sexta-feira, 13 de abril de 2018

Core values

O termo "core" é um frequentador habitual de ginásios: fortalecer os músculos do "core" ou, unicamente, o "core", é um desiderato típico da patrulha do desporto. Na génese latina estava a palavra que significava "coração", palavra essa que está também na origem, por exemplo, do "coeur" francês e do "cuore" italiano. O que é interessante porque, com este ponto de vista em mente, fortalecer os músculos do "core" seria o equivalente a puxar pelo miocárdio ou coisa que o valha.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Puro instinto

Muitos (e longos) anos de uma vida a dar aulas de português no secundário faziam com que até na missa dividisse as orações.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Piada alavancada

O recurso a calão ou sexo no humor é equivalente a uma estratégia de investimento financiada por dívida: se correr bem, o retorno é maior; se correr mal, é uma treta porque continua a ser necessário pagar a dívida. É uma espécie de piada alavancada, onde o calão ou o sexo é a dívida.

domingo, 8 de abril de 2018

As doze tonalidades, em simultâneo, do parabéns

Quando um grupo relativamente composto de pessoas se junta para cantar (massacrar) os parabéns, acontece amiúde que cada uma das pessoas opte, de uma forma quasi-aleatória, por cantar numa das 12 tonalidades (e, se calhar, em algumas para além destas). A actuação pode ser vista como um exercício de contraponto complexo e elaborado, por vezes com alguns elementos de cânone à mistura, que é seguramente mais difícil de executar do que se, pura e simplesmente, toda a gente cantasse em uníssono, na mesma tonalidade. Essa convergência surge, por vezes, quando se inicia a segunda estrofe da canção, na mesma altura em que tipicamente se começam a bater palmas. Tenho sempre muita dificuldade em entrar e acompanhar a cantoria: nunca sei por quem devo afinar-me, são demasiadas escolhas possíveis.


sexta-feira, 6 de abril de 2018

Speak Low pregam o retro-futurismo acústico aos fiéis da Culturgest

(Publicado originalmente aqui)

A funcionária da Culturgest explica-me que o concerto foi transferido do Grande para o Pequeno Auditório. Nem é bem a mim, é a um cavalheiro desagradável, que, devido à circunstância, resolve furar a fila para reaver o diferencial do preço do bilhete enquanto a senhora me atende. A decisão de alteração da sala é acertada que, mesmo consideravelmente mais pequena, nem assim enche.

Lucia tal como Lucía em espanhol, Cadotsch como se tivesse acento na primeira sílaba e o “o” da segunda como se fosse um “u”, tal como nós, portugueses, gostamos de fazer, a torto e a direito, nos “o” que não acentuamos. A jovem cantora, de origem suíça, é acompanhada por Otis Sandsjö no saxofone tenor e Petter Eldh no contrabaixo, ambos suecos e também eles jovens. Os três entram vestidos de preto da cabeça aos pés: fico na dúvida se morreu alguém ou se vamos assistir à haka dos All Black.

Uma introdução no contrabaixo e, pouco depois, estamos a ouvir a voz de Cadotsch a cantar “Hush now, don’t explain, just say you’ll remain”. É um início directo ao assunto, sem papas na língua que, após a exposição do tema, prossegue para um solo de saxofone que, lentamente, desagua no “Speak low”, o tema que dá nome tanto a este trio, como ao seu álbum de 2016. Billie Holiday e Nina Simone são as grandes referências onde este grupo suíço/eco vai buscar as suas versões; mais à frente vamos ouvir, entre outros, “Ain’t got no”, “Deep song” e o clássico arrepiante “Strange fruit”.

Cortar a música às fatias, aos blocos e aos pedaços (não resisto: aos boCadotsch), numa espécie de dissecação de um ratinho numa aula de biologia. Com uma diferença relativamente importante: o objectivo não é deixar o pobre bicho esventrado, mas sim refazê-lo, voltar a colocar e colar tudo novamente no sítio ou, pelo menos, num qualquer sítio. Assim como o vaso de louça, uma coisa de valor, quiçá da dinastia Ming, que caiu ao chão e se escaqueirou e cujo valor – pecuniário, à partida, sentimental, à chegada – justifica um esforço aturado de puzzle acompanhado de um tubo de super-cola.

Com uma diferença: pese embora o vaso Ming que se partiu continue a ser reconhecível após ter passado pelo processo de montagem e colagem, não regressa à sua versão original. Tem agora formas um pouco diferentes, arestas aqui e ali. Sobretudo está menos liso, mais áspero e anguloso, contundente. No caso do bichito, a comparação levar-nos-ia até um rato de Frankenstein, com as marcas das cicatrizes e dos pontos onde os bocados foram cosidos.

E – apesar da estrutura da formação sem instrumento harmónico, apesar da sonoridade crua que alguns identificam com free jazz, apesar da severa desconstrução das músicas, apesar das frases repetidas na interação entre o contrabaixo e o saxofone, como se se tratasse de uma samplagem de hip hop ou do ritmo de uma bateria (ou caixa de ritmos) – o resultado final é inesperadamente melodioso, quase doce e delicado. Talvez pelo contraste, como no tema “Black is the colour of my true love’s hair”, no qual a suavidade da voz de Cadotsch sobressai na coabitação com o momento intenso do saxofonista, um solo quase rude, feito de frases entrecortadas, como um discurso espontâneo de pouco preparado, dito através de sons metalizados e repletos de harmónicos.

Pela primeira vez reparo no nome do ciclo “Isto é jazz?”, onde se insere este concerto e tantos outros. Um ciclo onde, quiçá, o mais importante é o ponto de interrogação. Uma boa pergunta, verdade seja dita, que já merecia, se não uma resposta concreta e cabal, pelo menos alguma reflexão, com a devida profundidade. “Retro-futurismo acústico”: na ausência de resposta à pergunta anterior, contentemo-nos com a auto-designação que o grupo faz da sua música. Um termo que mete algum respeito: trata-se, afinal de contas, de três palavras, que não são umas quaisquer palavras e que chegam a ter, inclusivamente, um hífen a justapor duas delas (digo-o sem, na verdade, ter uma preferência entre justaposição e a aglutinação, ambas têm os seus méritos e encantos).

Avancemos até ao final do set. Neste momento, acabamos de ouvir “Wild is the wind”, os artistas juntam-se ao fundo do palco para as vénias da praxe e saem pelo cortinado. O público aplaude com algum entusiasmo mas, antes que ficasse com ideias, as luzes da sala acendem-se e esfumam a expectativa de (sequer) um encore. Cá fora, na bancada do bengaleiro, há CDs, vinis e cassetes à venda – é oficial, o vinil (já) está démodé.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

XL

Em numeração romana, o quarenta é o maior. Claramente maior do que, inclusivamente, o mil.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Aprenda a tocar músicas pós-modernas, tal como no tempo das jukeboxes, no Coliseu de Lisboa, e sem sair de casa, com Scott Bradlee

(Publicado originalmente aqui)

É já bastante perto do final do set que Adam Kubota (possivelmente da família dos fabricantes de tractores e máquinas de jardinagem), o único dos membros originais da formação em palco, dirige umas quantas palavras ao público. Relembra que, de uma cave em Queens e de cachets pagos em sandes de falafel, o projecto, com cinco anos de existência, foi crescendo, sobretudo através das redes sociais. E que não tinha grandes dúvidas que a ideia de Scott Bradlee – escrever arranjos para canções pop e arranjar “world class entertainers” para as executar – era uma fórmula de sucesso.

De facto, a receita desta Postmodern Jukebox, ou PMJ no acrónimo pelo qual também é conhecida e que faz lembrar uma sociedade de advogados, parece ser relativamente simples: pegar em temas que todos conhecemos e dar-lhes uma volta com arranjos que remetam para meados do século passado, para perto dos anos 20 e 30, por altura da Lei Seca nos EUA. O resto é um cuidadíssimo mise en scène que pretende retratar algo parecido com um speakeasy e – atrevo-me a acrescentar – aqui e ali, com requintes de cabaret.

Abundam no youtube filmes com interpretações que vão do “Lovefool” dos Cardigans e do “Ops I did it again” da Britney Spears, ao “Nothing else matters” dos Metallica e “Black hole sun” dos Soundgarden. A formação apresentada é maleável, adapta-se ao tema e ao respectivo arranjo: a somar à secção rítmica, que normalmente conta com o próprio Scott Bradlee ao piano, podemos ter naipes de sopros a fazer lembrar big bands, coros masculinos e femininos, formações de cordas, até soluções menos ortodoxas, como uma harpa e o sapateado a cumprir o papel de percussão.

O elemento central é, no entanto, a voz (ou, melhor dito, vozeirão) de uma ou mais divas que, elegantemente caracterizadas à época, ocupam o papel principal (e não, não me estou a referir ao da Adelaide Ferreira), projectada através de um daqueles microfones quadradões, à boa moda antiga, que relembram os primórdios da rádio.

E como se transporta esta ideia da cave do apartamento de Scott Bradlee em Queens e do youtube para um palco? Mais ou menos assim: mantém-se uma secção rítmica de base, assim como o piano (electrónico) e acrescenta-se um guitarrista (que, por vezes, pega num banjo). A estes, junta-se um trombonista e uma clarinetista que também tem um saxofone. E, posso desde já avançar, sem estragar (muito, quase nada) o que aí vem, também canta. Finalmente, arranjam-se três senhoras cantoras, munidas de três portentosas vozes, e um cantor careca que tem ainda a tarefa importante de ser uma espécie de apresentador dos Oscáres: aquece o público, introduz os restantes elementos da banda, diz piadas, etc. E, claro, como não podia deixar de ser, há um tipo que faz sapateado em cima da barra metálica, colocada no lado direito do palco, lá à frente para se ver bem, e com um par de microfones a captar o som das solas.

As luzes do Coliseu apagam-se com alguns minutos de atraso. Os elementos da banda assumem as suas posições e o tal tipo careca (vou assumir esta designação ao longo do texto porque o nome Coonio (parecido com Coolio) que tenho nas minhas notas não produz nenhum resultado aceitável numa busca no Google) surge com a energia típica de um coelho da Duracell, desejando as boas noites ao público ao mesmo tempo que, à la Cab Calloway, arranca uns quantos “hi-de-hi-de-hi-de-ho” do “Minnie the moocher”, antes de iniciar o primeiro tema da noite, “Thriller” de Michael Jackson, acompanhado ao sapateado. Detentor de uma tessitura notável, o nosso amigo careca tem uns agudos algures entre Axl Rose nos primórdios e metaleiro dos que gritam “heaaavvyyy meeetaaall” a fazer corninhos com as mãos: mais depressa parecem conseguir ferir tímpanos alheios do que produzir danos nas próprias cordas vocais.

“Lisbon, make some noise” e, após a normal reacção do público, “now that sounds like a party”. Seguem-se três temas que funcionam como apresentação, uma a uma, das três divas da noite: ao primeiro tema “You give love a bad name” de John Bon Jovi, segue-se o “Single ladies (put a ring on it)” da Beyoncé e “I’m not the only one” de Sam Smith.

Um pequeno comentário “passadeira-vermelha” ou próprio de um programa da SIC Caras: as senhoras com deslumbrantes vestidos – que, assim como o nosso amigo careca, vão trocando inúmeras vezes, ao longo das várias entradas em palco, como se estivéssemos numa passagem de modelos – quais Jessicas Rabbit, arrebatam a audiência não só com a voz sensual, mas também com o andar e os gestos lânguidos. “Gentlemen, hang on to your hats; ladies, hang on to your men”. Relembram-me a célebre imagem da Audrey Hepburn no “Breakfast at Tiffany’s”, com o cigarro na ponta de uma cigarrilha gigante.

O quinto tema é clássico dos Jet “Are you gonna be my girl”, interpretado pelo nosso amigo careca que, em abono da verdade, foi um dos seus destaques e praticamente mandou a casa abaixo, fazendo uso de toda a sua extensão vocal. A meio do tema, de joelhos no chão, tronco para trás com as costas quase a tocar no chão, a clarinetista/saxofonista faz um solo, desta vez com o segundo daqueles instrumentos, com o pé apoiado na perna estirada do cantor.

E é assim que termina aquilo que pode ser considerada a primeira parte do concerto. Feitas as apresentações iniciais e o devido aquecimento da audiência, o espectáculo entra em velocidade cruzeiro e as interacções com o público são reduzidas. Ouvimos o enorme clássico “I will survive” de Gloria Gaynor, assim como uma versão com ritmo latino do “This love” dos Maroon 5, o “Toxic” da Britney Spears, “Where are you now” do Justin Bieber, entre outros. Lembram-se quando disse que a clarinetista/saxofonista também cantava? Pois é verdade e a única vez que o fez, pelo meio dos outros temas que referi, deu-nos uma interpretação do “No surprises” dos Radiohead que, para os meus ouvidos, foi um dos grandes momentos da noite.

Tenho inevitavelmente que destacar o tema de Meghan Trainor “All about that bass”, cuja adaptação foi uma das conquistas de Scott Bradlee. Os músicos deixam os seus lugares e avançam todos até à beira do palco, já de si bem composto, uma vez que este é um tema que envolve as três cantoras. Parecem uma marching band de Nova Orleães e executam um conjunto de coreografias que, no final, conseguem arrancar uma gargalhada de umas das cantoras. E, não consigo não o fazer, tenho que voltar a destacar um tema de Radiohead, desta vez o “Creep”.

Há uma certa teatralidade em todo o desenrolar dos acontecimentos, um pouco à semelhança dos musicais americanos. A performance é toda ela planeada ao mais ínfimo pormenor, desde a set list aos números de sapateado, do guarda-roupa até, inclusivamente, às piadas, daquelas que apenas necessitam de trocar o local do concerto para funcionar em qualquer sala de espectáculos. Dos poucos momentos que me parecem ter sido fora do guião: a escorregadela e subsequente (perdoem-me a terminologia técnica) bate-cú do homem do sapateado quando fez a entrada em cena no Thriller, logo ao início. A ter sido intencional, o tipo é mesmo bom.

Chegamos ao final do set com o “Tomorrow” do filme “Annie”, uma música que tinha o condão de alegrar a pequena quando se sentia triste no orfanato. Os músicos virão ao palco ainda para dois encores: “Chandelier” de Sia e “Shake it off” de Taylor Swift. Nesta última, é pedido ao público do Coliseu, que tinha ficado de pé após uma ovação ao primeiro encore, para não se sentar e “shake what your mama gave you”.

Scott Bradlee criou uma espécie de franchise. Sem sair do conforto do lar, lança as tournées da sua banda que, apesar da rotatividade dos elementos que a compõem, mantém as características-chave do conceito de espectáculo que delineou. Esta jukebox pós-moderna leva-nos, com tanto de vintage como de kitsch, até há 100 anos atrás, mas com músicas deste presente ou, pelo menos, passado bem mais recente. Lá está, como o próprio nome indica, músicas da pós-modernidade, uma jovem nascida após a queda do Muro de Berlim. O negócio não deve estar a correr mal: apesar das cerca de duas horas de espectáculo, algo me diz que, se desse para meter mais uma moeda na jukebox e escolher mais um tema, o público não teria hesitado.

sábado, 31 de março de 2018

Sôtôr

Sobre a proposta para alterar o título como nos dirigimos a médicos para poder distinguir os cursos que frequentaram: os de medicina convencional podem permanecer como doutores, tal como até agora, enquanto os da medicina tradicional chinesa podem passar a ser doutoles.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Em miúdo ensinaram-me que não se deve dizer hall de entrada porque é um pleonasmo

Todos os halls são de entrada, diziam-se, uma afirmação que me causava confusão porque, não poucas as vezes, a entrada também serve de saída. Mais: e o facto de que também se almoça na sala-de-jantar?

quarta-feira, 28 de março de 2018

segunda-feira, 26 de março de 2018

Parêntesis

Usamos parêntesis quando queremos acrescentar informação acessória, lateral ou secundária. Temos até a expressão "fazer um parêntesis" para afastamentos ao tema principal de uma dada conversa, como se fossem assuntos paralelos (às vezes perpendiculares) ao que está a ser discutido. Em matemática é exactamente o contrário: os parêntesis, sobrepõem-se, anulam todas as precedências anteriores (por exemplo, da multiplicação face à adição) e tornam-se eles próprios precedentes.

sábado, 24 de março de 2018

Octane-fuelled octave and a half

«That it is sung to a tune more suited either to a drunken karaoke night in downtown Tokyo, or perhaps the finale to a Verdi opera as a fat lady dies of consumption, is not the point. It is not the fault of the great American public that their anthem has an octane-fuelled octave and a half to it. It is regularly mangled at baseball, basketball and 'football' games by someone who won a Little League competition the year before and gets to destroy it by pitching their voice too high or too low. It is such a complex mix of chord changes that if you start wrong, you will finish wrong.»

Worth dying for, Tim Marshall

quinta-feira, 22 de março de 2018

Execução

Quando por vezes se diz que determinado intérprete está a executar uma peça de música, parece mesmo que está a matar as notas uma por uma.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Meio

No futebol, há jogo aéreo mas não há terrestre. E há o Marítimo.

segunda-feira, 19 de março de 2018

sábado, 17 de março de 2018

Roubo

«Later, over cigarettes and coffee, Perry returned to the subject of thievery. 'My friend Willie-Jay used to talk about it. He used to say that all crimes were only "varieties of theft". Murder included. When you kill a man you steal his life. I guess that makes me a pretty big thief.»

In cold blood, Truman Capote

terça-feira, 13 de março de 2018

Jubileus

«Surpreendo-me por ter conseguido terminar isto em segurança e diversas vezes pensei: não me vão permitir.
Termino-o num ano memorável, de duplo jubileu (e dois jubileus ligados entre si): 50 anos da revolução, que criou o Arquipélago, e 100 anos da invenção do arame farpado (1867).
O segundo jubileu passará por certo em silêncio...»

Arquipélago Gulag, Aleksandr Soljenítsin

segunda-feira, 12 de março de 2018

Merecido

«Kornfeld termina o seu relato assim:
- E de um modo geral, sabe, convenci-me de que neste mundo nenhum castigo nos calha sem ser merecido. Pelos vistos, ele pode não ocorrer por aquilo de que somos realmente culpados. Mas se examinarmos a vida e reflectirmos profundamente, encontraremos sempre o nosso crime, em paga do qual o golpe nos vem agora atingir.»

Arquipélago Gulag, Aleksandr Soljenítsin

domingo, 11 de março de 2018

Mentira

«E se os vossos filhos ainda são pequenos, é preciso decidir a maneira mais segura de os educar: apresentar-lhes desde logo a mentira como verdade (para que lhes seja mais fácil viver) e nesse caso mentir sempre mesmo na presença deles; ou dizer-lhes a verdade, com perigo de que eles tropecem e falem de mais, e portanto explicar-lhes logo que a verdade mata, que fora de casa é necessário mentir, mentir sempre, como fazem o pai e a mãe.»

Arquipélago Gulag, Aleksandr Soljenítsin

sábado, 10 de março de 2018

domingo, 4 de março de 2018

Uma fonte de música chamada (Carlos) Bica

(Publicado originalmente aqui)

Passa um bom quarto de hora das 21h30 quando as luzes da plateia do Grande Auditório da Culturgest se apagam e três vultos de preto surgem do lado esquerdo do palco. Assumem as posições enquanto do público chovem palmas de boas-vindas. Carlos Bica oferece o que me pareceu ser um lá a Daniel Erdmann para que este pudesse afinar o seu saxofone em conformidade. Ao mesmo tempo, DJ Ilvibe – nome artístico de Vincent von Schlippenbach (ora repita três vezes rapidamente) – retirava um vinil da respectiva capa e colocava-o no prato do gira-discos e, em seguida, repetiu o gesto para preparar o segundo gira-discos.

É (altamente) provável que esta seja uma formação totalmente inédita. Um cocktail de instrumentos muito pouco ortodoxo. Uma salada de frutas. Uma salsada a fazer lembrar as misturas de iguarias que se fazem nos brunchs, ao fim-de-semana, que, de outra forma, em qualquer outra refeição, nunca se encontrariam no mesmo prato.

Uma troca de olhares, com um toque de cumplicidade, entre os três pares de olhos e as primeiras notas do primeiro tema fazem-se ouvir. No contrabaixo, Bica vai construindo uma quasi-secção-rítmica, linha sobre linha (sobrepostas, paralelas?), usando um pedal de loop, um efeito que, de certa forma, parece aproximar o seu som, tornado metalizado, do do gira-discos.

O segundo tema tem como título uma referência a um programa de televisão alemão que se debruça sobre crimes não-resolvidos – XY ungelöst. Um dois, um dois três quatro e os músicos arrancam com uma linha melódica forte, carregada de ritmo. No decurso desta música, dedicada a mistérios criminais, assisto pela primeira vez (pelo menos não me recordo de outra circunstância) a um solo de DJ.

Ao longo da hora e meia de música, é interessante atentar à interacção dos diferentes instrumentos. Se observamos amiúde o contrabaixo a cumprir um papel mais próximo do que normalmente associamos à sua função tradicional, por outras vezes também assistimos ao saxofone a fazer as vezes de baixo, deixando Bica solto para tocar melodias nas cordas espessas, algumas vezes de arco em riste. Noutras circunstâncias, o som de uma bateria oriundo dos vinis de DJ Ilvibe funciona como apoio rítmico do trio, enquanto noutras as vozes e o scratch têm um papel mais activo e menos de suporte.

O último tema do set tem um nome que, se o meu francês não me deixa ficar mal, é qualquer coisa como “fais ce que tu veux, mais fais le bien”, findo o qual, no meio das palmas, uma voz feminina com sotaque nortenho, algures atrás de mim, exclama efusivamente “Bica, és o maior”. O trio acabaria ainda por regressar para o tradicional encore.

No final, ao presenciar o agradecimento da praxe – os músicos dirigem-se ao extremo do palco e fazem umas quantas vénias – recordo as palavras de Bica, transcritas no folheto oferecido à entrada para o concerto, que li enquanto esperava pela abertura das portas: “Imagino este trio como três vértices de um triângulo”. Curiosamente, a imagem que me vem à cabeça é bastante mais prosaica e, inclusivamente, parva. Dois tipos altos separados por um mais baixo no meio, todos vestidos de preto ou perto disso, fazem-me lembrar um galheteiro.

Há pouco que possa acrescentar ao que já sabemos de Carlos Bica que, com o seu contrabaixo, percorreu inúmeras estradas, caminhos e trilhos. Mais do que isso, em alguns casos, desbravou ele próprio esses caminhos e trilhos, e este trio é certamente um bom exemplo do papel inovador e explorador do músico português. Por isto, parece-me apropriada a analogia de Bica como uma fonte donde jorra música. A potes.

sábado, 3 de março de 2018

Correlação negativa

Os sinais exteriores de riqueza andam, muitas vezes, de mão dada com sinais extrema pobreza interior.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Svoboda/volja

«Há ainda svoboda, a liberdade corrente de fazer o que se quiser dentro dos limites da ordem social prevalecente, e volja, o impulso absoluto e metafísico de seguir a vontade própria até ao ponto da autodestruição - como os Russos gostam de dizer: no Ocidente existe svoboda, mas nós temos volja.

Lenine 2017, Slavoj Zizek

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Dente

«Declaro uma guerra até à morte ao chauvinismo nacional dominante. Irei devorá-lo com todos os meus dentes saudáveis assim que me consiga livrar deste terrível dente podre.
(...)
Seu,
Lenine»

Lenine 2017, Slavoj Zizek

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Need for slowness

Virou-se para a cozinha alentejana depois o médico lhe ter dito que tinha de comer mais devagar.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Formal e atual

«É nisto que, em última análise, consiste a distinção entre liberdade «formal» e «atual»: a primeira refere-se a uma liberdade de escolha dentro das coordenadas das relações de poder já existentes, enquanto a segunda designa o local de uma intervenção que subverte estas mesmas coordenadas.»

Lenine 2017, Slavoj Zizek

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Little of everything

«'You know', I said, getting worked up now, 'one of the reasons why I feel so disjointed is that there's a little of everything in me. I can put myself in any period and feel at home in it. When I read about the Renaissance I feel like a man of the Renaissance; when I read about one of the Chinese dynasties I feel exactly like a Chinese of that epoch. Whatever the race, the period, the people, Egyptian, Aztec, Hindu or Chaldea, I'm thoroughly in it, and it's always a rich, tapestried world whose wonders are inexhaustible.»

Nexus, Henry Miller

sábado, 17 de fevereiro de 2018

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Ainda não consigo olhar para aquele sítio.

Quer dizer, consigo e olho, às vezes até sem pensar, só pela força do hábito. E, quando reparo, percebo
nem é bem perceber, é mais sentir
que não consigo olhar para aquele sítio. Ainda. Sem ter aquela sensação de que já não o vejo como o via, sempre que olho está vazio de uma forma que não estava dantes, nunca antes me pareceu vazio embora, em boa verdade, estivesse sempre. Mas agora percebo
não percebo, sinto
que está vazio como nunca antes este esteve. Um vazio que entra pelos olhos adentro. Talvez daqui a uns tempos deixe de sentir
isso, sentir
que não está vazio, que está exactamente como devia estar, como sempre esteve, como sempre foi até agora. Ainda não consigo. Ainda. Mas hei-de conseguir voltar a olhar.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Beca

Na minha (longínqua) juventude beca significava um bocado. Dá-me uma beca daquilo, toma lá uma beca disto. Estou uma beca cansado. Isto é uma beca chato. Estar uma beca à conversa ou à palheta. Depois parece que surgiu um novo significado para dois becas ditos de enfiada: conversa. Coloquial ou fiada, segundo me parece. Palheta. Donde, hoje em dia pode dizer-se "estar uma beca na beca beca". Tenho dúvidas em relação à preposição e à necessidade de um hífen.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Três fases

«A ciência passa por três fases, às quais podemos chamar as fases Brahe, Kepler e Newton. Na fase Brahe, recolhemos muitos dados, como Tycho Brahe ao registar pacientemente as posições dos planetas noite após noite, ano após ano. Na fase Kepler, aplicamos leis empíricas aos dados, como Kepler fez com os movimentos planetários. Na fase Newton, descobrimos as verdades profundas. A maior parte da ciência é constituída por trabalho das fases Brahe e Kepler: os momentos Newton são raros. Atualmente, os megadados fazem o trabalho de milhares de milhões de Brahes, e a aprendizagem automática faz o trabalho de milhões de Keplers. Se - esperemos que sim - ainda estiverem para vir mais momentos Newton, será mais provável que nos cheguem dos algoritmos de aprendizagem de amanhã e não dos cientistas ainda mais sobrecarregados de amanhã, ou pelo menos de uma combinação dos dois.»

A revolução do algoritmo mestre, Pedro Domingos

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Verdade sincera

«No preciso momento em que pronunciava estas palavras, pensou como era difícil dizer a verdade e ser sincero ao mesmo tempo.»

Uma estranheza em mim, Orhan Pamuk

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Lutar

Refere-se, ainda que indirectamente, a luto na medida em que é uma luta.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Incompatibilidade

Questionou e sentiu a sua misantropia em risco no dia em que percebeu que se tinha apaixonado.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Doença efémera e cura eterna

««O amor é uma doença», sentenciou o erudito. »E o casamento é a única cura, tens razão. Mas é uma cura de que te podes arrepender, porque é como ter de tomar esse horrível quinino a vida toda mesmo depois de a febre tifóide que tiveste estar curada.»»

Uma estranheza em mim, Orhan Pamuk

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Quarteto de Ricardo Toscano conquista o grande auditório da Culturgest

(Publicado originalmente aqui)

Confiro duas vezes a informação sobre o concerto. Não, não me enganei, é mesmo no grande auditório. A Culturgest costuma reservar a sua sala mais pequena para os jovens nomes do jazz mas não neste caso. Ricardo Toscano, o saxofonista nascido em 1993 (ninguém nasceu em 93), músico em franca ascensão e de uma maturidade surpreendente, tem a plateia do grande auditório cheia para o ver tocar.

É o próprio a reconhecer o prazer e o privilégio de tocar numa das melhores salas do país. Ainda para mais a música que gosta com os seus amigos e igualmente quasi-imberbes companheiros de palco: João Pedro Coelho no piano, Romeu Tristão no contrabaixo e João Pereira na bateria. E todos aprumadinhos: fato escuro (no caso de Toscano, com um lenço no bolso), camisa branca ou clara (excepto João Pedro Coelho) com o primeiro botão aberto, sapatos castanhos. A elegância faz parte, ainda para mais num estilo de música que considera sexy.

A tela no fundo do palco enche-se de um cor-de-laranja intenso e quente, João Pedro Coelho faz uma nota pedal ao piano e o concerto arranca com um tema original de Toscano, cujo nome, se bem percebi – o que não é grande garantia – é Homília. O fundo passará a azul escuro para o segundo tema, o standard Milestones, um clássico de Miles Davis. Uma “versão estranha”, como a definirá Toscano, “mas acabámos todos juntos”, observação correcta que gera algum riso na plateia.

Toscano mete conversa connosco para introduzir o terceiro tema da noite. Fala-nos da precária saúde de Sonny Rollins que, aos 87 anos, tem uma infecção pulmonar que piora sempre que o lendário saxofonista toca. “Muito triste”. Em jeito de homenagem ao grande senhor do saxofone e ao seu enorme legado, bem como a “todos os que estão a sofrer dos pulmões nesta sala” o tema seguinte é uma balada do álbum The bridge, intitulada Where are you?, e que traz ao de cima o melhor de Romeu Tristão, a cargo de quem fica a exposição da melodia arrastada e lânguida do tema e que, chegada a hora, faz um excelente solo.

O fundo do palco fica agora vermelho e depois passa a verde, para acompanhar dois temas originais do saxofonista e que ainda não têm nome. Em relação ao segundo, explica-nos que é um tema inquieto e triste, uma espécie de grito mudo de quem grita para dentro de um saco, repleto de impotência mas também de uma vontade de transformar coisas tristes em coisas bonitas. Feliz de quem consegue transformar a tristeza em algo assim tão belo.

Um momento divertido teve lugar imediatamente após um tema de swing rápido e fundo lilás: “João Pereira pergunta se alguém no público tem uma chave de afinação de bombo”. O que é certo é que alguém se acusa lá de cima do topo da plateia, desce decididamente os degraus em direcção ao palco para entregar o objecto metálico, enquanto as luzes da sala se acendem para lhe guiar o caminho. Os músicos e o público agradecem a generosidade.

Enquanto João Pereira afina o bombo, Toscano explica-nos que têm programado para fechar o set algo de diferente que não jazz. Em resposta a um desafio que lhe foi colocado, o saxofonista preparou um arranjo de uma ária da sua ópera favorita, Tristão e Isolda. A escolha incidiu sobre a ária da morte de Isolda. Sob um fundo azul turquesa, é caso para dizer que Isolda foi morta e bem morta.

O quarteto havia de regressar mais uma vez ao palco para um encore único a evocar o grande John Coltrane com o standard My favourite things, cujos primeiros acordes arrancam de imediato uma reacção efusiva do público. Numa versão clássica do tema, cheia de intensidade, de repente reparo em João Pereira a tirar o pé do pedal do bombo e a dar chutos na pele do mesmo. Mais: a certa altura, um dos pratos está na vertical e acaba por se soltar e cair no chão. Uma performance que acaba por fazer o baterista merecer o epíteto de “demolidor de baterias”.

Ricardo Toscano e os seus companheiros colocaram o pé no palco do grande auditório da Culturgest, cada qual como um Neil Armstrong que dá um importante pequeno grande passo rumo ao futuro. Parabéns não só aos músicos mas também à Culturgest pela coragem da aposta bem ganha.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Cravas

O problema de andar com uma máquina reflex ao pescoço são os constantes pedidos de outros turistas para lhes tirar fotografias em frente a coisas.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Natural

«A cultura tende a afirmar que apenas proíbe o que não é natural. No entanto, de uma perspectiva biológica, nada há que não seja natural. O que for possível também é, por definição, natural. Um comportamento verdadeiramente contranatura, que vá contra as leis da natureza, não pode existir, por isso não necessitaria de qualquer proibição. Nenhuma cultura se deu ao trabalho de proibir os homens de fazerem a fotossíntese, as mulheres de correrem mais depressa do que a velocidade da luz ou os eletrões negativamente de serem atraídos uns pelos outros.»

Sapiens: História breve da humanidade, Yuval Noah Harari

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Norte e sul

Esperaria encontrar as célebres diferenças entre o norte e o sul de Itália, de que amiúde se ouve falar. Mas não esperava que fossem tão grandes. Ali senti que não se trata de meras diferenças, mas sim de autênticas clivagens. É surpreendente o quão diferente Nápoles pode ser da capital do país que fica a (escassos?) 200 kms.

Do aspecto da cidade e da paisagem urbana, das pessoas e até à própria forma como falam. Embora este último aspecto fosse algo que já tinha relativamente presente, fruto da convivência diária, durante um certo período de tempo, com um napolitano. Outros italianos oriundos de outras regiões do país diziam que o italiano dele era diferente e ele próprio dizia que a única língua que sabia verdadeiramente falar era o napolitano.

Depois de ler um pouco sobre a origem e a história da cidade, talvez seja mais fácil perceber o que senti. E a isto relembrando também que a Itália era um conjunto de cidades que se juntaram num país há menos de 200 anos, algo que, na qualidade de portugueses, por vezes não pensamos muito, dada a nossa uniformidade e coesão relativamente elevada. Agora se esta é uma característica de países ou territórios que se formaram da junção de cidades-Estado ou onde estas eram as formas típicas de organização, aí está uma boa pergunta para fazer a um grego.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Há uma certa beleza decadente por toda a cidade.

Ou uma decadência bela. Das ruas escuras e cinzentas às casas velhas e grafitadas. Das gentes modestas, vestidas a milhas da elegância que normalmente se associa aos italianos que dão cartas na moda. E o lixo nas ruas: a recolha de lixo continua a ser uma das actividades associadas à máfia.

E a degradação estende-se à forma como as coisas funcionam. As indicações que temos são para apanhar um comboio na estação de Montesanto até à de Garibaldi e, uma vez aí, apanhar outro comboio até Pompeia. Parecem simples e lineares e, no entanto, a viagem foi repleta de complicações não-lineares. Desde confundir a estação de funicular de Montesanto com a estação de comboios, até alguma luta com a máquina para tirar o bilhete (que acabou por ser comprado numa tabacaria por indicação do macambúzio funcionário da estação), até perceber, na estação de Garibaldi, qual a plataforma correcta. Esta última parte dificuldade pelo facto de o comboio não ter passado à hora estabelecida, mas sim com cerca de 45m de atraso.

E é diferente dos outros. Moderno, limpo, com indicação das paragens. Os inúmeros grupos de turistas trepam assim que as portas se abrem, facilmente arranjamos um lugar confortável para a viagem de menos de uma hora até à cidade das ruínas.

Quando finalmente as coisas parecem ter encarrilhado (pun intended), uma nova surpresa: já munidos com um mapa do local e um guia-audio, deparamo-nos com uma fila gigantesca para a única pessoa que vende bilhetes à entrada das ruínas. A espera é de mais de uma hora, algumas pessoas à nossa frente refilam, perdem a cabeça e gritam. Entramos já ao início da tarde.

A visita é interessante mas acabou por ser contaminada pela irritação da trabalheira implicada com a entrada no local. À saída, a chuva faz-nos apressar de regresso ao comboio. E aqui surgem as dúvidas. Pergunto a um senhor que, com muita simpatia, me explica que há duas estações em Pompeia e que em ambas podemos apanhar um comboio de regresso a Napóles. Cinquenta por cento de hipóteses e optamos, sem saber, não pela estação a que chegámos mas a outra. A diferença é que desta não parte o comboio bonito dos turistas, mas sim um a cair aos bocados, onde só vão locais, que para em muito mais estações e demora quase o dobro do tempo.

A comida acaba por nos confortar. Um restaurante com aquelas toalhas típicas aos quadrados e empregados pespinetas. A arte dos simples: pedaços de mozzarella panado, seguidos de uma margarita e uma carbonara, com vinho tinto da casa a acompanhar. E uma sobremesa cujo nome teima em me escapar. A boa disposição volta a estampar-se-nos na cara.

Nessa noite, ao regressar para o local da pernoita, deparamo-nos com uma (outra) situação caricata. Um casal chega a casa de carro: ele para o carro para ela sair e retirar um estendal de roupa estrategicamente colocado a bloquear o seu precioso lugar de estacionamento.

sábado, 20 de janeiro de 2018

A estrada circular da cidade leva-me, por alguns momentos, até à Madeira:

faixas de alcatrão repletas de curvas, subjugadas pela topografia acidentada. Uma cidade que cresce à medida que se afasta do mar e ganha altura. As dificuldades crescentes começam a surgir em catadupa assim que quando deixo esta estrada em direcção ao local da pernoita, no centro da cidade.

A luta com o Google Maps que se seguiu durou uma boa hora. Nem sempre a aplicação deu as indicações correctas e, quando deu, nem sempre foram devidamente interpretadas dada a miríade de opções disponíveis. A deambulação inicial pela cidade incluiu uma rua estreita sem saída, que obrigou a uma longa, muito desagradável e arriscada marcha-atrás, prendada com um agradável cheiro a embraiagem queimada.

À medida que vou conduzindo – nesta circunstância, sinónimo de sofrimento –, vou olhando em redor e verificando que praticamente todos os carros, apesar de na esmagadora maioria de pequenas dimensões, têm mossas, batidelas e raspões. Alguns têm pedaços de para-choque ou guarda-lamas colados com fita gomada.

Três telefonemas, algumas perguntas a transeuntes e muito vernáculo depois, o local pretendido finalmente surgiu à nossa direita. Poderia dizer que se tratava de uma rua estreita mas isso seria reiterar o óbvio. Posso acrescentar, no entanto, que não tinha saída. Mas o mais importante é que, à esquerda da parede onde terminava, se encontrava a entrada de uma garagem, que nos foi indicada para deixar a viatura.

Caracterizo a sensação de alívio ao parar o Opel Corsa naquela gruta escavada na rocha transformada em local para guardar veículos ao abster-me de adjectivar. Acrescento apenas que se trataram de dez euros por noite muito bem gastos. E que os cinco pisos, sem elevador, que se seguiram até à porta do apartamento, com um vão de escada apertado e degraus altos e irregulares foram canja de subir com armas e bagagens às costas.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Ir para fora lá fora

«Até aquilo que as pessoas consideram os seus desejos mais pessoais são quase sempre programados pela ordem imaginada. Consideremos, por exemplo, o desejo popular de fazer férias no estrangeiro. Não há nada natural ou óbvio em relação a isto. Um chimpanzé alfa jamais pensaria em usar o seu poder para ir de férias para o território de um bando chimpanzé vizinho. A elite do antigo Egipto gastava a sua fortuna a construir pirâmides e a mumificar os seus corpos mas nenhum dos seus membros pensou em ir fazer compras na Babilónia ou esqui na Fenícia. As pessoas gastam hoje muito dinheiro em férias no estrangeiro porque são verdadeiros crentes nos mitos do consumismo romântico.»

Sapiens: história breve da humanidade, Yuval Noah Harari

domingo, 14 de janeiro de 2018

25 anos

«Por entre o arame farpado dos portões, para lá de toda a zona de construção e das barreiras de arame farpado, erguia-se um Sol grande, vermelho, como que envolto em bruma. Ao lado de Chúkhov, Aliocha olha para o Sol e alegra-se, com um sorriso nos lábios. Tem as faces cavadas, vive só da ração, não ganha nada de lado nenhum; está alegre porquê? Aos domingos passa o tempo a cochichar com os outros batistas. Até parece que o campo desliza sobre eles sem fazer mossa, como a água pelas penas do pato. Deram-lhe vinte e cinco anos pela fé batista - pensarão afastá-los assim da sua fé?»

Um dia na vida de Ivan Deníssovitch, Aleksandr Soljenítsin

sábado, 13 de janeiro de 2018

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Konkatsu

«Japanese statisticians fear that the population will shrink to under 100 million by the middle of the century. If the current birth rate continues, it is even possible that by 2110 the population would have fallen below the 50 million it was in 1910. Japanese governments are trying a variety of measures to reverse the decline. A recent example is using millions of dollars of tax payers' money to fund a matchmaking service for young couples. Subsidised konkatsu parties are arranged for single men and women to meet, eat, drink and - eventually - have babies.

Prisoners of geography, Tim Marshall

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Mercator

«If you look at a world map and mentally glue Alaska onto California, then turn the USA on its head, it appears as if it would roughly fit into Africa with a few gaps here and there. In fact Africa is three times bigger than the USA. Look again at the standard Mercator map and you see that Greenland appears to be the size as Africa, and yet Africa is actually fourteen times the size of Greenland! You could fit the USA, Greenland, India, China, Spain, France, Germany and the UK into Africa and still have room for most of Eastern Europe. We know Africa is a massive land mass, but the maps rarely tell us how massive.»

Prisoners of geography, Tim Marshall

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Das meias-voltas da vida

No início, fazem esforços para que arrotemos. Mas mesmo só no início. Depois - e até ao fim - repreendem-nos pela mesma acção.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Crónica da morte anunciada

«For thirty years it has been fashionable to predict the imminent or ongoing decline of the USA. This is as wrong now as it was in the past. The planet's most successful country is about to become self-sufficient in energy, it remains the pre-eminent economic power and it spends more on research and development for its military than the overall military budget of all other NATO countries combined. Its population is not ageing as in Europe and Japan, and a 2013 Gallup study showed that 25 per cent of all people hoping to emigrate put the USA as their first choice of destination. In the same year Shanghai University listed what its experts judged the top twenty universities in the world: seventeen were in the USA.

The Prussian statesman Otto von Bismarck, in a double-edged remark, said more than a century ago that 'God takes special care of drunks, children and the United States of America." It appears still to be true.»

Prisoners of geography, Tim Marshall

sábado, 23 de dezembro de 2017

Sou um coleccionador de panfletos que pessoas simpáticas entregam na rua.

Seja de matérias políticas, religiosas e até mesmo dos curandeiros com capacidade para solucionar todo o tipo de problemas. Há dias, fui presenteado com (mais) um panfleto de testemunhas de Jeová. Nestes casos, costumo empregar um processo que se assemelha a uma corrida de estafetas: praticamente sem parar de andar, estico o braço para recolher o papel que me querem dar e, desta forma, evito a potencial conversa que perigosamente se poderia desenvolver caso incorresse na incúria de abrandar o passo.

Neste último panfleto lê-se a seguinte pergunta: "Qual é o segredo para uma família feliz", com uma imagem de um homem e uma mulher, que se olham, de perfil e, no meio, uma criança sentada, cabeça em cima da mão, com uma expressão preocupada. No interior do panfleto, uma série de sugestões, maioritariamente baseadas em histórias bíblicas, são oferecidas para combater os problemas que nos assolam.

Não é, de todo, o método mais eficiente: a forma mais fácil para descobrir o segredo de uma família é, claro está, visitar a cozinha de um restaurante chinês.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Fala-se da quadra natalícia

Mas nunca de quintilha natalícia. Ou sextilha, septilha, etc.. Ou, no sentido contrário, terceto, dístico, monóstico.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Me Hansa, vai!

Quando os primeiros europeus chegaram à região ouviram os locais referir-se àquele lago gigantesco - hoje tem uma dimensão muito menor do que tinha à altura no século XIX - como Chad. E foi assim que ficou baptizado: lago Chad. Não só vingou como também acabou oferecer a designação do país que o alberga. Acontece que, na língua original, "chad" significa precisamente lago. Ou seja, dizer lago Chad é o equivalente a dizer "lago lago".

Algo semelhante ocorre com a Liga Hanseática, a associação de cidades mercantis de há uns quantos séculos: "Hansa" significa qualquer coisa como "liga" ou "associação". Donde, pela mesma ordem de ideias, isto só pode acabar de uma forma bastante análoga. Liga Hanseática é qualquer coisa como "liga liga".