste sentido. É certo que para tal contribuiu a sessão fotográfica feita pouco depois de descer do “piquinho”, promovido pelo guia que, apesar dos milhares de subidas, parecia mais eufórico do que nós.
Com um polar vestido e um lenço a proteger a zona do pescoço, calções justos a fazer lembrar os dos ciclistas, que expõe pernas musculadas e, sobretudo, bastante bem depiladas. É possível que o reflexo da pele daquelas pernas seja a luz mais intensa que vamos ver durante toda a escalada nocturna que se avizinha.
Depois das apresentações, tratamos das formalidades – da inscrição do nosso nome e da recepção do aparelho de GPS que nos acompanhará na subida – e do equipamento – lanternas frontais, bastões de escalada e um saco-cama na mochila que já contém comida, água e roupa adicional. Uma passagem estratégica pela casa-de-banho e perto das 2h saímos a porta que dá acesso a uma curta escadaria e, a partir daí, começa o trilho de terra e pedras que nos levará ao topo da montanha mais alta de Portugal.
É difícil ser mais experiente que o nosso guia de perna reluzente: já fez esta subida mais de 2100 vezes, se não me falha a memória. Tendo em conta que, entre subir e descer, são cerca de oito quilómetros, já fez quase 20 mil quilómetros naquela montanha.
O caminho é sinuoso, como seria de esperar, mas de um grau de dificuldade relativamente acessível. O maior obstáculo talvez seja a hora: não só porque não é fácil perceber o caminho à noite, apesar das lanternas e dos 47 pequenos postes de sinalização (daí a utilidade do guia), mas também porque vamos subir um pouco mais de um quilómetro vertical em cerca de quatro quilómetros após uma noite em branco.
Não obstante, os deuses, estão connosco. Não há praticamente vento nenhum e a sensação térmica não é tão intensa quanto seria em condições normais. Já na fase final da subida, ponto que, segundo o guia, uma vez atingido desfaz qualquer dúvida em relação a atingir o cume, começamos a ver o céu limpo, a ausência de nuvens. Estamos agora a dez minutos da cratera e outros vinte do cume e vemos a lua avermelhada, enganadoradamente em quarto minguante. Isto acontece uma a duas vezes por mês no verão, diz-nos o guia, acusando-nos de ser uns sortudos.
A cratera está debaixo dos nossos pés e, pela frente, está a última formação, o “piquinho” que se ergue mais uns metros para lá da caldeira do vulcão. Aqui deixamos os bastões de lado, a subida é mais complicada e vamos precisar do auxílio das mãos nas rochas. Numa das passagens, vemos e sentimos o vapor de água, que nos recorda a natureza do local onde nos encontramos.
Pouco depois, atingimos o topo, três horas e meia depois de termos começado a subida. Lá em cima está um espanhol a fazer um time lapse com uma câmara e um casal um pouco mais afastado. Deitamo-nos dentro dos sacos-cama no pouco espaço disponível abrigado por um pequeno muro de pedra, a mochila a servir de almofada. Apesar do frio, adormeço e acordo a tempo de ver o nascer do sol com o barulho de outro grupo.
A vista é imponente. À nossa frente estão São Jorge, a Terceira e, mais ao fundo, por detrás de São Jorge, a Graciosa. Atrás, muito perto do extremo da ilha do Pico onde fica a vila da Madalena, o Faial ainda às escuras, à espera que o sol chegue. A quantidade de fotografias que tiramos é pornográfica, uma tarefa só interrompida pelo café açucarado e os biscoitos com que o guia nos brinda. De pé, ao pé da zona das rochas onde sai um pouco daquele mesmo vapor, vamos aquecendo o corpo e a alma.
Começamos a descida pelas oito horas e, apesar de todos os santos prestarem a respectiva ajuda, acabamos por demorar mais neste sentido. É certo que para tal contribuiu a sessão fotográfica feita pouco depois de descer do “piquinho”, promovido pelo guia que, apesar dos milhares de subidas, parecia mais eufórico do que nós.
domingo, 17 de junho de 2018
O embarque começa à hora.
Ainda não são sete da manhã e já mostramos os nossos cartões de embarque e de cidadão ao funcionário por detrás do computador com um leitor que apita a cada registo. Descemos as escadas que levam até ao exterior do terminal para aceder ao autocarro. Está frio e, pouco depois, desatará a chover.
Esperamos ainda um pouco até o autocarro iniciar o percurso – que parece sempre longuíssimo – até ao avião da Sata, estacionado no alcatrão, para lá do terminal 2 do aeroporto. Parados ao lado do Airbus 320, de portas fechadas. Até que, estranhamente, ao invés de ouvirmos o som das portas a abrir e do piso do autocarro a descer ligeiramente, ouvimos novamente o som do motor e o autocarro arranca novamente.
Rimo-nos, assim como as pessoas ao nosso lado – lembro-me em particular de um homem que viríamos a encontrar mais tarde na Casa da Montanha com a esposa após uma tentativa falhada de ascensão. Que se enganaram no avião, onde já se viu isto, só mesmo nesta terra. Mas o comentário que melhor registei foi aquele que ouvi a um dos companheiros de viagem: “isto não é bom sinal”.
E não era. Somos largados na chuva para chegar à escadas que dão acesso ao terminal pelo condutor que nos informa que, “por motivos operacionais”, o voo está atrasado. À passagem pelos funcionários que permanecem na porta de embarque, os passageiros perguntam o que aconteceu. A resposta é caricata: faltaram alguns membros de tripulação necessários para que o voo se efectue.
Esperamos mais um bocado. Talvez uma hora, hora e meia. Pelo meio, um dos passageiros, pertencente a um grupo ou excursão relativamente grande, tira do estojo uma guitarra portuguesa e toca-nos umas quantas músicas, que têm o condão de afastar alguma da irritação. O mesmo não se poderá dizer de uma senhora enfermeira, que não parece achar graça nenhuma à música que o trovador lhe dedica, em jeito de serenata.
Finalmente, somos novamente enfiados dentro do autocarro, que percorre o mesmo trajecto até ao mesmo avião e, desta feita, abre mesmo as portas para que possamos entrar no aparelho. Cerca de 2h30 depois aterramos no aeroporto da ilha do Pico.
A tarde é passada a dar a volta à ilha. Das estradas costeiras, enveredamos pelas mais estreitas e sinuosas, polvilhadas de vacas que, à nossa passagem, arregalam os olhos, num misto de curiosidade e receio. O contraste da cor escura da terra e das rochas com o verde gritante da vegetação é esmagador. O sol intenso esconde-se, por vezes, por entre nuvens espessas e cinzentas ou no nevoeiro que faz a temperatura, de imediato, cair.
Perguntamos a um pastor qual o caminho para as lagoas. Depois da explicação, aproveitamos para lhe perguntar se o nevoeiro e as nuvens que cobrem a montanha se irão manter. Explica-nos que se não se dissiparem até ao final da tarde, deverão permanecer a noite toda.
Seguimos em frente, a contar o número de barreiras para os animais na estrada como referência até chegar às massas de água. O trajecto termina com o regresso à vila da Madalena, onde fazemos as compras para o dia de amanhã (que mais parece a noite deste) e jantamos. Ao final do dia, as nuvens deram tréguas e o topo da montanha está visível.
Esperamos ainda um pouco até o autocarro iniciar o percurso – que parece sempre longuíssimo – até ao avião da Sata, estacionado no alcatrão, para lá do terminal 2 do aeroporto. Parados ao lado do Airbus 320, de portas fechadas. Até que, estranhamente, ao invés de ouvirmos o som das portas a abrir e do piso do autocarro a descer ligeiramente, ouvimos novamente o som do motor e o autocarro arranca novamente.
Rimo-nos, assim como as pessoas ao nosso lado – lembro-me em particular de um homem que viríamos a encontrar mais tarde na Casa da Montanha com a esposa após uma tentativa falhada de ascensão. Que se enganaram no avião, onde já se viu isto, só mesmo nesta terra. Mas o comentário que melhor registei foi aquele que ouvi a um dos companheiros de viagem: “isto não é bom sinal”.
E não era. Somos largados na chuva para chegar à escadas que dão acesso ao terminal pelo condutor que nos informa que, “por motivos operacionais”, o voo está atrasado. À passagem pelos funcionários que permanecem na porta de embarque, os passageiros perguntam o que aconteceu. A resposta é caricata: faltaram alguns membros de tripulação necessários para que o voo se efectue.
Esperamos mais um bocado. Talvez uma hora, hora e meia. Pelo meio, um dos passageiros, pertencente a um grupo ou excursão relativamente grande, tira do estojo uma guitarra portuguesa e toca-nos umas quantas músicas, que têm o condão de afastar alguma da irritação. O mesmo não se poderá dizer de uma senhora enfermeira, que não parece achar graça nenhuma à música que o trovador lhe dedica, em jeito de serenata.
Finalmente, somos novamente enfiados dentro do autocarro, que percorre o mesmo trajecto até ao mesmo avião e, desta feita, abre mesmo as portas para que possamos entrar no aparelho. Cerca de 2h30 depois aterramos no aeroporto da ilha do Pico.
A tarde é passada a dar a volta à ilha. Das estradas costeiras, enveredamos pelas mais estreitas e sinuosas, polvilhadas de vacas que, à nossa passagem, arregalam os olhos, num misto de curiosidade e receio. O contraste da cor escura da terra e das rochas com o verde gritante da vegetação é esmagador. O sol intenso esconde-se, por vezes, por entre nuvens espessas e cinzentas ou no nevoeiro que faz a temperatura, de imediato, cair.
Perguntamos a um pastor qual o caminho para as lagoas. Depois da explicação, aproveitamos para lhe perguntar se o nevoeiro e as nuvens que cobrem a montanha se irão manter. Explica-nos que se não se dissiparem até ao final da tarde, deverão permanecer a noite toda.
Seguimos em frente, a contar o número de barreiras para os animais na estrada como referência até chegar às massas de água. O trajecto termina com o regresso à vila da Madalena, onde fazemos as compras para o dia de amanhã (que mais parece a noite deste) e jantamos. Ao final do dia, as nuvens deram tréguas e o topo da montanha está visível.
sábado, 16 de junho de 2018
O problema de os tornar mártires da liberdade de expressão
sexta-feira, 15 de junho de 2018
quinta-feira, 14 de junho de 2018
É um exercício desagradável caracterizar-se um país por analogia a outro.
Porque parte do pressuposto (preconceito?) de que determinados povos devem ser similares e, por isso, que o que destaca entre eles são as diferenças e não as semelhanças, já que estas últimas são expectáveis.
E é por essa razão que as comparações entre nós e os espanhóis nos parecem, muitas vezes, desagradáveis: porque, ao assinalar o que não é igual, partem do pressuposto de que temos de ser parecidos. Já no caso de, por exemplo, a Bolívia e da Noruega (podia ser a Turquia e a Nova Zelândia ou a Estónia e a Nova Guiné), quaisquer observações que fizéssemos sobre esses países seriam sobre as semelhanças que poderíamos descobrir, exactamente porque não as esperaríamos encontrar.
Dito isto, não resisto a fazê-lo, a cometer uma possível indelicadeza. Posso tentar alegar uma atenuante ao meu caso: visitei o Japão recentemente e, talvez por isso, tenha tido alguma dificuldade em não olhar para a Coreia sem ser através dos olhos que passaram quinze dias em diversos sítios do país do sol nascente.
Talvez a maior diferença que tenha reparado entre os dois países é a existência de maiores extremos no Japão. Uma impressão potencialmente difícil de pôr por palavras e exemplos; aqui fica uma tentativa.
No que respeita à gentileza e à cortesia por exemplo. Não que os coreanos não o sejam, muito pelo contrário. Mas não ao mesmo nível dos japoneses onde, por vezes, é demasiado e chega a roçar os limites do desconfortável. No Japão, os objectos são entregues e recebidos com duas mãos quase sem excepção. Quando saímos de um restaurante, para além do empregado que nos recebeu, todos os funcionários, do cozinheiro ao lavador de pratos se despedem. Na Coreia, as pessoas falam umas com as outras nos transportes públicos e falam descontraidamente ao telefone. A senhora ao meu lado murmura uma qualquer ladainha; só depois reparo que tem, na mão direita, um fio de contas que progressivamente vai deslocando com os dedos à medida que completa as etapas. No Japão, as carruagens dos comboios e dos metros são túmulos de pessoas vivas. No comboio bala, solicita-se àqueles que queiram realizar uma chamada que se dirijam às zonas entre carruagens, isoladas por portas de vidro, para não incomodar os demais passageiros.
A infantilização e a alienação é maior no Japão. Das vozes e das músicas de criança nos transportes públicos aos sinais que nos alertam para, por exemplo, não entalarmos as mãos nas portas. Os arcades e as salas enormes de pachinko – um misto entre pinball e slot machine – não se vêem em Seoul, assim como as zonas para maiores de dezoito nos supermercados, as lojas de manga e casas de acompanhantes. Só em Tokyo se vê turistas vestidos de personagens do Super Mario a conduzir karts pelo meio da cidade.
Nas ruas coreanas, os caixotes de lixo não abundam mas existem: não somos, como no Japão, obrigados a andar com embalagens e garrafas de água até encontrar uma loja de conveniência onde possamos discretamente livrar-nos da tralha. E, finalmente, a esmagadora maioria das sanitas não é tuning como no Japão, sem botões que activam uma série de funções esquisitas.
Para terminar, uma semelhança: o controlo do inglês é reduzido e a comunicação é, por vezes, feita com recurso a gestos e onomatopeias – num mercado, escolhemos o jantar com base no gesto de levar comida à boca, acompanhado de “nham nham”, de uma senhora.
E é por essa razão que as comparações entre nós e os espanhóis nos parecem, muitas vezes, desagradáveis: porque, ao assinalar o que não é igual, partem do pressuposto de que temos de ser parecidos. Já no caso de, por exemplo, a Bolívia e da Noruega (podia ser a Turquia e a Nova Zelândia ou a Estónia e a Nova Guiné), quaisquer observações que fizéssemos sobre esses países seriam sobre as semelhanças que poderíamos descobrir, exactamente porque não as esperaríamos encontrar.
Dito isto, não resisto a fazê-lo, a cometer uma possível indelicadeza. Posso tentar alegar uma atenuante ao meu caso: visitei o Japão recentemente e, talvez por isso, tenha tido alguma dificuldade em não olhar para a Coreia sem ser através dos olhos que passaram quinze dias em diversos sítios do país do sol nascente.
Talvez a maior diferença que tenha reparado entre os dois países é a existência de maiores extremos no Japão. Uma impressão potencialmente difícil de pôr por palavras e exemplos; aqui fica uma tentativa.
No que respeita à gentileza e à cortesia por exemplo. Não que os coreanos não o sejam, muito pelo contrário. Mas não ao mesmo nível dos japoneses onde, por vezes, é demasiado e chega a roçar os limites do desconfortável. No Japão, os objectos são entregues e recebidos com duas mãos quase sem excepção. Quando saímos de um restaurante, para além do empregado que nos recebeu, todos os funcionários, do cozinheiro ao lavador de pratos se despedem. Na Coreia, as pessoas falam umas com as outras nos transportes públicos e falam descontraidamente ao telefone. A senhora ao meu lado murmura uma qualquer ladainha; só depois reparo que tem, na mão direita, um fio de contas que progressivamente vai deslocando com os dedos à medida que completa as etapas. No Japão, as carruagens dos comboios e dos metros são túmulos de pessoas vivas. No comboio bala, solicita-se àqueles que queiram realizar uma chamada que se dirijam às zonas entre carruagens, isoladas por portas de vidro, para não incomodar os demais passageiros.
A infantilização e a alienação é maior no Japão. Das vozes e das músicas de criança nos transportes públicos aos sinais que nos alertam para, por exemplo, não entalarmos as mãos nas portas. Os arcades e as salas enormes de pachinko – um misto entre pinball e slot machine – não se vêem em Seoul, assim como as zonas para maiores de dezoito nos supermercados, as lojas de manga e casas de acompanhantes. Só em Tokyo se vê turistas vestidos de personagens do Super Mario a conduzir karts pelo meio da cidade.
Nas ruas coreanas, os caixotes de lixo não abundam mas existem: não somos, como no Japão, obrigados a andar com embalagens e garrafas de água até encontrar uma loja de conveniência onde possamos discretamente livrar-nos da tralha. E, finalmente, a esmagadora maioria das sanitas não é tuning como no Japão, sem botões que activam uma série de funções esquisitas.
Para terminar, uma semelhança: o controlo do inglês é reduzido e a comunicação é, por vezes, feita com recurso a gestos e onomatopeias – num mercado, escolhemos o jantar com base no gesto de levar comida à boca, acompanhado de “nham nham”, de uma senhora.
quarta-feira, 13 de junho de 2018
DMZ
Dois dias antes, recebo um email do Choi, o tipo da agência que contactei para fazer o tour à zona desmilitarizada, a dizer-me que, infelizmente, a visita à Joint Security Area foi cancelada por motivos que se prendem com a cimeira entre as duas Coreias. A probabilidade deste desfecho era relativamente elevada: o complexo de pequenas estruturas azuladas, literalmente sobre a fronteira militar entre os dois países, esteve fechado todo o mês de Abril. Na altura, a possibilidade de realizar visitas em Maio ainda não tinha sido afastada mas só tinha mesmo o primeiro dia do mês disponível e um prolongamento do encerramento daquele local ao turismo não seria de todo a descartar.
Como alternativa, optámos por fazer a visita mais curta, de meio dia, que passa por três atracções diferentes. Por mais do que uma vez, a guia pergunta-nos se temos os passaportes connosco. Vão ser necessários ao entrar na zona desmilitarizada, para mostrar a um militar que entra no autocarro e olha rapidamente para cada um e para a cara do respectivo portador, antes de autorizar a entrada do veículo.
A primeira atracção é um dos túneis de construídos pela Coreia do Norte para invadir o vizinho do sul. Há inúmeros túneis do género identificados (e seguramente mais uns quantos não identificados), que foram feitos tendo em vista uma infiltração surpresa de um contingente militar que rapidamente conseguisse avançar em direcção a Seoul, que fica a algumas dezenas de quilómetros da fronteira, e tomar a capital.
O túnel que visitámos chegou à atenção das autoridades da Coreia do Sul através do relato de um dissidente do norte. Na sequência, foi construído um túnel de intersecção, com um comprimento de cerca de 350 metros e uma inclinação de 11 graus, se a memória não me falha, e que desagua no túnel original. Este último é mais estreito e baixo, e aqui sentimos a necessidade dos capacetes que nos dão à entrada: mesmo caminhando de costas curvadas, por vezes não consegui evitar uma cabeçada no tecto ou nas estruturas de metal que suportam o túnel. É preciso fazer alguns metros até chegar a uma das três barreiras de betão que bloqueiam a passagem, perto da fronteira militar subterrânea.
Daqui seguimos para o Observatório de Dora que não é mais do que uma armadilha de turistas. Trata-se de um edifício no topo de um pequeno monte com uma espécie de terraço virado para a fronteira, repleto de binóculos que aceitam moedas de 500 wons. Daqui avista-se uma paisagem que poderia ser a do Alentejo, um descampado pontilhado por uma ou outra árvore.
Finalmente, a visita termina na estação de comboios de Dorasan. No meio de nenhures, rodeada de um parque de estacionamento vazio. Dentro do edifício apenas se encontram turistas, que tiram selfies com a placa que indica a linha para Pyongyang. Ao lado, está um placard luminoso onde se lê que esta estação foi inaugurada em 2002, após um acordo celebrado entre as duas Coreias em 2000 para a reconstrução de uma linha ferroviária que as une e que foi destruída durante a guerra. Há quinze anos que a infraestrutura está pronta mas ainda não é usada.
Um militar volta a entrar no autocarro e os passageiros voltam a empunhar o passaporte aberto na página da fotografia até o autocarro partir novamente. À vinda, o trânsito está infernal e demoramos mais tempo do que era previsto a chegar.
Como alternativa, optámos por fazer a visita mais curta, de meio dia, que passa por três atracções diferentes. Por mais do que uma vez, a guia pergunta-nos se temos os passaportes connosco. Vão ser necessários ao entrar na zona desmilitarizada, para mostrar a um militar que entra no autocarro e olha rapidamente para cada um e para a cara do respectivo portador, antes de autorizar a entrada do veículo.
A primeira atracção é um dos túneis de construídos pela Coreia do Norte para invadir o vizinho do sul. Há inúmeros túneis do género identificados (e seguramente mais uns quantos não identificados), que foram feitos tendo em vista uma infiltração surpresa de um contingente militar que rapidamente conseguisse avançar em direcção a Seoul, que fica a algumas dezenas de quilómetros da fronteira, e tomar a capital.
O túnel que visitámos chegou à atenção das autoridades da Coreia do Sul através do relato de um dissidente do norte. Na sequência, foi construído um túnel de intersecção, com um comprimento de cerca de 350 metros e uma inclinação de 11 graus, se a memória não me falha, e que desagua no túnel original. Este último é mais estreito e baixo, e aqui sentimos a necessidade dos capacetes que nos dão à entrada: mesmo caminhando de costas curvadas, por vezes não consegui evitar uma cabeçada no tecto ou nas estruturas de metal que suportam o túnel. É preciso fazer alguns metros até chegar a uma das três barreiras de betão que bloqueiam a passagem, perto da fronteira militar subterrânea.
Daqui seguimos para o Observatório de Dora que não é mais do que uma armadilha de turistas. Trata-se de um edifício no topo de um pequeno monte com uma espécie de terraço virado para a fronteira, repleto de binóculos que aceitam moedas de 500 wons. Daqui avista-se uma paisagem que poderia ser a do Alentejo, um descampado pontilhado por uma ou outra árvore.
Finalmente, a visita termina na estação de comboios de Dorasan. No meio de nenhures, rodeada de um parque de estacionamento vazio. Dentro do edifício apenas se encontram turistas, que tiram selfies com a placa que indica a linha para Pyongyang. Ao lado, está um placard luminoso onde se lê que esta estação foi inaugurada em 2002, após um acordo celebrado entre as duas Coreias em 2000 para a reconstrução de uma linha ferroviária que as une e que foi destruída durante a guerra. Há quinze anos que a infraestrutura está pronta mas ainda não é usada.
Um militar volta a entrar no autocarro e os passageiros voltam a empunhar o passaporte aberto na página da fotografia até o autocarro partir novamente. À vinda, o trânsito está infernal e demoramos mais tempo do que era previsto a chegar.
sexta-feira, 8 de junho de 2018
As mesas são normalmente para quatro pessoas e têm uma grelha a meio.
A maioria destes apetrechos é a gás, que é fornecido através de um tubo de plástico fino que percorre a parte de baixo do tampo. Aqui, num estabelecimento com vista para o corredor sujo e escuro do mercado que nos foi recomendado para jantar, o método foi mais tradicional: uma senhora trouxe um recipiente de metal cheio de brasas e colocou debaixo da grelha, a fazer lembrar a braseira que a minha avó usava no inverno para aquecer os pés em torno da mesa. Na maior parte dos casos, existe também um exaustor cilíndrico, pendurado do tecto, que não consegue evitar que fiquemos com as roupas impregnadas de cheiro a comida.
A receita é relativamente simples, basta escolher a carne. Ou, melhor dito, deveria ser simples, porque o processo de escolha e comunicação dessa escolha nem sempre é linear, dadas as barreiras de linguagem. Aliás, é, frequentemente, algo sinuoso. Mas uma vez ultrapassado, basta ir preparando os pedaços aos poucos, pegando com a ajuda de uma tenaz para os colocar sob a grelha quente e cortando-os com uma tesoura. É, de certa forma, uma espécie de fondue, com uma grelha em vez de um recipiente com óleo.
Os grelhados talvez sejam a maior imagem gastronómica da Coreia mas há também um conjunto de outros pratos típicos, como o bibimbap. Atrevo-me a dizer que as panquecas com vegetais ou frutos do mar foram a maior surpresa positiva. Seja qual for a escolha, uma coisa é certa: à mesa estarão também pequenas taças e pratos com acompanhamentos diversos, com o sabor picante e fermentado de Kimchi. Estes podem ser repetidos à vontade, há normalmente um balcão com grandes recipientes de plástico onde podemos ir servir-nos, tal como um buffet de saladas.
As refeições são acompanhadas com a cerveja leve local ou com Soju, a bebida típica, descrita por um local como uma espécie de whisky mas mais fraco. Trata-se de licor que pode ser feito de arroz ou de outros cereais e vem numas garrafas de vidro pequenas que mais parecem de água. É servida em pequenos copos típicos de bebidas brancas, e é possível que seja necessário ser autóctone para saber apreciar: a única vez que pedimos uma revelou-se também a última e a pequena garrafa ficou longe de ser despejada.
A receita é relativamente simples, basta escolher a carne. Ou, melhor dito, deveria ser simples, porque o processo de escolha e comunicação dessa escolha nem sempre é linear, dadas as barreiras de linguagem. Aliás, é, frequentemente, algo sinuoso. Mas uma vez ultrapassado, basta ir preparando os pedaços aos poucos, pegando com a ajuda de uma tenaz para os colocar sob a grelha quente e cortando-os com uma tesoura. É, de certa forma, uma espécie de fondue, com uma grelha em vez de um recipiente com óleo.
Os grelhados talvez sejam a maior imagem gastronómica da Coreia mas há também um conjunto de outros pratos típicos, como o bibimbap. Atrevo-me a dizer que as panquecas com vegetais ou frutos do mar foram a maior surpresa positiva. Seja qual for a escolha, uma coisa é certa: à mesa estarão também pequenas taças e pratos com acompanhamentos diversos, com o sabor picante e fermentado de Kimchi. Estes podem ser repetidos à vontade, há normalmente um balcão com grandes recipientes de plástico onde podemos ir servir-nos, tal como um buffet de saladas.
As refeições são acompanhadas com a cerveja leve local ou com Soju, a bebida típica, descrita por um local como uma espécie de whisky mas mais fraco. Trata-se de licor que pode ser feito de arroz ou de outros cereais e vem numas garrafas de vidro pequenas que mais parecem de água. É servida em pequenos copos típicos de bebidas brancas, e é possível que seja necessário ser autóctone para saber apreciar: a única vez que pedimos uma revelou-se também a última e a pequena garrafa ficou longe de ser despejada.
quinta-feira, 7 de junho de 2018
Coffee break
A máquina de café está numa pequena zona de cadeiras e mesas onde várias pessoas se sentam à saída de um templo no meio dos prédios do centro de negócios de Seoul. Tinhamos chegado aqui depois de nos cruzarmos com uma manifestação muito civilizada. Perante a nossa cara de interrogação, uma das manifestantes pára para nos explicar a preocupação que sentem com a recente aproximação entre a vizinha Coreia do Norte. Receiam que eventuais cedências que o Presidente Moon venha a fazer líder do norte possam conduzir a democrática Coreia do Sul para um regime similar.
Há vários botões com diferentes tipos de cafés possíveis, todos bastante baratos. De repente, uma senhora surge por detrás de nós, e explica-nos o que são as diferentes opções, acrescentando que o mais certo é não gostarmos dos cafés típicos coreanos disponíveis. E, daqui, aos poucos, acabamos por encetar uma conversa com ela que acaba por percorrer uma série de temas diferentes.
É das pessoas com melhor inglês com as quais nos vamos deparar na viagem inteira, ou não tivesse vivido doze anos nos Estados Unidos. Mais do que isso, em Nova Iorque. Talvez o ponto que mais fica na cabeça é o facto de considerar que os coreanos são demasiado individualistas. Por alguma razão, não esperaria esta consideração. Ainda para mais de alguém que viveu nos Estados Unidos. Mas ela insiste: só se preocupam com eles, com a sua imagem, são materialistas e consumistas, medem o respectivo sucesso apenas por aquilo que têm e preocupam-se pouco com atitudes, comportamentos e valores.
De início, esta perspectiva parece-me estranha, ainda para mais de alguém que teve um contacto com o que deverá ser o paradigma da sociedade individualista. Mas, aos poucos, sinto que começo a perceber o que quer dizer. E sinto que a ideia lentamente a impregnar-se.
De considerações profundas sobre a forma de ser dos coreanos e doutros povos, passamos para temas mais mundanos. A senhora recomenda-nos um mercado para jantar, nada como um local verdadeiramente genuíno (pleonasmo?). Despedimo-nos cordialmente, desejamos as melhoras – tinha tido um acidente de automóvel recentemente e ainda se encontrava parcialmente em convalescença – e ficamos com a nítida sensação que não somos os únicos a ter sido abordados por ela. É seguramente uma prática regular sua.
Há vários botões com diferentes tipos de cafés possíveis, todos bastante baratos. De repente, uma senhora surge por detrás de nós, e explica-nos o que são as diferentes opções, acrescentando que o mais certo é não gostarmos dos cafés típicos coreanos disponíveis. E, daqui, aos poucos, acabamos por encetar uma conversa com ela que acaba por percorrer uma série de temas diferentes.
É das pessoas com melhor inglês com as quais nos vamos deparar na viagem inteira, ou não tivesse vivido doze anos nos Estados Unidos. Mais do que isso, em Nova Iorque. Talvez o ponto que mais fica na cabeça é o facto de considerar que os coreanos são demasiado individualistas. Por alguma razão, não esperaria esta consideração. Ainda para mais de alguém que viveu nos Estados Unidos. Mas ela insiste: só se preocupam com eles, com a sua imagem, são materialistas e consumistas, medem o respectivo sucesso apenas por aquilo que têm e preocupam-se pouco com atitudes, comportamentos e valores.
De início, esta perspectiva parece-me estranha, ainda para mais de alguém que teve um contacto com o que deverá ser o paradigma da sociedade individualista. Mas, aos poucos, sinto que começo a perceber o que quer dizer. E sinto que a ideia lentamente a impregnar-se.
De considerações profundas sobre a forma de ser dos coreanos e doutros povos, passamos para temas mais mundanos. A senhora recomenda-nos um mercado para jantar, nada como um local verdadeiramente genuíno (pleonasmo?). Despedimo-nos cordialmente, desejamos as melhoras – tinha tido um acidente de automóvel recentemente e ainda se encontrava parcialmente em convalescença – e ficamos com a nítida sensação que não somos os únicos a ter sido abordados por ela. É seguramente uma prática regular sua.
quarta-feira, 6 de junho de 2018
Todo o templo do mundo
Um bilhete combinado dá acesso a uma meia dúzia de palácios e uma ou outra atracção, de nomes muito parecidos e impossíveis de memorizar, e por um preço bastante razoável.
Logo ao início do dia, assistimos ao render da guarda. Primeiro entra uma fileira que se ocupa da música. Umas flautas de sons agudos, tambores e metais que se conjugam de forma estranha. Param e dão lugar à entrada de uma segunda fileira, com vários porta-estandarte. Estão trajados de forma curiosa, cheios de cores garridas, fazem lembrar a guarda suíça do Vaticano, que parece ter mais de pitoresco que outra coisa. O mais graduado, que se vira para os restantes e grita ordens que são executadas mecanicamente, tem uma pena de pavão no chapéu, uma marca da hierarquia. Depois de algumas instruções debitadas em tom grave e solene, as fileiras saem por ordem contrária à de entrada – first in last out –, ouvimos novamente a mesma música algo desconcertante.
Findo o ritual, seguimos a mole de turistas que se dirige aos terrenos do palácio, qual horda de invasores. As estruturas são relativamente semelhantes e, apesar de tantos palácios e templos diferentes, a variedade não é muita. Uma vez mais, edifícios rectangulares, com tectos coloridos, um letreiro a meio. O interior é, normalmente, sóbrio, com um chão de madeira escura e minimalista. Quando existem, as divisões são demarcadas com biombos ou portas de correr. Nos templos, os interiores são mais preenchidos, com estátuas e outros elementos. As estruturas vão-se sucedendo umas a seguir às outras, por vezes diminuindo de dimensão e importância à medida que nos afastamos da entrada do complexo, numa espécie de matrioska aplicada a este tipo de construções.
Nos jardins, vemos grupos de vários elementos do sexo feminino ou casais vestidos a rigor, com trajes típicos. Em alguns casos, posam para fotografias: ora posa ela e tira ele, ora posa ele e tira ela. Elas posam sentadas, com as pernas cruzadas ao lado do tronco, aos mãos no regaço; eles de pé, mãos atrás das costas e peito feito, numa pose quase militar. Às vezes ensaiam outras possibilidades, como ligeiramente debruçados a cheirar uma flor que puxam ligeiramente na sua direcção com uma das mãos, e sem deixar de manter o contacto visual com a câmara.
Logo ao início do dia, assistimos ao render da guarda. Primeiro entra uma fileira que se ocupa da música. Umas flautas de sons agudos, tambores e metais que se conjugam de forma estranha. Param e dão lugar à entrada de uma segunda fileira, com vários porta-estandarte. Estão trajados de forma curiosa, cheios de cores garridas, fazem lembrar a guarda suíça do Vaticano, que parece ter mais de pitoresco que outra coisa. O mais graduado, que se vira para os restantes e grita ordens que são executadas mecanicamente, tem uma pena de pavão no chapéu, uma marca da hierarquia. Depois de algumas instruções debitadas em tom grave e solene, as fileiras saem por ordem contrária à de entrada – first in last out –, ouvimos novamente a mesma música algo desconcertante.
Findo o ritual, seguimos a mole de turistas que se dirige aos terrenos do palácio, qual horda de invasores. As estruturas são relativamente semelhantes e, apesar de tantos palácios e templos diferentes, a variedade não é muita. Uma vez mais, edifícios rectangulares, com tectos coloridos, um letreiro a meio. O interior é, normalmente, sóbrio, com um chão de madeira escura e minimalista. Quando existem, as divisões são demarcadas com biombos ou portas de correr. Nos templos, os interiores são mais preenchidos, com estátuas e outros elementos. As estruturas vão-se sucedendo umas a seguir às outras, por vezes diminuindo de dimensão e importância à medida que nos afastamos da entrada do complexo, numa espécie de matrioska aplicada a este tipo de construções.
Nos jardins, vemos grupos de vários elementos do sexo feminino ou casais vestidos a rigor, com trajes típicos. Em alguns casos, posam para fotografias: ora posa ela e tira ele, ora posa ele e tira ela. Elas posam sentadas, com as pernas cruzadas ao lado do tronco, aos mãos no regaço; eles de pé, mãos atrás das costas e peito feito, numa pose quase militar. Às vezes ensaiam outras possibilidades, como ligeiramente debruçados a cheirar uma flor que puxam ligeiramente na sua direcção com uma das mãos, e sem deixar de manter o contacto visual com a câmara.
terça-feira, 5 de junho de 2018
Mercado de peixe
À saída do metro que virou comboio, uma placa indica-me a entrada através de um túnel que passa por debaixo da linha. Lá dentro, debaixo da terra, começo a ver os primeiros comerciantes. Aqui vendem essencialmente verduras e legumes, ocasionalmente têm alguidares grandes com enguias lá dentro, que se mexem rapidamente na pouca água. Tiram-nas dos alguidares para os sacos de plástico dos clientes com uns recipientes de plástico e os bichos debatem-se agitadamente dentro do espaço exíguo.
Do outro lado está um edifício enorme, o oposto do mercado tradicional de rua que esperava encontrar. Mais parece um local onde apenas comerciantes por grosso podem fazer negócio mas, após verificar que outros locais e turistas entram pelas várias portas, decido também entrar. Lá dentro há filas e filas de comerciantes com bancas, alguidares, aquários, cheios de todo o tipo de vida marinha. Balanças com mostradores electrónicos e placas a indicar o número de cada corredor, como nos parques de estacionamento de grande dimensão dos centros comerciais. Olho para uma mulher tira uma lagosta de dentro de um aquário, o bicho mexe as pinças freneticamente e a senhora, quando cruza o meu olhar, faz-me um gesto a perguntar se estou interessado. Digo que não rápida e incisivamente, de mão esticada à frente, que, logo a seguir, me parece enfático demais, como se a proposta da senhora fosse para lá de indecente. A verdade, é que, se se tratasse do mesmo bicho mas já pronto a degustar, até estaria.
No fundo é para isso que aqui vim, tenho de o admitir. E faço-o descaradamente, sem o mínimo pingo de vergonha. Uso as escadas rolantes até ao piso de cima onde, num corredor quase interminável, se alinham restaurantes a perder de vista. Acabo por me sentar num relativamente vazio (a hora de almoço já lá vai) e peço uma tigela de sushi e arroz.
Do outro lado está um edifício enorme, o oposto do mercado tradicional de rua que esperava encontrar. Mais parece um local onde apenas comerciantes por grosso podem fazer negócio mas, após verificar que outros locais e turistas entram pelas várias portas, decido também entrar. Lá dentro há filas e filas de comerciantes com bancas, alguidares, aquários, cheios de todo o tipo de vida marinha. Balanças com mostradores electrónicos e placas a indicar o número de cada corredor, como nos parques de estacionamento de grande dimensão dos centros comerciais. Olho para uma mulher tira uma lagosta de dentro de um aquário, o bicho mexe as pinças freneticamente e a senhora, quando cruza o meu olhar, faz-me um gesto a perguntar se estou interessado. Digo que não rápida e incisivamente, de mão esticada à frente, que, logo a seguir, me parece enfático demais, como se a proposta da senhora fosse para lá de indecente. A verdade, é que, se se tratasse do mesmo bicho mas já pronto a degustar, até estaria.
No fundo é para isso que aqui vim, tenho de o admitir. E faço-o descaradamente, sem o mínimo pingo de vergonha. Uso as escadas rolantes até ao piso de cima onde, num corredor quase interminável, se alinham restaurantes a perder de vista. Acabo por me sentar num relativamente vazio (a hora de almoço já lá vai) e peço uma tigela de sushi e arroz.
segunda-feira, 4 de junho de 2018
Busan
É com alguma dificuldade que percebo a localização da paragem por onde passa o autocarro que sobe o monte até ao templo. Na ausência de lojas ou cafés com aspecto de ter uma rede wifi disponível para os clientes – onde está um Starbucks quando é necessário? –, ligo os dados móveis no telemóvel, uma decisão que, literalmente, acabará por me sair cara (umas boas dezenas de euros por meia dúzia de megabytes). Mas resolvo problema e, finalmente, dou com a dita paragem e a fila de pessoas à minha frente, das quais uma parte significativa são turistas, e das quais a maioria é asiática.
Dentro do veículo, não há lugar para me sentar; fico de pé a meio, de costas para a porta, perto de uma senhora num banco individual. Coloco a mochila pesada no chão (lá dentro vai a máquina fotográfica), entre as pernas, desajeitadamente, para evitar que tombe e resvale pelo piso sujo do veículo, devido às curvas acentuadas e à velocidade do motorista. E agarro-me à pega presa ao tejadilho. Sem dizer nada, a senhora sentada no banco individual agarra na minha mochila e coloca-a entre as pernas dela e o banco à sua frente, para que eu possa ir mais facilmente de pé, sem ter de me preocupar com aquele objecto pesado. Agradeço-lhe da melhor forma que sei e ela faz uma curta mas solene vénia, depois de cruzar o olhar no meu. Alguns minutos depois, quando chega o momento de sair, pego na mochila e agradeço-lhe novamente, e ela repete o mesmo ritual da vénia.
O templo é parecido a todos os outros que vou ver em Seoul – incluindo as decorações coloridas, penduradas um pouco por todo o lado. As estruturas são rectangulares, com telhados garridos e um letreiro grande a meio, portas de diferentes cores secas e um interior sóbrio e minimalista.
Quando desço lentamente as escadas que me hão de conduzir à saída, entre fotografias, uma senhora mete conversa comigo. Insinua que, no meio de tanta fotografia, não estou a aproveitar para absorver verdadeiramente o que o templo tem para oferecer. É possível, reconheço – que responder? – e iniciamos uma curta conversa. Está curiosa para saber donde venho, quanto tempo vou passar no país dela, por que o resolvi visitar. No final, despede-se desejando-me a continuação de uma boa viagem e eu continuo a fotografar os balões decorativos, pendurados a ombrear o caminho até à saída.
A ida ao templo acaba por consumir mais tempo do que aquele que tinha planeado. Já não tenho pouco tempo disponível na segunda maior cidade de Coreia e, depois de um bocado a conhecer os mercados no centro, dirijo-me à estação para apanhar o comboio de regresso a Seoul. Sento-me no meu lugar, designado no bilhete. Confortável e espaçoso. Tiro o livro da mochila para me entreter nas cerca de duas horas e meia, assim como a almofada insuflável para ajustar ao pescoço. A certa altura, no decurso da viagem, uma funcionária do comboio entra na carruagem, fecha a porta atrás de si e faz uma pequena vénia para cumprimentar os passageiros. Só depois começa a caminhar no corredor entre os bancos.
Dentro do veículo, não há lugar para me sentar; fico de pé a meio, de costas para a porta, perto de uma senhora num banco individual. Coloco a mochila pesada no chão (lá dentro vai a máquina fotográfica), entre as pernas, desajeitadamente, para evitar que tombe e resvale pelo piso sujo do veículo, devido às curvas acentuadas e à velocidade do motorista. E agarro-me à pega presa ao tejadilho. Sem dizer nada, a senhora sentada no banco individual agarra na minha mochila e coloca-a entre as pernas dela e o banco à sua frente, para que eu possa ir mais facilmente de pé, sem ter de me preocupar com aquele objecto pesado. Agradeço-lhe da melhor forma que sei e ela faz uma curta mas solene vénia, depois de cruzar o olhar no meu. Alguns minutos depois, quando chega o momento de sair, pego na mochila e agradeço-lhe novamente, e ela repete o mesmo ritual da vénia.
O templo é parecido a todos os outros que vou ver em Seoul – incluindo as decorações coloridas, penduradas um pouco por todo o lado. As estruturas são rectangulares, com telhados garridos e um letreiro grande a meio, portas de diferentes cores secas e um interior sóbrio e minimalista.
Quando desço lentamente as escadas que me hão de conduzir à saída, entre fotografias, uma senhora mete conversa comigo. Insinua que, no meio de tanta fotografia, não estou a aproveitar para absorver verdadeiramente o que o templo tem para oferecer. É possível, reconheço – que responder? – e iniciamos uma curta conversa. Está curiosa para saber donde venho, quanto tempo vou passar no país dela, por que o resolvi visitar. No final, despede-se desejando-me a continuação de uma boa viagem e eu continuo a fotografar os balões decorativos, pendurados a ombrear o caminho até à saída.
A ida ao templo acaba por consumir mais tempo do que aquele que tinha planeado. Já não tenho pouco tempo disponível na segunda maior cidade de Coreia e, depois de um bocado a conhecer os mercados no centro, dirijo-me à estação para apanhar o comboio de regresso a Seoul. Sento-me no meu lugar, designado no bilhete. Confortável e espaçoso. Tiro o livro da mochila para me entreter nas cerca de duas horas e meia, assim como a almofada insuflável para ajustar ao pescoço. A certa altura, no decurso da viagem, uma funcionária do comboio entra na carruagem, fecha a porta atrás de si e faz uma pequena vénia para cumprimentar os passageiros. Só depois começa a caminhar no corredor entre os bancos.
domingo, 3 de junho de 2018
sábado, 2 de junho de 2018
sexta-feira, 1 de junho de 2018
quinta-feira, 31 de maio de 2018
No hay mal menor
«Lo cierto es que no hay mal menor cuando se trata de elegir entre dos totalitarismos - es como elegir entre el sida y el cáncer terminal»
La llamada de la tribu, Mario Vargas Llosa
La llamada de la tribu, Mario Vargas Llosa
terça-feira, 29 de maio de 2018
Nova sazonalidade
As alterações climáticas vão tornar cada vez mais difícil a interpretação da sazonalidade em dados e a sua correcção.
segunda-feira, 28 de maio de 2018
Seguir os sonhos
O problema de qualquer coisa que seja dos nossos sonhos - emprego, casa, férias, casamento - é que tanto pode ser dos bons como dos pesadelos.
domingo, 27 de maio de 2018
domingo, 20 de maio de 2018
Em vão
A mão desloca-se sem pensar até ao interruptor, repete o gesto mecânico que tantas e tantas repetiu e voltou a repetir. Mas desta vez
Não foi só esta
a luz não acende como costuma, como tantas vezes fez e voltou a fazer. Apenas um brilho muito ténue que não chega para iluminar e mostrar o caminho, um desapontamento. O mesmo brilho que já apareceu antes, que já desapontou, mas que a força do hábito teima em esquecer,
Em querer esquecer,
como se a mão não soubesse que a lâmpada está fundida, já fundiu há uns dias. A mesma mão que já devia ter-se esticado e desenroscado o casquilho da lâmpada fundida e procurado outra para a substituir. E, no entanto, encontrar o bocadinho de tempo necessário para essa tarefa parece ser outra tarefa em si mesmo, uma tarefa difícil e complicada que tem o poder de evitar os sucessivos desapontamentos da mão que procura o interruptor, que se esquece por um curto momento que, desta vez,
Mais uma vez
o gesto vai ser em vão.
Não foi só esta
a luz não acende como costuma, como tantas vezes fez e voltou a fazer. Apenas um brilho muito ténue que não chega para iluminar e mostrar o caminho, um desapontamento. O mesmo brilho que já apareceu antes, que já desapontou, mas que a força do hábito teima em esquecer,
Em querer esquecer,
como se a mão não soubesse que a lâmpada está fundida, já fundiu há uns dias. A mesma mão que já devia ter-se esticado e desenroscado o casquilho da lâmpada fundida e procurado outra para a substituir. E, no entanto, encontrar o bocadinho de tempo necessário para essa tarefa parece ser outra tarefa em si mesmo, uma tarefa difícil e complicada que tem o poder de evitar os sucessivos desapontamentos da mão que procura o interruptor, que se esquece por um curto momento que, desta vez,
Mais uma vez
o gesto vai ser em vão.
quinta-feira, 17 de maio de 2018
domingo, 13 de maio de 2018
Subscrever:
Mensagens (Atom)









