quinta-feira, 16 de agosto de 2018

O condutor provou-me errado:

afinal ainda era possível levar mais pessoas naquela mini-van onde, aos meus olhos, não cabia nem mais uma ervilha. Primeiro uma senhora que se sentou no degrau ao fundo do corredor, antes da última fila de bancos. Um senhor de ficou de pé no corredor e um jovem acabou a partilhar banco com um dos passageiros que, gentilmente, lhe ofereceu parte do seu.

Pelo caminho, uma folha é posta a circular pelos passageiros para que escrevam os nomes e números de passaporte. Mesmo assim, as formalidades na fronteira são morosas. Os guardas recolhem os passaportes de todos, entram no posto e demoram a regressar e devolver os passaportes carimbados.

Chegamos à estação de autocarros cerca de duas hora e meia depois. O caminho em direcção ao centro da cidade faz-se pelo meio de um bairro habitacional, que vai desembocar a uma avenida movimentada, com várias lojas. Seguimos por essa avenida até nos depararmos com um primeiro ex libris: a estátua de um Bill Clinton sorridente, que acena com uma mão e, com a outra, segura um livro. Ao lado uma bandeira dos EUA. Ao fundo, prédios coloridos, velhos, sujos. Só depois de fotografar a estátua, vejo que avenida recebeu o nome do ex-presidente americano.

A próxima paragem, um pouco mais à frente, depois de um pequeno jardim, é a biblioteca universitária de Pristina, considerada, em alguns fóruns online, como um dos edifícios mais feios do mundo. Não muito longe, uma avenida pedonal repleta de esplanadas onde, ao fundo, crianças de fato-de-banho brincam nuns repuxos de água.

Quando damos por nós, estamos sentados a beber um café numa esplanada perto de um símbolo do território: um letreiro com letras metálicas bem grandes, que formam a palavra “newborn” e que, a propósito dos 10 anos da declaração unilateral de independência, foi alterado para new10rn”. Consultamos os horários de regresso a Skopje. Temos um autocarro dentro de meia hora. Consultamos o Google maps que calcula a duração do percurso a pé até à estação em meia-hora. Pagamos rapidamente e largamos a correr.

Compramos os bilhetes e dirigimo-nos à plataforma com um misto de expectativa e receio em relação ao que vamos encontrar. Desta vez, sentamo-nos num autocarro bastante maior mas também bastante mais velho, sem ar condicionado. Felizmente vai quase vazio, apenas alguns passageiros para além de nós. Por cima da porta, as indicações do número de lugares sentados e em pé estão em francês.

A agressividade do condutor não inspira grande confiança. Para além das inúmeras chamadas que atende ao longo do caminho, por vezes resolve observar as actualizações no Facebook. Quando já estamos perto da cidade, pára numa estação de serviço para abastecer. Deixa o veículo com o motor ligado e sai. Regressa já depois do abastecimento estar feito, traz dois sacos de compras na mão.

Mais à frente, o trânsito começa a adensar. Falam entre eles, calculamos que tenha acontecido qualquer coisa. Explicam-nos: há uma greve dos taxistas que está a gerar o pandemónio. Chegam à conclusão que não vale a pena insistir em chegar à estação de autocarros, que será mais fácil sairmos antes e fazer o percurso a pé. Ainda antes de sair, vemos um velhote num carro a tentar entrar numa estrada em contramão, a partir da saída. Um dos tipos atrás
Macedonia, ok
e rimo-nos. Saímos e, simpaticamente, dão-nos as indicações para regressarmos ao centro da cidade.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Ainda não são 7h30 quando desço e peço, na recepção do hotel, para chamarem o táxi.

A hora que nos tinham dito no dia anterior que seria mais do que suficiente, uma vez que a viagem até à estação não demoraria mais de 10 minutos e já tínhamos comprado os bilhetes. A funcionária de cabelo curto apanhado demora um pouco até começar a mover-se languidamente para ir buscar o telefone. Depois, por azar, a primeira tentativa que faz revela-se infrutífera: a empresa não tem táxis disponíveis. Explica-me o sucedido e enceta uma segunda tentativa, enquanto os minutos continuam a passar e passam mesmo alguns até finalmente confirmar que está um táxi a caminho.

Passam outros tantos até ouvirmos o ruído de um veículo e é ela mesmo que nos diz que o táxi deverá ter chegado. E, de facto, vemos um táxi à saída do hotel mas, quando me dirijo para ele e começo a falar com o taxista, vejo-o a carregar uma mala e, logo em seguida, ser ocupado por uma senhora. O nosso táxi só virá um pouco depois e, por esta altura, começa a parecer muito à tangente face às 8h a que parte o nosso autocarro.

Para complicar ainda mais contas, os tais dez minutos que deveria demorar o trajecto até à estação de autocarros acabam por durar mais. Nesta altura já dizemos mal às nossas vidas e criticamo-nos por acreditar nas estimativas temporais realizadas nestas bandas que, invariavelmente, acabam por se revelar erradas e sempre no sentido da subestimação.

São 7h58 quando abro a porta do táxi e me lanço num sprint pela estação a dentro. O tipo que controla a entrada mediante a verificação dos bilhetes é sensível à nossa pressa e limita-se a indicar-nos o caminho após lhe termos dito o nosso destino. Quando vejo a plataforma 1 e uma mini-van onde esperaria ver um autocarro fico, por um curto instante, um pouco desnorteado. O condutor lá de dentro
Prí-ch-tina?
e eu digo-lhe que sim e ele faz-me sinal para entrar. Mas lá dentro está tudo cheio, a mini-van deve ter uns doze lugares e já só sobra o banco que se abre nas costas dos bancos da frente, virado para o corredor, como os assentos dos membros da tripulação dos aviões. É neste banco e no último disponível dos dois da frente que nos sentamos e, muito pouco depois, a mini-van arranca, com o som embalador do ar condicionado a fazer-se ouvir.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Barrigudo e de sorriso na cara, cumprimenta-nos com o “dobro den” da praxe.

Entrego-lhe os passaportes e os documentos do carro. Olha alguns segundos e, antes de me os devolver, diz três palavras
Portugal football out
Respondemos-lhe – seguindo a mesma lógica de debitar algumas palavras sem grande consideração para com a construção frásica – que sim, que foi demasiado cedo, com uma cara de “que é que se há-de fazer?”. Seguimos caminho por estradas onde as placas estão escritas em cirílico, alfabeto latino e em albanês

É difícil colocar Skopje (recuso-me a escrever Escópia) numa dada gaveta, arrumá-la numa determinada prateleira. Não se parece com nada que conheça. Não tem as características das cidades europeias, seja as dos países de leste que lhe são mais próximos, seja das mais ocidentais. Mas também não é uma cidade de um país muçulmano, apesar das mesquitas. Deixa-me uma impressão quase inconsequente: sem nunca ter estado num desses países, remete-me (como se fosse possível) para as cidades da ex-repúblicas soviéticas.

Ao longo do rio de aspecto muito pouco convidativo, são vários os bares e restaurantes com boa pinta e aspecto internacional. À noite, estão a rebentar pelas costuras e é difícil arranjar uma mesa sem reserva. Durante a refeição, pedintes, maioritariamente de etnia cigana, tocam-me no braço e estendem a mão até ser corridos pelos empregados. Aqui assistimos à meia final entre a Croácia e a Inglaterra e a esmagadora maioria dos clientes feitos espectadores torceu pela equipa de camisola aos quadrados.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Paramos o carro numa rua muito perto do hotel, cansados de uma espera de mais de uma hora para completar os trâmites na fronteira.

O quarto ainda não estava pronto, deixamos as malas com a recepcionista, de unhas roídas bem rente, e, depois de lhe dizermos onde temos o carro, indica-nos um parque de estacionamento com o qual o hotel tem um acordo. Quando saímos novamente, a rua onde o carro está parado está intransitável: uma conduta de água deve ter rebentado e um carro dos bombeiros está a bloquear o cruzamento ao fundo, enquanto tentam resolver o problema.

Resolvemos beber um café enquanto esperamos que o problema seja resolvido, depois de abordar os trabalhadores e lhes perguntar uma estimativa de tempo para a resolução. Descemos um pouco por uma rua pedonal onde, após algumas tentativas, nos sentamos.

Não passou muito tempo (meia hora, três quartos de hora) até regressarmos novamente. A rua já está novamente aberta mas, ao nos aproximarmos do carro, vemos um papelinho preso no limpa para-brisas, a sacudir com o vento e, pior ainda, a roda dianteira do lado do condutor bloqueada.

Voltamos à recepcionista do hotel que, quando vê o papel, resolve fazer a advertência, ligeiramente tardia, de que, naquela rua, não se pode estacionar e que a EMEL local é particularmente atenta. Pedimos-lhe que ligue para o número indicado para virem desbloquear o carro e ficamos à espera.

Poucos minutos depois (dez, quinze), surgem dois carros, donde saem uns tipos de coletes com a inscrição do organismo ou instituição para a qual trabalham, e pedem os 30 lev (ou 15 euros) da multa para soltarem a roda do carro. Explicamos (ou pelo menos tentamos) que a rua estava bloqueada e, por isso, deixámos o carro ali.

Totalmente escusado. Entre barreiras linguísticas e alguma má vontade, ficamos num beco sem saída. Oferecem-nos um número para o qual podemos ligar e fazer a nossa queixa em inglês. Desistimos e cedemos os 15 euros. Desbloqueiam a roda e desaparecem rapidamente, visivelmente irritados com a nossa contestação.

No hotel, o quarto já está arranjado mas esqueceram-nos de nos deixar toalhas. Ouve-se o som das empregadas de limpeza no corredor mas só se vê o carrinho por perto. Aproveitamos para nos servir das toalhas, à discrição, incluindo uma que segue caminho para a viagem, e que virá a dar muito jeito nos dias de praia (está aqui em casa).

A visita pela cidade é polvilhada com uma chuva miudinha, que acalma o calor do dia. O tempo encoberto enche as fotografias da catedral com a tristeza monótona do tom cinzento do céu. Terminamos o dia num restaurante onde cometemos o erro de pedir um gin tónico: recebemos um copo com pouco gelo e algum gin no fundo e uma lata de água tónica para misturar a gosto.

No dia seguinte, passamos pelo supermercado para abastecer para a viagem. O caixa faz-nos um sorriso desdentado e castanho e pergunta-nos donde somos. Assim que respondemos
Tudo bem?
com um sotaque engraçado. De imediato a conversa vai para o futebol e confessa-se fã do Sporting. À menção dos nomes de alguns búlgaros que passaram e se notabilizaram no clube, faz uma cara séria e estende a mão para um cumprimento.

domingo, 12 de agosto de 2018

Triplo

Mentalizámo-nos que precisávamos de uma forma alternativa de ir ao Kosovo, à medida que a caixa do meu email se foi enchendo de respostas negativas das companhias de aluguer de carros.

Um aspecto crucial que, na nossa ignorância, não considerámos convenientemente logo no início: as empresas de aluguer sérvias não são propriamente atreitas a permitir que os seus carros atravessam a fronteira para o Kosovo e a Albânia. Muitas consultas depois, conseguimos uma que permitia a entrada na Albânia, sem a qual iriamos ter sérios problemas logísticos. A busca revelou-se infrutífera em relação ao Kosovo – em retrospectiva, um resultado lógico e óbvio.

Mas, pelo menos, conseguíamos tornear a impossibilidade de conduzir no Kosovo: a ideia era deixar o carro em Nis (lê-se “Nich”, tem um acento circunflexo invertido sobre o “n”), no sul do país e perto daquela região, apanhar um autocarro para Pristina e fazer as demais deslocações de transportes. Simples. Segundo as informações que vimos online, teríamos um autocarro às 8h, pelo que, no tal dia, tínhamos a estação de autocarros à nossa frente, um bocado antes da hora de partida. Na mochila, tínhamos as sandes que simpaticamente nos prepararam no hotel para comermos pelo caminho, porque o pequeno-almoço só começava às 7h30.

Dirigimo-nos à primeira coisa que nos pareceu ser uma bilheteira e aí, indicaram-nos outra. Na segunda bilheteira, a mulher demorou um pouco à procura no computador. Depois disse-nos que tínhamos um autocarro às 18h. As subsequentes tentativas de lhe tentar, assim como à colega do lado que falava melhor inglês, mostrar o que estava no site embateram sempre no mesmo problema: a informação que tinha era que havia um autocarro às 7h (onde é que esse já ia) e outro às 18h. Parecia o “computer says no” do Little Britain.

Desistimos, apesar de a desfeita ainda ter levado uns minutos a ser verdadeiramente assimilada e interiorizada. Não valia a pena esperar 10 horas pelo autocarro da tarde – não havia nada de interessante para passar o tempo – e podíamos vir a deparar-nos com dificuldades análogas no regresso.

E foi assim, que, frustrados, rapidamente congeminámos o plano alternativo de ir até Sófia. Afinal não era assim tão longe. Mas antes, uma paragem estratégica num café com wifi permitiu-nos explorar a possibilidade de tentar visitar o Kosovo a partir da Macedónia (assim como escolher um hotel na capital búlgara). Porque, assim como com as questões do carro alugado, certamente a dificuldade de transporte será maior do lado da Sérvia. Confirmou-se: há bastante informação sobre autocarros para o Kosovo a partir de Skopje e com muito mais possibilidades de horário.

Com este plano na manga, voltámos ao nosso carro e fizemos os cerca de 250 quilómetros até à capital búlgara.

sábado, 11 de agosto de 2018

A fortaleza era o único ponto de interesse que tinha no planeamento.

Do pouco que me informei online, pensei que seria capaz de nos entreter: tínhamos feito uns 200 e picos quilómetros desde Belgrado – um trajecto muito simples face à bitola média de toda a viagem (já lá vamos) – e ocupávamos agora o remanescente da tarde. Depois de entrar na muralha – que, ainda assim, mereceu o benefício da dúvida – deparámo-nos, no interior, com o que poderia ser um qualquer parque. Rapidamente se esgotou e ficámos sem mais para explorar.

Depois de ter visto sinais de proibição de armas de fogo na porta de alguns restaurantes, acabámos por nos sentar na esplanada de um com aspecto de ter pouca experiência com turistas. Após alguma luta para decifrar o que constava do menu, pedimos, ao empregado de trato seco, uma sopa, para abrir as hostilidades, e depois as típicas carnes grelhadas. Estas (supostamente) viriam acompanhadas de batatas fritas e eu pedi para adicionar uma, como estava escrito no cardápio, “albanian salad.”

A sopa chegou e veio acompanhada de um prato de pão polvilhado com umas especiarias que se vieram a revelar particularmente picantes. É certo que referiu que se tratava de algo albanês, assumimos que seria algo que se servissem tradicionalmente com a sopa. Quando chegou a vez da carne grelhada, não vimos nem batatas fritas nem a dita salada e optámos por não levantar a questão, até porque, seguramente, já não viria a tempo.

Mas, claro, redobrámos a atenção quando veio o papel manuscrito com a conta que, ainda assim, incluía a tal salada albanesa (detectada pelo preço, não pelo rabisco). Quando chamámos a atenção para a questão, recebemos a explicação, altamente duvidosa, de que aquele prato de pão picante que me fez beber a cerveja fresca era, efectivamente, a “albanian salad”.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Passamos na recepção do hotel para fazer o check out mas a única funcionária que se encontra diz que não sabe usar a máquina do cartão de crédito.

Diz-nos que a colega foi só à Polícia (?), que lhe telefonou e que ela disse que estaria de volta dentro de dez minutos. Sentamo-nos na sala onde nos serviram o pequeno-almoço à espera. Quando esses dez minutos passam, diz-nos que deve estar a chegar noutros tantos minutos. Nessa altura, saímos e dizemos que passamos depois. Pergunta-nos quando regressaremos e a resposta dificilmente poderia ser outra
Ten minutes

A caminho da fortaleza da cidade, passamos por uma pequena feira onde comerciantes vendem bugigangas para os turistas, miúdos jogam à bola e velhotes defrontam-se em tabuleiros de xadrez, ladeados por alguns mirones, em pé. Entramos na muralha e, lá em cima, temos a vista privilegiada para a importante mas pouco espectacular confluência entre os rios Danúbio e Sava.

De regresso da fortaleza, passamos novamente na recepção do hotel, calculando que, finalmente, os dez minutos sérvios tenham passado. A recepcionista está sentada atrás do balcão. Tem o cabelo apanhado, uma camisa com os ombros descobertos, um sorriso plástico, uma dose industrial de maquilhagem. E unhas de gel coloridas que matariam de susto as cordas de uma guitarra.

Descemos a rua que leva da Praça da República até ao Templo de São Sava, a segunda maior igreja ortodoxa do mundo. Impressionante por fora – tiramos várias fotografias – está, no entanto, repleta de andaimes por dentro. Com alguma desolação, apenas conseguimos ver um pouco dos mosaicos da cúpula.

No regresso, passamos pela praça onde fizeram uma fonte luminosa. Mais à frente, o muro da Assembleia Nacional está coberto por uma faixa gigantesca. Para além do que está escrito em sérvio, há uma inscrição enorme em espanhol, onde se lê “España:” – as letras com as cores da bandeira espanhola – “Kosovo” – com uma imagem do território – seguido de uma seta que liga a “EU” e, de seguida, em preto, com letras ainda mais garrafais, “no pasarán”. Fruto dos movimentos secessionistas com que se depara, os nossos vizinhos ibéricos fazem parte do conjunto de países que não reconhece a independência do Kosovo e, por arrastro a sua adesão à UE. Nada contra aquele território em concreto, a reacção espanhola à ameaça de independência da Escócia aquando do referendo do Brexit é prova que o problema está na abertura do precedente e não em que desencadeia o processo.

Um cappuccino depois, num café da Praça da República, e tiramos o carro da garagem para seguir viagem.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Contestamos os 170 euros que nos quer cobrar pelo condutor adicional.

Explica-nos como calculou o valor, tantos euros por tantos dias de aluguer dá tanto para o total do aluguer. Tentamos argumentar que tínhamos visto online o valor e que o mais certo é até já o termos incluído no aluguer (mentira, não estava incluído, explico em português). Ela volta a tocar as teclas do computador com as unhas de gel compridas, que soltam um ploc ploc plástico. Diz-nos que não tem nenhuma indicação nesse sentido no sistema (claro que não tem). Tentamos procurar a reserva no telefone (para mostrar algo que não existe), usando o sinal fraco grátis mas disponibilizado pelo aeroporto Nicola Tesla e, no meio das tentativas para introduzir o número de reserva que não abre nada em nenhum dos telefones,
Could you check again?
E regressa o ploc ploc enquanto continuamos (sem convicção interior mas alguma exterior) a tentar procurar a reserva (que não tem o condutor adicional) no telefone (ligado a uma rede da treta), uma vez mais
Sorry
Não tem nada no sistema (é óbvio que não tem). Gera-se um pequeno impasse, que vai crescendo porque não estamos dispostos a pagar tanto, o valor é demasiado elevado. Pelo meio, no decurso da conversa e sem que me consiga relembrar a que propósito, referimos o campeonato do mundo de futebol e afirmamos, de forma interrogativa, que calculamos que não vão torcer pela Croácia. E o colega, que está sentado ao lado, à espera que resolvamos a disputa sem nenhum interesse em participar nela – limita-se a falar com ela em sérvio quando ela o interpela –, de imediato e de forma bastante enfática, confirma a suspeita. Rimo-nos.
O tempo que leva até chegar ao passo seguinte também é algo que me escapa, mas a certa altura, os 170 como que se esfumam e passam a 70 porque, afinal, explica-nos a funcionária de unhas wolverinescas, apesar de o cálculo estar correcto, há um limite máximo ao valor a cobrar para o efeito
Sorry, my mistake
Diz-nos, com um sorriso forçado. Aproveitamos para rir mais um bocado e referir que esse já parece um valor mais plausível, embora ainda tentemos, uma vez mais, a possibilidade (impossível) de que já tenhamos incluído o condutor extra na reserva. Dado o beco sem saída, socorremo-nos da marcha-atrás e optamos pela saída airosa de que vamos procurar melhor na nossa documentação e resolvemos a questão quando devolvermos o carro.
Tiro o cartão de crédito da carteira para que possa bloquear a quantia de depósito e só aqui refere qual o pecúlio
Eighteen hundred
E eu
Eighteen hundred??
E ela
Yes
E eu
Are we taking a Mercedes??
Está escrito nas condições do aluguer. Em qual das 5 páginas é que aparecem esses 1800 euros? Até já o colega silencioso abre a boca e ri perante a minha surpresa. E é ele que, finalmente, nos leva até ao Opel Astra vermelho, categoria superior à que tínhamos escolhido na reserva, que nos acompanhará – mais do que isso, carregará –, ao longo de duas semanas, por um pouco mais de 2500kms e uma mão cheia de países.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

A carga de água faz-me mudar de ideias.

O único autocarro disponível deixa-me a cerca de um quilómetro do hotel, uma perspectiva que deixa de me parecer razoável mediante as condições. Opto pelo táxi oficial de preço tabelado, apesar das inúmeras solicitações que recebo no pequeno trajecto após a passagem da alfândega – onde sou interrogado e a minha mochila perscrutada – e o balcão.

Indico o destino numa banca à saída do aeroporto. A mulher mal-encarada escreve num papel o montante tabelado que devo entregar ao taxista. Lá fora, alguns turistas como eu tentam perceber onde começa (e acaba) a fila para os táxis. Quando chega aquele que parece o meu, tendo em conta a ordem do universo, o tipo faz-me sinal negativo e dirige-se antes à família de locais que estava antes de mim e ficam ali, parados, à conversa. Finalmente chega o táxi que me há de levar.

De imediato me diz que não me pode deixar exactamente à porta, porque é numa rua pedonal, mas deixa-me no início da mesma e dá-me a indicação para onde me devo dirigir, não muito longe. Alguns pingos de chuva depois e estou à porta, que dá para um lance de escadas que, por sua vez, termina na porta que dá acesso à recepção.

Lá dentro, está um grupo a fazer check in. O tipo alto e grande que está na recepção pede-me para esperar. Ainda não tinha acabado de receber o primeiro grupo quando chegou outro ainda maior, casais com vários filhos que rapidamente ficam irrequietos de esperar naquele sítio apertado.

Quando chega a minha vez, pede-me desculpa pela confusão. Depois dá-me a excelente notícia de que me colocou num apartamento noutro edifício, para que estejamos mais à-vontade, longe da confusão destes grupos e das crianças, e pelo preço do quarto que marcámos. Pergunta-me – enquanto limpa o suor da testa – se posso passar depois pela recepção, se pode para já levar-me só ao apartamento e depois regressar para receber o outro grupo e tratar da papelada depois disso.

Digo-lhe que sim e atravessamos rapidamente a rua, onde aproveita para me perguntar o que passa com o Sporting. Dou-lhe uma resposta abreviada (até porque não sei muito) e fico surpreendido pelo bem informado que ele está, não só sobre as questões extra-desportivas, mas também sobre o campeonato português em geral.

O apartamento é realmente enorme, muito espaçoso. Recebo algumas instruções rápidas – a porta tem uma pequena manha e nada de desligar o interruptor que liga a caldeira senão lá se vai a água quente – e ele sai apressado. Três quartos de hora depois, após uma luta inglória com a ligação do wifi, regresso à recepção. Agora já não está ninguém e ele está mais calmo. Devolve-me o passaporte, dá-me um mapa de Belgrado onde rabisca a localização de alguns dos ex-libris, assim como zonas com os melhores restaurantes, daqueles onde se come a carne sem muitos temperos, como fazem noutros locais.
I like the meat clean
acrescenta e eu sinto-me forçado a concordar. Não contém a curiosidade e pergunta-me quais são os planos de viagem e explico-lhe abreviadamente. Agradeço-lhe, terminamos a conversa e saio para a rua.

Dormir no McDonald's

E porque é que preferem não ir para casa? Sobretudo por razões económicas, por não conseguirem ter dinheiro para pagar a renda ou a conta da eletricidade. O acesso gratuito à Internet, a comida barata e a existência de casas-de-banho também ajudam a explicar por que razão tantas pessoas (334, um número bem acima dos 57 contabilizados num estudo similar realizado em 2013) preferem as lojas da McDonald’s às suas casas.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

A música de John Zorn é uma marioneta nas mãos do Highsmith Trio

(Publicado originalmente aqui)

A temperatura começou a subir na quarta-feira. O termómetro deu um primeiro pulo, ainda assim, relativamente comportável. Na quinta-feira, o salto mais pronunciado, em direcção ao céu, dando a entender que, apenas ele, parece ser o limite. Após uma máxima em torno dos 40 graus em Lisboa, estão uns ligeiramente mais suportáveis 32 graus às 21h30, hora a que arranca, no auditório ao ar livre mais um concerto do Jazz em Agosto da Fundação Calouste Gulbenkian.

Trata-se da 35ª edição deste festival, uma edição dedicada à música do saxofonista (enfim, multi-instrumentista?) americano John Zorn, na primeira vez que um único músico é alvo de uma homenagem do género. Os espectadores sentam-se nos bancos de cimento, tornados cómodos por almofadas compridas coloridas. Ao contrário de edições anteriores, não nos é oferecido o panfleto com informação do concerto e dos músicos da noite, uma simpatia que hoje teria a vantagem adicional de poder servir de abanico.

Highsmith Trio é o nome do projecto que surgiu inicialmente no formato de duo, com o cruzamento entre a música do pianista Craig Taborn e da, chamemos-lhe assim, laptopista (pelo menos é assim que Jim Black a apresentará daqui a pouco) Ikue Mori. Jim Black juntou-se posteriormente a estes dois para completar o actual trio.

Mais do que apresentar os membros da banda – Craig Taborn on piano, Ikue Mori on laptop (eu não disse?) – Jim Black diz umas palavras sobre a música de John Zorn que vão tocar. Menciona duas características: “intimacy and immediacy”. E dá um exempo da sua aplicação: John Zorn considera que a música é feita para aquele conjunto de pessoas naquele dado momento. E, por isso, não gosta nem autoriza gravações das suas performances: têm significado apenas no espectáculo, esgotam-se no concerto, não fazem sentido noutro local, noutra altura.

Mais do que tocar temas de John Zorn, estes três pretendem pôr em prática esta filosofia durante cerca de uma hora: tocar música que nasce e morre à frente dos olhos e dos ouvidos dos que se deslocaram à Gulbenkian na noite de 2 de Agosto.

Ikue Mori senta-se a uma mesa com o MacBook à sua frente, qual criança na carteira de uma sala de aula, muito direita, com os pés juntinhos. A sua cara vai permanecer sem expressão durante todo o concerto. Os gestos curtos e quase indistintos ao teclado do computador contrastam fortemente com as mãos de Craig Taborn, que atravessam vezes sem conta as oitentas e muitas teclas do piano, por vezes rapidamente, outras lentamente. Cruzam-se e sobrepõem-se, ultrapassam o tampo do piano e tocam directamente nas cordas.

A música é eficaz e certeira, embora repleta de liberdade – estamos a ouvir algo que mais ninguém vai ouvir. Gatos correm lá atrás no verde do jardim da Gulbenkian enquanto a sonoridade passa de dissonante a melodiosa; mosquitos dançam por cima dos executantes, bailando à luz dos holofotes, enquanto o ritmo suave se acelera e se transforma, se galvaniza. Talvez seja como sushi: simples mas elaborada, crua mas delicada. Tradicional mas pouco ortodoxa. Irreverente sem deixar de ser consensual.

John Zorn é como aqueles governos fantoches dos países satélite: a sua música parece ser controlada à distância pelos governos das grandes potências. Neste caso, pelas seis mãos das três cabeças deste trio, accionam os comandos que produzem os sons e os ritmos. “Arigato gozaimazu”, agradece Jim Black ao microfone quando o trio regressa ao palco para um encore único.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

"Há sopa de caldo verde"

Escrito em letras garrafais, numa folha A4, colada com fita cola no vidro de um café/restaurante.

terça-feira, 31 de julho de 2018

sexta-feira, 27 de julho de 2018

quinta-feira, 26 de julho de 2018

PSL é um granda partido

A minha sugestão de slogan para o suposto novo partido que o Santana Lopes ameaçou vir a criar.

domingo, 22 de julho de 2018

Segredos

«"There's the imperative to keep secrets, and the imperative to have them known. How do you know that you're a person, distinct from other people? By keeping certain things to yourself. You guard them inside you, because, if you don't, there's no distinction between inside and outside. Secrets are the way you know you even have an inside. A radical exhibitionist is a person who has forfeited his identity. But identity in a vacuum is also meaningless. Sooner or later, the inside of you needs a witness. Otherwise you're just a cow, a cat, a stone, a thing in the world, trapped in your thingness. To have an identity, you have to believe that other identities equally exist. You need closeness with other people. And how is closeness built? By sharing secrets. (...)»

Purity, Jonathan Franzen

quinta-feira, 5 de julho de 2018

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Prova indiscutível

«Assim como as fotografias proporcionam a posse imaginária de um passado irreal, também ajudam a dominar o espaço em que as pessoas se sentem inseguras. Assim, a fotografia desenvolve-se em consonância com uma das actividades mais características da actualidade: o turismo. Pela primeira vez na história, um largo sector da população sai regularmente do seu meio habitual por curtos períodos de tempo. E parece bem pouco natural passear sem levar a câmera fotográfica. A fotografia será a prova indiscutível de que a viagem foi feita, de que o programa se cumpriu e de que as pessoas se divertiram.»

Ensaios sobre fotografia, Susan Sontag

terça-feira, 3 de julho de 2018

Bola neutra

Pegou na bola necessária ao exercício e, enquanto se deslocava na minha direcção, disse
Esta bola chama-se bola de água porque
prolongando a última palavra, à espera que eu completasse a frase. Coisa que não fiz, permaneci impávido e sereno, com o mesmo olhar, a boca fechada a sete chaves. Até que o silêncio se tornou demasiado incómodo e ele se viu forçado a finalizar a frase que tinha começado.
tem água lá dentro!
acrescentou, com um sorriso desajeitado de quem tenta uma piada que não surte o efeito desejado. Mantive o mesmo olhar e, apontando para as bolas maiores ao lado
E aquelas são bolas suíças porque têm umas Suíças lá dentro?

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Como passei a minha noite com Pat Metheny

(Publicado originalmente aqui)

No trajecto do centro comercial Vasco da Gama até à Sala Tejo, as pessoas tentam abrigar-se dos pingos de chuva. Para além de carregarem chapéus de chuva fora de época, estas vítimas das alterações climáticas têm também alguma dificuldade em perceber a localização da Sala Tejo, um recinto – mais parece um pavilhão desportivo – que não costuma fazer parte dos principais roteiros.

Passa cerca de quinze minutos da hora de início do espectáculo quando, após um pedido para desligarmos o telemóvel, nos pedem “would you please give a warm welcome to Pat Metheny”. E a recepção é, efectivamente, calorosa e o americano de t-shirt às riscas horizontais, calças de ganga pretas, ténis de desporto branquinhos e o eterno cabelo, farto e volumoso, surge sozinho em palco. Se anteriormente o critério etário era o único que não cumpria para parecer um reformado americano a viver na Flórida, agora já nem esse é um impedimento: segundo o que a minha breve consulta online permitiu apurar, o guitarrista está a cerca de um mês e meio de chegar aos 64 anos.

Disse que o americano pisou o palco sozinho mas, agora que penso melhor no assunto, apercebo-me que até estava bastante bem acompanhado. Trazia, na mão, aquela que deverá ser a mais badalada das suas guitarras feitas à medida: com dois braços e cordas que percorrem obliquamente o corpo de dimensão superior à normal, o instrumento – que mais parece o resultado de uma noite de paixão entre uma guitarra, uma cítara e uma harpa – produz uma gama de sons surpreendente que, infelizmente, a acústica da sala não permite desfrutar ao máximo.

Findo este primeiro tema, ainda sentado na cadeira, Metheny espera pelos restantes membros do quarteto, com quem tem tocado nos últimos dois anos: na bateria, o mexicano Antonio Sanchez, uma presença de já há alguns anos a esta parte; a malaia Linda Oh no contrabaixo; e o britânico Gwinlym Simcock no piano. Dado que se encontra a preencher o lugar que durante bastante tempo foi ocupado pelo grande Lyle Mays, não consigo deixar de pensar que Simcock deverá ser ou bastante corajoso ou totalmente inconsciente.

Os primeiros acordes são ainda feitos com a guitarra XPTO, mas só mesmo os primeiros. Assim que os restantes membros arrancam, Metheny levanta-se rapidamente e troca para um instrumento tradicional, que não deixará durante grande desta “evening with Pat Metheny”, um título que parece conter uma proposta indecente.

Este é um dos músicos com maior projecção de um estilo que, normalmente, não tem uma projecção muito grande. Há um público que, apesar de não ter grande afinidade com a música jazz ou de fusão, segue, não obstante, de perto o percurso deste guitarrista. Os números falam por si: vinte Grammys no bolso, uma discografia enorme que rendeu uns bons milhões de vendas, e um dos únicos quatro guitarristas membros do Downbeat Hall of Fame (os outros são Django Reinhardt, Charlie Christian e Wes Montgomery).

Da única vez que se dirige verdadeiramente ao público, uma hora depois de o concerto ter arrancado, apresenta a banda como se fosse um entertainer num combate de boxe
Antooniooo Saaaancheeeez!!
Liiiindaaaa Ooooh!!
Gwiinlyyym Siimcooock!!
com a sua voz quase tão aguda como os registos mais altos da guitarra.

“I feel like I should say goal”, acrescenta em conversa que soa de circunstância, exultando o espírito e orgulho nacionais do público, e aproveitando para mencionar também México e Inglaterra, dirigindo-se ao baterista e pianista, respectivamente, para depois completar com “We’re out”, um “nós” que o junta à contrabaixista.

De seguida, Metheny explica-nos o mote daquele quarteto. Trata-se da revisitação dos temas que marcaram a sua longa carreira. Mas “old tunes but played in a diferente way”, tocadas pela forma que emerge da junção destes músicos, neste momento. E depois vem algo que cimenta a minha convicção que o Metheny só quer mesmo saber da música: alguns seguramente vão identificar os temas mas ele não se vai dar ao trabalho de listá-los porque, pura e simplesmente, não sabe de cor os nomes dos seus temas.

A esta confissão devo adicionar uma outra da minha autoria. Eu próprio estava a travar uma intensa batalha (e a perder rotundamente) com os títulos dos temas. Pelo que, após aquelas palavras, convenientemente conclui que não me deveria martirizar mais e aceitar que, apesar de ter reconhecido vários dos temas, foram muito poucos aqueles aos quais consegui associar um nome. Enfim, dando seguimento à confissão, foram apenas dois e um possível terceiro: o tema lento “Always and forever”, um trecho de “James” que surgiu no medley a solo com que abriu os três encores da noite, e o que me pareceu ser o “Part One” do álbum “The way up”.

Este manifesto desinteresse por elementos totalmente secundários, tais como títulos de músicas (por favor...), está também patente, por exemplo, nos intervalos entre temas (ou na sua ausência). O quarteto nem dá tempo ao público para expressar o seu agrado e contentamento pela música que ouve, com o recurso tradicional que tem ao seu dispor: a rápida cadência dos temas nem sequer permite que a ovação termine espontaneamente, o final da salva de palmas é forçado pelo início do tema seguinte. De facto, não se vislumbra nenhuma razão que justifique esperar pelo fim daquele som das palmas das mãos a bater umas contra as outras.

No total, são quase duas horas e meia de música, encores incluídos. Esta é, aliás, outra das características dos concertos de Metheny: são uma autêntica barrigada. Alguns não têm estômago para tanto, há um conjunto de desistências, pessoas que se encaminham, exaustas, para a saída, através da escuridão da sala. Outros, que não abusaram das entradas ou tomaram sais de fruta, permanecem na cadeira que, por força das horas ali passadas, se tornou desconfortável. Outros, ainda mais deliciados a absorver todas as notas, inclusivamente trauteiam os temas, como um senhor atrás de mim que fez o favor de partilhar efusivamente a sua interpretação dos temas. Confesso que também gostei mas parece-me que este senhor terá uma ainda melhor apreciação que a minha desta noite passada com Pat Metheny.

sábado, 30 de junho de 2018

Instrumento de poder

«A fotografia, mais recentemente, transformou-se num divertimento quase tão praticado como o sexo e a dança, o que significa que, como todas as formas de arte de massas, a fotografia não é praticada pela maioria das pessoas como arte. É sobretudo um rito social, uma defesa contra a ansiedade e um instrumento de poder.»

Ensaios sobre fotografia, Susan Sontag

quinta-feira, 28 de junho de 2018

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Unorthodoxy

«'(...) Consider the matter dispassionately, Mr Foster, and you will see that no offence is so heinous as unorthodoxy of behaviour. Murder kills only the individual - and, after all, what is an individual?' With a sweeping gesture he indicated the rows of microscopes, the test-tubes, the incubators. 'We can make a new one with the greatest ease - as many as we like. Unorthodoxy threatens more than the life of a mere individual; it strikes at Society itself. Yes, at Society itself,' he repeated.»

Brave New World, Aldous Huxley

Joachim's low

quinta-feira, 21 de junho de 2018

O banho acabou por acontecer (não podia falhar) numa praia de areia escura.

Sem vivalma, incluindo pescadores daqueles peixes estranhos. Um mergulho rápido na água fria e traiçoeira, com uma corrente forte e um fundão profundo a surgir pouco depois dos primeiros passos. Embora o céu esteja parcialmente encoberto, prefiro não arriscar e não passar muito tempo exposto porque não temos protector solar. Apesar deste cuidado, fico um pouco vermelho em algumas zonas.

Nessa noite, jantamos no Genuíno, o restaurante do único português a realizar duas voltas ao mundo a solo. A empregada de mesa é brasileira, espirituosa. A sopa de peixe e o pargo grelhado estão óptimos, assim como o pudim de inhame de sobremesa. Depois regressamos ao Peter’s, onde tínhamos jantado na noite anterior, para mais um gin do mar, no meio da multidão de estrangeiros.

No dia seguinte, após uma curta volta pela Horta, apanhamos novamente o ferry de meia-hora para a Madalena, seguido de um táxi – uma senhora de idade que conduz uma carrinha de nove lugares – até ao aeroporto da ilha do Pico. Fazemos o drop off da mala num dos únicos dois balcões disponíveis e aguardamos pela abertura das portas que dão acesso ao controle de segurança e, depois disso, às portas de embarque.

À hora marcada, somos chamados a mostrar os cartões de embarque e os documentos que comprovam a identidade e a percorrer os metros de alcatrão entre o terminal do aeroporto e o avião da Sata. Levantamos voo uns bons 15 a 20 minutos antes da hora e aterramos igualmente mais cedo do que o previsto na Portela.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

O vulcão dos Capelinhos está ao nosso lado.

Os meus ténis estão cheios de pó depois de ter subido aquela estrutura, enxertada à anterior faixa de costa da ilha e completamente diferente. Por momentos, parece que estamos num planeta diferente ou numa cratera da lua, caminhando naquela areia cinzenta, com algumas pedras rugosas e escuras. Lá em cima, a tonalidade é um pouco mais avermelhada (Marte?). Um carreiro leva-nos até à arriba que termina na água do mar.

O calor é potenciado pela cor escura daquela terra, que absorve os raios do sol e retém em vez de reflectir. Cansados da subida, decidimos refrescar nas piscinas naturais ali ao lado. Visto os calções e calço os chinelos que pouco antes havia comprado na Sportzone da Horta – estupidamente, nem me passou pela cabeça trazer comigo – e dirigimo-nos às piscinas naturais. Reparo que não há ninguém dentro de água mas apenas um grupo de uma dezena de pescadores que, do topo das rochas, erguem as canas de pesca.

Neste momento estou só a pensar na possibilidade de termos alguma dificuldade em navegar pelo meio de todas estas linhas de pesca e de gerarmos alguma crise diplomática com os pescadores. Mas, assim que me aproximo e ponho os pés na água fria, uma senhora que se dedica à pesca diz-me
Cuidado que está cheio de piranhas
Devo ter feito uma cara de total incompreensão ou pura e simples estupidez que ela se sentiu na necessidade de fornecer mais esclarecimentos.
Piranhas dos Açores
E pega num dos bichos que já capturou, deitado na pedra, com os dedos nos orifícios dos olhos, e mostra-me a dentadura afiada da criatura, que ainda se debate um pouco para respirar.
Faz uns bons filetes
Resolve acrescentar, como se precisasse de justificar a razão pela qual se dedica àquela actividade, não fosse eu pensar que era meramente por desporto ou para passar o tempo.
Face ao exposto, decidimos molhar apenas um pouco os pés e apanhar antes um banho de sol, o suficiente para uma pequena zona de vermelhidão nos ombros. Fico a observar a faina desta gente, que apanha peixe atrás de peixe. Basta colocar a cana na água e, pouco tempo depois, estão a içar mais outro daqueles peixes estranhos para fora da água, que aguentam bastante tempo, em agonia, até morrer.

terça-feira, 19 de junho de 2018

O semi-rígido com duas fileiras de bancos almofadados está por nossa conta.

Para além de nós, só está no barco o skipper e a guia que ajudará a identificar as espécies de animais. Com um oleado pesado e um colete salva-vidas por cima, sentamo-nos enquanto o barco lentamente se aproxima da saída do pequeno porto e, após passar o molhe, acelera no mar aberto.

A direcção é definida com recurso a uma intensa troca de informações com outro barco que procura cetáceos e com o pessoal em terra. Pouco depois, temos à nossa frente um grupo de cachalotes, identificáveis pelo sopro que se projecta para a frente e para a esquerda, dada a colocação do espiráculo. Algumas baforadas de ar e espuma e vemos as caudas erguer para o mergulho profundo, do qual só deverão voltar a surgir após uns bons três quartos de hora.

Seguimos à procura de mais fauna marítima e vamos deparar-nos com alguns grupos de golfinhos moleiros, criaturas que, contrariamente aos golfinhos que estamos mais habituados, não são sociáveis. Afastam-se do barco, é necessário estar constantemente a procurá-los no meio das ondas. São poucas as vezes que temos oportunidade de ver o corpo destes animais, de focinho arredondado e sem a forma pontiaguda.

No regresso, a visão apurada dos nossos anfitriões levam-nos a interromper a o motor que faz o barco deslocar-se a grande velocidade. Na água, vislumbramos uma tartaruga boba, que se mantém alguns instantes perto da superfície antes de iniciar o seu mergulho.

De regresso a terra firme, somos presenteados com um diploma que atesta as espécies que vimos, assim como um chá quente, bolachas mulatas e um óptimo licor.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Fim da picada

Não chego a conseguir dormir verdadeiramente, apenas passar um pouco pelas brasas. Não só porque são 22h, o que é cedo para que o corpo peça cama, mas também porque não consigo ignorar o som característico e desagradável dos cagarros. Um pouco antes das meia noite levantamo-nos. Fazemos os últimos preparativos e seguimos em direcção à Madalena. Pelo caminho, na estrada, está o Jeep do nosso guia, que seguimos pela estrada que leva até à Casa da Montanha.

Com um polar vestido e um lenço a proteger a zona do pescoço, calções justos a fazer lembrar os dos ciclistas, que expõe pernas musculadas e, sobretudo, bastante bem depiladas. É possível que o reflexo da pele daquelas pernas seja a luz mais intensa que vamos ver durante toda a escalada nocturna que se avizinha.

Depois das apresentações, tratamos das formalidades – da inscrição do nosso nome e da recepção do aparelho de GPS que nos acompanhará na subida – e do equipamento – lanternas frontais, bastões de escalada e um saco-cama na mochila que já contém comida, água e roupa adicional. Uma passagem estratégica pela casa-de-banho e perto das 2h saímos a porta que dá acesso a uma curta escadaria e, a partir daí, começa o trilho de terra e pedras que nos levará ao topo da montanha mais alta de Portugal.

É difícil ser mais experiente que o nosso guia de perna reluzente: já fez esta subida mais de 2100 vezes, se não me falha a memória. Tendo em conta que, entre subir e descer, são cerca de oito quilómetros, já fez quase 20 mil quilómetros naquela montanha.

O caminho é sinuoso, como seria de esperar, mas de um grau de dificuldade relativamente acessível. O maior obstáculo talvez seja a hora: não só porque não é fácil perceber o caminho à noite, apesar das lanternas e dos 47 pequenos postes de sinalização (daí a utilidade do guia), mas também porque vamos subir um pouco mais de um quilómetro vertical em cerca de quatro quilómetros após uma noite em branco.

Não obstante, os deuses, estão connosco. Não há praticamente vento nenhum e a sensação térmica não é tão intensa quanto seria em condições normais. Já na fase final da subida, ponto que, segundo o guia, uma vez atingido desfaz qualquer dúvida em relação a atingir o cume, começamos a ver o céu limpo, a ausência de nuvens. Estamos agora a dez minutos da cratera e outros vinte do cume e vemos a lua avermelhada, enganadoradamente em quarto minguante. Isto acontece uma a duas vezes por mês no verão, diz-nos o guia, acusando-nos de ser uns sortudos.

A cratera está debaixo dos nossos pés e, pela frente, está a última formação, o “piquinho” que se ergue mais uns metros para lá da caldeira do vulcão. Aqui deixamos os bastões de lado, a subida é mais complicada e vamos precisar do auxílio das mãos nas rochas. Numa das passagens, vemos e sentimos o vapor de água, que nos recorda a natureza do local onde nos encontramos.

Pouco depois, atingimos o topo, três horas e meia depois de termos começado a subida. Lá em cima está um espanhol a fazer um time lapse com uma câmara e um casal um pouco mais afastado. Deitamo-nos dentro dos sacos-cama no pouco espaço disponível abrigado por um pequeno muro de pedra, a mochila a servir de almofada. Apesar do frio, adormeço e acordo a tempo de ver o nascer do sol com o barulho de outro grupo.

A vista é imponente. À nossa frente estão São Jorge, a Terceira e, mais ao fundo, por detrás de São Jorge, a Graciosa. Atrás, muito perto do extremo da ilha do Pico onde fica a vila da Madalena, o Faial ainda às escuras, à espera que o sol chegue. A quantidade de fotografias que tiramos é pornográfica, uma tarefa só interrompida pelo café açucarado e os biscoitos com que o guia nos brinda. De pé, ao pé da zona das rochas onde sai um pouco daquele mesmo vapor, vamos aquecendo o corpo e a alma.

Começamos a descida pelas oito horas e, apesar de todos os santos prestarem a respectiva ajuda, acabamos por demorar mais neste sentido. É certo que para tal contribuiu a sessão fotográfica feita pouco depois de descer do “piquinho”, promovido pelo guia que, apesar dos milhares de subidas, parecia mais eufórico do que nós.

domingo, 17 de junho de 2018

O embarque começa à hora.

Ainda não são sete da manhã e já mostramos os nossos cartões de embarque e de cidadão ao funcionário por detrás do computador com um leitor que apita a cada registo. Descemos as escadas que levam até ao exterior do terminal para aceder ao autocarro. Está frio e, pouco depois, desatará a chover.

Esperamos ainda um pouco até o autocarro iniciar o percurso – que parece sempre longuíssimo – até ao avião da Sata, estacionado no alcatrão, para lá do terminal 2 do aeroporto. Parados ao lado do Airbus 320, de portas fechadas. Até que, estranhamente, ao invés de ouvirmos o som das portas a abrir e do piso do autocarro a descer ligeiramente, ouvimos novamente o som do motor e o autocarro arranca novamente.

Rimo-nos, assim como as pessoas ao nosso lado – lembro-me em particular de um homem que viríamos a encontrar mais tarde na Casa da Montanha com a esposa após uma tentativa falhada de ascensão. Que se enganaram no avião, onde já se viu isto, só mesmo nesta terra. Mas o comentário que melhor registei foi aquele que ouvi a um dos companheiros de viagem: “isto não é bom sinal”.

E não era. Somos largados na chuva para chegar à escadas que dão acesso ao terminal pelo condutor que nos informa que, “por motivos operacionais”, o voo está atrasado. À passagem pelos funcionários que permanecem na porta de embarque, os passageiros perguntam o que aconteceu. A resposta é caricata: faltaram alguns membros de tripulação necessários para que o voo se efectue.

Esperamos mais um bocado. Talvez uma hora, hora e meia. Pelo meio, um dos passageiros, pertencente a um grupo ou excursão relativamente grande, tira do estojo uma guitarra portuguesa e toca-nos umas quantas músicas, que têm o condão de afastar alguma da irritação. O mesmo não se poderá dizer de uma senhora enfermeira, que não parece achar graça nenhuma à música que o trovador lhe dedica, em jeito de serenata.

Finalmente, somos novamente enfiados dentro do autocarro, que percorre o mesmo trajecto até ao mesmo avião e, desta feita, abre mesmo as portas para que possamos entrar no aparelho. Cerca de 2h30 depois aterramos no aeroporto da ilha do Pico.

A tarde é passada a dar a volta à ilha. Das estradas costeiras, enveredamos pelas mais estreitas e sinuosas, polvilhadas de vacas que, à nossa passagem, arregalam os olhos, num misto de curiosidade e receio. O contraste da cor escura da terra e das rochas com o verde gritante da vegetação é esmagador. O sol intenso esconde-se, por vezes, por entre nuvens espessas e cinzentas ou no nevoeiro que faz a temperatura, de imediato, cair.

Perguntamos a um pastor qual o caminho para as lagoas. Depois da explicação, aproveitamos para lhe perguntar se o nevoeiro e as nuvens que cobrem a montanha se irão manter. Explica-nos que se não se dissiparem até ao final da tarde, deverão permanecer a noite toda.

Seguimos em frente, a contar o número de barreiras para os animais na estrada como referência até chegar às massas de água. O trajecto termina com o regresso à vila da Madalena, onde fazemos as compras para o dia de amanhã (que mais parece a noite deste) e jantamos. Ao final do dia, as nuvens deram tréguas e o topo da montanha está visível.

sábado, 16 de junho de 2018

Corny, como bem o definiu Pacheco Pereira

O problema de os tornar mártires da liberdade de expressão

One important part of the free-speech consensus that now appears to be breaking down is the belief that the KKK and other white supremacist organisations are operating within the bounds of acceptable political discourse – rather than as, say, terrorist organisations – and therefore have a moral right to be heard. “The mantle of free speech in the contemporary political context has somehow been claimed by the white supremacists,” Ahilan Arulanantham, the legal director and director of advocacy at the ACLU of Southern California, told me. To Weinrib, the historian, the conflict surrounding the ACLU is largely about “the extent to which defending these groups is perceived to legitimate their ideas”.

To critics of the ACLU’s approach, there is something hopelessly naive about deploring the views of white supremacists while celebrating their right to express themselves freely, and thereby influence the political debate. Defenders of the US’s free-speech status quo often paint its detractors as “snowflakes” whose primary objection is that hateful speech hurts people’s feelings. But to thinkers such as the literary theorist Stanley Fish – who once wrote a book titled There’s No Such Thing as Free Speech … And It’s a Good Thing Too – the promotion of white supremacists’ rights represents a failure of political realism. “The only way to fight hate speech or racist speech is to recognise it as the speech of your enemy,” Fish told an interviewer in 1998, “and what you do in response to the speech of your enemy is … attempt to stamp it out.”

quinta-feira, 14 de junho de 2018

É um exercício desagradável caracterizar-se um país por analogia a outro.

Porque parte do pressuposto (preconceito?) de que determinados povos devem ser similares e, por isso, que o que destaca entre eles são as diferenças e não as semelhanças, já que estas últimas são expectáveis.

E é por essa razão que as comparações entre nós e os espanhóis nos parecem, muitas vezes, desagradáveis: porque, ao assinalar o que não é igual, partem do pressuposto de que temos de ser parecidos. Já no caso de, por exemplo, a Bolívia e da Noruega (podia ser a Turquia e a Nova Zelândia ou a Estónia e a Nova Guiné), quaisquer observações que fizéssemos sobre esses países seriam sobre as semelhanças que poderíamos descobrir, exactamente porque não as esperaríamos encontrar.

Dito isto, não resisto a fazê-lo, a cometer uma possível indelicadeza. Posso tentar alegar uma atenuante ao meu caso: visitei o Japão recentemente e, talvez por isso, tenha tido alguma dificuldade em não olhar para a Coreia sem ser através dos olhos que passaram quinze dias em diversos sítios do país do sol nascente.

Talvez a maior diferença que tenha reparado entre os dois países é a existência de maiores extremos no Japão. Uma impressão potencialmente difícil de pôr por palavras e exemplos; aqui fica uma tentativa.

No que respeita à gentileza e à cortesia por exemplo. Não que os coreanos não o sejam, muito pelo contrário. Mas não ao mesmo nível dos japoneses onde, por vezes, é demasiado e chega a roçar os limites do desconfortável. No Japão, os objectos são entregues e recebidos com duas mãos quase sem excepção. Quando saímos de um restaurante, para além do empregado que nos recebeu, todos os funcionários, do cozinheiro ao lavador de pratos se despedem. Na Coreia, as pessoas falam umas com as outras nos transportes públicos e falam descontraidamente ao telefone. A senhora ao meu lado murmura uma qualquer ladainha; só depois reparo que tem, na mão direita, um fio de contas que progressivamente vai deslocando com os dedos à medida que completa as etapas. No Japão, as carruagens dos comboios e dos metros são túmulos de pessoas vivas. No comboio bala, solicita-se àqueles que queiram realizar uma chamada que se dirijam às zonas entre carruagens, isoladas por portas de vidro, para não incomodar os demais passageiros.

A infantilização e a alienação é maior no Japão. Das vozes e das músicas de criança nos transportes públicos aos sinais que nos alertam para, por exemplo, não entalarmos as mãos nas portas. Os arcades e as salas enormes de pachinko – um misto entre pinball e slot machine – não se vêem em Seoul, assim como as zonas para maiores de dezoito nos supermercados, as lojas de manga e casas de acompanhantes. Só em Tokyo se vê turistas vestidos de personagens do Super Mario a conduzir karts pelo meio da cidade.

Nas ruas coreanas, os caixotes de lixo não abundam mas existem: não somos, como no Japão, obrigados a andar com embalagens e garrafas de água até encontrar uma loja de conveniência onde possamos discretamente livrar-nos da tralha. E, finalmente, a esmagadora maioria das sanitas não é tuning como no Japão, sem botões que activam uma série de funções esquisitas.

Para terminar, uma semelhança: o controlo do inglês é reduzido e a comunicação é, por vezes, feita com recurso a gestos e onomatopeias – num mercado, escolhemos o jantar com base no gesto de levar comida à boca, acompanhado de “nham nham”, de uma senhora.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

DMZ

Dois dias antes, recebo um email do Choi, o tipo da agência que contactei para fazer o tour à zona desmilitarizada, a dizer-me que, infelizmente, a visita à Joint Security Area foi cancelada por motivos que se prendem com a cimeira entre as duas Coreias. A probabilidade deste desfecho era relativamente elevada: o complexo de pequenas estruturas azuladas, literalmente sobre a fronteira militar entre os dois países, esteve fechado todo o mês de Abril. Na altura, a possibilidade de realizar visitas em Maio ainda não tinha sido afastada mas só tinha mesmo o primeiro dia do mês disponível e um prolongamento do encerramento daquele local ao turismo não seria de todo a descartar.

Como alternativa, optámos por fazer a visita mais curta, de meio dia, que passa por três atracções diferentes. Por mais do que uma vez, a guia pergunta-nos se temos os passaportes connosco. Vão ser necessários ao entrar na zona desmilitarizada, para mostrar a um militar que entra no autocarro e olha rapidamente para cada um e para a cara do respectivo portador, antes de autorizar a entrada do veículo.

A primeira atracção é um dos túneis de construídos pela Coreia do Norte para invadir o vizinho do sul. Há inúmeros túneis do género identificados (e seguramente mais uns quantos não identificados), que foram feitos tendo em vista uma infiltração surpresa de um contingente militar que rapidamente conseguisse avançar em direcção a Seoul, que fica a algumas dezenas de quilómetros da fronteira, e tomar a capital.

O túnel que visitámos chegou à atenção das autoridades da Coreia do Sul através do relato de um dissidente do norte. Na sequência, foi construído um túnel de intersecção, com um comprimento de cerca de 350 metros e uma inclinação de 11 graus, se a memória não me falha, e que desagua no túnel original. Este último é mais estreito e baixo, e aqui sentimos a necessidade dos capacetes que nos dão à entrada: mesmo caminhando de costas curvadas, por vezes não consegui evitar uma cabeçada no tecto ou nas estruturas de metal que suportam o túnel. É preciso fazer alguns metros até chegar a uma das três barreiras de betão que bloqueiam a passagem, perto da fronteira militar subterrânea.

Daqui seguimos para o Observatório de Dora que não é mais do que uma armadilha de turistas. Trata-se de um edifício no topo de um pequeno monte com uma espécie de terraço virado para a fronteira, repleto de binóculos que aceitam moedas de 500 wons. Daqui avista-se uma paisagem que poderia ser a do Alentejo, um descampado pontilhado por uma ou outra árvore.

Finalmente, a visita termina na estação de comboios de Dorasan. No meio de nenhures, rodeada de um parque de estacionamento vazio. Dentro do edifício apenas se encontram turistas, que tiram selfies com a placa que indica a linha para Pyongyang. Ao lado, está um placard luminoso onde se lê que esta estação foi inaugurada em 2002, após um acordo celebrado entre as duas Coreias em 2000 para a reconstrução de uma linha ferroviária que as une e que foi destruída durante a guerra. Há quinze anos que a infraestrutura está pronta mas ainda não é usada.

Um militar volta a entrar no autocarro e os passageiros voltam a empunhar o passaporte aberto na página da fotografia até o autocarro partir novamente. À vinda, o trânsito está infernal e demoramos mais tempo do que era previsto a chegar.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

As mesas são normalmente para quatro pessoas e têm uma grelha a meio.

A maioria destes apetrechos é a gás, que é fornecido através de um tubo de plástico fino que percorre a parte de baixo do tampo. Aqui, num estabelecimento com vista para o corredor sujo e escuro do mercado que nos foi recomendado para jantar, o método foi mais tradicional: uma senhora trouxe um recipiente de metal cheio de brasas e colocou debaixo da grelha, a fazer lembrar a braseira que a minha avó usava no inverno para aquecer os pés em torno da mesa. Na maior parte dos casos, existe também um exaustor cilíndrico, pendurado do tecto, que não consegue evitar que fiquemos com as roupas impregnadas de cheiro a comida.

A receita é relativamente simples, basta escolher a carne. Ou, melhor dito, deveria ser simples, porque o processo de escolha e comunicação dessa escolha nem sempre é linear, dadas as barreiras de linguagem. Aliás, é, frequentemente, algo sinuoso. Mas uma vez ultrapassado, basta ir preparando os pedaços aos poucos, pegando com a ajuda de uma tenaz para os colocar sob a grelha quente e cortando-os com uma tesoura. É, de certa forma, uma espécie de fondue, com uma grelha em vez de um recipiente com óleo.

Os grelhados talvez sejam a maior imagem gastronómica da Coreia mas há também um conjunto de outros pratos típicos, como o bibimbap. Atrevo-me a dizer que as panquecas com vegetais ou frutos do mar foram a maior surpresa positiva. Seja qual for a escolha, uma coisa é certa: à mesa estarão também pequenas taças e pratos com acompanhamentos diversos, com o sabor picante e fermentado de Kimchi. Estes podem ser repetidos à vontade, há normalmente um balcão com grandes recipientes de plástico onde podemos ir servir-nos, tal como um buffet de saladas.

As refeições são acompanhadas com a cerveja leve local ou com Soju, a bebida típica, descrita por um local como uma espécie de whisky mas mais fraco. Trata-se de licor que pode ser feito de arroz ou de outros cereais e vem numas garrafas de vidro pequenas que mais parecem de água. É servida em pequenos copos típicos de bebidas brancas, e é possível que seja necessário ser autóctone para saber apreciar: a única vez que pedimos uma revelou-se também a última e a pequena garrafa ficou longe de ser despejada.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Coffee break

A máquina de café está numa pequena zona de cadeiras e mesas onde várias pessoas se sentam à saída de um templo no meio dos prédios do centro de negócios de Seoul. Tinhamos chegado aqui depois de nos cruzarmos com uma manifestação muito civilizada. Perante a nossa cara de interrogação, uma das manifestantes pára para nos explicar a preocupação que sentem com a recente aproximação entre a vizinha Coreia do Norte. Receiam que eventuais cedências que o Presidente Moon venha a fazer líder do norte possam conduzir a democrática Coreia do Sul para um regime similar.

Há vários botões com diferentes tipos de cafés possíveis, todos bastante baratos. De repente, uma senhora surge por detrás de nós, e explica-nos o que são as diferentes opções, acrescentando que o mais certo é não gostarmos dos cafés típicos coreanos disponíveis. E, daqui, aos poucos, acabamos por encetar uma conversa com ela que acaba por percorrer uma série de temas diferentes.

É das pessoas com melhor inglês com as quais nos vamos deparar na viagem inteira, ou não tivesse vivido doze anos nos Estados Unidos. Mais do que isso, em Nova Iorque. Talvez o ponto que mais fica na cabeça é o facto de considerar que os coreanos são demasiado individualistas. Por alguma razão, não esperaria esta consideração. Ainda para mais de alguém que viveu nos Estados Unidos. Mas ela insiste: só se preocupam com eles, com a sua imagem, são materialistas e consumistas, medem o respectivo sucesso apenas por aquilo que têm e preocupam-se pouco com atitudes, comportamentos e valores.

De início, esta perspectiva parece-me estranha, ainda para mais de alguém que teve um contacto com o que deverá ser o paradigma da sociedade individualista. Mas, aos poucos, sinto que começo a perceber o que quer dizer. E sinto que a ideia lentamente a impregnar-se.

De considerações profundas sobre a forma de ser dos coreanos e doutros povos, passamos para temas mais mundanos. A senhora recomenda-nos um mercado para jantar, nada como um local verdadeiramente genuíno (pleonasmo?). Despedimo-nos cordialmente, desejamos as melhoras – tinha tido um acidente de automóvel recentemente e ainda se encontrava parcialmente em convalescença – e ficamos com a nítida sensação que não somos os únicos a ter sido abordados por ela. É seguramente uma prática regular sua.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Todo o templo do mundo

Um bilhete combinado dá acesso a uma meia dúzia de palácios e uma ou outra atracção, de nomes muito parecidos e impossíveis de memorizar, e por um preço bastante razoável.

Logo ao início do dia, assistimos ao render da guarda. Primeiro entra uma fileira que se ocupa da música. Umas flautas de sons agudos, tambores e metais que se conjugam de forma estranha. Param e dão lugar à entrada de uma segunda fileira, com vários porta-estandarte. Estão trajados de forma curiosa, cheios de cores garridas, fazem lembrar a guarda suíça do Vaticano, que parece ter mais de pitoresco que outra coisa. O mais graduado, que se vira para os restantes e grita ordens que são executadas mecanicamente, tem uma pena de pavão no chapéu, uma marca da hierarquia. Depois de algumas instruções debitadas em tom grave e solene, as fileiras saem por ordem contrária à de entrada – first in last out –, ouvimos novamente a mesma música algo desconcertante.

Findo o ritual, seguimos a mole de turistas que se dirige aos terrenos do palácio, qual horda de invasores. As estruturas são relativamente semelhantes e, apesar de tantos palácios e templos diferentes, a variedade não é muita. Uma vez mais, edifícios rectangulares, com tectos coloridos, um letreiro a meio. O interior é, normalmente, sóbrio, com um chão de madeira escura e minimalista. Quando existem, as divisões são demarcadas com biombos ou portas de correr. Nos templos, os interiores são mais preenchidos, com estátuas e outros elementos. As estruturas vão-se sucedendo umas a seguir às outras, por vezes diminuindo de dimensão e importância à medida que nos afastamos da entrada do complexo, numa espécie de matrioska aplicada a este tipo de construções.

Nos jardins, vemos grupos de vários elementos do sexo feminino ou casais vestidos a rigor, com trajes típicos. Em alguns casos, posam para fotografias: ora posa ela e tira ele, ora posa ele e tira ela. Elas posam sentadas, com as pernas cruzadas ao lado do tronco, aos mãos no regaço; eles de pé, mãos atrás das costas e peito feito, numa pose quase militar. Às vezes ensaiam outras possibilidades, como ligeiramente debruçados a cheirar uma flor que puxam ligeiramente na sua direcção com uma das mãos, e sem deixar de manter o contacto visual com a câmara.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Mercado de peixe

À saída do metro que virou comboio, uma placa indica-me a entrada através de um túnel que passa por debaixo da linha. Lá dentro, debaixo da terra, começo a ver os primeiros comerciantes. Aqui vendem essencialmente verduras e legumes, ocasionalmente têm alguidares grandes com enguias lá dentro, que se mexem rapidamente na pouca água. Tiram-nas dos alguidares para os sacos de plástico dos clientes com uns recipientes de plástico e os bichos debatem-se agitadamente dentro do espaço exíguo.

Do outro lado está um edifício enorme, o oposto do mercado tradicional de rua que esperava encontrar. Mais parece um local onde apenas comerciantes por grosso podem fazer negócio mas, após verificar que outros locais e turistas entram pelas várias portas, decido também entrar. Lá dentro há filas e filas de comerciantes com bancas, alguidares, aquários, cheios de todo o tipo de vida marinha. Balanças com mostradores electrónicos e placas a indicar o número de cada corredor, como nos parques de estacionamento de grande dimensão dos centros comerciais. Olho para uma mulher tira uma lagosta de dentro de um aquário, o bicho mexe as pinças freneticamente e a senhora, quando cruza o meu olhar, faz-me um gesto a perguntar se estou interessado. Digo que não rápida e incisivamente, de mão esticada à frente, que, logo a seguir, me parece enfático demais, como se a proposta da senhora fosse para lá de indecente. A verdade, é que, se se tratasse do mesmo bicho mas já pronto a degustar, até estaria.

No fundo é para isso que aqui vim, tenho de o admitir. E faço-o descaradamente, sem o mínimo pingo de vergonha. Uso as escadas rolantes até ao piso de cima onde, num corredor quase interminável, se alinham restaurantes a perder de vista. Acabo por me sentar num relativamente vazio (a hora de almoço já lá vai) e peço uma tigela de sushi e arroz.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Busan

É com alguma dificuldade que percebo a localização da paragem por onde passa o autocarro que sobe o monte até ao templo. Na ausência de lojas ou cafés com aspecto de ter uma rede wifi disponível para os clientes – onde está um Starbucks quando é necessário? –, ligo os dados móveis no telemóvel, uma decisão que, literalmente, acabará por me sair cara (umas boas dezenas de euros por meia dúzia de megabytes). Mas resolvo problema e, finalmente, dou com a dita paragem e a fila de pessoas à minha frente, das quais uma parte significativa são turistas, e das quais a maioria é asiática.

Dentro do veículo, não há lugar para me sentar; fico de pé a meio, de costas para a porta, perto de uma senhora num banco individual. Coloco a mochila pesada no chão (lá dentro vai a máquina fotográfica), entre as pernas, desajeitadamente, para evitar que tombe e resvale pelo piso sujo do veículo, devido às curvas acentuadas e à velocidade do motorista. E agarro-me à pega presa ao tejadilho. Sem dizer nada, a senhora sentada no banco individual agarra na minha mochila e coloca-a entre as pernas dela e o banco à sua frente, para que eu possa ir mais facilmente de pé, sem ter de me preocupar com aquele objecto pesado. Agradeço-lhe da melhor forma que sei e ela faz uma curta mas solene vénia, depois de cruzar o olhar no meu. Alguns minutos depois, quando chega o momento de sair, pego na mochila e agradeço-lhe novamente, e ela repete o mesmo ritual da vénia.

O templo é parecido a todos os outros que vou ver em Seoul – incluindo as decorações coloridas, penduradas um pouco por todo o lado. As estruturas são rectangulares, com telhados garridos e um letreiro grande a meio, portas de diferentes cores secas e um interior sóbrio e minimalista.

Quando desço lentamente as escadas que me hão de conduzir à saída, entre fotografias, uma senhora mete conversa comigo. Insinua que, no meio de tanta fotografia, não estou a aproveitar para absorver verdadeiramente o que o templo tem para oferecer. É possível, reconheço – que responder? – e iniciamos uma curta conversa. Está curiosa para saber donde venho, quanto tempo vou passar no país dela, por que o resolvi visitar. No final, despede-se desejando-me a continuação de uma boa viagem e eu continuo a fotografar os balões decorativos, pendurados a ombrear o caminho até à saída.

A ida ao templo acaba por consumir mais tempo do que aquele que tinha planeado. Já não tenho pouco tempo disponível na segunda maior cidade de Coreia e, depois de um bocado a conhecer os mercados no centro, dirijo-me à estação para apanhar o comboio de regresso a Seoul. Sento-me no meu lugar, designado no bilhete. Confortável e espaçoso. Tiro o livro da mochila para me entreter nas cerca de duas horas e meia, assim como a almofada insuflável para ajustar ao pescoço. A certa altura, no decurso da viagem, uma funcionária do comboio entra na carruagem, fecha a porta atrás de si e faz uma pequena vénia para cumprimentar os passageiros. Só depois começa a caminhar no corredor entre os bancos.

sábado, 2 de junho de 2018

quinta-feira, 31 de maio de 2018

No hay mal menor

«Lo cierto es que no hay mal menor cuando se trata de elegir entre dos totalitarismos - es como elegir entre el sida y el cáncer terminal»

La llamada de la tribu, Mario Vargas Llosa

terça-feira, 29 de maio de 2018

Nova sazonalidade

As alterações climáticas vão tornar cada vez mais difícil a interpretação da sazonalidade em dados e a sua correcção.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Seguir os sonhos

O problema de qualquer coisa que seja dos nossos sonhos - emprego, casa, férias, casamento - é que tanto pode ser dos bons como dos pesadelos.

domingo, 27 de maio de 2018

domingo, 20 de maio de 2018

Em vão

A mão desloca-se sem pensar até ao interruptor, repete o gesto mecânico que tantas e tantas repetiu e voltou a repetir. Mas desta vez
Não foi só esta
a luz não acende como costuma, como tantas vezes fez e voltou a fazer. Apenas um brilho muito ténue que não chega para iluminar e mostrar o caminho, um desapontamento. O mesmo brilho que já apareceu antes, que já desapontou, mas que a força do hábito teima em esquecer,
Em querer esquecer,
como se a mão não soubesse que a lâmpada está fundida, já fundiu há uns dias. A mesma mão que já devia ter-se esticado e desenroscado o casquilho da lâmpada fundida e procurado outra para a substituir. E, no entanto, encontrar o bocadinho de tempo necessário para essa tarefa parece ser outra tarefa em si mesmo, uma tarefa difícil e complicada que tem o poder de evitar os sucessivos desapontamentos da mão que procura o interruptor, que se esquece por um curto momento que, desta vez,
Mais uma vez
o gesto vai ser em vão.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Abelhas

Aos finais de tarde, são como um enxame à saída dos centros comerciais e do McDonald's. De moto ou bicicleta, com o recipiente verde, com alças para pôr às costas, do Ubereats

quarta-feira, 9 de maio de 2018

TRiSoNTe selvagem foge da jaula e abalroa público do Somersby Out Jazz

(Publicado originalmente aqui)

Na entrada para a palavra “Bisonte” no dicionário Priberam da língua portuguesa lê-se “género de grandes bovídeos selvagens, caracterizados pela bossa do pescoço e pelo grande colar de pele lanosa.”. Já TRiSoNTe – e escrito assim, isto é, as consoantes maiúsculas e as vogais minúsculas – não consta daquele dicionário (nem de qualquer outro, tanto quanto sei), é uma ilustre desconhecida, sem aplicação prática para lá da designação desta banda que deu um valente pontapé de saída à 12ª edição do Somersby Out Jazz, no final de tarde do primeiro domingo de Maio, nos jardins da Torre de Belém.

Estará a sua origem associada aos três membros que formam este trio (passo o pleonasmo)? Ricardo Barriga (guitarra) e Gonçalo Prazeres (saxofone alto e barítono) são os mentores, materiais e espirituais, deste projecto que, talvez por esta criação a quatro mãos (mais seis cordas e não sei quantas (23?) chaves), pudesse encontrar em BiSoNTe – e apesar da definição supra-mencionada – uma designação mais apropriada, ao mesmo tempo que exclui, por completo, a possibilidade de uNiSoNTe. Inicialmente, a estes dois mentores juntaram-se Miguel Cordeiro (teclados) e Rui Pereira (bateria). No entanto, seria com Luís Candeias (bateria) que a composição da formação acabaria por se consolidar e permanecer durante largos anos. E, então, acrescento eu, TRiSoNTe passou definitivamente a ser uma designação por demais apropriada.

Antes de escrever mais uma palavra que seja, tenho que fazer uma séria declaração de interesses: sou amigo do Ricardo Barriga há muitos e muitos anos, desde que me lembro de existir, pelo que tudo o que escrever nesta crónica deverá ser visto à luz da minha potencial imparcialidade ou enviesamento.

Posto isto, a primeira observação, inevitável e totalmente incontornável, que aqui coloco, na forma interrogativa, é a seguinte: cadê o (contra)baixo? A ausência deste último é uma das características mais salientes do trio (mesmo quando foram quarteto) e que os aproxima de algumas das referências que serviram de inspiração para o projecto, como é o caso dos Human Feel de Chris Speed, Kurt Rosenwinkel, Andrew D’Angelo e Jim Black. A mim, uma formação deste género imediatamente, e quase inevitavelmente, remete para os Morphine cujo baixo de Mark Sandman, no fundo, não fazia as vezes de um baixo, dado o emprego bastante sui generis do mesmo, e que casava na perfeição com o som do saxofone barítono.

Após o primeiro disco, “Monter’s Lullaby”, editado em 2013, os TRiSoNTe têm na calha, para breve, o lançamento de um segundo, “Emergency Exit”, alguns temas dos quais a banda aproveitou para apresentar no concerto. Mas o que é mais relevante neste novo trabalho de estúdio é a alteração estrutural à dinâmica da banda que acabou por acarretar. E o elemento curioso dessa alteração é que surgiu de forma totalmente circunstancial: Candeias sugeriu experimentar a inclusão de baixo na gravação (manejado pelo próprio), algo que não estava contemplado inicialmente. O resultado foi do agrado de todos, o que explica a razão de termos quatro e não três elementos em palco nos jardins da Torre de Belém – António Quintino, no baixo eléctrico, é a mais recente aquisição do trio que, por isso, regressou ao formato de quarteto (o que remete para a possibilidade de considerar a evolução da designação para TeTRaSoNTe ou QuaDRiSoNTe).

Regressemos novamente aos jardins, cheios de lisboetas domingueiros, espraiados na relva, de copo na mão para combater o calor, alguns troncos nús e bikinis, e com o som de fundo do comboio da linha de Cascais. Com uma pontualidade britânica, às 17h, são atingidos pela melodia lenta e pesada, apoiada numa linha de baixo enrolada e quase trôpega, de “99 ways to get an orgasm”, tema com que a banda abre as (literais) hostilidades e mostra, sem rodeios, ao que vem.

Os cavalheiros deste pouco ortodoxo power trio virado quarteto não são uns meninos quaisquer – muito pelo contrário, são aquilo a que custamos chamar malta da pesada. A música desta banda está repleta da atitude e da agressividade do rock, da liberdade do free, com muito noise e dissonâncias à mistura e, claro, a improvisação do jazz. Os riffs são poderosos, com imensa convicção, seja saídos da guitarra distorcida e saturada de Barriga, seja do saxofone de Prazeres, ou dos dois instrumentos em simultâneo, tocados, como se costuma dizer, na batata.

Quando a tarefa de controlar o riff crú e poderoso é de Barriga, por vezes, é criado um contraste que faz sobressair melodias de notas longas e suaves, expostas por Prazeres. O segundo tema da tarde, “Freedy K will kill me if I stay”, um título certamente familiar para os fãs dos vários pesadelos em Elm Street, é um exemplo disso mesmo. Quando a mesma tarefa é partilhada, ganha uma cor e uma presença quase inumanas, como no terceiro tema da tarde e primeiro do novo álbum, “Cangalhada”: após uma curta introdução de guitarra que lembra a utilização de cordas soltas à la Bill Frisell, explode num riff envolvente e contagiante. Por esta altura, abalroado pelo que lhe entra nos ouvidos e faz vibrar os tímpanos, o público já acordou da letargia mole, assobia e bate palmas.

As cordas do baixo de Quintino só se deixam tocar com palheta, para garantir o ataque mais vincado de cada nota, acrescentando uma intensidade adicional e um som mais crispy. Das baquetas de Candeias raras vezes (se é que uma sequer) sai um simples e elementar swing, daqueles tradicionais. Mas sai tudo o resto, possível e imaginário, em catadupa, da subtileza das escovas na tarola a um pedal de bombo extremamente veloz, a fazer lembrar bateristas de heavy metal.

A banda só dá algum descanso ao público em temas como “Saída de emergência” e “I always tell the truth (even when I lie)” – neste último, Quintino e Candeias trocam de posições e instrumentos –, assentes numa linha de guitarra simples e eficaz, que abre as portas a um solo de Prazeres de frases curtas e soltas, com recurso a delay e outros efeitos – aliás, a utilização de variados efeitos é também uma forte marca, sortilégios que normalmente saem mais da cartola dos guitarristas mas que, neste caso, com maior ou menor intensidade, saem praticamente da cartola de todos. “Ciclo vicioso” também propicia um momento de alguma acalmia, um tema com um cariz mais melancólico e introspectivo.

A Gonçalo Prazeres cabe a responsabilidade de dizer umas palavras e fá-lo a seguir ao tema “Escanifobético”, aproveitando a deixa para dizer que é “a música que define o nosso som” e, talvez involuntariamente, deixando um sério recado para os músicos e bandas que rejeitam etiquetas. Não chegaria ao ponto de afirmar que a regra dos TRiSoNTe é não ter regras, embora sinta que fazem e tocam uma música livre do jugo de pelo menos umas quantas. De uma forma menos espartilhada ou agrilhoada e que acima de tudo garante o que é verdadeiramente fundamental: não são só os pratos da bateria de Candeias que se fazem ouvir, mas também os pratos tilintantes de um serviço da Vista Alegre, enquanto a banda, como se costuma dizer, parte a louça toda. E, acima de tudo, se diverte a fazê-lo, como uma grande desbunda.

O set aproxima-se do fim com a melodia simples e eficaz de “Push”, outro tema novo, em que a guitarra e saxofone se vão apoiando mutuamente, numa dança que permite a um e outro ter o espaço para improvisação sem que o tema perca solidez. O final, sem antes Prazeres pegar novamente no microfone para rapidamente apresentar os elementos da banda, fica por conta de “(title)”, do anterior álbum.

Termino por dizer que são vários os Prazeres (99 formas de ter orgasmos musicais?) ao ouvir esta Barriga(da) de música que quase enCandeia(s) (humildes desculpas por não conseguir enquadrar Quintino neste trocadilho). E aproveito para também eu deixar (voluntariamente) um recado: está na altura de ver estes quatro noutros fóruns, cuja programação se centra neste tipo de música, tais como a Culturgest ou o Jazz em Agosto.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Dois terços da Bandwagon de Jason Moran são um bom exemplo de como o todo não é igual à soma das partes

(Publicado originalmente aqui)

À entrada do Grande Auditório do CCB, em mais do que um sítio, lê-se o seguinte anúncio, numa folha A4 deitada, como que apoiada numa estante de música: “Por motivos alheios ao CCB, que se prendem com atrasos das companhias aéreas, o concerto desta noite será realizado em dueto: Jason Moran, piano e Nasheet Waits, bateria. Agradecemos a sua compreensão.”. A Bandwagon de Jason Moran não teve outro remédio senão actuar sem o contrabaixo/baixo eléctrico de Tarus Mateen, desfalcada à semelhança da plateia, também ela a meio gás.

Há uma certa argumentação, por vezes expendida pelos entendidos do futebol, que defende a dificuldade que algumas equipas têm em defrontar adversários em inferioridade numérica, resultante de expulsões. Trata-se de uma lógica – que, confesso, sempre me pareceu oriunda de um batatal – que assenta essencialmente em considerações de natureza psicológica dos jogadores em maioria: de um ponto de vista estritamente objectivo e racional, bem como técnico-táctico, ou mesmo aritmético-matemático, ou qualquer outro plano, não me parece que nenhuma equipa queira iniciar uma partida com menos jogadores (ou forçar cartões vermelhos) para, desta forma, adquirir uma determinada e vastamente hipotética vantagem. Se não me equivoco nas regras, o número mínimo de jogadores é 7, aproximadamente 64%, arredondado por excesso, do total de 11. A Bandwagon roçou este limiar, com apenas cerca de 67% (também arredondado por excesso) dos membros; outro membro a menos e quebraria as regras.

Na primeira vez que se dirige ao público, com o microfone depositado sobre o lado direito da estrutura do piano, Jason Moran faz a (necessariamente curta) apresentação da banda – algo que me atrevo a parafrasear como, simplesmente, “Nasheet Waits on drums!”. É uma apresentação que assenta bem a Moran, que não parece ser homem de muitas palavras em palco, mas sim de muitas notas. (O mesmo homem que usa uma pouco usual disposição do piano: toca praticamente de costas para o público, com o piano aí pelas cinco horas e meia do ponteiro do relógio.) O que não invalida que não diga coisas relevantes e com o devido impacto, tal costuma ser o apanágio dos pouco prolixos, quando falam dizem mesmo coisas. Por exemplo, o segundo objectivo desta primeira intervenção foi o de dedicar o concerto a Cecil Taylor, o pianista e poeta norte-americano, recentemente falecido, no início de Abril.

Esta é uma característica central de Moran: um assinalável respeito (mais até, uma reverência) pela tradição e pelos nomes que, antes de si, perscrutaram os caminhos do jazz, da música (círculo mais abrangente) e, mesmo até, da arte (círculo ainda mais abrangente). Uma marca que se nota não só na música mas também nas próprias iniciativas em que participa que, por vezes, englobam parcerias com outras disciplinas, como o cinema e as artes plásticas. Já para não falar nos documentários e homenagens a figuras como Thelonious Monk, talvez uma das que mais respeito lhe merecem.

Aqui estamos apenas (apenas??) cingidos ao contexto da música, através de cinco longos temas, encore incluído, que constituem o set de pouco mais de hora e meia. Longos não é um adjectivo escolhido apenas pela duração. Porque, para além da tal duração (lá está, longa), todos eles englobam, encerram em si um sem número de elementos, de ambientes, de caminhos. Uma espécie de viagem, uma epopeia por uma série de caminhos musicais diferentes.

O primeiro tema curiosamente começa sem começar, com o bastante audível esfregar de mãos de Waits antes de qualquer nota se fazer ouvir. O início é um único acorde soturno e sombrio, repetido tantas e tantas vezes com o acompanhamento das escovas na bateria, que nos transmite uma atmosfera quase lúgubre, um anticlímax pouco ortodoxo para o início de um espectáculo. Depois, progressivamente, através de um solo repleto de repetições insistentes, melódicas e rítmicas, a peça ganha um estado de espírito agitado, frenético, quase desconexo, a remeter para uma estética de free jazz. Pelo meio, devo dizer que ainda ouvi, aqui e ali, elementos de blues a querer espreitar.

Já o segundo tema começa por nos trazer algum swing (será jazz?), mas também um pouco de ragtime, que talvez sirva de ponte para o momento em que Moran, qual Cristo na cruz, estica ambos os braços para atingir, simultaneamente, os registos mais graves e agudos do piano. Permanece em ambas as regiões extremas do instrumento, uma espécie de eixo que une os pólos norte e sul, até se decidir por uma sequência de glissandos (ou será “glissandi”?), com ambas as mãos a percorrerem as teclas mais à esquerda do teclado. Termina este exercício e dá espaço total ao baterista, que arranca um solo conducente ao trecho final do tema.

Da segunda vez que se dirige ao público, entre o segundo e o terceiro temas (se a memória não me atraiçoa, na mesma altura em que ambos retiram os respectivos casacos), diz-nos (informa-nos) que ouvimos não só música do homenageado da noite, Cecil Taylor, mas também de outros como Jaky Byard, compositor e executante de múltiplos instrumentos. E, de seguida, limita-se a agradecer: há cerca de 16, 17 (ainda não chega a 20, confirma com Waits) anos que se deslocam a Portugal e, de cada vez que o fazem, encontram sempre um público interessado e receptivo à sua música. “Thank you for listening”.

Ouvimos (uma tarefa na qual, ao que parece, somos exímios) ainda a outros momentos de destaque – por exemplo, quando Moran fica sozinho em palco no início do terceiro tema – mas é o final do quarto tema, antes da saída de palco para a reentrada do encore, um quase despique entre os dois músicos de grande tensão e intensidade, que gera a reacção mais notória do público.

Para além de música, gosto de palavras e, para além de palavras, ou associado a elas, também gosto de jogos de palavras. Neste caso, o nome deste trio, que, ficámos a saber, também funciona em duo, também funcionou: a Bandwagon de Jason Moran fez, como diriam os seus conterrâneos, o público “jump on the bandwagon”. Com “b” maiúsculo ou minúsculo, tanto faz.

sábado, 5 de maio de 2018

Fazer das Tsitsipas coração

Proxy war

«She was struck by how seldom in her childhood her parents, that other other married people in her life, that other incompatible pair, had shouted at each other. They'd held their peace and let a proxy war unfold inside their daughter's head.»

The Corrections, Jonathan Franzen

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Not being a striver

«For Gary, a key element of not being a striver, a perspirer, was to dress as if he didn't have to work at all: as if he were a gentleman who just happened to enjoy coming to the office and helping other people. As if noblesse oblige.»

The Corrections, Jonathan Franzen

domingo, 22 de abril de 2018

Pole

Os termos North Pole e South Pole remetem para polacos a norte e a sul.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Mad women

Peggy: A pretty face comes along and everything goes out the window
Joan: Well I learned a long time ago not to get all my satisfaction from this job
Peggy: That's bullshit

quinta-feira, 19 de abril de 2018

segunda-feira, 16 de abril de 2018

domingo, 15 de abril de 2018

Tudo começou com um profundo estado de negação.

Vincado e, aparentemente, irredutível. Depois, lentamente, as brechas foram surgindo, como nuvens que se afastam deixando entrever o sol. Nessa altura, sem perceber bem e repleto e dúvidas, ficou reticente. Até que as reticências o conduziram a um misto de aceitação e conformismo: deu por si num estado de afirmação. Embora conseguisse agora dizer que sim, sentia-se vencido mas não convencido. Questionou-se, numa longa e árdua introspecção, sobre as razões e as motivações, num profundo estado de interrogação. Tudo terminou quando, repentinamente, após tropeçar na resposta, mergulhou num estado de exclamação. Daí para a frente, eufórico, munido da resposta que lhe dava uma certeza e lhe conferia uma certa autoridade sobre os demais, passava a vida naquilo que considera ser um modo indicativo sem, no entanto, tolerar uma reacção condicional. Por sua vez, os outros começaram a vê-lo como um tirano, constantemente em modo imperativo. Quando confrontado com essa opinião exterior, não aceitou e limitou-se a negar a evidência.