A alternativa seria apanhar um táxi, que é consideravelmente mais caro: uma mota andará pelas quarenta dobras, um táxi umas duzentas e cinquenta. E ir a pé é uma alternativa pouco apetecível, ainda é um pouco longe. Já tinha ido ao forte de São Sebastião durante o dia, não me apetecia fazer os três quilómetros e tal da guesthouse ao restaurante. Para além de quê, segundo me tinham avisado, não é fácil dar com o local.
Meu dito meu feito: seguindo o conselho do proprietário da guesthouse, levantei o braço quando vi a primeira moto que, no entanto, não ligou nenhuma. Virei-me novamente para frente e ia continuar a caminhar pelo passeio quando, uma outra moto apareceu sem que percebesse donde. Digo-lhe
Para a Dona Tété
Responde-me que sim quando esperava que me dissesse um preço. Provoco a resposta e não mostro a minha cara de contentamento quando me diz que são vinte dobras. Salto para o banco de trás e, com o estômago ainda cheio de chocolate da prova que tinha feito, ao final da tarde, na fábrica de Claudio Corallo, tento esconder a minha outra cara, a de quem não gosta de motos.
O percurso, se não é exactamente igual ao que me mostraram no mapa, é muito parecido. E, como me tinha dito o proprietário da guesthouse, a certa altura saímos da estrada e andamos num carreiro de terra, atravessamos um pequeno curso de água e seguimos por outro caminho meio obscuro. Confirma-se: sem ajuda, iria ser um desafio dar com o local.
Ainda é cedo e, lá dentro estão poucas pessoas. Algumas das quais, seguindo uma tendência que se verifica abundantemente por estas paragens, são caras que já vi: um dos grupos esteve, poucas horas antes, na tal degustação de chocolate na qual a filha de Claudio Corallo nos explica a particularidade do cacau que não é amargo. Sento-me numa mesa pequena, no jardim, peço o cherne grelhado e, de entrada, um petisco de búzios.
Tudo somado, o farto repasto deixa-me algo empertigado. E, ao percorrer os caminhos de terra que levam de regresso à estrada principal, apontando a lanterna do telemóvel para ver onde ponho os pés, ocorre-me que o ideal seria caminhar um pouco para ajudar o meu estômago a processar a quantidade obscena de comida. Pouco a pouco, faço os tais 3 e tal quilómetros, passando pelas avenidas largas, pelo palácio presidencial e pela igreja, pelo Instituto Camões, pelo mercado, agora às moscas, mas igualmente sujo. Recuso uma ou outra oferta de transporte das poucas motos que se oferecem.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
terça-feira, 7 de janeiro de 2020
À saída do Jalé, apanho três miúdos que entram no banco traseiro do jeep de catana na mão.
Temos alguma dificuldade de comunicação, a língua franca deles não é decididamente o português (angolar?). Percebo que querem ir para lá de Porto Alegre e combinamos que me avisam quando quiserem sair. Falam, entre eles, com um sorriso rasgado na cara, por vezes acenam quando passamos por outras pessoas. Quando chega a altura, fazem-me sinal, encosto onde posso
Obrigado, amigo!
Um bom bocado depois, passada a pior parte e de regresso a asfalto regular, a 5 ou 6 quilómetro de São João dos Angolares, uma senhora de idade, de balde e catana na mão grita-me
Boleia, boleia!
Encosto, aproxima-se do vidro aberto e pergunto-lhe para onde vai
Para os Angolares
Enquanto lhe digo que é exactamente para aí que vou, tiro a mochila do banco do pendura e passo-a para trás, para que se possa sentar ao meu lado, o que a deixa um pouco perplexa
Mas... aí??
Coloca o balde delicadamente, senta-se envergonhada, encolhida ao meu lado. Meto conversa, pergunto-lhe como iria para os Angolares caso não tivesse boleia e ela diz-me que teria de esperar por uma carrinha que passa umas boas mais tarde.
Estamos nesta conversa de circunstância quando, após mais uma das inúmeras curvas, vejo um polícia que me manda encostar. Chega-se à minha janela
Desligue a viatura, por favor.
Desligo o motor.
Documentos da viatura, por favor.
Peço licença à senhora para esticar o braço até ao porta luvas, onde o tipo da empresa de aluguer me disse que estavam os documentos. Pego no pequeno livrete verde e tiro da carteira a minha carta de condução, saio do jeep e entrego ao agente, que os inspecciona.
A viatura é alugada?
Sim
E tem todos os equipamentos necessários? Macaco? Triângulo?
Sim
Posso ver?
Dirijo-me à bagageira, retiro a caixa do triângulo, abro à sua frente.
E o macaco?
Peço licença, retiro o meu saco e levanto a pequena tampa, debaixo da qual estão as chaves e o macaco para mudar o pneu, de acordo com o que me tinha sido dito.
Quando é que o senhor entrou em São Tomé?
Respondo.
Quando é que regressa?
Respondo.
Faz uma pequena pausa, volta a colocar a papelada dentro do pequeno livrete, devolve-me tudo
Ok, pode seguir.
Agradeço, despeço-me e volto a sentar-me ao volante. Espero até ter algumas curvas de distância em relação ao polícia até recomeçar a conversa com a senhora que, durante este tempo todo, esteve na mesma posição encolhida no banco do pendura. Faz uma exclamação em relação ao facto de o polícia ter mandado parar um branco
Brranco tem documento!
Deixo-a no centro da povoação, agradece-me de mãos juntas. Sigo mais um pouco até virar para a estrada que dá acesso à Roça de São João de Angolares, onde passo a noite.
Obrigado, amigo!
Um bom bocado depois, passada a pior parte e de regresso a asfalto regular, a 5 ou 6 quilómetro de São João dos Angolares, uma senhora de idade, de balde e catana na mão grita-me
Boleia, boleia!
Encosto, aproxima-se do vidro aberto e pergunto-lhe para onde vai
Para os Angolares
Enquanto lhe digo que é exactamente para aí que vou, tiro a mochila do banco do pendura e passo-a para trás, para que se possa sentar ao meu lado, o que a deixa um pouco perplexa
Mas... aí??
Coloca o balde delicadamente, senta-se envergonhada, encolhida ao meu lado. Meto conversa, pergunto-lhe como iria para os Angolares caso não tivesse boleia e ela diz-me que teria de esperar por uma carrinha que passa umas boas mais tarde.
Estamos nesta conversa de circunstância quando, após mais uma das inúmeras curvas, vejo um polícia que me manda encostar. Chega-se à minha janela
Desligue a viatura, por favor.
Desligo o motor.
Documentos da viatura, por favor.
Peço licença à senhora para esticar o braço até ao porta luvas, onde o tipo da empresa de aluguer me disse que estavam os documentos. Pego no pequeno livrete verde e tiro da carteira a minha carta de condução, saio do jeep e entrego ao agente, que os inspecciona.
A viatura é alugada?
Sim
E tem todos os equipamentos necessários? Macaco? Triângulo?
Sim
Posso ver?
Dirijo-me à bagageira, retiro a caixa do triângulo, abro à sua frente.
E o macaco?
Peço licença, retiro o meu saco e levanto a pequena tampa, debaixo da qual estão as chaves e o macaco para mudar o pneu, de acordo com o que me tinha sido dito.
Quando é que o senhor entrou em São Tomé?
Respondo.
Quando é que regressa?
Respondo.
Faz uma pequena pausa, volta a colocar a papelada dentro do pequeno livrete, devolve-me tudo
Ok, pode seguir.
Agradeço, despeço-me e volto a sentar-me ao volante. Espero até ter algumas curvas de distância em relação ao polícia até recomeçar a conversa com a senhora que, durante este tempo todo, esteve na mesma posição encolhida no banco do pendura. Faz uma exclamação em relação ao facto de o polícia ter mandado parar um branco
Brranco tem documento!
Deixo-a no centro da povoação, agradece-me de mãos juntas. Sigo mais um pouco até virar para a estrada que dá acesso à Roça de São João de Angolares, onde passo a noite.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2020
Pouco antes das 21h vejo a luz vermelha de uma lanterna aproximar-se da porta do bungalow.
Ponho a cabeça de fora, trocamos umas palavras, relembra-me que tenho de fazer um pagamento. Visto-me rapidamente, enfio os pés nas havaianas, pego no meu frontal (com a luz vermelha ligada, que não incomoda os bichos) e acompanho-o. Pelo caminho, reparo que calça umas galochas e pergunto-lhe se as havaianas estão bem. Diz-me que não há problema, vamos andar pouco, que as tartarugas estão mesmo perto do lodge.
E, de facto, poucos metros depois do bungalow onde são servidas as refeições, deparo-me com uma enorme carapaça, bem maior do que aquilo que estava à espera. A cabeça está tapada pela vegetação. Fico algo hipnotizado, meio catatónico a observar, enquanto a chuva miudinha vai lentamente ensopando a minha t-shirt. Enquanto isso, ele toma notas num caderno protegido com uma capa plástica, faz medições das dimensões do bicho, coloca identificadores nas patas dianteiras.
O processo repete-se com uma segunda tartaruga, ainda mais perto do bungalow. Desta vez, a cabeça do animal não está tapada e, uma vez mais, fico estarrecido a olhar. Uma parte de mim sente-se algo desconfortável, como se estivesse a invadir a privacidade do bicho.
A chuva intensifica-se e ficamos debaixo de um telheiro, à espera que abrande, enquanto enxotamos os mosquitos como podemos. Por esta altura, os meus pés já estão devidamente repletos de pequenas manchas vermelhas e é difícil resistir à tentação de coçar fortemente. Em vez de abrandar, a chuva fica cada vez mais forte. Acabo por me despedir deles e fazer o caminho até ao meu bungalow o mais rápido que posso. Pouco tempo depois de retirar a roupa molhada, caem os primeiros relâmpagos, imediatamente seguidos de trovões que quase fazem tremer a terra.
Por casualidade, fico a saber posteriormente – no dia do meu regresso a Lisboa, na sala de embarque do aeroporto, sentou-se ao meu lado uma senhora que esteve num dos outros bungalows na mesma noite – que as ondas estavam tão fortes que galgaram o desnível entre o fim da areia e início da terra e passaram por debaixo dos bungalows suspensos em estacas de madeira.
E, de facto, poucos metros depois do bungalow onde são servidas as refeições, deparo-me com uma enorme carapaça, bem maior do que aquilo que estava à espera. A cabeça está tapada pela vegetação. Fico algo hipnotizado, meio catatónico a observar, enquanto a chuva miudinha vai lentamente ensopando a minha t-shirt. Enquanto isso, ele toma notas num caderno protegido com uma capa plástica, faz medições das dimensões do bicho, coloca identificadores nas patas dianteiras.
O processo repete-se com uma segunda tartaruga, ainda mais perto do bungalow. Desta vez, a cabeça do animal não está tapada e, uma vez mais, fico estarrecido a olhar. Uma parte de mim sente-se algo desconfortável, como se estivesse a invadir a privacidade do bicho.
A chuva intensifica-se e ficamos debaixo de um telheiro, à espera que abrande, enquanto enxotamos os mosquitos como podemos. Por esta altura, os meus pés já estão devidamente repletos de pequenas manchas vermelhas e é difícil resistir à tentação de coçar fortemente. Em vez de abrandar, a chuva fica cada vez mais forte. Acabo por me despedir deles e fazer o caminho até ao meu bungalow o mais rápido que posso. Pouco tempo depois de retirar a roupa molhada, caem os primeiros relâmpagos, imediatamente seguidos de trovões que quase fazem tremer a terra.
Por casualidade, fico a saber posteriormente – no dia do meu regresso a Lisboa, na sala de embarque do aeroporto, sentou-se ao meu lado uma senhora que esteve num dos outros bungalows na mesma noite – que as ondas estavam tão fortes que galgaram o desnível entre o fim da areia e início da terra e passaram por debaixo dos bungalows suspensos em estacas de madeira.
domingo, 5 de janeiro de 2020
Deixo o Ilhéu das Rolas no barco das 9h da manhã.
O barco do Pestana leva os turistas e é seguido, pouco depois, por uma barcaça de pescador, onde vão alguns dos locais e as nossas bagagens. Um grupo está à nossa espera para tocar e cantar músicas tradicionais. Enquanto sou forçado a esperar pela bagagem, finjo um interesse maior do que o genuíno na actuação, para evitar o tipo chato que vende artesanato.
Não são muitos os quilómetros que vou ter de fazer, mas a estrada, tal como esperado, fica progressivamente pior. A saída da última povoação no extremo sul da ilha é feita por uma estrada de pedras grandes, que vai dar a uma outra de terra, que segue ao longo de um campo de futebol improvisado. São sensivelmente três quilómetros de terra e buracos, passando pelo desvio para a praia do Inhame, até chegar.
São três bungalows e, ao fundo, depois de passar uma pequena construção, em frente à qual se senta um segurança numa cadeira de plástico com o encosto meio partido, uma outra construção com a sala de refeições, cozinha e uns balneários, que podem ser usados mediante o pagamento de 25 dobras.
O chuveiro não tem água quente. Há electricidade entre sensivelmente as 18h e as 21h, hora a partir da qual o segurança desliga o gerador e a penumbra se instala. Durante estes dias, o telemóvel apenas vai servir para ouvir música e, uma vez, para me guiar o caminho numa caminhada.
Não são muitos os quilómetros que vou ter de fazer, mas a estrada, tal como esperado, fica progressivamente pior. A saída da última povoação no extremo sul da ilha é feita por uma estrada de pedras grandes, que vai dar a uma outra de terra, que segue ao longo de um campo de futebol improvisado. São sensivelmente três quilómetros de terra e buracos, passando pelo desvio para a praia do Inhame, até chegar.
São três bungalows e, ao fundo, depois de passar uma pequena construção, em frente à qual se senta um segurança numa cadeira de plástico com o encosto meio partido, uma outra construção com a sala de refeições, cozinha e uns balneários, que podem ser usados mediante o pagamento de 25 dobras.
O chuveiro não tem água quente. Há electricidade entre sensivelmente as 18h e as 21h, hora a partir da qual o segurança desliga o gerador e a penumbra se instala. Durante estes dias, o telemóvel apenas vai servir para ouvir música e, uma vez, para me guiar o caminho numa caminhada.
sábado, 4 de janeiro de 2020
A meia hora que me tinham dito que demoraria a chegar à Ponta Baleia transforma-se em mais de uma hora.
Expectavelmente, devo dizer, nenhuma deslocação é tão curta como o apregoam. A estrada piora consideravelmente de qualidade, são várias as secções onde o asfalto é substituído por pequenas pedras, que colmatam a ausência de alcatrão e evitam a acumulação de terra e lama. À medida que se segue para sul, cada vez mais sentimos a crueza da natureza da ilha.
Pouco depois de uma das poucas povoações nestas paragens, está uma placa a indicar a saída para a Ponta Baleia, onde também se lê Pestana. Um local pede-me para parar e tenta negociar comigo uma travessia e refeições no ilhéu; quando lhe explico que sou cliente do Pestana e tenho tudo isso incluído (enfim, o transfer de barco acaba por me ser cobrado), aceita facilmente a ausência de possibilidade de um acordo mutuamente vantajoso e despede-se.
Com alguma (bastante) sorte, o barco está quase a chegar ao ancoradouro quando estaciono o jeep no local onde ficará duas noites. Há uma excursão numerosa, de uma nacionalidade que não consigo identificar, e calculo que seja por isso que seja realizada esta travessia extraordinária do barco do Pestana, à qual acabo por me juntar (venho a saber mais tarde que o barco só tem duas travessias diárias agendadas e que, àquela hora, a da manhã já tinha tido lugar).
Depois do check in na recepção mesmo à saída do cais, sou acompanhado por um funcionário ao meu quarto. O interior está gelado e a primeira coisa que faço após ficar sozinho é desligar o ar-condicionado esforçado. No pequeno televisor, para além do canal da televisão local, tenho acesso à SIC notícias, bem como a Al Jazeera.
O restaurante onde são servidas as refeições buffet fica logo a seguir à piscina, à distância de um lance de escadas. Há vários pratos à escolha, incluindo arroz de pato, vitela, caldo verde e sopa da pedra. Na secção de grelhados na chapa, para além de pedaços de frango, há também umas postas de peixe muito desengraçadas, que mais parecem medalhões congelados da Pescanova. Vai ser a única vez que não vou comer peixe em quinze dias.
Este é um antro de homens grisalhos, de cabelo penteado para trás, calções garridos e camisas vermelhas às riscas, sapatos de vela sem meias. Na mão, para além do telemóvel e da carteira, trazem um maço de cigarros. Elas lêem livros daqueles de capa vistosa dos escaparates das novidades, põem lenços por cima do biquíni antes de percorrer os metros que separam a espreguiçadeira do quarto e, ao jantar, aparecem maquilhadas e de vestido negro.
Estes vão ser os meus dias de verdadeira détente. Troco o papel que me deram por uma toalha e deito-me numa espreguiçadeira, entre a piscina e água azul muito claro. Por esta altura, estou a ler um livro do Norman Mailer sobre o combate entre Muhammad Ali e George Foreman, no antigo Zaire. Sem nunca ter ligado nenhuma a boxe, dou por mim a ver o combate no youtube, algo que a ligação wifi, neste local, permite. Numa das tardes, dou uma pequena volta ao ilhéu e visito o célebre marco do equador. Tiro umas fotografias, que o iPhone localiza no Ilhéu Gago Coutinho.
Pouco depois de uma das poucas povoações nestas paragens, está uma placa a indicar a saída para a Ponta Baleia, onde também se lê Pestana. Um local pede-me para parar e tenta negociar comigo uma travessia e refeições no ilhéu; quando lhe explico que sou cliente do Pestana e tenho tudo isso incluído (enfim, o transfer de barco acaba por me ser cobrado), aceita facilmente a ausência de possibilidade de um acordo mutuamente vantajoso e despede-se.
Com alguma (bastante) sorte, o barco está quase a chegar ao ancoradouro quando estaciono o jeep no local onde ficará duas noites. Há uma excursão numerosa, de uma nacionalidade que não consigo identificar, e calculo que seja por isso que seja realizada esta travessia extraordinária do barco do Pestana, à qual acabo por me juntar (venho a saber mais tarde que o barco só tem duas travessias diárias agendadas e que, àquela hora, a da manhã já tinha tido lugar).
Depois do check in na recepção mesmo à saída do cais, sou acompanhado por um funcionário ao meu quarto. O interior está gelado e a primeira coisa que faço após ficar sozinho é desligar o ar-condicionado esforçado. No pequeno televisor, para além do canal da televisão local, tenho acesso à SIC notícias, bem como a Al Jazeera.
O restaurante onde são servidas as refeições buffet fica logo a seguir à piscina, à distância de um lance de escadas. Há vários pratos à escolha, incluindo arroz de pato, vitela, caldo verde e sopa da pedra. Na secção de grelhados na chapa, para além de pedaços de frango, há também umas postas de peixe muito desengraçadas, que mais parecem medalhões congelados da Pescanova. Vai ser a única vez que não vou comer peixe em quinze dias.
Este é um antro de homens grisalhos, de cabelo penteado para trás, calções garridos e camisas vermelhas às riscas, sapatos de vela sem meias. Na mão, para além do telemóvel e da carteira, trazem um maço de cigarros. Elas lêem livros daqueles de capa vistosa dos escaparates das novidades, põem lenços por cima do biquíni antes de percorrer os metros que separam a espreguiçadeira do quarto e, ao jantar, aparecem maquilhadas e de vestido negro.
Estes vão ser os meus dias de verdadeira détente. Troco o papel que me deram por uma toalha e deito-me numa espreguiçadeira, entre a piscina e água azul muito claro. Por esta altura, estou a ler um livro do Norman Mailer sobre o combate entre Muhammad Ali e George Foreman, no antigo Zaire. Sem nunca ter ligado nenhuma a boxe, dou por mim a ver o combate no youtube, algo que a ligação wifi, neste local, permite. Numa das tardes, dou uma pequena volta ao ilhéu e visito o célebre marco do equador. Tiro umas fotografias, que o iPhone localiza no Ilhéu Gago Coutinho.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2020
O GPS envia-me para o centro da localidade, para uma rua de aspecto mais pedonal que outra coisa.
Antes de prosseguir no que me parece uma indicação altamente duvidosa, abordo dois locais. Não reconhecem a pousada pelo nome. Mostro-lhes a confirmação da reserva e tudo se esclarece: é uma pousada recente, fica fora da povoação e o dono, o Silvino, esteve com eles há uns minutos atrás.
Liga e diz-lhe que estás ao pé do Carlos que ele sabe
Ligo para o número indicado e, em alta voz, identifico-me e digo que estou com o Carlos ao pé da escola primária. Uns minutos depois, enquanto falo um pouco com o Carlos e o amigo, Silvino aparece.
Esclarece que a indicação de localização que colocou no site do booking está errada e precisa de a corrigir. Voltamos atrás uns quilómetros na estrada principal até sair por um caminho de terra que continua por um promontório. Ao fundo, mesmo antes da terra terminar numa descida abrupta para as rochas e o mar, está uma pequena construção de pedra, com uns cadeirões e mesas de refeição e, no piso de cima, três quartos simples, e com uma varanda a toda a volta.
Sou, uma vez mais, o único hóspede numa instalação inaugurada há poucos meses. Escolho o quarto virado a nascente. Depois de combinar com o cozinheiro, que já trabalhou na Roça de São João dos Angolares, a hora a que o jantar vai ser servido – escolho o polvo grelhado – dou um salto até à praia do Micondó, a poucos quilómetros dali.
Qual gato escaldado, evito a zona o caminho que leva até mesmo perto da praia, deixo o jeep parado mesmo à saída da estrada principal e caminho o resto. Na praia, dou de caras com a hospedeira eslava do voo entre São Tomé e o Príncipe, e é assim que, sem resistir a perguntar, fico a saber que é a ela e a tripulação (estão mais à frente, pendurados num ramo de árvore meio submerso) são ucranianos e que vêm para aquelas ilhas por períodos de alguns meses.
Fico até o sol se esconder atrás das árvores e a areia ficar sem luz. Regresso para um duche semi-frio e o tal polvo grelhado. À noite, o céu nublado impede-me de ver as estrelas. Acordo inundado da luz do nascer do sol. Depois de um pequeno-almoço servido nas mesas exteriores, no limite da terra, faço-me novamente à estrada.
Liga e diz-lhe que estás ao pé do Carlos que ele sabe
Ligo para o número indicado e, em alta voz, identifico-me e digo que estou com o Carlos ao pé da escola primária. Uns minutos depois, enquanto falo um pouco com o Carlos e o amigo, Silvino aparece.
Esclarece que a indicação de localização que colocou no site do booking está errada e precisa de a corrigir. Voltamos atrás uns quilómetros na estrada principal até sair por um caminho de terra que continua por um promontório. Ao fundo, mesmo antes da terra terminar numa descida abrupta para as rochas e o mar, está uma pequena construção de pedra, com uns cadeirões e mesas de refeição e, no piso de cima, três quartos simples, e com uma varanda a toda a volta.
Sou, uma vez mais, o único hóspede numa instalação inaugurada há poucos meses. Escolho o quarto virado a nascente. Depois de combinar com o cozinheiro, que já trabalhou na Roça de São João dos Angolares, a hora a que o jantar vai ser servido – escolho o polvo grelhado – dou um salto até à praia do Micondó, a poucos quilómetros dali.
Qual gato escaldado, evito a zona o caminho que leva até mesmo perto da praia, deixo o jeep parado mesmo à saída da estrada principal e caminho o resto. Na praia, dou de caras com a hospedeira eslava do voo entre São Tomé e o Príncipe, e é assim que, sem resistir a perguntar, fico a saber que é a ela e a tripulação (estão mais à frente, pendurados num ramo de árvore meio submerso) são ucranianos e que vêm para aquelas ilhas por períodos de alguns meses.
Fico até o sol se esconder atrás das árvores e a areia ficar sem luz. Regresso para um duche semi-frio e o tal polvo grelhado. À noite, o céu nublado impede-me de ver as estrelas. Acordo inundado da luz do nascer do sol. Depois de um pequeno-almoço servido nas mesas exteriores, no limite da terra, faço-me novamente à estrada.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2020
Hugo aborda-me assim que me vê passar de jeep.
Explica-me que é aluno do 11º ano e, exibindo o cartão que trás ao pescoço, que é “certificado” para fazer de guia para turistas ali na Roça Água Izé.
Já foste ao hospital?
Explico que acabei de chegar e ainda não tive tempo de ver nada e ele rapidamente oferece um cardápio que inclui não só o hospital, mas também o centro de artesanato e a boca do inferno.
Convida-me a ir na sua moto, algo que tento, sem sucesso, evitar exibindo o mais que óbvio (e com quatro rodas) jeep
Não confias em mim?
atira-me. Que remédio, penso enquanto me sento atrás dele, agarrado à grelha atrás do banco, por cima da roda traseira.
Subimos a estrada de terra até ao impressionante edifício do antigo hospital, uma imagem que já tinha visto em pesquisas online. Ali entramos e subimos as escadas, enquanto me vai fornecendo alguns detalhes da vida, no local, em tempos idos. Encontramos alguns companheiros de trabalho de Hugo que, com o mesmo cartão de identificação ao pescoço, aguardam a chegada de um turista com interesse numa rápida contratação.
O centro de artesanato fica lá em baixo, no outro extremo da roça, num antigo armazém. Hugo deixa-me nas mãos de Zezinha, que me oferece uma visita guiada ao centro. Para além das peças de madeira e de tecidos, há uma zona onde se aprende a fazer peças de artesanato com resíduos, como garrafas de plástico. Dois coelhos com uma cajadada: para além de permitir colocar algum dinheiro nos bolsos dos artesãos, a actividade contribui para evitar a acumulação de resíduos.
O último ponto da excursão é a boca do inferno, a uns minutos da roça. Diz a lenda que um cavaleiro português era o único que conseguia entrar ileso na formação rochosa e que, inclusivamente, saia do outro lado, na boca do inferno de Cascais. Hugo confessa-me, com uma expressão mais carregada, que, na opinião dele, se trata apenas de uma lenda, que não existe mesmo o tal cavaleiro capaz de entrar naquela formação rochosa do oeste da ilha de São Tomé e sair numa região de Portugal. Pergunta-me se concordo e eu avento que sim, que me parece tratar-se apenas de uma lenda.
Regressado ao jeep, desejo-lhe felicidades para cumprir os planos de terminar o 12º e conseguir uma bolsa para continuar os estudos no estrangeiro. Sigo pela estrada costeira até São João dos Angolares, olhando em todas as direcções, à procura do próximo local de pernoita.
Já foste ao hospital?
Explico que acabei de chegar e ainda não tive tempo de ver nada e ele rapidamente oferece um cardápio que inclui não só o hospital, mas também o centro de artesanato e a boca do inferno.
Convida-me a ir na sua moto, algo que tento, sem sucesso, evitar exibindo o mais que óbvio (e com quatro rodas) jeep
Não confias em mim?
atira-me. Que remédio, penso enquanto me sento atrás dele, agarrado à grelha atrás do banco, por cima da roda traseira.
Subimos a estrada de terra até ao impressionante edifício do antigo hospital, uma imagem que já tinha visto em pesquisas online. Ali entramos e subimos as escadas, enquanto me vai fornecendo alguns detalhes da vida, no local, em tempos idos. Encontramos alguns companheiros de trabalho de Hugo que, com o mesmo cartão de identificação ao pescoço, aguardam a chegada de um turista com interesse numa rápida contratação.
O centro de artesanato fica lá em baixo, no outro extremo da roça, num antigo armazém. Hugo deixa-me nas mãos de Zezinha, que me oferece uma visita guiada ao centro. Para além das peças de madeira e de tecidos, há uma zona onde se aprende a fazer peças de artesanato com resíduos, como garrafas de plástico. Dois coelhos com uma cajadada: para além de permitir colocar algum dinheiro nos bolsos dos artesãos, a actividade contribui para evitar a acumulação de resíduos.
O último ponto da excursão é a boca do inferno, a uns minutos da roça. Diz a lenda que um cavaleiro português era o único que conseguia entrar ileso na formação rochosa e que, inclusivamente, saia do outro lado, na boca do inferno de Cascais. Hugo confessa-me, com uma expressão mais carregada, que, na opinião dele, se trata apenas de uma lenda, que não existe mesmo o tal cavaleiro capaz de entrar naquela formação rochosa do oeste da ilha de São Tomé e sair numa região de Portugal. Pergunta-me se concordo e eu avento que sim, que me parece tratar-se apenas de uma lenda.
Regressado ao jeep, desejo-lhe felicidades para cumprir os planos de terminar o 12º e conseguir uma bolsa para continuar os estudos no estrangeiro. Sigo pela estrada costeira até São João dos Angolares, olhando em todas as direcções, à procura do próximo local de pernoita.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2020
O caminho indicado pelo GPS não parece ser difícil.
Na cidade de Trindade, viro num cruzamento e vou subindo. No entanto, a estrada de alcatrão tornou-se, progressivamente, numa de terra e pedras e cada vez mais estreita. Continuo a subir, já não faltam muitos quilómetros, por entre gente de catana na mão, outros a trabalhar a terra, senhoras de alguidares e baldes na cabeça.
Para me sentir um pouco mais confortável (se tal fosse possível nesta circunstância), resolvo confirmar com um senhor que, simpaticamente, me diz que estava quase na Roça Saudade. Quer dizer, até já estava nos terrenos da dita mas os edifícios são mais acima. Continuo, em primeira, pela estrada difícil até passar, com muito jeito, ao lado de duas senhoras que lavavam louça em alguidares, e vou desembocar a uma espécie de praça.
Sigo, devagar, olhando para os dois lados, aliás, para todos os lados sem, no entanto, conseguir identificar o local onde vou pernoitar. A pequena praça tem uma estrada empedrada, ladeada, ao fundo à esquerda, por um muro alto, que deduzo ser o da roça. Sigo ao longo do muro, procurando uma entrada e, pouco depois, desemboco numa estrada alcatroada, em óptimas condições. Olho para o GPS com vontade de o estrafegar: bastava ter feito a viragem em Trindade no cruzamento seguinte e ter-me-ia poupado mais uma aventura de condução todo-o-terreno.
Descoberta esta estrada, por descobrir a entrada para a roça. Faço o percurso inverso e, quase a chegar novamente à pequena praça, vejo um portão velho entreaberto e gente lá dentro: aproveito para perguntar. O miúdo que se prontifica a ajudar não reconhece a Pousada da Roça Saudade. Até que me pergunta se tenho uma imagem. Mostro-lhe o email de confirmação da reserva, que acaba por ser suficiente. Entra pela porta mesmo ao lado das senhoras que continuam a lavar a louça e só então reparo no letreiro da Casa Museu Almada Negreiros. Está virado na direcção de quem vem da estrada principal e não do caminho tortuoso que fiz, por isso não tinha reparado.
Lá de dentro sai um funcionário, passados alguns minutos, que parece algo perplexo a olhar para o email de confirmação. Mais tarde fico a saber que é conhecido por Mola, depois de me dizer o nome do qual, entretanto, me esqueci. Mostra-me a Casa Museu, a estátua do Almada na entrada, a pequena divisão com peças de artesanato e réplicas de gravuras, um poster da exposição da Gulbenkian em 2017. Mais à frente, mostra-me a ainda mais pequena divisão que guarda alguns livros velhos, gastos, que foram coleccionando.
A pousada fica do outro lado da rua, onde as senhoras continuam a lavar, subindo umas escadas de pedra, que vão dar a um portão de correr e um pequeno jardim. Lá em cima, são três os quartos que dão para uma sala comum ampla, com uma enorme varanda de onde se avista a cidade, lá em baixo, à beira-mar.
A construção do espaço terminou há poucos meses. As paredes estão cheias de gravuras e de citações do Almada: “o Dantas cheira mal da boca”, “ Morra o Dantas, morra pim”. Nas mesas de apoio aos sofás e cadeirões, vários livros do e sobre o Almada.
Passada talvez uma meia-hora, surge o dono do estabelecimento. Pede desculpa por não ter estado para me receber. Diz-me que houve uma série de cancelamentos de última hora das reservas, por causa de um incidente: uma manifestação religiosa terminou em protestos violentos e houve uma morte. Assumiu que eu iria também cancelar. Falamos um pouco. Tem uma ideia muito clara e lúcida do que quer para aquele espaço. Dou-lhe os parabéns, digo-lhe que está muito bem conseguido. Depois aconselha-me a ir a Monte Café (ensina-me um atalho) e à cascata a pé. É dos poucos que me incentiva a passear e visitar a comunidade local.
Para me sentir um pouco mais confortável (se tal fosse possível nesta circunstância), resolvo confirmar com um senhor que, simpaticamente, me diz que estava quase na Roça Saudade. Quer dizer, até já estava nos terrenos da dita mas os edifícios são mais acima. Continuo, em primeira, pela estrada difícil até passar, com muito jeito, ao lado de duas senhoras que lavavam louça em alguidares, e vou desembocar a uma espécie de praça.
Sigo, devagar, olhando para os dois lados, aliás, para todos os lados sem, no entanto, conseguir identificar o local onde vou pernoitar. A pequena praça tem uma estrada empedrada, ladeada, ao fundo à esquerda, por um muro alto, que deduzo ser o da roça. Sigo ao longo do muro, procurando uma entrada e, pouco depois, desemboco numa estrada alcatroada, em óptimas condições. Olho para o GPS com vontade de o estrafegar: bastava ter feito a viragem em Trindade no cruzamento seguinte e ter-me-ia poupado mais uma aventura de condução todo-o-terreno.
Descoberta esta estrada, por descobrir a entrada para a roça. Faço o percurso inverso e, quase a chegar novamente à pequena praça, vejo um portão velho entreaberto e gente lá dentro: aproveito para perguntar. O miúdo que se prontifica a ajudar não reconhece a Pousada da Roça Saudade. Até que me pergunta se tenho uma imagem. Mostro-lhe o email de confirmação da reserva, que acaba por ser suficiente. Entra pela porta mesmo ao lado das senhoras que continuam a lavar a louça e só então reparo no letreiro da Casa Museu Almada Negreiros. Está virado na direcção de quem vem da estrada principal e não do caminho tortuoso que fiz, por isso não tinha reparado.
Lá de dentro sai um funcionário, passados alguns minutos, que parece algo perplexo a olhar para o email de confirmação. Mais tarde fico a saber que é conhecido por Mola, depois de me dizer o nome do qual, entretanto, me esqueci. Mostra-me a Casa Museu, a estátua do Almada na entrada, a pequena divisão com peças de artesanato e réplicas de gravuras, um poster da exposição da Gulbenkian em 2017. Mais à frente, mostra-me a ainda mais pequena divisão que guarda alguns livros velhos, gastos, que foram coleccionando.
A pousada fica do outro lado da rua, onde as senhoras continuam a lavar, subindo umas escadas de pedra, que vão dar a um portão de correr e um pequeno jardim. Lá em cima, são três os quartos que dão para uma sala comum ampla, com uma enorme varanda de onde se avista a cidade, lá em baixo, à beira-mar.
A construção do espaço terminou há poucos meses. As paredes estão cheias de gravuras e de citações do Almada: “o Dantas cheira mal da boca”, “ Morra o Dantas, morra pim”. Nas mesas de apoio aos sofás e cadeirões, vários livros do e sobre o Almada.
Passada talvez uma meia-hora, surge o dono do estabelecimento. Pede desculpa por não ter estado para me receber. Diz-me que houve uma série de cancelamentos de última hora das reservas, por causa de um incidente: uma manifestação religiosa terminou em protestos violentos e houve uma morte. Assumiu que eu iria também cancelar. Falamos um pouco. Tem uma ideia muito clara e lúcida do que quer para aquele espaço. Dou-lhe os parabéns, digo-lhe que está muito bem conseguido. Depois aconselha-me a ir a Monte Café (ensina-me um atalho) e à cascata a pé. É dos poucos que me incentiva a passear e visitar a comunidade local.
terça-feira, 31 de dezembro de 2019
Amigo, se não houver ninguém na praia, não vá se banhar.
Enquanto vais à água eles levam tudo. Eles não fazem mal mas tudo o que houver de bom eles levam.
Faço a pé o curto caminho da guesthouse até à praia de Tamarindos que, adivinhe-se, à excepção de um pescador que se cruza comigo pelo caminho, ao ir-se embora, não tem mais ninguém. O sofrimento de não ir à água não é muito grande, o tempo chuvoso e o mar não são convidativos. Isso e os mosquitos que, após atravessar as rochas ao fundo, que permitem aceder à praia seguinte, incomodam irritantemente, como é seu apanágio. Quando olho, vejo um enxame de moscas pousado no preto da mochila.
Ao final da tarde, enquanto espero pela barracuda grelhada e a banana frita com arroz do jantar, Mateus, o filho do casal, aborda-me, embora seja parco de palavras. Quer mostrar-me a bicicleta, a bola. A mãe, preocupada que o miúdo possa estar a incomodar o hóspede, liga-lhe o televisor. Na TVS está a dar telenovela brasileira.
De manhã, ao pequeno-almoço, a propósito da omelete com micocó, a planta local para cuja existência e propriedades afrodisíacas já tinha sido alertado na Roça Agostinho Neto, reitera a convicção de que “é bom para o homem”.
À noite, depois de jantar, bebes um chá de micocó e estás pronto para a cama.
Faço a pé o curto caminho da guesthouse até à praia de Tamarindos que, adivinhe-se, à excepção de um pescador que se cruza comigo pelo caminho, ao ir-se embora, não tem mais ninguém. O sofrimento de não ir à água não é muito grande, o tempo chuvoso e o mar não são convidativos. Isso e os mosquitos que, após atravessar as rochas ao fundo, que permitem aceder à praia seguinte, incomodam irritantemente, como é seu apanágio. Quando olho, vejo um enxame de moscas pousado no preto da mochila.
Ao final da tarde, enquanto espero pela barracuda grelhada e a banana frita com arroz do jantar, Mateus, o filho do casal, aborda-me, embora seja parco de palavras. Quer mostrar-me a bicicleta, a bola. A mãe, preocupada que o miúdo possa estar a incomodar o hóspede, liga-lhe o televisor. Na TVS está a dar telenovela brasileira.
De manhã, ao pequeno-almoço, a propósito da omelete com micocó, a planta local para cuja existência e propriedades afrodisíacas já tinha sido alertado na Roça Agostinho Neto, reitera a convicção de que “é bom para o homem”.
À noite, depois de jantar, bebes um chá de micocó e estás pronto para a cama.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
Uns minutos antes das 9h, a hora combinada, bate-me à porta do quarto a avisar que a boleia para o aeroporto já chegou.
Arrumo rapidamente as últimas coisas, desço o lance apertado de escadas. Dez minutos depois estamos à porta do pequeno terminal, que dá para a pequena pista, aberta no meio da densa floresta.
Enquanto uns funcionários tratam dos trâmites do check in, outros pedem para verificar a bagagem. Abro o saco e a mochila para que o funcionário possa passar a mão enluvada pelo interior. Completas estas medidas de segurança, regresso ao local do check in, onde me devolvem o passaporte e a minha impressão da reserva do voo, acompanhados de um bilhete que apenas tem o número do voo escrito à mão.
Ao lado, uma porta metálica abre para uma pequena divisória, dentro da qual outros dois funcionários tratam de percorrer os passageiros com aparelhos detectores de metais. Para demonstrar que não tenho nenhuma substância estranha na garrafa metálica, um deles pede-me que beba um pouco.
Cuidado com o degrau,
acrescenta quando transponho a porta para a sala de embarque. Algumas cadeiras à direita, na parede da esquerda, ao fundo, um televisor passa, em loop, um anúncio da fábrica de chocolates do Claudio Corallo. Calor, apesar da forte chuva que cai.
E é por causa dela que, pouco depois, funcionários com coletes entram na sala e, de forma quase solene, fazem o anúncio de que o voo está atrasado, que o avião não sairá de São Tomé antes do meio-dia, devido ao mau tempo. Somando uns 40 minutos de voo, o aparelho só deverá chegar pelas 12h40, mais o tempo de saída dos passageiros de São Tomé e embarque dos do Príncipe, calculamos que só um pouco depois das 13h deveremos arrancar, cerca de 3 horas depois da hora original.
Estou separado dos meus amigos de circunstância por duas cadeiras, ocupadas por duas portuguesas, que se levantam amiúde e falam muito e, por isso, não me deixam passar convenientemente pelas brasas. Queixam-se do calor e conseguem convencer as funcionárias a abrir mais janelas e a ligar as três ventoinhas do tecto. Uma delas repara que há uma rede wifi e pede a password a uma das funcionárias. Sigo-lhe as pisadas para avisar o fulano da empresa de aluguer de veículos, que está à minha espera no aeroporto de São Tomé, para me entregar o jeep. Enquanto digita a password no meu telefone, reparo que olha em frente: o código está escrito, a caneta, em letras e algarismos toscos, na parede amarela.
Alguns dos passageiros vão-se embora, os motoristas dos resorts de luxo levam-nos novamente para as instalações para que aguardem aí. A debandada é maior quando, pouco antes das 12h, recebemos um novo comunicado, uma vez mais com alguma pompa e circunstância: afinal, o voo já não vai sair de São Tomé senão pelas 14h, dado que persistem as condições adversas. Entretanto, no Príncipe, já havia parado de chover.
De repente, estamos só nós no pequeno terminal: eu, os meus companheiros de circunstância belgas e as 2 portuguesas. Os próprios funcionários desaparecem e não há nenhum sítio nas redondezas para onde possamos ir. A electricidade falha, ficamos sem ventoinhas e wifi. O belga, bem-disposto, brinca com a situação, que é inadmissível e que quer um reembolso. Acrescenta, em relação aos que regressaram aos resorts de luxo
They are tourists, we are travelers.
É a diferença, não trazemos a impaciência de quem vem para estes locais com a expectativa de que não vai haver nenhum impasse ou inconveniente.
Perto das 14h, os funcionários começam a regressar mas ainda não nos sabem dar nenhuma informação sobre o voo. Mas, aos poucos, os passageiros que foram esticar as pernas para os resorts – os tais turistas, na linguagem do belga – começam também a reaparecer. Trazem a boa nova de que o avião terá mesmo saído pelas 14h30.
A certa altura, há quem confunda o barulho de um carro com o das pás do bimotor. Falso alarme. Qual Fata Morgana, o Saab 340 faz-se à pista pelas 15h e picos, deixando umas 3 dezenas de pessoas extasiadas. O desembarque e reembarque são rápidos e, pelas 15h40, estamos sentados na máquina. A hospedeira embirra com a minha mochila porque estou sentado numa saída de emergência mas, como não a consegue encaixar nos compartimentos por cima dos lugares, acaba por a enfiar novamente debaixo do banco à minha frente.
Às 16h30 lá está o fulano à minha espera, com o meu nome num papel. Dá-me algumas indicações sobre o jeep e sobre o caminho até Neves. O sol põe-se pouco depois e os 40 kms em estrada esburacada, sem iluminação e com muita gente, levam-me hora e meia. Chego à roça onde vou passar a noite e estendo-me uma hora na cama até me chamarem para jantar.
Enquanto uns funcionários tratam dos trâmites do check in, outros pedem para verificar a bagagem. Abro o saco e a mochila para que o funcionário possa passar a mão enluvada pelo interior. Completas estas medidas de segurança, regresso ao local do check in, onde me devolvem o passaporte e a minha impressão da reserva do voo, acompanhados de um bilhete que apenas tem o número do voo escrito à mão.
Ao lado, uma porta metálica abre para uma pequena divisória, dentro da qual outros dois funcionários tratam de percorrer os passageiros com aparelhos detectores de metais. Para demonstrar que não tenho nenhuma substância estranha na garrafa metálica, um deles pede-me que beba um pouco.
Cuidado com o degrau,
acrescenta quando transponho a porta para a sala de embarque. Algumas cadeiras à direita, na parede da esquerda, ao fundo, um televisor passa, em loop, um anúncio da fábrica de chocolates do Claudio Corallo. Calor, apesar da forte chuva que cai.
E é por causa dela que, pouco depois, funcionários com coletes entram na sala e, de forma quase solene, fazem o anúncio de que o voo está atrasado, que o avião não sairá de São Tomé antes do meio-dia, devido ao mau tempo. Somando uns 40 minutos de voo, o aparelho só deverá chegar pelas 12h40, mais o tempo de saída dos passageiros de São Tomé e embarque dos do Príncipe, calculamos que só um pouco depois das 13h deveremos arrancar, cerca de 3 horas depois da hora original.
Estou separado dos meus amigos de circunstância por duas cadeiras, ocupadas por duas portuguesas, que se levantam amiúde e falam muito e, por isso, não me deixam passar convenientemente pelas brasas. Queixam-se do calor e conseguem convencer as funcionárias a abrir mais janelas e a ligar as três ventoinhas do tecto. Uma delas repara que há uma rede wifi e pede a password a uma das funcionárias. Sigo-lhe as pisadas para avisar o fulano da empresa de aluguer de veículos, que está à minha espera no aeroporto de São Tomé, para me entregar o jeep. Enquanto digita a password no meu telefone, reparo que olha em frente: o código está escrito, a caneta, em letras e algarismos toscos, na parede amarela.
Alguns dos passageiros vão-se embora, os motoristas dos resorts de luxo levam-nos novamente para as instalações para que aguardem aí. A debandada é maior quando, pouco antes das 12h, recebemos um novo comunicado, uma vez mais com alguma pompa e circunstância: afinal, o voo já não vai sair de São Tomé senão pelas 14h, dado que persistem as condições adversas. Entretanto, no Príncipe, já havia parado de chover.
De repente, estamos só nós no pequeno terminal: eu, os meus companheiros de circunstância belgas e as 2 portuguesas. Os próprios funcionários desaparecem e não há nenhum sítio nas redondezas para onde possamos ir. A electricidade falha, ficamos sem ventoinhas e wifi. O belga, bem-disposto, brinca com a situação, que é inadmissível e que quer um reembolso. Acrescenta, em relação aos que regressaram aos resorts de luxo
They are tourists, we are travelers.
É a diferença, não trazemos a impaciência de quem vem para estes locais com a expectativa de que não vai haver nenhum impasse ou inconveniente.
Perto das 14h, os funcionários começam a regressar mas ainda não nos sabem dar nenhuma informação sobre o voo. Mas, aos poucos, os passageiros que foram esticar as pernas para os resorts – os tais turistas, na linguagem do belga – começam também a reaparecer. Trazem a boa nova de que o avião terá mesmo saído pelas 14h30.
A certa altura, há quem confunda o barulho de um carro com o das pás do bimotor. Falso alarme. Qual Fata Morgana, o Saab 340 faz-se à pista pelas 15h e picos, deixando umas 3 dezenas de pessoas extasiadas. O desembarque e reembarque são rápidos e, pelas 15h40, estamos sentados na máquina. A hospedeira embirra com a minha mochila porque estou sentado numa saída de emergência mas, como não a consegue encaixar nos compartimentos por cima dos lugares, acaba por a enfiar novamente debaixo do banco à minha frente.
Às 16h30 lá está o fulano à minha espera, com o meu nome num papel. Dá-me algumas indicações sobre o jeep e sobre o caminho até Neves. O sol põe-se pouco depois e os 40 kms em estrada esburacada, sem iluminação e com muita gente, levam-me hora e meia. Chego à roça onde vou passar a noite e estendo-me uma hora na cama até me chamarem para jantar.
domingo, 29 de dezembro de 2019
Digo cobras e lagartos do caminho que, virando à direita à chegada à Roça Belo Monte, leva até às praias do nordeste da ilha.
A única indicação que tenho é a evitar descer até à praia Banana de carro, o dono da residencial alertou-me para uma secção que, à subida, é difícil de negociar. Por isso, no dia anterior, desci, a pé, a essa praia de difícil regresso. Segundo ele, de resto não há problema. Mas agora que tento chegar à praia Macaco, começo seriamente a duvidar dessa recomendação, enquanto tento manobrar o jeep pelo meio da terra, pedras e da lama.
Já relativamente perto, de acordo com as contas do GPS, a estrada bifurca e, nessa bifurcação, numa pequena construção abandonada, redonda, de tijolo e cimento, estão dois locais, que me desejam bom dia. Um deles aproxima-se de mim e pergunta-me onde quero ir. Aponta-me o caminho à minha esquerda que é, literalmente, um caminho de pedras. Espontaneamente solto um
Por aqui?
e ele conforta-me (ou tenta confortar) dizendo-me que está quase, estou perto. De facto, tem alguma razão: o caminho parece pior do que efectivamente é, basta descer devagar em primeira e, pouco depois, a praia surge.
Há algumas construções abandonadas ao longo do areal – que venho a saber a depois faziam parte de um projecto de resort turístico que acabou por não chegar a bom porto – e que dão um ar um pouco fantasmagórico ao local. O facto de não haver rigorosamente vivalma na praia também, devo dizer, contribuiu para essa sensação. Um pequeno pedaço de paraíso, de água azul e límpida, coqueiros e palmeiras a projectar sombra em parte da areia fina.
Passados alguns mergulhos e caminhadas na areia, surge um local, que me cumprimenta e volta a desaparecer, caminhando no areal. Pouco tempo depois, ouço um barulho por detrás de mim. Olho e vejo-o trepar um coqueiro com uma agilidade desconcertante. Uma vez no topo da árvore, manda uns quantos cocos para a areia e volta a descer com a mesma facilidade com que subiu. Bate fortemente com um dos cocos contra uma amurada da construção abandonada, retira-lhe a casca, abre uma pequena incisão com uma faca e, sem pronunciar uma palavra, oferece-me.
Já relativamente perto, de acordo com as contas do GPS, a estrada bifurca e, nessa bifurcação, numa pequena construção abandonada, redonda, de tijolo e cimento, estão dois locais, que me desejam bom dia. Um deles aproxima-se de mim e pergunta-me onde quero ir. Aponta-me o caminho à minha esquerda que é, literalmente, um caminho de pedras. Espontaneamente solto um
Por aqui?
e ele conforta-me (ou tenta confortar) dizendo-me que está quase, estou perto. De facto, tem alguma razão: o caminho parece pior do que efectivamente é, basta descer devagar em primeira e, pouco depois, a praia surge.
Há algumas construções abandonadas ao longo do areal – que venho a saber a depois faziam parte de um projecto de resort turístico que acabou por não chegar a bom porto – e que dão um ar um pouco fantasmagórico ao local. O facto de não haver rigorosamente vivalma na praia também, devo dizer, contribuiu para essa sensação. Um pequeno pedaço de paraíso, de água azul e límpida, coqueiros e palmeiras a projectar sombra em parte da areia fina.
Passados alguns mergulhos e caminhadas na areia, surge um local, que me cumprimenta e volta a desaparecer, caminhando no areal. Pouco tempo depois, ouço um barulho por detrás de mim. Olho e vejo-o trepar um coqueiro com uma agilidade desconcertante. Uma vez no topo da árvore, manda uns quantos cocos para a areia e volta a descer com a mesma facilidade com que subiu. Bate fortemente com um dos cocos contra uma amurada da construção abandonada, retira-lhe a casca, abre uma pequena incisão com uma faca e, sem pronunciar uma palavra, oferece-me.
sábado, 28 de dezembro de 2019
A residencial está localizada de frente para a igreja, onde está a haver uma celebração.
Do lado esquerdo da fachada da igreja, estão várias mesas de madeira compridas. As pessoas estão sentadas à conversa e a comer. Uma percentagem grande das raparigas tem vestidos brancos. O dono da residencial – nascido na roça Sundy, viveu 27 anos em Lisboa até regressar à ilha após a morte do pai, para tomar conta do negócio – explica-me que foram realizadas cerimónias religiosas (primeiras-comunhões, crismas) e as pessoas agora juntam-se para a festa. Tomo nota de um conjunto de dicas que me dá de sítios para visitar.
Saio para ver os edifícios que Estrela me apresentou na boleia conjunta. Vou até à rua que termina a praia. Duas raparigas estão sentadas na amurada. Faz-me lembrar o Malecon de Havana, embora, honestamente, não tenha assim tanto de parecido. Regresso por outra das ruas perpendiculares à praia e, depois de esperar um pouco debaixo de um telheiro para que uma carga de água passe, dirijo-me até à igreja.
É com algum espanto que reparo que a maioria das pessoas ainda ali está, apesar do dilúvio que acaba de cair. Mal tiro as primeiras fotos ao edifício e um grupo de miúdos vem ter comigo
Me pega
E eu certifico-me:
Querem que vos tire fotografias?
Fazem uma autêntica sessão fotográfica à minha frente – agora só eu, agora eu só com ele, agora só elas. Riem-se quando lhes mostro o resultado no visor da máquina. Recomeça a chuviscar e, a certa altura, tenho que lhes dizer que já chega.
Saio para ver os edifícios que Estrela me apresentou na boleia conjunta. Vou até à rua que termina a praia. Duas raparigas estão sentadas na amurada. Faz-me lembrar o Malecon de Havana, embora, honestamente, não tenha assim tanto de parecido. Regresso por outra das ruas perpendiculares à praia e, depois de esperar um pouco debaixo de um telheiro para que uma carga de água passe, dirijo-me até à igreja.
É com algum espanto que reparo que a maioria das pessoas ainda ali está, apesar do dilúvio que acaba de cair. Mal tiro as primeiras fotos ao edifício e um grupo de miúdos vem ter comigo
Me pega
E eu certifico-me:
Querem que vos tire fotografias?
Fazem uma autêntica sessão fotográfica à minha frente – agora só eu, agora eu só com ele, agora só elas. Riem-se quando lhes mostro o resultado no visor da máquina. Recomeça a chuviscar e, a certa altura, tenho que lhes dizer que já chega.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2019
Bem-vindo à capital mais pequena do mundo,
diz-me quando, a seguir a mais uma curva, a estrada vai desembocar à entrada de uma pequena baía e se lê, numa placa de trânsito, Santo António. Indica-me, à direita, a esquadra da polícia e a prisão. Brincamos com o facto de a própria ilha, de si, ser uma prisão, quem vai conseguir escapar daqui. Esta é a praça principal e, ali ao fundo, é o Palácio do Governo Regional. Aquele é o edifício da Assembleia Regional. Não estejas já a dizer tudo ao Sr. Daniel senão ele fica sem nada para fazer.
interrompe ele com um sorriso. Mas ela continua:
E este é o único sítio onde há internet à borla – acredita que é importante saber (no dia seguinte, à noite, lembrei-me da advertência quando vi uns quantos jovens encostados às paredes, de telemóvel na mão). E ali é a minha casa, informa-me pouco depois (muito pouco depois). Despedimo-nos, ela com um até logo que nunca veio a concretizar-se.
Vínhamos no mesmo voo, no bimotor Saab da São Tomé Airways, com indicações em cirílico por baixo das escritas em português e tripulação ucraniana, que assegura a ligação de 40 minutos, entre São Tomé e o Príncipe, a poucas dezenas de passageiros. À chegada, estaria alguém da residencial para me levar do pequeno aeroporto para a povoação.
Sr. Daniel?
Perguntam-me assim que cruzo a porta, de saco às costas. Seguimos até ao estacionamento e ela acompanha-nos. Dentro do jeep, é ele quem nos apresenta, após algumas perguntas de circunstância sobre o voo e sobre a minha proveniência em Portugal. Diz-me que partilho o carro com uma personalidade importante. Ela afasta essa caracterização. Explica-me porque chove mais, demasiado, no Príncipe do que em São Tomé (onde há zonas de savana) e a erosão que está a causar nos terrenos e nas praias. O seu nome incomum – Estrela Matilde – ajuda-me a que seja capaz de o recordar mais tarde e a procurar na internet da residencial. Aqui fica uma reportagem da TVI sobre esta alentejana que assentou arraiais naquele sítio remoto.
interrompe ele com um sorriso. Mas ela continua:
E este é o único sítio onde há internet à borla – acredita que é importante saber (no dia seguinte, à noite, lembrei-me da advertência quando vi uns quantos jovens encostados às paredes, de telemóvel na mão). E ali é a minha casa, informa-me pouco depois (muito pouco depois). Despedimo-nos, ela com um até logo que nunca veio a concretizar-se.
Vínhamos no mesmo voo, no bimotor Saab da São Tomé Airways, com indicações em cirílico por baixo das escritas em português e tripulação ucraniana, que assegura a ligação de 40 minutos, entre São Tomé e o Príncipe, a poucas dezenas de passageiros. À chegada, estaria alguém da residencial para me levar do pequeno aeroporto para a povoação.
Sr. Daniel?
Perguntam-me assim que cruzo a porta, de saco às costas. Seguimos até ao estacionamento e ela acompanha-nos. Dentro do jeep, é ele quem nos apresenta, após algumas perguntas de circunstância sobre o voo e sobre a minha proveniência em Portugal. Diz-me que partilho o carro com uma personalidade importante. Ela afasta essa caracterização. Explica-me porque chove mais, demasiado, no Príncipe do que em São Tomé (onde há zonas de savana) e a erosão que está a causar nos terrenos e nas praias. O seu nome incomum – Estrela Matilde – ajuda-me a que seja capaz de o recordar mais tarde e a procurar na internet da residencial. Aqui fica uma reportagem da TVI sobre esta alentejana que assentou arraiais naquele sítio remoto.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2019
Mau fígado
Enquanto não for determinado que outro órgão, para além do fígado, sofra da mesma maleita, declaro a expressão "cirrose hepática" um valente pleonasmo.
terça-feira, 24 de dezembro de 2019
Tribalismo
«(...), the claim that humans have an innate imperative to identify with a nation-state (...) is bad evolutionary psychology. Like the supposed innate imperative to belong to a religion, it confuses a vulnerability with a need. People undoubtedly feel solidarity with their tribe, but whatever intuition of "tribe" we are born with cannot be a nation-state, which is historical artefact of the 1648 Treaties of Westphalia. (Nor could it be race, since our evolutionary ancestors seldom met a person of another race.) In reality, the cognitive category of a tribe, in-group, or coalition is abstract and multidimensional. People see themselves as belonging to many overlapping tribes: their clan, hometown, native country, adopted country, religion, ethnic group, alma mater, fraternity or sorority, political party, employer, service organisation, sports team, even brand of camera equipment. (If you want to see tribalism at its fiercest, check out a "Nikon vs. Canon" Internet discussion group.)»
Enlightenment now, Steven Pinker
Enlightenment now, Steven Pinker
segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
sábado, 21 de dezembro de 2019
Repentinamente
De um momento para o outro, o orçamento de Estado para a orçamento do Estado. Confesso que ainda não me habituei.
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
Estávamos a ver os Jogos Olímpicos, não me lembro há quanto tempo.
Ele sentado na cadeira à minha direita, eu no sofá. Estavam a decorrer as provas de atletismo e a transmissão ia acompanhando as diferentes modalidades agendadas para o dia. Uma delas era o lançamento de peso ou de martelo, não me lembro exactamente qual, mas era seguramente uma das modalidades de força. E, um aspecto sobre o qual não tenho a mínima dúvida, tratava-se da vertente feminina.
A certa altura, a câmara foca uma das senhoras possantes, de cabelo curto, que se preparava para mais um ensaio. Sentado ao meu lado, soltou um riso contido e, com um sorriso na cara, olhou para mim e perguntou-me se sabia como se chama a uma mulher daquelas na terra dele. Respondi que não sabia e preparei-me para o que aí vinha.
Macha
disse-me, e não resisti a rir-me deste (chamemos-lhe) feminino de macho, que não destoa terrivelmente numa terra onde também há cadelos, raparigos, tomatas e ervo (na era do correcto automático, é um desafio escrever estes termos). Mas há ainda uma particularidade relevante nesta palavra "macha": tal como em muitos outros sítios do país, o "ch" é pronunciado como se fosse precedido de um "t", ou seja, é como, por exemplo, o "tch" de "tchouriça". Ou seja, "macha", na prática, diz-se "matcha".
E esta é a razão pela qual sempre que ouço falar no chá tradicional dos japoneses me vem à cabeça uma senhora de equipamento de desporto e um dorsal e, sobretudo, com poucos traços alusivos à sua condição feminina.
A certa altura, a câmara foca uma das senhoras possantes, de cabelo curto, que se preparava para mais um ensaio. Sentado ao meu lado, soltou um riso contido e, com um sorriso na cara, olhou para mim e perguntou-me se sabia como se chama a uma mulher daquelas na terra dele. Respondi que não sabia e preparei-me para o que aí vinha.
Macha
disse-me, e não resisti a rir-me deste (chamemos-lhe) feminino de macho, que não destoa terrivelmente numa terra onde também há cadelos, raparigos, tomatas e ervo (na era do correcto automático, é um desafio escrever estes termos). Mas há ainda uma particularidade relevante nesta palavra "macha": tal como em muitos outros sítios do país, o "ch" é pronunciado como se fosse precedido de um "t", ou seja, é como, por exemplo, o "tch" de "tchouriça". Ou seja, "macha", na prática, diz-se "matcha".
E esta é a razão pela qual sempre que ouço falar no chá tradicional dos japoneses me vem à cabeça uma senhora de equipamento de desporto e um dorsal e, sobretudo, com poucos traços alusivos à sua condição feminina.
terça-feira, 10 de dezembro de 2019
Energia
«Energy channeled by knowledge is the elixir with which we stave off entropy, and advances in energy capture are advances in human destiny. The invention of farming around ten thousand years ago multiplied the availability of calories from cultivated plants and domesticated animals, freed a portion of the population from the demands of hunting and gathering, and eventually gave them the luxury of writing, thinking, and accumulating their ideas. Around 500 BCE, in what philosopher Karl Jaspers called Axial Age, several widely separated cultures pivoted from systems of ritual sacrifice that merely warded off misfortune to systems of philosophical and religious belief that promoted selflessness and promised spiritual transcendence. Taoism and Confucianism in China, Hinduism, Buddhism, and Jainism in India, Zoroastrianism in Persia, Second Temple Judaism in Judea, and classical Greek philosophy and drama emerged within a few centuries of one another. (Confucius, Buddha, Pythagoras, Aeschylus, and the last of the Hebrew prophets walked the earth at the same time.) Recently an interdisciplinary team of scholars identified the common cause. It was not an aura of spirituality that descended on the planet but something more prosaic: energy capture.»
Enlightenment now, Steven Pinker
Enlightenment now, Steven Pinker
Subscrever:
Mensagens (Atom)
