quinta-feira, 10 de abril de 2014

Auto-inflingido

Digo-lhe que não durmo sestas: acordo sempre enresinado de uma sesta. Fico chato. Chato como a potassa. Tão chato que não chateio só os outros, chateio-me a mim mesmo.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Overshoot

É interessante como um pequeno acréscimo de religiosidade (ou entrega à vida espiritual) numa pessoa pode fazer a diferença entre ter uma data de filhos ou não ter rigorosamente nenhum. Aliás, nem sequer praticar actos conducentes a vir a ter um (pelo menos de forma assumida).

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Jumping base

O abraço é, em latitutes mais elevadas, a forma de cumprimento banal quando um membro do sexo feminino está envolvido; ao contrário, um, dois, três ou qualquer outra combinação de beijos menos usual. Para nós é ao contrário - dois beijinhos é standard e o abraço reservado para significados maiores. Parece-me sempre estranho quando sou abraçado (e aguardo sempre a iniciativa alheia para não meter a pata na poça) de forma não-significativa (pelo menos para mim) e o protocolo estipula que não há beijinhos pelo meio: é como se houvesse um saltar de etapas.

domingo, 6 de abril de 2014

Omo

«Uma biografia autêntica tem que ter as páginas em branco. Muitas páginas em branco. Todas as páginas em branco. Depois a gente lê o branco muito devagarinho e com muito cuidado e tudo quanto lá está, percebemos então, é verdade.»

Quinto livro de crónicas, António Lobo Antunes

sábado, 5 de abril de 2014

Choque frontal

Hoje em dia publicam-se essencialmente dois tipos de livros totalmente antagónicos: de receitas e de dietas.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Smithwick's pale ale

É só quando vejo o início
no fim?
num dos extremos da O’Connell que percebo onde estou. As ruas de casas pequenas, escuras e com portas coloridas sucedem-se, umas atrás das outras, dificultam a minha tarefa de localização. O autocarro desce a avenida cheia de gente, passa pelo Spire, segue até
ao fim, início?
e atravessa a ponte sobre o Liffey onde punha os olhos todos os dias de manhã ao acordar e à noite antes de ir para a cama. Segue até não poder mais, segue até ter que virar à direita no Doyle’s e começar a ladear o muro, em direcção à Dame Street.
O portão, a entrada principal ficam nas minhas costas, a loja da
Abercrombie and Fitch?
onde costumavam estar os miúdos feitos modelos com as miúdas histéricas à porta. Vira à esquerda no Mercantile. E depois é sempre a ir na direcção sul. Até entrar na Camden Road
Street?
Nunca sei qual delas é, nunca sei se é rua se é estrada, e tinha tido o mesmo problema ao comprar o bilhete, disse um deles ao motorista e ele ficou a olhar para mim sem reconhecer
Ou a não querer reconhecer
a encolher os ombros como se lhe tivesse dito Rua de Benfica em vez de Estrada de Benfica ou Rua Fontes Pereira de Melo em vez de dizer Avenida Fontes Pereira de Melo. Corrijo para a outra única hipótese possível e de imediato reconhece
Three euro five cents please
Passamos o Wheelan's e pouco depois estamos a entrar na Harcourt Road, o autocarro não desce mais a Camden
Road, Street?
Dá a volta e cruza novamente e é aqui que tenho de sair.

segunda-feira, 31 de março de 2014

L'hiver c'est les autres

Inverno e inferno confundem-se. Especialmente para quem tenha nascido numa língua germânica, onde o som do “v” é o do “f” – tive um professor que, mesmo depois de se esforçar para não cometer o erro, pedia vacas quando faltavam talheres nas mesas de restaurantes. Para quem tenha nascido numa língua latina é só mesmo porque a chuva já irrita.

domingo, 30 de março de 2014

Rules of engagement

Foi quando se apercebeu que até para quebrar regras é preciso regras que percebeu que não existe quebrar regras.

sábado, 29 de março de 2014

Já escrevi isto amanhã

Estou a ler o quinto livro de crónicas do António Lobo Antunes antes de ler o quarto (vá-se lá saber). Mas já ouvi o quarto livro pela voz do próprio escritor - traz um CD oferta com algumas crónicas lidas por ele. Dez faixas de cinco, seis, sete minutos. É uma sensação estranha ter o "senhor" António a ler-me e a ler-se ao mesmo tempo (ler-me-se? ler-se-me?).

sexta-feira, 28 de março de 2014

Hexagonal

«O Júlio começa sempre os telefonemas da mesma maneira
- Como estás tu?
ou seja, a pergunta mais difícil de responder que conheço. Nunca sei como estou. Estou hexagonal. Estou cor de laranja. Estou chato como a potassa para mim mesmo. Faz-me uma pergunta menos complicada, Júlio.»

Quinto livro de crónicas, António Lobo Antunes

quarta-feira, 26 de março de 2014

terça-feira, 25 de março de 2014

Rien ne va plus

Era extremamente educado e delicado com toda a gente. Demasiado até, de uma forma quase pegajosa. Não era obviamente porque respeitasse os outros a esse ponto. Nada disso. Tinha uma visão pragmática das boas maneiras, via-as como uma ferramenta, um instrumento – afinal, a cordialidade facilita a vida, o dia-a-dia. E, nesse sentido, essa educação e essa delicadeza eram, no fundo, um profundo desrespeito.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Perguntam-me se me dói o dente e a verdade é que não sei dar uma resposta decente.

Em rigor, o dente não me dói. Em rigor, o dente não me pode doer porque ele já não existe. E, no entanto, doer doer, até me dói. Qualquer coisa. Pareço aquelas pessoas que, depois de amputadas, continuam a sentir – e a ter dores – no zona onde estava o membro que perderam. Dores do membro fantasma. É isso, tenho um dente fantasma. E anos de terapia pela frente.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Ou está sentado à secretária ou à entrada a fumar um cigarro logo de manhã.

Tem sempre uma cara carregada. Passo por ele – sou sempre eu que passo por ele, está sempre antes de mim – e cumprimento-o. Às vezes demora um pouco mas responde sempre com um bom dia longo, com os i’s arrastados pela voz de fumador
Bom diiiiiia
que soa tremendamente forçado. Às vezes apetece-me não lhe dizer nada – acho que gostaria não ter que responder a mais outra pessoa, deve passar a manhã toda a dizer
Bom diiiiiia
Percebo que não tenha vontade de dizer mais uma vez. Mas se não o fizesse seria eu o mal-educado que não fala às pessoas. Depois imagino se, não situação contrária, me pouparia de ter que lhe responder, assumindo o ónus da má-criação. E acabo a pensar na forma como digo bom dia.

terça-feira, 18 de março de 2014

sábado, 15 de março de 2014

Voice leading

Escreve cor com acento circunflexo
Côr
Em maiúsculas
CÔR
Escreve sempre em maiúsculas, uma caneta velha e suja, um bocado de papel que improvisou. Escreve de uma forma esquemática, com muitas alíneas e pontos e setas. Fala de notas estáveis e das extensões
Daí a cor
E de repente só consigo pensar naquele acento circunflexo que serve para distinguir duas palavras, dois significados diferentes, aquela em que ele estava a pensar – cor de cromático – e a que vem de coração, por exemplo
Saber de cor
Que no fundo pronunciamos
Cór
Mas também se escreve sem este acento. E de repente estou a pensar se também escreverá este acento, deveria usar se usa o circunflexo no outro caso. E imagino-o a escrever também essa palavra, também em maiúsculas com uma caneta velha e suja num bocado de papel improvisado.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Bula

Pode ser papal ou vir dentro das caixas dos medicamentos. Das duas uma: ou tomar os medicamentos implica fé ou a fé tem uma componente terapêutica.

terça-feira, 11 de março de 2014

C'est qu'ils sont fous, ces romains

É difícil de perceber como é que os italianos conseguem comunicar entre si usando um telefone – con le mani, já dizia o outro. Videochamada, facetime, tudo invenções de enorme valor acrescentado.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Anleitungen

Explica a um amigo comum como costuma escrever textos. Tem o método perfeitamente estruturado, escalpelizado na cabeça, um processo de quatro fases (acho que eram quatro). Acrescenta
O Daniel também deve saber
E eu quase não digo nada senão
Depende
mas não preciso concretizar porque de seguida começa a descrevê-los sucintamente e a conversa segue para outro rumo.
E eu fico a pensar como não tenho processo. Ou melhor, tenho mas são tão distintos.

Há uns que começam só por ter a primeira frase. E depois vão prosseguindo, ganhando estrutura à medida que são escritos, ganhando vida à medida que me explicam qual é a estrutura que devem ter. Há outros que começam pela punchline e aí é preciso andar para trás, é preciso mostrar ao texto qual a estrutura que ele deve ter, como é que deve crescer. É quase como reverse engineering, por forma a chegar ao início que dá origem àquele final que queremos.

Há uns que saem bem, perfeitos, em cinco minutos e que quanto mais tempo se perde com eles pior é: quanto menos intervenção, melhor. E outros que levam anos (décadas!) a ser escritos: de cada vez que se abre o ficheiro acrescenta-se qualquer coisa, por muito pequena que seja, e mesmo assim não chega, e mesmo assim não é ainda aquilo.
Método? Não, métodos. Por exemplo, este texto é daqueles que tinha início e não tinha fim e que não saiu bem à primeira, precisou de alguns dias.

domingo, 9 de março de 2014

The whole nine yards

O aspirador sentia-se muito abaixo na hierarquia electrodoméstica. Achava que a sua função – sugar pó e porcaria e guardar tudo dentro de um saco – estava aquém do seu potencial. O aspirador aspirava a mais, tinha grandes aspirações.

quinta-feira, 6 de março de 2014

quarta-feira, 5 de março de 2014

Macacada

Não tenho nada contra a participação de pequenos países da Europa (ou qualquer outro continente) em competições desportivas. Já estamos habituados, por exemplo, a ver Andorra alinhar com professores e carteiros, São Marino também não é estreia e até o Liechtenstein devia estar na nossa memória pelas piores razões. Mas confesso que não consigo deixar de achar rebuscado ver Gibraltar no grupo D de apuramento para Europeu de 2016 em França. É claro que me podem responder que não é muito diferente das Ilhas Faroé que também por lá andam – e eu já tinha dado por isso em competições anteriores. O rochedo nunca tinha visto. Vai jogar com a Alemanha. Pena não ter calhado num grupo com a Espanha e a Inglaterra.

terça-feira, 4 de março de 2014

Não sabia que guardava isso tudo.

Não sabia que estava tudo dentro dele, algures, numa gaveta, num buraco. Sem dar por isso. Por isso no momento inicial em que, de repente, tudo começou a saltar cá para fora incontrolavelmente, ficou atónito. Uma surpresa. Primeiro não teve reacção. Depois reagiu tentado acabar rapidamente, bruscamente. Ficou incomodado, ficou quase chateado por não conseguir pôr um fim àquilo, por não conseguir fechar novamente a porta e pôr as coisas no lugar devido, na tal gaveta, no tal buraco e regressar ao normal. Como se quisesse varrer todo o lixo novamente para debaixo do tapete de onde tinha saído. Deu por si envergonhado: viu-se exposto, aberto, retalhado. Translúcido. Imaginava os outros a olhar para si – a olhar através de si – a verem tudo e, ao mesmo tempo fingindo, à sua frente, não ver nada. E depois comentando uns com os outros nas suas costas. E então já não valia a pena, deixou a frustração instalar-se progressivamente. A irritação essa ganhou uma forma diferente: uma irritação surda e rancorosa. Uma irritação que guardou só para si – numa gaveta num buraco. Sem dar por isso.

segunda-feira, 3 de março de 2014

O comer e o coçar está no começar

Agassi tem um sorriso enorme estampado na cara. Não esconde.
I’m so excited I’m winning!
Sampras sorri desarmado, inclinado para a frente na posição de receber o serviço. O púbico ri. O comentador engana-se, jogaram em 2001 no US Open mas pela última vez num grande Grand Slam foi a final do ano seguinte que o Sampras ganhou – que forma de arrumar a raquete! O Agassi acrescenta
15 years too late
Está a arredondar.

Print screen

O mundo está dividido entre quem diz “de vez e quando” e “de quando em vez”.

sábado, 1 de março de 2014

Em seara alheia

O mais difícil de admitir não são as nossas mentiras. São as nossas verdades.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Our man in Havana

A minha proposta de palavra nova: “jão”. Significa “já não” e nasceu fortuitamente de um typo. De onde se pode concluir que um “typo” é uma espécie de sexo desprotegido da dactilografia.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

21 anos

Aprendi com o meu avô a gostar de alguns dos grandes campeões do atletismo. Lembro-me de ver com ele o Sotomayor saltar. Lembro-me da final de salto em comprimento mítica que terminou com o Carl Lewis a perder para o recorde do mundo do Mike Powell. E lembro-me do Sergey Bubka quase bocejar enquanto esperava que toda a concorrência fosse eliminada e depois pedir para subir a fasquia uns bons centímetros. Era então que finalmente começava o verdadeiro campeonato que contava só com ele e o recorde do mundo, que várias vezes foi seu – superava-se a ele próprio sucessiva e constantemente.

Há dias, em Donetsk na Ucrânia, um francês chamado Renaud Lavillenie finalmente bateu os 6m15 (indoor) de Bubka por um centímetro. Vinte e um anos durou o recorde do ucraniano que estava na bancada a assistir à prova e desceu à pista para cumprimentar e tirar uma fotografia com o novo recordista.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Row the boat ashore

Uma reportagem na televisão fala sobre o desaparecimento do deposto presidente ucraniano Yanukovich. Segundo o que apuraram, terá saído de Kiev numa coluna militar com destino à cidade de Sevastopol na península da Crimeia, local onde se encontra um grande contingente da marinha russa. Daí terá seguido a bordo de um navio russo para parte incerta (Rússia).

É caso para dizer que foi de barco.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Begrenzend

Há dias vi uma Ted talk sobre amor, paixão, traição, etc. A oradora relacionou a paixão com droga – aparentemente as mesmas regiões cerebrais são activadas quando estamos apaixonados e quando consumimos substâncias que causam dependência e há uma qualquer reacção química da qual eu obviamente não me lembro suficientemente bem para a reproduzir aqui novamente (assumindo que alguma vez a entendi). Being in love is addictive. Esta semana a capa da revista do Expresso é sobre dependência do açúcar: “o consumo excessivo está a tornar-se um caso de saúde pública.”. Quando não há inventa-se, pensei enquanto dei mais uma garfada num bolo brigadeiro. Por momentos apeteceu-me acender um cigarro, nem que fosse só para chatear.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

À minha frente estão duas senhoras de alguma idade.

Daquelas que vão às compras com carrinhos de rodas pequeninas para transportarem as coisas mais facilmente para casa. A primeira já acabou de arrumar tudo, já pagou. Passa por detrás da estrutura para onde escorregam as coisas que compramos antes de as enfiarmos nos sacos e vai cumprimentar a rapariguinha que se senta de frente para a caixa e para o tapete rolante preto. Deseja-lhe as maiores felicidades, que corra tudo bem. A menina sorri o que pode – seja o que for, não está manifestamente contente.
Recomeça o processo, as compras da senhora que está imediatamente antes de mim na caixa começam a ser processadas, vasculhadas em busca dos códigos e de barras que apitam quando passam em frente à menina da caixa, escorregam para aquela estrutura onde ela espera com o saco de tecido que trouxe de casa – esta não tem carrinho de duas rodas pequeninas. Quando chega ao fim, depois de anunciado o preço total, depois de pago o preço total, a menina volta a despedir-se.
A partir de amanhã não estou aqui.
A senhora faz um ar um pouco espantado, a menina explica que vai para outro sítio, que a colocaram noutra loja.
Eles também agora passam a vida a fazer-vos mudar de um lado para o outro.
E a menina diz-lhe que já estava nesta loja há quatro anos.
Entretanto as minhas compras começam a avançar, começam a apitar e ela diz-me o bom dia que diz a toda a gente, pergunta-me
Vai desejar saco?
o saco que oferece a toda a gente e
Tem poupa mais?
que deve ser um daqueles cartões que todos supermercados têm e eu, calculando que seja isso, digo que não, não tenho, e a senhora ainda está na estrutura onde se arrumam as compras, ainda não processou tudo, ainda tem coisas para lhe dizer, que corra bem e sobretudo que tenha saúde
O mais importante é a saúde.
A menina agradece com o mesmo sorriso forçado, dorido porque ela não está contente e aparentemente preferiria ficar naquela loja onde já está há quatro anos e não ir para outra, como lhe mandaram. Despede-se da senhora, passa os restantes artigos e diz-me
São dezasseis euros e vinte e seis cêntimos por favor.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A minha avó não gostava de Fórmula 1.

Nunca a censurei por isso, nunca morri de amores por desportos motorizados. Mas tínhamos razões diferentes: enquanto eu, pura e simplesmente, os acho monótonos, ela escandalizava-se. Que era um desperdício de gasolina, que está tão cara e qualquer dia não há mais.

Deviam acabar com estas corridas, era com isso e com as missões espaciais, a NASA, essas coisas. Há pessoas a morrer à fome.
E depois rematava com uma cara indignadíssima
Resolvam primeiro os problemas na terra.

Tentei explicar-lhe que, por exemplo, ir de férias para o Algarve de carro também gasta combustível e não é nada que se possa considerar verdadeiramente fundamental para a Humanidade. Que ir ao cabeleireiro ou encher-se de laca todos os dias de manhã pode ser algo extremamente irritante para quem morre à fome em África (para além de que o ozono não gosta).

Perdi. Nunca lhe consegui explicar que há coisas mais importantes que o discurso do “há coisas mais importantes”.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

28 dias

O mês de Fevereiro em convalescença: na primeira metade sem conseguir mastigar; na segunda a assoar-me.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Por lo tanto

«Quem não tem passado não pode ser responsabilizado. O que se perde em amnésia ganha-se em amnistia.»

O outro pé da sereia, Mia Couto

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Does Phil feel lucky?

Já vi imensas vezes o Groundhog Day, conheço uma data de cenas e falas de cor (today is tomorrow). Ainda assim, sempre que tropeço nele, não resisto a mais um déjà vu (all the time).

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Este Papa é uma espécie de Obama do Vaticano.

O problema dos Obamas desta vida é duplo: (i) a quantidade de expectativas que lhes são depositadas vs (ii) a possibilidade de efectivamente operar mudanças significativas. Entre as palavras dos discursos e os actos está toda uma estrutura, cultura, etc., e remar contra a maré, para além de cansativo, é ingrato. Na prática, podem acabar por fazer pouco mais do que faria uma figura menos forte e cativante. A diferença é que o resultado parecerá ficar sempre aquém na medida de (i).

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Global campfire

Os franceses falam muito em chiffres d’affaires. Faz sentido, os chifres normalmente estão associados a affaires.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Recalibrar

O meu outono/inverno imediatamente antes deste foi passado maior latitude, num sítio onde chove imenso. Não faz muito frio, praticamente não neva, mas a humidade é sempre elevada. Habituei-me à ideia de que a chuva e o vento são dois fenómenos quase sempre presentes e que não há muito que se possa fazer. Nem sequer vale a pena usar um chapéu-de-chuva porque a estrutura não sobrevive ao vento.

Curiosamente, vivi bem. Adaptei-me sem nenhum problema. Não passei os dias a suspirar por um bocadinho de sol embora, sempre que ele timidamente surgia, tentasse aproveitar.

Algumas semanas chuvosas em Lisboa e estou saturado. Queixo-me. Abro o site do IPMA praticamente todos os dias para ver quando os bonequinhos das nuvens (finalmente!) desaparecem (ainda não foi hoje). Esta cidade torna-nos muito exigentes: o sol é um direito adquirido dos lisboetas e ai de quem os tente privar dos raios.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Sobre ir ao ginásio

Ouvir música associada a noites de sexta e sábado às oito da manhã de um dia de semana.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Any given Sunday (afternoon)

A SIC tem um programa chamado "Portugal em festa". Começa às 14h e termina às 20h. A TVI tem um que se chama "Somos Portugal". Das 13h58 às 20h.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Nota-se logo quando alguém é filho único

diz em resposta à senhora que afirma a sua vontade de ter um segundo filho, de como isso é importante para o primogénito.

Quando alguém tem características tipicamente associadas a filhos únicos – é mimado, egocêntrico, etc. – e (por acaso) é filho único, então o facto de não ter irmãos torna-se óbvio. Já as mesmas características em filhos não únicos não são nada óbvias.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Uneasy lies the head that wears a crown

Gosto de definir português como a língua do meu telemóvel mas o computador tem que estar em inglês.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Auto-justificativo

«Human beings are more rationalizing than rational»

Lesson Plan – the story of the Third Wave

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Tot

« - Tens medo de morrer?
- Não é morrer que me dói. O que me dá tristeza é ficar morto.»

O outro pé da sereia, Mia Couto

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Competência(s)

O Público tem um artigo sobre a Janet Yellen que assumiu ontem a presidência da Fed. Um dos parágrafos do artigo descreve o seu percurso profissional, consensualmente considerado ímpar para desempenhar o cargo. Curiosamente, no meio dos cargos que ocupou ao longo do seu percurso, vem a seguinte frase "É casada com o prémio Nobel da economia de 2001, George Akerlof.".

Tino

Arranquei um dente do siso e tenho o maxilar direito inferior inflamado. O resultado foi a minha transformação num verdadeiro menino bem: só consigo cumprimentar com um beijinho do lado esquerdo.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Já o era

A expressão “bem esgalhado” é ela própria aquilo que descreve: bem esgalhada.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Warm up

O Louis CK confessa a influência decisiva que o George Carlin teve para ele. Refere a frase, a piada brutalmente politicamente incorrecta com que abre este sketch sobre pessoas anti-aborto. Aliás, como abre um espetáculo inteiro. O Carlin deu-lhe a coragem para subir ao palco e dizer tudo o que lhe passasse pela cabeça, por maior barbaridade que fosse.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Quatro elementos

«O espanhol a cada momento do dia faz uma eliminatória mental. É este o segredo da felicidade cultural dele. Pergunta-se quatro coisas – se tem fome, se tem sede, se tem sono e se tem tesão. Dessas quatro, elimina as três que angariam uma resposta que seja claramente não. Ou seja: se não tem fome, nem sono, nem tesão – é porque tem sede, mesmo que não saiba. E vai beber. E faz bem e sente-se feliz uma hora depois. Se, passada essa hora, já não tem sede, continua a não ter tesão nem sono – é porque tem fome. E vai comer. Hora a hora, interroga-se. E opta sempre pela menos negativa, partindo do princípio básico que, das quatro coisas que uma pessoa pode ter, há sempre uma que não apetece tão pouco como as outras três. E é sempre essa que uma pessoa deve seguir.»

Explicações de português explicadas outra vez, Miguel Esteves Cardoso

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Axis

O primeiro kick é igual à palavra que acompanha – contém e coincide com raiva. A inveja vem logo a seguir. A finalizar o refrão, o kick mais forte: bold as love. E no meio, uma enchente de cor:

metallic purple armour
fiery green gown
blue are the life giving waters
happy turquoise armies
my red is so confident
orange is young
my yellow in this case is no so mellow

É isso, um rainbow like you.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Hats off

"It's not the moment to talk about that. It's the moment to congratulate Stan. He's playing unbelievable. He really deserved to win that title.

Tenho um suíço preferido novo

A prova de que esquerdas a uma mão não têm forçosamente que perder quando expostas a top spin. Pena o que aconteceu nesta final - só podemos falar num jogo normal até ao início do segundo set. O único a tirar disto é ficar contente pelo Stan(imal) que, de acordo com o Rafa, merecia. Vamos ver agora se aguenta o peso da fasquia.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Quando o pobre é grande, a esmola desconfia

- Were you mad?
- Maybe a little now that I think of it. I was mostly sad.
(…)
- Well, mad, sad… probably the same thing in the end.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Epidemiologia

"O Facebook deverá conhecer um declínio rápido nos próximos anos, diminuindo 20% face ao seu tamanho máximo até Dezembro de 2014", escrevem os autores do estudo. Segundo os investigadores, a rede social deverá perder "80% da sua base de utilizadores máxima entre 2015 e 2017".

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Aus Open

A Milka está a preparar uma edição especial de chocolates caso a final deste ano seja entre dois suíços.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

domingo, 19 de janeiro de 2014

As boxes estragam a minha experiência de ver televisão.

Gravar, voltar atrás, rever, etc., tudo funcionalidades que não se coadunam com a minha definição de ver televisão. A surpresa, a adrenalina de ligar o aparelho e tanto poder apreciar a oferta de um bom programa como apanhar a maior lixarada possível é um elemento fundamental. A roleta russa - e aqui a bala é o programa bom porque a probabilidade é menor - é o que me faz ligar o televisor.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Coisa

Não sei se sabes, não sei se te apercebeste que foi este o momento em que tudo terminou
Não tens medo de ficar sozinho?
Perguntaste e nesse momento deixei de ser eu, vi-me como um instrumento teu, passei a ser
Já era, não tinha era ainda percebido
um instrumento ao serviço do teu medo de ficar sozinha. Foi como se me matasses, transformando-me de pessoa em coisa. E com isso mataste-nos.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Sexta alemã

Pior que perceber que não podia ter o que queria foi perceber que não queria o que tinha.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Elementar

Nomes que constam da tabela periódica: Hélio, Arsénio, Germânio. Alcunhas: Estrôncio e Crómio.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Frescura

Uma imperial servida em copo gelado. Uma água das pedras, uma cola-cola com gelo e limão. Vinho branco, vinho verde a acompanhar umas gambas. Um apfelsaftschorle a borbulhar. Sumo de laranja, um ice tea de manga. Uma caipirinha, um mojito cheio de hortelã. Tudo isto – e mais algumas coisas do género – excepto água: detesto água fria.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Bundles of joy

Diz
É sangue do meu sangue
Com uma força, com uma autoridade, com se reclamasse para si a posse, como se reclamasse para si o poder. E eu só queria dizer-lhe
não sou sangue de ninguém
Só tenho um sangue e é todo meu, independentemente de onde venho, para onde vou
Sangue do meu sangue
Uma conquista, como se me fosses marcar com um ferro em brasa, como se fosse o cume de uma montanha onde pôr uma bandeira e reclamar a escalada
Sangue

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Ombros

Tycho Brahe foi o primeiro a impor rigor científico a observações de astros. A base de dados que compilou ao longo de décadas a olhar o céu a partir da ilha de Hven foi a pedra basilar do trabalho de astrónomos subsequentes, foi um dos ombros sob os quais personalidades como Kepler se apoiaram para ver mais longe.

E, no entanto, Brahe é terrivelmente desconhecido. Há quem diga que foi vítima do “presentismo”, ou seja, da falha de julgarmos o passado com o disposto mental do tempo em que vivemos: Brahe não era adepto da teoria heliocêntrica de Copérnico. Algo que nos parece inconcebível a nós, que estamos em cima de muito ombros que nos foram postos à disposição por séculos de evolução do conhecimento científico: à altura de Brahe seriamos uma excepção, uma minoria que se podia contar com os dedos de duas mãos.

É este o drama do astrónomo dinamarquês: acertou em quase tudo, em tudo excepto no aspecto imperdoável em que não podia falhar e na base do qual a História (injustamente?) o julgou.

(Um abraço ao A.J. Barros Veloso)

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Nelson

Todos estes livros, filmes sobre o Mandela. Imensa gente só mesmo à espera que ele morresse.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Sona

Narcisista, seria preciso muito para dar a mão à palmatória: o tipo de pessoa que acha que está sempre certo, que arranja sempre justificações externas para erros que são manifestamente seus. Embora tenha tentado, não conseguiu naquele caso: um erro tão gritante que não teve outra hipótese senão fazer um pedido de desculpas. Arrancado bem lá do fundo, a muito custo, como se tivesse uma arma apontada à cabeça, como se as palavras lhe queimassem a boca, a língua. Curiosamente, tudo isto – que deveria ter tornado todo o processo mais forte – acabou por enfraquece-lo. Não era suficiente. E então
Desculpe-me mas o posso desculpar.
Saiu da sala deixando para trás a cara crispada e silêncio forçado.

sábado, 4 de janeiro de 2014

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Estar nem aí

Ser blasé não é uma forma de estar na vida, é uma consequência dela. A indiferença, a fleuma, são fruto de excessos: no meio de tanta coisa, da abundância, o original é escasso, um animal em vias de extinção.