terça-feira, 12 de maio de 2020

Pombos faquir

Adaptaram-se aos espigões metálicos, colocados nos edifícios, para evitar que aí posem e nidifiquem.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Prisão domiciliária - 64º dia

Quando penso na módica quantia de 35 paus que vai custar o meu corte de cabelo - agendado para a próxima 6a feira, a primeira vaga disponível - comparo o absoluto com o relativo (parar me sentir um pouco melhor): é certo que 35 paus é extorsão pura mas, por quantidade de cabelo que será efectivamente cortado, é capaz de ser dos cortes mais baratos que alguma vez fiz.

domingo, 10 de maio de 2020

As escadas de metal estão perto do canto esquerdo da varanda.

Há uma pequena parte da barreira metálica, que separa a varanda do vazio, que abre como uma pequena portinhola, para um patamar metálico, a partir do qual estão os degraus que levam, passando pelas varandas dos restantes andares até ao chão. Uma estrutura metálica redonda acompanha os degraus, como que fechando quem sobe ou desce dentro de um casulo, desta forma evitando que possa cair de costas.

Pela porta de vidro que dá para a varanda, vejo subitamente alguém: uma miúda, talvez dos seus vinte anos, acabada de trepar escadas acima, ficou imobilizada no pequeno patamar metálico assim que me viu encolher as mãos e levantar os braços, perante a invasão inusitada. Abro a porta e, ironicamente, digo-lhe
Hi
Como se fosse normal cumprimentar cordialmente quem invade a casa alheia. Ficou manifestamente incomodada, desfez-se em desculpas
I just wanted to see what was up here.
que me soa verdadeiramente parvo como justificação. Respondo
My flat.
afirmação dificilmente refutável e com a vantagem de trazer, implicitamente acoplada, a exclamação Clooneana "what else...?". Ela desculpa-se novamente enquanto inicia o processo de descida. Digo-lhe
That's ok
Que é como quem diz, aceito a desculpa, mas não me andes para aí a subir às varandas dos outros.

sábado, 9 de maio de 2020

Autoria

No campo cientifico, as co-autorias em artigos e livros são bastante comuns. Na literatura, parece sequer bizarro pensar numa obra escrita por mais de duas mãos. Na música, há géneros onde as músicas são atribuídas a vários; já na música clássica, fala-se no compositor da sinfonia, do concerto, da ópera, na forma singular (apesar de Rimsky-Korsakov parecer uma dupla eslava) embora, certas peças possam ser interpretadas a quatro ou mais mãos no mesmo teclado. O mesmo com a pintura.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Em ré

O requiem de Mozart é, naturalmente, uma peça em ré menor. Se fosse em dó, seria um doquiem; em mi seria miquiem. Faquiem, ainda mais apelativo para os anglo-falantes. Sibemolquiem. Etc.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Macaquinho de imitação

Nas poucas vezes em que participei (tive que participar) em cerimónias religiosas, senti-me como quando se vai a uma aula de exercício físico pela primeira vez: passei o tempo a olhar para o que os outros faziam e tentei acompanhar.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Libre penseur

«À côté de mon assiette je trouvai un oeillet dont la tige était enveloppée dans du papier d'argent.Il m'embarrassa moins que n'avait fait l'enveloppe remise dans l'antichambre et que j'avais complètement oubliée. L'usage, pourtant aussi nouveau por moi, me parut plus intelligible quand je vis tous les convives masculins s'emparer d'un oeillet semblable qui accompagnait leur couvert et l'introduire dans la boutonnière de leur redingote. Je fis comme eux avec cet air naturel d'un libre penseur dans une église, lequel ne connaît pas la messe, mais se lève quand tout le monde se lève et se met à genoux un peu après que tout le monde s'est mis à genoux.»

À l'obre des jeunes filles en fleurs, Marcel Proust

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Foda-se

No código penal da minha avó, o crime de proferir um palavrão tinha, como sentença associada, a colocação de pimenta na língua. Devia ter-lhe perguntado: e se o palavrão for escrito? Pimenta nos dedos não parece ter grande efeito.

domingo, 3 de maio de 2020

Ad

De misógino que era, nunca fazia argumentos ad hominem: apenas ad mulherem.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Exclusão alimentar

Vegetariano, ficou ofendido quando descobriu que o faqueiro apenas tinha talheres específicos para refeições de carne e de peixe.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Vai para baixo

Tinha tanto azar que, quando chegou a sua vez de apanhar o elevador-social, deflagrou um incêndio e o aparelho imobilizou-se no rés-do-chão.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Metade

Acusou-o de ser um misógino. Respondeu-lhe que só tinha percebido metade: na verdade era um misantropo, pelo que à misógina faltava ainda somar a misandria.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Droga

«Et de fait, l'amour de Swann en était arrivé à ce degré où le médecin et, dans certaines affections, le chirurgien le plus audacieux, se demandent si priver un malade de son vice ou lui ôter son mal, est encore raisonnable ou même possible.»

À la recherche du temps perdu, Marcel Proust

domingo, 26 de abril de 2020

Narrativa

No título da notícia, há uma referência à narrativa oficial do governo chinês ao combate há pandemia. Como é expectável, trata-se da possível discrepância entre a forma demasiado rosada como as autoridades estarão a comunicar o processo e o regresso à normalidade e aquilo que verdadeiramente aconteceu no local.

Há uns tempos, um amigo chamou-me a atenção para o emprego que, hoje em dia, se faz, amiúde, da palavra "narrativa". Da mesma forma que, neste exemplo, o governo chinês tem uma narrativa (que pode ser mais abrangente do que o episódio de combate ao Covid-19), há tantas outras narrativas. A esquerda e a direita têm as suas narrativas, as religiões têm as suas narrativas. Outro exemplo: a narrativa (ou uma das) deste governo PS é que pôs fim à austeridade, algo que é contestado por outros partidos e sensibilidades políticas. Até as pessoas que acreditam que a Terra é plana tem a narrativa delas: acreditam que a Terra é plana.

O termo "narrativa" remete-me, de forma quase automática, para uma carteira de sala de aula, que eu ocupava na pré-adolescência. A disciplina é, naturalmente, português, na altura em que abordámos as particularidades deste tipo de texto, os seus elementos - acção, tempo, personagens, narrador, etc.. Lembro-me (surpreendentemente) relativamente bem da professora desta disciplina: costumava insistir, com alguma veemência, na forma como avaliávamos se o narrador era participante ou não-participante: "entra na história...? Mas bate à bota e pergunta "posso entrar?", é isso?".

Em si, narrar é contar, descrever, relatar algo e esse algo pode ser a realidade. Intuitivamente, reservo o verbo "narrar" para aquelas histórias que os anglo-falantes definem como "stories", para distinguir de History, e que tem um equivalente (horripilante) no novo acordo da língua portuguesa sob a forma de "estórias". Ou seja, associo "narrativa" a ficção. Por isso, parece-me inadequado quando se pretende narrar a realidade: é tratá-la como se fosse uma história (estória).

Há o espaço para a subjectividade da interpretação daquilo que é: será um sucesso ter apenas o número de vítimas mortais registado oficialmente, ou será um desastre termos todos estes falecidos contabilizados? Seguramente haverá uma narrativamente para as posições, assim como inúmeras outras para outras posições intermédias ou mais extremadas. Mas o ponto é esse: mesmo em face do mesmo, é uma posição sobre o que significa.

Donde, como sugestão de resolução deste profundo dilema: se fizer sentido, basta substituir a palavra "narrativa" por "opinião", "teoria" ou "hipótese". Porque, normalmente, não é mais do que isso: é uma forma de ver e interpretar a realidade. Certo que, em alguns casos, estamos claramente no campo daquela ficção das história (estórias): por exemplo, no que concerne à hipótese/teoria/opinião que defende que a Terra é plana. Excluindo esses casos da mais obtusa negação da realidade, a troca parece funcionar bem.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Love in an elevator

Toda a gente sabe identificar uma boa música de elevador. Já música de elevador-social parece ao alcance de poucos.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Prisão domiciliária - 43º dia

Ao fim de algum (bastante) tempo, a perspectiva de regresso à normalidade quase parece desencadear agorafobia.

sábado, 18 de abril de 2020

Prisão domiciliária - 39º dia

Pior do que estar fechado em casa é estar fechado em casa a gramar com a música pindérica que algum vizinho resolveu pôr aos berros. Já dizia o outro: l'enfer c'est les autres.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Infinitivar

Dizer que o Secretário de Estado da Saúde por vezes, fala assim, ou seja, inicia as frases com um verbo no infinitivo.

Realçar que não é o único, é uma prática que se verifica em diferentes contextos,

Acrescentar que é bastante recorrente notório na televisão, nos telejornais, especialmente nos casos de jornalistas que fazem directos.

Indicar que não dei conta quando quando começou.

Agradecer ao Ricardo Araújo Pereira, que foi quem me despertou para o fenómeno, referindo-se às pessoas que dizem frases que podem, genericamente, começar com a expressão "grande chefe índio"

Expressar, nesta fase, alguma incompreensão: a que se deve esta renitência em conjugar verbos? Tratar-se-á de uma moda que ninguém sabe de onde brotou? Será, pura e simplesmente, preguiça?

Enfatizar que é um hábito um bocado ridículo.

Pedir que parem com esta parvoíce e voltem a conjugar.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Mi-voix

«Dans la chambre voisine, j'entendais ma tante qui causait toute seule à mi-voix. Elle ne parlait jamais qu'assez bas parce qu'elle croyait avoir dans la tête quelque chose de cassé et de flottant qu'elle eût déplacé en parlant trop fort, mais elle ne restait jamais longtemps, même seule, sans dire quelque chose, parce qu'elle croyait que c'était salutaire pour sa gorge et qu'en empêchant le sang de s'y arrêter, cela rendrait moins fréquents les étouffements et les angoisses dont elle souffrait»

Du côté de chez Swann, Marcel Proust

terça-feira, 14 de abril de 2020

Prisão domiciliária - 35º dia

É complicado quando se manda alguém à merda (ou qualquer outro sucedâneo) e a pessoa pode alegar o actual enquadramento legal excepcional para não poder realizar a deslocação.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Mártir

«Es la historia real de un prisionero republicano que fue fusilado en los primeiros días de la guerra civil ela la prisión de Ávila. El pelotón de fusilamiento lo sacó de su celda en un amanecer glacial, y todos tuvieron que atravesar a pie un campo nevado para llegar al sitio de la ejecución. Los guardias civiles estaban bien protegidos del frío con capas, guantes y tricornios, pero aun así tiritaban a través del yermo helado. El pobre prisionero, que sólo llevaba una chaqueta de lana deshilachada, no hacía más que frotarse el cuerpo casi petrificado, mientras se lamentaba en voz alta del frío mortal. A un cierto momento, el comandante del pelotón, exasperado con los lamentos, le gritó:
-Coño, acaba ya de hacerte el mártir con el cabrón frío. Piensa en nosotros, que tenemos que regresar.»

Es escándalo del siglo, Gabriel García Márquez

sábado, 11 de abril de 2020

Ao prognatismo mandibular também se chama mandíbula Habsburgo.

A associação é devida à incidência do fenómeno naquela família, fruto da prática generalizada de endogamia à qual, para além desta evidente manifestação física, também se atribuíram alguns casos de demência ou loucura. Acaso não existissem mais razões para evitar regimes monárquicos, esta é uma boa razão, de cariz biológico para não se deixar governar por pessoas descendentes de várias gerações de consanguinidade.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Su hombre

«En todo caso, y aun en los tiempos más crueles del invierno, Nicolás Guillén conservaba en París la costumbre muy cubana de despertarse (sin gallo) con los primeros gallos, y de leer los periódicos junto a la lumbre del café arrullado por el viento de maleza de los trapiches y el punteo de guitarras de los amaneceres fragosos de Camagüey. Luego abría la ventana de su balcón, también como en Camagüey
, y despertaba la calle entera gritando las nuevas noticias de la América Latina traducidas del francés de juerga cubana.
(...)
De modo que una mañana Nicolás Guillén abrió su ventana y gritó una noticia única:
- Se cayó el hombre!
Fue una conmoción en la calle dormida porque cada uno de nosotros creyó que el hombre caído era el suyo. Los argentinos pensaron que era Juan Domingo Perón, los paraguayos pensaron que era Alfredo Stroessner, los peruanos pensaron que era Manuel Odría, los colombianos pensaron que era Gustavo Rojas Pinilla, los nicaragüenses pensaron que era Anastasio Somoza, los venezolanos pensaron que era Marcos Pérez Jiménez, los guatemaltecos pensaron que era Castillo Armas, los dominicanos pensaron que era Rafael Leónidas Trujillo, y los cubanos pensaron que era Fulgencio Batista. Era Perón, en realidad.»

El escándalo del siglo, Gabriel García Márquez

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Rebajas

Os germano-falantes esperam sempre promoções quando se deslocam a Rabat

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Parece-me estranho quando alguém manifesta acreditar em coisas como a lei da gravidade ou que a Terra é redonda.

Ambos são factos comprováveis e, por isso, estão fora do contexto deste verbo. Não há como acreditar naquilo que é: a questão nem sequer se coloca, seria o equivalente a dizer que se acredita na verdade. Já o contrário, estranhamente, não me parece tão estranho: é possível acreditar naquilo que não é. Ou seja, admito (embora não perceba) que haja quem acredite que a Terra não é redonda mas sim plana. Estão errados mas, ainda assim, acreditam (em algo que não é verdadeiro).

sábado, 4 de abril de 2020

4 mãos

Consta que a mãe lhe ofereceu um rolo de piano quando começou a aprender a tocar, na mais tenra idade. Art Tatum rapidamente emolou, na perfeição, aquilo que ouvia. Acontece que o rolo tinha sido gravado por duas pessoas, o que talvez ajude a explicar porque parecesse ter quatro mãos a muitos dos que o viram tocar.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Prisão domiciliária - 23º dia

Em cima da mesa está o Proust, cujas algumas centenas de páginas são o último reduto de literatura disponível. Em versão física, tenho plano de contingência digital. Dificilmente outro romance terá um título mais apropriado ao momento psicológico do que "em busca do tempo perdido".

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Equilíbrio

Devia ser proibido dar lições de moral orçamental quando se dirige um paraíso fiscal.

terça-feira, 31 de março de 2020

domingo, 29 de março de 2020

Vinyasa

Quando ouço pronunciar vinyasa a propósito de yoga, o que me vem à cabeça é vinhaça.

sábado, 28 de março de 2020

Hoje contei dois.

Numa cidade com um dos aeroportos mais concorridos do mundo, o céu costuma estar constantemente cravejado de rastos de aviões que, por vezes, se cruzam, e rasgam o azul claro até ao limite do horizonte.

quinta-feira, 26 de março de 2020

segunda-feira, 23 de março de 2020

Prisão domiciliária - 13º dia

O meu espírito autoritário (afinal existe) a vir ao de cima: aqueles que forem apanhados em incumprimento das normas excepcionais de isolamento deveriam ficar sem acesso a cuidados médicos, caso viessem a desenvolver a doença. O mesmo poderia ser aplicado aos adeptos do movimento anti-vacinas - mas não aos filhos não inoculados que, infelizmente, foram concebidos por pais irresponsáveis. Que muitas vezes são, ainda por cima, cobardes, porque, embora se recusem a vacinar os filhos, eles próprios foram vacinados.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Prisão domiciliária - 10º dia

Receio (ridículo) de, quando a vida voltar ao normal, acabar na rua, com um cartaz (ridículo) a anunciar abraços à borla, aos transeuntes (ridículos) que assim o desejem (ridiculamente).

quinta-feira, 19 de março de 2020

Ontem, o PCP absteve-se na votação do estado de emergência.

É irónico que o mesmo partido que, com este sentido de voto, expressa dúvidas em relação à necessidade de supressão de alguns direitos democráticos, por uma crise de saúde pública sem precedentes, seja aquele que teima em não reconhecer que a Coreia do Norte é uma ditadura. É também irónico que tenha decidido o mesmo que a Iniciativa Liberal (os Verdes não contam).

domingo, 15 de março de 2020

Heebie Jeebies

Segundo reza a história, durante a sessão de gravação, a folha com a partitura do tema escorregou da estante que Louis Armstrong tinha à sua frente. Do outro lado do vidro, o tipo da editora fazia-lhe sinais para que continuasse a cantar (o tempo de estúdio era bastante caro) e Armstrong, naquele aperto, desenrascou a situação trauteando, da mesma forma que estava habituado a ouvir fazer. Foi assim que, durante a gravação deste Heebie Jeebies, nasceu aquilo que veio a ser conhecido como scat.

sábado, 14 de março de 2020

Prisão domiciliária - 3º dia

Os funcionários que, ontem, passaram grande parte do dia a cortar os ramos das árvores, não se fizeram sentir hoje. O ruído incómodo da moto-serra e da máquina que tritura os ramos foi substituído pelo som habitual som dos pássaros, por vezes as ambulâncias ao longe, e os sinos da igreja. Por falar na igreja, numa faixa enorme, colocada por cima da porta, lê-se "turned off". Mais ou menos como eu.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Privilégio do direito

«You have the privilege of strength but I - I have the right of weakness! That's a moral absolute!»

Atlas shrugged, Ayn Rand

terça-feira, 10 de março de 2020

domingo, 8 de março de 2020

sábado, 7 de março de 2020

Para quem está habituado a ter a sua, a ideia de ter de usar máquinas de lavar comunais não é muito confortável:

descer até à cave do prédio, com um saco cheio de roupa, um frasco de detergente e outro de amaciador; carregar a máquina, pô-la a andar; verificar as horas para saber quando vir buscar a trouxa, regressar ao apartamento; terminado o programa, descer novamente à cave para ir buscar a mesma trouxa no mesmo saco. Já para não dizer que, por vezes, é uma espécie de devassa da privacidade.

O outro impedimento que pode perturbar o processo é a possibilidade da utilização dos outros interferir com a nossa. Ou seja, chegar à cave e verificar que as duas máquinas estão a lavar a roupa de outrem. Pior: verificar que uma das máquinas já terminou, mas o dono ainda não veio tirar a respectiva roupa e desimpedir o aparelho. Em situações deste género, os mais experientes, pura e simplesmente, retiram a roupa alheia e tratam da sua vida (estou na categoria dos inexperientes). Aliás, é frequente deixarem os sacos à boca da máquina para, no caso de atrasos, quem está a seguir poder aí depositar o resultado da lavagem e não ficar à espera.

À primeira vista, duas máquinas de lavar para um prédio de quatro andares e quatro apartamentos por piso, pode parecer pouco. Mesmo que os apartamentos sejam, na sua maioria, de utilização individual. Na prática, as vezes que a minha utilização foi restringida pela de outros perfaz a módica quantia de zero. Ou utilizo os aparelhos a contra-ciclo dos outros, ou utilizo pouco os aparelhos (descarto a última hipótese).

Excesso de capacidade instalada, foi o que este exemplo me levou a pensar. A máquina de lavar de minha casa funciona umas horas por semana. Horas. Explorar esta possibilidade é o modelo de negócio das soluções de mobilidade urbana pagas por utilização ou tempo - carros, bicicletas, trotinetes.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Parte uma perna

No momento em que veio despedir-se, de partida para umas férias na montanha para aprender a fazer ski, disse-lhe break a leg. Só depois me apercebi que a expressão idiomática poderia ser interpretada de forma literal.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Um pede o que ninguém quer dar; o outro oferece o que ninguém quer levar.

No caminho pedonal, entre a estação de comboio e o escritório, costuma estar, à direita, um pedinte, sentado no chão, com um cartaz de cartão ao peito, e uma boina na mão, de braço estendido. Dirige-se aos transeuntes em alemão. Certos dias, poucos metros mais à frente, do lado esquerdo, está uma (estranhamente só uma) testemunha de Jeová (masculina), que tenta meter conversa, em inglês. Costuma estar acompanhado de um escaparate repleto de literatura e tem sempre uma publicação na mão, de braço estendido.

segunda-feira, 2 de março de 2020

domingo, 1 de março de 2020

Já faltou mais

Todos os dias à espera para saber se é desta que me dizem para ficar em casa a trabalhar.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Mainzer Landstraße

Há um considerável número de edifícios degradados e uma sujidade que não se vê nas ruas doutras zonas. Aqui, nas imediações da estação central, porta sim, porta não, vêem-se as luzes de neon a anunciar espectáculos de strip, peep shows, lojas de sexo. Em alguns casos, com quartos para aluguer, com as respectivas comodidades descritas à entrada (discrição, casa-de-banho particular, etc). As restantes portas abrem para casas de jogo, onde se pode fazer apostas em todo o tipo de eventos desportivos.

São vários os locais onde o cheiro a mijo é pronunciado. Sem-abrigo encolhem-se a um canto para se proteger do frio, cobertos por trapos ou, mesmo, enfiados em sacos-cama. Outros passam a pente fino os caixotes do lixo, vasculhando avidamente. Por vezes, o cheiro a mijo é substituído pelo da cannabis. Pelo meio da constante e intensa presença policial, estão toxicodependentes a consumir. Há um grupo, em particular, que se junta debaixo de um andaime de um prédio em obras: abrigam-se da chuva enquanto aspiram, com pequenos tubos plásticos, o fumo que resulta de aquecer um pequeno pedaço de papel de alumínio com um isqueiro.

O conjunto de ruas - talvez umas duas paralelas e algumas perpendiculares - está ensanduichado entre a Kaiserstraße, a sul, e a norte, a Mainzer Landstraße, umas maiores avenidas da cidade. Duas faixas para cada lado que, para além de permitir uma deslocação mais rápida do trânsito de este a oeste da cidade, aqui, funcionam também como uma espécie de fronteira: do outro lado desta avenida está o bairro do Westend, um dos mais afluentes da cidade. É sobretudo local de habitação, embora também existam algumas torres de escritórios, sobretudo de actividades financeiras, ao longo da Mainzer. O contraste é gritante: aqui as casas e os prédios arranjados, alguns de traça histórica, por vezes com pequenos jardins, albergam as classes mais privilegiadas.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Neve de pouca dura

Sem dizer água vai, os flocos começaram a cair ao final da tarde. Arruinaram a visita guiada, marcada há uns dias, que envolvia uma componente exterior. Está frio - vá, algum frio - mas não o suficiente: a neve rapidamente derrete no chão escorregadio. Dizem-me que já há vários anos não há um inverno a sério e, de facto, ainda não senti necessidade de andar de luvas e gorro, instrumentos que recordava como altamente indispensáveis, em certas alturas, nem que fosse para andar apenas alguns metros e estar exposto aos elementos por um período bastante curto de tempo. Estão ali no quarto, em cima de um armário.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Lawyer up

A comida processada não teve outra hipótese senão arranjar representação legal.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Endogeneidade

A cebola cortou-se acidentalmente e, acto contínuo, sentiu um ardor nos olhos e começou a lacrimejar.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

O corredor de janelas, dividido por uma varanda, percorre praticamente toda a parede externa.

Está virado sensivelmente a poente, a descair um bocadito no sentido sudoeste. Espreita sobre o interior do quarteirão. Para além das casas, construções de baixa altura, das árvores, há uma espécie de logradouro interior, um local com alguns lugares de estacionamento. Ao fundo, três ou quatro dos arranha-céus mais emblemáticos, preenchem o horizonte. Da confusão de uma das principais artérias rodoviárias, mesmo ali ao lado, apenas aqui chega um apagado som do barulho estridente das ambulâncias ou veículos da polícia. O que se ouve verdadeiramente bem - até demais, diga-se de passagem - são os corvos e, ao sábado à tarde e domingo de manhã, os sinos da igreja um pouco ao lado, a chamar os crentes para a missa. De resto, só se ouve o vento, quando sopra, e o sossego.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Depois de todo este tempo, já não há muita coisa tua.

Coisas mais físicas ou palpáveis; as memórias agarram-se como lapas, com uma viscosidade que demora a descolar. Há uma que sobreviveu e que, apesar de um hiato, tem uma presença recorrente: um album cujos ficheiros mp3 me passaste. Foi transitando de computador em computador e, em momentos em que a colecção de volumes musicais não está disponível (essencialmente, viagens e desterros), tem sempre um espaço reservado. E é curioso como, progressivamente, foi ganhando um distanciamento cada vez maior. Ao ponto de, agora, é como se este conjunto de ficheiros mp3 já fosse meu, num sentido mais lato que este pronome possessivo normalmente tem.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

É inevitável a sensação de déjà vu, salpicada de novidades aqui e ali.

Prédios e construções que não existiam na altura. Alguns que estavam em construção e agora já são maiores e vacinados. Talvez esta seja a maior marca, a que mais facilmente salta à vista. Às vezes, até elementos e pormenores que já existiam e nos quais nunca tinha reparado e agora parecem tão evidentes e quase incontornáveis. Outros que passaram a existir pelas vicissitudes e motivos de forma maior: os vários blocos enormes de cimento, colocados de forma a bloquear a entrada de veículos em zonas pedonais. Mas a maior novidade seguramente advém das coisas mais simples: viver num bairro diferente e trabalhar noutra localização. Esta diferença torna, passo a redundância, tudo diferente.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Self-loathing

«His desire for her had died in the first week of their marriage. What remained was only a need which he was unable to destroy. He had never entered a whorehouse; he thought, at times, that the self-loathing he would experience there could be no worse than what he felt when he was driven to enter his wife’s bedroom.

He would often find her reading a book. She would put it aside, with a white ribbon to mark the pages. When he lay exhausted, his eyes closed, still breathing in gasps, she would turn on the light, pick up the book and continue the reading.

He told himself that he deserved the torture, because he had whished never to touch her again and was unable to maintain his decision. He despised himself for that. He despised a need which now held no shred of joy or meaning, which had become the mere need of a woman’s body, an anonymous body that belonged to a woman whom he had to forget while he held it. He became convinced that the need was depravity.»

Atlas shrugged, Ayn Rand

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

A sabedoria popular é, normalmente, inequívoca.

Não deixa grande margem para dúvidas. Não há, tanto quanto sei, um equivalente a "deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer" que admita a possibilidade de que deitar tarde e acordar tarde possa ser salutar. "Quem ri por último ri (de facto) melhor". E "não adianta (mesmo) chorar sobre leite derramado". Em alguns casos, até há mais do que um provérbio para vincar a mesma ideia. Por exemplo, "quem anda à chuva molha-se" e "quem brinca com o fogo queima-se" (ou molha a cama).

Mas há também os casos estranhos de provérbios que se contradizem: "quem espera sempre alcança" vs "quem espera desespera" e "quem não chora não mama" vs "ovelha que berra, bocado que perde".

Associo-me à indecisão destes dois exemplos; não sou dos que questionam em que é nos ficamos. Quantas vezes é preciso saber esperar pelo momento correcto mas quantas vezes a espera é infrutífera porque o momento nunca vem. E quantas vezes é preciso fazer barulho e partir para a guerra e quantas vezes o tiro sai pela culatra e a emenda é pior que o soneto.

Conseguir equilibrar e atingir a proporção exacta dos dois é a grande dificuldade.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Autismo testosterónico

«É difícil falar com algumas pessoas; a maior parte das vezes com homens. Tenho uma Teoria sobre o assunto. Muitos homens, com a idade, caem num autismo testosterónico que se manifesta no lento desaparecimento da inteligência social e da capacidade de comunicar com outras pessoas, o que também afecta a faculdade de formular pensamento. Acometido por esta Maleita, o Homem torna-se taciturno e parece mergulhar em profunda meditação. Interessa-se mais por diversos Utensílios e maquinetas. Sente-se mais atraído pela Segunda Guerra Mundial e pelas biografias de pessoas conhecidas, particularmente de políticos e malfeitores. A sua capacidade de ler romances desaparece quase completamente; o autismo testosterónico perturba o entendimento psicológico das personagens.»

Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos, Olga Tokarczuk

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

A depressão de final de férias começou lentamente a instalar-se.

Faltava agora apenas o trajecto do Etosha até Windhoek para terminar a viagem. Pelo caminho, tínhamos uma noite no parque de Waterberg. Dos quartos do sopé da estrutura que forma o planalto ouvia-se constantemente os barulhos agressivos dos macacos, que nos obrigavam a ter as portas e janelas constantemente fechadas para evitar invasões e roubos.

Mais perto do final da tarde, depois da hora de maior intensidade do calor passar, fazemos o trajecto de de 30-40 minutos até ao topo do planalto, de cima do qual a vista para não abarcar o horizonte todo. A sessão de fotografias é intensa. À noite, fazemos um churrasco nas instalações do lodge e sentamo-nos a ouvir, pela última vez, as histórias do Gibson. No dia seguinte, pela hora de almoço, estamos de novo no hotel em Windhoek, prontos para as despedidas.

domingo, 26 de janeiro de 2020

Depois de uma primeira tarde de game drive no Etosha desapontante, notava-se alguma apreensão nas caras, quando nos preparávamos para sair.

Pela frente estava um dia totalmente dedicado a ver bicharada no parque, das sete da manhã às seis da tarde, para aproveitar a extensão total do horário de abertura.

A apreensão foi desfeita não muito depois quando nos dirigimos até um aglomerado de veículos. Não sabíamos o que estariam a ver, apenas que certamente seria algo interessante: um conjunto de leões. Sem possibilidade de obter um bom posicionamento – por sermos dos últimos a chegar e pela dimensão do Elefante – optámos por tentar seguir um primeiro subgrupo, que abandonou a sombra da árvore e começou a caminhar.

Lá mais à frente, parados na estrada a ver os leões a afastar-se por terreno sem acesso aos veículos, tivemos a primeira tirada de sorte do dia: as duas leoas que tinham ficado para trás na árvore, levantaram-se e começaram a caminhar em direcção ao resto do grupo, no preciso momento em que estávamos parados entre os dois grupos. Lentamente, languidamente, vieram na nossa direcção, passaram mesmo ao lado do Elefante, uma deitou-se à sombra do veículo, até novamente se levantar e se afastar. Com isto, tivemos todo o tempo para apreciar e tirar uma dose industrial de fotografias, tentando que a excitação do momento não fizesse esquecer as instruções do Gibson de não pôr os braços de fora das janelas do camião.

O momento alto (mais ainda) viria ao início da tarde, quando avistámos uma chita com duas crias, abrigados à exígua sombra de uma árvore. Permanecemos parados algum tempo, a tentar observar por entra aquilo que a vegetação nos deixava ver. Até que o barulho de uma máquina, que passou no sentido contrário, foi a última gota: assustadas, as crias levantaram-se e começaram a afastar-se da mãe. Se, por um lado, perdemos a possibilidade de ver durante mais tempos os animais, por outro lado conseguimos vê-los sem a barreira da árvore e dos ramos.

A terminar o dia, uma manada de elefantes aproxima-se de um charco. Começam por beber, à beira da água. Após satisfazer a sede, vão progressivamente entrando na água, aproveitando para arrefecer o corpo do calor implacável. Cresce-nos um sorriso na cara enquanto os vemos salpicar água pelo corpo com a tromba.

sábado, 25 de janeiro de 2020

O dono do lodge – um afrikaanse magro e grisalho – sobe as escadas do Elefante e dá-nos algumas informações.

Explica-nos que os quartos ficam naturalmente muito quentes quando estão fechados e que não há ar-condicionado. Para dormir, podemos abrir todas as janelas à vontade, nenhum animal vai entrar e não há mosquitos. É como se estivéssemos a dormir ao relento. É recebido com algum cepticismo. Mas, claro, resolvemos testar.

Cada quarto é como uma pequena habitação individual, separado alguns metros dos restantes. A parede onde fica a porta, e onde estão as camas, é a única que não tem janela. À direita das camas, um janelão abre de cima a baixo, a quase totalidade da largura do quarto, para um pequeno terraço, com uma mesa e cadeiras cheias de pó. De frente para as camas, outra parede que é também praticamente só vidro. Finalmente, a parede do fundo tem duas pequenas janelas, entre as divisões que têm o chuveiro e a sanita. No meio das janelas está um lavatório.

Tal como nos havia sido dito, as zebras começam a aparecer ao lusco-fusco, lá ao fundo. Aproximam-se lentamente, dão alguns passos na direcção do buraco de água e param. Esperam um pouco, avaliam a situação, até voltar a ganhar coragem para dar mais outros passos e parar novamente. Sentamo-nos a ver esta aproximação. Torço para que se despachem, é cada vez mais difícil tirar fotografias à medida que a luz vai desaparecendo. Ao mesmo tempo, um cão pequenito e velhote, constantemente a arfar e com uma espécie de carraças a percorrer o lombo, dá voltas consecutivas à propriedade. Surge sempre pela mesma janela da zona do bar e segue pela direita para, passado um pouco, aparecer novamente pela mesma janela, como se estivesse preso numa espécie de Groundhog Day de frequência superior à diária.

Sentamo-nos no terraço a ver as estrelas e as zebras a beber água lá à frente. Embora houvesse um em praticamente todas as camas que passamos, esta foi a única vez na viagem que usei um edredon. Soube bem voltar a dormir tapado. De manhã vemos o nascer do sol.

O dia começa muito cedo, pelas 6h saímos em direcção à Sossusvlei, por forma a evitar a hora de maior calor.

Ironia do destino, acabamos por perder tempo precioso: o Elefante foi vítima de um furo. Quando passámos o portão que dá acesso ao parque, já deveria passar das 11h. A longa e direita estrada corta por uma paisagem de elevações enormes de areia de um cor-de-laranja forte e carregado, que contrasta fortemente com o azul do céu.

A certa altura, a estrada é tomada pela areia e é necessário deixar os veículos num parque, a alguma distância, e apanhar um dos jeeps. A fila de turistas à espera é relativamente grande. Aliás, de todas as atracções turísticas, esta foi a mais concorrida. Esperamos ainda alguns minutos até finalmente ser conduzidos.

À nossa frente está o Big Daddy, uma duna com sensivelmente 325 metros de altura. A estrutura é impressionante: começa do lado direito, por uma pequena elevação, que decai um pouco passados alguns metros, perpendicularmente face ao nosso olhar; depois volta a subir novamente, faz uma viragem à direita quando já está à esquerda do nosso olhar, e continua ininterruptamente até mesmo lá em cima, ao topo, quase a perder de vista.

A maior parte dos aventureiros começa exactamente pelo lado direito, apanhando uma cumeada que percorre todo aquele trajecto. Gibson não considera essa estratégia avisada: segundo ele, são muitos os que, depois de fazer a pequena descida após a primeira elevação, desmoralizam quando vêem a segunda subida, bem mais longa e íngreme. Para evitar este problema, seguimo-lo pelo vale até chegar perto ao local onde a duna atinge o ponto mais baixo, após a primeira elevação. Aí, subimos a face da duna, a parte mais dura de todo o processo, até atingir a cumeada. A partir daí, não tem nada que saber, é sempre a subir. Uma vez chegado ao cume, é preciso fazer alguma ginástica para alcançar os melhores locais, contornado os restantes que ali apreciam a vista e aproveitam o ar mais fresco e a brisa ligeira.

A parte mais curiosa é a descida. Vemos o Gibson sair disparado pela face da duna até chegar ao vale. Resolvemos lançar-nos também com velocidade. Os pés enterram-se na areia áspera, que evita que percamos o balanço e caiamos a face inclinada. Com o movimento, os pés soltam um som grave, que já havíamos ouvido no topo da duna, mas que não percebíamos donde vinha. Quase apetece fazer o esforço de subir novamente para repetir a descida. Uma vez no vale, descalçamo-nos e sacudidos violentamente os ténis para tirar os quilos de areia. Semanas depois, já em Lisboa, ainda descobri areia nos ténis.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Uns minutos depois da pequena casa que serve de recepção, começamos a ver o lodge ao fundo do caminho de terra, na encosta de um pequeno monte rochoso.

São apenas seis quartos e, no meio, uma divisão comum, com uma cozinha, uma mesa comprida e sofás. Em frente a esta divisão comum, a piscina da praxe, virada para o buraco da praxe, a fazer de chamariz para os animais da praxe. Claro está, não há internet nem televisores mas, mais do que isso, nem sequer rede de telemóvel. Numa das noites, a electricidade falha e complica a vida ao grupo de funcionários que ali se deslocou para nos preparar o jantar.

Este foi o momento de ripanço da viagem, sensivelmente a meio dos 16 dias. No final do dia em que chegámos, caminhámos até ao topo do monte ao lado, para ver o pôr-do-sol e lutámos um pouco na descida escorregadia e pouco iluminada. No dia seguinte, saímos de manhã cedo para um passeio, antes do sol se tornar ainda mais impiedoso. A meio da manhã estávamos de regresso para o pequeno-almoço. À noite, depois de jantar, deitámo-nos na espreguiçadeira a contemplar o céu estrelado e a contar as estrelas cadentes.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Parece o cenário de um filme, um pequeno casario espalhado no meio da areia.

Por momentos, leva-me até aos estúdios de cinema que se podem visitar em Marrocos. Mas, contrariamente a essas localidades fictícias que só tiveram existência em filmes, Kolmanskop foi efectivamente, a determinada altura, uma povoação. Fundada no início do século passado, esteve associada à exploração de diamantes no deserto. Após a segunda guerra mundial, a progressiva escassez de diamantes levou a que fosse trocada e abandonada por outros locais onde, entretanto, foram descobertos minérios.

Hoje, a cidade-fantasma a poucos quilómetros da costa é uma atracção turística. Guias exprimindo-se em inglês, alemão e afrikaanse, conduzem rebanhos de turistas pelas antigas construções. Começando no salão de baile – onde o guia de língua inglesa nos mostra a acústica com uma interpretação do “Aleluia”, versão Jeff Buckley, e tocando piano – passamos pelo hospital, pela loja, pela casa do engenheiro, do médico, do governador, entre outros. Para um povoado que contou com algumas centenas de habitantes, há um conjunto de equipamentos relativamente impressionantes, a começar pela máquina de gelo e a pista de bowling, e terminando na máquina de raio-X, a primeira no hemisfério sul.

Pouco tempo antes de ali estarmos, o local foi utilizado para uma sessão fotográfica de moda. A particularidade do local tem atraído, ao longo do tempo, a atenção de fotógrafos e não só. A mais recente alusão ao local é a imagem da capa do álbum Slow Rush dos Tame Impala, cuja divulgação está agendada para o próximo mês.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

O dia seguinte traz-nos uma das deslocações mais longas.

São quase 600 quilómetros de estrada, por vezes duvidosa, até perto da fronteira com a África do Sul. Estamos em pleno deserto do Kalahari que, como ficamos a saber, afinal é apenas um semi-deserto, já que o nível de pluviosidade é um pouco superior ao dos desertos a sério. Até nos desertos há discriminação.

Fazemos um pequeno passeio até ao topo de uma elevação, onde foi instalada uma plataforma de observação. Dali vemos o pôr-do-sol, bombardeados pelo vento que, lá em baixo, faz pequenos tornados, de curta duração, com o pó. Descemos e aproveitamos a pequena piscina, de água um pouco salgada do (semi-)deserto, virada para o buraco de água onde os springboks e os órix abastecem. Não o sabemos ainda nesta fase, mas a piscina virada para o chamariz dos animais vai ser uma constante desta viagem. À noite, bebemos chá rooibos nas cadeiras da rua, a partilhar um cigarro, repletos de repelente de mosquitos.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Gibson chama Elefante ao camião.

Parece um daqueles camiões de abastecimento dos supermercados com a diferença de, onde normalmente está a caixa frigorífica onde vão os alimentos, foi colocada uma vintena de bancos. As janelas do veículo são enormes o que, aliado à própria altura, torna o veículo num óptimo posto de observação.

Ao fundo, há um conjunto de cacifos onde guardamos os sacos de viagem e um frigorífico que mantém a nossa água e alimentos frescos enquanto o motor está a funcionar. A entrada faz-se por uma porta que, quando abre, desdobra umas escadas metálicas, ao estilo dos aviões. De lado, o Elefante tem ainda um conjunto de estruturas amovíveis, que abrem utensílios para fazer e servir refeições.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

A visita a Windhoek é necessariamente curta:

a cidade é pequena e não tem propriamente muitos pontos de interesse turístico. Para além de Gibson, o guia com nome de guitarra que andará connosco 15 dias, somos acompanhados por um guia local, um miúdo novo que, se bem me lembro, tinha acabado um curso superior em marketing.
This is my brother from another mother
Assim o apresenta Gibson, uma frase de antologia que vamos ouvir (e dizer) inúmeras vezes ao longo dos tais 15 dias.

Depois de uma visita ao museu que conta a história do colonização e independência da Namíbia, somos conduzidos até à township de Katutura. Gibson pára o camião à beira de uma pequena encosta e o guia novo enfia-se pela abertura entre a cabine do camião e a caixa onde estamos para falar connosco mais facilmente
This is where people come when nature calls
E aí percebo que aquilo que vejo são pedaços de papel higiénico que abanam ao sabor do vento. E ele sabe bem do que fala, ele próprio é de Katutura e já usou estas instalações.

Uma canalha de miúdos vê os turistas dentro do camião e tenta interagir. Não temos, porém, autorização para sair da fortaleza sobre rodas por razões de segurança (you never know). Ainda não tivemos o primeiro game drive e parece que já estamos a ver animais num parque.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Cinco horas

Fez uns meses de tropa na Suíça, um dos poucos países europeus onde ainda é obrigatório. Por curiosidade, perguntei-lhe o que é um dia típico de recruta. De tudo o que me explicou - dos exercícios físicos, dos treinos, das aulas, de fazer a cama e lavar pratos - só uma coisa me fez verdadeiramente arregalar os olhos: a hora de recolher era a meia-noite e a alvorada era às 5 da manhã. We were constantly sleep deprived, acrescentou.

sábado, 18 de janeiro de 2020

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Spiel mit mir

Um conjunto de lençóis não é a primeira coisa que vem à cabeça a propósito da expressão "jogo de cama".

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Regras

«To grow up is to realize the extent to which your existence has been governed by systems of rules, vague guidelines, and increasingly insupportable norms that have been imposed on you without your consent and are subject to change at a moment's notice. There were even some rules that you'd only find out about after you'd violated them.»

Permanent record, Edward Snowden

domingo, 12 de janeiro de 2020

The enemy within

Os intolerantes à lactose esperam que a tecnologia lhes permita viajar para fora da Via Láctea.

sábado, 11 de janeiro de 2020

The proof of the pudding

«A datação através de carbono 14 torna improvável que o Sudário [de Turim] tenha dois mil anos. Ainda bem que é assim, porque o catolicismo viveu demasiado tempo ligado a relíquias, fetichismos. Quem quer acreditar que houve um homem que foi martirizado, morreu, esteve sepultado e ressuscitou, deve acreditar sem provas materiais. A fé dispensa provas.»

Imagens imaginadas, Pedro Mexia