quinta-feira, 23 de março de 2017
terça-feira, 21 de março de 2017
Ao melhor estilo de McCarthy
Quando as declarações numa audiência no Congresso americano, sobre possíveis ligações de membros da campanha do actual Presidente americano à Rússia, são feitas por um director do FBI chamado, nada mais nada menos do que, Comey, então parece mesmo uma caça às bruxas.
segunda-feira, 20 de março de 2017
domingo, 19 de março de 2017
sábado, 18 de março de 2017
A invenção que falta
Auscultadores cujo fio não sempre todo emaranhado (mesmo se enrolado com cuidado) e obriga a perder uns minutos antes de cada utilização.
sexta-feira, 17 de março de 2017
Fonâmbulo sonâmbulo
Imagino um fonâmbulo que sofra de sonambulismo a atravessar o abismo em cabos de aço enquanto dorme.
quarta-feira, 15 de março de 2017
terça-feira, 14 de março de 2017
segunda-feira, 13 de março de 2017
A negação faz toda a diferença
A questão coloca-se quando o porquê passa a porque não. A mudança da formulação da pergunta altera por completo o ponto de partida e, consequentemente, a forma como se lhe responde.
O porquê parte de uma proposição negativa e obriga a que se mostre que o contrário é válido. Só assim se muda o resultado final, percorrendo todas as possibilidades para verificar se são válidas.
O porque não parte do princípio oposto, de que a proposição é positiva. E, por isso, precisa, ao contrário, de uma razão (basta uma) que o destrua o raciocínio para evitar o resultado. É uma espécie de redução ao absurdo invertida.
O porquê parte de uma proposição negativa e obriga a que se mostre que o contrário é válido. Só assim se muda o resultado final, percorrendo todas as possibilidades para verificar se são válidas.
O porque não parte do princípio oposto, de que a proposição é positiva. E, por isso, precisa, ao contrário, de uma razão (basta uma) que o destrua o raciocínio para evitar o resultado. É uma espécie de redução ao absurdo invertida.
domingo, 12 de março de 2017
A troca do "o" pelo "e" (mantendo o acento)
Nos mercados financeiros, aquilo que muitas vezes se caracteriza como histórico não é mais do que apenas histérico.
sábado, 11 de março de 2017
A troca entre o "n" e "r" faz toda a diferença.
Em inglês, a palavra tender pode ser usada ou para classificar uma pessoa ou para dar uma indicação sobre a rigidez de um bife. No espanhol que nos é tão próximo, tierno também pode ser uma pessoa como carne. Já para nós, no primeiro caso, seria empregue terno - se bem que também é possível, com outro significado, a alguém ser tenro - e, no segundo, tenro - dificilmente um bife pode ser terno.
sexta-feira, 10 de março de 2017
quinta-feira, 9 de março de 2017
quarta-feira, 8 de março de 2017
terça-feira, 7 de março de 2017
Como um quadro
«A mim, a única coisa que não me aborrece é ver o trigo amarelecer. Passei tanta fome na minha vida, que a coisa de que mais gosto é ver como o trigo amadurece, como as espigas baloiçam. Para mim, isso é como para vocês um quadro num museu...»
O fim do homem soviético, Svetlana Aleksievitch
O fim do homem soviético, Svetlana Aleksievitch
segunda-feira, 6 de março de 2017
Stars fell
Ainda só estávamos no aperitivo e já falávamos sobre as últimas coisas que descobrimos e o que andamos a ouvir. E daí continuámos a conversa quase o jantar todo. Sobre aquilo que a música significa, como a sentimos. Sobre as vidas, muitas vezes atribuladas e trágicas, dos músicos. Até sobre a forma como a música fortalece as ligações entre os dois hemisférios do cérebro.
Não há muitas pessoas com quem possa falar sobre música
diz-me como uma quase lamentação, embora acrescente que tem um grupo de amigos devidamente encartados. Varremos um conjunto de nomes – Parker, Billie, Bill Evans, Jobim, Stravinsky – e a lista parece-me agora curta. Por vezes interrompemos quando o tipo do piano, fora da nossa vista, toca uns acordes que chamam a atenção e eu
All the things you are
O tema está no primeiro A e ele
Agora vai a dó,
E, já os dois cantamos a melodia quando, no final do segundo A, os dois ao mesmo tempo
Agora sol
e, passado pouco tempo
Mi
E desatamos a rir, confrontados com esta cumplicidade de quem sabe um segredo que, por definição, os outros não sabem ou fala uma língua incompreensível a terceiros. Como chegámos ao Cannonball Adderley não me lembro, mas foi dele que partimos para o Freddie Freeloader. Segunda faixa do álbum que é a referência máxima, há quem diga que é dedicada a um tipo chamado Freddie que gostava de ver Miles e a restante trupe tocar sem pagar. O tema surge-nos de imediato – mãos de dedos esticados a tocar as teclas de pianos imaginários, as válvulas e pistões de sopros inexistentes – assim como as primeiras notas do solo de Winton Kelly, que substitui Bill Evans ao piano só neste tema.
E é assim que comparamos os solos do Coltrane e do Cannonball. Falamos da intensidade, do groove do Cannonball que, em certos contextos, funciona melhor que o Coltrane e consegue mesmo ofuscá-lo um pouco. Uma bomba, literalmente.
Já ouviste o Cannonball em Chicago?
Praticamente o mesmo quinteto que se juntou ao Miles. Digo-lhe
Não conheço
E ele
Tens de ouvir,
enquanto tomo nota de mais outra recomendação.
Não há muitas pessoas com quem possa falar sobre música
diz-me como uma quase lamentação, embora acrescente que tem um grupo de amigos devidamente encartados. Varremos um conjunto de nomes – Parker, Billie, Bill Evans, Jobim, Stravinsky – e a lista parece-me agora curta. Por vezes interrompemos quando o tipo do piano, fora da nossa vista, toca uns acordes que chamam a atenção e eu
All the things you are
O tema está no primeiro A e ele
Agora vai a dó,
E, já os dois cantamos a melodia quando, no final do segundo A, os dois ao mesmo tempo
Agora sol
e, passado pouco tempo
Mi
E desatamos a rir, confrontados com esta cumplicidade de quem sabe um segredo que, por definição, os outros não sabem ou fala uma língua incompreensível a terceiros. Como chegámos ao Cannonball Adderley não me lembro, mas foi dele que partimos para o Freddie Freeloader. Segunda faixa do álbum que é a referência máxima, há quem diga que é dedicada a um tipo chamado Freddie que gostava de ver Miles e a restante trupe tocar sem pagar. O tema surge-nos de imediato – mãos de dedos esticados a tocar as teclas de pianos imaginários, as válvulas e pistões de sopros inexistentes – assim como as primeiras notas do solo de Winton Kelly, que substitui Bill Evans ao piano só neste tema.
E é assim que comparamos os solos do Coltrane e do Cannonball. Falamos da intensidade, do groove do Cannonball que, em certos contextos, funciona melhor que o Coltrane e consegue mesmo ofuscá-lo um pouco. Uma bomba, literalmente.
Já ouviste o Cannonball em Chicago?
Praticamente o mesmo quinteto que se juntou ao Miles. Digo-lhe
Não conheço
E ele
Tens de ouvir,
enquanto tomo nota de mais outra recomendação.
domingo, 5 de março de 2017
A fase da procrastinação é como qualquer outra.
E serve um propósito mais do que justificado: é observadora, atenta, contemplativa para, dessa forma, ajudar a reunir os elementos para as fases empreendedoras subsequentes. Um trabalho fundamental em que a característica mais importante é a curiosidade. Pode é, pela própria natureza da tarefa, demorar bastante para lá do que seria necessário para uma suficientemente aturada e completa recolha de elementos.
1967: um festim de eletricidade, LSD e magnífica música psicadélica
sábado, 4 de março de 2017
sexta-feira, 3 de março de 2017
quarta-feira, 1 de março de 2017
terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
Da leveza
É um contra-senso: aquilo que se designa por drogas pesadas é normalmente administrado em doses que não ultrapassam alguns gramas.
domingo, 26 de fevereiro de 2017
Mehldau, Grenadier e Ballard ou uma crónica sem título sobre um trio que dispensa títulos
(Publicado originalmente aqui)
Os bilhetes para o Grande Auditório do Centro Cultural de Belém esgotaram para ver um habitué dos palcos portugueses. Brad Mehldau regressou, desta vez em trio, com Larry Grenadier no contrabaixo e Jeff Ballard na bateria. O trio juntou-se para a gravação do mais recente álbum, “Blues and Ballads”. Trata-se do quinto desta parceria, que começou em 2005 com “Day is done”, que marca a estreia de Jeff Ballard aos comandos da bateria deste trio, substituindo Jorge Rossy.
A receita é simples e muito pouco diferente daquilo que já temos visto inúmeras vezes: versões soberbas de um conjunto de músicas clássicas. Do bebop intenso de “Cheryl” de Charlie Parker ao tom bluesy das dores de amor de “Since I fell for you”, popularizado por Lenny Welch, passando pelo famosíssimo “These foolish things”. Nas também habituais incursões pelo mundo da pop/rock, os homenageados são, desta vez, os Beatles, através do tema “And I love her”.
Nunca é pêra doce pegar em temas deste calibre. Porque são o oposto de mares nunca dantes navegados, são o estreito de Malaca ou o Canal do Suez. Talvez seja esta – e perdoem-me o pleonasmo intencional – a marca mais marcante de Mehldau e deste trio: a reinvenção da roda. Ir além da Taprobana. Isto é, conseguir reinventar aquilo que já parece mais do que inventando, totalmente exaurido, dando uma certa imprevisibilidade a algo que, de tão trilhado que já foi, não deveria, pela lógica das coisas, gerar nada de novo.
E porém gera, diria Galileu Galilei, se lhe dessem a ouvir esta gravação sem correr nenhum risco de ir parar a uma fogueira inquisitória. E a forma como essa imprevisibilidade é atingida é outro ponto de destaque. Em muitos momentos, o jazz – a música? – avançou de mãos dadas com a complexidade, com a exigência, com a sofisticação. É, afinal de contas, um sentido que parece natural, não só na arte como, também – melhor exemplo será difícil – na ciência. Assim como em coisas mais mundanas como carros e telemóveis. Não se trata de uma verdade absoluta, claro: noutras alturas, deu um passo à frente dando, possivelmente, um atrás: tirando o pé do acelerador, voltando às raízes e explorando a simplicidade – penso no jazz modal, por exemplo. Nisso e no ecran táctil do iPhone. Há quem ao chame genericamente ao processo kiss it simple, stupid.
É esta última abordagem que este trio parece empregar. Digo trio embora, a César o que é de César, muito deste processo é da inteira responsabilidade de Mehldau: a capacidade de conseguir tirar tanto de uma estrutura tão simples, sem esgotar, sem parecer repetitivo, redundante ou aborrecido. Tanto sumo a partir da mesma laranja. Que muitos poderiam, à partida, considerar seca e ressequida. Quase parece contradizer a expressão que afiança a necessidade de ovos para fazer omeletes.
Mas regressemos ao auditório, onde os músicos entretanto subiram ao palco, Mehldau fazendo as suas típicas vénias, o “thank you” que conseguimos ver-lhe nos lábios mas não ouvir. E começaram por tocar aquilo que, mais lá para a frente, Mehldau irá designar por “new music”.
E música nova porque, para a primeira parte do set, o trio reserva-nos essencialmente o futuro, temas novos da autoria do pianista. Alguns títulos: “Gentle John”, “Strange gift”. Outros casos em que, de tão recentes, como o terceiro tema da noite, as composições são referidas como “no title yet”. E ainda uma interessante dedicatória ao guitarrista alemão Wolfgang Muthspiel, através do tema “Wolfgang’s waltz”, que consta do álbum “Rising Grace”, em que tanto Mehldau como Grenadier participaram.
Após este primeiro bloco de música maioritariamente inédita, temos a primeira e única incursão pelo álbum “Blues and Ballads”: o trio presenteia a audiência com o tal “And I love her”. A versão ao vivo é lindíssima, com um trabalho notável de Ballard. Surpreende mesmo para quem, como eu, já ouviu a gravação do tema de Lennon e McCartney inúmeras vezes. É caso para dizer “we do love it”.
Voltamos a outro caso de uma composição órfã de título, a segunda do género da noite. Mehldau afasta o corpo do piano, em direcção ao público, apenas a mão esquerda a tocar as teclas, atestando a capacidade do pianista de explorar um mesmo motivo até ao limite, até à exaustão, enquanto deixa o espaço suficiente para encarregar a secção rítmica de ocupar uma posição dianteira na condução.
“We appreciate your good energy. Good energy is very important these days”, diz-nos Mehldau antes de se virar novamente para o teclado e iniciar o “Si tu vois ma mère” de Sidney Bechet, o primeiro saxofonista de jazz a atingir notoriedade. Se a meio do tema o solo de Grenadier já teve o condão de arrancar uma estridente ovação, o final com Mehldau totalmente sozinho durante minutos é um dos pontos altos da noite. À primeira saída de cena dos três músicos segue-se o primeiro encore com “West Coast Blues” e, após nova saída, um segundo encore frenético, que termina com uma chases diabólicos, que vão vendo a dimensão reduzir-se progressivamente ao mesmo tempo que a intensidade aumenta.
Não é apenas Mehldau que está a lutar com os títulos de algumas das suas mais recentes composições. Eu próprio confesso que fiquei sem palavras.
Os bilhetes para o Grande Auditório do Centro Cultural de Belém esgotaram para ver um habitué dos palcos portugueses. Brad Mehldau regressou, desta vez em trio, com Larry Grenadier no contrabaixo e Jeff Ballard na bateria. O trio juntou-se para a gravação do mais recente álbum, “Blues and Ballads”. Trata-se do quinto desta parceria, que começou em 2005 com “Day is done”, que marca a estreia de Jeff Ballard aos comandos da bateria deste trio, substituindo Jorge Rossy.
A receita é simples e muito pouco diferente daquilo que já temos visto inúmeras vezes: versões soberbas de um conjunto de músicas clássicas. Do bebop intenso de “Cheryl” de Charlie Parker ao tom bluesy das dores de amor de “Since I fell for you”, popularizado por Lenny Welch, passando pelo famosíssimo “These foolish things”. Nas também habituais incursões pelo mundo da pop/rock, os homenageados são, desta vez, os Beatles, através do tema “And I love her”.
Nunca é pêra doce pegar em temas deste calibre. Porque são o oposto de mares nunca dantes navegados, são o estreito de Malaca ou o Canal do Suez. Talvez seja esta – e perdoem-me o pleonasmo intencional – a marca mais marcante de Mehldau e deste trio: a reinvenção da roda. Ir além da Taprobana. Isto é, conseguir reinventar aquilo que já parece mais do que inventando, totalmente exaurido, dando uma certa imprevisibilidade a algo que, de tão trilhado que já foi, não deveria, pela lógica das coisas, gerar nada de novo.
E porém gera, diria Galileu Galilei, se lhe dessem a ouvir esta gravação sem correr nenhum risco de ir parar a uma fogueira inquisitória. E a forma como essa imprevisibilidade é atingida é outro ponto de destaque. Em muitos momentos, o jazz – a música? – avançou de mãos dadas com a complexidade, com a exigência, com a sofisticação. É, afinal de contas, um sentido que parece natural, não só na arte como, também – melhor exemplo será difícil – na ciência. Assim como em coisas mais mundanas como carros e telemóveis. Não se trata de uma verdade absoluta, claro: noutras alturas, deu um passo à frente dando, possivelmente, um atrás: tirando o pé do acelerador, voltando às raízes e explorando a simplicidade – penso no jazz modal, por exemplo. Nisso e no ecran táctil do iPhone. Há quem ao chame genericamente ao processo kiss it simple, stupid.
É esta última abordagem que este trio parece empregar. Digo trio embora, a César o que é de César, muito deste processo é da inteira responsabilidade de Mehldau: a capacidade de conseguir tirar tanto de uma estrutura tão simples, sem esgotar, sem parecer repetitivo, redundante ou aborrecido. Tanto sumo a partir da mesma laranja. Que muitos poderiam, à partida, considerar seca e ressequida. Quase parece contradizer a expressão que afiança a necessidade de ovos para fazer omeletes.
Mas regressemos ao auditório, onde os músicos entretanto subiram ao palco, Mehldau fazendo as suas típicas vénias, o “thank you” que conseguimos ver-lhe nos lábios mas não ouvir. E começaram por tocar aquilo que, mais lá para a frente, Mehldau irá designar por “new music”.
E música nova porque, para a primeira parte do set, o trio reserva-nos essencialmente o futuro, temas novos da autoria do pianista. Alguns títulos: “Gentle John”, “Strange gift”. Outros casos em que, de tão recentes, como o terceiro tema da noite, as composições são referidas como “no title yet”. E ainda uma interessante dedicatória ao guitarrista alemão Wolfgang Muthspiel, através do tema “Wolfgang’s waltz”, que consta do álbum “Rising Grace”, em que tanto Mehldau como Grenadier participaram.
Após este primeiro bloco de música maioritariamente inédita, temos a primeira e única incursão pelo álbum “Blues and Ballads”: o trio presenteia a audiência com o tal “And I love her”. A versão ao vivo é lindíssima, com um trabalho notável de Ballard. Surpreende mesmo para quem, como eu, já ouviu a gravação do tema de Lennon e McCartney inúmeras vezes. É caso para dizer “we do love it”.
Voltamos a outro caso de uma composição órfã de título, a segunda do género da noite. Mehldau afasta o corpo do piano, em direcção ao público, apenas a mão esquerda a tocar as teclas, atestando a capacidade do pianista de explorar um mesmo motivo até ao limite, até à exaustão, enquanto deixa o espaço suficiente para encarregar a secção rítmica de ocupar uma posição dianteira na condução.
“We appreciate your good energy. Good energy is very important these days”, diz-nos Mehldau antes de se virar novamente para o teclado e iniciar o “Si tu vois ma mère” de Sidney Bechet, o primeiro saxofonista de jazz a atingir notoriedade. Se a meio do tema o solo de Grenadier já teve o condão de arrancar uma estridente ovação, o final com Mehldau totalmente sozinho durante minutos é um dos pontos altos da noite. À primeira saída de cena dos três músicos segue-se o primeiro encore com “West Coast Blues” e, após nova saída, um segundo encore frenético, que termina com uma chases diabólicos, que vão vendo a dimensão reduzir-se progressivamente ao mesmo tempo que a intensidade aumenta.
Não é apenas Mehldau que está a lutar com os títulos de algumas das suas mais recentes composições. Eu próprio confesso que fiquei sem palavras.
sábado, 25 de fevereiro de 2017
O único defeito que as pessoas não se importam de mostrar é a falta de sentido de humor
Rui Sinel de Cordes (dito mais coisa menos coisa assim)
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
terça-feira, 21 de fevereiro de 2017
Que te embalou
Descalço os sapatos antes de entrar na sala iluminada pelas cores da TV que constantemente mudam, banhada pelo som de um filme barulhento. Que te embalou. Dormes deitada ao comprido no sofá. Avanço com o máximo cuidado, a suplicar às tábuas do soalho que não estalem. Chego até ti. Puxo a manta que está na tua cintura e cubro-te até aos teus ombros. Ajeito o teu cabelo que repousa sob a almofada, beijo-te a cabeça ao de leve. E, quando apago o aparelho para que durmas descansada, acordas quase sobressaltada com a ausência de barulho e luz. Que te embala
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
Quem as não tem
Dentro da caixa do correio, no final da semana passada, um envelope que não deixa entender quem é o remetente. Lá dentro, uma carta de Assunção Cristas para mim, na qualidade de morador de Lisboa, cidade pela qual será candidata nas próximas eleições autárquicas de Outubro.
Em baixo, à direita - seguramente um posicionamento não acidental - salta à vista uma fotografia da candidata empunhando um bonito sorriso, contra um fundo de um painel de azulejos, cujo friso delimita perfeitamente o papel da carta. O contraste da fotografia do cabelo e da camisola beige de Cristas com os azulejos brancos com motivos azuis é excessivo, dá a entender que se trata de uma montagem.
Na saudação lê-se "Olá! Bom ano!".
Ao longo da carta - que contém três parágrafos iniciais de 3-4 linhas e, de seguida, duas frases de duas linhas e duas de uma linha - menciona o nome da cidade cinco vezes, escreve a palavra "Cidade" (com maiúscula) três vezes e usa várias exclamações (quatro). Resumidamente, para além de referir a sua candidatura - "com grande sentido de responsabilidade" e "entusiasmo" e "determinação" e "desafio" (duas vezes) - diz-nos que se tem preparado afincadamente nos últimos tempos - "mais de meia centena de reuniões e iniciativas" - e que gostaria "muito de poder contar com a sua opinião e ideias".
Para o efeito, dentro do mesmo envelope encontra-se um pequeno questionário que podemos preencher com ideias e sugestões, bem como um outro envelope, com portes pagos, para remeter a resposta.
Termina "Com um beijinho". Assina Assunção.
Em baixo, à direita - seguramente um posicionamento não acidental - salta à vista uma fotografia da candidata empunhando um bonito sorriso, contra um fundo de um painel de azulejos, cujo friso delimita perfeitamente o papel da carta. O contraste da fotografia do cabelo e da camisola beige de Cristas com os azulejos brancos com motivos azuis é excessivo, dá a entender que se trata de uma montagem.
Na saudação lê-se "Olá! Bom ano!".
Ao longo da carta - que contém três parágrafos iniciais de 3-4 linhas e, de seguida, duas frases de duas linhas e duas de uma linha - menciona o nome da cidade cinco vezes, escreve a palavra "Cidade" (com maiúscula) três vezes e usa várias exclamações (quatro). Resumidamente, para além de referir a sua candidatura - "com grande sentido de responsabilidade" e "entusiasmo" e "determinação" e "desafio" (duas vezes) - diz-nos que se tem preparado afincadamente nos últimos tempos - "mais de meia centena de reuniões e iniciativas" - e que gostaria "muito de poder contar com a sua opinião e ideias".
Para o efeito, dentro do mesmo envelope encontra-se um pequeno questionário que podemos preencher com ideias e sugestões, bem como um outro envelope, com portes pagos, para remeter a resposta.
Termina "Com um beijinho". Assina Assunção.
domingo, 19 de fevereiro de 2017
Refugiados climáticos
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
Subsistência
«Vejamos agora o trabalho assalariado: o preço médio do trabalho assalariado corresponde ao mínimo de salário, ou seja, a quantia equivalente aos meios de subsistência indispensáveis para manter vivo o operário enquanto operário. Aquilo, portanto, que o operário obtém pela sua actividade chega apenas para perpetuar a sua vida pobre. De modo nenhum queremos pôr fim a esta apropriação pessoal dos produtos de trabalho nas gerações que se seguem imediatamente, apropriação essa que não deixa nenhum excedente que confira poder sobre o trabalho alheio. Queremos eliminar apenas a natureza miserável desta apropriação, em que o operário só vive para multiplicar o capital, só vive enquanto o interessa da classe dominante assim o determinar.»
O manifesto comunista, Karl Marx e Friedrich Engels
O manifesto comunista, Karl Marx e Friedrich Engels
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
Abolir
«Aquilo que diferencia o comunismo não é a abolição da propriedade de uma forma geral, mas a abolição da propriedade burguesa. Mas a moderna propriedade privada burguesa é a representação última e mais conseguida da produção e apropriação dos produtos baseadas na luta de classes, na exploração de umas pelas outras. Neste sentido, os comunistas podem sintetizar a sua teoria numa frase: abolição da propriedade privada.»
O manifesto comunista, Karl Marx e Friedrich Engels
O manifesto comunista, Karl Marx e Friedrich Engels
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
Exercício: ver um jogo de futebol americano.
Dada o frenesim em torno do último super bowl - um jogo com uma reviravolta histórica, que terminou com a quinta vitória de Tom Brady, a primeira vez que um quarterback ganhou por cinco vezes o campeonato - pareceu ser um jogo apropriado para o exercício. A primeira incursão nas duas horas e tanto de jogo foi feita sem espreitar as regras. Mas cedo as dúvidas surgiram e tive que pesquisar para perceber melhor alguns detalhes.
Há alguns elementos que são interessantes no jogo, em particular a estratégia e a extrema especialização do papel de cada jogador: o quarterback com os passes, o tipo que chuta os field goals, os tipos que correm para apanhar a bola (que também devem ter um nome pomposo que me escapa). Outro é a revisão das jogadas. A avaliação inicial dos árbitros pode ser questionada. Nesses casos, os árbitros vêem as imagens do lance e podem reapreciar e manter ou reverter o juízo inicial e o resultado do processo é anunciado por microfone para o estádio todo.
E depois há outros aspectos que são apenas curiosos, como o facto de chamarem football àquela bola e não apenas ball. Assim como os calções justinhos, as luvas dos tipos que têm de agarrar a bola e os tipos gordos a fazer placagens. E que senhoras placagens, há uma jogada em que os capacetes de dois jogadores de equipas contrárias ficam presos um ao outro após um choque frontal.
Está longe de ser o meu desporto de eleição e tenho dificuldade em perceber a popularidade que granjeia do outro lado do Atlântico mas confesso que, com este exercício, ganhei algum respeito (que partia de uma base muito baixa) por este, como diria o presidente americano, "so-called" futebol.
Há alguns elementos que são interessantes no jogo, em particular a estratégia e a extrema especialização do papel de cada jogador: o quarterback com os passes, o tipo que chuta os field goals, os tipos que correm para apanhar a bola (que também devem ter um nome pomposo que me escapa). Outro é a revisão das jogadas. A avaliação inicial dos árbitros pode ser questionada. Nesses casos, os árbitros vêem as imagens do lance e podem reapreciar e manter ou reverter o juízo inicial e o resultado do processo é anunciado por microfone para o estádio todo.
E depois há outros aspectos que são apenas curiosos, como o facto de chamarem football àquela bola e não apenas ball. Assim como os calções justinhos, as luvas dos tipos que têm de agarrar a bola e os tipos gordos a fazer placagens. E que senhoras placagens, há uma jogada em que os capacetes de dois jogadores de equipas contrárias ficam presos um ao outro após um choque frontal.
Está longe de ser o meu desporto de eleição e tenho dificuldade em perceber a popularidade que granjeia do outro lado do Atlântico mas confesso que, com este exercício, ganhei algum respeito (que partia de uma base muito baixa) por este, como diria o presidente americano, "so-called" futebol.
domingo, 12 de fevereiro de 2017
sábado, 11 de fevereiro de 2017
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017
Restauro
Que o desculpasse mas ia não ia pedir desculpa.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
domingo, 5 de fevereiro de 2017
sábado, 4 de fevereiro de 2017
Frescura
«Joey admired Jonathan not only for his coolness but for having the confidence not to pretend to be stupid in order to maintain it. He managed the difficult trick of making it seem cool to be smart.»
Freedom, Jonathan Franzen
Freedom, Jonathan Franzen
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
Parece que o Presidente não faz muito
A secretária da Sala Oval costuma estar sempre impecavelmente vazia, apenas um telefone em cima do tampo.
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
domingo, 29 de janeiro de 2017
sábado, 28 de janeiro de 2017
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
A idade dos finalistas deste Open da Austrália é ridícula
O mais novo dos quatro é Rafa Nadal, que já conta com 30 anos (e uns 6 ou 7 meses). Do outro lado da rede da final masculina estará Federer com os seus provectos 35. Relativamente à final feminina, a mais "nova" das irmãs Williams, Serena, tem também 35 e a mais "velha", Venus, tem 36. A longevidade das carreiras destes quatro já é impressionante por si só; o facto de chegarem à final de um Slam ultrapassa essa barreira e eleva à categoria de monumental.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
Cuarteto Casals completa duas meias-maratonas de Mozart na Gulbenkian
(Publicado originalmente aqui)
Ao que tudo indica, Joseph Haydn e Wolfgang Amadeus Mozart eram amigos e respeitavam-se mutuamente e Haydn terá inclusivamente tido um pequeno papel como mentor de Mozart. Reconhecendo a influência de Haydn no seu próprio trabalho, Mozart dedicou-lhe um conjunto de seis quartetos para cordas, escritos entre 1782 e 1785 em Viena. Figura incontornável das peças para este tipo de formações, um dos epítetos pelo qual Haydn ficou conhecido foi justamente “o pai do quarteto de cordas”.
Haydn ouviu as peças em dois eventos sociais no início de 1785, após o qual, segundo consta, terá feito um comentário ao pai do jovem Wolfgang, Leopold, que se tornou célebre, e que arrisco traduzir: “Perante Deus, e como homem honesto, digo-lhe que o seu filho é o maior compositor que conheço, em pessoa ou de nome. Tem gosto e, para além disso, o mais profundo conhecimento de composição.”
O que, vindo de quem vem, impressiona qualquer um. E sobretudo, tendo em conta que, à altura, este conjunto de peças teve uma recepção algo dividida: alguns contemporâneos, embora reconhecendo inspiração ao compositor, classificaram os quartetos como demasiado complexos e difíceis, em particular, o último, o nº19, intitulado “Dissonância”.
É este o repertório que o reputado Cuarteto Casals – Abel Tomàs e Vera Martínez no violino, Jonathan Brown na viola e Arnau Tomàs no violoncelo – trouxe até ao Grande Auditório da Gulbenkian, na tarde de domingo. A ocasião está integrada numa pequena tournée europeia, na qual o quarteto se propõe tocar estas peças. Para além de Lisboa, e entre outras, Londres, Roma e Florença serão contempladas, e a digressão terminará, simbolicamente e como não podia deixar de ser, em Salzburgo.
Trata-se de uma verdadeira maratona de música, dividida em duas meias-maratonas de três quartetos cada. Para quem nunca foi além da meia-maratona – e, ainda assim, a grande custo – esta paragem estratégica é bastante conveniente para permitir recuperar o fôlego entre as duas metades da exigente prova e cortar a meta em estilo.
A terminar a excelente interpretação do Cuarteto Casals, fiz uma pequena viagem no tempo e recuei um pouco mais de dois séculos (232 anos, para ser mais preciso) e tentei colocar-me nos pés de Joseph Haydn, assim que o compositor austríaco acabou de ouvir pela primeira vez o que eu também, os tais 232 anos depois, acabara de ouvir. E, nesse preciso momento, não tive outro remédio senão concordar com as palavras que partilhou com Leopold Mozart.
Ao que tudo indica, Joseph Haydn e Wolfgang Amadeus Mozart eram amigos e respeitavam-se mutuamente e Haydn terá inclusivamente tido um pequeno papel como mentor de Mozart. Reconhecendo a influência de Haydn no seu próprio trabalho, Mozart dedicou-lhe um conjunto de seis quartetos para cordas, escritos entre 1782 e 1785 em Viena. Figura incontornável das peças para este tipo de formações, um dos epítetos pelo qual Haydn ficou conhecido foi justamente “o pai do quarteto de cordas”.
Haydn ouviu as peças em dois eventos sociais no início de 1785, após o qual, segundo consta, terá feito um comentário ao pai do jovem Wolfgang, Leopold, que se tornou célebre, e que arrisco traduzir: “Perante Deus, e como homem honesto, digo-lhe que o seu filho é o maior compositor que conheço, em pessoa ou de nome. Tem gosto e, para além disso, o mais profundo conhecimento de composição.”
O que, vindo de quem vem, impressiona qualquer um. E sobretudo, tendo em conta que, à altura, este conjunto de peças teve uma recepção algo dividida: alguns contemporâneos, embora reconhecendo inspiração ao compositor, classificaram os quartetos como demasiado complexos e difíceis, em particular, o último, o nº19, intitulado “Dissonância”.
É este o repertório que o reputado Cuarteto Casals – Abel Tomàs e Vera Martínez no violino, Jonathan Brown na viola e Arnau Tomàs no violoncelo – trouxe até ao Grande Auditório da Gulbenkian, na tarde de domingo. A ocasião está integrada numa pequena tournée europeia, na qual o quarteto se propõe tocar estas peças. Para além de Lisboa, e entre outras, Londres, Roma e Florença serão contempladas, e a digressão terminará, simbolicamente e como não podia deixar de ser, em Salzburgo.
Trata-se de uma verdadeira maratona de música, dividida em duas meias-maratonas de três quartetos cada. Para quem nunca foi além da meia-maratona – e, ainda assim, a grande custo – esta paragem estratégica é bastante conveniente para permitir recuperar o fôlego entre as duas metades da exigente prova e cortar a meta em estilo.
A terminar a excelente interpretação do Cuarteto Casals, fiz uma pequena viagem no tempo e recuei um pouco mais de dois séculos (232 anos, para ser mais preciso) e tentei colocar-me nos pés de Joseph Haydn, assim que o compositor austríaco acabou de ouvir pela primeira vez o que eu também, os tais 232 anos depois, acabara de ouvir. E, nesse preciso momento, não tive outro remédio senão concordar com as palavras que partilhou com Leopold Mozart.
domingo, 22 de janeiro de 2017
quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
Música abandonada
«... she realised how wrong she had been to think that he played for no one but himself: he didn't even play for himself - he just played. He was the exact opposite of his friend Art, who put everything of himself into every note he played: Chet put nothing of himself into his music and that's what lent his playing its pathos. The music he played felt abandoned by him. He played the old ballads and standards with a long series of caresses that led nowhere and subsided into nothing.»
But beautiful, Geoff Dyer
But beautiful, Geoff Dyer
quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
Ovo
«- What's an egg look like, Mingus?
- A egg?
- Yeah, tell me what an egg looks like.
- How old was you when your eyes went out?
- Two.
- You ever seen the sun?
- Yeah, must've done. I remember the sun.
- An egg looks that, like the sun. Yellow, bright, clouds around it.»
But beautiful, Geoff Dyer
- A egg?
- Yeah, tell me what an egg looks like.
- How old was you when your eyes went out?
- Two.
- You ever seen the sun?
- Yeah, must've done. I remember the sun.
- An egg looks that, like the sun. Yellow, bright, clouds around it.»
But beautiful, Geoff Dyer
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
A arte de escolher a fila certa no supermercado
Opto pela caixa mais perto de mim: há três pessoas à minhas frente e duas delas têm poucas compras, enquanto na caixa ao lado o número de pessoas é o mesmo mas têm carrinhos bem cheios. Ganho tangencialmente a corrida a este lugar a um senhor que fica atrás de mim até reparar que uma das pessoas da caixa ao lado entretanto sai da fila e ele rapidamente toma esse lugar vago.
E depois espero. A senhora que está à frente na fila demora. Bastante. Não sei com quê, não estou a prestar atenção, mas reparo nos olhares de sofrimento dos dois que estão à minha frente (e que, ainda por cima, não têm quase nada). Os meus olhos divergem um pouco enquanto espero e reparo que, o tipo que estava atrás de mim e se mudou para a outra caixa, já está a pagar as compras dele e eu ainda nem consegui colocar as minhas no tapete.
Regresso às pessoas à minha frente, a mesma senhora está agora (finalmente!) a pagar. Tem o cartão no terminal e, na mão esquerda, a carta do banco com o pin do mesmo aberta à sua frente, enquanto lentamente digita os algarismos com a mão direita. Quando acaba, consegue deixar cair o papel, que é gentilmente apanhado e devolvido pelo homem que está a seguir na fila e que só quer levar uma caixa de seis ovos. A senhora volta guarda o envelope na carteira gigante enquanto eu imagino onde já andará o senhor que estava atrás de mim e mudou de fila.
Assim que as compras desta senhora são processadas, as duas pessoas à minha frente são atendidas muito rapidamente, tal como previsto. Quando chega a minha vez, debato-me um pouco com o espaço no final da caixa para arrumar as minhas compras: os sacos da senhora ainda lá estão, ela ainda arruma qualquer coisa que não consigo perceber bem. Saímos do supermercado quase ao mesmo tempo.
E depois espero. A senhora que está à frente na fila demora. Bastante. Não sei com quê, não estou a prestar atenção, mas reparo nos olhares de sofrimento dos dois que estão à minha frente (e que, ainda por cima, não têm quase nada). Os meus olhos divergem um pouco enquanto espero e reparo que, o tipo que estava atrás de mim e se mudou para a outra caixa, já está a pagar as compras dele e eu ainda nem consegui colocar as minhas no tapete.
Regresso às pessoas à minha frente, a mesma senhora está agora (finalmente!) a pagar. Tem o cartão no terminal e, na mão esquerda, a carta do banco com o pin do mesmo aberta à sua frente, enquanto lentamente digita os algarismos com a mão direita. Quando acaba, consegue deixar cair o papel, que é gentilmente apanhado e devolvido pelo homem que está a seguir na fila e que só quer levar uma caixa de seis ovos. A senhora volta guarda o envelope na carteira gigante enquanto eu imagino onde já andará o senhor que estava atrás de mim e mudou de fila.
Assim que as compras desta senhora são processadas, as duas pessoas à minha frente são atendidas muito rapidamente, tal como previsto. Quando chega a minha vez, debato-me um pouco com o espaço no final da caixa para arrumar as minhas compras: os sacos da senhora ainda lá estão, ela ainda arruma qualquer coisa que não consigo perceber bem. Saímos do supermercado quase ao mesmo tempo.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
A décima terceira
A senhora das castanhas usa uns óculos grossos e, ainda assim, olha-me franzida como quem tem dificuldade em visualizar. Peço-lhe uma dúzia, ela responde-me sim senhor e começa a despejar as castanhas, mantidas quentes numa gaveta de metal, dentro de um saquinho de papel, daqueles que a ASAE obrigou em substituição das folhas de jornal. Quando acaba, estende a mão para me entregar o saquinho cheio e diz-me o que me pareceu ser treze. Entrego-lhe a moeda e desta vez fico mesmo intrigado porque já na vez anterior - sou cliente habitual - me pareceu ouvir o mesmo e resolvi concluir que se teria tratado de um mau entendimento meu. Chego a casa e conto o conteúdo: são efectivamente treze. Problemas com a definição de dúzia? Pouco plausível, é um conceito simples e de vasta utilização, então para quem vende castanhas. Um bónus motivado pela concorrência próxima do senhor que vende do outro lado da rua? Se sim, confesso que aprecio. Mas aqui fica a advertência para um perfil de cliente que poderá não nutrir o mesmo respeito pela décima terceira castanha: os supersticiosos.
domingo, 15 de janeiro de 2017
sábado, 14 de janeiro de 2017
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
Self-depreciating
«"The way you disapprove of your life! Why do you do that? It is of no value for a man to disapprove of his life the way you do. You seem to take some special pleasure, some pride, in making yourself the butt of you own peculiar sense of humor. I don't believe you actually want to improve your life. Everything you say is somehow always twisted, some way or another, to come out 'funny.' All day long the same thing. In some little way or other, everything is ironical, or self-depreciating. Self-depreciating?"
"Self-deprecating. Self-mocking."»
Portnoy's complaint, Philip Roth
"Self-deprecating. Self-mocking."»
Portnoy's complaint, Philip Roth
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
Boa manhã
«"Good morning," he says, and now it occurs to me that the word "morning," as he uses it, refers specifically to the hours between eight A.M. and twelve noon. I'd never thought of it that way before. He wants the hours between eight and twelve to be good, which is to say, enjoyable, pleasurable, beneficial! We are all of us wishing each other four hours of pleasure and accomplishment.»
Portnoy's complaint, Philip Roth
Portnoy's complaint, Philip Roth
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
Do outro lado do rio da Prata
Chegamos ao check in do ferry ensopados. Começou a chover em Buenos Aires depois do tempo solarengo e quente dos últimos dias. A primeira paragem é na pequena Colónia Sacramento, que vemos em passo acelerado para fugir à chuva que teima em não parar.
Dali apanhamos um autocarro para Montevideo. Três horas para 160 quilómetros. Não devido a estradas em más condições, mas porque o autocarro para em tudo o que é lugarejo. Fazemos o caminho do terminal de autocarros até ao nosso hotel a pé e de imediato começamos a ficar com um pé atrás em relação à cidade. Há uma certa decadência, visível nos edifícios velhos e cinzentos, no aspecto sujo das ruas. Depois de deixarmos as coisas no quarto, descemos a avenida principal até praça no início da cidade velha. No meio de edifícios históricos, alguns de funções públicas, erguem-se igualmente autênticos mamarrachos, velhos, feios, sujos.
No dia seguinte tentamos um programa alternativo. Andamos quilómetros. Desde o hotel perto da Avenida 18 de Julho, atravessamos a Punta Carretas até chegar à praia dos Pocitos. A orla costeira faz lembrar o calçadão carioca, numa lembrança de quem nunca o viu ao vivo e a cores. Mas com algumas diferenças. Desde logo a cor da água, pouco convidativa. Convém relembrar que não se trata propriamente de mar, mas sim do estuário do Rio da Prata, que pode ganhar uns tons mais acastanhados em função das correntes. E depois, uma vez mais, os prédios que envolvem aquela pequena enseada. Velhos, sujos, feios. A praia continua a fazer lembrar Copacabana mas numa mistura com a Calçada de Carriche.
Ainda assim, numa tentativa de moderar a minha opinião, admito que seja possível que Montevideo sofra pela proximidade a Buenos Aires. É difícil competir com a capital da Argentina, uma cidade atraente, fervilhante que certamente colocaria em segundo plano muitas outras cidades que, à partida, nos parecem interessantes. É possível. Mas atrevo-me a dizer que nem tudo é atribuível à proximidade à forte concorrente.
Dali apanhamos um autocarro para Montevideo. Três horas para 160 quilómetros. Não devido a estradas em más condições, mas porque o autocarro para em tudo o que é lugarejo. Fazemos o caminho do terminal de autocarros até ao nosso hotel a pé e de imediato começamos a ficar com um pé atrás em relação à cidade. Há uma certa decadência, visível nos edifícios velhos e cinzentos, no aspecto sujo das ruas. Depois de deixarmos as coisas no quarto, descemos a avenida principal até praça no início da cidade velha. No meio de edifícios históricos, alguns de funções públicas, erguem-se igualmente autênticos mamarrachos, velhos, feios, sujos.
No dia seguinte tentamos um programa alternativo. Andamos quilómetros. Desde o hotel perto da Avenida 18 de Julho, atravessamos a Punta Carretas até chegar à praia dos Pocitos. A orla costeira faz lembrar o calçadão carioca, numa lembrança de quem nunca o viu ao vivo e a cores. Mas com algumas diferenças. Desde logo a cor da água, pouco convidativa. Convém relembrar que não se trata propriamente de mar, mas sim do estuário do Rio da Prata, que pode ganhar uns tons mais acastanhados em função das correntes. E depois, uma vez mais, os prédios que envolvem aquela pequena enseada. Velhos, sujos, feios. A praia continua a fazer lembrar Copacabana mas numa mistura com a Calçada de Carriche.
Ainda assim, numa tentativa de moderar a minha opinião, admito que seja possível que Montevideo sofra pela proximidade a Buenos Aires. É difícil competir com a capital da Argentina, uma cidade atraente, fervilhante que certamente colocaria em segundo plano muitas outras cidades que, à partida, nos parecem interessantes. É possível. Mas atrevo-me a dizer que nem tudo é atribuível à proximidade à forte concorrente.
domingo, 8 de janeiro de 2017
sábado, 7 de janeiro de 2017
Dime la verdad
O funcionário da emigração carimba-nos o passaporte mas o da alfândega diz-nos que não nos pode atender porque estão de greve. Segundo o papel afixado na parede, a greve terminou no dia anterior mas estão ainda em processo de “normalização dos serviços”. No mesmo papel está especificado que as janelas de atendimento são entre as 12h00 e as 13h00 e as 16h00 e as 17h00.
São 10h00 e pouco e não queremos esperar perto de duas horas para passar. Tendo em conta que ainda temos muita estrada pela frente, parte substancial dela em más condições, uma travessia de ferry que poderá ser condicionada pelo forte vento e, pior que tudo, uma nova travessia de fronteira para voltar a entrar na Argentina.
Optamos por um plano alternativo. Dizemos ao funcionário que temos um voo de regresso a Buenos Aires e que, se ficarmos ali retidos até às 12h, vamos perdê-lo. Treta: temos efectivamente um voo mas é no dia seguinte. O funcionário encolhe os ombros e diz-nos para falarmos com o supervisor, um tipo de olhar ameaçador, desgrenhado, barba mal aparada, com um gorro na cabeça e óculos escuros por cima.
Repetimos-lhe a lengalenga e responde, com cara de poucos amigos, que já nos atende. Esperamos no banco dentro das instalações da fronteira com a nosso melhor ar de desesperados. Os funcionários ouvem Metallica e outras guitarradas que tais, um deles canta It’s the same old situation. Uma das pessoas que, como nós, espera, assobia o As time goes by.
Passados talvez uns vinte minutos, vem ter connosco, pede que lhe mostremos os comprovativos dos voos e acrescenta “pero dime la verdad”, com um olhar ameaçador a fazer lembrar um personagem do Narcos. Só faltou chamar-nos malparidos enquanto sacava da arma.
Conseguimos não engolir muito em seco. Mostrar-lhe os papéis que temos no carro está fora de questão porque atestam a peta que estamos a enfiar. Tentamos escapar-nos com a necessidade de acesso à internet porque sabemos que ali não há rede mas ele prontamente nos cede o telefone dele para acedermos e procurarmos os bilhetes no email.
Não sem algum sofrimento, conseguimos safar-nos deste imbróglio alterando o calendário do telefone, passando o voo do dia seguinte para aquele dia. O mal-encarado deixa-nos passar, carimba-nos a papelada e saímos do posto a voar. Celebramos e prometemos não voltar a fazer uma parvoíce semelhante.
Pelas nossas contas, o segundo posto fronteiriço do dia para voltar a entrar na Argentina deveria surgir à nossa frente um pouco antes das 16h, hora a que começaria a janela em que os funcionários atendem o público. Entramos, carimbamos os passaportes mas, quando chegamos à alfândega, debatemo-nos com o mesmo problema novamente: este posto não segue as mesmas janelas do anterior. Só atendem entre as 18h e as 19h.
Desta vez damo-nos por vencidos e esperamos no carro. Adormecemos ao sol, embalados pelo abanar do carro ao sabor do vento.
São 10h00 e pouco e não queremos esperar perto de duas horas para passar. Tendo em conta que ainda temos muita estrada pela frente, parte substancial dela em más condições, uma travessia de ferry que poderá ser condicionada pelo forte vento e, pior que tudo, uma nova travessia de fronteira para voltar a entrar na Argentina.
Optamos por um plano alternativo. Dizemos ao funcionário que temos um voo de regresso a Buenos Aires e que, se ficarmos ali retidos até às 12h, vamos perdê-lo. Treta: temos efectivamente um voo mas é no dia seguinte. O funcionário encolhe os ombros e diz-nos para falarmos com o supervisor, um tipo de olhar ameaçador, desgrenhado, barba mal aparada, com um gorro na cabeça e óculos escuros por cima.
Repetimos-lhe a lengalenga e responde, com cara de poucos amigos, que já nos atende. Esperamos no banco dentro das instalações da fronteira com a nosso melhor ar de desesperados. Os funcionários ouvem Metallica e outras guitarradas que tais, um deles canta It’s the same old situation. Uma das pessoas que, como nós, espera, assobia o As time goes by.
Passados talvez uns vinte minutos, vem ter connosco, pede que lhe mostremos os comprovativos dos voos e acrescenta “pero dime la verdad”, com um olhar ameaçador a fazer lembrar um personagem do Narcos. Só faltou chamar-nos malparidos enquanto sacava da arma.
Conseguimos não engolir muito em seco. Mostrar-lhe os papéis que temos no carro está fora de questão porque atestam a peta que estamos a enfiar. Tentamos escapar-nos com a necessidade de acesso à internet porque sabemos que ali não há rede mas ele prontamente nos cede o telefone dele para acedermos e procurarmos os bilhetes no email.
Não sem algum sofrimento, conseguimos safar-nos deste imbróglio alterando o calendário do telefone, passando o voo do dia seguinte para aquele dia. O mal-encarado deixa-nos passar, carimba-nos a papelada e saímos do posto a voar. Celebramos e prometemos não voltar a fazer uma parvoíce semelhante.
Pelas nossas contas, o segundo posto fronteiriço do dia para voltar a entrar na Argentina deveria surgir à nossa frente um pouco antes das 16h, hora a que começaria a janela em que os funcionários atendem o público. Entramos, carimbamos os passaportes mas, quando chegamos à alfândega, debatemo-nos com o mesmo problema novamente: este posto não segue as mesmas janelas do anterior. Só atendem entre as 18h e as 19h.
Desta vez damo-nos por vencidos e esperamos no carro. Adormecemos ao sol, embalados pelo abanar do carro ao sabor do vento.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
Baía
Estamos de volta a estrada com alcatrão que nos permite andar a uma velocidade decente. Aos poucos, vemos a estepe plana amarelada e desolada a desaparecer e a dar lugar a vegetação bem densa e verde. Finalmente vemos árvores e montanhas: ao fundo, picos e escarpas abruptas com neve lá no alto. No final deste percurso, Ushuaia, o fim do mundo.
Embora pareça um contrassenso, vemos mais actividade e cruzamo-nos com mais carros nesta zona supostamente mais remota do que em qualquer outro momento do trajecto. A cidade fica numa baía ladeada por picos imponentes cobertos de neve; aliás, o nome da cidade significa baía na língua indígena original.
Vamos mesmo até ao final da estrada nacional nº3, que liga Buenos Aires ao limite do parque nacional da Terra do Fogo, ao longo de 3079 kms. À noite, para recuperar as forças depois de uma caminhada exigente no Cerro Guanaco, comemos uma sopa de marisco e umas santolas, especialidade local. No dia seguinte, antes de nos despedirmos, fazemos um passeio de barco pelo canal Beagle – obrigatório.
Embora pareça um contrassenso, vemos mais actividade e cruzamo-nos com mais carros nesta zona supostamente mais remota do que em qualquer outro momento do trajecto. A cidade fica numa baía ladeada por picos imponentes cobertos de neve; aliás, o nome da cidade significa baía na língua indígena original.
Vamos mesmo até ao final da estrada nacional nº3, que liga Buenos Aires ao limite do parque nacional da Terra do Fogo, ao longo de 3079 kms. À noite, para recuperar as forças depois de uma caminhada exigente no Cerro Guanaco, comemos uma sopa de marisco e umas santolas, especialidade local. No dia seguinte, antes de nos despedirmos, fazemos um passeio de barco pelo canal Beagle – obrigatório.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
O ferry demora umas duas horas a atravessar a zona ampla do Estreito de Magalhães.
Do outro lado, em nítido contraste com as condições que apanhámos até ao momento, a estrada é uma desgraça. Quer dizer, uma desgraça do ponto de vista de quem precisa de se deslocar: os primeiros 15 quilómetros têm que ser tirados a ferros, a 30 quilómetros por horas sob pena de começar a ouvir as pedras a embater no fundo do Chevrolet Corsa. Depois melhora um pouco mas mesmo assim na melhor das hipóteses conseguimos atingir os 60 quilómetros por hora. Esquecendo o ponto de vista meramente funcional, a estrada é uma maravilha: uma paisagem deslumbrante, os tons de amarelo torrado fazem um contraste com o mar de um azul forte e gritante.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
Paso
Seguimos a indicação da placa e saímos da estrada. Um caminho de cabras leva-nos até uma casa pequena no meio do nada, que poderia perfeitamente ser a habitação de alguém. O único elemento que torna esta casa diferente de qualquer outra é a barreira na estrada, com uma cancela fechada e outra aberta. Paramos o carro sem saber exactamente o que fazer. Antes de termos tempo para pensar no assunto, uma funcionária vem à porta e pergunta-nos para onde queremos ir, o que me parece uma pergunta ridícula tendo em conta que se trata da fronteira da Argentina com o Chile. Respondo a única resposta que me parece possível e ela
“En Chile estan de paro”
“Paro” soa-me a desemprego e, para ter certeza que percebi bem, pergunto-lhe se é uma “huelga” e ela confirma. Acrescenta que ninguém tem aparecido para atravessar e nós, claro, não estávamos a par de nada. Diz-me que nos deixa ir e que, na pior das hipóteses, se no Chile não nos processarem a entrada, nos deixa regressar novamente ao território argentino. Aceitamos.
Passamos na cancela que já estava aberta, como se nos esperasse. Rebanhos de ovelhas pastam nos quilómetros que separam os postos fronteiriços dos dois países. Serão argentinas ou chilenas? Como se tivessem um salvo conduto ou dupla nacionalidade.
Finalmente, avistamos uma casinhota parecida do outro lado. Talvez por sermos os únicos a tentar passar a fronteira – e por a próxima abertura só estar agendada para o dia seguinte – ninguém nos coloca entraves e passamos sem nenhum problema. Excepto as maçãs que têm de ficar “para ser destruídas” porque não se pode entrar com nada vegetal no Chile. Mais uns minutos e estamos em Puerto Natales.
“En Chile estan de paro”
“Paro” soa-me a desemprego e, para ter certeza que percebi bem, pergunto-lhe se é uma “huelga” e ela confirma. Acrescenta que ninguém tem aparecido para atravessar e nós, claro, não estávamos a par de nada. Diz-me que nos deixa ir e que, na pior das hipóteses, se no Chile não nos processarem a entrada, nos deixa regressar novamente ao território argentino. Aceitamos.
Passamos na cancela que já estava aberta, como se nos esperasse. Rebanhos de ovelhas pastam nos quilómetros que separam os postos fronteiriços dos dois países. Serão argentinas ou chilenas? Como se tivessem um salvo conduto ou dupla nacionalidade.
Finalmente, avistamos uma casinhota parecida do outro lado. Talvez por sermos os únicos a tentar passar a fronteira – e por a próxima abertura só estar agendada para o dia seguinte – ninguém nos coloca entraves e passamos sem nenhum problema. Excepto as maçãs que têm de ficar “para ser destruídas” porque não se pode entrar com nada vegetal no Chile. Mais uns minutos e estamos em Puerto Natales.
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
Terra do vento
São quilómetros atrás de quilómetros de nada. Não há povoações e não se vê vivalma, poucos são os carros com que nos cruzamos. A vegetação é escassa e rasteira, as árvores quase inexistentes. O rádio do carro atravessa a frequência toda em busca de postos e só tropeça em estática. Não que fizesse uma diferença doida. Há um som que domina tudo o que fazemos: o som do vento forte que abana o carro, que constantemente parece querer escapar-nos, fugir-nos das mãos. O ruído é tal que nos obriga a ter que falar alto para nos ouvirmos. E a fazer força para abrir a porta e ter cuidado para não voar nada.
No rent a car dão-nos um número de telefone de emergência para utilizar caso nos aconteça alguma coisa – no Chile, não devemos contactar a Hertz local mas sim aquele número (mais um sinal da inimizade dos países?). Aquilo que parece uma medida perfeitamente normal rapidamente se transforma numa espécie de piada de mau gosto: não há rede na maior parte do trajecto desolado e inóspito. Caso precisássemos de ajuda, aquele número de telefone daria tanto jeito como uma guitarra num enterro.
E depois há os animais. As vacas – os bifes têm que vir de algum lado – as ovelhas – o cordeiro patagónico tem que vir de algum lado – os cavalos. E os guánacos que, num misto de curiosidade e apreensão, vão acompanhando a deslocação dos carros de soslaio. É preciso algum cuidado porque, por vezes, atravessam a estrada numa corrida desajeitada, com movimentos desconjuntados, e saltam as vedações que separam a estrada dos terrenos que a ladeiam com uma facilidade surpreendente. Sinais de trânsito alertam para este perigo e alguns dão indicações sobre como lidar com estes bichos: abrandar (recomendação totalmente inesperada), acender os faróis e não buzinar.
No rent a car dão-nos um número de telefone de emergência para utilizar caso nos aconteça alguma coisa – no Chile, não devemos contactar a Hertz local mas sim aquele número (mais um sinal da inimizade dos países?). Aquilo que parece uma medida perfeitamente normal rapidamente se transforma numa espécie de piada de mau gosto: não há rede na maior parte do trajecto desolado e inóspito. Caso precisássemos de ajuda, aquele número de telefone daria tanto jeito como uma guitarra num enterro.
E depois há os animais. As vacas – os bifes têm que vir de algum lado – as ovelhas – o cordeiro patagónico tem que vir de algum lado – os cavalos. E os guánacos que, num misto de curiosidade e apreensão, vão acompanhando a deslocação dos carros de soslaio. É preciso algum cuidado porque, por vezes, atravessam a estrada numa corrida desajeitada, com movimentos desconjuntados, e saltam as vedações que separam a estrada dos terrenos que a ladeiam com uma facilidade surpreendente. Sinais de trânsito alertam para este perigo e alguns dão indicações sobre como lidar com estes bichos: abrandar (recomendação totalmente inesperada), acender os faróis e não buzinar.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
Uns com o pé, outros com o abdomen.
Os americanos chutam a lata rua abaixo. Já nós empurramos com a barriga.
sábado, 31 de dezembro de 2016
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
Adinnerised
O lanche ajantarado é uma prática com vários adeptos. Já jantar alancharado não é praticado por ninguém.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
Inversão dos termos
«- Há um comentário de Georg Bernard Shaw que me parece apropriado nesta altura.
- Diga.
- Ele lembrava que os cisnes cantam antes de morrer. E depois acrescentava: «Certas pessoas fariam bem se morressem antes de cantar.» Que a morte se antecipe à prodigiosa desafinação, eis o meu comentário...»
O Torcicologologista, excelência, Gonçalo M. Tavares
- Diga.
- Ele lembrava que os cisnes cantam antes de morrer. E depois acrescentava: «Certas pessoas fariam bem se morressem antes de cantar.» Que a morte se antecipe à prodigiosa desafinação, eis o meu comentário...»
O Torcicologologista, excelência, Gonçalo M. Tavares
sexta-feira, 23 de dezembro de 2016
Alto
«- Há quem diga que se subirmos a uma torre bem alta e observarmos com atenção conseguimos ver o passado. Não é estranho?
- Uma torre alta?
- Sim. Altíssima.»
O Torcicologologista, excelência, Gonçalo M. Tavares
- Uma torre alta?
- Sim. Altíssima.»
O Torcicologologista, excelência, Gonçalo M. Tavares
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
Apelida
Ribeiro e ribeira são essencialmente a mesma coisa mas só o primeiro é normalmente usado como apelido.
domingo, 18 de dezembro de 2016
sábado, 17 de dezembro de 2016
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
Se eu tivesse um euro de cada vez que me perguntam direcções
Reformava-me nas Caraíbas. Consubstancia a minha conjectura: há por aí muita gente perdida.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2016
"Se encontrar alguma estragada, diga-me que eu troco"
Depois da lógica da batata, a ética da castanha
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
domingo, 11 de dezembro de 2016
Se o Poirot fosse jogador seria o Jardel.
How can Poirot be of your assistance? Já o imagino nas flash interviews: o problema do Poirot é que resolve muitos homicídios.
sábado, 10 de dezembro de 2016
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
domingo, 4 de dezembro de 2016
Convencional
«Esta é a minha hipótese: humor, ou sentido de humor, é, na verdade, um modo especial de olhar para as coisas e de pensar sobre elas. É raro, não porque se trate de um dom oferecido apenas a alguns escolhidos, mas porque esse modo de olhar e de raciocinar é bastante diferente do convencional (às vezes, é precisamente o oposto), e a maior parte das pessoas não tem interesse em relacionar-se com o mundo dessa forma, ou não pode dar-se a esse luxo. Somos treinados para saber o que as coisas são, não para perder tempo a investigar o que parecem, ou o que poderiam ser.»
A doença, o sofrimento e a morte entram num bar, Ricardo Araújo Pereira
A doença, o sofrimento e a morte entram num bar, Ricardo Araújo Pereira
sábado, 3 de dezembro de 2016
Chamar quadros a funcionários de uma entidade soa a coisa antiquada
Ou não fossem quadros coisas de museu.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2016
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
Nome, sobrenome, prenom
Uma das coisas que me faz confusão no francês é o nom não ser o nome mas sim o apelido. O nome é o prénom, uma designação que parece pôr o nome numa posição inferior à do apelido, dá mais relevância a este último. Já nós usamos nome próprio, é verdade, como se o apelido fosse impróprio. Mas, à semelhança do surname e Nachname, dizemos sobrenome: ao contrário do francês, o apelido aqui parece subordinado ao nome (em inglês também temos o given name, como se no apelido não houvesse hipótese de escolha, é esse e pronto).
Esta relação hierárquica sempre me pareceu intuitiva. Aliás, está plasmada na forma como, na maior parte das vezes, dizemos e escrevemos: nome primeiro e apelido(s) depois (pronto, nem sempre e, por exemplo, os húngaros e os chineses são campeões a inverter esta ordem). O nome é algo que sinto mais meu, mais idiossincrático; o apelido associo a origens e raízes. É certo que sou a soma dos dois mas, lá no fundo, atribuo mais força à primeira: duas pessoas com as mesmas raízes podem ser tão diferentes.
Para acabar, como não podia deixar de ser, a incoerência: no dia-a-dia, na brincadeira com pessoas que me são mais próximas, uso frequentemente a fórmula (militar?) de chamar pelo apelido.
Esta relação hierárquica sempre me pareceu intuitiva. Aliás, está plasmada na forma como, na maior parte das vezes, dizemos e escrevemos: nome primeiro e apelido(s) depois (pronto, nem sempre e, por exemplo, os húngaros e os chineses são campeões a inverter esta ordem). O nome é algo que sinto mais meu, mais idiossincrático; o apelido associo a origens e raízes. É certo que sou a soma dos dois mas, lá no fundo, atribuo mais força à primeira: duas pessoas com as mesmas raízes podem ser tão diferentes.
Para acabar, como não podia deixar de ser, a incoerência: no dia-a-dia, na brincadeira com pessoas que me são mais próximas, uso frequentemente a fórmula (militar?) de chamar pelo apelido.
domingo, 27 de novembro de 2016
sábado, 26 de novembro de 2016
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
domingo, 20 de novembro de 2016
sábado, 19 de novembro de 2016
L'Embarras des richesses
Este artigo sobre o Facebook e, de uma forma mais geral, sobre o impacto da forma como as redes sociais gerem a informação. Esta entrevista que o Obama (finalmente) concedeu ao Bill Maher e, na qual, por duas vezes (mais ou menos entre os minutos 6-7 e 23-26) discute questões similares.
É uma espécie de um embarrassment of riches que transforma esta sociedade de informação numa de desinformação. Como o John Mayer explica tão bem no Gravity: twice as much ain't twice as good.
É uma espécie de um embarrassment of riches que transforma esta sociedade de informação numa de desinformação. Como o John Mayer explica tão bem no Gravity: twice as much ain't twice as good.
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
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