Bacalhau com todos é um prato que fica entre o promíscuo e a suruba.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2021
domingo, 26 de dezembro de 2021
O casal vinha à minha frente, caminhava pelo passeio da Avenida da República.
Ela do lado esquerdo, ele do lado direito. Quando me aproximei, em passo de corrida, para os ultrapassar, reparei no tubo de borracha, meio azulada, entre os dois, separados por cerca de metro, metro e meio. Ao passar ao lado dela, um relance confirmou a minha suspeita: era o tubo de uma algália, o saco estava dentro da mala que ela levava ao ombro. O contraste: por um lado, o saco escondido dentro de uma mala, para que não se visse o conteúdo; por outro lado, a despreocupação com o tubo exposto.
quarta-feira, 17 de novembro de 2021
A reciclagem de vidro é uma actividade que gera um elevado trauma.
Acho sempre que os meus vizinhos vão pensar que tenho um problema com alcool quando oiço o barulho estridente das garrafas a cair no interior do vidrão do prédio.
quarta-feira, 10 de novembro de 2021
Dirijo-me ao segurança, como todos as manhãs, à entrada.
Está a atender uma pessoa à minha frente e demora algum tempo. Quando finalmente chega à minha vez, começa por apontar o aparelho ao pulso direito, que lhe estendo de imediato, ainda antes de dizer "bom dia". Que a leitura não saia à primeira, é já algo a que estou habituado, por isso não estranho que vá percorrendo diversas zonas do pulso, enquando carrega no botão. Nem sequer é incomum que, após meia dúzia de tentativas frustradas, me peça para medir a temperatura na testa. Acedo ao pedido e, com alguma vergonha, afasto desajeitadamente a minha franja Justin Bieberesca da testa.
O processo transforma-se oficialmente num problema quando nem literalmente de arma apontada à cabeça o meu corpo resolve fornecer uma temperatura. Aos poucos, a atrapalhação do segurança cresce e ultrapassa a minha. Em desespero de causa, pede-me para medir no pulso esquerdo, pode ser que resulte aí: está-se mesmo a ver que não resultar e, de facto, não resulta.
Com isto, formou-se uma longa fila atrás de mim, que se prolonga até à porta. Pede-me para esperar um pouco enquanto testa a máquina nas restantes pessoas que, uma a seguir à outra, são rapidamente processadas, sem nenhum problema. Observo, desconsolado, a facilidade com a que máquina lê outros pulsos e testas, crescentemente convencido de que o problema sou eu. Após ter varrido toda a fila e as pessoas terem ido à sua vida, volta a mim. Tenta novamente e, novamente, não tem sucesso.
Estamos numa encruzilhada: a ausência de uma temperatura que permita tomar uma decisão sobre a minha entrada é um vazio legal não previsto no protocolo. Não faz ideia como agir nestes casos. Pega no telefone e liga a quem de direito para saber o que fazer. A instrução é para me deixar entrar: segundo o informam, devo estar "demasiado frio" para que o aparelho possa fazer o seu trabalho em condições. Entro a matutar na frieza deste comentário.
terça-feira, 9 de novembro de 2021
It's all in the reflexes
O impacto da digitalização e robotização no mercado laboral não é uma discussão recente. O espectro de profissões que podem vir a ser afectadas é bastante alargado mas há algumas, tais como os condutores de camiões, que são consideradas quase como casos paradigmáticos. Os progressos no desenvolvimento de tecnologias de condução automática passaram a ser uma espécie de espada de Dâmocles que paira sobre a cabeça dos profissionais do sector.
Por isso é que os mais recentes relatos de escassez de condutores de camiões têm alguma piada. Primeiro foi no Reino Unido, relacionado com as dificuldades de obtenção de visto de mão-de-obra estrangeira. Mais recentemente, nos EUA, onde muitos trabalhadores do sector (assim como de outros, tais como a resturação e hotelaria) decidiram abandonar os empregos duros, fisicamente exigentes, que em alguns casos causam disrupção na vida pessoal e familiar e, ainda para mais, não fantasticamente bem pagos.
The biggest kink in America's supply chain: not enough truckers
segunda-feira, 8 de novembro de 2021
In loco
Dar conselhos sobre saúde mental nas redes sociais é como alertar para as alterações climáticas numa central termoeléctrica.
domingo, 7 de novembro de 2021
Tell me why
«Que importância tem que eu acredite ou não? Escolhi este caminho, sinto-me útil! Que interesse tem saber se faço isso com sinceridade ou não? Faço alguma coisa, estou ao serviço de uma...[causa]»
Cevdet Bei e os seus filhos, Orhan Pamuk
sexta-feira, 29 de outubro de 2021
segunda-feira, 25 de outubro de 2021
Não me lembro da última vez que me pediram fotos de tipo passe.
Os modernos cartões de identificação dispensam-nas e, fora uma ou outra vez que me sentei num fotomaton a fazer caretas para o aparelho, não me ocorre mais nenhuma utilidade para as mesmas.
Acontece que, recentemente, necessitei desse tipo de fotografias. E, pasme-se, para um documento oficial. Acto contínuo googlei onde as poderia fazer e descobri que as lojas da Fotosport ainda prestam o serviço. Sentando num banco alto, costas direitas a pedido da funcionária, olhei, de sorriso amarelo, para a máquina fotográfica à minha frente, qual índio que sente a alma a ser capturada pelo obturador.
O resultado, cerca de 10 minutos depois, foi um envelope com um conjunto de fotos da dimensão pretendida, assim como uma maior, aparentemente oferta.
Em miúdo, sempre que fazia fotos de tipo passe, a minha avó pedia-me uma da colecção para guardar. Eu fazia sempre o figurão de lhe dar esta foto maior, não necessária para o propósito que me levava ao fotógrafo, mas de grande utilidade para a questão familiar.
terça-feira, 19 de outubro de 2021
Francamente
Cada um é como cada qual, mas parece-me que expressões como "é o que é" valem o que valem. E essa é que é essa.
terça-feira, 12 de outubro de 2021
domingo, 10 de outubro de 2021
sexta-feira, 8 de outubro de 2021
terça-feira, 5 de outubro de 2021
A leste
A certa altura, o comentador disse "o importante é que a equipa do Porto não perca o norte". Por um momento, julguei ter ouvido um "n" maiúsculo na última palavra.
quinta-feira, 30 de setembro de 2021
A blackfriar walks into a whitechapel #8
O sentimento de nostalgia pré-regresso começou progressivamente a instalar-se. Não limitou os planos de última hora: no últimos sábado, fizemos de tudo quase um pouco, incluindo mercados, parque, fish and chips, jazz e sing along. No dia seguinte, o despertador tocou relativamente cedo. Arrumámos as últimas coisas e preparámos a casa para os nossos anfitriões, já ausentes de nossa casa, e prestes a embarcar para regressar a casa, a partir de Itália.
terça-feira, 28 de setembro de 2021
A blackfriar walks into a whitechapel #7
As ruas do Soho estavam repletas de mesas a ocupar o asfalto, onde gente descontraída conversava, enquanto bebia. Galgámos, em passo estugado, as centenas de metros de distância a que o Uber (ou Free Now ou Bolt) teve de nos deixar, devido a um trajecto temporariamente bloqueado. Já passava das 17h30 a que as portas abriam e os lugares não eram marcados, apenas a zona dos bilhetes era pré-definida. A hora não era a melhor, mas a segunda sessão da noite, assim como as datas de sábado, já só tinham zonas de visibilidade reduzida disponíveis. Foi assim que decidimos optar por esta solução de final de tarde de 6a feira, cientes de que seguramente iria envolver uma correria para conseguir despachar o trabalho e sair a tempo de navegar na hora de ponta.
Pela segunda vez, dei por mim na fila para entrar no Ronnie Scott's. Desta vez para o espectáculo principal: da primeira vez, estive no espectáculo de menos destaque, que tem lugar no "upstairs". Dei o meu nome ao recepcionista e uma funcionária levou-nos às cabines disponíveis para sentar. Ficámos do lado direito do palco e aproveitámos para pedir jantar de imediato e evitar fazê-lo depois da música começar.
O espectáculo em causa foi escolhido em função das datas em que estaríamos em Londres e não - sem qualquer desprimor, mais uma consequência de ignorância - porque conhecesse os artistas em causa. Enfim, em boa verdade, resultou de uma busca online dentre as várias alternativas existentes: a possibilidade de ver uma banda homenagem a Jimi Hendrix é sempre difícil de descartar.
E depois há as características da banda, que só se tornam possíveis num local destes. Uma big band que, para além do guitarrista, líder da banda, de um teclista e da secção rítmica, tem três naipes de sopros, de quatro elementos cada: saxofones (barítono, tenor e alto), trompetes e trombone de varas. Ou seja, um total de 16 (sim, dezasseis) músicos em palco. Esta não é uma formação típica de bar de jazz, pelo menos aqueles que associamos a caves pequenas e escuras; em alguns, nem caberiam no palco. É necessário uma audiência grande e bem pagante, com jantar incluido, e duas sessões por noite, para que uma formação do género possa ser rentável.
Ou seja, dito de outra forma: entre bilhetes e jantar, gastámos uma pipa de massa. Mas valeu bem a pena. O concerto arrancou com o Ain't no telling (primeiro vídeo abaixo), que me pôs de imediato a cantar e, no final, a responder à pergunta "quem sabe o nome desta música?", o que mereceu um gesto de aprovação do saxofonista alto. Depois disso foi uma enxurrada de temas de Hendrix, com óptimos arranjos, que deram uso e exploraram os inúmeros recursos que uma formação destas permite. Passado umas duas horas, regressámos à movimentadas ruas do Soho com uma barrigada que era mais de groove do que do jantar em si.
(o segundo vídeo é de uma gravação de um espectáculo feito no início do ano, sem público, durante o confinamento)
quinta-feira, 23 de setembro de 2021
A blackfriar walks into a whitechapel #6
Ao passar a porta do prédio para a rua, de manhã, o céu ainda estava encoberto. Corria um ventilo matinal, que justificava uma camisola fina. Algumas horas depois, quando saí das entranhas da terra, depois da visita aos Cabinet War Rooms, fui recebido por um céu azul e um calor abafado pouco condizentes com a latitude.
Caminhei por entre pessoas vestidas com equipamento de desporto e dorsais: aparentemente, tinha acabado uma qualquer prova de desporto. Perto de Westminster, apanhei um autocarro até ao Marble Arch, a poucos passos do Speaker's Corner do Hyde Park, onde fiquei a observar (à sombra e à distância, claro está) os oradores e a interacção acesa que mantiveram com alguns dos espectadores.
No local onde tínhamos uma mesa reservada para um sunday roast, pedimos para ficar dentro em vez de na esplanada, à beira canal. De barriga cheia, seguimos para o Tate Modern, aproveitando para tirar fotos na Millennium Bridge. A visita ao museu durou pouco, chegámos perto da hora de encerramento. Dali, resolvemos caminhar ao longo da margem do Tamisa, até chegar à Torre Bridge, onde uma multidão aproveitava o fim do dia.
terça-feira, 21 de setembro de 2021
A blackfriar walks into a whitechapel #5
domingo, 19 de setembro de 2021
A blackfriar walks into a whitechapel #4
A Covid morreu. Poderia ser o lema, o mote dos britânicos, a fazer lembrar a célebre frase de Nietzsche. Ou pelo menos assim parece: há poucas pessoas a usar máscara em locais públicos, mesmo que fechados. Por exemplo, nos transportes públicos, nas lojas e supermercados, no cinema, nos espectáculos. Contrastamos de tal forma que, por vezes, sentimo-nos extra-terrestres de máscara posta. Apenas uma vez - para ver um concerto no Royal Albert Hall - nos foi exigido o certificado de vacinação.
É difícil conceber, tendo em conta o elevado número de casos diários de infeção e que os níveis de vacinação já não parecem assim tão impressionantes. Ainda para mais, a experiência de Israel - a candeia que alumia duas vezes ou canary in the coal mine - já havia exemplificado como 60-70% de pessoas totalmente vacinadas não impede o surgimento de surtos.
No regresso a Lisboa - onde a percentagem de pessoas vacinadas é mais elevada e o número de infeções muito mais baixo -, dou por mim a andar na rua sem máscara e - uma vez mais, pelo contraste - a sentir a pressão social de a pôr.
sábado, 18 de setembro de 2021
A blackfriar walks into a whitechapel #3
É importante não tirar férias: trabalhar, mesmo que seja à distância, torna a experiência mais interessante. E, acaso seja possível usar este termo neste circunstância, até mesmo autêntica, na medida em que permite afastar, em certa medida, a percepção de turismo. E, dessa forma, contribui para gerar a ideia (ilusão?) de que somos residentes da cidade. É certo que programamos os fins de dia de semana e os fins-de-semana ao milímetro, para aproveitar todos os bocadinhos de tempo disponível, de uma forma que não faríamos se fossemos verdadeiramente locais - não seria necessária esta correria, esta ânsia. Nem a carteira aguentaria tamanho rombo, entre restaurantes, bilhetes de museus, espectáculos, concertos. O resultado final fica algures entre ser um local e um turista.
