domingo, 3 de junho de 2018
sábado, 2 de junho de 2018
sexta-feira, 1 de junho de 2018
quinta-feira, 31 de maio de 2018
No hay mal menor
«Lo cierto es que no hay mal menor cuando se trata de elegir entre dos totalitarismos - es como elegir entre el sida y el cáncer terminal»
La llamada de la tribu, Mario Vargas Llosa
La llamada de la tribu, Mario Vargas Llosa
terça-feira, 29 de maio de 2018
Nova sazonalidade
As alterações climáticas vão tornar cada vez mais difícil a interpretação da sazonalidade em dados e a sua correcção.
segunda-feira, 28 de maio de 2018
Seguir os sonhos
O problema de qualquer coisa que seja dos nossos sonhos - emprego, casa, férias, casamento - é que tanto pode ser dos bons como dos pesadelos.
domingo, 27 de maio de 2018
domingo, 20 de maio de 2018
Em vão
A mão desloca-se sem pensar até ao interruptor, repete o gesto mecânico que tantas e tantas repetiu e voltou a repetir. Mas desta vez
Não foi só esta
a luz não acende como costuma, como tantas vezes fez e voltou a fazer. Apenas um brilho muito ténue que não chega para iluminar e mostrar o caminho, um desapontamento. O mesmo brilho que já apareceu antes, que já desapontou, mas que a força do hábito teima em esquecer,
Em querer esquecer,
como se a mão não soubesse que a lâmpada está fundida, já fundiu há uns dias. A mesma mão que já devia ter-se esticado e desenroscado o casquilho da lâmpada fundida e procurado outra para a substituir. E, no entanto, encontrar o bocadinho de tempo necessário para essa tarefa parece ser outra tarefa em si mesmo, uma tarefa difícil e complicada que tem o poder de evitar os sucessivos desapontamentos da mão que procura o interruptor, que se esquece por um curto momento que, desta vez,
Mais uma vez
o gesto vai ser em vão.
Não foi só esta
a luz não acende como costuma, como tantas vezes fez e voltou a fazer. Apenas um brilho muito ténue que não chega para iluminar e mostrar o caminho, um desapontamento. O mesmo brilho que já apareceu antes, que já desapontou, mas que a força do hábito teima em esquecer,
Em querer esquecer,
como se a mão não soubesse que a lâmpada está fundida, já fundiu há uns dias. A mesma mão que já devia ter-se esticado e desenroscado o casquilho da lâmpada fundida e procurado outra para a substituir. E, no entanto, encontrar o bocadinho de tempo necessário para essa tarefa parece ser outra tarefa em si mesmo, uma tarefa difícil e complicada que tem o poder de evitar os sucessivos desapontamentos da mão que procura o interruptor, que se esquece por um curto momento que, desta vez,
Mais uma vez
o gesto vai ser em vão.
quinta-feira, 17 de maio de 2018
domingo, 13 de maio de 2018
sexta-feira, 11 de maio de 2018
quinta-feira, 10 de maio de 2018
Abelhas
Aos finais de tarde, são como um enxame à saída dos centros comerciais e do McDonald's. De moto ou bicicleta, com o recipiente verde, com alças para pôr às costas, do Ubereats
quarta-feira, 9 de maio de 2018
TRiSoNTe selvagem foge da jaula e abalroa público do Somersby Out Jazz
(Publicado originalmente aqui)
Na entrada para a palavra “Bisonte” no dicionário Priberam da língua portuguesa lê-se “género de grandes bovídeos selvagens, caracterizados pela bossa do pescoço e pelo grande colar de pele lanosa.”. Já TRiSoNTe – e escrito assim, isto é, as consoantes maiúsculas e as vogais minúsculas – não consta daquele dicionário (nem de qualquer outro, tanto quanto sei), é uma ilustre desconhecida, sem aplicação prática para lá da designação desta banda que deu um valente pontapé de saída à 12ª edição do Somersby Out Jazz, no final de tarde do primeiro domingo de Maio, nos jardins da Torre de Belém.
Estará a sua origem associada aos três membros que formam este trio (passo o pleonasmo)? Ricardo Barriga (guitarra) e Gonçalo Prazeres (saxofone alto e barítono) são os mentores, materiais e espirituais, deste projecto que, talvez por esta criação a quatro mãos (mais seis cordas e não sei quantas (23?) chaves), pudesse encontrar em BiSoNTe – e apesar da definição supra-mencionada – uma designação mais apropriada, ao mesmo tempo que exclui, por completo, a possibilidade de uNiSoNTe. Inicialmente, a estes dois mentores juntaram-se Miguel Cordeiro (teclados) e Rui Pereira (bateria). No entanto, seria com Luís Candeias (bateria) que a composição da formação acabaria por se consolidar e permanecer durante largos anos. E, então, acrescento eu, TRiSoNTe passou definitivamente a ser uma designação por demais apropriada.
Antes de escrever mais uma palavra que seja, tenho que fazer uma séria declaração de interesses: sou amigo do Ricardo Barriga há muitos e muitos anos, desde que me lembro de existir, pelo que tudo o que escrever nesta crónica deverá ser visto à luz da minha potencial imparcialidade ou enviesamento.
Posto isto, a primeira observação, inevitável e totalmente incontornável, que aqui coloco, na forma interrogativa, é a seguinte: cadê o (contra)baixo? A ausência deste último é uma das características mais salientes do trio (mesmo quando foram quarteto) e que os aproxima de algumas das referências que serviram de inspiração para o projecto, como é o caso dos Human Feel de Chris Speed, Kurt Rosenwinkel, Andrew D’Angelo e Jim Black. A mim, uma formação deste género imediatamente, e quase inevitavelmente, remete para os Morphine cujo baixo de Mark Sandman, no fundo, não fazia as vezes de um baixo, dado o emprego bastante sui generis do mesmo, e que casava na perfeição com o som do saxofone barítono.
Após o primeiro disco, “Monter’s Lullaby”, editado em 2013, os TRiSoNTe têm na calha, para breve, o lançamento de um segundo, “Emergency Exit”, alguns temas dos quais a banda aproveitou para apresentar no concerto. Mas o que é mais relevante neste novo trabalho de estúdio é a alteração estrutural à dinâmica da banda que acabou por acarretar. E o elemento curioso dessa alteração é que surgiu de forma totalmente circunstancial: Candeias sugeriu experimentar a inclusão de baixo na gravação (manejado pelo próprio), algo que não estava contemplado inicialmente. O resultado foi do agrado de todos, o que explica a razão de termos quatro e não três elementos em palco nos jardins da Torre de Belém – António Quintino, no baixo eléctrico, é a mais recente aquisição do trio que, por isso, regressou ao formato de quarteto (o que remete para a possibilidade de considerar a evolução da designação para TeTRaSoNTe ou QuaDRiSoNTe).
Regressemos novamente aos jardins, cheios de lisboetas domingueiros, espraiados na relva, de copo na mão para combater o calor, alguns troncos nús e bikinis, e com o som de fundo do comboio da linha de Cascais. Com uma pontualidade britânica, às 17h, são atingidos pela melodia lenta e pesada, apoiada numa linha de baixo enrolada e quase trôpega, de “99 ways to get an orgasm”, tema com que a banda abre as (literais) hostilidades e mostra, sem rodeios, ao que vem.
Os cavalheiros deste pouco ortodoxo power trio virado quarteto não são uns meninos quaisquer – muito pelo contrário, são aquilo a que custamos chamar malta da pesada. A música desta banda está repleta da atitude e da agressividade do rock, da liberdade do free, com muito noise e dissonâncias à mistura e, claro, a improvisação do jazz. Os riffs são poderosos, com imensa convicção, seja saídos da guitarra distorcida e saturada de Barriga, seja do saxofone de Prazeres, ou dos dois instrumentos em simultâneo, tocados, como se costuma dizer, na batata.
Quando a tarefa de controlar o riff crú e poderoso é de Barriga, por vezes, é criado um contraste que faz sobressair melodias de notas longas e suaves, expostas por Prazeres. O segundo tema da tarde, “Freedy K will kill me if I stay”, um título certamente familiar para os fãs dos vários pesadelos em Elm Street, é um exemplo disso mesmo. Quando a mesma tarefa é partilhada, ganha uma cor e uma presença quase inumanas, como no terceiro tema da tarde e primeiro do novo álbum, “Cangalhada”: após uma curta introdução de guitarra que lembra a utilização de cordas soltas à la Bill Frisell, explode num riff envolvente e contagiante. Por esta altura, abalroado pelo que lhe entra nos ouvidos e faz vibrar os tímpanos, o público já acordou da letargia mole, assobia e bate palmas.
As cordas do baixo de Quintino só se deixam tocar com palheta, para garantir o ataque mais vincado de cada nota, acrescentando uma intensidade adicional e um som mais crispy. Das baquetas de Candeias raras vezes (se é que uma sequer) sai um simples e elementar swing, daqueles tradicionais. Mas sai tudo o resto, possível e imaginário, em catadupa, da subtileza das escovas na tarola a um pedal de bombo extremamente veloz, a fazer lembrar bateristas de heavy metal.
A banda só dá algum descanso ao público em temas como “Saída de emergência” e “I always tell the truth (even when I lie)” – neste último, Quintino e Candeias trocam de posições e instrumentos –, assentes numa linha de guitarra simples e eficaz, que abre as portas a um solo de Prazeres de frases curtas e soltas, com recurso a delay e outros efeitos – aliás, a utilização de variados efeitos é também uma forte marca, sortilégios que normalmente saem mais da cartola dos guitarristas mas que, neste caso, com maior ou menor intensidade, saem praticamente da cartola de todos. “Ciclo vicioso” também propicia um momento de alguma acalmia, um tema com um cariz mais melancólico e introspectivo.
A Gonçalo Prazeres cabe a responsabilidade de dizer umas palavras e fá-lo a seguir ao tema “Escanifobético”, aproveitando a deixa para dizer que é “a música que define o nosso som” e, talvez involuntariamente, deixando um sério recado para os músicos e bandas que rejeitam etiquetas. Não chegaria ao ponto de afirmar que a regra dos TRiSoNTe é não ter regras, embora sinta que fazem e tocam uma música livre do jugo de pelo menos umas quantas. De uma forma menos espartilhada ou agrilhoada e que acima de tudo garante o que é verdadeiramente fundamental: não são só os pratos da bateria de Candeias que se fazem ouvir, mas também os pratos tilintantes de um serviço da Vista Alegre, enquanto a banda, como se costuma dizer, parte a louça toda. E, acima de tudo, se diverte a fazê-lo, como uma grande desbunda.
O set aproxima-se do fim com a melodia simples e eficaz de “Push”, outro tema novo, em que a guitarra e saxofone se vão apoiando mutuamente, numa dança que permite a um e outro ter o espaço para improvisação sem que o tema perca solidez. O final, sem antes Prazeres pegar novamente no microfone para rapidamente apresentar os elementos da banda, fica por conta de “(title)”, do anterior álbum.
Termino por dizer que são vários os Prazeres (99 formas de ter orgasmos musicais?) ao ouvir esta Barriga(da) de música que quase enCandeia(s) (humildes desculpas por não conseguir enquadrar Quintino neste trocadilho). E aproveito para também eu deixar (voluntariamente) um recado: está na altura de ver estes quatro noutros fóruns, cuja programação se centra neste tipo de música, tais como a Culturgest ou o Jazz em Agosto.
Na entrada para a palavra “Bisonte” no dicionário Priberam da língua portuguesa lê-se “género de grandes bovídeos selvagens, caracterizados pela bossa do pescoço e pelo grande colar de pele lanosa.”. Já TRiSoNTe – e escrito assim, isto é, as consoantes maiúsculas e as vogais minúsculas – não consta daquele dicionário (nem de qualquer outro, tanto quanto sei), é uma ilustre desconhecida, sem aplicação prática para lá da designação desta banda que deu um valente pontapé de saída à 12ª edição do Somersby Out Jazz, no final de tarde do primeiro domingo de Maio, nos jardins da Torre de Belém.
Estará a sua origem associada aos três membros que formam este trio (passo o pleonasmo)? Ricardo Barriga (guitarra) e Gonçalo Prazeres (saxofone alto e barítono) são os mentores, materiais e espirituais, deste projecto que, talvez por esta criação a quatro mãos (mais seis cordas e não sei quantas (23?) chaves), pudesse encontrar em BiSoNTe – e apesar da definição supra-mencionada – uma designação mais apropriada, ao mesmo tempo que exclui, por completo, a possibilidade de uNiSoNTe. Inicialmente, a estes dois mentores juntaram-se Miguel Cordeiro (teclados) e Rui Pereira (bateria). No entanto, seria com Luís Candeias (bateria) que a composição da formação acabaria por se consolidar e permanecer durante largos anos. E, então, acrescento eu, TRiSoNTe passou definitivamente a ser uma designação por demais apropriada.
Antes de escrever mais uma palavra que seja, tenho que fazer uma séria declaração de interesses: sou amigo do Ricardo Barriga há muitos e muitos anos, desde que me lembro de existir, pelo que tudo o que escrever nesta crónica deverá ser visto à luz da minha potencial imparcialidade ou enviesamento.
Posto isto, a primeira observação, inevitável e totalmente incontornável, que aqui coloco, na forma interrogativa, é a seguinte: cadê o (contra)baixo? A ausência deste último é uma das características mais salientes do trio (mesmo quando foram quarteto) e que os aproxima de algumas das referências que serviram de inspiração para o projecto, como é o caso dos Human Feel de Chris Speed, Kurt Rosenwinkel, Andrew D’Angelo e Jim Black. A mim, uma formação deste género imediatamente, e quase inevitavelmente, remete para os Morphine cujo baixo de Mark Sandman, no fundo, não fazia as vezes de um baixo, dado o emprego bastante sui generis do mesmo, e que casava na perfeição com o som do saxofone barítono.
Após o primeiro disco, “Monter’s Lullaby”, editado em 2013, os TRiSoNTe têm na calha, para breve, o lançamento de um segundo, “Emergency Exit”, alguns temas dos quais a banda aproveitou para apresentar no concerto. Mas o que é mais relevante neste novo trabalho de estúdio é a alteração estrutural à dinâmica da banda que acabou por acarretar. E o elemento curioso dessa alteração é que surgiu de forma totalmente circunstancial: Candeias sugeriu experimentar a inclusão de baixo na gravação (manejado pelo próprio), algo que não estava contemplado inicialmente. O resultado foi do agrado de todos, o que explica a razão de termos quatro e não três elementos em palco nos jardins da Torre de Belém – António Quintino, no baixo eléctrico, é a mais recente aquisição do trio que, por isso, regressou ao formato de quarteto (o que remete para a possibilidade de considerar a evolução da designação para TeTRaSoNTe ou QuaDRiSoNTe).
Regressemos novamente aos jardins, cheios de lisboetas domingueiros, espraiados na relva, de copo na mão para combater o calor, alguns troncos nús e bikinis, e com o som de fundo do comboio da linha de Cascais. Com uma pontualidade britânica, às 17h, são atingidos pela melodia lenta e pesada, apoiada numa linha de baixo enrolada e quase trôpega, de “99 ways to get an orgasm”, tema com que a banda abre as (literais) hostilidades e mostra, sem rodeios, ao que vem.
Os cavalheiros deste pouco ortodoxo power trio virado quarteto não são uns meninos quaisquer – muito pelo contrário, são aquilo a que custamos chamar malta da pesada. A música desta banda está repleta da atitude e da agressividade do rock, da liberdade do free, com muito noise e dissonâncias à mistura e, claro, a improvisação do jazz. Os riffs são poderosos, com imensa convicção, seja saídos da guitarra distorcida e saturada de Barriga, seja do saxofone de Prazeres, ou dos dois instrumentos em simultâneo, tocados, como se costuma dizer, na batata.
Quando a tarefa de controlar o riff crú e poderoso é de Barriga, por vezes, é criado um contraste que faz sobressair melodias de notas longas e suaves, expostas por Prazeres. O segundo tema da tarde, “Freedy K will kill me if I stay”, um título certamente familiar para os fãs dos vários pesadelos em Elm Street, é um exemplo disso mesmo. Quando a mesma tarefa é partilhada, ganha uma cor e uma presença quase inumanas, como no terceiro tema da tarde e primeiro do novo álbum, “Cangalhada”: após uma curta introdução de guitarra que lembra a utilização de cordas soltas à la Bill Frisell, explode num riff envolvente e contagiante. Por esta altura, abalroado pelo que lhe entra nos ouvidos e faz vibrar os tímpanos, o público já acordou da letargia mole, assobia e bate palmas.
As cordas do baixo de Quintino só se deixam tocar com palheta, para garantir o ataque mais vincado de cada nota, acrescentando uma intensidade adicional e um som mais crispy. Das baquetas de Candeias raras vezes (se é que uma sequer) sai um simples e elementar swing, daqueles tradicionais. Mas sai tudo o resto, possível e imaginário, em catadupa, da subtileza das escovas na tarola a um pedal de bombo extremamente veloz, a fazer lembrar bateristas de heavy metal.
A banda só dá algum descanso ao público em temas como “Saída de emergência” e “I always tell the truth (even when I lie)” – neste último, Quintino e Candeias trocam de posições e instrumentos –, assentes numa linha de guitarra simples e eficaz, que abre as portas a um solo de Prazeres de frases curtas e soltas, com recurso a delay e outros efeitos – aliás, a utilização de variados efeitos é também uma forte marca, sortilégios que normalmente saem mais da cartola dos guitarristas mas que, neste caso, com maior ou menor intensidade, saem praticamente da cartola de todos. “Ciclo vicioso” também propicia um momento de alguma acalmia, um tema com um cariz mais melancólico e introspectivo.
A Gonçalo Prazeres cabe a responsabilidade de dizer umas palavras e fá-lo a seguir ao tema “Escanifobético”, aproveitando a deixa para dizer que é “a música que define o nosso som” e, talvez involuntariamente, deixando um sério recado para os músicos e bandas que rejeitam etiquetas. Não chegaria ao ponto de afirmar que a regra dos TRiSoNTe é não ter regras, embora sinta que fazem e tocam uma música livre do jugo de pelo menos umas quantas. De uma forma menos espartilhada ou agrilhoada e que acima de tudo garante o que é verdadeiramente fundamental: não são só os pratos da bateria de Candeias que se fazem ouvir, mas também os pratos tilintantes de um serviço da Vista Alegre, enquanto a banda, como se costuma dizer, parte a louça toda. E, acima de tudo, se diverte a fazê-lo, como uma grande desbunda.
O set aproxima-se do fim com a melodia simples e eficaz de “Push”, outro tema novo, em que a guitarra e saxofone se vão apoiando mutuamente, numa dança que permite a um e outro ter o espaço para improvisação sem que o tema perca solidez. O final, sem antes Prazeres pegar novamente no microfone para rapidamente apresentar os elementos da banda, fica por conta de “(title)”, do anterior álbum.
Termino por dizer que são vários os Prazeres (99 formas de ter orgasmos musicais?) ao ouvir esta Barriga(da) de música que quase enCandeia(s) (humildes desculpas por não conseguir enquadrar Quintino neste trocadilho). E aproveito para também eu deixar (voluntariamente) um recado: está na altura de ver estes quatro noutros fóruns, cuja programação se centra neste tipo de música, tais como a Culturgest ou o Jazz em Agosto.
terça-feira, 8 de maio de 2018
segunda-feira, 7 de maio de 2018
Dois terços da Bandwagon de Jason Moran são um bom exemplo de como o todo não é igual à soma das partes
(Publicado originalmente aqui)
À entrada do Grande Auditório do CCB, em mais do que um sítio, lê-se o seguinte anúncio, numa folha A4 deitada, como que apoiada numa estante de música: “Por motivos alheios ao CCB, que se prendem com atrasos das companhias aéreas, o concerto desta noite será realizado em dueto: Jason Moran, piano e Nasheet Waits, bateria. Agradecemos a sua compreensão.”. A Bandwagon de Jason Moran não teve outro remédio senão actuar sem o contrabaixo/baixo eléctrico de Tarus Mateen, desfalcada à semelhança da plateia, também ela a meio gás.
Há uma certa argumentação, por vezes expendida pelos entendidos do futebol, que defende a dificuldade que algumas equipas têm em defrontar adversários em inferioridade numérica, resultante de expulsões. Trata-se de uma lógica – que, confesso, sempre me pareceu oriunda de um batatal – que assenta essencialmente em considerações de natureza psicológica dos jogadores em maioria: de um ponto de vista estritamente objectivo e racional, bem como técnico-táctico, ou mesmo aritmético-matemático, ou qualquer outro plano, não me parece que nenhuma equipa queira iniciar uma partida com menos jogadores (ou forçar cartões vermelhos) para, desta forma, adquirir uma determinada e vastamente hipotética vantagem. Se não me equivoco nas regras, o número mínimo de jogadores é 7, aproximadamente 64%, arredondado por excesso, do total de 11. A Bandwagon roçou este limiar, com apenas cerca de 67% (também arredondado por excesso) dos membros; outro membro a menos e quebraria as regras.
Na primeira vez que se dirige ao público, com o microfone depositado sobre o lado direito da estrutura do piano, Jason Moran faz a (necessariamente curta) apresentação da banda – algo que me atrevo a parafrasear como, simplesmente, “Nasheet Waits on drums!”. É uma apresentação que assenta bem a Moran, que não parece ser homem de muitas palavras em palco, mas sim de muitas notas. (O mesmo homem que usa uma pouco usual disposição do piano: toca praticamente de costas para o público, com o piano aí pelas cinco horas e meia do ponteiro do relógio.) O que não invalida que não diga coisas relevantes e com o devido impacto, tal costuma ser o apanágio dos pouco prolixos, quando falam dizem mesmo coisas. Por exemplo, o segundo objectivo desta primeira intervenção foi o de dedicar o concerto a Cecil Taylor, o pianista e poeta norte-americano, recentemente falecido, no início de Abril.
Esta é uma característica central de Moran: um assinalável respeito (mais até, uma reverência) pela tradição e pelos nomes que, antes de si, perscrutaram os caminhos do jazz, da música (círculo mais abrangente) e, mesmo até, da arte (círculo ainda mais abrangente). Uma marca que se nota não só na música mas também nas próprias iniciativas em que participa que, por vezes, englobam parcerias com outras disciplinas, como o cinema e as artes plásticas. Já para não falar nos documentários e homenagens a figuras como Thelonious Monk, talvez uma das que mais respeito lhe merecem.
Aqui estamos apenas (apenas??) cingidos ao contexto da música, através de cinco longos temas, encore incluído, que constituem o set de pouco mais de hora e meia. Longos não é um adjectivo escolhido apenas pela duração. Porque, para além da tal duração (lá está, longa), todos eles englobam, encerram em si um sem número de elementos, de ambientes, de caminhos. Uma espécie de viagem, uma epopeia por uma série de caminhos musicais diferentes.
O primeiro tema curiosamente começa sem começar, com o bastante audível esfregar de mãos de Waits antes de qualquer nota se fazer ouvir. O início é um único acorde soturno e sombrio, repetido tantas e tantas vezes com o acompanhamento das escovas na bateria, que nos transmite uma atmosfera quase lúgubre, um anticlímax pouco ortodoxo para o início de um espectáculo. Depois, progressivamente, através de um solo repleto de repetições insistentes, melódicas e rítmicas, a peça ganha um estado de espírito agitado, frenético, quase desconexo, a remeter para uma estética de free jazz. Pelo meio, devo dizer que ainda ouvi, aqui e ali, elementos de blues a querer espreitar.
Já o segundo tema começa por nos trazer algum swing (será jazz?), mas também um pouco de ragtime, que talvez sirva de ponte para o momento em que Moran, qual Cristo na cruz, estica ambos os braços para atingir, simultaneamente, os registos mais graves e agudos do piano. Permanece em ambas as regiões extremas do instrumento, uma espécie de eixo que une os pólos norte e sul, até se decidir por uma sequência de glissandos (ou será “glissandi”?), com ambas as mãos a percorrerem as teclas mais à esquerda do teclado. Termina este exercício e dá espaço total ao baterista, que arranca um solo conducente ao trecho final do tema.
Da segunda vez que se dirige ao público, entre o segundo e o terceiro temas (se a memória não me atraiçoa, na mesma altura em que ambos retiram os respectivos casacos), diz-nos (informa-nos) que ouvimos não só música do homenageado da noite, Cecil Taylor, mas também de outros como Jaky Byard, compositor e executante de múltiplos instrumentos. E, de seguida, limita-se a agradecer: há cerca de 16, 17 (ainda não chega a 20, confirma com Waits) anos que se deslocam a Portugal e, de cada vez que o fazem, encontram sempre um público interessado e receptivo à sua música. “Thank you for listening”.
Ouvimos (uma tarefa na qual, ao que parece, somos exímios) ainda a outros momentos de destaque – por exemplo, quando Moran fica sozinho em palco no início do terceiro tema – mas é o final do quarto tema, antes da saída de palco para a reentrada do encore, um quase despique entre os dois músicos de grande tensão e intensidade, que gera a reacção mais notória do público.
Para além de música, gosto de palavras e, para além de palavras, ou associado a elas, também gosto de jogos de palavras. Neste caso, o nome deste trio, que, ficámos a saber, também funciona em duo, também funcionou: a Bandwagon de Jason Moran fez, como diriam os seus conterrâneos, o público “jump on the bandwagon”. Com “b” maiúsculo ou minúsculo, tanto faz.
À entrada do Grande Auditório do CCB, em mais do que um sítio, lê-se o seguinte anúncio, numa folha A4 deitada, como que apoiada numa estante de música: “Por motivos alheios ao CCB, que se prendem com atrasos das companhias aéreas, o concerto desta noite será realizado em dueto: Jason Moran, piano e Nasheet Waits, bateria. Agradecemos a sua compreensão.”. A Bandwagon de Jason Moran não teve outro remédio senão actuar sem o contrabaixo/baixo eléctrico de Tarus Mateen, desfalcada à semelhança da plateia, também ela a meio gás.
Há uma certa argumentação, por vezes expendida pelos entendidos do futebol, que defende a dificuldade que algumas equipas têm em defrontar adversários em inferioridade numérica, resultante de expulsões. Trata-se de uma lógica – que, confesso, sempre me pareceu oriunda de um batatal – que assenta essencialmente em considerações de natureza psicológica dos jogadores em maioria: de um ponto de vista estritamente objectivo e racional, bem como técnico-táctico, ou mesmo aritmético-matemático, ou qualquer outro plano, não me parece que nenhuma equipa queira iniciar uma partida com menos jogadores (ou forçar cartões vermelhos) para, desta forma, adquirir uma determinada e vastamente hipotética vantagem. Se não me equivoco nas regras, o número mínimo de jogadores é 7, aproximadamente 64%, arredondado por excesso, do total de 11. A Bandwagon roçou este limiar, com apenas cerca de 67% (também arredondado por excesso) dos membros; outro membro a menos e quebraria as regras.
Na primeira vez que se dirige ao público, com o microfone depositado sobre o lado direito da estrutura do piano, Jason Moran faz a (necessariamente curta) apresentação da banda – algo que me atrevo a parafrasear como, simplesmente, “Nasheet Waits on drums!”. É uma apresentação que assenta bem a Moran, que não parece ser homem de muitas palavras em palco, mas sim de muitas notas. (O mesmo homem que usa uma pouco usual disposição do piano: toca praticamente de costas para o público, com o piano aí pelas cinco horas e meia do ponteiro do relógio.) O que não invalida que não diga coisas relevantes e com o devido impacto, tal costuma ser o apanágio dos pouco prolixos, quando falam dizem mesmo coisas. Por exemplo, o segundo objectivo desta primeira intervenção foi o de dedicar o concerto a Cecil Taylor, o pianista e poeta norte-americano, recentemente falecido, no início de Abril.
Esta é uma característica central de Moran: um assinalável respeito (mais até, uma reverência) pela tradição e pelos nomes que, antes de si, perscrutaram os caminhos do jazz, da música (círculo mais abrangente) e, mesmo até, da arte (círculo ainda mais abrangente). Uma marca que se nota não só na música mas também nas próprias iniciativas em que participa que, por vezes, englobam parcerias com outras disciplinas, como o cinema e as artes plásticas. Já para não falar nos documentários e homenagens a figuras como Thelonious Monk, talvez uma das que mais respeito lhe merecem.
Aqui estamos apenas (apenas??) cingidos ao contexto da música, através de cinco longos temas, encore incluído, que constituem o set de pouco mais de hora e meia. Longos não é um adjectivo escolhido apenas pela duração. Porque, para além da tal duração (lá está, longa), todos eles englobam, encerram em si um sem número de elementos, de ambientes, de caminhos. Uma espécie de viagem, uma epopeia por uma série de caminhos musicais diferentes.
O primeiro tema curiosamente começa sem começar, com o bastante audível esfregar de mãos de Waits antes de qualquer nota se fazer ouvir. O início é um único acorde soturno e sombrio, repetido tantas e tantas vezes com o acompanhamento das escovas na bateria, que nos transmite uma atmosfera quase lúgubre, um anticlímax pouco ortodoxo para o início de um espectáculo. Depois, progressivamente, através de um solo repleto de repetições insistentes, melódicas e rítmicas, a peça ganha um estado de espírito agitado, frenético, quase desconexo, a remeter para uma estética de free jazz. Pelo meio, devo dizer que ainda ouvi, aqui e ali, elementos de blues a querer espreitar.
Já o segundo tema começa por nos trazer algum swing (será jazz?), mas também um pouco de ragtime, que talvez sirva de ponte para o momento em que Moran, qual Cristo na cruz, estica ambos os braços para atingir, simultaneamente, os registos mais graves e agudos do piano. Permanece em ambas as regiões extremas do instrumento, uma espécie de eixo que une os pólos norte e sul, até se decidir por uma sequência de glissandos (ou será “glissandi”?), com ambas as mãos a percorrerem as teclas mais à esquerda do teclado. Termina este exercício e dá espaço total ao baterista, que arranca um solo conducente ao trecho final do tema.
Da segunda vez que se dirige ao público, entre o segundo e o terceiro temas (se a memória não me atraiçoa, na mesma altura em que ambos retiram os respectivos casacos), diz-nos (informa-nos) que ouvimos não só música do homenageado da noite, Cecil Taylor, mas também de outros como Jaky Byard, compositor e executante de múltiplos instrumentos. E, de seguida, limita-se a agradecer: há cerca de 16, 17 (ainda não chega a 20, confirma com Waits) anos que se deslocam a Portugal e, de cada vez que o fazem, encontram sempre um público interessado e receptivo à sua música. “Thank you for listening”.
Ouvimos (uma tarefa na qual, ao que parece, somos exímios) ainda a outros momentos de destaque – por exemplo, quando Moran fica sozinho em palco no início do terceiro tema – mas é o final do quarto tema, antes da saída de palco para a reentrada do encore, um quase despique entre os dois músicos de grande tensão e intensidade, que gera a reacção mais notória do público.
Para além de música, gosto de palavras e, para além de palavras, ou associado a elas, também gosto de jogos de palavras. Neste caso, o nome deste trio, que, ficámos a saber, também funciona em duo, também funcionou: a Bandwagon de Jason Moran fez, como diriam os seus conterrâneos, o público “jump on the bandwagon”. Com “b” maiúsculo ou minúsculo, tanto faz.
domingo, 6 de maio de 2018
sábado, 5 de maio de 2018
Proxy war
«She was struck by how seldom in her childhood her parents, that other other married people in her life, that other incompatible pair, had shouted at each other. They'd held their peace and let a proxy war unfold inside their daughter's head.»
The Corrections, Jonathan Franzen
The Corrections, Jonathan Franzen
quinta-feira, 3 de maio de 2018
Not being a striver
«For Gary, a key element of not being a striver, a perspirer, was to dress as if he didn't have to work at all: as if he were a gentleman who just happened to enjoy coming to the office and helping other people. As if noblesse oblige.»
The Corrections, Jonathan Franzen
The Corrections, Jonathan Franzen
domingo, 22 de abril de 2018
sábado, 21 de abril de 2018
sexta-feira, 20 de abril de 2018
Mad women
Peggy: A pretty face comes along and everything goes out the window
Joan: Well I learned a long time ago not to get all my satisfaction from this job
Peggy: That's bullshit
Joan: Well I learned a long time ago not to get all my satisfaction from this job
Peggy: That's bullshit
quinta-feira, 19 de abril de 2018
quarta-feira, 18 de abril de 2018
terça-feira, 17 de abril de 2018
segunda-feira, 16 de abril de 2018
Sobre a informação que alegremente cedemos
Abrir o youtube sem ter a conta de google aberta dá resultados surpreendentes.
domingo, 15 de abril de 2018
Tudo começou com um profundo estado de negação.
Vincado e, aparentemente, irredutível. Depois, lentamente, as brechas foram surgindo, como nuvens que se afastam deixando entrever o sol. Nessa altura, sem perceber bem e repleto e dúvidas, ficou reticente. Até que as reticências o conduziram a um misto de aceitação e conformismo: deu por si num estado de afirmação. Embora conseguisse agora dizer que sim, sentia-se vencido mas não convencido. Questionou-se, numa longa e árdua introspecção, sobre as razões e as motivações, num profundo estado de interrogação. Tudo terminou quando, repentinamente, após tropeçar na resposta, mergulhou num estado de exclamação. Daí para a frente, eufórico, munido da resposta que lhe dava uma certeza e lhe conferia uma certa autoridade sobre os demais, passava a vida naquilo que considera ser um modo indicativo sem, no entanto, tolerar uma reacção condicional. Por sua vez, os outros começaram a vê-lo como um tirano, constantemente em modo imperativo. Quando confrontado com essa opinião exterior, não aceitou e limitou-se a negar a evidência.
sábado, 14 de abril de 2018
sexta-feira, 13 de abril de 2018
Core values
O termo "core" é um frequentador habitual de ginásios: fortalecer os músculos do "core" ou, unicamente, o "core", é um desiderato típico da patrulha do desporto. Na génese latina estava a palavra que significava "coração", palavra essa que está também na origem, por exemplo, do "coeur" francês e do "cuore" italiano. O que é interessante porque, com este ponto de vista em mente, fortalecer os músculos do "core" seria o equivalente a puxar pelo miocárdio ou coisa que o valha.
quinta-feira, 12 de abril de 2018
Puro instinto
Muitos (e longos) anos de uma vida a dar aulas de português no secundário faziam com que até na missa dividisse as orações.
quarta-feira, 11 de abril de 2018
terça-feira, 10 de abril de 2018
Piada alavancada
O recurso a calão ou sexo no humor é equivalente a uma estratégia de investimento financiada por dívida: se correr bem, o retorno é maior; se correr mal, é uma treta porque continua a ser necessário pagar a dívida. É uma espécie de piada alavancada, onde o calão ou o sexo é a dívida.
segunda-feira, 9 de abril de 2018
domingo, 8 de abril de 2018
As doze tonalidades, em simultâneo, do parabéns
Quando um grupo relativamente composto de pessoas se junta para cantar (massacrar) os parabéns, acontece amiúde que cada uma das pessoas opte, de uma forma quasi-aleatória, por cantar numa das 12 tonalidades (e, se calhar, em algumas para além destas). A actuação pode ser vista como um exercício de contraponto complexo e elaborado, por vezes com alguns elementos de cânone à mistura, que é seguramente mais difícil de executar do que se, pura e simplesmente, toda a gente cantasse em uníssono, na mesma tonalidade. Essa convergência surge, por vezes, quando se inicia a segunda estrofe da canção, na mesma altura em que tipicamente se começam a bater palmas. Tenho sempre muita dificuldade em entrar e acompanhar a cantoria: nunca sei por quem devo afinar-me, são demasiadas escolhas possíveis.
sábado, 7 de abril de 2018
sexta-feira, 6 de abril de 2018
Speak Low pregam o retro-futurismo acústico aos fiéis da Culturgest
(Publicado originalmente aqui)
A funcionária da Culturgest explica-me que o concerto foi transferido do Grande para o Pequeno Auditório. Nem é bem a mim, é a um cavalheiro desagradável, que, devido à circunstância, resolve furar a fila para reaver o diferencial do preço do bilhete enquanto a senhora me atende. A decisão de alteração da sala é acertada que, mesmo consideravelmente mais pequena, nem assim enche.
Lucia tal como Lucía em espanhol, Cadotsch como se tivesse acento na primeira sílaba e o “o” da segunda como se fosse um “u”, tal como nós, portugueses, gostamos de fazer, a torto e a direito, nos “o” que não acentuamos. A jovem cantora, de origem suíça, é acompanhada por Otis Sandsjö no saxofone tenor e Petter Eldh no contrabaixo, ambos suecos e também eles jovens. Os três entram vestidos de preto da cabeça aos pés: fico na dúvida se morreu alguém ou se vamos assistir à haka dos All Black.
Uma introdução no contrabaixo e, pouco depois, estamos a ouvir a voz de Cadotsch a cantar “Hush now, don’t explain, just say you’ll remain”. É um início directo ao assunto, sem papas na língua que, após a exposição do tema, prossegue para um solo de saxofone que, lentamente, desagua no “Speak low”, o tema que dá nome tanto a este trio, como ao seu álbum de 2016. Billie Holiday e Nina Simone são as grandes referências onde este grupo suíço/eco vai buscar as suas versões; mais à frente vamos ouvir, entre outros, “Ain’t got no”, “Deep song” e o clássico arrepiante “Strange fruit”.
Cortar a música às fatias, aos blocos e aos pedaços (não resisto: aos boCadotsch), numa espécie de dissecação de um ratinho numa aula de biologia. Com uma diferença relativamente importante: o objectivo não é deixar o pobre bicho esventrado, mas sim refazê-lo, voltar a colocar e colar tudo novamente no sítio ou, pelo menos, num qualquer sítio. Assim como o vaso de louça, uma coisa de valor, quiçá da dinastia Ming, que caiu ao chão e se escaqueirou e cujo valor – pecuniário, à partida, sentimental, à chegada – justifica um esforço aturado de puzzle acompanhado de um tubo de super-cola.
Com uma diferença: pese embora o vaso Ming que se partiu continue a ser reconhecível após ter passado pelo processo de montagem e colagem, não regressa à sua versão original. Tem agora formas um pouco diferentes, arestas aqui e ali. Sobretudo está menos liso, mais áspero e anguloso, contundente. No caso do bichito, a comparação levar-nos-ia até um rato de Frankenstein, com as marcas das cicatrizes e dos pontos onde os bocados foram cosidos.
E – apesar da estrutura da formação sem instrumento harmónico, apesar da sonoridade crua que alguns identificam com free jazz, apesar da severa desconstrução das músicas, apesar das frases repetidas na interação entre o contrabaixo e o saxofone, como se se tratasse de uma samplagem de hip hop ou do ritmo de uma bateria (ou caixa de ritmos) – o resultado final é inesperadamente melodioso, quase doce e delicado. Talvez pelo contraste, como no tema “Black is the colour of my true love’s hair”, no qual a suavidade da voz de Cadotsch sobressai na coabitação com o momento intenso do saxofonista, um solo quase rude, feito de frases entrecortadas, como um discurso espontâneo de pouco preparado, dito através de sons metalizados e repletos de harmónicos.
Pela primeira vez reparo no nome do ciclo “Isto é jazz?”, onde se insere este concerto e tantos outros. Um ciclo onde, quiçá, o mais importante é o ponto de interrogação. Uma boa pergunta, verdade seja dita, que já merecia, se não uma resposta concreta e cabal, pelo menos alguma reflexão, com a devida profundidade. “Retro-futurismo acústico”: na ausência de resposta à pergunta anterior, contentemo-nos com a auto-designação que o grupo faz da sua música. Um termo que mete algum respeito: trata-se, afinal de contas, de três palavras, que não são umas quaisquer palavras e que chegam a ter, inclusivamente, um hífen a justapor duas delas (digo-o sem, na verdade, ter uma preferência entre justaposição e a aglutinação, ambas têm os seus méritos e encantos).
Avancemos até ao final do set. Neste momento, acabamos de ouvir “Wild is the wind”, os artistas juntam-se ao fundo do palco para as vénias da praxe e saem pelo cortinado. O público aplaude com algum entusiasmo mas, antes que ficasse com ideias, as luzes da sala acendem-se e esfumam a expectativa de (sequer) um encore. Cá fora, na bancada do bengaleiro, há CDs, vinis e cassetes à venda – é oficial, o vinil (já) está démodé.
A funcionária da Culturgest explica-me que o concerto foi transferido do Grande para o Pequeno Auditório. Nem é bem a mim, é a um cavalheiro desagradável, que, devido à circunstância, resolve furar a fila para reaver o diferencial do preço do bilhete enquanto a senhora me atende. A decisão de alteração da sala é acertada que, mesmo consideravelmente mais pequena, nem assim enche.
Lucia tal como Lucía em espanhol, Cadotsch como se tivesse acento na primeira sílaba e o “o” da segunda como se fosse um “u”, tal como nós, portugueses, gostamos de fazer, a torto e a direito, nos “o” que não acentuamos. A jovem cantora, de origem suíça, é acompanhada por Otis Sandsjö no saxofone tenor e Petter Eldh no contrabaixo, ambos suecos e também eles jovens. Os três entram vestidos de preto da cabeça aos pés: fico na dúvida se morreu alguém ou se vamos assistir à haka dos All Black.
Uma introdução no contrabaixo e, pouco depois, estamos a ouvir a voz de Cadotsch a cantar “Hush now, don’t explain, just say you’ll remain”. É um início directo ao assunto, sem papas na língua que, após a exposição do tema, prossegue para um solo de saxofone que, lentamente, desagua no “Speak low”, o tema que dá nome tanto a este trio, como ao seu álbum de 2016. Billie Holiday e Nina Simone são as grandes referências onde este grupo suíço/eco vai buscar as suas versões; mais à frente vamos ouvir, entre outros, “Ain’t got no”, “Deep song” e o clássico arrepiante “Strange fruit”.
Cortar a música às fatias, aos blocos e aos pedaços (não resisto: aos boCadotsch), numa espécie de dissecação de um ratinho numa aula de biologia. Com uma diferença relativamente importante: o objectivo não é deixar o pobre bicho esventrado, mas sim refazê-lo, voltar a colocar e colar tudo novamente no sítio ou, pelo menos, num qualquer sítio. Assim como o vaso de louça, uma coisa de valor, quiçá da dinastia Ming, que caiu ao chão e se escaqueirou e cujo valor – pecuniário, à partida, sentimental, à chegada – justifica um esforço aturado de puzzle acompanhado de um tubo de super-cola.
Com uma diferença: pese embora o vaso Ming que se partiu continue a ser reconhecível após ter passado pelo processo de montagem e colagem, não regressa à sua versão original. Tem agora formas um pouco diferentes, arestas aqui e ali. Sobretudo está menos liso, mais áspero e anguloso, contundente. No caso do bichito, a comparação levar-nos-ia até um rato de Frankenstein, com as marcas das cicatrizes e dos pontos onde os bocados foram cosidos.
E – apesar da estrutura da formação sem instrumento harmónico, apesar da sonoridade crua que alguns identificam com free jazz, apesar da severa desconstrução das músicas, apesar das frases repetidas na interação entre o contrabaixo e o saxofone, como se se tratasse de uma samplagem de hip hop ou do ritmo de uma bateria (ou caixa de ritmos) – o resultado final é inesperadamente melodioso, quase doce e delicado. Talvez pelo contraste, como no tema “Black is the colour of my true love’s hair”, no qual a suavidade da voz de Cadotsch sobressai na coabitação com o momento intenso do saxofonista, um solo quase rude, feito de frases entrecortadas, como um discurso espontâneo de pouco preparado, dito através de sons metalizados e repletos de harmónicos.
Pela primeira vez reparo no nome do ciclo “Isto é jazz?”, onde se insere este concerto e tantos outros. Um ciclo onde, quiçá, o mais importante é o ponto de interrogação. Uma boa pergunta, verdade seja dita, que já merecia, se não uma resposta concreta e cabal, pelo menos alguma reflexão, com a devida profundidade. “Retro-futurismo acústico”: na ausência de resposta à pergunta anterior, contentemo-nos com a auto-designação que o grupo faz da sua música. Um termo que mete algum respeito: trata-se, afinal de contas, de três palavras, que não são umas quaisquer palavras e que chegam a ter, inclusivamente, um hífen a justapor duas delas (digo-o sem, na verdade, ter uma preferência entre justaposição e a aglutinação, ambas têm os seus méritos e encantos).
Avancemos até ao final do set. Neste momento, acabamos de ouvir “Wild is the wind”, os artistas juntam-se ao fundo do palco para as vénias da praxe e saem pelo cortinado. O público aplaude com algum entusiasmo mas, antes que ficasse com ideias, as luzes da sala acendem-se e esfumam a expectativa de (sequer) um encore. Cá fora, na bancada do bengaleiro, há CDs, vinis e cassetes à venda – é oficial, o vinil (já) está démodé.
quinta-feira, 5 de abril de 2018
quarta-feira, 4 de abril de 2018
terça-feira, 3 de abril de 2018
Soturno, sombrio, pessimista, urbano-depressivo
segunda-feira, 2 de abril de 2018
Aprenda a tocar músicas pós-modernas, tal como no tempo das jukeboxes, no Coliseu de Lisboa, e sem sair de casa, com Scott Bradlee
(Publicado originalmente aqui)
É já bastante perto do final do set que Adam Kubota (possivelmente da família dos fabricantes de tractores e máquinas de jardinagem), o único dos membros originais da formação em palco, dirige umas quantas palavras ao público. Relembra que, de uma cave em Queens e de cachets pagos em sandes de falafel, o projecto, com cinco anos de existência, foi crescendo, sobretudo através das redes sociais. E que não tinha grandes dúvidas que a ideia de Scott Bradlee – escrever arranjos para canções pop e arranjar “world class entertainers” para as executar – era uma fórmula de sucesso.
De facto, a receita desta Postmodern Jukebox, ou PMJ no acrónimo pelo qual também é conhecida e que faz lembrar uma sociedade de advogados, parece ser relativamente simples: pegar em temas que todos conhecemos e dar-lhes uma volta com arranjos que remetam para meados do século passado, para perto dos anos 20 e 30, por altura da Lei Seca nos EUA. O resto é um cuidadíssimo mise en scène que pretende retratar algo parecido com um speakeasy e – atrevo-me a acrescentar – aqui e ali, com requintes de cabaret.
Abundam no youtube filmes com interpretações que vão do “Lovefool” dos Cardigans e do “Ops I did it again” da Britney Spears, ao “Nothing else matters” dos Metallica e “Black hole sun” dos Soundgarden. A formação apresentada é maleável, adapta-se ao tema e ao respectivo arranjo: a somar à secção rítmica, que normalmente conta com o próprio Scott Bradlee ao piano, podemos ter naipes de sopros a fazer lembrar big bands, coros masculinos e femininos, formações de cordas, até soluções menos ortodoxas, como uma harpa e o sapateado a cumprir o papel de percussão.
O elemento central é, no entanto, a voz (ou, melhor dito, vozeirão) de uma ou mais divas que, elegantemente caracterizadas à época, ocupam o papel principal (e não, não me estou a referir ao da Adelaide Ferreira), projectada através de um daqueles microfones quadradões, à boa moda antiga, que relembram os primórdios da rádio.
E como se transporta esta ideia da cave do apartamento de Scott Bradlee em Queens e do youtube para um palco? Mais ou menos assim: mantém-se uma secção rítmica de base, assim como o piano (electrónico) e acrescenta-se um guitarrista (que, por vezes, pega num banjo). A estes, junta-se um trombonista e uma clarinetista que também tem um saxofone. E, posso desde já avançar, sem estragar (muito, quase nada) o que aí vem, também canta. Finalmente, arranjam-se três senhoras cantoras, munidas de três portentosas vozes, e um cantor careca que tem ainda a tarefa importante de ser uma espécie de apresentador dos Oscáres: aquece o público, introduz os restantes elementos da banda, diz piadas, etc. E, claro, como não podia deixar de ser, há um tipo que faz sapateado em cima da barra metálica, colocada no lado direito do palco, lá à frente para se ver bem, e com um par de microfones a captar o som das solas.
As luzes do Coliseu apagam-se com alguns minutos de atraso. Os elementos da banda assumem as suas posições e o tal tipo careca (vou assumir esta designação ao longo do texto porque o nome Coonio (parecido com Coolio) que tenho nas minhas notas não produz nenhum resultado aceitável numa busca no Google) surge com a energia típica de um coelho da Duracell, desejando as boas noites ao público ao mesmo tempo que, à la Cab Calloway, arranca uns quantos “hi-de-hi-de-hi-de-ho” do “Minnie the moocher”, antes de iniciar o primeiro tema da noite, “Thriller” de Michael Jackson, acompanhado ao sapateado. Detentor de uma tessitura notável, o nosso amigo careca tem uns agudos algures entre Axl Rose nos primórdios e metaleiro dos que gritam “heaaavvyyy meeetaaall” a fazer corninhos com as mãos: mais depressa parecem conseguir ferir tímpanos alheios do que produzir danos nas próprias cordas vocais.
“Lisbon, make some noise” e, após a normal reacção do público, “now that sounds like a party”. Seguem-se três temas que funcionam como apresentação, uma a uma, das três divas da noite: ao primeiro tema “You give love a bad name” de John Bon Jovi, segue-se o “Single ladies (put a ring on it)” da Beyoncé e “I’m not the only one” de Sam Smith.
Um pequeno comentário “passadeira-vermelha” ou próprio de um programa da SIC Caras: as senhoras com deslumbrantes vestidos – que, assim como o nosso amigo careca, vão trocando inúmeras vezes, ao longo das várias entradas em palco, como se estivéssemos numa passagem de modelos – quais Jessicas Rabbit, arrebatam a audiência não só com a voz sensual, mas também com o andar e os gestos lânguidos. “Gentlemen, hang on to your hats; ladies, hang on to your men”. Relembram-me a célebre imagem da Audrey Hepburn no “Breakfast at Tiffany’s”, com o cigarro na ponta de uma cigarrilha gigante.
O quinto tema é clássico dos Jet “Are you gonna be my girl”, interpretado pelo nosso amigo careca que, em abono da verdade, foi um dos seus destaques e praticamente mandou a casa abaixo, fazendo uso de toda a sua extensão vocal. A meio do tema, de joelhos no chão, tronco para trás com as costas quase a tocar no chão, a clarinetista/saxofonista faz um solo, desta vez com o segundo daqueles instrumentos, com o pé apoiado na perna estirada do cantor.
E é assim que termina aquilo que pode ser considerada a primeira parte do concerto. Feitas as apresentações iniciais e o devido aquecimento da audiência, o espectáculo entra em velocidade cruzeiro e as interacções com o público são reduzidas. Ouvimos o enorme clássico “I will survive” de Gloria Gaynor, assim como uma versão com ritmo latino do “This love” dos Maroon 5, o “Toxic” da Britney Spears, “Where are you now” do Justin Bieber, entre outros. Lembram-se quando disse que a clarinetista/saxofonista também cantava? Pois é verdade e a única vez que o fez, pelo meio dos outros temas que referi, deu-nos uma interpretação do “No surprises” dos Radiohead que, para os meus ouvidos, foi um dos grandes momentos da noite.
Tenho inevitavelmente que destacar o tema de Meghan Trainor “All about that bass”, cuja adaptação foi uma das conquistas de Scott Bradlee. Os músicos deixam os seus lugares e avançam todos até à beira do palco, já de si bem composto, uma vez que este é um tema que envolve as três cantoras. Parecem uma marching band de Nova Orleães e executam um conjunto de coreografias que, no final, conseguem arrancar uma gargalhada de umas das cantoras. E, não consigo não o fazer, tenho que voltar a destacar um tema de Radiohead, desta vez o “Creep”.
Há uma certa teatralidade em todo o desenrolar dos acontecimentos, um pouco à semelhança dos musicais americanos. A performance é toda ela planeada ao mais ínfimo pormenor, desde a set list aos números de sapateado, do guarda-roupa até, inclusivamente, às piadas, daquelas que apenas necessitam de trocar o local do concerto para funcionar em qualquer sala de espectáculos. Dos poucos momentos que me parecem ter sido fora do guião: a escorregadela e subsequente (perdoem-me a terminologia técnica) bate-cú do homem do sapateado quando fez a entrada em cena no Thriller, logo ao início. A ter sido intencional, o tipo é mesmo bom.
Chegamos ao final do set com o “Tomorrow” do filme “Annie”, uma música que tinha o condão de alegrar a pequena quando se sentia triste no orfanato. Os músicos virão ao palco ainda para dois encores: “Chandelier” de Sia e “Shake it off” de Taylor Swift. Nesta última, é pedido ao público do Coliseu, que tinha ficado de pé após uma ovação ao primeiro encore, para não se sentar e “shake what your mama gave you”.
Scott Bradlee criou uma espécie de franchise. Sem sair do conforto do lar, lança as tournées da sua banda que, apesar da rotatividade dos elementos que a compõem, mantém as características-chave do conceito de espectáculo que delineou. Esta jukebox pós-moderna leva-nos, com tanto de vintage como de kitsch, até há 100 anos atrás, mas com músicas deste presente ou, pelo menos, passado bem mais recente. Lá está, como o próprio nome indica, músicas da pós-modernidade, uma jovem nascida após a queda do Muro de Berlim. O negócio não deve estar a correr mal: apesar das cerca de duas horas de espectáculo, algo me diz que, se desse para meter mais uma moeda na jukebox e escolher mais um tema, o público não teria hesitado.
É já bastante perto do final do set que Adam Kubota (possivelmente da família dos fabricantes de tractores e máquinas de jardinagem), o único dos membros originais da formação em palco, dirige umas quantas palavras ao público. Relembra que, de uma cave em Queens e de cachets pagos em sandes de falafel, o projecto, com cinco anos de existência, foi crescendo, sobretudo através das redes sociais. E que não tinha grandes dúvidas que a ideia de Scott Bradlee – escrever arranjos para canções pop e arranjar “world class entertainers” para as executar – era uma fórmula de sucesso.
De facto, a receita desta Postmodern Jukebox, ou PMJ no acrónimo pelo qual também é conhecida e que faz lembrar uma sociedade de advogados, parece ser relativamente simples: pegar em temas que todos conhecemos e dar-lhes uma volta com arranjos que remetam para meados do século passado, para perto dos anos 20 e 30, por altura da Lei Seca nos EUA. O resto é um cuidadíssimo mise en scène que pretende retratar algo parecido com um speakeasy e – atrevo-me a acrescentar – aqui e ali, com requintes de cabaret.
Abundam no youtube filmes com interpretações que vão do “Lovefool” dos Cardigans e do “Ops I did it again” da Britney Spears, ao “Nothing else matters” dos Metallica e “Black hole sun” dos Soundgarden. A formação apresentada é maleável, adapta-se ao tema e ao respectivo arranjo: a somar à secção rítmica, que normalmente conta com o próprio Scott Bradlee ao piano, podemos ter naipes de sopros a fazer lembrar big bands, coros masculinos e femininos, formações de cordas, até soluções menos ortodoxas, como uma harpa e o sapateado a cumprir o papel de percussão.
O elemento central é, no entanto, a voz (ou, melhor dito, vozeirão) de uma ou mais divas que, elegantemente caracterizadas à época, ocupam o papel principal (e não, não me estou a referir ao da Adelaide Ferreira), projectada através de um daqueles microfones quadradões, à boa moda antiga, que relembram os primórdios da rádio.
E como se transporta esta ideia da cave do apartamento de Scott Bradlee em Queens e do youtube para um palco? Mais ou menos assim: mantém-se uma secção rítmica de base, assim como o piano (electrónico) e acrescenta-se um guitarrista (que, por vezes, pega num banjo). A estes, junta-se um trombonista e uma clarinetista que também tem um saxofone. E, posso desde já avançar, sem estragar (muito, quase nada) o que aí vem, também canta. Finalmente, arranjam-se três senhoras cantoras, munidas de três portentosas vozes, e um cantor careca que tem ainda a tarefa importante de ser uma espécie de apresentador dos Oscáres: aquece o público, introduz os restantes elementos da banda, diz piadas, etc. E, claro, como não podia deixar de ser, há um tipo que faz sapateado em cima da barra metálica, colocada no lado direito do palco, lá à frente para se ver bem, e com um par de microfones a captar o som das solas.
As luzes do Coliseu apagam-se com alguns minutos de atraso. Os elementos da banda assumem as suas posições e o tal tipo careca (vou assumir esta designação ao longo do texto porque o nome Coonio (parecido com Coolio) que tenho nas minhas notas não produz nenhum resultado aceitável numa busca no Google) surge com a energia típica de um coelho da Duracell, desejando as boas noites ao público ao mesmo tempo que, à la Cab Calloway, arranca uns quantos “hi-de-hi-de-hi-de-ho” do “Minnie the moocher”, antes de iniciar o primeiro tema da noite, “Thriller” de Michael Jackson, acompanhado ao sapateado. Detentor de uma tessitura notável, o nosso amigo careca tem uns agudos algures entre Axl Rose nos primórdios e metaleiro dos que gritam “heaaavvyyy meeetaaall” a fazer corninhos com as mãos: mais depressa parecem conseguir ferir tímpanos alheios do que produzir danos nas próprias cordas vocais.
“Lisbon, make some noise” e, após a normal reacção do público, “now that sounds like a party”. Seguem-se três temas que funcionam como apresentação, uma a uma, das três divas da noite: ao primeiro tema “You give love a bad name” de John Bon Jovi, segue-se o “Single ladies (put a ring on it)” da Beyoncé e “I’m not the only one” de Sam Smith.
Um pequeno comentário “passadeira-vermelha” ou próprio de um programa da SIC Caras: as senhoras com deslumbrantes vestidos – que, assim como o nosso amigo careca, vão trocando inúmeras vezes, ao longo das várias entradas em palco, como se estivéssemos numa passagem de modelos – quais Jessicas Rabbit, arrebatam a audiência não só com a voz sensual, mas também com o andar e os gestos lânguidos. “Gentlemen, hang on to your hats; ladies, hang on to your men”. Relembram-me a célebre imagem da Audrey Hepburn no “Breakfast at Tiffany’s”, com o cigarro na ponta de uma cigarrilha gigante.
O quinto tema é clássico dos Jet “Are you gonna be my girl”, interpretado pelo nosso amigo careca que, em abono da verdade, foi um dos seus destaques e praticamente mandou a casa abaixo, fazendo uso de toda a sua extensão vocal. A meio do tema, de joelhos no chão, tronco para trás com as costas quase a tocar no chão, a clarinetista/saxofonista faz um solo, desta vez com o segundo daqueles instrumentos, com o pé apoiado na perna estirada do cantor.
E é assim que termina aquilo que pode ser considerada a primeira parte do concerto. Feitas as apresentações iniciais e o devido aquecimento da audiência, o espectáculo entra em velocidade cruzeiro e as interacções com o público são reduzidas. Ouvimos o enorme clássico “I will survive” de Gloria Gaynor, assim como uma versão com ritmo latino do “This love” dos Maroon 5, o “Toxic” da Britney Spears, “Where are you now” do Justin Bieber, entre outros. Lembram-se quando disse que a clarinetista/saxofonista também cantava? Pois é verdade e a única vez que o fez, pelo meio dos outros temas que referi, deu-nos uma interpretação do “No surprises” dos Radiohead que, para os meus ouvidos, foi um dos grandes momentos da noite.
Tenho inevitavelmente que destacar o tema de Meghan Trainor “All about that bass”, cuja adaptação foi uma das conquistas de Scott Bradlee. Os músicos deixam os seus lugares e avançam todos até à beira do palco, já de si bem composto, uma vez que este é um tema que envolve as três cantoras. Parecem uma marching band de Nova Orleães e executam um conjunto de coreografias que, no final, conseguem arrancar uma gargalhada de umas das cantoras. E, não consigo não o fazer, tenho que voltar a destacar um tema de Radiohead, desta vez o “Creep”.
Há uma certa teatralidade em todo o desenrolar dos acontecimentos, um pouco à semelhança dos musicais americanos. A performance é toda ela planeada ao mais ínfimo pormenor, desde a set list aos números de sapateado, do guarda-roupa até, inclusivamente, às piadas, daquelas que apenas necessitam de trocar o local do concerto para funcionar em qualquer sala de espectáculos. Dos poucos momentos que me parecem ter sido fora do guião: a escorregadela e subsequente (perdoem-me a terminologia técnica) bate-cú do homem do sapateado quando fez a entrada em cena no Thriller, logo ao início. A ter sido intencional, o tipo é mesmo bom.
Chegamos ao final do set com o “Tomorrow” do filme “Annie”, uma música que tinha o condão de alegrar a pequena quando se sentia triste no orfanato. Os músicos virão ao palco ainda para dois encores: “Chandelier” de Sia e “Shake it off” de Taylor Swift. Nesta última, é pedido ao público do Coliseu, que tinha ficado de pé após uma ovação ao primeiro encore, para não se sentar e “shake what your mama gave you”.
Scott Bradlee criou uma espécie de franchise. Sem sair do conforto do lar, lança as tournées da sua banda que, apesar da rotatividade dos elementos que a compõem, mantém as características-chave do conceito de espectáculo que delineou. Esta jukebox pós-moderna leva-nos, com tanto de vintage como de kitsch, até há 100 anos atrás, mas com músicas deste presente ou, pelo menos, passado bem mais recente. Lá está, como o próprio nome indica, músicas da pós-modernidade, uma jovem nascida após a queda do Muro de Berlim. O negócio não deve estar a correr mal: apesar das cerca de duas horas de espectáculo, algo me diz que, se desse para meter mais uma moeda na jukebox e escolher mais um tema, o público não teria hesitado.
domingo, 1 de abril de 2018
sábado, 31 de março de 2018
Sôtôr
Sobre a proposta para alterar o título como nos dirigimos a médicos para poder distinguir os cursos que frequentaram: os de medicina convencional podem permanecer como doutores, tal como até agora, enquanto os da medicina tradicional chinesa podem passar a ser doutoles.
sexta-feira, 30 de março de 2018
Em miúdo ensinaram-me que não se deve dizer hall de entrada porque é um pleonasmo
Todos os halls são de entrada, diziam-se, uma afirmação que me causava confusão porque, não poucas as vezes, a entrada também serve de saída. Mais: e o facto de que também se almoça na sala-de-jantar?
quinta-feira, 29 de março de 2018
quarta-feira, 28 de março de 2018
segunda-feira, 26 de março de 2018
Parêntesis
Usamos parêntesis quando queremos acrescentar informação acessória, lateral ou secundária. Temos até a expressão "fazer um parêntesis" para afastamentos ao tema principal de uma dada conversa, como se fossem assuntos paralelos (às vezes perpendiculares) ao que está a ser discutido. Em matemática é exactamente o contrário: os parêntesis, sobrepõem-se, anulam todas as precedências anteriores (por exemplo, da multiplicação face à adição) e tornam-se eles próprios precedentes.
domingo, 25 de março de 2018
sábado, 24 de março de 2018
Octane-fuelled octave and a half
«That it is sung to a tune more suited either to a drunken karaoke night in downtown Tokyo, or perhaps the finale to a Verdi opera as a fat lady dies of consumption, is not the point. It is not the fault of the great American public that their anthem has an octane-fuelled octave and a half to it. It is regularly mangled at baseball, basketball and 'football' games by someone who won a Little League competition the year before and gets to destroy it by pitching their voice too high or too low. It is such a complex mix of chord changes that if you start wrong, you will finish wrong.»
Worth dying for, Tim Marshall
Worth dying for, Tim Marshall
sexta-feira, 23 de março de 2018
quinta-feira, 22 de março de 2018
Execução
Quando por vezes se diz que determinado intérprete está a executar uma peça de música, parece mesmo que está a matar as notas uma por uma.
quarta-feira, 21 de março de 2018
terça-feira, 20 de março de 2018
segunda-feira, 19 de março de 2018
Não faz sentido que moose seja um alce.
Onomatopeicamente falando, moose soa muito mais como uma vaca.
domingo, 18 de março de 2018
sábado, 17 de março de 2018
Roubo
«Later, over cigarettes and coffee, Perry returned to the subject of thievery. 'My friend Willie-Jay used to talk about it. He used to say that all crimes were only "varieties of theft". Murder included. When you kill a man you steal his life. I guess that makes me a pretty big thief.»
In cold blood, Truman Capote
In cold blood, Truman Capote
quinta-feira, 15 de março de 2018
terça-feira, 13 de março de 2018
Jubileus
«Surpreendo-me por ter conseguido terminar isto em segurança e diversas vezes pensei: não me vão permitir.
Termino-o num ano memorável, de duplo jubileu (e dois jubileus ligados entre si): 50 anos da revolução, que criou o Arquipélago, e 100 anos da invenção do arame farpado (1867).
O segundo jubileu passará por certo em silêncio...»
Arquipélago Gulag, Aleksandr Soljenítsin
Termino-o num ano memorável, de duplo jubileu (e dois jubileus ligados entre si): 50 anos da revolução, que criou o Arquipélago, e 100 anos da invenção do arame farpado (1867).
O segundo jubileu passará por certo em silêncio...»
Arquipélago Gulag, Aleksandr Soljenítsin
segunda-feira, 12 de março de 2018
Merecido
«Kornfeld termina o seu relato assim:
- E de um modo geral, sabe, convenci-me de que neste mundo nenhum castigo nos calha sem ser merecido. Pelos vistos, ele pode não ocorrer por aquilo de que somos realmente culpados. Mas se examinarmos a vida e reflectirmos profundamente, encontraremos sempre o nosso crime, em paga do qual o golpe nos vem agora atingir.»
Arquipélago Gulag, Aleksandr Soljenítsin
- E de um modo geral, sabe, convenci-me de que neste mundo nenhum castigo nos calha sem ser merecido. Pelos vistos, ele pode não ocorrer por aquilo de que somos realmente culpados. Mas se examinarmos a vida e reflectirmos profundamente, encontraremos sempre o nosso crime, em paga do qual o golpe nos vem agora atingir.»
Arquipélago Gulag, Aleksandr Soljenítsin
domingo, 11 de março de 2018
Mentira
«E se os vossos filhos ainda são pequenos, é preciso decidir a maneira mais segura de os educar: apresentar-lhes desde logo a mentira como verdade (para que lhes seja mais fácil viver) e nesse caso mentir sempre mesmo na presença deles; ou dizer-lhes a verdade, com perigo de que eles tropecem e falem de mais, e portanto explicar-lhes logo que a verdade mata, que fora de casa é necessário mentir, mentir sempre, como fazem o pai e a mãe.»
Arquipélago Gulag, Aleksandr Soljenítsin
Arquipélago Gulag, Aleksandr Soljenítsin
sábado, 10 de março de 2018
sexta-feira, 9 de março de 2018
quinta-feira, 8 de março de 2018
quarta-feira, 7 de março de 2018
segunda-feira, 5 de março de 2018
domingo, 4 de março de 2018
Uma fonte de música chamada (Carlos) Bica
(Publicado originalmente aqui)
Passa um bom quarto de hora das 21h30 quando as luzes da plateia do Grande Auditório da Culturgest se apagam e três vultos de preto surgem do lado esquerdo do palco. Assumem as posições enquanto do público chovem palmas de boas-vindas. Carlos Bica oferece o que me pareceu ser um lá a Daniel Erdmann para que este pudesse afinar o seu saxofone em conformidade. Ao mesmo tempo, DJ Ilvibe – nome artístico de Vincent von Schlippenbach (ora repita três vezes rapidamente) – retirava um vinil da respectiva capa e colocava-o no prato do gira-discos e, em seguida, repetiu o gesto para preparar o segundo gira-discos.
É (altamente) provável que esta seja uma formação totalmente inédita. Um cocktail de instrumentos muito pouco ortodoxo. Uma salada de frutas. Uma salsada a fazer lembrar as misturas de iguarias que se fazem nos brunchs, ao fim-de-semana, que, de outra forma, em qualquer outra refeição, nunca se encontrariam no mesmo prato.
Uma troca de olhares, com um toque de cumplicidade, entre os três pares de olhos e as primeiras notas do primeiro tema fazem-se ouvir. No contrabaixo, Bica vai construindo uma quasi-secção-rítmica, linha sobre linha (sobrepostas, paralelas?), usando um pedal de loop, um efeito que, de certa forma, parece aproximar o seu som, tornado metalizado, do do gira-discos.
O segundo tema tem como título uma referência a um programa de televisão alemão que se debruça sobre crimes não-resolvidos – XY ungelöst. Um dois, um dois três quatro e os músicos arrancam com uma linha melódica forte, carregada de ritmo. No decurso desta música, dedicada a mistérios criminais, assisto pela primeira vez (pelo menos não me recordo de outra circunstância) a um solo de DJ.
Ao longo da hora e meia de música, é interessante atentar à interacção dos diferentes instrumentos. Se observamos amiúde o contrabaixo a cumprir um papel mais próximo do que normalmente associamos à sua função tradicional, por outras vezes também assistimos ao saxofone a fazer as vezes de baixo, deixando Bica solto para tocar melodias nas cordas espessas, algumas vezes de arco em riste. Noutras circunstâncias, o som de uma bateria oriundo dos vinis de DJ Ilvibe funciona como apoio rítmico do trio, enquanto noutras as vozes e o scratch têm um papel mais activo e menos de suporte.
O último tema do set tem um nome que, se o meu francês não me deixa ficar mal, é qualquer coisa como “fais ce que tu veux, mais fais le bien”, findo o qual, no meio das palmas, uma voz feminina com sotaque nortenho, algures atrás de mim, exclama efusivamente “Bica, és o maior”. O trio acabaria ainda por regressar para o tradicional encore.
No final, ao presenciar o agradecimento da praxe – os músicos dirigem-se ao extremo do palco e fazem umas quantas vénias – recordo as palavras de Bica, transcritas no folheto oferecido à entrada para o concerto, que li enquanto esperava pela abertura das portas: “Imagino este trio como três vértices de um triângulo”. Curiosamente, a imagem que me vem à cabeça é bastante mais prosaica e, inclusivamente, parva. Dois tipos altos separados por um mais baixo no meio, todos vestidos de preto ou perto disso, fazem-me lembrar um galheteiro.
Há pouco que possa acrescentar ao que já sabemos de Carlos Bica que, com o seu contrabaixo, percorreu inúmeras estradas, caminhos e trilhos. Mais do que isso, em alguns casos, desbravou ele próprio esses caminhos e trilhos, e este trio é certamente um bom exemplo do papel inovador e explorador do músico português. Por isto, parece-me apropriada a analogia de Bica como uma fonte donde jorra música. A potes.
Passa um bom quarto de hora das 21h30 quando as luzes da plateia do Grande Auditório da Culturgest se apagam e três vultos de preto surgem do lado esquerdo do palco. Assumem as posições enquanto do público chovem palmas de boas-vindas. Carlos Bica oferece o que me pareceu ser um lá a Daniel Erdmann para que este pudesse afinar o seu saxofone em conformidade. Ao mesmo tempo, DJ Ilvibe – nome artístico de Vincent von Schlippenbach (ora repita três vezes rapidamente) – retirava um vinil da respectiva capa e colocava-o no prato do gira-discos e, em seguida, repetiu o gesto para preparar o segundo gira-discos.
É (altamente) provável que esta seja uma formação totalmente inédita. Um cocktail de instrumentos muito pouco ortodoxo. Uma salada de frutas. Uma salsada a fazer lembrar as misturas de iguarias que se fazem nos brunchs, ao fim-de-semana, que, de outra forma, em qualquer outra refeição, nunca se encontrariam no mesmo prato.
Uma troca de olhares, com um toque de cumplicidade, entre os três pares de olhos e as primeiras notas do primeiro tema fazem-se ouvir. No contrabaixo, Bica vai construindo uma quasi-secção-rítmica, linha sobre linha (sobrepostas, paralelas?), usando um pedal de loop, um efeito que, de certa forma, parece aproximar o seu som, tornado metalizado, do do gira-discos.
O segundo tema tem como título uma referência a um programa de televisão alemão que se debruça sobre crimes não-resolvidos – XY ungelöst. Um dois, um dois três quatro e os músicos arrancam com uma linha melódica forte, carregada de ritmo. No decurso desta música, dedicada a mistérios criminais, assisto pela primeira vez (pelo menos não me recordo de outra circunstância) a um solo de DJ.
Ao longo da hora e meia de música, é interessante atentar à interacção dos diferentes instrumentos. Se observamos amiúde o contrabaixo a cumprir um papel mais próximo do que normalmente associamos à sua função tradicional, por outras vezes também assistimos ao saxofone a fazer as vezes de baixo, deixando Bica solto para tocar melodias nas cordas espessas, algumas vezes de arco em riste. Noutras circunstâncias, o som de uma bateria oriundo dos vinis de DJ Ilvibe funciona como apoio rítmico do trio, enquanto noutras as vozes e o scratch têm um papel mais activo e menos de suporte.
O último tema do set tem um nome que, se o meu francês não me deixa ficar mal, é qualquer coisa como “fais ce que tu veux, mais fais le bien”, findo o qual, no meio das palmas, uma voz feminina com sotaque nortenho, algures atrás de mim, exclama efusivamente “Bica, és o maior”. O trio acabaria ainda por regressar para o tradicional encore.
No final, ao presenciar o agradecimento da praxe – os músicos dirigem-se ao extremo do palco e fazem umas quantas vénias – recordo as palavras de Bica, transcritas no folheto oferecido à entrada para o concerto, que li enquanto esperava pela abertura das portas: “Imagino este trio como três vértices de um triângulo”. Curiosamente, a imagem que me vem à cabeça é bastante mais prosaica e, inclusivamente, parva. Dois tipos altos separados por um mais baixo no meio, todos vestidos de preto ou perto disso, fazem-me lembrar um galheteiro.
Há pouco que possa acrescentar ao que já sabemos de Carlos Bica que, com o seu contrabaixo, percorreu inúmeras estradas, caminhos e trilhos. Mais do que isso, em alguns casos, desbravou ele próprio esses caminhos e trilhos, e este trio é certamente um bom exemplo do papel inovador e explorador do músico português. Por isto, parece-me apropriada a analogia de Bica como uma fonte donde jorra música. A potes.
sábado, 3 de março de 2018
Correlação negativa
Os sinais exteriores de riqueza andam, muitas vezes, de mão dada com sinais extrema pobreza interior.
sexta-feira, 2 de março de 2018
quinta-feira, 1 de março de 2018
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
Svoboda/volja
«Há ainda svoboda, a liberdade corrente de fazer o que se quiser dentro dos limites da ordem social prevalecente, e volja, o impulso absoluto e metafísico de seguir a vontade própria até ao ponto da autodestruição - como os Russos gostam de dizer: no Ocidente existe svoboda, mas nós temos volja.
Lenine 2017, Slavoj Zizek
Lenine 2017, Slavoj Zizek
terça-feira, 27 de fevereiro de 2018
Dente
«Declaro uma guerra até à morte ao chauvinismo nacional dominante. Irei devorá-lo com todos os meus dentes saudáveis assim que me consiga livrar deste terrível dente podre.
(...)
Seu,
Lenine»
Lenine 2017, Slavoj Zizek
(...)
Seu,
Lenine»
Lenine 2017, Slavoj Zizek
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018
Need for slowness
Virou-se para a cozinha alentejana depois o médico lhe ter dito que tinha de comer mais devagar.
domingo, 25 de fevereiro de 2018
Formal e atual
«É nisto que, em última análise, consiste a distinção entre liberdade «formal» e «atual»: a primeira refere-se a uma liberdade de escolha dentro das coordenadas das relações de poder já existentes, enquanto a segunda designa o local de uma intervenção que subverte estas mesmas coordenadas.»
Lenine 2017, Slavoj Zizek
Lenine 2017, Slavoj Zizek
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018
terça-feira, 20 de fevereiro de 2018
Little of everything
«'You know', I said, getting worked up now, 'one of the reasons why I feel so disjointed is that there's a little of everything in me. I can put myself in any period and feel at home in it. When I read about the Renaissance I feel like a man of the Renaissance; when I read about one of the Chinese dynasties I feel exactly like a Chinese of that epoch. Whatever the race, the period, the people, Egyptian, Aztec, Hindu or Chaldea, I'm thoroughly in it, and it's always a rich, tapestried world whose wonders are inexhaustible.»
Nexus, Henry Miller
Nexus, Henry Miller
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018
domingo, 18 de fevereiro de 2018
sábado, 17 de fevereiro de 2018
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018
Ainda não consigo olhar para aquele sítio.
Quer dizer, consigo e olho, às vezes até sem pensar, só pela força do hábito. E, quando reparo, percebo
nem é bem perceber, é mais sentir
que não consigo olhar para aquele sítio. Ainda. Sem ter aquela sensação de que já não o vejo como o via, sempre que olho está vazio de uma forma que não estava dantes, nunca antes me pareceu vazio embora, em boa verdade, estivesse sempre. Mas agora percebo
não percebo, sinto
que está vazio como nunca antes este esteve. Um vazio que entra pelos olhos adentro. Talvez daqui a uns tempos deixe de sentir
isso, sentir
que não está vazio, que está exactamente como devia estar, como sempre esteve, como sempre foi até agora. Ainda não consigo. Ainda. Mas hei-de conseguir voltar a olhar.
nem é bem perceber, é mais sentir
que não consigo olhar para aquele sítio. Ainda. Sem ter aquela sensação de que já não o vejo como o via, sempre que olho está vazio de uma forma que não estava dantes, nunca antes me pareceu vazio embora, em boa verdade, estivesse sempre. Mas agora percebo
não percebo, sinto
que está vazio como nunca antes este esteve. Um vazio que entra pelos olhos adentro. Talvez daqui a uns tempos deixe de sentir
isso, sentir
que não está vazio, que está exactamente como devia estar, como sempre esteve, como sempre foi até agora. Ainda não consigo. Ainda. Mas hei-de conseguir voltar a olhar.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
Beca
Na minha (longínqua) juventude beca significava um bocado. Dá-me uma beca daquilo, toma lá uma beca disto. Estou uma beca cansado. Isto é uma beca chato. Estar uma beca à conversa ou à palheta. Depois parece que surgiu um novo significado para dois becas ditos de enfiada: conversa. Coloquial ou fiada, segundo me parece. Palheta. Donde, hoje em dia pode dizer-se "estar uma beca na beca beca". Tenho dúvidas em relação à preposição e à necessidade de um hífen.
terça-feira, 13 de fevereiro de 2018
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
Três fases
«A ciência passa por três fases, às quais podemos chamar as fases Brahe, Kepler e Newton. Na fase Brahe, recolhemos muitos dados, como Tycho Brahe ao registar pacientemente as posições dos planetas noite após noite, ano após ano. Na fase Kepler, aplicamos leis empíricas aos dados, como Kepler fez com os movimentos planetários. Na fase Newton, descobrimos as verdades profundas. A maior parte da ciência é constituída por trabalho das fases Brahe e Kepler: os momentos Newton são raros. Atualmente, os megadados fazem o trabalho de milhares de milhões de Brahes, e a aprendizagem automática faz o trabalho de milhões de Keplers. Se - esperemos que sim - ainda estiverem para vir mais momentos Newton, será mais provável que nos cheguem dos algoritmos de aprendizagem de amanhã e não dos cientistas ainda mais sobrecarregados de amanhã, ou pelo menos de uma combinação dos dois.»
A revolução do algoritmo mestre, Pedro Domingos
A revolução do algoritmo mestre, Pedro Domingos
domingo, 11 de fevereiro de 2018
O que tu queres sei eu pá
sábado, 10 de fevereiro de 2018
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018
domingo, 4 de fevereiro de 2018
Verdade sincera
«No preciso momento em que pronunciava estas palavras, pensou como era difícil dizer a verdade e ser sincero ao mesmo tempo.»
Uma estranheza em mim, Orhan Pamuk
Uma estranheza em mim, Orhan Pamuk
sábado, 3 de fevereiro de 2018
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
Lutar
Refere-se, ainda que indirectamente, a luto na medida em que é uma luta.
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018
Incompatibilidade
Questionou e sentiu a sua misantropia em risco no dia em que percebeu que se tinha apaixonado.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
Doença efémera e cura eterna
««O amor é uma doença», sentenciou o erudito. »E o casamento é a única cura, tens razão. Mas é uma cura de que te podes arrepender, porque é como ter de tomar esse horrível quinino a vida toda mesmo depois de a febre tifóide que tiveste estar curada.»»
Uma estranheza em mim, Orhan Pamuk
Uma estranheza em mim, Orhan Pamuk
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