sexta-feira, 29 de abril de 2016
terça-feira, 26 de abril de 2016
CCB mostrou-nos que oitenta concertos é quanto basta para dar a volta ao mundo.
(Publicado originalmente aqui)
A premissa dos “Dias da música em Belém” do CCB deste ano, que tiveram lugar entre os dias 22 e 24 de Abril, partiu de uma das mais emblemáticas obras da literatura do século XIX: “A volta ao mundo em oitenta dias” da autoria de Júlio Verne. O CCB propôs-se emular a mítica viagem do fleumático britânico Phileas Fogg e do seu carismático criado francês Passepartout. Mas, em vez de o fazer literalmente e com o recurso aos transportes disponíveis à altura, o CCB presenteou-nos, ao invés, com oitenta concertos de música dos mais variados locais, cantos e recantos do mundo, tocados pelos cerca de 1700 músicos que pisaram os palcos do centro.
E, de facto, a enorme diversidade dos concertos atesta ao carácter eclético que se pretendeu imprimir a este acontecimento musical, qual pequena aldeia global musical a decorrer num fim-de-semana lisboeta. A título de exemplo, às 15h de sábado encontravam-se a decorrer, em simultâneo: a sinfonia Escocesa de Mendelssohn interpretada pela Orquestra XXI, música de Nova Orleães tocada pelos Desbundixie e, nas salas de menor dimensão, música de inspiração grega, israelo-palestiniana, da Guiné-Bissau, bem como uma sessão dedicada à latinidade, com temas de, entre outros, Carlos Paredes, Pedro Jóia e Paco de Lucía.
Nestas circunstâncias, o mais difícil é, por vezes, navegar pelo programa e fazer escolhas. Os concertos de abertura e de encerramento são as poucas excepções que não obrigam a escolher. O primeiro teve lugar na 6a feira à noite e contou com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, sob a direcção de Pedro Amaral, que interpretou Debussy, Manuel de Falla e a Scheherazade de Rimsky-Korsakov. No domingo à noite, o concerto de encerramento intitulado “A viagem de Phileas Fogg” fez uma última homenagem àquele herói, com um alinhamento que incluiu obras de Verdi, Puccini e Copland, entre outros.
Dentre as sessões mais relevantes, destacam-se a dedicada à Rússia Imperial da Orquestra Sinfónica Portuguesa, acompanhada pela violinista Tatiana Samouil e pelo Coro do Teatro Nacional de São Carlos, assim como o concerto para mão esquerda de Ravel, com Frédéric Chaslin a interpretar ao piano e, em simultâneo, a dirigir a Orquestra Gulbenkian. No final, Chaslin convidou o público a acompanhá-lo enquanto tocou o Bohemian Rapsody dos Queen.
Júlio Verne foi o autor que mais li na minha infância, um interesse cultivado pelos meus avós que me ofereceram a quase totalidade da obra do escritor francês. É certo que não folheio uma página desses livros há décadas mas ainda hoje têm assento numa prateleira dedicada cá em casa. E, sobretudo, o escritor ficou para sempre associado ao meu imaginário juvenil, com as suas histórias de feitos e peripécias improváveis e aventuras corajosas.
De certa forma, a viagem ao mundo em oitenta concertos dos “Dias da música em Belém” enquadra-se naquele espírito. E, à semelhança de Fogg que decidiu levar a cabo a sua viagem motivado por uma aposta de vinte de mil libras, também a Direcção do CCB fez aquilo que considerou de uma “aposta arriscada” ao deixar o Grande Auditório, na tarde de sábado e num total de quatro concertos, a cargo de um conjunto de jovens formações: a OJ.Com, a Jovem Orquestra Portuguesa e a Orquestra XXI. Apesar de um possível menor efeito de atracção destas formações – bem como de maestros jovens – junto do público face a outras mais conceituadas, entregar-lhes as chaves do Grande Auditório com o intuito de promover o futuro da música portuguesa foi uma aposta considerada ganha.
E nem assim a organização do evento se ressentiu. No que toca a números, a taxa de ocupação situou-se perto daquela verificada no ano passado e com um incremento da oferta de concertos – 63 em 2015 face aos tais 80 deste ano. Para além disso, e a somar às tradicionais actividades destinadas a fazer chegar a música aos mais novos, a edição deste ano teve também a novidade de um conjunto de espectátulos de dança. A sala Júlio Verne esteve dedicada a ritmos africanos e latinos, na noite de 6a feira, assim como nas tardes de sábado e domingo. Por tudo isto, a organização faz um balanço bastante positivo desta edição dos “Dias da música em Belém”, naquele que é um dos momentos mais importantes da programação anual do CCB.
Em relação ao futuro, a Direcção do CCB levantou um pouco do véu do que serão as linhas orientadoras do festival em 2017. O tema será “Letras da Música” e o objectivo será explorar a relação entre a literatura e a música. Uma das iniciativas pensadas será lançar o desafio a alguns escritores para serem programadores, o que poderá começar com ex-directores da casa. Neste contexto, a organização tem em vista as suites de violoncelo para Bach, obra particularmente apreciada por Vasco Graça Moura.
É pretendido também alargar o espectro da programação com a inclusão da ópera, embora, neste caso, a opção deverá recair sobre árias e não obras completas. Por um lado, porque a duração de uma ópera não se coaduna com o formato de 45 a 50 minutos pretendido, embora tal não seja de excluir, por exemplo, como concerto de encerramento. Por outro lado, há a questão mais prosaica mas igualmente importante do relevo orçamental que a ópera implicaria – fica lançado o repto aos patrocinadores.
A premissa dos “Dias da música em Belém” do CCB deste ano, que tiveram lugar entre os dias 22 e 24 de Abril, partiu de uma das mais emblemáticas obras da literatura do século XIX: “A volta ao mundo em oitenta dias” da autoria de Júlio Verne. O CCB propôs-se emular a mítica viagem do fleumático britânico Phileas Fogg e do seu carismático criado francês Passepartout. Mas, em vez de o fazer literalmente e com o recurso aos transportes disponíveis à altura, o CCB presenteou-nos, ao invés, com oitenta concertos de música dos mais variados locais, cantos e recantos do mundo, tocados pelos cerca de 1700 músicos que pisaram os palcos do centro.
E, de facto, a enorme diversidade dos concertos atesta ao carácter eclético que se pretendeu imprimir a este acontecimento musical, qual pequena aldeia global musical a decorrer num fim-de-semana lisboeta. A título de exemplo, às 15h de sábado encontravam-se a decorrer, em simultâneo: a sinfonia Escocesa de Mendelssohn interpretada pela Orquestra XXI, música de Nova Orleães tocada pelos Desbundixie e, nas salas de menor dimensão, música de inspiração grega, israelo-palestiniana, da Guiné-Bissau, bem como uma sessão dedicada à latinidade, com temas de, entre outros, Carlos Paredes, Pedro Jóia e Paco de Lucía.
Nestas circunstâncias, o mais difícil é, por vezes, navegar pelo programa e fazer escolhas. Os concertos de abertura e de encerramento são as poucas excepções que não obrigam a escolher. O primeiro teve lugar na 6a feira à noite e contou com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, sob a direcção de Pedro Amaral, que interpretou Debussy, Manuel de Falla e a Scheherazade de Rimsky-Korsakov. No domingo à noite, o concerto de encerramento intitulado “A viagem de Phileas Fogg” fez uma última homenagem àquele herói, com um alinhamento que incluiu obras de Verdi, Puccini e Copland, entre outros.
Dentre as sessões mais relevantes, destacam-se a dedicada à Rússia Imperial da Orquestra Sinfónica Portuguesa, acompanhada pela violinista Tatiana Samouil e pelo Coro do Teatro Nacional de São Carlos, assim como o concerto para mão esquerda de Ravel, com Frédéric Chaslin a interpretar ao piano e, em simultâneo, a dirigir a Orquestra Gulbenkian. No final, Chaslin convidou o público a acompanhá-lo enquanto tocou o Bohemian Rapsody dos Queen.
Júlio Verne foi o autor que mais li na minha infância, um interesse cultivado pelos meus avós que me ofereceram a quase totalidade da obra do escritor francês. É certo que não folheio uma página desses livros há décadas mas ainda hoje têm assento numa prateleira dedicada cá em casa. E, sobretudo, o escritor ficou para sempre associado ao meu imaginário juvenil, com as suas histórias de feitos e peripécias improváveis e aventuras corajosas.
De certa forma, a viagem ao mundo em oitenta concertos dos “Dias da música em Belém” enquadra-se naquele espírito. E, à semelhança de Fogg que decidiu levar a cabo a sua viagem motivado por uma aposta de vinte de mil libras, também a Direcção do CCB fez aquilo que considerou de uma “aposta arriscada” ao deixar o Grande Auditório, na tarde de sábado e num total de quatro concertos, a cargo de um conjunto de jovens formações: a OJ.Com, a Jovem Orquestra Portuguesa e a Orquestra XXI. Apesar de um possível menor efeito de atracção destas formações – bem como de maestros jovens – junto do público face a outras mais conceituadas, entregar-lhes as chaves do Grande Auditório com o intuito de promover o futuro da música portuguesa foi uma aposta considerada ganha.
E nem assim a organização do evento se ressentiu. No que toca a números, a taxa de ocupação situou-se perto daquela verificada no ano passado e com um incremento da oferta de concertos – 63 em 2015 face aos tais 80 deste ano. Para além disso, e a somar às tradicionais actividades destinadas a fazer chegar a música aos mais novos, a edição deste ano teve também a novidade de um conjunto de espectátulos de dança. A sala Júlio Verne esteve dedicada a ritmos africanos e latinos, na noite de 6a feira, assim como nas tardes de sábado e domingo. Por tudo isto, a organização faz um balanço bastante positivo desta edição dos “Dias da música em Belém”, naquele que é um dos momentos mais importantes da programação anual do CCB.
Em relação ao futuro, a Direcção do CCB levantou um pouco do véu do que serão as linhas orientadoras do festival em 2017. O tema será “Letras da Música” e o objectivo será explorar a relação entre a literatura e a música. Uma das iniciativas pensadas será lançar o desafio a alguns escritores para serem programadores, o que poderá começar com ex-directores da casa. Neste contexto, a organização tem em vista as suites de violoncelo para Bach, obra particularmente apreciada por Vasco Graça Moura.
É pretendido também alargar o espectro da programação com a inclusão da ópera, embora, neste caso, a opção deverá recair sobre árias e não obras completas. Por um lado, porque a duração de uma ópera não se coaduna com o formato de 45 a 50 minutos pretendido, embora tal não seja de excluir, por exemplo, como concerto de encerramento. Por outro lado, há a questão mais prosaica mas igualmente importante do relevo orçamental que a ópera implicaria – fica lançado o repto aos patrocinadores.
segunda-feira, 25 de abril de 2016
Finger in the dyke
A história é a de um rapaz holandês que descobre um buraco num dos diques que protege o seu país do mar; o rapaz passa a noite com o dedo no buraco para evitar a fuga de água e a consequente inundação. É usada para descrever situações em que uma pequena acção pode evitar males maiores ou, de uma forma mais negativa, acções que visam minimizar as consequências de um dado problema sem, no entanto, lidar com as causas. Mais recentemente foi apropriada pelo anterior presidente da Fed americana para descrever algumas formas de actuação da instituição.
A mim ocorre-me que daria um óptimo título para um filme porno.
A mim ocorre-me que daria um óptimo título para um filme porno.
sábado, 23 de abril de 2016
It draws the obsessive
quinta-feira, 21 de abril de 2016
Innen
Tinha uma falha tão crónica de people skills que não o recomendaram a melhorar a forma de relacionamento interpessoal mas sim o intrapessoal.
segunda-feira, 18 de abril de 2016
domingo, 17 de abril de 2016
sábado, 16 de abril de 2016
quarta-feira, 13 de abril de 2016
Elisa Ferreira sobre paraísos fiscais e o papel da Europa
terça-feira, 12 de abril de 2016
Rigor
Não há mais ou menos rigor; ou há rigor ou não há rigor. Uma frase que ouvi num anfiteatro na faculdade, da boca de um professor do qual não gostava, uma desampatia que nada tinha a ver com capacidade técnica, antes uma ausência deliberada e orgulhosa de soft skills. Mas tinha razão. Toda. O rigor é uma variável binária.
Não significa, no entanto, que seja necessário utilizar constantemente níveis de precisão máximos em tudo. Seria impossível e, no limite, indesejável. Aqui entra outra coisa que aprendi na faculdade - desta vez não num anfiteatro: existem diferentes infinitos, uns maiores do que outros (um artigo sobre o assunto aqui). Tudo depende da tarefa em mãos. Um engenheiro que construa uma ponte pode necessitar de um grau de precisão maior do que eu quando me medem a altura para o cartão de cidadão. Custo/benefício.
Rigor é uma intersecção destes dois parágrafos: escolher o nível de precisão adequado para uma dada tarefa e manter o mesmo padrão constantemente. É claro que, quando pensamos em manter o padrão, consideramos normalmente falhas por defeito. Mas falhas por excesso também são faltas de rigor.
Não significa, no entanto, que seja necessário utilizar constantemente níveis de precisão máximos em tudo. Seria impossível e, no limite, indesejável. Aqui entra outra coisa que aprendi na faculdade - desta vez não num anfiteatro: existem diferentes infinitos, uns maiores do que outros (um artigo sobre o assunto aqui). Tudo depende da tarefa em mãos. Um engenheiro que construa uma ponte pode necessitar de um grau de precisão maior do que eu quando me medem a altura para o cartão de cidadão. Custo/benefício.
Rigor é uma intersecção destes dois parágrafos: escolher o nível de precisão adequado para uma dada tarefa e manter o mesmo padrão constantemente. É claro que, quando pensamos em manter o padrão, consideramos normalmente falhas por defeito. Mas falhas por excesso também são faltas de rigor.
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Be and seem to be
Na política fala-se muito da necessidade de, para além de sê-lo, também parecê-lo. Ainda assim uma necessidade mais premente é, para além de parecê-lo, também sê-lo.
domingo, 10 de abril de 2016
sábado, 9 de abril de 2016
How to win friends and influence people
Um artigo interessante da Economist sobre o Facebook aqui.
quarta-feira, 6 de abril de 2016
domingo, 3 de abril de 2016
Evitaria tanta corrida desnecessária.
As entradas do metro deveriam ter a indicação do tempo de espera para o próximo comboio em cada direcção.
segunda-feira, 28 de março de 2016
domingo, 27 de março de 2016
You run fast
ouvi com uma entoação dúbia de quem não é nativo, que não para entender se tinha terminado com um ponto de interrogação - pese embora a estrutura da frase - e mesmo se o run deveria ter sido ran. Virei-me e reparei que era a senhora por quem tinha passado no semáforo verde, que agora me tinha alcançado enquanto recuperava a respiração. Respondi-lhe ainda ofegante
Too fast
com um claro e vincado ponto de exclamação enfático no fim. E acrescentei que era só um sprint final antes de terminar, daí a velocidade. Largou uma exclamação - "aahh" , desta vez bastante perceptível (estas são iguais em todas as línguas), enquanto continuou a caminhar e a afastar-se de mim.
Too fast
com um claro e vincado ponto de exclamação enfático no fim. E acrescentei que era só um sprint final antes de terminar, daí a velocidade. Largou uma exclamação - "aahh" , desta vez bastante perceptível (estas são iguais em todas as línguas), enquanto continuou a caminhar e a afastar-se de mim.
sábado, 26 de março de 2016
Tédio
(...) Mas há uma coisa a dizer sobre o tédio. O tédio é uma sensação muito importante. Se eu tivesse de aconselhar alguma coisa para a escola, em geral, seria que se ensinasse a lidar com o tédio.
O tédio está muito associado à lentidão.
Sim. Eu tenho muito medo das pessoas que não sabem lidar com o tédio. As pessoas mais desesperadas são aquelas que estão sempre a fugir do tédio. O tédio é uma coisa central, base. O que é o tédio? É um momento de espera em que aparentemente nada está a acontecer. É uma sensação de inutilidade. Mas a vida tem uma percentagem enorme de momentos em que nós estamos à espera. Se não soubermos lidar com isso, estamos a desperdiçar uma matéria fundamental.
Entrevista a Gonçalo M. Tavares
Os escritores (também) têm coisas a dizer, Carlos Vaz Marques
O tédio está muito associado à lentidão.
Sim. Eu tenho muito medo das pessoas que não sabem lidar com o tédio. As pessoas mais desesperadas são aquelas que estão sempre a fugir do tédio. O tédio é uma coisa central, base. O que é o tédio? É um momento de espera em que aparentemente nada está a acontecer. É uma sensação de inutilidade. Mas a vida tem uma percentagem enorme de momentos em que nós estamos à espera. Se não soubermos lidar com isso, estamos a desperdiçar uma matéria fundamental.
Entrevista a Gonçalo M. Tavares
Os escritores (também) têm coisas a dizer, Carlos Vaz Marques
quinta-feira, 24 de março de 2016
quarta-feira, 23 de março de 2016
Frivolidade
(...) Hoje, por exemplo, dou muita importância às pessoas que são frívolas.
Porquê, o que é que a frivolidade nos dá?
A frivolidade é também uma forma de hipocrisia porque as pessoas não são aquilo. A pessoa, quanto mais frívola nos parece, mais esconde a sua natureza profunda.
E porque é que dá essa importância especial aos frívolos?
Porque têm mais a noção da sua fraqueza e, portanto, têm de se revestir de qualquer coisa que se imponha - inclusivamente, de uma maneira chocante - mas que é, de certa forma, uma carapaça que os defende.
Entrevista a Agustina Bessa-Luís
Os escritores (também) têm coisas a dizer, Carlos Vaz Marques
Porquê, o que é que a frivolidade nos dá?
A frivolidade é também uma forma de hipocrisia porque as pessoas não são aquilo. A pessoa, quanto mais frívola nos parece, mais esconde a sua natureza profunda.
E porque é que dá essa importância especial aos frívolos?
Porque têm mais a noção da sua fraqueza e, portanto, têm de se revestir de qualquer coisa que se imponha - inclusivamente, de uma maneira chocante - mas que é, de certa forma, uma carapaça que os defende.
Entrevista a Agustina Bessa-Luís
Os escritores (também) têm coisas a dizer, Carlos Vaz Marques
domingo, 20 de março de 2016
sexta-feira, 18 de março de 2016
As cinquenta oitavas de Sandoval no CCB
(Texto publicado originalmente aqui no Canela e Hortelã)
Dizer que todos os percursos de vida são únicos é um lugar-comum que, por definição, é de fácil emprego e não tem muito valor acrescentado. No caso de Arturo Sandóval assenta que nem uma luva. Mais, o percurso de vida do trompetista, na actual conjuntura, poderá ser também irrepetível, por razões que lhe são alheias: a recente reaproximação diplomática entre Cuba e os Estados Unidos, respectivamente, país onde Sandoval nasceu e para o qual desertou.
Decorria o ano de 1990 quando Sandoval interrompeu uma digressão europeia com Dizzie Gillespie, seu mentor, para desertar para os Estados Unidos, país que lhe viria a conferir a cidadania em 1999. No ano seguinte, a vida de Arturo deu, literalmente, um filme. Realizado e protagonizado por outro americano-cubano, Andy Garcia, “For Love and Country” relata a história da vida do trompetista.
Anos volvidos, dez (dez!!) Grammys depois, 6 Billboard Awars, um Emmy e a Presidential Medal of Freedom com que Barack Obama o galardoou em 2013, Sandoval esteve ontem de regresso ao Centro Cultural de Belém, depois de por aqui ter passado no ano passado.
O concerto arranca com um blues num tempo rápido, e de imediato se ouve o som intenso e estridente que sai do trompete de Sandoval, que enche o Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Sandoval está irrequieto, faz sinais aos outros músicos, sai de palco no solo do teclista para regressar e ajustar os microfones overhead da bateria, a tempo do baterista iniciar uma sucessão de chases, alternando quatro compassos de solo com o percussionista.
No final do tema, Sandoval dá as boas-vindas ao público, diz-nos que estão “muy contentos de estar aqui” e retoma o cocktail de ritmos e batidas que caracterizou a noite: uma série de ritmos latinos e caribenhos, a espaços sente-se o funk que, aliado ao som dos inúmeros teclados em palco, nos recorda um Herbie Hancock electrónico. Tudo isto com o swing do jazz sempre a espreitar, sempre presente.
E, daí para a frente, o músico cubano começa a tirar coelhos da cartola, uns atrás dos outros. Se no trompete já sabemos do que é capaz – embora as notas ridiculamente agudas que consegue tirar do instrumento não deixem de surpreender o público, que reage ruidosamente à mesma frase em sucessivas oitavas, cada vez mais altas – há muito mais para apreciar.
Logo ao segundo tema começa a mostrar-nos o que sabe fazer com as cordas vocais, cantando. Mas é um pouco mais à frente que inicia um solo – o segundo nesse mesmo tema depois de ter solado ao trompete – com uma harpa de boca, que acaba por desembocar num scat frenético. Imita o som de um trompete, mexendo os dedos no microfone como se tivesse os pistões daquele instrumento. Imita também o som do contrabaixo, tocado com os dedos e com arco, o som da bateria. E depois envereda por sons humanos, conversas, gritos, risos e risadas, e é também assim que, a certa altura, o público reage.
E ainda veio o piano. Após expulsar o pianista da frente das teclas pretas e brancas, inicia uma balada sozinho. Depois de uma longa introdução, a balada transforma-se, ganha ritmo e o percussionista começa a acompanhar, inicialmente com maracas, depois num despique de tarola e cow bell que foi um dos momentos altos da noite.
Outro dos momentos marcantes da noite foi a homenagem que fez a Dizzie Gilliespie, a quem Sandoval se diz “eternamente agradecido”, com o tema “Dear Dizz (every day I think of you)”, assim como a versão de “Joy Spring” de Clifford Brown.
Para o encore, Sandoval deixou o “Night in Tunisia”, que acaba por ser, embora apenas implicitamente, a segunda homenagem da noite a Dizzie Gillespie. Depois de os solos terem rodado pelos elementos da banda, Sandoval fica sozinho, à capela. Põe em uso toda extensão da sua longa tessitura, cobrindo dos registos mais graves aos registos mais agudos. Faz truques como o growl, rosnando com o trompete, até a banda se lhe juntar novamente para, com uma sonoridade árabe, conduzir o concerto até ao fim.
Dizer que todos os percursos de vida são únicos é um lugar-comum que, por definição, é de fácil emprego e não tem muito valor acrescentado. No caso de Arturo Sandóval assenta que nem uma luva. Mais, o percurso de vida do trompetista, na actual conjuntura, poderá ser também irrepetível, por razões que lhe são alheias: a recente reaproximação diplomática entre Cuba e os Estados Unidos, respectivamente, país onde Sandoval nasceu e para o qual desertou.
Decorria o ano de 1990 quando Sandoval interrompeu uma digressão europeia com Dizzie Gillespie, seu mentor, para desertar para os Estados Unidos, país que lhe viria a conferir a cidadania em 1999. No ano seguinte, a vida de Arturo deu, literalmente, um filme. Realizado e protagonizado por outro americano-cubano, Andy Garcia, “For Love and Country” relata a história da vida do trompetista.
Anos volvidos, dez (dez!!) Grammys depois, 6 Billboard Awars, um Emmy e a Presidential Medal of Freedom com que Barack Obama o galardoou em 2013, Sandoval esteve ontem de regresso ao Centro Cultural de Belém, depois de por aqui ter passado no ano passado.
O concerto arranca com um blues num tempo rápido, e de imediato se ouve o som intenso e estridente que sai do trompete de Sandoval, que enche o Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Sandoval está irrequieto, faz sinais aos outros músicos, sai de palco no solo do teclista para regressar e ajustar os microfones overhead da bateria, a tempo do baterista iniciar uma sucessão de chases, alternando quatro compassos de solo com o percussionista.
No final do tema, Sandoval dá as boas-vindas ao público, diz-nos que estão “muy contentos de estar aqui” e retoma o cocktail de ritmos e batidas que caracterizou a noite: uma série de ritmos latinos e caribenhos, a espaços sente-se o funk que, aliado ao som dos inúmeros teclados em palco, nos recorda um Herbie Hancock electrónico. Tudo isto com o swing do jazz sempre a espreitar, sempre presente.
E, daí para a frente, o músico cubano começa a tirar coelhos da cartola, uns atrás dos outros. Se no trompete já sabemos do que é capaz – embora as notas ridiculamente agudas que consegue tirar do instrumento não deixem de surpreender o público, que reage ruidosamente à mesma frase em sucessivas oitavas, cada vez mais altas – há muito mais para apreciar.
Logo ao segundo tema começa a mostrar-nos o que sabe fazer com as cordas vocais, cantando. Mas é um pouco mais à frente que inicia um solo – o segundo nesse mesmo tema depois de ter solado ao trompete – com uma harpa de boca, que acaba por desembocar num scat frenético. Imita o som de um trompete, mexendo os dedos no microfone como se tivesse os pistões daquele instrumento. Imita também o som do contrabaixo, tocado com os dedos e com arco, o som da bateria. E depois envereda por sons humanos, conversas, gritos, risos e risadas, e é também assim que, a certa altura, o público reage.
E ainda veio o piano. Após expulsar o pianista da frente das teclas pretas e brancas, inicia uma balada sozinho. Depois de uma longa introdução, a balada transforma-se, ganha ritmo e o percussionista começa a acompanhar, inicialmente com maracas, depois num despique de tarola e cow bell que foi um dos momentos altos da noite.
Outro dos momentos marcantes da noite foi a homenagem que fez a Dizzie Gilliespie, a quem Sandoval se diz “eternamente agradecido”, com o tema “Dear Dizz (every day I think of you)”, assim como a versão de “Joy Spring” de Clifford Brown.
Para o encore, Sandoval deixou o “Night in Tunisia”, que acaba por ser, embora apenas implicitamente, a segunda homenagem da noite a Dizzie Gillespie. Depois de os solos terem rodado pelos elementos da banda, Sandoval fica sozinho, à capela. Põe em uso toda extensão da sua longa tessitura, cobrindo dos registos mais graves aos registos mais agudos. Faz truques como o growl, rosnando com o trompete, até a banda se lhe juntar novamente para, com uma sonoridade árabe, conduzir o concerto até ao fim.
quarta-feira, 16 de março de 2016
Don't do stupid shit
Artigo interessante do Atlantic sobre a doutrina de Obama aqui.
terça-feira, 15 de março de 2016
Tell me if and when if and when if and when
Sempre pensei na dificuldade linguística do "se" e do "quando" quando (e não "se") considerando idiomas onde uma mesma palavra designa as outras duas. Os alemães só têm "wenn" ao dispor (atenção ao P.S.) e isso causa a alguns nativos dificuldades de expressão em língua estrangeira. Já aqui referi o caso de um antigo colega de trabalho alemão que disse, numa reunião, "when I understand correctly" - ele estava a "understand correctly" o ponto da discussão mas não a diferença entre "when" e "if".
E o contrário também é válido - para quem é nativo de uma língua que tem as duas formas anteriores, a palavra única, por vezes, pode dar azo a confusões ao tentar interpretar alemães. Tive uma vez uma discussão com um colega alemão - outro, diferente do primeiro, que percebia perfeitamente a diferença entre "if" e "when" - sobre o significado das palavras de uma antiga chefe, também alemã, que, ao discutir a possibilidade de extensão do meu contrato, utilizou o famigerado "wenn". Eu, pessimista, entendi um "se"; ele, mais optimista, entendeu um "quando". Eu, mariquinhas, não tive coragem de solicitar à chefe qual a tradução adequada; ele, besta, chamou-me mariquinhas.
A dificuldade normalmente está na ausência, numa língua, de uma distinção que é perfeitamente clara noutra. Lembra-me os húngaros que não têm "ele" e "ela", apenas um pronome que tanto dá para o sexo masculino como para o feminino. É confuso seguir uma conversa sobre uma senhora quando (e não "se") se (reflexivo, não conta) referem a ela com um "he". E há outros casos onde, apesar de não induzir em erro, a ausência de uma palavra retira a possibilidade de uma gradação que parece essencial. Por exemplo, em francês, se (e não "quando") aimer un croissant me parece excessivo (por muito bom que possa ser), aimer uma pessoa, em seguida, sabe a pouco - do ponto de vista (audição?) de quem ouve - se (e não "quando") o mesmo verbo é frequentemente usado em contexto de consumo de pastelaria.
A recente polémica do "if/when" parece ser o inverso do que acabei de descrever: enquanto no anterior caso as dificuldades surgem quando (e não "se") não existe uma distinção clara entre as duas palavras, no caso presente a interpretação possivelmente foi condicionada pelo facto de existirem duas palavras diferentes. No limite, em alemão, não teriam surgido quaisquer dúvidas. Não sei se (e não "quando") o holandês, nesta circunstância, é idêntico ao alemão. A ser, talvez seja essa a razão pela qual Dijsselbloem remeteu a explicação para Moscovici.
P.S. - o que disse do alemão não está inteiramente correcto porque também existe (i) "ob", um segundo "se" que, se (e não "quando") não me engano, só se (aqui é reflexivo, não conta) utiliza mesmo no caso dos verdadeiros "ses" em algumas circunstâncias - por exemplo, a reproduzir uma pergunta: "ele perguntou-me se (e não "quando") eu vinha"; e (ii) "als", que é uma espécie de "quando" no passado e que só se usa no casos dos verdadeiros "quandos", para frases como "quando eu era miúdo".
E o contrário também é válido - para quem é nativo de uma língua que tem as duas formas anteriores, a palavra única, por vezes, pode dar azo a confusões ao tentar interpretar alemães. Tive uma vez uma discussão com um colega alemão - outro, diferente do primeiro, que percebia perfeitamente a diferença entre "if" e "when" - sobre o significado das palavras de uma antiga chefe, também alemã, que, ao discutir a possibilidade de extensão do meu contrato, utilizou o famigerado "wenn". Eu, pessimista, entendi um "se"; ele, mais optimista, entendeu um "quando". Eu, mariquinhas, não tive coragem de solicitar à chefe qual a tradução adequada; ele, besta, chamou-me mariquinhas.
A dificuldade normalmente está na ausência, numa língua, de uma distinção que é perfeitamente clara noutra. Lembra-me os húngaros que não têm "ele" e "ela", apenas um pronome que tanto dá para o sexo masculino como para o feminino. É confuso seguir uma conversa sobre uma senhora quando (e não "se") se (reflexivo, não conta) referem a ela com um "he". E há outros casos onde, apesar de não induzir em erro, a ausência de uma palavra retira a possibilidade de uma gradação que parece essencial. Por exemplo, em francês, se (e não "quando") aimer un croissant me parece excessivo (por muito bom que possa ser), aimer uma pessoa, em seguida, sabe a pouco - do ponto de vista (audição?) de quem ouve - se (e não "quando") o mesmo verbo é frequentemente usado em contexto de consumo de pastelaria.
A recente polémica do "if/when" parece ser o inverso do que acabei de descrever: enquanto no anterior caso as dificuldades surgem quando (e não "se") não existe uma distinção clara entre as duas palavras, no caso presente a interpretação possivelmente foi condicionada pelo facto de existirem duas palavras diferentes. No limite, em alemão, não teriam surgido quaisquer dúvidas. Não sei se (e não "quando") o holandês, nesta circunstância, é idêntico ao alemão. A ser, talvez seja essa a razão pela qual Dijsselbloem remeteu a explicação para Moscovici.
P.S. - o que disse do alemão não está inteiramente correcto porque também existe (i) "ob", um segundo "se" que, se (e não "quando") não me engano, só se (aqui é reflexivo, não conta) utiliza mesmo no caso dos verdadeiros "ses" em algumas circunstâncias - por exemplo, a reproduzir uma pergunta: "ele perguntou-me se (e não "quando") eu vinha"; e (ii) "als", que é uma espécie de "quando" no passado e que só se usa no casos dos verdadeiros "quandos", para frases como "quando eu era miúdo".
segunda-feira, 14 de março de 2016
Fundos abutres e o ano em que se espera que a Argentina regresse aos mercados
domingo, 13 de março de 2016
A minha estreia no Canela e Hortelã foi ontem.
E que estreia: nem mais nem menos do que o concerto dos 50 anos da carreira de Marco Paulo no Coliseu. A crónica está aqui. Estão agendadas mais para os tempos que se avizinham.
quinta-feira, 10 de março de 2016
Curiosidade
«I'm not a cynic. I'm curious, that's all. I like to know the meaning which people put on the words they use. So much is a question of semantics. That's why in medicine we often prefer to use a dead language. There's no room for misunderstanding with a dead language.»
The Honorary Consul, Graham Greene
The Honorary Consul, Graham Greene
terça-feira, 8 de março de 2016
segunda-feira, 7 de março de 2016
A saúde (das figuras) pública(s)
Paulo Futre e o Libidum Fast. Simone de Oliveira e o Calcitrin. Catarina Furtado e o Centrum. Questões e maleitas diferentes, é certo. Não é uma questão de idade, nem sequer de género. Possivelmente mais de bolso.
sexta-feira, 4 de março de 2016
Carta abierta del director de EL PAÍS a la Redacción del periódico
quarta-feira, 2 de março de 2016
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
A curva da avozinha
Um conceito que ganhou um certo destaque nos últimos anos, e pelas razões óbvias, é o da curva de Laffer. Resumidamente, a curva não é mais do que uma representação do nível de receita obtido para diferentes níveis da taxação. Trata-se de uma espécie de parábola invertida: a receita será zero se não houver impostos (se a taxa for nula) e, a partir daí é crescente para taxas mais elevadas mas só até um determinado ponto, a partir do qual subsequentes aumentos da taxa, na prática, levam a uma recolha inferior de impostos. No limite, para taxas suficientemente elevadas, a receita será novamente zero.
Esta ideia começou por ganhar alguma notoriedade no mandato de Ronald Reagan, que reduziu impostos argumentando que os EUA estavam na zona decrescente daquela curva. De tal forma que, e por pouco intuitivo que possa ser, uma redução das taxas deveria levar a uma maior captação de dólares para os cofres estatais (não foi o caso).
O que acho curioso nesta curva é que ela não faz mais do que aplicar a um caso particular – política fiscal – um princípio que as nossas avós já sabiam há muito tempo (aprenderam com as suas próprias avós): qualquer coisa em excesso é, geralmente, nocivo. É uma espécie de teoria da moderação. Ou do com-juizinho, não-sejas-garganeiro. Dai eu achar que “curva da avozinha” seria uma melhor designação.
Um exemplo (há tantos): beber um copo de vinho por dia, segundo dizem os especialistas, até pode ser saudável mas beber 37 já não é (e as avozinhas sabem isto tão bem). Neste caso, a partir de determinado número de copos, nem sequer se trata de ser menos benéfico, trata-se de ser nocivo – atravessamos o eixo das abcissas e entramos em território negativo, vamos do primeiro ao quarto quadrante. Outro: há especialistas (outros) que dizem que fazer desporto é benéfico até determinado nível e que cargas excessivas acabam por ser emendas piores que sonetos.
Interessantes são também os casos-limite desta representação. Em certas circunstâncias temos apenas a parte decrescente da curva de Laffer/avozinha. Por exemplo, em princípio, consumir droga, mesmo em doses pequenas, não deverá ter grande benefício, pelo que a regra deverá ser quanto maior a quantidade ingerida maior será o dano, qualquer que seja o valor do consumo. Neste caso, a curva é estritamente decrescente, a iniciar logo em zero e avançar para terreno negativo daí para a frente. Todas as avós sabem isto, dizem sempre para não nos metermos na droga. Levar um tiro, outro exemplo, em princípio, também não acarreta nada de bom.
E claro, o que me parece mais útil – embora sobejamente mais difícil – seria determinar processos para os quais os benefícios são sempre crescentes. E quando digo sempre crescentes, ficaria satisfeito mesmo que fosse com um limite máximo e não um crescimento para o infinito. Destes, infelizmente, nenhuma avozinha me falou.
Esta ideia começou por ganhar alguma notoriedade no mandato de Ronald Reagan, que reduziu impostos argumentando que os EUA estavam na zona decrescente daquela curva. De tal forma que, e por pouco intuitivo que possa ser, uma redução das taxas deveria levar a uma maior captação de dólares para os cofres estatais (não foi o caso).
O que acho curioso nesta curva é que ela não faz mais do que aplicar a um caso particular – política fiscal – um princípio que as nossas avós já sabiam há muito tempo (aprenderam com as suas próprias avós): qualquer coisa em excesso é, geralmente, nocivo. É uma espécie de teoria da moderação. Ou do com-juizinho, não-sejas-garganeiro. Dai eu achar que “curva da avozinha” seria uma melhor designação.
Um exemplo (há tantos): beber um copo de vinho por dia, segundo dizem os especialistas, até pode ser saudável mas beber 37 já não é (e as avozinhas sabem isto tão bem). Neste caso, a partir de determinado número de copos, nem sequer se trata de ser menos benéfico, trata-se de ser nocivo – atravessamos o eixo das abcissas e entramos em território negativo, vamos do primeiro ao quarto quadrante. Outro: há especialistas (outros) que dizem que fazer desporto é benéfico até determinado nível e que cargas excessivas acabam por ser emendas piores que sonetos.
Interessantes são também os casos-limite desta representação. Em certas circunstâncias temos apenas a parte decrescente da curva de Laffer/avozinha. Por exemplo, em princípio, consumir droga, mesmo em doses pequenas, não deverá ter grande benefício, pelo que a regra deverá ser quanto maior a quantidade ingerida maior será o dano, qualquer que seja o valor do consumo. Neste caso, a curva é estritamente decrescente, a iniciar logo em zero e avançar para terreno negativo daí para a frente. Todas as avós sabem isto, dizem sempre para não nos metermos na droga. Levar um tiro, outro exemplo, em princípio, também não acarreta nada de bom.
E claro, o que me parece mais útil – embora sobejamente mais difícil – seria determinar processos para os quais os benefícios são sempre crescentes. E quando digo sempre crescentes, ficaria satisfeito mesmo que fosse com um limite máximo e não um crescimento para o infinito. Destes, infelizmente, nenhuma avozinha me falou.
domingo, 28 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Restart
Um dos temas que o orador mais frisa é a necessidade de uma maior ênfase na perspectiva colectiva. A reacção natural quando se fala em consciência é pensar-se na individual, quando a consciência colectiva também é importante. A preocupação com os outros, a compaixão, a empatia.
A palestra termina, segue-se uma sessão perguntas que se arrastou longa e penosamente. Curiosamente, as perguntas são normalmente na primeira pessoa. Ouvem-se "eus" atrás de "eus". É quase como se se tratasse de uma chamada para o helpdesk, esperando uma resolução para um problema específico.
A palestra termina, segue-se uma sessão perguntas que se arrastou longa e penosamente. Curiosamente, as perguntas são normalmente na primeira pessoa. Ouvem-se "eus" atrás de "eus". É quase como se se tratasse de uma chamada para o helpdesk, esperando uma resolução para um problema específico.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
Optimismo
«Isto significa que estou pessimista sobre o futuro? Nem pessimista nem o contrário: o futuro, como dizem os ateus, a Deus pertence.»
Vamos ao que interessa, João Pereira Coutinho
Vamos ao que interessa, João Pereira Coutinho
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Regime
Contrariamente à ditadura, a meditadura é um regime bastante democrático e que preza as liberdades individuais.
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Sobre os resultados da jornada anterior
Enorme falta de congruência linguística: Vitória de Guimarães contra Vitória de Setúbal deu em empate e o Vitória saiu perdedor.
sábado, 20 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Vestir a camisola é associado a entrega e dedicação a uma determinada tarefa ou causa.
No caso das modelos da Playboy, as mesmas entrega e dedicação poderiam mais adequadamente ser descritas por despir a camisola (pelo menos até há pouco tempo).
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
domingo, 14 de fevereiro de 2016
Uma questão de "o"
Dizer tio Carlos ou ti Carlos, embora possa ser bastante próximo, revela uma grande diferença em relação a quem o diz. O primeiro é montes de bem; o segundo é rústico ou rural. Enquanto o primeiro é passível de ser considerado coisa de tio, ninguém diz do segundo que é coisa de ti.
sábado, 13 de fevereiro de 2016
If I was in the mainstream I would begin to ask myself what I'm doing wrong.
Noam Chomsky em entrevista à Al Jazeera
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
Chez les hommes
«O amor nos homens não é mais do que o reconhecimento pelo prazer recebido (...)»
Submissão, Michel Houellebecq
Submissão, Michel Houellebecq
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Não poderia estar mais de acordo
sábado, 6 de fevereiro de 2016
Já não havia cartas, agora parece que também vão deixar de existir sms's de amor
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Taxação de acordo com a gradação alcoólica
Cerveja com IVA de 4-5%, vinho (nos dias que correm) entre os 13% e os 14%, whisky, gin e vodka lá mais para os 40%. Água e sumos com IVA zero.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Mindemptiness
A desconcentração não existe: a descontração é concentração noutro assunto.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
domingo, 31 de janeiro de 2016
Fair
É uma forma ignorada de estupidez, costumava dizer, é preciso abstrairmo-nos da insignificância cósmica de todas as nossas acções para podermos ser vaidosos, e isso é uma forma flagrante de estupidez.
Comboio Nocturno para Lisboa, Pascal Mercier
Comboio Nocturno para Lisboa, Pascal Mercier
sábado, 30 de janeiro de 2016
The truth is in here
Se fosse realizador de filmes porno faria um XXX Files. Sexo alienígena com cenas do além.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
A elegância da simplicidade
À pergunta "haverá alguém beneficiado ou prejudicado com este nível de abstenção?" Vasco Gonçalves responde "depende de quem se absteve".
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
Na sede de campanha do PCP canta-se "Abril vencerá".
Irónico, tendo em conta que é o único sítio onde substituem - ou alguma vez existiram - dúvidas em relação ao regime político da Coreia do Norte.
domingo, 24 de janeiro de 2016
Os 30 são os novos 20
Sete dos dezasseis que chegaram aos oitavos-de-final no Aus Open têm mais de trinta anos. E alguns lá perto.
sábado, 23 de janeiro de 2016
Sou uma bola de berlim
É um dos discursos mais conhecidos de Kennedy, juntamente com o também célebre "ask not what your country can do for you, ask what you can do for your country". Em plena Guerra Fria, JFK diz ao lado do Muro de Berlim "ich bin ein Berliner", para gáudio da multidão que o ouvia, uma frase que, nos dias de hoje, certamente seria catalogada de viral.
O que o Presidente americano provavelmente não esperaria, assim como os assessores e tradutores que o ajudaram a preparar-se: a piada em torno da possibilidade de interpretação daquela frase como "eu sou uma bola de Berlim". O alegado teria, inclusivamente, suscitado uma gargalhada por parte da multidão que assistia ao discurso - algo que se pode confirmar no filme infra que não é verdade, o riso vem depois de Kennedy brincar, ao dizer que agradece ao tradutor por lhe traduzir a frase em alemão.
É certo que a palavra "Berliner" pode ser utilizada para designar aquilo que nós designaríamos por "bola de berlim", embora normalmente no caso alemão tenham doce no interior em vez daquele creme amarelo. O termo é utilizado em algumas regiões da Alemanha mas não em Berlim, onde a iguaria é designada por "Pfannkuchen". Mas, para além deste possível segundo sentido da palavra "Berliner", esta acepção culinária da frase teria sido induzida pela utilização do artigo indefinido "ein".
Segundo os entendidos, a polémica é infundada, e a frase do ex-Presidente americano está totalmente correcta. Enquanto um berlinense diria "ich bin Berliner", i.e., sem a utilização do artigo indefinido "ein", esta mesma frase não deveria ser usada por Kennedy, uma vez que ele não era, de facto, Berlinense. Seria o equivalente da frase "eu sou lisboeta" dito por um pouco convincente natural da Baviera. Ao invés, a utilização do pronome "ein" abre portas a uma interpretação da frase menos literal, mais próxima de "sinto-me como um berlinense" ou "sinto-me como um de vós", que era de facto o que queria veicular naquele discurso e aquilo que também poderíamos depreender da frase "eu sou um lisboeta" - embora o português me pareça menos preciso que o alemão neste exemplo.
O que o Presidente americano provavelmente não esperaria, assim como os assessores e tradutores que o ajudaram a preparar-se: a piada em torno da possibilidade de interpretação daquela frase como "eu sou uma bola de Berlim". O alegado teria, inclusivamente, suscitado uma gargalhada por parte da multidão que assistia ao discurso - algo que se pode confirmar no filme infra que não é verdade, o riso vem depois de Kennedy brincar, ao dizer que agradece ao tradutor por lhe traduzir a frase em alemão.
É certo que a palavra "Berliner" pode ser utilizada para designar aquilo que nós designaríamos por "bola de berlim", embora normalmente no caso alemão tenham doce no interior em vez daquele creme amarelo. O termo é utilizado em algumas regiões da Alemanha mas não em Berlim, onde a iguaria é designada por "Pfannkuchen". Mas, para além deste possível segundo sentido da palavra "Berliner", esta acepção culinária da frase teria sido induzida pela utilização do artigo indefinido "ein".
Segundo os entendidos, a polémica é infundada, e a frase do ex-Presidente americano está totalmente correcta. Enquanto um berlinense diria "ich bin Berliner", i.e., sem a utilização do artigo indefinido "ein", esta mesma frase não deveria ser usada por Kennedy, uma vez que ele não era, de facto, Berlinense. Seria o equivalente da frase "eu sou lisboeta" dito por um pouco convincente natural da Baviera. Ao invés, a utilização do pronome "ein" abre portas a uma interpretação da frase menos literal, mais próxima de "sinto-me como um berlinense" ou "sinto-me como um de vós", que era de facto o que queria veicular naquele discurso e aquilo que também poderíamos depreender da frase "eu sou um lisboeta" - embora o português me pareça menos preciso que o alemão neste exemplo.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
Gato escondido com o rabo de fora
Nas séries de TV e nos filmes, as maçãs dos Macs surgem muitas vezes cobertos para evitar o product placement. Mas um evitar pífio, a identificação continua a ser fácil. E mostra a importância da forma e do aspecto.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
Marketing eleitoral
À pergunta qual foi a última piada que lhe contaram, Marisa Matias respondeu que lhe disseram que o Sporting ia ser campeão. Boa estratégia. Primeiro porque os adeptos do clube de Alvalade são menos do que os dos principais rivais, ou seja, em absoluto, agrada a mais gente do que desagrada. E depois porque os adeptos do Sporting não são o público-alvo da sua campanha, piadas destas não lhe custaram muitos votos junto dos, já de si poucos, sportinguistas.
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
Entweder oder
Perguntou-lhe se tinha parado para pensar. Ele respondeu-lhe um redondo não. Ou paro ou penso. Sou homem, uma coisa de cada vez.
domingo, 17 de janeiro de 2016
sábado, 16 de janeiro de 2016
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
A maior ovação que Obama arranca da audiência no discurso do estado da União é quando discute as questões de segurança.
Minto: é quando se refere à capacidade militar dos EUA. A nação mais poderosa do mundo. Period. It's not even close (repetido 4, 5 vezes). Resultado de um investimento em defesa que suplanta os orçamentos conjuntos dos oito países imediatamente a seguir no ranking dos que mais destinam dinheiro para as forças armadas. As nossas tropas são a melhor força de combate da história do mundo (a ovação monumental ocorre aqui). Defende (só com palavras) que os problemas de segurança do mundo atual não são devidos a uma superpotência nem a força militar americana diminuída, mas sim a estados falhados. A receita, essa, parece ser a mesma.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
O homem baixinho sai da entrada da loja e dirige-se ao sem-abrigo que dorme na arcada
Deitado encostado à parede lateral, quase à frente da montra da loja. Visivelmente irritado, fala-lhe rispidamente, dobra os joelhos para se baixar, o corpo ligeiramente inclinado para se aproximar ainda mais. Diz-lhe que saia dali que a loja já abriu - é perto das nove horas. O outro roda sobre o corpo e tira a cabeça de dentro do cobertor amarelo seco e cor-de-laranja. Responde-lhe ainda meio estremunhado, solta uns quantos palavrões enquanto contesta a hora a que deveria sair daquele local para não afectar o negócio. O homem baixinho não espera para ouvir até ao fim, vira costas ostensivamente ao sem-abrigo a meio da resposta e volta a entrar na loja.
No dia seguinte, passo novamente no mesmo sítio. Não há um indício de que alguém tenha passado a noite naquela arcada em frente à loja.
No dia seguinte, passo novamente no mesmo sítio. Não há um indício de que alguém tenha passado a noite naquela arcada em frente à loja.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
domingo, 10 de janeiro de 2016
sábado, 9 de janeiro de 2016
Grupos profissionais cujo nível de experiência nem sempre é melhor caracterizado por "muitos anos a virar frangos"
Os alcoólicos viram garrafas.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
Ainda sobre os debates presidenciais
Estou sempre à espera de ouvir "a tua mãe é que é!" e o moderador, para o outro candidato, "iiihhh, ficas-te??"
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
É chato quando o Marcelo está frente a frente com outro doutorado.
Inviabiliza a designação "professor".
A equipa de Sampaio da Nóvoa ou é grande ou faz noitadas.
A recolha de todas as afirmações potencialmente utilizáveis como armas de arremesso foi forçosamente trabalhosa, dado o elevado débito oral de Marcelo Rebelo de Sousa. Mas o mais importante é como largar as ogivas, e aqui muitas vezes não o soube fazer: um veloz de florete cai melhor que brandir um martelo. Marcelo também levou uma ou outra carta (a do "tempo novo" e o do "vazio político" ("onde é que esteve?"), por exemplo) e jogou-a de uma forma mais fluida e eficaz.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
Reverse
Como um novelo do qual se desprende um fio. Uma brecha por onde começa a escorrer água. Nunca é possível repor, emendar. Nunca se pode voltar atrás. Voltar a pôr as coisas tais como elas eram. O equilíbrio, quando se perde, é para nunca mais se encontrar.
domingo, 3 de janeiro de 2016
sábado, 2 de janeiro de 2016
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
Mañana
Dizia-lhe que só virava as páginas quando tinha outras para abrir.
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
domingo, 27 de dezembro de 2015
sábado, 26 de dezembro de 2015
Marcador
Tinha dificuldade em ler as expressões asiáticas - achava os sorrisos forçados e artificiais.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
sábado, 19 de dezembro de 2015
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
"In an emergency situation loosen your tie"
Instruções de segurança da Turkish Airlines, companhia em que os homens viajam sempre aprumados. Relativamente às senhoras, aconselhava-se que retirassem os sapatos de salto alto.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
Equity
No shark tank, a expressão equity é traduzida como equidade nas legendas. Nunca tinha considerado qual seria o termo em português (capital próprio?) mas equity não tem que ser equitativo de todo.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
Bis gleich
Pessoas que se despedem com "até já" quando manifestamente não nos vamos ver, num futuro próximo ou distante, ou até quando nem sequer alguma vez nos vimos.
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Pela primeira vez vou a um país com um fuso horário que não é um múltiplo de uma hora.
De acordo com o que descobri online, trata-se de um clube relativamente restrito e, em alguns casos, possivelmente até pouco recomendável. Se é certo que alguns estados da Austrália, ilhas da Nova Zelândia e a Nova Terra no Canadá têm fusos horários de meia-hora e três quartos de hora (?), os fusos de meia-hora também são característica do Afeganistão, Irão, Coreia do Norte e Venezuela. No meio disto, a Birmânia, a Índia e o Sri Lanka. E as Ilhas Marquesas na Polinésia Francesa.
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