sexta-feira, 18 de setembro de 2020

É uma permanente luta para pôr certos à frente dos pontos.

Ou não resistir à vontade de riscá-los, de torná-los totalmente ilegíveis, como se nunca tivessem estado naquele bocado de papel. Num misto de alívio e alguma raiva, descarregada nervosamente através da caneta. Isto até aos novos pontos fazerem o seu caminho até entrarem na lista, numa nova lista ou na mesma, agora com adições. Qual rol de compras de mercearia que parece nunca acabar: há sempre coisas para substituir no frigorífico e na despensa. Uma subjugação em pontos, uma ditadura em alíneas.  

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Era isso que não conseguia aceitar

(e não entender, entendia perfeitamente): que não fica mais fácil com o passar do tempo. Não interessa a experiência e o calo, os cabelos brancos e a mundividência. Podem ajudar conjunturalmente, em determinadas situações e casos. Mas não estruturalmente.  

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Ácido

No recente documentário sobre Miles Davis "Birth of the cool", Carlos Santana descreve o acid jazz, ao qual o músico do trompete a certa altura se dedicou, como música que tinha o condão de pôr sóbrios os que estavam a tripar em ácidos e pedrados os que estavam sóbrios.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Feel the need

Numa palestra na Google, um dos espectadores pergunta a Christopher Hitchens se não sente a necessidade de se juntar a outros ateus, como ele, para, de uma forma organizada, defender as suas ideias face às organizações religiosas que estão do outro lado da discussão, a defender posições contrárias. Ou seja, a organização como forma de nivelar a contenda. Hitchens começa por responder de uma forma surpreendentemente mais abrangente:

«I'm no longer a joiner up of groups. I don't feel the belonging need anymore. I used to when I was younger and more left that I am now feel that, the need to be involved in an organized way. Now I don't, and I think I probably have more influence as an individual than I ever did as a cogwheel in a so-called party.»

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Com algum atraso

Não é uma daquelas datas redondas, estilo 10, 15, 20 anos: são 29. E, ainda por cima, atrasei-me uns dias - devia ter posto um lembrete na agenda. 

30 de agosto 1991, Campeonato do Mundo de Atletismo em Tokyo. Carl Lewis e Mike Powell defrontam-se no salto em comprimento. Senão o melhor confronto de sempre da modalidade, seguramente um dos melhores. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Não tinha uma opinião nada original (como não costumo ter, verdade seja dita)

A minha aposta era a de tantos outros: que Djokovic iria vencer este Open dos Estados Unidos, o que lhe abriria a porta para definitivamente atingir as marcas de Nadal e Federer. 

E depois acontece um evento estranho e raro que culmina na desqualificação do sérvio, que atingiu, sem querer, uma juíza de linha, quando devolvia uma bola para trás, após o final de um ponto. O resultado não poderia ser outro, e os antecedentes são bastante claros: que o digam, por exemplo, Fernando Meligeni que, em 1999, foi desqualificado do Open do Estoril por ter acertado num espectador e David Nalbandian que foi pelo mesmo caminho no torneio de Queens de 2012, após ter dado um chuto numa placa de madeira perto da cadeira do árbitro de linha, que acabou por o mandar ao chão. 

A questão de ser voluntário ou não é de menor importância para esta sanção em concreto. Da mesma forma  que, se bater no carro que vai à minha frente, serei sempre culpado, independentemente da potencial condução errática e perigosa do outro condutor faça. A responsabilidade é mina de garantir que consigo sempre imobilizar o meu carro sem embater no da frente. Ora, qualquer jogador de ténis é responsável por não magoar ninguém - de uma acção que não resulte do próprio jogo, claro. 

A questão seguinte é a severidade da punição. Parece brutal excluir alguém por algo que é claramente não-intencional - não se trata de, voluntariamente, demorar muito tempo entre pontos, partir uma raquete ou ofender o árbitro, situações normalmente punidas com sanções de importância crescente, a partir de uma primeira advertência verbal sem nenhuma consequência material, até penalizações de um ponto, jogo, partida. Mas, verdade seja dita, mesmo involuntariamente, Djokovic pôs em risco a integridade física de uma pessoa. 

Pela positiva, fica a reacção de Djokovic que, embora tenha trocado palavras com a equipa de arbitragem e tentado contra-argumentar, nunca perdeu a compostura e, quando percebeu que não havia volta a dar, aceitou e abandonou o court. Mais, reconheceu publicamente o erro e pediu desculpas à juíza de linha. Contraponha-se esta reacção com a de Serena Williams, aquando do seu episódio na final do mesmo Open dos Estados Unidos, em 2018.

sábado, 5 de setembro de 2020

Ainda sobre Abe

O Japão é uma espécie de candeia que vai à frente e alumia duas vezes, um canary in the coal mine. Por alguma razão se fala na japanificação, uma ameaça do possível alastramento, às restantes economias avançadas, de uma performance económica anémica, caracterizada por estagnação, inflação baixa ou mesmo deflação, e taxas de juro muito baixas. 

Em 2013, Shinzo Abe tornou-se primeiro-ministro, e levou consigo para o trabalho a sua estratégia de 3 setas: política monetária audaz, política orçamental flexível e estratégia de crescimento. Embora objectivamente houve metas não atingidas (por exemplo, o objectivo de inflação) as opiniões dividem-se no que concerne à avaliação do legado de Abe. Seja como for, a Abenomics simbolizou uma viragem de página com determinação, uma pedrada no charco. Talvez por isso, o anúncio da sua saída da vida política activa, por motivo de doença, seja, em si, outra viragem de página.    

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Genuflexão virtual

No seu perfil de Facebook, reparou na secção relativa ao estado de relação, a seguir a outras informações, como morada ou local de trabalho. Relembrou-lhe do campo do estado civil do velhinho bilhete de identidade, morto e enterrado pelo prático cartão de cidadão, que já não divulga essa componente da vida das pessoas. Subitamente, apeteceu-lhe actualizar a informação, como se estivesse em falta para com qualquer entidade responsável por monitorar estes assuntos. Ao enviar o pedido à sua cara metade - que tem de o certificar e consentir, bem entendido - sentiu o momento como uma genuflexão virtual. E sentiu-o como se fosse complementar (e até necessário) ao momento em que, de joelhos e com uma caixa de anel na mão estendida, a pediu, de acordo com a tradição, em casamento. 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Da leitura de sorrisos

Os povos asiáticos são, amiúde, mal interpretados no que respeita a sorrisos: um sorriso genuíno pode facilmente ser interpretado por um amarelo (mas não vice-versa). 

domingo, 30 de agosto de 2020

Rubrica descubra a inconsistência

Em entrevista ao Expresso, o Primeiro-ministro é questionado se será necessário o Governo apoie directamente algumas empresas. O Primeiro-ministro inicia a sua resposta mencionando que tal já foi feito nos casos da TAP e Efacec. Explica que, para o efeito, tem à disposição o Banco de Fomento, bem como instrumentos de capitalização "que permitem acorrer a empresas viáveis, social e economicamente (...) e que estejam a enfrentar situações conjunturais que exijam essa intervenção.".

E depois acrescenta a seguinte questão: "Se quero pôr dinheiro em empresas que estavam a falir?" à qual, de imediato, responde enfaticamente que não, acrescentando "Não faz sentindo estar a consumir recursos dos contribuintes para alimentar artificialmente quem estava falido."

E lucevan le stelle


 

sábado, 22 de agosto de 2020

Ainda sobre a escolha de Kamala

Joe Biden tinha feito o compromisso de escolher uma vice-presidente. Em si, embora relativamente refrescante, não é totalmente inédito: Sarah Palin foi a escolhida por John McCain para o segundo posto. O que seria verdadeiramente novo seria a escolha de alguém da ala mais esquerda do Partido Democrata, como Elisabeth Warren. Alguém com um discurso mais progressista, que defende, entre outros, o acesso universal a cuidados médicos e educação, o combate à desigualdade, a taxação de grandes fortunas, e tem um discurso bastante duro em relação ao sector financeiro, aos bancos e a Wall Street. 

Ora Biden não é nada disto: o ex-vice de Obama tem, normalmente, um posicionamento muito próximo do centro da distribuição do Partido Democrata. Desse ponto de vista, um second-in-command com as características de Warren daria uma grande complementaridade e, concorde-se ou não, uma lufada de ar fresco. 

Em contraste, o posicionamento político de Kamala está seguramente mais próximo do de Biden. Por outras palavras, ao escolher uma mulher afro-americana, tenho dúvidas que Biden esteja a fazer mais história do que se tivesse escolhido a caucasiana Elisabeth Warren. Conquistar os votos afro-americano e latino não é o principal objectivo desta escolha: estes são grupos que tipicamente votam democrata. É, ao invés, uma escolha cautelosa, que evita o risco de potencialmente alienar parte dos votos democratas, que não receberiam Warren de braços abertos. Por alguma razão os mercados reagiram bem à nomeação de Kamala.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Zona

 O DVD ficou repleto de erupções cutâneas e bolhas e foi diagnosticado com um grave problema de zona.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

That little girl was me

O antigo vice-presidente escolheu, para vice-presidente na sua candidatura a presidente, a mulher que tinha dito que ele poderia ser o seu vice-presidente, quando ela própria estava na corrida para a eleição do candidato democrata à presidência. 

  


segunda-feira, 10 de agosto de 2020

All in

Mais do que skin in the in the game, os actores porno têm foreskin in the game (excepto circuncidados, claro). 

sábado, 8 de agosto de 2020

Os apelidos não eram o problema.

Porque os apelidos decorrem de uma regra, o resultado de um processo social ou cultural, que estabeleceu a importação de, pelo menos, o último apelido da mãe e o do pai, bem como a ordem pela qual devem aparecer na designação da geração seguinte. A questão residia com o nome próprio que é, única e exclusivamente, decorrente de uma escolha (dentro da lista de nomes próprios admissíveis, bem entendido). Mais e pior: uma escolha alheia. E não própria, para usar o mesmo termo do próprio nome próprio. 

Por isso, ao entrar na Conservatória do Registo Civil, com o intuito de submeter um requerimento para alterar o nome próprio, só tinha uma coisa na cabeça: reclamar um quinhão de liberdade ao aniquilar uma parte da liberdade alheia. Não havia outra forma senão através deste jogo de soma nula. 

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Beber para recordar

O homem sentado no banco, simetricamente de frente para o realizador/protagonista, diz-lhe que os palestinianos são diferentes: enquanto os outros bebem para esquecer, os palestinianos bebem para recordar.

domingo, 2 de agosto de 2020

Gesundheit

Felizmente a vontade de espirrar surgiu quando estava parado no semáforo: espirrar enquanto se conduz é sempre uma aflição, uma momentânea falta de controlo e necessidade de fechar os olhos. Para o interior do braço, como (agora) manda a lei - quando era pequenino, ensinavam que se devia tapar a boca com as mãos. Vindo do meu lado esquerdo (estava na faixa da direita) oiço gritar
Salute!
Viro-me para gritar 
Grazie! 
Mesmo a tempo de ver o vidro da esquerda do tipo parado ao meu lado no semáforo a subir. 

sábado, 1 de agosto de 2020

Ta tãã ta tããã pa pã pãã

O 9º episódio da série Philip K. Dick's Electric Dreams mal tinha começado e o swing rápido surge. O protagonista chama a atenção para o saxofone, cujo solo irá começar segundos depois. Na cabeça fica-me o tema
Ta tãã ta tããã pa pã pãã
ao qual estupidamente não consigo associar o nome. O episódio continua sem conseguir captar grande coisa da minha atenção, a engrenagem da minha cabeça continua a dar voltas, 
Ta tãã ta tããã pa pã pãã
sem conseguir resolver este esquecimento, que me consome e irrita. Para piorar um pouco mais, passados uns minutos, o tema volta novamente a ouvir-se
Ta tãã ta tããã pa pã pãã
e não vai ser a última vez até ao final: quando, a certa altura, o protagonista entra no café, onde já tinha ido e comido uma fatia de bolo e, desta vez, a música ambiente é essa mesmo, que não me sai da cabeça e de cujo nome não me consigo lembrar.

Sento-me com este teclado na mão e deixo o google resolver o meu drama. A solução era relativamente óbvia (ainda há pouco aqui pus uma versão do Pat Martino), o executante bastante menos.


sexta-feira, 31 de julho de 2020

Der frühe Vogel fängt den Wurm

Dirigiu-se à stripper e, com todo o formalismo cavalheiresco, perguntou-lhe se lhe daria o prazer uma dança.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

De "hábil" a "habilidoso" não vai uma distância muito grande.

Apesar disso, enquanto o primeiro é, normalmente, um termo mais genuíno, o segundo é, muitas vezes, usado com um tom pejorativo. Mais ou menos como a diferença entre ser esperto e espertinho. Demasiado esperto. Ou chico-esperto. 

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Igualdade através de desigualdade

É um lugar-comum dizer que as sociedades ocidentais tendem a privilegiar o indivíduo face ao colectivo enquanto nas sociedades asiáticas a relação é tipicamente inversa. Tal pode ser até ser levado ao extremo de ser definido como subjugação naquelas que não são primam pelos exemplo democrático.  

O caso da China é curioso. Na sua tentativa de instilar uma uniformização de comportamentos, criou um sistema de rating social. Isso, em si, encerra uma contradição: o sistema, para funcionar e atingir o objectivo de tornar todos iguais, tem de distinguir os cidadãos, através de diferentes pontuações num ranking. 

terça-feira, 28 de julho de 2020

La mauvaise éducation

«Je commençais à connaître l'exacte valeur de la langage parlé ou muet de l'amabilité aristocratique, amabilité heureuse de verser un baume sur le sentiment d'infériorité de ceux à l'égard desquels elle s'exerce mais pas pourtant jusqu'au point de la dissiper, car dans ce cas elle n'aurait plus raison d'être. «Mais vous êtes notre égal, sinon mieux », semblaient, par toutes leurs actions, dire les Guermantes; et ils disaient de la façon la plus gentille que l'on puisse imaginer, pour être aimés, admirés, mais non pour être crus; qu'on démêlât le caractère fictif de cette amabilité, c'est ce qu'ils appelaient être bien élevés; croire l'amabilité réelle, c'était la mauvaise éducation.»

Sodome et Gomorrhe, Marcel Proust

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Por quem os sinos dobram

Disse mal da minha vida durante os 4 meses e meio que vivi quase paredes-meias com uma igreja, cujos sinos se faziam ouvir, pelos menos, 3 vezes ao dia. Algumas das minhas rotinas não tiveram outro remédio senão adaptar-se e moldar-se ao som metálico (e gravado) que, normalmente, durava perto de cinco minutos de cada. Fechava janelas perto das 12h, quando tinha vídeo-chamadas ou telefonemas, caso contrário era difícil ouvir o que me diziam; o toque das 18h alertava-me para a aproximação do final de dia de trabalho e o das 19h30 lembrava-me de começar a pensar em preparar o jantar. Ao fim-de-semana, os horários eram um pouco diferentes. Em alguns casos, para pior: nas noites mais longas ou de ida mais tardia para a cama, cheguei a ser acordado, no dia seguinte, uma ou outra vez, pelo toque pouco antes das 10h.

De regresso a Lisboa, dei por mim a aperceber-me (consciencializar-me), pela primeira, de que também, por aqui, se ouvem sinos de igreja. O som é bastante mais distante e não consegui ainda depreender a frequência e os horários. Mas até nisso a exposição temporária a sinos estrangeiros me afectou: desenvolvi uma espécie de sino-sensibilidade.  

domingo, 26 de julho de 2020

Bruit

«J'en conclus plus tard qu'il y a une chose aussi bruyante que la souffrance, c'est le plaisir, surtout quand s'y ajoutent (...) des soucis immédiats de propreté.» 

Sodome et Gomorrhe, Marcel Proust

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Com salada de pimento

Nos dias que correm, fazer uma greve e obrigar quem não tem transporte próprio a ir (ainda mais) ensardinhado do que o normal dentro de uma carruagem, não é propriamente responsável. Como se não tivesse existido uma discussão sobre a frequência de transportes públicos. 

quinta-feira, 23 de julho de 2020

A marca

Segundo o que foi noticiado pela revista Sábado, o que terá suscitado a indicação (ordem?) para os professores da casa não referirem a sua afiliação quando emitem a sua opinião terá sido a defesa da marca Nova SBE. Resta saber se o custo reputacional de vir a público que uma faculdade prefere que os seus professores não indiquem onde trabalham para não incomodar as instituições filantrópicas não será ainda maior.  

terça-feira, 21 de julho de 2020

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Chega pra lá

A recomendação para evitar os cumprimentos com apertos de mão são como música para os ouvidos do Paulinho Santos 

domingo, 19 de julho de 2020

Gouailleuse

« - (...) Tout le monde n'aime pas être pleuré de la même manière, chacun a ses préférences.
- Enfim, il lui a voué un vrai culte depuis sa mort. Il est vrai qu'on fait quelquefois pour les morts des choses qu'on n'aurait pas faites pour les vivants.
- D'abord », répondit Mme de Guermantes sur un ton rêveur qui contrastait avec son intention gouailleuse, «on va à leur enterrement, ce qu'on ne fait jamais pour les vivants!»»

Le côté de Guermantes, Marcel Proust

quinta-feira, 16 de julho de 2020

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Reconversão

One child nation é um documentário sobre a política de filho único que vigorou durante décadas na China. Uma das pessoas entrevistadas pela realizadora é a parteira que a ajudou a nascer. À altura, essa senhora, como as demais colegas de profissão, acumulava um conjunto inusitado de tarefas: para além de realizar partos, levava a cabo abortos e esterilizações (forçadas) de mulheres. Hoje em dia, como forma de (auto-) penitência, ajuda casais com problemas de fertilidade. 

domingo, 12 de julho de 2020

Uma questão de asteriscos

Aquando da designação de significant other, de imediato perguntou qual o respectivo p-value. 

sábado, 11 de julho de 2020

Começo a invejar as malas de senhora

Há um momento a partir do qual não se sai de casa sem carteira e chaves. No meu caso, a carteira terá vindo pelos 10 anos, aquando da passagem da escola primária para o ciclo, onde andar com dinheiro passou a ser necessário. As chaves vieram mais tarde: havia sempre alguém em casa. Depois inventaram o telemóvel e, algures lá para o final da minha adolescência, passou a somar-se ao conjunto de coisas que automaticamente coloco nos bolsos antes de sair de casa. Agora passámos também a ter a máscara, que que coloco no móvel de entrada no sítio dos objectos indispensáveis, para evitar esquecimentos pela falta de automatização de hábitos e gestos. 

domingo, 5 de julho de 2020

At arm's length

A distância passou, nos dias que correm, a ser um tópico incontornável por uma razão bastante palpável. Distância física, neste caso. Para além desta, há também uma distância, não necessariamente física, entre pessoas. O relacionamento entre pessoas é, entre outros, função dessa distância, que tem um determinado nível óptimo: há aqueles que funcionam bem aos mesmos 2 metros recomendados pelas autoridades de saúde, como outros a 2 centímetros, e mesmo outros a 2 milhas. No limite, a 2 mil milhas, que começa a ser o equivalente a dizer que o melhor relacionamento é a sua ausência. 

Determinar essa distância não é pêra doce, não é fácil calcular essa função quadrática e maximizá-la. É um equilíbrio, como quase tudo. E como quase todos, difícil de manter, como diz o cliché. O problema é a assimetria do erro por defeito ou por excesso. É perfeitamente possível lidar com o primeiro, quase ad eternum; já o último é, normalmente, irreversível: depois da constatação da falta de adequação, por excesso, de um determinado nível de proximidade, é virtualmente impossível voltar atrás. Pelo que os erros de julgamento tendem a só ser feitos uma vez: a última.   

sábado, 4 de julho de 2020

Prisão domiciliária - 116º dia

É possível que tenha deixado de ser uma prisão. Agora que penso nisso. Em primeiro lugar, pelo regresso a casa, que claramente foi uma considerável melhoria de qualidade de vida. Depois pela habituação, pela normalização, à bruta, de uma circunstância que deveria ser altamente anormal. O eventual regresso ao escritório, seja lá quando isso for, tem o potencial (crescente no número de dias que ficamos em casa) de vir a ser sentido como a prisão que foi a ida para casa. Agora que penso nisso.  

sexta-feira, 3 de julho de 2020

A localidade chama-se Galiza.

Fica no topo (chamemos-lhe assim) de São João do Estoril e tem uma ligação familiar especial. Para além disso, foi na escola desta localidade que andei nos 5º e 6º anos. Lembro-me, naquela altura, quando alguém exclamava perante o curioso toponímico, a piada que mais se fazia nome era dizer que ficava em Espanha. Há uns tempos, ao sair da auto-estrada, passei pela antiga estrada (agora há uma nova que evita passar pela localidade a caminho de São João) e reparei na placa com a indicação do nome: um maduro qualquer acrescentou um "le" no início da palavra. Apeteceu-me voltar atrás e actualizar a piada, substituindo Espanha por Jamaica. 

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Cedo erguer

Costumamos dizer de alguém que respeitamos e a quem reconhecemos mérito, que merece que lhe ergam uma estátua. No actual contexto, o homenageado é capaz de recusar.  

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Alouette

Aqueles que dizem não se arrepender de nada deviam começar por se arrepender exactamente por dizerem que não se arrependem de nada. Das duas uma: ou não é verdade, ou é altamente irresponsável. 

segunda-feira, 29 de junho de 2020

domingo, 28 de junho de 2020

Cão que ladra

«L'amour? avait-elle répondu une fois à une dame prétentieuse qui lui avait demandé: "Que pensez-vous de l'amour? L'amour? je le fais souvent mais je n'en parle jamais.»

Le côté de Guermantes, Marcel Proust

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Arricar-se

De acordo do com o critério etário, a Guerra da Coreia passou a ser um grupo de risco do Covid.

Off with their heads

É possível que a introdução de quotas para determinados cargos, como forma de combater a desigualdade de género, possa conduzir a um aumento das operações de mudança de sexo. 

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Tosse

Há umas décadas atrás, os assaltos com agulhas, presumivelmente infectadas com sida, surgiram e passaram a ser a alternativa à mão armada de arma convencional. Hoje, parece que tossir pareceu a ser uma arma que explora o medo do Covid.

terça-feira, 23 de junho de 2020

domingo, 21 de junho de 2020

Prisão domiciliária - 103º dia

Desconfinamento em solo nacional com o receio, em pano de fundo, de um possível futuro confinamento.  

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Prisão domiciliária - 101º dia

Sinto-me como os prisioneiros que são transferidos de uma prisão de alta segurança para outra. Continuo encarcerado mas tenho muito mais comodidades.  

terça-feira, 16 de junho de 2020

Os paus já cá cantam, venham os contos

Quando muitos lamentavam a entrada em cena dos euros e o adeus dos escudos, com razões certamente bastante certeiras, a mim ocorria-me a grande perda que seria não voltar a ouvir as denominações de "paus" e "contos", cuja utilização estava submetida a regras muito estritas. Senão veja-se: 500 paus mas nunca meio conto; 1000 paus, raramente um conto (só se fosse dito por uma pessoa de mais idade, seguido de "de reis"); 1500 paus, nunca um conto e meio; 2 contos, nunca 2000 paus, 2 contos e quinhentos, e etc. 

Recentemente, voltei a ouvir a expressão "paus". 20 paus são, nos tempos que correm, 20 euros. Assim como também ouvi 50 paus e 100 paus e por aí fora. Foi toda uma nostalgia que me invadiu, o regresso de uma expressão que não ouvia há décadas, senão quando dito por brasileiros a falar de reais. Há uma certa fase de ajustamento - 20 paus equivalem (nominalmente) aos 4 contos de antigamente, ou seja, não dá para pensar muito nos valores, não vá uma pessoa baralhar-se. Mas depois é aceitar e seguir em frente. 

Aguardo agora pelos contos. 

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Prisão domiciliária - 96º dia

Ao 15º dia de confinamento veio-me à cabeça a música dos Xutos. Ao 96º também, embora com uma perspectiva diametralmente oposta.  

Euros com cêntimos.

O sotaque nortenho saltou logo à vista (ou ouvido, neste caso). Não era daqueles muito carregados e incisivos mas mais do que suficiente para ter uma ideia muito precisa da latitude de origem. O mais interessante surgiu na altura do pagamento, quando me disse que tinha de pagar X euros com Y. Isso mesmo que ouviram (ou leram, neste caso). Não foi X euros e Y cêntimos, a formulação típica e standard. Foi X euros com Y (sem cêntimos a acompanhar), à boa maneira espanhola, algo que eu não tinha visto (nem ouvido) dizer a um compatriota. E depois o murcon sou eu. 

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Do the right thing

Finalmente, passados estes anos todos, sentei-me a ver um dos mais aclamados filmes do Spike Lee. Estranhamente, o que mais gostei no filme foi o crescendo de irritação que ele consegue gerar. É possível que, em tempo de confinamento, esteja mais susceptível à irritação. Ainda assim, a constante tensão e fricção entre os personagens é desgastante. A certa altura era já eu próprio que queria saltar para o meio da película e (tentar) fazer com que se calassem. Conclusão: fui para a cama irritado. 

 Dito isto: ainda a meio, cheguei à conclusão de que não iria gostar. Não me enganei: confirmou-se e, quando cheguei ao fim, cheguei à conclusão de que não gostei. Não porque ache que o filme seja mau per se: não é. Ou que faça um mau retrato da realidade: acho que é um retrato fidedigno. E continua a ter uma actualidade arrepiante: vejam-se os recentes acontecimentos nos EUA. 

 O que não me agrada é a nítida intenção de dar uma lição, a carga de didatismo ou proselitismo, que instintivamente me repele. Neste particular, estou com o Ricardo Araújo Pereira, que, segundo o próprio, não faz humor para mudar o mundo, mas para fazer as pessoas rir (um objectivo totalmente inesperado). O Spike Lee tem uma posição diametralmente oposta: a arte serve para mudar o mundo. 

 Não que ache impossível ou errado que a arte faça mudar o mundo: pode ser uma consequência natural. O que irrita é que o ponto de partida seja exactamente esse: mudar o mundo. Parece uma quase presunção ou sobre-autoestima moral. Para senhora sabichona, de dedo em riste, com uma propensão inata para dar sermões aos outros, já me bastou a minha avó.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

To give the floor

A expressão to give the floor já é engraçada de se ouvir aquando da passagem de testemunho em apresentações, seminários ou palestras com componente física. Agora, no ambiente virtual em que estas coisas se fazem via webinar, a expressão toda uma nova força.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Apron strings

Apenas no contexto da maçonaria a não atribuição de um avental a uma senhora pode ser visto como discriminação de género.

sábado, 6 de junho de 2020

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Prisão domiciliária - 85º dia

Sinto o espirro a aproximar-se pouco tempo depois da comichão no nariz e na garganta começar. Nesta altura do ano, o mundo vegetal gosta de me pregar partidas e tem o condão de interferir com o meu bem estar. Viro-me para o lado da estrada, com a boca tapada a tempo do primeiro e, logo a seguir, do segundo. Quando volto os olhos novamente para o passeio, lá à frente, a uns bons 20 metros de mim, duas senhoras, que caminham no passeio na minha direcção, tiram rapidamente as máscaras da respectiva mala e ajustam-na à cara, mesmo a tempo de se cruzarem comigo em perfeitas condições de segurança.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Pêle-mêle

Quando o médico lhe disse que tinha um problema de higiene de sono, não conseguiu evitar insurgiu-se perante as acusações de, digamos, badalhoquice e perguntou-lhe se tomar banho antes de ir para a cama resolveria o problema.

domingo, 31 de maio de 2020

sexta-feira, 29 de maio de 2020

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Vertu

«(...) ce n'est pas que la richesse sans plus, la richesse sans la vertu, fût aux yeux de Françoise le bien suprême, mais la vertu sans la richesse n'était pas non plus son idéal. La richesse était pour elle comme une condition nécessaire de la vertu, à défaut de laquelle la vertu serais sans mérite et sans charme. Elle les séparait si peu qu'elle avait fini par prêter à chacune les qualités de l'autre, à exiger quelque confortable dans la vertu, à reconnaître quelque chose d'édifiant dans la richesse.»

Le côté de Guermantes, Marcel Proust

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Prisão domiciliária - 78º dia

À chegada ao supermercado, duas senhoras aguardavam a sua vez de entrar, algo que, normalmente, não acontece a esta hora matinal. Permaneci na fila, atrás delas, respeitando a distância protocolar, até, pelas portas automáticas, sair a pessoa que me deu o seu lugar. Entrei, coloquei nas mãos o desinfectante fornecido à entrada e segui esfregando-as, preparando-me para começar o monótono processo das compras, tentando navegar pelo espaço exíguo sem me aproximar demasiado dos outros e, ao mesmo, sem deixar que os outros se aproximem demais de mim. Alguns minutos depois, após ter passado a secção das frutas e legumes, onde normalmente dedico uma grande parte de todo o tempo empregue no abastecimento alimentar, apercebo-me que me esqueci de ajustar a máscara a tapar a boca e o nariz: ainda está como saí de casa, ao queixo, onde a deixo até entrar em sítios fechados, para minimizar o desconforto. Não há rigorosamente nada estranho com o meu esquecimento; ao invés, é absolutamente inacreditável que ninguém me tenha chamado a atenção, de forma escandalizada, para a minha falha.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Version N.0

O populismo de Steve Bannon, segundo o próprio, só é, ao fim do dia, diferente do da esquerda de Bernie Sanders na medida em que apresenta soluções distintas. Na génese, ambos identificam correctamente o mesmo problema: o actual sistema capitalista de oligarcas e servos (servos russos, para ser mais preciso). Não consigo perceber se Marx estará a anuir ou a dar voltas na campa.

domingo, 24 de maio de 2020

Être dans les choux

Van Gogh enveredou pela pintura depois de ter chegado à conclusão que não tinha grande ouvido para a música.

sábado, 23 de maio de 2020

Embaixada da língua

Se a embaixatriz é a esposa do embaixador, então actriz devia ser a mulher do actor. Já a mulher que impera deveria ser a imperador e a que representa deveria ser actora. Analogamente, o esposo da embaixadora deveria ser o embaixatriz, o da imperadora deveria ser o imperatriz e da actora o actriz.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Prisão domiciliária - 73º dia

Em Roma sê romano: coloquei duas salsichas bojudas na frigideira quente, ao mesmo tempo que um bocado de arroz fervia num pequeno tacho. As salsichas têm um formato arredondado, o que faz com que repousem naturalmente em alguns lados e outros fiquem naturalmente sem contacto com a superfície quente. Para evitar que partes ficassem com uma coloração rosado-crua e outras escuro-carbonizada, fui ajeitando, de garfo e faca na mão, para forçar que o calor fosse uniformemente aplicado. Tarefa nem sempre fácil, uma vez que se tratava de duas e não apenas uma mas, devo dizer, estava a sair-me relativamente bem quando, já perto de um grau de fritura satisfatório, um som estridente e ensurdecedor (e enlouquecedor) se fez ouvir pelo apartamento, bem como, calculo, por toda a vizinhança.

Tratava-se do pequeno aparelho redondo, branco, colocado no tecto da sala, a que vulgarmente chamam detector de incêndio, e que gritava a plenos pulmões, com uma pequena luz vermelha a pulsar. Não tive muito tempo para aprofundar a profunda (pleonasmo à parte) falta de lógica: já fiz tanta coisa nesta cozinha com igual grau de frigideira, não se entende o porquê desta queixa súbita e histérica. Atravesso a sala de frigideira na mão (não tentem isto em casa), abro a porta que dá para varanda e ai coloco a fonte do sinistro, longe da fonte do ruído. De seguida abro todas as janelas possíveis e imaginárias (esta casa tem mesmo muitas janelas), abro a porta do quarto, que tinha fechado por causa do cheiro, e também aí escancaro as janelas e, finalmente, a porta da rua, para forçar uma corrente de ar.

O aparelho infernal não pára. Já a imaginar uma invasão de bombeiros, já a imaginar todo o género de explicações - juro que estava só a fazer o jantar, pode ver, ainda está na varanda, tem bom aspecto, não tem? Não senhor, não fumo! - reparo, repentinamente, que há um pequeno botão, uma espécie de uma patilha mesmo ao lado da irritante luz vermelha que pulsa freneticamente. Pego na cadeira, ponho-me em cima, e carrego naquela coisa em desespero de causa. O barulho continua. Carrego novamente, com mais convicção, com muita mais convicção, com a convicção de quem está farto desta chinfrineira e só quer o jantar que lentamente arrefece ao ar livre da varanda.

O aparelho infernal não pára. Desisto, salto da cadeira, quem te disse que aquela patilhazita é para se carregar, se calhar aquela porcaria daquele botão não serve para nada ou então serve para outra porcaria qualquer. Considero pegar nos papéis que me entregaram quando me mudei, com os contactos a utilizar em caso de emergência. Quando revolvo a cabeça à procura do local onde os guardei, sou obrigado a reconhecer que, de repente, tudo parece silencioso. Redirecciono a atenção da procura dos papéis para o aparelho infernal e reparo que se calou.

Pego na frigideira e ponho-a novamente na chapa, mais que não seja para voltar a aquecer as salsichas. Reparo que, na confusão, me esqueci do arroz, que começa a querer pegar ao tacho: retiro da chapa, mexo rapidamente e alegro-me por ver que não chegou a queimar. Ponho tudo no prato, onde já estavam os brócolos. Fecho quase todas as janelas e deixo só as que têm rede mosquiteira. Finalmente janto.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Linearidade

De mau que era a fazer associações, traçava paralelos entre assuntos totalmente ortogonais.

terça-feira, 19 de maio de 2020

À prende avec des gants

Apesar do combate à corrupção, patente em processos judiciais de grande mediatismo, envolvendo altas figuras da nossa sociedade, a verdade é que parece que pouco progresso foi alcançado: nunca se ouviu falar tanto de luvas como agora.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Prisão domiciliária - 69º dia

Primeira refeição num restaurante em meses. A empregada de mesa recebe-nos de máscara (quase não se percebe o que diz), leva-nos para uma mesa socialmente distante. Regressa com uma folha A4 plastificada (e desinfectada), a fazer de menu, e um impresso para preenchermos o nome, contacto, data e hora.

domingo, 17 de maio de 2020

Au fur et à mesure

If all of this sounds familiar, it’s because, pre-Covid, this precise app-driven, gig-fuelled future was being sold to us in the name of friction-free convenience and personalisation. But many of us had concerns. About the security, quality and inequity of telehealth and online classrooms. About driverless cars mowing down pedestrians and drones smashing packages (and people). About location tracking and cash-free commerce obliterating our privacy and entrenching racial and gender discrimination. About unscrupulous social media platforms poisoning our information ecology and our kids’ mental health. About “smart cities” filled with sensors supplanting local government. About the good jobs these technologies wiped out. About the bad jobs they mass produced.

And most of all, we had concerns about the democracy-threatening wealth and power accumulated by a handful of tech companies that are masters of abdication – eschewing all responsibility for the wreckage left behind in the fields they now dominate, whether media, retail or transportation.

That was the ancient past, also known as February. Today, a great many of those well-founded concerns are being swept away by a tidal wave of panic, and this warmed-over dystopia is going through a rush-job rebranding. Now, against a harrowing backdrop of mass death, it is being sold to us on the dubious promise that these technologies are the only possible way to pandemic-proof our lives, the indispensable keys to keeping ourselves and our loved ones safe.

sábado, 16 de maio de 2020

Tell me lies, tell me sweet little lies

«Le genre de fraude qui consiste à avoir l'audace de proclamer la vérité, mais en y mêlant pour une bonne part des mensonges qui la falsifie, est plus répandu qu'on ne pense et même chez ceux qui ne le pratiquent pas habituellement, certaines crises dans la vie, notamment celles où une liaison amoureuse est en jeu, leur donner l'occasion de s'y livrer.»

À l'ombre des jeunes filles en fleurs, Marcel Proust

quinta-feira, 14 de maio de 2020