Ou não resistir à vontade de riscá-los, de torná-los totalmente ilegíveis, como se nunca tivessem estado naquele bocado de papel. Num misto de alívio e alguma raiva, descarregada nervosamente através da caneta. Isto até aos novos pontos fazerem o seu caminho até entrarem na lista, numa nova lista ou na mesma, agora com adições. Qual rol de compras de mercearia que parece nunca acabar: há sempre coisas para substituir no frigorífico e na despensa. Uma subjugação em pontos, uma ditadura em alíneas.
sexta-feira, 18 de setembro de 2020
quinta-feira, 17 de setembro de 2020
Era isso que não conseguia aceitar
(e não entender, entendia perfeitamente): que não fica mais fácil com o passar do tempo. Não interessa a experiência e o calo, os cabelos brancos e a mundividência. Podem ajudar conjunturalmente, em determinadas situações e casos. Mas não estruturalmente.
quarta-feira, 16 de setembro de 2020
Ácido
No recente documentário sobre Miles Davis "Birth of the cool", Carlos Santana descreve o acid jazz, ao qual o músico do trompete a certa altura se dedicou, como música que tinha o condão de pôr sóbrios os que estavam a tripar em ácidos e pedrados os que estavam sóbrios.
quinta-feira, 10 de setembro de 2020
Feel the need
Numa palestra na Google, um dos espectadores pergunta a Christopher Hitchens se não sente a necessidade de se juntar a outros ateus, como ele, para, de uma forma organizada, defender as suas ideias face às organizações religiosas que estão do outro lado da discussão, a defender posições contrárias. Ou seja, a organização como forma de nivelar a contenda. Hitchens começa por responder de uma forma surpreendentemente mais abrangente:
«I'm no longer a joiner up of groups. I don't feel the belonging need anymore. I used to when I was younger and more left that I am now feel that, the need to be involved in an organized way. Now I don't, and I think I probably have more influence as an individual than I ever did as a cogwheel in a so-called party.»
terça-feira, 8 de setembro de 2020
Com algum atraso
segunda-feira, 7 de setembro de 2020
Não tinha uma opinião nada original (como não costumo ter, verdade seja dita)
A minha aposta era a de tantos outros: que Djokovic iria vencer este Open dos Estados Unidos, o que lhe abriria a porta para definitivamente atingir as marcas de Nadal e Federer.
E depois acontece um evento estranho e raro que culmina na desqualificação do sérvio, que atingiu, sem querer, uma juíza de linha, quando devolvia uma bola para trás, após o final de um ponto. O resultado não poderia ser outro, e os antecedentes são bastante claros: que o digam, por exemplo, Fernando Meligeni que, em 1999, foi desqualificado do Open do Estoril por ter acertado num espectador e David Nalbandian que foi pelo mesmo caminho no torneio de Queens de 2012, após ter dado um chuto numa placa de madeira perto da cadeira do árbitro de linha, que acabou por o mandar ao chão.
A questão de ser voluntário ou não é de menor importância para esta sanção em concreto. Da mesma forma que, se bater no carro que vai à minha frente, serei sempre culpado, independentemente da potencial condução errática e perigosa do outro condutor faça. A responsabilidade é mina de garantir que consigo sempre imobilizar o meu carro sem embater no da frente. Ora, qualquer jogador de ténis é responsável por não magoar ninguém - de uma acção que não resulte do próprio jogo, claro.
A questão seguinte é a severidade da punição. Parece brutal excluir alguém por algo que é claramente não-intencional - não se trata de, voluntariamente, demorar muito tempo entre pontos, partir uma raquete ou ofender o árbitro, situações normalmente punidas com sanções de importância crescente, a partir de uma primeira advertência verbal sem nenhuma consequência material, até penalizações de um ponto, jogo, partida. Mas, verdade seja dita, mesmo involuntariamente, Djokovic pôs em risco a integridade física de uma pessoa.
Pela positiva, fica a reacção de Djokovic que, embora tenha trocado palavras com a equipa de arbitragem e tentado contra-argumentar, nunca perdeu a compostura e, quando percebeu que não havia volta a dar, aceitou e abandonou o court. Mais, reconheceu publicamente o erro e pediu desculpas à juíza de linha. Contraponha-se esta reacção com a de Serena Williams, aquando do seu episódio na final do mesmo Open dos Estados Unidos, em 2018.
sábado, 5 de setembro de 2020
Ainda sobre Abe
O Japão é uma espécie de candeia que vai à frente e alumia duas vezes, um canary in the coal mine. Por alguma razão se fala na japanificação, uma ameaça do possível alastramento, às restantes economias avançadas, de uma performance económica anémica, caracterizada por estagnação, inflação baixa ou mesmo deflação, e taxas de juro muito baixas.
Em 2013, Shinzo Abe tornou-se primeiro-ministro, e levou consigo para o trabalho a sua estratégia de 3 setas: política monetária audaz, política orçamental flexível e estratégia de crescimento. Embora objectivamente houve metas não atingidas (por exemplo, o objectivo de inflação) as opiniões dividem-se no que concerne à avaliação do legado de Abe. Seja como for, a Abenomics simbolizou uma viragem de página com determinação, uma pedrada no charco. Talvez por isso, o anúncio da sua saída da vida política activa, por motivo de doença, seja, em si, outra viragem de página.
quinta-feira, 3 de setembro de 2020
Genuflexão virtual
quarta-feira, 2 de setembro de 2020
terça-feira, 1 de setembro de 2020
Da leitura de sorrisos
Os povos asiáticos são, amiúde, mal interpretados no que respeita a sorrisos: um sorriso genuíno pode facilmente ser interpretado por um amarelo (mas não vice-versa).
domingo, 30 de agosto de 2020
Rubrica descubra a inconsistência
Em entrevista ao Expresso, o Primeiro-ministro é questionado se será necessário o Governo apoie directamente algumas empresas. O Primeiro-ministro inicia a sua resposta mencionando que tal já foi feito nos casos da TAP e Efacec. Explica que, para o efeito, tem à disposição o Banco de Fomento, bem como instrumentos de capitalização "que permitem acorrer a empresas viáveis, social e economicamente (...) e que estejam a enfrentar situações conjunturais que exijam essa intervenção.".
E depois acrescenta a seguinte questão: "Se quero pôr dinheiro em empresas que estavam a falir?" à qual, de imediato, responde enfaticamente que não, acrescentando "Não faz sentindo estar a consumir recursos dos contribuintes para alimentar artificialmente quem estava falido."
sábado, 29 de agosto de 2020
sexta-feira, 28 de agosto de 2020
terça-feira, 25 de agosto de 2020
sábado, 22 de agosto de 2020
Ainda sobre a escolha de Kamala
Joe Biden tinha feito o compromisso de escolher uma vice-presidente. Em si, embora relativamente refrescante, não é totalmente inédito: Sarah Palin foi a escolhida por John McCain para o segundo posto. O que seria verdadeiramente novo seria a escolha de alguém da ala mais esquerda do Partido Democrata, como Elisabeth Warren. Alguém com um discurso mais progressista, que defende, entre outros, o acesso universal a cuidados médicos e educação, o combate à desigualdade, a taxação de grandes fortunas, e tem um discurso bastante duro em relação ao sector financeiro, aos bancos e a Wall Street.
Ora Biden não é nada disto: o ex-vice de Obama tem, normalmente, um posicionamento muito próximo do centro da distribuição do Partido Democrata. Desse ponto de vista, um second-in-command com as características de Warren daria uma grande complementaridade e, concorde-se ou não, uma lufada de ar fresco.
Em contraste, o posicionamento político de Kamala está seguramente mais próximo do de Biden. Por outras palavras, ao escolher uma mulher afro-americana, tenho dúvidas que Biden esteja a fazer mais história do que se tivesse escolhido a caucasiana Elisabeth Warren. Conquistar os votos afro-americano e latino não é o principal objectivo desta escolha: estes são grupos que tipicamente votam democrata. É, ao invés, uma escolha cautelosa, que evita o risco de potencialmente alienar parte dos votos democratas, que não receberiam Warren de braços abertos. Por alguma razão os mercados reagiram bem à nomeação de Kamala.
quinta-feira, 20 de agosto de 2020
quarta-feira, 19 de agosto de 2020
Zona
O DVD ficou repleto de erupções cutâneas e bolhas e foi diagnosticado com um grave problema de zona.
terça-feira, 18 de agosto de 2020
sábado, 15 de agosto de 2020
sexta-feira, 14 de agosto de 2020
quinta-feira, 13 de agosto de 2020
That little girl was me
O antigo vice-presidente escolheu, para vice-presidente na sua candidatura a presidente, a mulher que tinha dito que ele poderia ser o seu vice-presidente, quando ela própria estava na corrida para a eleição do candidato democrata à presidência.
segunda-feira, 10 de agosto de 2020
All in
Mais do que skin in the in the game, os actores porno têm foreskin in the game (excepto circuncidados, claro).
domingo, 9 de agosto de 2020
Os filósofos e os jogadores de rugby têm vidas relativamente parecidas
Ambos passam a vida a (procurar) fazer ensaios.
sábado, 8 de agosto de 2020
Os apelidos não eram o problema.
Porque os apelidos decorrem de uma regra, o resultado de um processo social ou cultural, que estabeleceu a importação de, pelo menos, o último apelido da mãe e o do pai, bem como a ordem pela qual devem aparecer na designação da geração seguinte. A questão residia com o nome próprio que é, única e exclusivamente, decorrente de uma escolha (dentro da lista de nomes próprios admissíveis, bem entendido). Mais e pior: uma escolha alheia. E não própria, para usar o mesmo termo do próprio nome próprio.
Por isso, ao entrar na Conservatória do Registo Civil, com o intuito de submeter um requerimento para alterar o nome próprio, só tinha uma coisa na cabeça: reclamar um quinhão de liberdade ao aniquilar uma parte da liberdade alheia. Não havia outra forma senão através deste jogo de soma nula.
sexta-feira, 7 de agosto de 2020
Também funciona na afirmativa
Um jardineiro que não sabe podar é um jardineiro que não sabe da poda.
quinta-feira, 6 de agosto de 2020
Beber para recordar
quarta-feira, 5 de agosto de 2020
terça-feira, 4 de agosto de 2020
Às vezes, vem de onde menos se espera
domingo, 2 de agosto de 2020
Gesundheit
sábado, 1 de agosto de 2020
Ta tãã ta tããã pa pã pãã
sexta-feira, 31 de julho de 2020
Der frühe Vogel fängt den Wurm
quinta-feira, 30 de julho de 2020
De "hábil" a "habilidoso" não vai uma distância muito grande.
quarta-feira, 29 de julho de 2020
Igualdade através de desigualdade
terça-feira, 28 de julho de 2020
La mauvaise éducation
segunda-feira, 27 de julho de 2020
Por quem os sinos dobram
domingo, 26 de julho de 2020
Bruit
sábado, 25 de julho de 2020
Faltou uma cerimónia com as principais figuras de Estado e a dedicatória aos profissionais de saúde
sexta-feira, 24 de julho de 2020
Com salada de pimento
quinta-feira, 23 de julho de 2020
A marca
terça-feira, 21 de julho de 2020
Contradição de termos
segunda-feira, 20 de julho de 2020
Chega pra lá
domingo, 19 de julho de 2020
Gouailleuse
sábado, 18 de julho de 2020
Macht
quinta-feira, 16 de julho de 2020
quarta-feira, 15 de julho de 2020
Reconversão
segunda-feira, 13 de julho de 2020
domingo, 12 de julho de 2020
Uma questão de asteriscos
sábado, 11 de julho de 2020
Começo a invejar as malas de senhora
sexta-feira, 10 de julho de 2020
quinta-feira, 9 de julho de 2020
Como se não tivéssemos já suficiente com que nos ralar
quarta-feira, 8 de julho de 2020
terça-feira, 7 de julho de 2020
segunda-feira, 6 de julho de 2020
domingo, 5 de julho de 2020
At arm's length
sábado, 4 de julho de 2020
Prisão domiciliária - 116º dia
sexta-feira, 3 de julho de 2020
A localidade chama-se Galiza.
quinta-feira, 2 de julho de 2020
Cedo erguer
quarta-feira, 1 de julho de 2020
Alouette
terça-feira, 30 de junho de 2020
segunda-feira, 29 de junho de 2020
domingo, 28 de junho de 2020
Cão que ladra
quinta-feira, 25 de junho de 2020
Arricar-se
Off with their heads
quarta-feira, 24 de junho de 2020
Tosse
terça-feira, 23 de junho de 2020
segunda-feira, 22 de junho de 2020
domingo, 21 de junho de 2020
Prisão domiciliária - 103º dia
sexta-feira, 19 de junho de 2020
Prisão domiciliária - 101º dia
terça-feira, 16 de junho de 2020
Os paus já cá cantam, venham os contos
segunda-feira, 15 de junho de 2020
sexta-feira, 12 de junho de 2020
Prisão domiciliária - 96º dia
Euros com cêntimos.
quinta-feira, 11 de junho de 2020
Do the right thing
quarta-feira, 10 de junho de 2020
To give the floor
terça-feira, 9 de junho de 2020
Apron strings
segunda-feira, 8 de junho de 2020
sábado, 6 de junho de 2020
Prisão domiciliária - 88º dia
sexta-feira, 5 de junho de 2020
quinta-feira, 4 de junho de 2020
quarta-feira, 3 de junho de 2020
Prisão domiciliária - 85º dia
terça-feira, 2 de junho de 2020
segunda-feira, 1 de junho de 2020
Pêle-mêle
domingo, 31 de maio de 2020
Prisão domiciliária - 82º dia
sábado, 30 de maio de 2020
sexta-feira, 29 de maio de 2020
quinta-feira, 28 de maio de 2020
Vertu
Le côté de Guermantes, Marcel Proust
quarta-feira, 27 de maio de 2020
Prisão domiciliária - 78º dia
terça-feira, 26 de maio de 2020
Version N.0
domingo, 24 de maio de 2020
Être dans les choux
sábado, 23 de maio de 2020
Embaixada da língua
sexta-feira, 22 de maio de 2020
Prisão domiciliária - 73º dia
Tratava-se do pequeno aparelho redondo, branco, colocado no tecto da sala, a que vulgarmente chamam detector de incêndio, e que gritava a plenos pulmões, com uma pequena luz vermelha a pulsar. Não tive muito tempo para aprofundar a profunda (pleonasmo à parte) falta de lógica: já fiz tanta coisa nesta cozinha com igual grau de frigideira, não se entende o porquê desta queixa súbita e histérica. Atravesso a sala de frigideira na mão (não tentem isto em casa), abro a porta que dá para varanda e ai coloco a fonte do sinistro, longe da fonte do ruído. De seguida abro todas as janelas possíveis e imaginárias (esta casa tem mesmo muitas janelas), abro a porta do quarto, que tinha fechado por causa do cheiro, e também aí escancaro as janelas e, finalmente, a porta da rua, para forçar uma corrente de ar.
O aparelho infernal não pára. Já a imaginar uma invasão de bombeiros, já a imaginar todo o género de explicações - juro que estava só a fazer o jantar, pode ver, ainda está na varanda, tem bom aspecto, não tem? Não senhor, não fumo! - reparo, repentinamente, que há um pequeno botão, uma espécie de uma patilha mesmo ao lado da irritante luz vermelha que pulsa freneticamente. Pego na cadeira, ponho-me em cima, e carrego naquela coisa em desespero de causa. O barulho continua. Carrego novamente, com mais convicção, com muita mais convicção, com a convicção de quem está farto desta chinfrineira e só quer o jantar que lentamente arrefece ao ar livre da varanda.
O aparelho infernal não pára. Desisto, salto da cadeira, quem te disse que aquela patilhazita é para se carregar, se calhar aquela porcaria daquele botão não serve para nada ou então serve para outra porcaria qualquer. Considero pegar nos papéis que me entregaram quando me mudei, com os contactos a utilizar em caso de emergência. Quando revolvo a cabeça à procura do local onde os guardei, sou obrigado a reconhecer que, de repente, tudo parece silencioso. Redirecciono a atenção da procura dos papéis para o aparelho infernal e reparo que se calou.
Pego na frigideira e ponho-a novamente na chapa, mais que não seja para voltar a aquecer as salsichas. Reparo que, na confusão, me esqueci do arroz, que começa a querer pegar ao tacho: retiro da chapa, mexo rapidamente e alegro-me por ver que não chegou a queimar. Ponho tudo no prato, onde já estavam os brócolos. Fecho quase todas as janelas e deixo só as que têm rede mosquiteira. Finalmente janto.
quarta-feira, 20 de maio de 2020
Linearidade
terça-feira, 19 de maio de 2020
À prende avec des gants
segunda-feira, 18 de maio de 2020
Prisão domiciliária - 69º dia
domingo, 17 de maio de 2020
sábado, 16 de maio de 2020
Tell me lies, tell me sweet little lies
À l'ombre des jeunes filles en fleurs, Marcel Proust







