quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Claramente uma tentativa de varrer a totalidade do espectro político.

Mayan Gonçalves tem (no mínimo) um tique: assim que acaba de dar uma resposta mais aguerrida (de acordo com o seu standard, claro), olhando para a sua direita, onde está a pivot da TVI, vira a cara rapidamente para a esquerda, antes de voltar a recentrar o olhar no oponente à sua frente. 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Acção reacção

O dia (europeu) começa com a Georgia a dar maioria democrata no Senado e termina com uma invasão do Capitólio.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Fila

A fila à porta do Instituto do Emprego e Formação Profissional, na 5 de Outubro, prolonga-se até à Rua de Picoas.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

A ingratidão de ser argumentista

Assumi que não chegaria a ver. Enganei-me. Num processo de zapping catatónico, o pequeno ícone apareceu-me à frente e resolvi espreitar. O menor número de episódios desta última temporada também fez o seu papel: afinal, o investimento seria menor. Convicto da pouca convicção, carreguei no play. 

A minha conjectura era que a ausência de Kevin Spacey, por força pelas razões conhecidas, tiraria muita da força de House of Cards. Não me enganei. O vácuo criado pelo desaparecimento do casal presidencial não chega nunca a ser preenchido, pese embora a tentativa de introduzir conflitos e intrigas palacianas com outras personagens, assim como, e sobretudo, pela dupla de irmãos protagonizada por Diane Lane e Greg Kinnear. O resultado é uma amálgama, uma tentativa falhada de terminar uma história, de lhe dar um final sem, no entanto, ter todos os recursos e instrumentos à disposição. 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Quando me apercebi já só havia bilhetes para a data extra, adicionada ao calendário da Culturgest para tentar acomodar a avalanche de interesse.

IV. "Psalm" E às 11h, qual missa matinal, para tentar acomodar as restrições sanitárias. O habitual quarteto entra em palco em forma alargada: há um segundo baterista, assim como um saxofonista barítono e um trompetista. 

III "Pursuance" O formato é tão simples como, naturalmente, arriscado: pegar no Love Supreme e tocá-lo de fio a pavio. Os títulos dos andamentos (chamemos-lhes andamentos, como nas peças clássicas) são projectados no início de cada, com a respectiva numeração romana. 

II "Resolution" A duração é algo alargada face ao original, com a introdução em solo de baterias (interessante chamar solo à performance de dois instrumentistas) e outras artimanhas usadas como uma espécie de cola entre os diversos momentos. De resto, Toscano mergulha de cabeça no som, na voz, no saxofone de Coltrane. Sem medo. Eventualmente também sem olhar para trás e sem pensar duas vezes. 

I. Acknowledgement O resultado está à vista: com uma maturidade musical pouco característica e natural na idade, Toscano é, merecidamente, um dos nomes mais relevantes da actualidade.  

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Des

Não faz sentido que «desfalecer» signifique perder as forças ou desmaiar; como o próprio nome indica, deveria ser algo como ressuscitar.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Sentir e pensar

«Seremos criaturas pensantes que também sentem ou criaturas dotadas de sentimento que também conseguem pensar? A resposta é clara. Vivemos a vida a sentir, ou a raciocinar, ou ambas as coisas, dependendo daquilo que nos é exigido pelas circunstâncias. A natureza humana serve-se de toda esta gama de tipos de inteligência, explícita e não-explícita, bem como do uso do sentimento e da razão, quer sozinhos, quer a par.» 

Sentir & saber, António Damásio

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Platonismo

A impossibilidade de transposição para o plano físico custava-lhe menos no amor do que no ódio platónico. 

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Durante semanas, as portadas abriam, de par em par, para o amarelo outonal das folhas.

Uma invasão de cor em dias de céu maioritariamente cinzento que, aos poucos, foi desaparecendo. Começou na manhã em os "sopradores" de folhas acordaram toda a vizinhança: de aparelhos barulhentos em riste, amontoaram as folhas caídas a um canto para depois as varrer do chão. Nesse período, casais de namorados aproveitaram a o mesmo amarelo outonal, agora no passeio, para tirar retratos, daqueles que acabam nas redes sociais, com esse pano de fundo. O processo de queda das folhas pareceu obedecer a uma coreografia ensaiada, começando numa das árvores e só passando para as seguintes depois de totalmente terminado na anterior. Consequentemente, árvores completamente nuas coabitaram com árvores ainda completamente vestidas. Neste momento, apenas uma ainda tem folhas, todas as outras têm os ramos magros totalmente expostos. E, praticamente, não se vê uma folha no chão.  

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Senti

Disse-lhe que ouvia religiosamente tudo o que lhe dizia. O problema é que tinha tendência para, em seguida, se esquecer. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

domingo, 13 de dezembro de 2020

Superior à média

Na conferência de imprensa em que falou do plano de restruturação da TAP, o ministro Pedro Nuno Santos despejou alguns números que comparam a empresa negativamente com as congéneres europeias e que, na sua perspectiva, justificam as medidas de redução de pessoal. Não fixei as percentagens mas, segundo o que referiu, a empresa portuguesa terá rácios de pilotos e pessoal de cabine por avião da frota superiores aos da concorrência. 

Ficou-me na tímpano (expressão que me apetece cunhar, em analogia com ficar na retina): a única vez que me aconteceu receber, na manga no decurso do embarque, um saco de papel pardo com uma sandes mal-amanhada e uma garrafa de água, foi num voo da TAP. A razão para esta solução de recurso, tal como nos foi explicado, foi a falta de um número mínimo de membros da tripulação de cabine para que a "refeição" pudesse ser servida, de forma normal, durante o voo.

sábado, 5 de dezembro de 2020

Confiança

«Trust obviates the need for money, and money without trust has no value. Perhaps it is trust that makes the world go round.»

The end of alchemy, Mervyn King

sábado, 28 de novembro de 2020

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Last dance

Não são as jogadas, os cestos, os afundanços, os passes, as assistências, as vitórias, o sucesso. Nem sequer as tricas, as intrigas, as jogadas de bastidores, os conflitos. O que mais me chamou a atenção no documentário da Netflix foi mesmo a quantidade incrível de charutos que os jogadores dos Chicago Bulls fumavam, a começar pelo Michael Jordan

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

terça-feira, 10 de novembro de 2020

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Fartar-se

«O carpinteiro exala impassível o seu fumo:«Simplesmente: que seja pobre quem tiver gosto nisso. Ah, sim, cá por mim os outros que sejam pobres à vontade. Agora eu cá é que precisamente não tenho gosto nenhum nisso. É que realmente co'o tempo um tipo acaba por se fartar.»»

Berlim Alexander-Platz, Alfred Doeblin  

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Brisa do mar

O mapa eleitoral dos EUA mostra o quão importante são os ares do mar para a saúde das pessoas.  

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Azedou

Alguns jornalistas ainda se referem à Covid como o "novo corona vírus". Aí está um adjectivo cujo prazo de validade parece ter expirado. Ou, dito de outra forma, o novo já está velho. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Da roupa ao lençol

Usamos roupa com diferentes capacidades térmicas e até camadas em diferentes zonas do corpo: nesta altura do ano, é normal uma t-shirt/camisa, seguida de uma camisola e, nas idas à rua, um casaco; no entanto, nas pernas temos as mesmas calças de ganga, e camada única. Mas na cama usamos uma estrutura que não diferencia as diferentes zonas do corpo em matéria de capacidade térmica (embora possamos ter camadas diferentes). Por uma questão de consistência, o cobertor ou edredon que cobre o tronco deveria ser diferente daquele que cobre as pernas e os pés.  

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Tânia e Cátia são nomes próprios como tantos outros.

No entanto, na génese, nas línguas eslavas, Tânia é o diminutivo de Tatiana, Cátia o de Catarina. Ou seja, são diminutivos que foram importados e assimilados por outras línguas que, ao longo do tempo, os promoveram a nomes próprios por si só, distintos dos nomes que lhes deram origem. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Seguir

Na vida virtual, as pessoas amiúde (dizem que) seguem outras nas redes sociais. Querem com isto dizer que acompanham as partilhas de conteúdos e notícias que outros vão colocando e, desta forma, mantêm-se a par do que vai acontecendo. Na vida não virtual (real?), seguir outrem parece, de imediato, coisa de stalker. Sendo certo que o stalking digital também existe, na vida não real é mais difícil falar em seguir uma pessoa sem ser com o pendor negativo da perseguição persistente.  

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Filantropia

Comprar jornais, seja em papel ou na versão digital, cada vez mais parece uma forma de filantropia. Só falta dar descontos sem sede de IRS.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Tonnerre de Brest

Quando ouço falar tempestade, que actualmente assola o território nacional, nunca sei se "bárbara" é nome ou adjectivo.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

A ilação de Costa

A culpa é nossa, conclui o Primeiro-ministro, depois de constatar o preocupante aumento de casos de infecção por Covid-19 dos últimos dias. Porque este aumento é claramente devido (só pode) a um relaxamento dos comportamentos e das medidas individuais de protecção, própria e alheia. Impossível haver mais justificação que seja para este aumento. Aliás, o facto de que o número de infecções está a aumentar noutros países europeus, também de forma que causa preocupação - e, em algumas casos, medidas duras de suspensão de actividade e/ou confinamento, a fazer lembrar os idos de Março -, é uma manifestação adicional que consubstancia a ilação de Costa. Não há cá sazonalidade nenhuma, não houve nenhum alerta de que uma segunda vaga poderia despontar com a chegada do Outono, às cavalitas da gripe (quê? quê?) sazonal (sazo-quê?) 

Costa constata ainda outra coisa, que consubstancia ainda mais o seu desapontamento com a população portuguesa: não há maneira de perceberem que têm de instalar a aplicação StayAway Covid, um valioso instrumento no combate à pandemia. Aplicação essa cuja instalação ele só tentará tornar obrigatória se a mesma população portuguesa não decidir voluntariamente, por livre e espontânea vontade, descarregar do espaço etéreo para o seu telemóvel (esperto). Uma aplicação de fácil utilização, uma vez que apenas requer que, aquele que testou positivo, solicite (rapidamente) um código às entidades de saúde e o introduza (rapidamente) no StayAway Covid.

Um amigo testou positivo há dias. Entre as várias aventuras e peripécias que o processo acarretou, destaco que as três tentativas que levou a cabo para obter o código e o poder inserir na aplicação, que tem instalada no seu telemóvel, foram totalmente infrutíferas. O que está em linha com esta notícia, que também reporta a dificuldade na obtenção dos necessários códigos. O que corrobora a pouca utilidade da aplicação que, sem códigos introduzidos, não serve para nada. O que corrobora que a insistência na obrigatoriedade da sua instalação é pouco avisada e, mais, é uma tentativa de sacudir a água do capote e tentar lançar a culpa do alastramento recente sobre a generalidade da população, esse bode expiatório. o que corrobora que se trata de uma tentativa de alijar responsabilidades. 

Stay away, StayAway Covid.      

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Igualdade no meio de desigualdade

Para evitar a desigualdade de tratamento entre quem tem e quem não tem telemóvel, implícita na proposta de tornar obrigatória a instalação da aplicação para a Covid, o governo só tem uma solução: distribuir telemóveis por toda a população, que não os poderá rejeitar. 

terça-feira, 13 de outubro de 2020

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

domingo, 11 de outubro de 2020

O outlook ainda não se adaptou ao novo dia-a-dia

Questiona-me sempre se tenho mesmo certeza quando envio um pedido de reunião sem especificar a localização.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

É uma rua que me aparece, de vez em quando, em sonhos e que não sei localizar.

De todo. Parece estreita, ladeada de casas velhas e carcomidas, janelas que abrem para estendais com roupa a secar ao céu cinzento. O pavimento de paralelepípedos é rasgado pela linha metálica do eléctrico e não se vê um carro. Do meu ponto de observação, algures no passeio do lado direito, vejo a ligeira inclinação que desce à frente dos meus olhos. Não sei onde termina: uma curva à direita impede-me de ver muito mais a partir do sítio onde estou, e donde parece que não vou sair.  

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Eddie

 Eddie Van Halen Recalls '1984' Battles With Producer

O Primeiro-ministro atou o Presidente da República à recente polémica relativa ao Presidente do Tribunal de Contas...

..., referindo a prática de não recondução dos detentores destes cargos. O argumento é atendível: a recondução pode dar azo a interpretações de favorecimento por parte do detentor do cargo, para fortalecer a probabilidade de vir a exercer um segundo mandato. Ou seja, quanto menos incómodo, melhor para as aspirações pessoais. Aliás, foi esta a argumentação utilizada para não atribuir um segundo mandato a Joana Marques Vidal como Procuradora Geral da República. É uma questão estrutural que poderia ser resolvida através da alteração das regras, por forma a que estes cargos tivessem mandatos únicos, potencialmente com uma duração mais longa (por exemplo, oito anos versus cinco). 

O problema é quando estas decisões são tomadas numa conjuntura que pode suscitar a aparência do problema oposto, i.e., que a não recondução é fruto do incómodo que o detentor do cargo efectivamente gera. Esta é uma interpretação mais do que justificada no caso de Marques Vidal: é (muito) difícil defender a ideia de que terá sido meiguinha para assegurar que o nome dela estivesse no topo da lista para mais uns anos à frente da Procuradoria Geral. Aliás, a haver uma percepção generalizada do seu papel é de que foi bastante incisivo e temerário, o que tende a andar de mãos dadas com o dito incómodo. Ora a mesma relevância conjuntural pode ser avançada para o actual caso do Presidente de Tribunal de Contas, numa altura em que o país vai ser inundado de fundos europeus, e dado o histórico de utilização dos mesmos ao longo das últimas décadas. 

Donde, em ambos os casos, a percepção do problema conjuntural parece claramente dominar o do estrutural, pelo que a opção pela recondução poderia ter gerado menos polémica. 

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

A recente crise não afectou o dia-a-dia dos presidentes americanos (e outros que tais)

É certo que terão condições bastante melhores que a maioria do comum dos mortais mas, no final de contas, já trabalhavam a partir de casa. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Trabalhar remotamente

 Os braços da cadeira do escritório doméstico ficaram consideravelmente mais gastos nos últimos meses. 

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Tenho sérias dúvidas que seja um ser humano:

parece-me mais um estar humano. Falta-lhe a centelha, a vontade. Existe, é certo. Mas parece estar aqui apenas de passagem, sem grande vontade, sem grande convicção. Como se não tivesse outra opção senão existir. 

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Pureza

Como medida para combater a descarbonização do planeta e, dessa forma, dar algum descanso à consciência ambiental, passou a beber gin puro. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

É uma permanente luta para pôr certos à frente dos pontos.

Ou não resistir à vontade de riscá-los, de torná-los totalmente ilegíveis, como se nunca tivessem estado naquele bocado de papel. Num misto de alívio e alguma raiva, descarregada nervosamente através da caneta. Isto até aos novos pontos fazerem o seu caminho até entrarem na lista, numa nova lista ou na mesma, agora com adições. Qual rol de compras de mercearia que parece nunca acabar: há sempre coisas para substituir no frigorífico e na despensa. Uma subjugação em pontos, uma ditadura em alíneas.  

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Era isso que não conseguia aceitar

(e não entender, entendia perfeitamente): que não fica mais fácil com o passar do tempo. Não interessa a experiência e o calo, os cabelos brancos e a mundividência. Podem ajudar conjunturalmente, em determinadas situações e casos. Mas não estruturalmente.  

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Ácido

No recente documentário sobre Miles Davis "Birth of the cool", Carlos Santana descreve o acid jazz, ao qual o músico do trompete a certa altura se dedicou, como música que tinha o condão de pôr sóbrios os que estavam a tripar em ácidos e pedrados os que estavam sóbrios.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Feel the need

Numa palestra na Google, um dos espectadores pergunta a Christopher Hitchens se não sente a necessidade de se juntar a outros ateus, como ele, para, de uma forma organizada, defender as suas ideias face às organizações religiosas que estão do outro lado da discussão, a defender posições contrárias. Ou seja, a organização como forma de nivelar a contenda. Hitchens começa por responder de uma forma surpreendentemente mais abrangente:

«I'm no longer a joiner up of groups. I don't feel the belonging need anymore. I used to when I was younger and more left that I am now feel that, the need to be involved in an organized way. Now I don't, and I think I probably have more influence as an individual than I ever did as a cogwheel in a so-called party.»

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Com algum atraso

Não é uma daquelas datas redondas, estilo 10, 15, 20 anos: são 29. E, ainda por cima, atrasei-me uns dias - devia ter posto um lembrete na agenda. 

30 de agosto 1991, Campeonato do Mundo de Atletismo em Tokyo. Carl Lewis e Mike Powell defrontam-se no salto em comprimento. Senão o melhor confronto de sempre da modalidade, seguramente um dos melhores. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Não tinha uma opinião nada original (como não costumo ter, verdade seja dita)

A minha aposta era a de tantos outros: que Djokovic iria vencer este Open dos Estados Unidos, o que lhe abriria a porta para definitivamente atingir as marcas de Nadal e Federer. 

E depois acontece um evento estranho e raro que culmina na desqualificação do sérvio, que atingiu, sem querer, uma juíza de linha, quando devolvia uma bola para trás, após o final de um ponto. O resultado não poderia ser outro, e os antecedentes são bastante claros: que o digam, por exemplo, Fernando Meligeni que, em 1999, foi desqualificado do Open do Estoril por ter acertado num espectador e David Nalbandian que foi pelo mesmo caminho no torneio de Queens de 2012, após ter dado um chuto numa placa de madeira perto da cadeira do árbitro de linha, que acabou por o mandar ao chão. 

A questão de ser voluntário ou não é de menor importância para esta sanção em concreto. Da mesma forma  que, se bater no carro que vai à minha frente, serei sempre culpado, independentemente da potencial condução errática e perigosa do outro condutor faça. A responsabilidade é mina de garantir que consigo sempre imobilizar o meu carro sem embater no da frente. Ora, qualquer jogador de ténis é responsável por não magoar ninguém - de uma acção que não resulte do próprio jogo, claro. 

A questão seguinte é a severidade da punição. Parece brutal excluir alguém por algo que é claramente não-intencional - não se trata de, voluntariamente, demorar muito tempo entre pontos, partir uma raquete ou ofender o árbitro, situações normalmente punidas com sanções de importância crescente, a partir de uma primeira advertência verbal sem nenhuma consequência material, até penalizações de um ponto, jogo, partida. Mas, verdade seja dita, mesmo involuntariamente, Djokovic pôs em risco a integridade física de uma pessoa. 

Pela positiva, fica a reacção de Djokovic que, embora tenha trocado palavras com a equipa de arbitragem e tentado contra-argumentar, nunca perdeu a compostura e, quando percebeu que não havia volta a dar, aceitou e abandonou o court. Mais, reconheceu publicamente o erro e pediu desculpas à juíza de linha. Contraponha-se esta reacção com a de Serena Williams, aquando do seu episódio na final do mesmo Open dos Estados Unidos, em 2018.

sábado, 5 de setembro de 2020

Ainda sobre Abe

O Japão é uma espécie de candeia que vai à frente e alumia duas vezes, um canary in the coal mine. Por alguma razão se fala na japanificação, uma ameaça do possível alastramento, às restantes economias avançadas, de uma performance económica anémica, caracterizada por estagnação, inflação baixa ou mesmo deflação, e taxas de juro muito baixas. 

Em 2013, Shinzo Abe tornou-se primeiro-ministro, e levou consigo para o trabalho a sua estratégia de 3 setas: política monetária audaz, política orçamental flexível e estratégia de crescimento. Embora objectivamente houve metas não atingidas (por exemplo, o objectivo de inflação) as opiniões dividem-se no que concerne à avaliação do legado de Abe. Seja como for, a Abenomics simbolizou uma viragem de página com determinação, uma pedrada no charco. Talvez por isso, o anúncio da sua saída da vida política activa, por motivo de doença, seja, em si, outra viragem de página.    

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Genuflexão virtual

No seu perfil de Facebook, reparou na secção relativa ao estado de relação, a seguir a outras informações, como morada ou local de trabalho. Relembrou-lhe do campo do estado civil do velhinho bilhete de identidade, morto e enterrado pelo prático cartão de cidadão, que já não divulga essa componente da vida das pessoas. Subitamente, apeteceu-lhe actualizar a informação, como se estivesse em falta para com qualquer entidade responsável por monitorar estes assuntos. Ao enviar o pedido à sua cara metade - que tem de o certificar e consentir, bem entendido - sentiu o momento como uma genuflexão virtual. E sentiu-o como se fosse complementar (e até necessário) ao momento em que, de joelhos e com uma caixa de anel na mão estendida, a pediu, de acordo com a tradição, em casamento. 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Da leitura de sorrisos

Os povos asiáticos são, amiúde, mal interpretados no que respeita a sorrisos: um sorriso genuíno pode facilmente ser interpretado por um amarelo (mas não vice-versa). 

domingo, 30 de agosto de 2020

Rubrica descubra a inconsistência

Em entrevista ao Expresso, o Primeiro-ministro é questionado se será necessário o Governo apoie directamente algumas empresas. O Primeiro-ministro inicia a sua resposta mencionando que tal já foi feito nos casos da TAP e Efacec. Explica que, para o efeito, tem à disposição o Banco de Fomento, bem como instrumentos de capitalização "que permitem acorrer a empresas viáveis, social e economicamente (...) e que estejam a enfrentar situações conjunturais que exijam essa intervenção.".

E depois acrescenta a seguinte questão: "Se quero pôr dinheiro em empresas que estavam a falir?" à qual, de imediato, responde enfaticamente que não, acrescentando "Não faz sentindo estar a consumir recursos dos contribuintes para alimentar artificialmente quem estava falido."

E lucevan le stelle


 

sábado, 22 de agosto de 2020

Ainda sobre a escolha de Kamala

Joe Biden tinha feito o compromisso de escolher uma vice-presidente. Em si, embora relativamente refrescante, não é totalmente inédito: Sarah Palin foi a escolhida por John McCain para o segundo posto. O que seria verdadeiramente novo seria a escolha de alguém da ala mais esquerda do Partido Democrata, como Elisabeth Warren. Alguém com um discurso mais progressista, que defende, entre outros, o acesso universal a cuidados médicos e educação, o combate à desigualdade, a taxação de grandes fortunas, e tem um discurso bastante duro em relação ao sector financeiro, aos bancos e a Wall Street. 

Ora Biden não é nada disto: o ex-vice de Obama tem, normalmente, um posicionamento muito próximo do centro da distribuição do Partido Democrata. Desse ponto de vista, um second-in-command com as características de Warren daria uma grande complementaridade e, concorde-se ou não, uma lufada de ar fresco. 

Em contraste, o posicionamento político de Kamala está seguramente mais próximo do de Biden. Por outras palavras, ao escolher uma mulher afro-americana, tenho dúvidas que Biden esteja a fazer mais história do que se tivesse escolhido a caucasiana Elisabeth Warren. Conquistar os votos afro-americano e latino não é o principal objectivo desta escolha: estes são grupos que tipicamente votam democrata. É, ao invés, uma escolha cautelosa, que evita o risco de potencialmente alienar parte dos votos democratas, que não receberiam Warren de braços abertos. Por alguma razão os mercados reagiram bem à nomeação de Kamala.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Zona

 O DVD ficou repleto de erupções cutâneas e bolhas e foi diagnosticado com um grave problema de zona.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

That little girl was me

O antigo vice-presidente escolheu, para vice-presidente na sua candidatura a presidente, a mulher que tinha dito que ele poderia ser o seu vice-presidente, quando ela própria estava na corrida para a eleição do candidato democrata à presidência. 

  


segunda-feira, 10 de agosto de 2020

All in

Mais do que skin in the in the game, os actores porno têm foreskin in the game (excepto circuncidados, claro). 

sábado, 8 de agosto de 2020

Os apelidos não eram o problema.

Porque os apelidos decorrem de uma regra, o resultado de um processo social ou cultural, que estabeleceu a importação de, pelo menos, o último apelido da mãe e o do pai, bem como a ordem pela qual devem aparecer na designação da geração seguinte. A questão residia com o nome próprio que é, única e exclusivamente, decorrente de uma escolha (dentro da lista de nomes próprios admissíveis, bem entendido). Mais e pior: uma escolha alheia. E não própria, para usar o mesmo termo do próprio nome próprio. 

Por isso, ao entrar na Conservatória do Registo Civil, com o intuito de submeter um requerimento para alterar o nome próprio, só tinha uma coisa na cabeça: reclamar um quinhão de liberdade ao aniquilar uma parte da liberdade alheia. Não havia outra forma senão através deste jogo de soma nula. 

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Beber para recordar

O homem sentado no banco, simetricamente de frente para o realizador/protagonista, diz-lhe que os palestinianos são diferentes: enquanto os outros bebem para esquecer, os palestinianos bebem para recordar.

domingo, 2 de agosto de 2020

Gesundheit

Felizmente a vontade de espirrar surgiu quando estava parado no semáforo: espirrar enquanto se conduz é sempre uma aflição, uma momentânea falta de controlo e necessidade de fechar os olhos. Para o interior do braço, como (agora) manda a lei - quando era pequenino, ensinavam que se devia tapar a boca com as mãos. Vindo do meu lado esquerdo (estava na faixa da direita) oiço gritar
Salute!
Viro-me para gritar 
Grazie! 
Mesmo a tempo de ver o vidro da esquerda do tipo parado ao meu lado no semáforo a subir. 

sábado, 1 de agosto de 2020

Ta tãã ta tããã pa pã pãã

O 9º episódio da série Philip K. Dick's Electric Dreams mal tinha começado e o swing rápido surge. O protagonista chama a atenção para o saxofone, cujo solo irá começar segundos depois. Na cabeça fica-me o tema
Ta tãã ta tããã pa pã pãã
ao qual estupidamente não consigo associar o nome. O episódio continua sem conseguir captar grande coisa da minha atenção, a engrenagem da minha cabeça continua a dar voltas, 
Ta tãã ta tããã pa pã pãã
sem conseguir resolver este esquecimento, que me consome e irrita. Para piorar um pouco mais, passados uns minutos, o tema volta novamente a ouvir-se
Ta tãã ta tããã pa pã pãã
e não vai ser a última vez até ao final: quando, a certa altura, o protagonista entra no café, onde já tinha ido e comido uma fatia de bolo e, desta vez, a música ambiente é essa mesmo, que não me sai da cabeça e de cujo nome não me consigo lembrar.

Sento-me com este teclado na mão e deixo o google resolver o meu drama. A solução era relativamente óbvia (ainda há pouco aqui pus uma versão do Pat Martino), o executante bastante menos.


sexta-feira, 31 de julho de 2020

Der frühe Vogel fängt den Wurm

Dirigiu-se à stripper e, com todo o formalismo cavalheiresco, perguntou-lhe se lhe daria o prazer uma dança.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

De "hábil" a "habilidoso" não vai uma distância muito grande.

Apesar disso, enquanto o primeiro é, normalmente, um termo mais genuíno, o segundo é, muitas vezes, usado com um tom pejorativo. Mais ou menos como a diferença entre ser esperto e espertinho. Demasiado esperto. Ou chico-esperto. 

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Igualdade através de desigualdade

É um lugar-comum dizer que as sociedades ocidentais tendem a privilegiar o indivíduo face ao colectivo enquanto nas sociedades asiáticas a relação é tipicamente inversa. Tal pode ser até ser levado ao extremo de ser definido como subjugação naquelas que não são primam pelos exemplo democrático.  

O caso da China é curioso. Na sua tentativa de instilar uma uniformização de comportamentos, criou um sistema de rating social. Isso, em si, encerra uma contradição: o sistema, para funcionar e atingir o objectivo de tornar todos iguais, tem de distinguir os cidadãos, através de diferentes pontuações num ranking. 

terça-feira, 28 de julho de 2020

La mauvaise éducation

«Je commençais à connaître l'exacte valeur de la langage parlé ou muet de l'amabilité aristocratique, amabilité heureuse de verser un baume sur le sentiment d'infériorité de ceux à l'égard desquels elle s'exerce mais pas pourtant jusqu'au point de la dissiper, car dans ce cas elle n'aurait plus raison d'être. «Mais vous êtes notre égal, sinon mieux », semblaient, par toutes leurs actions, dire les Guermantes; et ils disaient de la façon la plus gentille que l'on puisse imaginer, pour être aimés, admirés, mais non pour être crus; qu'on démêlât le caractère fictif de cette amabilité, c'est ce qu'ils appelaient être bien élevés; croire l'amabilité réelle, c'était la mauvaise éducation.»

Sodome et Gomorrhe, Marcel Proust

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Por quem os sinos dobram

Disse mal da minha vida durante os 4 meses e meio que vivi quase paredes-meias com uma igreja, cujos sinos se faziam ouvir, pelos menos, 3 vezes ao dia. Algumas das minhas rotinas não tiveram outro remédio senão adaptar-se e moldar-se ao som metálico (e gravado) que, normalmente, durava perto de cinco minutos de cada. Fechava janelas perto das 12h, quando tinha vídeo-chamadas ou telefonemas, caso contrário era difícil ouvir o que me diziam; o toque das 18h alertava-me para a aproximação do final de dia de trabalho e o das 19h30 lembrava-me de começar a pensar em preparar o jantar. Ao fim-de-semana, os horários eram um pouco diferentes. Em alguns casos, para pior: nas noites mais longas ou de ida mais tardia para a cama, cheguei a ser acordado, no dia seguinte, uma ou outra vez, pelo toque pouco antes das 10h.

De regresso a Lisboa, dei por mim a aperceber-me (consciencializar-me), pela primeira, de que também, por aqui, se ouvem sinos de igreja. O som é bastante mais distante e não consegui ainda depreender a frequência e os horários. Mas até nisso a exposição temporária a sinos estrangeiros me afectou: desenvolvi uma espécie de sino-sensibilidade.