quarta-feira, 6 de julho de 2011

Badge

Entro no elevador juntamente com um tipo cuja cara reconheço dos corredores ou de uma reunião qualquer. Espanhol, se a minha capacidade de julgar aparências e sotaques não me falha. Andamos dois andares, o elevador faz a primeira paragem e entra outro tipo. Alemão, também pela aparência e o sotaque. Aparentemente, os dois conhecem-se. Cumprimento de circunstância, conversa da chacha. O alemão diz ao outro que leu qualquer coisa que deveria ter sido feita pelo espanhol e o outro nega, diz que foi feito por uma terceira pessoa. O alemão, como bom alemão, faz qualquer som supostamente em inglês que é o equivalente ao “ach so” que era aquilo que ele no fundo queria dizer. E depois cala-se. O tópico esgota-se. Faltam alguns andares até à primeira paragem e o fim daquele silêncio incómodo, constrangedor. De repente, o alemão diz-lhe “your badge is upside down”. De facto, o espanhol levava o cartão pendurado ao pescoço e tinha a fotografia e o som de pernas para o ar. Estupefacto com a chamada de atenção do outro – que ainda por cima encheu o peito como alguém que acaba de salvar o amigo de morte certa – lá conseguiu fingir que lhe agradecia.

O elevador faz aquele som como quem diz chegámos, as portas abrem-se e o alemão sai, fica a composição original, eu e o espanhol. Eu esboço um sorriso e o tipo olha para mim com uma cara “já viste esta merda…?”

terça-feira, 5 de julho de 2011

Chapter I

À medida que vamos percorrendo os corredores de alcatifa clara e feia, senhoras e senhores com idade para serem meus avós, com coletes vermelhos e camisa branca, gravatinha pequenina à série televisiva Dallas e chapéu de cowboy, vão passando em carrinhos de golfe. Dizem o “welcome to Calgary” da praxe e indicam-nos o já de si óbvio caminho em direcção à alfândega e, claro, a saída do aeroporto. Respondo às perguntas do “what is the purpose of your stay” e “how long are you staying” e, em troca, recebo um carimbo.

Como a maioria das cidades do Canadá, Calgary nasceu com o progresso da linha do comboio de este para oeste. Teve outro ímpeto, em anos idos, que foi a corrida do ouro. Depois o ouro escureceu e o desenvolvimento da cidade passou a vir a reboque da corrida ao ouro negro. O petróleo é hoje em dia a seiva que corre nas veias da cidade: as torres que rasgam o céu são maioritariamente dos escritórios das empresas exploradoras de recursos naturais e de instituições financeiras atraídas pelo mesmo negócio. O subsolo é a razão de ser não só da cidade mas do próprio estado de Alberta e que o torna no estado mais rico do país e com os impostos mais baixos.

Mas os marcos e os traços do provincianismo continuam muito visíveis, do aspecto das pessoas às carrinhas e pickups de quem trabalha no campo e precisa de um veículo de trabalho adaptado. Assim como o símbolo do cowboy está bem vivo. A Calgary Stampede é uma festa que se realiza todos os anos e que, tirado por miúdos, é basicamente um rodeo. Corridas de cavalos e carroças, tipos a tentar sentar o rabinho no lombo do touro o máximo de tempo possível e animações deste género aparentemente geram o interesse a muita gente que se desloca de longe para vir a este festival que dura cerca de uma semana.

Vinte dólares dão acesso ao elevador que leva ao alto da Calgary Tower, uma daquelas torres que todas estas cidades parecem desesperadamente precisar mais que não seja para levar os tais vinte dólares por cabeça ao incauto turista. Lá de cima, ao fundo, para lá do alto das torres dos escritórios, vislumbram-se os cumes de neves eternas das Montanhas Rochosas. É para lá que o autocarro se dirige no dia seguinte.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Plenitude

«A Leonor foi um ser humano incompleto; faltaram-lhe as indispensáveis doses de imperfeição e de desarmonia.»

Elegia para um caixão vazio, Baptista Bastos

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Back in black

Mas só de raspão, a sério mesmo a sério, só no início da semana que vem. Prometidos ficam posts sobre dez dias em viagem e seiscentas e tal fotos. Esperemos que uns dias mais relaxados passem tudo à escrita. Até lá.

domingo, 19 de junho de 2011

Saturday night lecture on the Universe (reprise)

Uranus was discovered with a telescope in 1780s. Before that, people were unaware of the existence of Uranus. NASA sent a probe to Uranus. They found that Uranus is made of gases. There is no life on Uranus. They are training “asstronauts” to go to Uranus.

sábado, 18 de junho de 2011

Follow up

O presidente português está para o primeiro-ministro francês como o presidente francês está para o primeiro-ministro português.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Auschwitz/Birkenau II

Só quando entrámos na sala onde uma montra enorme expõe os montes de cabelos humanos – usados para fazer roupa – é que comecei a sentir a angústia. Um nó na garganta, uma dor. Que não tinha sentido ao olhar para as montanhas de óculos e de outros utensílios pessoais, como escovas e pentes. Depois disso, a parte pior: uma sala com roupas de criança, sapatos de criança. Aí senti a necessidade de afastar a cara daquele inofensivo vidro que guarda o maior dos horrores. Fui surpreendido com a forma como tudo aquilo me atingiu. Afinal, sabia ao que ia e sabia perfeitamente o que ia encontrar. Já tinha visto na televisão, já me tinham explicado, já tinha ido a outro campo de concentração. Mas há coisas para as quais simplesmente não nos podemos preparar de antemão, como a morte de alguém próximo.

É uma visita guiada de três horas, a maior parte das quais passada em Auschwitz propriamente dito – o campo original – e cerca de uma hora em Birkenau – o segundo campo construído para expandir o primeiro e albergar o extermínio. A guia tem um microfone na lapela e nós ouvimo-la através de uns auscultadores ligados a um pequeno receptor que se pendura ao pescoço, para ser mais fácil de seguir a explicação no meio da confusão. Tem uma voz doce e suave que, de vez em quando, treme nos momentos mais difíceis. É, a guia sofre connosco. Sofre enquanto nos desbobina a mesma lengalenga que já desbobinou a inúmeras outros turistas. O que é curioso: seria de esperar que já estivesse relativamente imune como um médico que já viu demasiadas doenças e mortes.

A questão dos campos de concentração é a incompreensão. E é a interrogação. Perceber como é que pessoas podem fazer aquilo umas às outras. Não se esqueçam – diz-nos a guia – que foram pessoas como eu e vocês que fizeram isto. E isso acarreta ainda mais interrogações, ainda mais duras e que são a verdadeira provocação. Será cada um de nós capaz de fazer algo de semelhante se estivesse inserido no mesmo contexto que estes alemães? Capaz de tamanho ódio e desprezo se for ensinado a cultivá-lo? A psicologia das multidões funciona contra a nossa resposta preferida mas eu não a consigo aceitar.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Krakow II

As centenas de quilómetros depois da fronteira alemã fazem-se sem grande problema, por entre auto-estradas largas que rasgam campos de cereais enormes, a perder de vista. Nas estações de serviço, camionistas e uma fauna duvidosa. O inglês deve ser falado com pouca frequência, o sotaque e as dificuldades levam a crer que não é língua franca. A entrada na cidade cheira a regime, caixotes cinzentos, feios, quadradões, a fazer de blocos de apartamentos. Mas é uma questão de tempo até o charme chegar, lá ao fundo, quando o centro surge, protegido pela muralha.

Uma frota de carrinhos de golfe com tipos chatos a oferecer um serviço de sightseeing a turistas. Rejeito sempre tudo, de mapa na mão. O empedrado das ruas pedonais, a fervilhar de pessoas, cafés, bares, restaurantes. Lojas de todo o tipo. O pitoresco da cidade de Cracóvia vive lado a lado com muita animação. Na praça central, o público senta-se para assistir a um concerto. Nas costas do palco, um bar tem um palco onde tocam jazz. Do outro lado da praça, uma multidão aglomera-se em torno de um grupo de mangas que fazem uma demonstração de break dance enquanto o sol se põe lentamente.

Krakow


quinta-feira, 9 de junho de 2011

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ver comentário ao post de 7 de junho

Estou senil e repito textos. E já não é a primeira vez. Normalmente arrasto os ficheiros com textos já postados para uma pastinha que serve para, vá, guardar os textos já postados. Acontece que – seguramente que é isto que acontece – há dias em que os posto e depois esqueço-me de os arrastar para a tal pastinha que serve para os tais textos já postados. E depois é isto que acontece. Vou ali fustigar-me e já venho. Mas antes disso vou meter este texto na tal pastinha dos tais textos.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Sargento

Ligo o cabo USB do disco externo ao computador e vejo o cursor a mexer, a assumir aquele formato de quem está a pensar. Pouco depois, surge uma janela e uma das opções é “reproduzir automaticamente”. O que quer que seja que isto quer dizer.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Your call

Surges-me do nada. Assim de repente. Uma lufada de ar fresco, entre pessoas chatas e desinteressantes. É um cliché dizer este tipo de merdas mas a chatice dos clichés é que têm sempre um fundo de verdade – e dizer isto é sim mesmo um cliché. Mas donde raio é que tu me saíste? Tento perceber por entre perguntas mascaradas de piadas parvas – as piadas parvas são um instrumento para fazer as perguntas sem que se perceba que estão a ser colocadas. Lá vou conseguindo que respondas por entre mais um whisky e um cigarro – fumas praticamente um maço inteiro à minha frente enquanto o diabo esfrega um olho – e sem perceber que estás a responder. Se calhar percebes que estás a responder e sou eu afinal quem não percebe que tu percebes que eu quero que não percebas. Ofereces-me um cigarro – não fazes ideia se fumo ou não – e eu tenho a coragem de recusar. De vez em quando também percebo os teus pontos de interrogação – que se calhar não queres que eu perceba. Ou então não percebo mesmo porque não são verdadeiramente pontos de interrogação. Pontos finais, outra porcaria qualquer. Ou reticências. Reticências porque deixam sempre tudo no ar. É Como o fumo dos cigarros, um maço inteiro a voar enquanto o diabo esfrega um olho. É preciso é perceber quando são reticências. Não sei se queres que eu perceba se são reticências ou não. Não sei se queres perceber se disseste reticências ou não.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Tag

Dou uma olhadela pelas notícias e vejo que alguns aeroportos do norte da Alemanha por causa da “#(/$#(% da nuvem de cinzas do !#(U$%”$(% do vulcão da “#(%”#( da Islândia. Stresso. Abro os sites dos comboios. TGV para Paris. 200 e tal euros. Tento perceber as condições, nomeadamente, se é passível de reembolso caso o espaço aéreo não fique fechado. Olho para os comentários que a minha chefe pôs no meu texto. Tento incorporá-los de forma a que não corrompa o que eu queria dizer. Procuro documentar-me para rebater os argumentos dela. Passo umas duas horas nisto. Ajudo o meu colega a perceber uma carta que recebeu da seguradora. Despeço-me dele – vai a uma conferência em Creta – e ele deseja-me boa sorte para chegar a Paris. Vou para a aula de alemão. Discuto a proposição de “hoffen”, faço de vendedor num role play e leio um texto sobre compras. Almoço. Entre garfadas, mandamos piadas porcas e gozamos com a única senhora sentada à mesa. Volto para a secretária. Trabalho em Excel a tarde toda. Gráficos, tabelas, populator. Ligo a uma colega que se vai embora no final da semana. Recebo a visita de um colega de outra divisão que agora vem para a minha. Reunião. Discussão sobre perspectivas de evolução nos EUA. Comércio. Petróleo e reunião da OPEP. Taxas de câmbio. Volto para os ficheiros. Luto mais um bocado. Ligo a outra colega que já se foi embora e que está só hoje de passagem na cidade. Não atende. Saio tarde. Vou às compras, não tenho nada no frigorífico. Vou a casa. Preparo qualquer coisa para comer. Ligam-me. Rendez-vous no Hit. Compramos umas cervejas. Fazem-me ir até à residência para nos juntarmos todos no parque a beber uma bejeca. Andamos de balouço e contamos piadas parvas. Despedida. Muito pouco emocionante. Volto para casa. Ando 20 minutos. Chego a casa e acabo de fazer a mala para Paris. Escrevo este texto. Xixi cama.

terça-feira, 24 de maio de 2011

BUS

Ligo o cabo USB do disco externo ao computador e vejo o cursor a mexer, a assumir aquele formato de quem está a pensar. Pouco depois, surge uma janela e uma das opções é “reproduzir automaticamente”. O que quer que seja que isto quer dizer.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Walk away

Não olhes para mim. Não faças esse olhar. Não sorrias enquanto fazes o olhar. E me acenas. Não venhas falar comigo. Com entusiasmo. Sentar-te ao meu lado. Não aproveites quando a conversa geral se distribui para outro sítio para iniciares uma conversa bilateral. Comigo. Para te meteres comigo. Muito menos para te meteres comigo. Não te metas comigo. Aliás, sabes que mais? Ignora-me. Se me vires, ignora-me. Nem precisas virar a cara, basta só não olhar com esse olhar, sorrir com esse sorriso acompanhado de um aceno. Muito menos sentar ao meu lado e meter comigo.

Faz-me esse favor. Faz-te esse favor.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Obra de regime

A Sagrada Sofia é uma mesquita improvisada. Construída sobre uma igreja, a subjugação religiosa poupou alguns pormenores interessantes, como alguns dos anteriores mosaicos ortodoxos que o interior ainda preserva. A Mesquita Azul é um símbolo de competição. Construída séculos mais tarde, pretendia ofuscar o esplendor da primeira pelo seu tamanho e imponência.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Minaretes por todo o lado.

Os megafones pendurados, pendentes, soltam o cantar a reza do almuadem. A escala harmónica dá-lhe uma cor exótica, parece que prolonga as notas mais tempo. Inertes e melancólicas. Quase parece que chora a reza. Uma reza que percorre ukm pedaço de cidade até ao som dos megafones de mais outro minarete. Foi preciso reparar na quantidade imensa de mesquitas em Istambul para conseguir perceber que Lisboa também tem imensas igrejas.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Margem sul

O barco faz uma daquelas voltinhas típicas de uma hora e meia pelo Bósforo. Custa meia dúzia de patacas e por isso resolvemos ir. As pessoas vão fazendo fila entrando uns bons minutos antes de arrancar para conseguir ficar com uns lugares no andar de cima. Ao mesmo tempo, o homem de voz cavernosa vai cuspindo “Bosfur, bosfur, bosfur”. Ecoa pelo embarcadouro, pela ponte com tantos restaurantes como pescadores. Em formato lengalenga. Sempre em blocos de três, com um curto intervalo entre os blocos, em que aproveita para fumar o cigarro ou debicar o chá.

domingo, 15 de maio de 2011

Backhand

Ando a adiar um post sobre o Djokovic mas acho que chegou o limite. A vitória de hoje eleva a temporada dele a um nível para lá de estratosférico. E se eu pensei que em Paris não havia pai para o Nadal, agora já começo a achar que pode haver um padrasto.

Explicar isto? Há dias vi um excerto da final de Madrid (e estou ansiosamente à espera que alguém ponha alguma coisa da de Roma no youtube): primeiro, a condição física do Djokovic melhorou imenso, o tipo não fica sem gás como ficava dantes; segundo, finalmente alguém que acredita que pode vencer o Nadal em terra; terceiro, mais técnico e se calhar mais importante que tudo o resto, a esquerda. O jogo clássico do balear é despejar imenso top spin na esquerda do adversário. Para um jogador como o Federer, esquerda a uma mão, isso é um verdadeiro inferno porque fica sem conseguir atacar e é uma questão de tempo até deixar uma bola mais curta e levar com as consequências. O Djokovic aprendeu a apanhar as bolas quando estão ainda a subir, evitando que o top spin actue e as torne muito mais difíceis de controlar, meio caminho andado para desmontar a estratégia do Rafa. Melhor: consegue mesmo transformar uma pancada dessas num ataque, algo que o Nadal não está habituado.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Tenho duas secretárias soterradas em papéis

Uma no gabinete, outra em casa. Ando constantemente a passear papelada de um lado para o outro, como se estivesse a semear. A confusão, claro, vai tão alta como a dos dois tampos de madeira que praticamente não chego a ver. Estou naquele ponto em que me custa desligar, estou a trabalhar 24 sobre 24, nem que seja só o back burner. Cansa. Um bocadito. E é uma boa desculpa para eu agora ir para a cama.

terça-feira, 10 de maio de 2011

quinta-feira, 5 de maio de 2011

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Presunção e água benta

O xadrez é o único contexto onde é socialmente aceitável que um bispo coma um peão. Ou dois, até um máximo de dez. Ou uma torre. Ou duas. Ou uma rainha. Ou um cavalo. Ou dois. Ou um rei. Ou outro bispo. Ou dois. Ou mais do que uma das figuras supracitadas – desde que, obviamente, o rei seja o último. Ou, inversamente, ser comido por qualquer umas destas figuras.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Se isto não é a coisa mais geek que existe

«Near the peak of the market, around 1999, it seemed that conversations about the stock market were everywhere. I used to play a game then with my wife when we went out to a restaurant to eat, I would predict that someone at an adjacent table would be talking about the stock market. I did not listen to others’ conversations, but I developed an ability to hear the word “stock market”. Usually I was able to catch it. Bringing up the stock market was seen then as an accepted, even mildly exciting, conversational gambit.The market was an agreeable topic. Five years later, bringing up the stock market at a social occasion no longer seemed so appealing; it might have seemed like an intrusion, a faux pas, a poorly judged attempt to mix business with pleasure. By 2004, one was more likely to hear about the housing market. The difference between 1999 and 2004 is subtle, but nevertheless revelatory of the fundamental change in investor enthusiasm for the market.»

Irrational exuberance, Robert Schiller

quinta-feira, 28 de abril de 2011

No portão da entrada principal a inscrição “Jedem das seine”

Legível pelo lado de dentro do campo. Os prisioneiros eram confrontados com a frase duas vezes por dia, na parada ao início da manhã e ao final da tarde, como que para serem relembrados da sua constante presença. Significa “a cada o seu”, uma espécie de cada um merece o que tem. Que é pior do que isso, porque esta expressão normalmente assume que aquilo que as pessoas têm depende das acções que levaram a cabo: se tiverem sido boazinhas, então a vida sorri; se tiverem sido mazinhas, então sofrem as consequências. Ora, no caso de Buchenwald, não é nada disso que se trata. Ninguém está ali senão por aquilo que fez mas sim por aquilo que é, ou seja, sobre aquilo que não depende de uma escolha e que não passível de ser controlado. Logo, é mais uma espécie de cada macaco no seu galho. Mas um cada macaco no seu galho muito cínico.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Pouca terra

Foi a primeira vez que fui a um campo de concentração. Um crime chegar a esta idade, tanta porcaria de sítio onde já fui, e só agora meti os pés num sítio como este. E este nem sequer é um campo de extermínio, era um campo essencialmente de trabalhos forçados. Claro que foi o local de morte de muitos milhares de pessoas, também tinha um crematório e um laboratório – chamemos-lhe assim – onde se faziam experiências com cobaias humanas injectadas com febre tifóide. Também tinha um posto médico falso para onde os prisioneiros de guerra russos eram levados ao engano para serem fuzilados. Mas não tinha câmaras de gás. As pessoas que não eram dadas como aptas para trabalho forçado eram tipicamente enviadas para outros campos como Auschwitz, esses sim com câmaras de gás. Dito de outra forma, tenho que visitar mais.

Fica uma foto dos carris por onde chegavam os comboios com vagões de animais carregados de gente para povoar este campo. Segundo reza, estes dez quilómetros foram construídos em pouco mais de 100 dias, a um ritmo alucinante e a custo de muitas vidas.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Redundância

«O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não.»

Citações e pensamentos de Fernando Pessoa, organização de Paulo Neves da Silva

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Quem Weimar perde o l'gar

Talvez seja mais conhecida pelo facto de ter sido aqui que se juntaram uma data de carolas para escrever a Constituição alemã no período imediatamente a seguir à Primeira Guerra Mundial – e daí ter surgido o termo “República de Weimar”. Mas Weimar é bem mais do que isso, é literalmente um poço de cultura. A começar pelos dois monstros da cultura alemã, Goethe e Schiller, que aqui viveram, passando pelo Liszt e terminando na Bauhaus (e todos os artistas que a ela estão associados).

domingo, 24 de abril de 2011

Vou no comboio, algures depois de Kassel.

Vou de livro na mão há já algum tempo e resolvo pousá-lo um bocado para descansar os olhos. Ao meu lado, do outro lado do corredor, vai uma tipa grandalhona que entrou há pouco tempo no comboio. Traz uma mochila bem grande que pousou no banco ao lado dela e vai sentada à janela com o sol de final de dia a bater-lhe na cara. De repente, quando olho em redor, vejo que tem um raminho de qualquer coisa que parece salsa na mão. Debica com a mão direita e retira um pouco das ervas verdes e leva à boca. Mastiga e engole aquela porcaria e volta a tirar mais um bocado do ramo e volta novamente a levar à boca e a comer. Depois abre o recipiente de metal para o lixo ao seu lado e despeja para lá o remanescente. Ajeita-se na cadeira, refastelada e prepara-se para dormir um bocado.

sábado, 23 de abril de 2011

Dou por mim a pensar coisas estúpidas.

Mesmo estúpidas. Quer dizer, de início não parecem estúpidas. Depois, crescem elas ou cresce o meu sentido de auto-crítica e ficam imediatamente catalogadas. Coisas estúpidas. Mesmo estúpidas. O único problema é que, por vezes, o hiato entre começar a pensar nelas e finalmente perceber que são estúpidas é estupidamente grande. Uma estupidez.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Às voltas e o sono não surge.

Os passos pesados do vizinho de cima. Pesados porque fazem barulho, não são passos de velho arrastados. Na rua, passa um grupo de pessoas um bocado mais barulhento, apanho-lhes as palavras enquanto passam divertidos pela minha janela. Dou mais uma volta, estou demasiado desperto. Disperso por entre sonhos que não são sonhos, são imagens soltas, dispersas. Estou demasiado desperto e então levanto-me. Levanto-me e sento-me a escrever isto.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Até à ponte ferroviária.

Zona este. Desde a pedonal – aquela que, atravessando, vai aterrar mesmo lá no centro – até lá ao fundo. Que não é tão fundo, nem sequer até fundo, dez minutos de passada rápida e cabeça vazia são o suficiente. Só dez minutos, os vinte ir e vir parecem muito – por causa da passada rápida – parecem mais do que os seis meses que estive sem ir correr. A mudança de horário tem destas coisas. O sol dos últimos dias, semanas, mês também ajuda, convida a vir para a rua, passo rápido por entre os que se passeiam, pedalam, patinam. Bandos de putos na relva das margens, garrafas de cerveja, cigarros e guitarras desafinadas, mantas no chão e óculos escuros da moda.

E tudo isto em dez minutos, vinte ir e vir.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Einmal ist keinmal

No momento em que vou a sair, já atrasado para o meu encontro das 18h15, dou pela falta das chaves de casa. Tenho tudo. A carteira, o telefone – aliás, os dois telefones – o raio do badge. Excepto as chaves de casa. Procuro em todo o lado. Dou a volta a tudo. Gavetas, bolsos das calças, casaco, gabardine. A mochila! Trouxe a mochila de manhã e nada lá dentro senão o raio de um saco de plástico. O meu colega de gabinete olha para mim preocupado “what’s wrong?”. Explico-me ele dá-me nas orelhas por ainda não ter feito uma cópia das chaves para o que der e vier.

Desisto. Telefono à minha senhoria: “Hi Anna”. Meio envergonhado, claro, é uma situação estúpida. O que vale é que ela é uma porreira. Não posso ir já aí mas já te ligo dentro de uma hora ou assim. Combinado. Vou para o tal encontro – aquele das 18h15 para o qual já estou pornograficamente atrasado. Uma cerveja à beira rio. Mais do que à beira rio, literalmente no rio numa espécie de jangada ou plataforma com umas mesas e uma senhora que é um atraso de vida a atender às mesas. O telefone ao meu lado, ao lado da caneca de cerveja. Toca mais ou menos quando estou a chegar ao fim. Despejo o que falta da caneca e despeço-me. Levo nas orelhas – pela segunda vez no mesmo dia, raios parta – porque estou “deserting my friends”. Explico o que se passa – porra, já lhes tido dito – e ainda digo que ligo depois para ver se ainda ali estão.

Subo os degraus de três em três, galgo os metros até casa num instante e chego dez, quinze segundos antes do carro dela – um Ka muito velhinho – entrar na esquina da rua e estacionar. Sai do carro apressadamente e já me estou a desculpar pelo incómodo e ela “macht nix”. É uma querida. Abre-me a porta da rua e passa-me para a mão as chaves para abrir a porta do apartamento. O pior dos meus receios concretiza-se. Dou duas voltas à chave até abrir a porta, o que significa que ela estava fechada, o que significa que as chaves não estão dentro de casa e que saí com elas de manhã, o pior cenário possível. A minha cara deve ter ficado com mau aspecto porque eu percebi que ela não percebeu a minha dedução lógica e, mesmo assim, está preocupada. Depois lá faz click e solta uma das únicas três expressões que verdadeiramente interessam em alemão: “ach so” (as outras duas são “genau” (com ou sem “ganz”) e “jawohl” (“doch” também é giro)). E continua “bist du sicher?”. Onde é que puseste, lembras-te? E eu conto o raio da história, que verifiquei aqui, ali e acoli e não estou nada a ver onde possa ter enfiado a porcaria das chaves, normalmente ponho no bolso das calças e o meu receio é que as tenha deixado cair daí sabe Deus onde. Digo-lhe que das qualquer das formas amanhã vou “nochmal gucken” e lhe digo qualquer coisa.

Depois, a pièce de résistance. Aproveito, já que ela está ali, para lhe mostrar os dois buracos que o gajo da Unitymedia fez na semana passada quando estava a instalar uma tomada para o cabo da televisão. Foram direitinhos de encontro a qualquer coisa demasiado rija e ele teve que chegar para a esquerda e deixar dois lindos orifícios escarrapachados no meio da parede. E eu pior que estragado. E achei que mais valia mostrar-lhe. Entra-me na sala e nem sequer olha para a parede, olha para o sofá onde a minha guitarra repousa ao comprido, qual imperador romano de cacho de uvas na mão. “Spielst du?”. Claro, até já me tinhas visto de guitarra na mão, no mínimo no dia em que ajudaste a carregar as tralhas cá para casa [já vos disse que é uma querida, não disse? Trouxe-me de armas e bagagens até cá a casa para facilitar a mudança]. Lá se apercebe que já deveria saber. “Bist du single?”. E em seguida diz que me vai apresentar a Laura, a filha dela. Eu rio-me e ela acrescenta que ela própria não pode, mas a filha pode. Eu rio-me mais, que raio havia de fazer. E que não preocupe com a porcaria dos buracos na parede. Um bocadinho de “gibs” e resolve-se. É mesmo uma querida.

Dirige-se à porta e olha para mim. “Bist du verliebt?” e eu respondo muito rápido “alle Tagen” e agora é ela quem se ri. E acrescenta que quando as pessoas estão apaixonadas perdem as coisas e dou mais uma achega que é porque têm a cabeça noutro sítio. Vê lá outra vez amanhã se não encontras as chaves, pensa, “uberlegt mal” onde as podes ter posto e depois diz-me qualquer coisa. Claro, está combinado.

E obrigado uma vez mais.

domingo, 17 de abril de 2011

How to improvise

A louça amontoa-se no lava-louças, empilha-se por entre pratos que se assentam uns em cima dos outros, copos que se encaixam uns nos outros, a bancada repleta de sacos com coisas que ficaram por arrumar, que ficam por arrumar, que provavelmente já não serão arrumadas. Garrafas de vinho e migalhas, uma embalagem de CIF e caixas de cereais, uma tábua e uma faca para cortar o pão, garrafas vazias à espera do vidrão, pequenos recipientes de molho de soja que acompanham take away the sushi. À espera. On the hold. En attendant. Warten. A imobilidade mental traduz-se nestas pequenas coisas do dia, a mais singela e ridícula tarefa caseira passa a ser insuportável e hercúlea.

sábado, 16 de abril de 2011

sexta-feira, 15 de abril de 2011

quinta-feira, 14 de abril de 2011

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Mais crónicas de fada do lar

Corto-me na mão esquerda a cortar pão. Dou um misto de grito de dor misturado com algumas palavras menos próprias e considerações sobre a actividade profissional da mãe da faca. O golpe não é muito fundo mas o suficiente para depressa ganhar a cor avermelhada do sangue. Ocorre-me que deveria desinfectar a ferida. Ocorre-me em seguida que não tenho álcool nesta casa. Aliás, não tenho rigorosamente nada de primeiros socorros. Olho em volta e rapidamente vejo a solução. Preparo e despejo um shot de tequilla na ferida – afinal, 38% do conteúdo da garrafa é álcool; já a de vodka, que estava mesmo ao lado, só tinha 37,5%. Pena não me ter lembrado do ritual do limão e do sal.

domingo, 10 de abril de 2011

A Musikmesse é a maior feira de instrumentos musicais do mundo.

Uma FIL só para instrumentos de sopro. Outra só para instrumentos de percussão. Outra só para instrumentos de corda. Outra – aliás, duas – só para instrumentos eléctricos. Outra só para literatura especializada. Mais umas quantas FILs para sistemas de som e luz profissionais. Na zona das cordas, imensos instrumentos dos quatro cantos do mundo. A guitarra espanhola com grande destaque, claro, mas a quantidade bancas chinesas de qualidade duvidosa foi o que mais me chamou a atenção. Para além disso, bancas de instrumentos eslavos, de origem cigana e até uma banca só de ukeleles coloridos como o Havai. As pulgas saltitantes de origem portuguesa fazem sucesso junto das crianças e dos pais das crianças que abrem os cordões das bolsas e oferecem aqueles instrumentos meio brincadeira aos filhos, juntamente com livritos pequeninos com uma espécie de método de aprendizagem. Agora, em relação aos instrumentos portugueses que deram origem ao ukelele – braguinha – não vi nada. Assim como não vi um cavaquinho. Nem sequer uma guitarra portuguesa, símbolo máximo da nossa expressão musical única e de projecção mundial.

sábado, 9 de abril de 2011

Spielzeug

«O homem digno desse nome apenas ama duas coisas: o perigo e o jogo. É por isso que ele deseja a mulher, o mais perigoso dos brinquedos.»

Assim falava Zaratustra, Friedrich Nietzsche

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Sweet dreams are made of this

«Amor não se conjuga no passado, ou se ama para sempre ou nunca se amou verdadeiramente»

Fernando Pessoa

terça-feira, 5 de abril de 2011

Foram capazes de ter sido estes quadros. É possível, não nego.

Num deles o Armstrong. Sentado, o corpo ligeiramente cortado, o alto da cabeça também. Segura o trompete perto do bocal, o instrumento poisa no chão perto dos pés. Os sapatos pretos, as meias brancas, um laçarote. O olhar está concentrado em qualquer outra coisa, lá longe, fora daquilo que conseguimos ver. Não tem nada a ver com aquela expressão bonacheirona com que é associado, aquele sorriso enorme. Parece velho e cansado.

No outro quadro, o Ellington. Com uma pose de duque, claro, sentado de costas para o piano. Vemo-lo pelo reflexo do espelho de um camarim, na bancada uma série de frascos – um deles diz baby powder – e produtos, a gravata pendurada a um canto. Ao fundo, um armário, repleto de fatos pendurados. Impecáveis, exactamente como aquele que veste e o cabelo muito penteado para trás, com brilhantina.

No último, Sonny Stitt, desconhecido para mim. É uma daquelas imagens típicas de jazz: um saxofonista fotografado por entre fios espessos de fumo de um cigarro pousado num cinzeiro infecto: o cinzeiro, mais perto, desfocado, o músico, mais longe, focado. Um holofote projecta um feixe de luz por detrás, que faz disparar o brilho do metal do saxofone e dos dedos a pressionar as válvulas.

domingo, 3 de abril de 2011

Revisitei a minha amiga do final do ano passado.

Por um momento ia jurar que a minha cara lhe disse alguma coisa quando parou para me perguntar o que ia beber. Mas não. Ou então fingiu que não. No outro extremo da sala, um trio a tocar música cabo-verdiana. Demorei a perceber que era isso que ouvia, houve qualquer coisa que me fez pensar que deveria ser música brasileira – talvez o amarelo da t-shirt de um deles. Tive que explicar a uma tipa que não faço ideia quem seja que, lá por ser português, não significa que perceba um boi de crioulo. E é verdade, só consigo apanhar umas coisas. Lá cantaram aquela do caminho para “ess´ minha terra Sã Nicolau”, talvez para me contrariar e mostrar que afinal percebo umas raspas.

sábado, 2 de abril de 2011

Diga trinta e três

o botão. Enviar. São duas as perguntas mas as questões são muito mais. Imensas, inúmeras possibilidades e uma panóplia. As questões são muito piores que as perguntas. Às perguntas respondemos com sim ou não, ou talvez, logo se vê; no limite, nem sequer respondemos e dizemos apenas que não sabemos a resposta adequada. As questões são muito piores. Porque as questões são as perguntas que fazemos a nós próprios apenas porque sabemos que não possuímos a respostas. Não há sim nem não, nem talvez, muito menos logo se vê. Ficam a pairar no ar como o smog de uma cidade poluída, não desaparecem nem dão tréguas.

Off the hook

´(…) It’s bad, loving someone you can’t forgive.’
‘It´s not as bad as loving someone you can’t have,’

Shantaram, Gregory David Roberts

sexta-feira, 1 de abril de 2011

domingo, 27 de março de 2011

Fragezeichen

Esbarro constantemente nesta parede, neste muro de betão armado. Constantemente. Sempre que parece que estou a dar mais um passo em frente, de imediato sou empurrado de volta para o mesmo sítio. Encurralado. À minha frente, novamente, outro obstáculo. Igual a todos os outros, no fundo, é sempre o mesmo. O ponto de interrogação. Redondinho e com aquela pintinha lá em baixo.

Ebenso

Perguntas o que não deves. Quer dizer, não é bem o que não deves, é aquilo que devias saber
Já devias saber
Não tem propriamente resposta. Mesmo que eu te a quisesse dar – e afianço-te que te a daria sem segundas intenções. Mas não posso, juro que não posso, nem que quisesse, juro. Fazes as perguntas erradas, já te disse e, no fundo
Já devias saber a esta altura
É como se estivesses a perguntar a um bêbedo porque razão bebe, perguntas que, mesmo que tenham resposta, não te as posso dar, estou farto de te dizer, já devias ter percebido e, mesmo assim, insistes e voltas a insistir e perguntas e, por esta altura
Já devias saber
Que não gosto que insistas quando sabes perfeitamente que não tenho como te responder, não te posso responder, não sei como te responder, não tenho nada com que te responder. E, mesmo assim, perguntas.

sábado, 26 de março de 2011

I'm still alive

Passaram-se dias (semanas, a bem dizer) e, depois de perder as batalhas iniciais com o meu acesso à internet, finalmente consegui ganhar algum terreno: este post. A guerra, essa, está longe de estar ganha. Mas o importante, é que ainda estou vivo, mais ou menos o propósito deste post (novamente este post). Daqui até ao I'm still alive é um saltinho e, outro saltinho depois, esta coisa tirada do Youtube:

quarta-feira, 9 de março de 2011

Eine Leiche im Keller

Ginástica. É tudo uma ginástica. Conseguir passar pelos obstáculos todos. Contorcionismo. Manter todos os pratos a girar ao mesmo tempo e não deixar nenhum cair e partir-se. Jogo de cintura. Passar por entre os pingos da chuva. Estilo dançar o limbo.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Mais crónicas de uma fada do lar

É um pincel procurar os produtos de limpeza que pretendemos nas prateleiras estrangeiras. Isto porque memorizamos de acordo com as marcas. E os mesmos produtos têm nomes diferentes.

domingo, 6 de março de 2011

Crónicas de uma fada do lar

Aqueles botões que os aspiradores têm que servem para regulador a intensidade são uma parvoíce, um logro. Toda a gente sabe que são para pôr no máximo e usar sempre assim.

sábado, 5 de março de 2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

Stille

Rodo a chave um bocado a medo, ainda não estou habituado a esta porta, a esta fechadura. Sigo o corredor parcialmente iluminado pela luz exterior que entra pela janela da cozinha. Paro. A ver, a olhar. A ambientar-me. E só depois que percebo que paro para tentar ouvir os sons. Ou a ausência deles, que é aquilo que verdadeiramente desejo. Nunca quis tanto o silêncio.

terça-feira, 1 de março de 2011

Vitinho

Hoje foi um dos dias mais despertos dos últimos tempos. E, no entanto, de repente tenho um sono inexplicável. Claramente um processo de reposição.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

No more bunny slope for me

Imensa papelada para arrumar, imensa coisa para limpar. Na CNN estão a cobrir a história de um jogador de cricket que saiu do armário; o Pedro Pinto até está a entrevistar a Navratilova e tudo. Passados meses, voltei a usar um forno. Num canal qualquer alemão (n-tv...?) estava a dar uma reportagem sobre a construção das pirâmides do Egipto. Egito, segundo a nova ortografia, que me causa arrepios e, há que dizê-lo, alguns vómitos. Esteve um dia de sol ridículo hoje, de manhã à noite com céu azul, algo que só poucas vezes vi e foi há muito tempo. A Navratilova continua a responder às perguntas do Pinto em directo do Colorado (na legenda diz que ganhou 59 Slams!! Grande parte deve ser em duplas...). O vizinho de cima caminha com pé pesado.

Vou para a cama. Até amanhã.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

All in

E passados estes anos todos, ali estavas tu. Outra vez. À minha frente. Nem queria acreditar. Quer dizer, não eras tu. Era ela. Mas ela era exactamente como tu há estes anos todos atrás. Ela eras tu. Com um único senão:

Ela não és tu.

Autopistas

O que ganham na redução de consumo, perdem a mudar os sinais de trânsito

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A arte da oratória

O Paulo Portas até em plena Festa do Avante era capaz de arrancar um bom discurso. E na volta ganhar um ou outro voto.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Nunca quiseste

Vejo-o agora. Entendo-o. Não fizeste o esforço. Nunca quiseste querer.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

En garde

Pára. Quieta, um bocadinho. Arreda lá para trás. Não sou muito bom a dizer que não mas dou-te as entrelinhas todas. Lê-as. Com calma, take your time. Desde que as leias, tudo bem. Sou paciente. Demasiado paciente, diga-se de passagem. Tão paciente que às vezes irrita. E, no entanto, farto-me logo; para isso não tenha paciência. Rigorosamente nenhuma. Por isso, olha bem. Melhor: vê bem. Está lá tudo, juro-te. Bem escarrapachado. Explícito. E pára. Quieta.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Volatilidade

Desde que surgiu o caso da velhota morta há nove anos em casa que todos os dias há mais um velhote qualquer que aparece morto há três quinze dias. Não há paciência para esta comunicação social.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Paciência.

Tens que ter paciência. Tudo gira em torno da minha capacidade de esperar. Que é como quem diz, suportar. Aturar. A pouca idade é normalmente associada à falta de paciência. Não sei o que é pior. Porque à medida que os anos avançam, deixamos de estar para isso.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A morte e os impostos

«Nos arredores de Lisboa, Augusta, que teria hoje 96 anos, morreu sem ninguém dar por nada. Nem família, nem amigos, nem serviços públicos. Uma vizinha, epenas ela, bateu a todas as portas que pôde, por estranhar a sua ausência. Da família, da GNR, de todos, apenas a indiferença. Nem a segurança social, nem os serviços de saúde. Ninguém. Era apenas uma velha num prédio de uns subúrbios. Passou oito anos a bater a portas. A burocracia impediu que alguém fizesse alguma coisa. A porta não podia ser arrombada. A GNR até gozou com a preocupação da vizinha. Coisas de velhos, terão pensado.

Mas Augusta, cidadã portuguesa, era também contribuinte. E aí deram por falta dela. Tinha uma dívida. Sem um único contato, a frieza da máquina leiloou o seu apartamento. Quando os novos donos chegaram, a porta foi finalmente arromada. E lá estava Augusta, morta no chão da cozinha. Tinha morrido há oito anos sem que ninguém tivesse dado ouvidos à vizinha.

O que impressiona, para além da solidão que permite que alguém morra sem que ninguém dê por nada, é que o mesmo Estado que dá pelo não pagamento de uma dívida ao fisco não dê, não queira dar, pelo desaparecimento de um ser humano. Que o contribuinte exista, mas ocidadão não. Que quem tinha a obrigação de pagar impostos tenha deixado de existir nos seus direitos. A metáfora é macabra. Mas é poderosa. Este Estado que não se esquece - não se deve esquecer - de nós quando é cobrador, mas para quem não existimos quando nos é devida alguma atenção.

Diz-se que só há duas coisas certas na vida: a morte e os impostos. Parece que para o Estado português só a segunda parte é verdadeira.»

Daniel Oliveira no Expresso

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Perfume

Há uma parte de ti que está cheia de vontade de me falar sobre aquilo que não deve. Não tenho nada a ver com aquilo que me queres contar e, no fundo, não deves. Será a tua forma de simpatia, a tua forma de chegares até mim, dando-me uma parte de ti. Que, pensando bem, até pode nem ser assim tão substancial quanto isso – se me estás a contar é porque seguramente não é. Não deixo de registar com piada o teu passo. Quase um salto de fé. Curiosamente, bastante seguro, demasiado seguro para um salto de fé, que pressupõe alguma insegurança. Ou, pelo menos, deveria. Talvez pela tua assertividade. És tão assertiva que o simples facto de puxares o tema sem que ele viesse minimamente a propósito nem sequer destoa. Nem sequer parece que foi retirado da cartola, puxado a saca-rolhas. Embora eu saiba que foi.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

I’ve been wrong before

Fitou-me muito seriamente. Eu só me casei aos 34 anos. E acrescentou sem mudar a expressão facial: e ainda fui a tempo de arranjar chatices.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

All over again

Nalgumas coisas somos todos iguais. Demasiadamente iguais. Nem tudo são desvantagens: a previsibilidade é uma espécie de garantia. Mas a desvantagem do all over again é grande demais.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Ixus

Os fans e adeptos achavam-no arrogante e de poucas maneiras porque nunca se dignava a dar autógrafos. O atleta não era nada disso: era simplesmente analfabeto.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Metropolitana

Entrei no metro e ela ficou para trás. Ainda pensei que fosse o facto de partir de uma linha que não era habitual mas se toda a gente se deslocava para ali. Sentou-se no banco da estação e tirou um saco de plástico de dentro da mala, o qual acondicionava sapatos de salto alto. E só então percebi. Tirou dos pés os sapatos rasos – e algo rafeiros – com que tinha descido a rua e trocou-os pelos elegantes. De facto, tinha achado estranho que fosse aquela a combinação de saia-casaco com sapatos rasos que fosse usar. Mas estaria à espera que fizesse a troca no escritório, não no banco da estação de metro.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Bermudas

Quando se apercebeu que estava envolvido num triângulo amoroso, a única coisa que lhe passou pela cabeça foi o quão injustas tinham sido as suas más notas a geometria no liceu.