quarta-feira, 12 de maio de 2010

Rapeseed


Cuja principal finalidade é a produção de biocombustível. E decorar a paisagem britânica, dar-lhe um aspecto colorido mais a puxar para os trópicos. Enfim, com este nome parece qualquer coisa saída de mais um escândalo de igreja.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Stranded #3

Made it! Ao terceiro voo marcado foi de vez. E cheguei mesmo a tempo de ver o cortejo do Papa do Terreiro do Paço até à Luís Bívar. Devo dizer que não fiquei muito bem impressionado: então não é que o Papamóbil cometeu uma infracção de trânsito ao virar na Fontes Pereira de Melo directamente para a Latino Coelho sem passar ali em frente à PT?

Vou comer uma sopa e vou para a cama.

Stranded #2

Novo voo pela Monarch dentro de pouco tempo. Para já, não está cancelado. Vamos ver se uma ida a Gattwick de madrugada não se transforma num exercício de paciência.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Just go

Difícil perceber quando já não vale a pena, quando insistir é totalmente infrutífero. Atirar a toalha ao chão. Desistir é um gesto teimosamente adiado, protelado ad eternum.

Cliff Richards

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Pull the Plug

Há um hábito muito comum neste país de falar indirectamente e enviar recados. Como se estivessem a trocar informação confidencial através de um canal seguro com sistemas de encriptação, cujo código que permite decifrar a mensagem só o feliz destinatário possui. Ou seja, como uma espécie de jogo de espionagem.

É possível que esta prática tenha algumas virtudes: este tipo de discurso nas entrelinhas cria imenso emprego nos meios de comunicação social a uma séries de indivíduos com a categoria profissional de “comentador” que passam a ter a oportunidade de desenvolver uma actividade que poderia ser descrita como o descortinar da verdadeira motivação por detrás das palavras proferidas. Mas tem seguramente a desvantagem de gerar confusão, ruído, indecisão.

Esta última semana, o Presidente da República veio fazer uma comunicação onde, entre outras coisas, se referiu à necessidade dos investimentos feitos no âmbito da actual conjuntura económica terem uma preocupação acrescida com alguns aspectos como, por exemplo, a utilização de mão-de-obra nacional e menor recurso a bens importados. De imediato, soundbytes do tal coro de vozes que se dedica a escalpelizar as palavras de pessoas importantes surgiram a indicar-nos que se tratava de uma reacção negativa ao anúncio do Primeiro-Ministro, que surgiu um dia antes, no qual foi frisado que os grandes investimentos públicos – o aeroporto do Alcochete e a linha de TGV entre Lisboa e Madrid – seriam efectivamente para levar a cabo.

Ora este coro de vozes pode ter toda a razão do mundo e, muito certamente, tem-na mesmo: também considero altamente provável que o Cavaco tenha aberto a boca com essa intenção. Agora, o que eu gostava mesmo é que o próprio se antecipasse aos comentadores e indicasse qual o verdadeiro alcance da sua comunicação. Nesta e em qualquer outra que faça. E, já que estamos nisto, que dissesse se não demite este Governo porque acha que não o deve fazer ou se só não o faz porque pensa que uma acção dessas terá um impacto negativo nas suas aspirações a um segundo mandato nas eleições presidenciais do ano que vem.

E daí, se calhar não é assim tão importante que faça esse esclarecimento, escusa de se dar ao trabalho. Afinal, a esmagadora maioria dos comentadores que para aí tenho ouvido apostam no segundo motivo.

domingo, 2 de maio de 2010

Congratulations

Num outdoor a propósito da vinda do Papa, a fotografia chamou-me a atenção. A fardamenta branca, em concreto. Parece o Cliff Richards. Só lhe faltam os óculos escuros da moda.

sábado, 1 de maio de 2010

Painel

No tempo certo. Correcto. Naquele momento. O ponteiro alinhado, o dígito. Adequado. Preciso. Uma questão de precisão. Adequação.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Dream machine

« - Do you find life boring?
- Under some circumstances it can be very boring.»

Let’s get lost, Chet Baker

domingo, 25 de abril de 2010

Ângelo caído

«O PC é o peso da Igreja ao contrário. Só há Cunhal porque existia Cerejeira. Fátima e Baleizão, os dois santuários. (…) A primeira vez que vi Cunhal foi num comício no Campo Pequeno. Fiquei impressionado. Ele disse: no cimo deste palanque estão 139 anos de cárceres. E eu disse: porra, são os mártires das igrejas. E ele é o sumo-sacerdote. Uma religião.»

Entrevista a Ângelo Correia, revista Única

sábado, 24 de abril de 2010

Meia bola e força

Por motivos que não interessa agora desenvolver, deu-se o caso de partilhar uma aula de solfejo com uma pessoa que tem problemas com sibilantes. Não era um qualquer problema leve, pouco pronunciado, amador. Não senhor, tratava-se de um óptimo exemplar com carteira profissional, tratava-se de um nível supremo de chopinha de macha. Sentada ao meu lado, a ler a partir da minha pauta.

De início, confesso, não me apercebi do perigo potencial; as aulas de solfejo sempre foram dadas a lapsos engraçados como os célebres “ró” e “slá” que deveriam ser anestesia suficiente. Nem sequer quando ouvi pronunciar o título do tema do Parker: Xcrapple from a Apple. Depois bastaram as primeiras colcheias para tudo se tornar muito complicado. “fá” “chól” “chi” “lá”.

Foi duro mas consegui aguentar-me sem rir.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Plain vanilla

A água escorre-me do cabelo agora comprido pela cara, pelas costas abaixo. Fecho os olhos e deixo que o chuveiro me atinja as pálpebras. Vejo luzes, fogachos coloridos, ténues, efémeros. De olhos fechados. A água nas pálpebras dos olhos fechados. Escorre: pela cara, pelas costas, a partir dos meus cabelos. Agora compridos.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Gaspiller

Gastar os dias. Desgastá-los. Provocá-los. Assustá-los de morte. Matá-los de tédio e aborrecimento. Levá-los até à exaustão. Vencê-los pelo cansaço. Vencê-los e não convencê-los.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Nuvens

Como se isso fosse uma grande coisa. Uma grande descoberta. Já toda a gente sabe disso, há que tempos. E, no entanto, lá estás tu a tentar vender isso como se tivesses acabado de inventar a roda, de descobrir a pólvora. E o pior é que muitos vão na tua conversa e acham muito interessante, que giro, fabuloso. Metade destes adjectivos é o teu sorriso que os compra, parece que já nem ouvem aquilo que dizes. Não acredito que, se ouvissem mesmo, andassem para aí com os “muito interessante”, “que giro” e “fabuloso”. Mas a verdade é que andam.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

14 oito mil

Já li várias coisas diferentes e ainda não consegui perceber se há mais oito, nove ou dez tipos para além do João Garcia que conseguiram escalar os 14 picos acima dos 8000 metros. No caso do Garcia, é ainda notável ver que escalou 11 das montanhas depois do acidente no Evereste.

domingo, 18 de abril de 2010

Eat led

Nunca pensou que fossem precisos três disparos. Na sua ingenuidade – era a primeira vez que disparava sobre alguém – um só deveria ser o suficiente para ver o corpo depositar-se no chão. Mas não: nem ao final do primeiro, nem ao final do segundo. Continuava de pé. A cara de espanto. Foi talvez a única coisa que lhe causou algum desconforto. O espanto que com a olhava. Como se manifestasse a sua incredulidade por ter sido atingido por ela. Mas só isso. Afinal não era assim tão difícil.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Notluge

O teu corpo gasto. Usado. Velho. Flácido. As rugas rasgam-te a cara, as covas dos olhos fundas, escuras. Enegrecidas. Os braços, a pele distendida, as mãos engelhadas. Uma corrida contra o tempo. Perdida.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Flat

Estava desagradado com o seu carro porque a caixa de velocidades era jónia. Por muito que quisesse, não conseguia obter, por exemplo, uma terceira menor ou uma quarta aumentada.

terça-feira, 13 de abril de 2010

It's no the age honey, it's the mileage

O lado positivo de ter um número de cartão de crédito roubado é a quantidade de milhas que são atribuídas pelas compras alheias.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Speak Low

O castelhano pode ser a língua do canal 18 mas o francês é que é a língua do engate.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Double parking

Sempre que faço a 5 de Outubro – e normalmente faço apenas uma curta distância da avenida – e, como sempre, tenho que me desviar sempre de dois ou três carros mal estacionados (e avisto ao lado outros quantos com quatro piscas) pergunto-me, também sempre, onde andarão os gajos que passam multas.

terça-feira, 6 de abril de 2010

It does not add up

Era qualquer coisa com a qual eu brincava sempre que ia lá a casa. Lembro-me perfeitamente. Debruçado sobre a mesa de café escura, quadrada. Mas não me consigo lembrar bem. Algumas imagens dispersas e confusas. Nem sequer o objectivo do jogo me vem à memória. Não era um brinquedo, disso sinto-me certo. Talvez qualquer coisa de tabuleiro dado que punha em cima da mesa de café escura. E a nítida sensação que tirava aquilo de uma gaveta, era numa gaveta que era guardado e eu tirava de lá. E dou por mim a olhar em redor, nesta sala que agora me faz sentir estranho, há anos que não me sentava no sofá vermelho a olhar para o televisor. Por falar nisso, o televisor está ligado num programa de entrevistas mas já há muito que eu desliguei. E por debaixo do aparelho, uma mesa com duas gavetas muito fininhas. Levanto-me de rompante, porque de um momento para o outro parece-me óbvio que aquele fosse o sítio onde estaria guardado o raio da coisa com a qual eu costumava brincar. Abro a da direita primeiro. Cassetes de vídeo e áudio. Abro a segunda. Mais do mesmo. Frustração. Ao lado da poltrona azul, aquela mesmo virada para o telefone, onde te costumavas sentar, outra mesinha pequenina, esta com gavetas não tão finas como a anterior. Aqui – e de certeza, lembro-me perfeitamente, neste caso não tenho a mínima dúvida – era onde guardavas as peças do xadrez. Que nunca te vi jogar mas sei que tinhas um tabuleiro. E não gostavas muito que mexesse nas peças. Abro a gaveta. Nada. Quer dizer, nada do que eu esperava, lá dentro estão agora velas. Abro a do meio e saem pratinhos de porcelana, abro a da esquerda e mais quinquilharia.

domingo, 4 de abril de 2010

Saco cheio

Uma das partes mais complicadas do seu internamento hospitalar foi a dieta líquida. A sopa era uma água de lavar pratos, uma coisa verdadeiramente intragável que nem com uma pitada de sal lá ia. Aquela sopa era supostamente para pessoas doentes mas mais parecia ser passível de fazer alguém saudável adoecer.

sábado, 3 de abril de 2010

Causalidade

Pôr pimenta na língua dos meninos pode não ser o melhor remédio para que não digam coisas feias. Pode funcionar exactamente ao contrário: sempre que como algo muito picante farto-me de dizer impropérios.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Xeque

Associamos o xadrez a russos. As cartas e o dominó aos jogos dos reformados nos parques. O Mikado aos japoneses. Já o jogo das damas, à Amadora.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Concorrência

Ontem, na RTP, a Judite de Sousa entrevistava o Pinto da Costa e, na SIC, o Miguel Sousa Tavares entrevistava o Luís Filipe Vieira. A TVI ainda tentou convencer o José Eduardo Bettencourt.

terça-feira, 30 de março de 2010

Up for grabs

Sempre – desde que me lembro – gostei de coisas verdes, tipo couves e brócolos e nabiças e espinafres e alface e lombardo. Também nunca não gostei de sopa. Há poucas coisas que, de facto não gosto. Curiosamente, a maioria das vezes que torço o nariz é devido a doces. Especialmente aqueles doces que são muito doces: enjoam-me. Fios de ovos, a maioria dos doces conventuais, baba de camelo. Até a mousse de chocolate, e logo eu que gosto imenso de chocolate. Tirando isso, não morro de amores por nabo. E iscas não consigo gostar.

Fui aprendendo a gostar de algumas coisas pelo caminho. Por exemplo, favas. Com vinho tinto. Embirrava quando era miúdo e agora a perspectiva de favas guisadas para um almoço de fim-de-semana é agradável. Até o sushi, cujo cheirinho a Doca Pesca era suficiente para me demover, agora me parece óptimo.

De maneira que gostava de ter mais manias a comer. Ser pisco. Só assim uma vez por outra. Para dar um certo ar elevado e chique. As pessoas elevadas e chiques têm sempre umas quantas esquisitices. Não gosto disto porque não sei quê. Coisas verdes, blarg. Sopa, que chatice. Ai que porcaria.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Ainda sobre o Estoril Sol

E aquela conversa toda na altura para vender o projecto do novo empreendimento que ficaria no sítio onde estava o anterior mamarracho (e que, curiosamente, é o metro quadrado mais caro do país). No outro dia, ao passar de carro, ocorreu-me a melhor definição do que são aqueles três pinchavelhos de cimento virados para o mar: são três blocos de peças de Tetris. Mas os três blocos mais caros do país. E pensar que um dia, naquele mesmo sítio, havia um mamarracho, hein?

quinta-feira, 25 de março de 2010

Armação

As imagens de São Bartolomeu no carro eram coisa do passado. Ao invés, escrevia bequadros para evitar os acidentes.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Lullaby

Os soporíferos e anestésicos são redundantes. Para o mesmo fim – e com a vantagem adicional de controlar as alergias – existem os anti-histamínicos.

segunda-feira, 22 de março de 2010

domingo, 21 de março de 2010

Bridge

O som compassado do comboio. Cada vez mais devagar, cada vez mais lento, a aproximar-se da estação. Às vezes, também o som da buzina, uma duas vezes, a entrecortar o som compassado das rodas metálicas a trilhar o aço do ferro. Um caminho de ferro. Cada vez mais devagar, cada vez mais lento, o compasso do som compassado vai aumentando de duração à medida que as rodas metálicas abrandam, o tempo abranda, tudo abranda. Cada vez mais devagar. Cada vez mais lento. Até que o som compassado do comboio pára.

sexta-feira, 19 de março de 2010

quinta-feira, 18 de março de 2010

Terapia para grupos

Inúmeros convites para pertencer a grupos do Facebook. Todos os dias. Desde causas como apoios partidários até contra circuncisão feminina. De apoio a clubes de futebol. Ou até coisas sem a mínima ponta por onde se lhe pegue. Mas muitos, imensos, uma enchente. De tal forma que também a mim me apetece abrir um destes grupos. E até já tenho um tema alinhavado. Um grupo contra os grupos do Facebook.

terça-feira, 16 de março de 2010

Relatividade

Deixar a secretária quando ainda existe luz solar. Mais cedo, é certo. Mas também porque os dias estão a ficar maiores.

domingo, 14 de março de 2010

Vidros rachados

Um fim-de-semana a cantar modos da menor melódica. É duro. Como o ouvido e as cordas vocais que teimam em não ouvir e cuspir quartas aumentadas e, por arrasto, os modos que as têm. Pensar nos Simpsons, é o remédio chapa quatro. Já o ouvi, já o disse a outros. Ainda não o consigo aplicar decentemente. Há qualquer coisa de tão forte na atracção da quarta perfeita que está mesmo a pedir que seja esta a nota entoada em detrimento da aumentada. Isto, ao mesmo tempo que há uma repulsa, uma quase dor física em cantar esta última. Isto tudo por condicionamento, é verdade. Anos e anos a escalas maiores, direitinhas e bem comportadas, assim como cadências bonitinhas e resoluções óbvias. Este passado é como um móvel antigo que não se consegue facilmente arrastar, de pesado que é.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Guardas tudo para ti, nunca dizes nada, nunca te expões, nunca dizes as coisas que verdadeiramente importam. Deixas-me especado, desconcertado, a fazer um esforço para tentar interpretar, perceber, depreender as coisas por entre o teu silêncio. Se te pergunto
Nada
E eu que detesto interpretar, porque que carga de água não dizes logo o que queres e paras com as charadas, não quero ter que te interpretar, que te perceber se não me dás nada, se não te expões, se não me mostras, se não me dizes as coisas que verdadeiramente importam e não tudo o resto que dizes, insignificante, insípido, desinteressante. E eu insisto
Nada
As coisas que verdadeiramente interessam. Dessas não dizes nada, não abres a tua boca para dizer seja o que for sobre isso e eu sei que queres falar, sei que queres tocar em tudo isso, sei que queres mandar tudo isso cá para fora mas não mandas, não soltas, não consegues soltar, não consegues imaginar-te a falar sobre as coisas verdadeiramente importantes. Escrito na tua cara, no teu olhar e
Nada
Dou voltas à cabeça, como nada se está escrito na tua cara, como nada se se está mesmo a ver que estás a rebentar com coisas para dizer, que estás rebentar de tanto silêncio junto, acumulado, silêncio podre, fétido de estagnado na tua boca que não se abre. Guardas tudo. Nunca dizes nada. As coisas que verdadeiramente importam.

E eu que detesto interpretar.

quarta-feira, 10 de março de 2010

segunda-feira, 8 de março de 2010

domingo, 7 de março de 2010

Hang me out to dry

O cheiro fresco da roupa lavada. Doce. Acabada de lavar. Aparece assim que a porta se abre, depois das três voltas da fechadura. Percorre a casa toda. A humidade, não pára de chover e a roupa não seca. Passas os dias a queixar-te da humidade, que não pára de chover e que a roupa não seca. A casa toda a cheirar a roupa lavada, constantemente. Mudas o posicionamento, espalhas roupa pela cozinha toda. A frincha na janela para entrar ar. A corrente ajuda a secar. Passas os dias a tocar na roupa pendurada para ver se já secou um bocadinho, a mudar a posição em que está estendida, a estendê-la noutros sítios para ver se seca mais depressa, a abrir a frincha da janela para deixar o ar entrar. E a roupa teima em não secar, a casa toda a cheirar àquele cheiro fresco de roupa lavada, acabada de lavar. A humidade, não pára de chover.

sábado, 6 de março de 2010

Acordo

O Expresso já adoptou, para algumas notícias, o novo acordo ortográfico. É horrível. Começo a ler e, de repente, dou por mim a entoar as palavras com sotaque brasileiro porque não consigo identificá-las, escritas daquela forma, com o meu sotaque lisboeta. Depois fico a pensar. No tempo da minha avó, mãe escrevia-se mãi, assim como outras palavras tinham grafias diferentes. Quão difícil terá sido para ela adaptar-se a essa mudança? Terá sido tão brusca quanto esta parece ser? Terá causado tanta discussão e celeuma?

quinta-feira, 4 de março de 2010

Horn

Preparavas-te um bocadinho antes. Fazias o olhar sério e só depois apitavas a buzina. Normalmente eram duas buzinadelas e não uma: duas resulta melhor porque parece mesmo que estás a chamar alguém e não a buzinar porque algum nabo fez um disparate à tua frente. E depois a mão, a mão no ar a cumprimentar, a dizer adeus àqueles estranhos que não faziam ideia quem éramos. Com ar convincente. Vão ficar a pensar “quem era…?”. E dizias este último “quem era…?” com um falsete agudo e fininho, com um volume elevado que quase me trespassava os tímpanos.

quarta-feira, 3 de março de 2010

terça-feira, 2 de março de 2010

A frigideira cheia de azeite a borbulhar, a salpicar o fogão sujo da cozinha pequena. O calor pegajoso, o suor a escorrer pelas minhas costas, os cubos de gelo que tirávamos do congelador. O rádio a tocar sempre a mesma música, a inundar a sala de acordes e de versos, o barulho dos carros lá em baixo na avenida, à distância de um oitavo – seria o oitavo? – andar. O sofá comprido, os pés em cima da mesa de café, o soalho de madeira a estalar. O jornal em cima da mesa, o janelão que dava para a varanda inclinada. Oitavo andar. Detesto alturas, detesto qualquer varanda, detestava ainda mais aquela varanda do que as outras porque era inclinada, parecia que ia cair. O barulho dos carros lá em baixo, o chão a aproximar-se, o barulho do azeite a borbulhar, a salpicar o fogão, o lume estava forte. A cozinha pequena, o rádio a cuspir acordes e versos pela cozinha, pela sala de soalho de madeira, a estalar com o calor pegajoso. Os pés em cima da mesa de café, sentados no sofá com o jornal nas mãos e a varanda ali ao lado. Mesmo ao lado. Inclinada, não conseguia pôr mais do que um pé em cima daquela língua de cimento que se projectava no ar. Tu debruçada a espreitar para a rua, os carros lá em baixo a fazer barulho ao atravessar a avenida e eu sem conseguir sequer aproximar-me, sem conseguir sequer imaginar-me naquele bocado de cimento que parece que a qualquer momento se vai soltar do oitavo – seria o oitavo – andar e vai acabar estatelado lá em baixo ao pé dos carros que cruzam a avenida. De maneira que fico cá dentro, não saio da sala banhada pelos acordes do rádio, o barulho do azeite a borbulhar na frigideira quente, o calor pegajoso, o jornal e os pés em cima da mesa de café. Não saio do sofá, não me aproximo da varanda, não quero saber do que se passa lá em baixo na rua, na avenida. Detesto varandas.

segunda-feira, 1 de março de 2010

É como se quisesse esticar os braços e eles não mexessem
É como se quisesse andar e não saísse do mesmo sítio
É como se quisesse gritar e não se ouvisse

É como se quisesse dormir e o sono não viesse
É como se quisesse acordar e o sonho não acabasse
É como se quisesse parar e não conseguisse estar quieto
É como se quisesse estar quieto e não conseguisse parar
É como se quisesse calar-me e a boca não se fechasse
É como se quisesse falar e a boca não abrisse

É como se estivesse sem estar
É como se fosse sem ser
É como se quisesse sem querer.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

I'm a poor lonesome cowboy

A ter impacto em alguma coisa, a possibilidade dos homossexuais se casarem fará a taxa de divórcio diminuir. Porque os casamentos gay são, por definição, casamentos felizes.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Borboleta

Quando o assaltante o encostou à parede com uma navalha em riste, um pensamento heróico de resistência e possível retaliação passou-lhe pela cabeça. Felizmente, foi muito passageiro. Enquanto rendia a carteira e o telemóvel e vasculhava os bolsos à procura de eventuais valores esquecidos, lembrou-se da caneta que trazia no bolso da camisa. E então voltaram-lhe as ideias de bravura quando se lembrou da expressão “the pen is mightier than the sword”.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Cão que ladra

A cadela nunca descia senão o primeiro metro da rampa de acesso à garagem, ficava lá ao longe a ladrar à distância. Um ladrar irritante. Estávamos à porta, esperávamos os outros que ainda não tinham chegado e ela ladrava-nos. Pequenina, uma rafeira acanichada, branca. Os donos chamavam-lhe Princesa, o que só acentuava a vontade que tínhamos de a achar insuportável.

De repente, a ideia. Calaríamos a cadela calando-nos a nós próprios. E então ficámos silenciosos, encostados à parede de cimento. A cadela ladrou mais um pouco e depois parou, mais ou menos quando começou a estranhar o nosso silêncio imóvel. Rodou ligeiramente a cabeça, aguçou os ouvidos, as orelhas fizeram um movimento curioso e começou a fazer um ruído novo, um ladrar diferente entrecortado com uns quantos uivos, quase como se nos acusasse de estar a gozar com ela.

Não aguentámos. Largámos uns risos meio abafados, meio por abafar e, assim que os ouviu, de imediato a Princesa largou a ladrar furiosamente, tal e qual como no início. Tentámos outra vez. Vá lá, agora sem rir, ela há-de se fartar e vai-se embora. Mas, passados uns instantes daquele ladrar alternativo e curioso, novamente um de nós rebentava e o plano do silêncio ia por água abaixo.

E foi então que surgiu a ideia da estratégia inversa: se não a conseguimos calar com silêncio, vamos calá-la com barulho. Retirámos do interior da garagem o amplificador. Posicionado de frente para o bicho. Põe os agudos no máximo que os cães não gostam. E, claro, o volume nos píncaros. Depois, foi só tocar alguns acordes com a força dos duzentos watts que os dois speakers soltavam.

O som distorcido e ensurdecedor não durou mais que alguns segundos. Os acordes cessaram e olhámos todos para o cimo da rampa. A cadela largou dois ou três latidos tímidos e desatou a correr, desapareceu no sentido da entrada da casa. Largámos a rir ruidosamente, como se também nós tivéssemos duzentos watts de potência de som.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O abraço. Agarraste-me de rompante, não estava à espera. Com uma força, os teus braços envolveram-me e pressionaram-me contra ti. Demorei a reagir, não estava à espera, demorei a pôr os meus braços à tua volta. E depois falaste-me. Ao ouvido, por entre o ruído de fundo. Por entre os teus braços cerrados. E aí não tive mesmo reacção. Não estava à espera.

Não estava nada à espera.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Hard Bop

Estamos algures entre os anos 50 e 60. Nos Estados Unidos vivem-se momentos de alguma agitação social decorrentes da luta pela igualdade de direitos dos negros. É neste contexto que surge o hard bop, na Costa Leste, como uma resposta ao cool. É uma afirmação: é a tentativa de voltar a trazer o jazz para os seus verdadeiros criadores. Secções de ritmo mais soltas, às vezes tão soltas como aquilo que se catalogou de “free jazz” – a liberdade conceptual e da estrutura dos temas é uma forma de transpor e proclamar a liberdade social que buscavam.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Cool

Termina a Segunda Guerra Mundial e os Estados Unidos entram numa fase de prosperidade. Este bem-estar contribui para nascimento do cool. Do ponto de vista musical, a nova corrente consubstancia-se num afastamento face à complexidade e elaboração do frenético bebop. Muito mais do que isso, representa também uma alteração social importante, é uma apropriação do estilo por uma classe social diferente: o cool é o jazz dos brancos. Sedeado à beira mar, na Costa Oeste. Os nomes que mais se destacaram são os dos meninos bonitos da Califórnia, muitos deles oriundos da formação clássica.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O rádio do carro aos berros, na altura não tinha leitor de CDs, só cassetes. Comprei um daqueles apetrechos com formato de cassete – lembras-te? – com um fio preto fininho a sair de um dos lados. Ligava-se a um discman ou a um minidisc e era a música destes últimos que se ouvia nos altifalantes do carro. Aos berros. Lembras-te?

sábado, 20 de fevereiro de 2010

«Em tempos de crise, não é só a Rainha de Inglaterra que anda a precisar de umas aulas de economia. O mesmo pode dizer-se da Justiça portuguesa. Pensávamos já ter visto tudo quando, há pouco tempo, soubemos das centenas de euros gastas para julgar uma idosa por ter roubado um creme de quatro euros que afinal tinha pago. Agora percebemos que ainda não tínhamos visto nada, quando lemos no 24 Horas que um colectivo de três juízes está a empregar o seu dispendioso tempo a julgar um jovem de 18 anos por ter furtado um pacote de amêndoas de Páscoa no valor de dois euros. Igualmente criativa é a cobertura do tema feita pelo 24 Horas que foi ouvir famosos que já tiraram umas coisitas. Por exemplo, aos nove anos o padre Vítor Melícias tirou «dois marmelos do marmeleiro da senhora Maria», que se riu e lhe disse que comesse os que lhe apetecessem. Moral da história: ele deixou-se marmeladas e foi para padre. A senhora Maria devia ser mesmo muito feia…»

Revista Tabú

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

«E então parei de ter receio de que me perseguissem dado que só eu me poderia perseguir, de ter receio de que me espiassem dado que só eu me poderia espiar, de ter receio que me matassem dado que só eu me poderia matar(…)»

A ordem natural das coisas, António Lobo Antunes

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Browse

Os carros a passar. O barulho dos carros a passar. O ruído da deslocação. Da aceleração quando não querem esperar pelo próximo verde, dos travões quando já não vão a tempo. Às vezes, o barulho vem molhado, encharcado da chuva que invadiu o pavimento da avenida. As buzinas. A necessidade que têm de buzinar. Os carros que passam e fazem barulho com a sua deslocação, ainda por cima buzinam.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Se soubesses. A sério. Contar-te seria impossível. Mas poderias saber. Só saber. Seria estranho se soubesses sem te o ter contado. Mas poderias saber. Simplesmente saber. Mesmo que não te tivesse contado tudo, tintim por tintim. Ou apenas uma parte. Não interessa. Queria que soubesses. Mas sem ter que te contar. Era isso. Sem ter que te dizer as coisas, sem ter que te falar sobre isso, sem ter que te contar. E, mesmo assim, que soubesses tudo. Que percebesses, que te apercebesses, que deduzisses. Porque te o dissessem, que te o contassem. Mas não eu.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Acordar

Com o novo acordo ortográfico, o título desta página passa a estar errado.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Coeur

Depois de recuperado dos primeiros problemas cardíacos, os médicos alertaram-no para que procurasse levar uma vida calma, evitar agitações e comoções. E então passou a viver aterrado com a possibilidade de sentir qualquer tipo de emoção.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Schirm

Tinha que me proteger de cada vez que olhava para ti. Como se fosses um sol e eu precisasse daqueles óculos cinzentos e feios que são distribuídos quando se aproxima um eclipse. Para que, sem eles, os meus olhos (e os de outros fascinados) não sejam destruídos por um brilho demasiado intenso mas hipnótico. E por isso é importante fazer a desmistificação. Quando a intensidade é reduzida à sua verdadeira dimensão e, portanto, os óculos ficam na prateleira, então a percepção do brilho é finalmente adequada. E então é só mais um eclipse, daquelas dezenas que vamos ter oportunidade de apreciar no decurso de uma vida.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Dunkel

O teu cabelo. Escuro. Preto. Eu sei que não é preto: pinta-lo. De escuro. Muito escuro. Preto. Acreditas que tenho saudades? Saudades dessa cor, desse preto, escuro. Saudades dessa escuridão do teu cabelo. Que não é preto, sei que o pintas? Acreditas?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Schüler

Tenho um vizinho – o de cima, acho eu – que está a aprender música. A primeira vez que o ouvi foram os acordes iniciais do Smells Like Teen Spirit numa guitarra meia desafinada. Agora estou a ouvi-lo a treinar escalas. Maiores. Primeiro, simplesmente os sentidos ascendente e descendente. Depois em terceiras: 1º grau, 3º grau, 2º grau, 4º grau, e por aí fora. Vacila um bocadinho quando chega a esta parte, tem que abrandar e não mantém um tempo regular.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Picante

Posso não ter uma refeição feita no frigorífico, posso não ter sopa, posso não ter pão ou manteiga, posso não ter um pacote de leite ou um reles iogurte, posso não ter esparguete ou arroz, posso não ter uma peça de fruta ou uma folha de alface, posso não ter um enlatado que me desenrasque, posso não ter uma porcaria qualquer congelada que rapidamente se ponha no microondas. Mas, dê por onde der, tenho sempre um destes em casa.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Cabine

Se a minha boleia ainda não à porta no momento em que acabava a minha aula e saía, costumava caminhar os poucos passos até à esquina da rua do liceu. Facilitava porque assim escusava de entrar na rua de acesso aos blocos de apartamentos. Na maioria das vezes, pouco tempo depois surgia um carro que fazia de imediato inversão de marcha para seguir no sentido inverso.

Mas também havia os dias, que àquela hora eram noites, em que a boleia demorava. Para tentar apressar o processo e encurtar a espera, por vezes até obviando possíveis esquecimentos, ali estava a cabine telefónica, mesmo na esquina, perto do poste de iluminação pública com um caixote do lixo verde agarrado.

Por vezes estava em muito mau estado: a proximidade do liceu garantia actos de vandalismo regulares. A caixa do telefone arrombada, certamente em busca das moedas, o auscultar partido ou pura e simplesmente arrancado do fio metálico. O próprio caixote do lixo também sofria. Um dia foi incendiado algo dentro dele; derretia numa agonia lenta, o plástico esverdeado escorria e pingava para o chão sujo de calçada.

O problema era a minha falta de fundos. Tinha algures entre os sete e os dez, onze anos e não tinha ainda o hábito de andar com dinheiro. Numa altura em que as simples moedas de dois escudos e cinquenta centavos dariam para uns instantes razoáveis de conversa, nem isso o meu bolso estava em condições de cuspir.

A minha sorte era a falta de tecnologia. Aqueles telefones permitiam que a chamada fosse executada sem moeda. A chamada caia passado pouco tempo assim que a luz cor-de-laranja a exigir dinheiro começava a piscar. Mas era o suficiente para que minha voz fosse entendida e, à la Sozinho em Casa, se lembrassem de mim.