sábado, 5 de agosto de 2017

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

terça-feira, 1 de agosto de 2017

sábado, 24 de junho de 2017

Ainda a propósito de Miguel Beleza

Duas coisas. Primeiro, a presença de espírito para não perder a noção daquilo que somos - e continuamos a ser - apesar do que possamos ter alcançado. Ou, dito de outra forma, (e taulogicamente) para não nos acharmos mais do que aquilo que somos. E segundo, o sentido de humor. Que não somos menos sérios por sermos irreverentes e largarmos uma piada em situações sérias. Parafraseando (ou na, volta, literal e inadvertidamente citando) o Ricardo Araújo Pereira, a circunspecção não é sinónimo de seriedade.

domingo, 18 de junho de 2017

Paciente

A palavra que designa aquela que tem paciência é também aquela que designa aquele que tem uma doença. Eventualmente porque, durante a convalescença, é preciso paciência para esperar que a cura faça efeito e a maleita passe e deixe de nos afligir. Ou, no pior dos cenários, se não houver cura, é sempre caso para dizer "paciência".

Memórias fictícias

Fictitious memories do not only afflict those who have been traumatized; people with stable backgrounds also struggle to distinguish between experiences that they had themselves and those they absorbed through someone else’s stories. Studies show that people will come to believe that they were in an accident at a family wedding, were attacked by an animal, or had tea with Prince Charles, if they are told that family members saw it happen. The more often the stories are told, the more likely the memories are to be implanted. A 2015 study in Psychological Science found that seventy per cent of people, when subjected to highly suggestive and repetitive interviews, would come to believe that they had committed a crime. They developed what the authors called “rich false memories,” detailed and multisensory, of having perpetrated a theft or an assault. The authors wrote that “imagined memory elements regarding what something could have been like can turn into elements of what it would have been like, which can become elements of what it was like.” In the past thirty years, roughly a hundred men and women in the United States have confessed to crimes for which they have later been exonerated by DNA evidence.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Quebrar a rotina

«É bem sabido que a imprensa e o audiovisual têm sempre algo novo a noticiar. Eles vivem da descontinuidade, dos acontecimentos do dia, mas também das informações que sublinham a inovação nas opiniões, modas ou calamidades. Isto contrapõe-se à contínua repetição que caracteriza a vida da maior parte das pessoas. A participação nesta inovação é, portanto, para o indivíduo, uma oportunidade de escapar à rotina da vida quotidiana com uma olhadela pela janela»

A improbabilidade da comunicação, Niklas Luhmann

terça-feira, 13 de junho de 2017

Casa de cartas

Congressman: So this is a straight up bribe.
Frank Underwood: Oh no congressman, a bribe is something you can refuse

terça-feira, 6 de junho de 2017

Culpabilidade

Reparo causalmente no número de vezes que um vídeo no youtube foi visualizado e apercebo-me de que uma percentagem substancial é-me devida.

domingo, 4 de junho de 2017

Z49

Nos filmes, os fugitivo da Justiça são, muitas vezes, na verdade, fugitivos da injustiça.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Costuma dizer-se que ninguém é insubstituível

Meia-verdade. Todos somos substituíveis, é certo, mas numa determinada função ou papel. Não em absoluto: aí somos todos total e completamente insubstituíveis.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Quando a fava é, afinal, um brinde

Comfort food é normalmente associado a junk food gordurosa e doces de preferência com muito açúcar. Já a mim, um pratinho de favas faz milagres aos meus estados de alma.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Ir à bola com compositores italianos

Verdi é claramente do Sporting, já Rossini deve ser do Benfica. Alvíssaras a quem identificar o nome adequado a um portista.

terça-feira, 23 de maio de 2017

terça-feira, 16 de maio de 2017

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Um bocadinho de cartão branco, uma tira vertical com uma lista de compras.

Não reparei que estava no carrinho de supermercado até o ter tirado para usar. Alguns items saltaram-me, inadvertidamente, logo à vista - queijo, gel banho, fiambre, leite - mas, de repente, quando reparo em "iogurtes pai", sinto uma imediata personalização daquela lista. E, consequentemente, que ler aquela tira de papel é uma invasão da privacidade da pessoa que se esqueceu dela. Para terminar com aquilo que passa a ser um voyeurismo meu, ponho-a no lixo.

domingo, 14 de maio de 2017

3 em 1

Curioso que tenha escrito sobre a não-existência de coincidência há cerca de 15 dias. Coincidência? Imagino a associação que já terá sido feita inúmeras vezes entre os acontecimentos de ontem, em particular, da possibilidade de um deles contribuir para os outros dois. Afinal de contas, uma associação que, entre outras personalidades, o anterior Presidente da República fez, a propósito de outro assunto, e a sugestão da esposa.

Em essência são, efectivamente, acontecimentos pouco prováveis. Provavelmente não voltarão a acontecer tão depressa. Mas não significa que, para que aconteçam, necessitem de um alinhamento cósmico qualquer. Pouco provável não significa impossível: o pouco provável, às vezes, acontece mesmo.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Re-procurar

«'I said to him,' said Knowles,'"This here's a re-search laboratory. Re-search means look again, don't it? Means they're looking for something they found once and it got away somehow, and now they got to re-search for it. How come they got to build a building like this, with mayonnaise elevators and all, and fill it with all these crazy people? What is it they're trying to find again? Who lost what?" Yes, yes!'

Cat's cradle, Kurt Vonnegut

terça-feira, 9 de maio de 2017

Joe Lovano na capa de Bird Songs

"At the young age of 34, Charlie Parker passed and left us with open questions about what would be. I kept wondering how bird would have developed within these tunes, not just as the incredible soloist that he was but as an arranger and band leader. Bird Songs is my humble attempt to answer some of those questions in my own way."

domingo, 7 de maio de 2017

Annapurna

Em 1950, uma equipa liderada pelo francês Maurice Herzog atingiu, pela primeira vez, o topo de uma das catorze montanhas com mais de oito mil metros: o Annapurna de 8091 metros. Um feito obviamente notável, embora condenado rapidamente a ser relegado para uma posição secundária pela natural ofuscação que a projecção da primeira ascensão ao Evereste havia de gerar, apenas três anos depois.

No livro com o mesmo nome do pico cujo cume alcançou, Herzog relata a expedição. Os capítulos que descrevem as condições físicas durante a descida, o estado de saúde e os tratamentos, são particularmente arrepiantes. Outro aspecto marcante é o quão pouco se sabia sobre aquelas regiões inóspitas. Grande parte do trabalho do grupo foi um processo inicial de reconhecimento das montanhas que, até então, eram totalmente desconhecidas. Aliás, o grupo começa por explorar o Dhaulagiri e concluir que este pico, com mais umas dezenas de metros de altitude que o Annapurna, era inacessível e, apenas por isso, decidem tentar escalar este último - o Dhaulagiri haveria de ser conquistado apenas em 1960.

Para além destas questões mais centrais e impressionantes há outros elementos bastante curiosos. Por exemplo, a descrição da chegada a Delhi com uma monstruosidade de material e o processo alfandegário que envolveu com as autoridades indianas. O meu preferido: o facto de, ao fim de uma intensa e árdua jornada, no ar rarefeito da alta montanha, propício aos problemas de saúde relacionados com a altitude - e para os quais, já na altura, estavam devidamente alerta, embora seguramente não se soubesse tanto como se sabe hoje - os alpinistas descansavam e relaxavam acendendo um cigarro para acompanhar o chá.

sábado, 6 de maio de 2017

Nós e os outros

«The villagers gathered round gesticulating:
'Americans?'
'No, French.'
'- ?'
'Yes, French.'
As if this were conclusive proof, they nodded approval:
'American!'
'No, there are Americans, and there are Englishmen, but we are French.'
'Oh yes! But you're Americans all the same!'

Annapurna, Maurice Herzog

terça-feira, 2 de maio de 2017

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Não há coincidências

Frase perigosa porque o fortuito faz parte da vida e das coisas. Há mesmo coincidências e não aceitar que existem leva, por vezes, ao estabelecimento de relações e nexos de causalidade onde eles, pura e simplesmente, não existem.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

O que tu dizes

«É quase como uma regra psicanalítica: interessa-me o que tu dizes, não o que queres dizer.»

Malparado, Pedro Mexia

domingo, 23 de abril de 2017

Diferente

«Começa-se com um «mas tu és diferente», e depois teme-se que tudo seja igual.»

Malparado, Pedro Mexia

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Teoria geral do blogue

«John Ashbery explicou assim a sua poesia: quando as pessoas falam umas com as outras, a certa altura aborrecem-se; mas quando uma pessoa fala sozinha, toda a gente quer ouvir.»

Malparado, Pedro Mexia

Prelude n6

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Estranhar e entranhar

É já perto do final do livro - de alguma espessura, diga-se - que me apercebo que está escrito com a nova ortografia. De repente, dou por mim a perscrutar todas as palavras daí para a frente, à caça das alterações. As mesmas que, há uns tempos atrás, identificaria de imediato, de gritantemente estranhas que me pareciam.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Onésimo Teotónio Almeida em entrevista ao Expresso.

O passado, sobretudo a glória dos Descobrimentos, é uma obsessão nacional?
Sim, é uma obsessão constante. Os portugueses têm um grande complexo de inferioridade em relação ao centro e ao norte da Europa. E a única salvação é o "também já fomos grandes!".

A saudade é mesmo um sentimento português?
É um mito. Abusa-se da palavra saudade. Para os portugueses tudo é saudade, até há saudades do futuro! E não é verdade que seja intraduzível, os outros também têm saudade. Os ingleses expressam-na com "I'm missing", "I'm longing" ou "homesick", por exemplo.

sábado, 15 de abril de 2017

Tinoni

Desço a rua e, atrás de mim, e de forma crescente, o som estridente de uma ambulância que se aproxima. Com dificuldade, a lutar contra o trânsito matutino. Levo as mãos aos ouvidos, incomodado. Olho em frente e reparo num casal de turistas, parados à espera do semáforo. Viram-se para a ambulância, ele pega no telemóvel e fotografa (ou filma).

terça-feira, 11 de abril de 2017

Entrou pelo lado contrário ao do banco do piano, que está sempre à esquerda de quem olha para o palco.

Avançou trôpega, desequilibrada, como quem luta, em simultâneo, com o vestido justo e os saltos altos. Ou, pura e simplesmente, bebeu um copo ou dois a mais. Como sempre, o vestido é vistoso. Neste caso, escuro, com lantejoulas, longo, com uma cauda, as costas abertas e um decote apertado. Só não tinha a racha que é, normalmente, estrategicamente colocada na perna direita para, com a orientação do piano e do banco, ficar virada para o público.

A mão a deslizar pelo rebordo do tampo do piano enquanto caminhava, até que parou de frente para o público e fez uma vénia pronunciada, teatral de exagerada que foi. Sentou-se e deu início aos 24 prelúdios de Chopin. Um por cada uma das tonalidades maiores e a sua respectiva relativa menor, ordenados pelo ciclo das quintas. Não que tens tocado mal - duvido que o consiga sequer fazer. Mas foi pouco convincente, pouco embrenhada de forma que esperaria ver. Talvez o público tenha tido alguma responsabilidade: por mais de uma vez, no momento em que inspirou e ergueu os braços na direcção do teclado para começar o prelúdio seguinte, foi desconcentrada pela tosse de um qualquer espectador. Voltou com as mãos atrás, ajeitou-se na cadeira, coçou a cabeça.

Veio o intervalo. Os vinte minutos escritos no programa esticaram para meia hora, momento a partir do qual alguns dos espectadores, impacientes, começaram a bater palmas e a assobiar. Aos trinta e cinco minutos, o apresentador anunciou que a jovem pianista chinesa regressaria dentro de cinco minutos. E voltou. A mesma entrada atabalhoada, embora, desta vez, as variações e fuga sobre um tema de Händel de Brahms tenham soado de outra forma.

E depois veio talvez a melhor parte do concerto. Yuja Wang é conhecida pelos encores e esteve à altura dessa fama. Foram seis e impressionantes (um dos quais, fenomenal, aqui em baixo). Entrou e saiu todas estas vezes, uma delas esbarrou contra a porta giratória que dá acesso ao palco e, na entrada seguinte, não conseguiu não se rir um pouco. É possível que tenha fumado umas coisas durante o intervalo. Se o fez, apoio incondicionalmente. Porque resultou.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Bom para a tosse

Os espectadores deviam receber uma colherada de xarope antes de entrar para um concerto.

domingo, 9 de abril de 2017

Chamava-me Daniel com cara de Francisco.

Achava que o meu nome não me assentava, vá-se lá saber porquê. Falava alto e bom som, com uma desenvoltura incaracterística, numa daquelas vozes que enchem qualquer sítio. Uma voz que saía da cadeira onde se sentava sempre, apropriada ao corpo doente, às pernas e ao tronco enfezados. Gritante o contraste que aquela cadeira especial fazia com as restantes cadeiras (normais) da sala de espera.

Respondi à pequena provocação mantendo o mesmo tom a roçar o jocoso. Um puto de 10, 11 anos a gozar comigo. E ficámos um pouco à conversa. Mas a certa altura não resistiu e baixou a guarda. Havia um grupo de pessoas mais à frente na outra sala e disse-me que o que queria mesmo era poder andar como eles. Largou-me esta frase na cara mas não teve a coragem de manter o olhar em mim, virou o pescoço e olhou para os outros.

Deixou-me a sofrer para lhe conseguir responder: que raio se diz? Não me lembro o que me saiu da boca (recalquei?), apenas fiquei com a impressão - ténue, dado o tempo que já passou - que terei conseguido, ainda assim, desfazer aquele aparente nó górdio em que a conversa se tinha transformado. A morder-me todo por dentro.

É que, pior do que angústia da consciência da sua limitação, dificilmente não teria noção do seu próprio desfecho necessariamente precoce. Que, entretanto, já deverá ter acontecido: passaram anos suficientes para que a sua longevidade injustamente reduzida tenha chegado ao fim.

sábado, 8 de abril de 2017

terça-feira, 4 de abril de 2017

Pernão

A um esquiador prestes a começar uma prova de slalom deseja-se boa sorte dizendo "break a leg"

domingo, 2 de abril de 2017

1 Slam e 2 Masters. Em Abril

Vindo de mim, que não costumo fazer grandes vaticínios: a caminho de voltar a nº1 aos 36 anos. Lá para o final do verão.

Outubro

«De que falava eu? Do amor... da minha primeira mulher... Quando nos nasceu um filho, chamámos-lhe Outubro. Em honra do décimo aniversário do Grande Outubro. Eu queria também uma filha. «Se queres um segundo filho de mim, quer dizer que me amas», disse ela, rindo-se. «E como chamaremos à nossa filha?» Eu gostava do nome Liublena, formado das palavras «amo Lenine». A minha mulher escreveu numa folha de papel todos os seus nomes preferidos: Marxana, Stalina, Engelsina... Iskra... Os que estavam na moda. Ainda tenho essa lista na secretária...»

O fim do homem soviético, Svetlana Aleksievitch

sábado, 1 de abril de 2017

Como as malas muito cheias

A rebentar de cheias, daquelas que só se fecham quando uma pessoa pesada se senta em cima delas: se se abrem, é uma chatice para voltar a fechar.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Jazz e folk americana pela mão dos noruegueses Ballrogg

(Publicado originalmente aqui)

Os noruegueses Ballrogg estiveram no Pequeno Auditório da Culturgest na noite de quinta-feira, 30 de Março. O trio vai realizar uma pequena digressão por terras lusitanas: depois deste concerto na Culturgest, passa 6ª pelo Jazz Festival de Portalegre, para depois seguir para o Porto e tocar na Casa da Música a 6 de Maio, e só depois regressará à Escandinávia.

Recuemos até aos primórdios, altura em que este trio era, na verdade, um duo, composto apenas pelos saxofones e clarinetes de Klaus Ellerhusen Holm e o contrabaixo de Roger Arntzen. Então este era um duo que se inspirava em músicos como Eric Dolphy, que apostava em estruturas não-lineares e indeterministas. Desde 2011, no entanto, a pedal steel guitar e o banjo de Ivar Grydeland juntaram-se e acabaram por contribuir, de forma indelével, com uma sonoridade algures entre o country e o western. E, desta forma, juntou-se ao grupo e tornou-se mais um exemplo – acaso fosse necessário outro – da proliferação de um sem número de formações escandinavas que têm contribuído para reinventar e, dessa forma, também propagar a música folk americana.

Entretanto, desde este ano, Grydeland passou o testemunho à guitarra de David Stackenäs, que tem um papel interessante na dinâmica deste trio. Por um lado, a guitarra acústica assume normalmente um carácter harmónico bastante vincando, num conjunto de acordes com cordas soltas e muita cor. Nesta vertente, dá-nos uma sonoridade pouco habitual, possivelmente devido a esta conjugação menos recorrente de instrumentos. Por outro lado, quando esta guitarra acústica é rendida por uma eléctrica – uma Telecaster linda –, deixa um pouco de lado a harmonia e joga mais com a intersecção de melodias com o clarinete e o saxofone ou, ainda, com o ruído de fundo da distorção e do metal do bottleneck contra o aço da corda. Por vezes, esta Telecaster ganha uma sonoridade diferente, a fazer lembrar um blues mais cru, daqueles que remetem para plantações de algodão e para o Tom Sawyer a correr ao lado de Huckleberry Finn, à medida que o barco a vapor percorre as águas do Mississipi.

De acordo com os músicos, embora exista uma moldura ou uma estrutura de cada tema, o espaço deixado livre para cada um é bastante grande. Sente-se um esbater das linhas entre aquilo que é improvisação e o que não é, uma gestão maleável que, à partida (e à chegada também) parece difícil de implementar, mas que este trio executa sem dificuldade de assinalar. Se esta forma de tocar e abordar os temas possa encaixar este trio na gaveta do free jazz, é também de salientar que a sonoridade acústica – mesmo que pontuada por elementos electrónicos aqui e ali, que se sente sobretudo nos efeitos e no loop da guitarra e do contrabaixo – os afasta de uma certa vertente mais agressiva associada àquela etiqueta.

O ónus de dizer umas palavras ao público recai sobre Ellerhusen Holm. E digo ónus porque claramente não é a função em que está mais confortável. Pergunta-nos se pode falar em inglês connosco. Explica-nos que é a primeira vez que estão no nosso país com esta formação e que estão a apresentar o mais recente álbum, Abaft the Beam, lançado pela portuguesa Clean Feed. Custa 500 euros, diz-nos para quebrar o gelo com uma piada que não tem piada. E acrescenta que “abaft” significa “behind the middle of the boat”, explicação que arranca uma risada ao resto da banda (“à popa”, segundo o que apurei).

“It’s been a pleasure playing for you”, diz-nos mais perto do fim e eu sou forçado a depreender a palavra “pleasure” porque, da mistura com o sotaque original, ia jurar que aquilo que disse se pareceu mais a “pressure”. “The pressure is all mine”, apetece-me responder-lhe.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Nome

Percebo porque outros comentam, felicitam o pai. Aproveito a informação para, de imediato, fazer o mesmo e, quando a apanho a jeito, faço o mesmo à mãe. Em minha defesa, está de casaco comprido vestido, não é fácil perceber. Falamos um pouco, primeiro conversa de circunstância. E depois diz-me, com um sorriso genuíno, que deverá ficar com o meu nome. Há ainda alguma indecisão com Tiago e o irmão, às cavalitas do pai, também tem as suas ideias. Explico-lhe que, do meu ponto de vista, não há qualquer discussão possível, a escolha deveria ser óbvia. E ela responde, destoando completamente da minha piadola anterior, acrescentando aquilo que já não consigo reproduzir na perfeição, mas que foi qualquer coisa como
Gosto de todos os Danieis que conheço, são boas pessoas
e que, por isso, o nome deverá assentar bem ao filho que aí vem. Perdi o pio por um bocadinho e é possível que tenha ficado ligeiramente embevecido.

terça-feira, 28 de março de 2017

domingo, 26 de março de 2017

Diz-me que está sempre mal disposto de manhã.

Rabugento, responde torto, mais vale nem lhe dirigirem a palavra. E depois vai melhorando ao longo do dia - de facto, ao final do dia, hora a que normalmente o vejo, está sempre sorridente e bem humorado. Diz-me que nunca recusa um convite para sair à noite, está sempre pronto, mas nem tentem convidá-lo para nada de manhã. E acrescenta que, se ganhasse o Euromilhões, a única excentricidade que cometeria seria nunca mais dizer bom dia a ninguém.

sábado, 25 de março de 2017

Mauro Maria #2

Berliner Mauro

Todos os nomes do Jazz em Agosto de 2017

(Publicado originalmente aqui)

A Fundação Calouste Gulbenkian revela-nos os nomes que virão à 34ª edição do Jazz em Agosto. Neste ano de 2017, serão catorze os concertos programados para o festival e que certamente contribuirão para aquecer ainda mais as já de si escaldantes noites do pino do verão.

As hostilidades iniciam-se com o saxofonista nova iorquino Steve Lehman (desconhecemos se tem irmãos) na sexta-feira 28 de Julho, com o novo projecto designado Sélébéyone, um termo que, no dialecto africano wolof – segundo a Wikipedia, falado no Senegal, Gâmbia e Mauritânia – significa “intersecção”. Neste contexto, o termo alude à fusão entre jazz e hip hop, já que se trata de uma colaboração com os rappers HPrizm/High Priest (Antipop Consortium) e Gaston Bandimic, um nome que, ao que consta, goza de grande projecção no Senegal. Lehman voltará a estar em destaque na tarde do dia seguinte, desta vez a solo.

Curiosamente, as hostilidades encerram, no domingo 6 de Agosto, num tom muito semelhante ao do concerto de abertura, com os High Risk do trompetista Dave Douglas. Apesar de fazer a junção entre os mundos do jazz e da electrónica este não é, apesar do nome, um projecto arriscado: pelo contrário, a ligação entre os dois mundos surge fluída e natural onde, no limite, nenhum dos elementos sobressai ou é dominante face ao outro.

Regressemos à ordem cronológica, brevemente interrompida por este salto (i)lógico para o concerto de encerramento, e deparamo-nos com David Torn, cuja quase interminável lista de colaborações inclui nomes como Madonna, Tori Amos, John Legend e David Bowie, que se lhe referia como o Yo-Yo Ma da guitarra. O guitarrista traz-nos um trio designado Sun of Goldfinger, que conta com a colaboração do saxofonista Tim Berne – que nos visitou o ano passado com os Snakeoil – e o baterista Ches Smith.

De seguida surge-nos o guitarrista Julien Desprez a solo, na tarde de domingo, 30 de Julho, num show repleto de ritmo, efeitos e luzes designado Acapulco Redux. Desprez estará novamente em acção no mesmo dia, no espectáculo da noite, inserido na Coax Orchestra. Dirigida pelo compositor e baterista Yann Joussein, esta orquestra bebe tanto das referências que estão na génese do free jazz, como Ornette Coleman, assim como em jazz moderno que cruza com, por exemplo, elementos do rock.

Na segunda-feira seguinte, a guitarra será, uma vez mais, a rainha da noite. Desta vez num registo completamente diferente na medida em que se trata de uma guitarra atípica: uma pedal steel guitar, a especialidade da americana Heather Leigh, companhia do saxofonista alemão Peter Brotzmann. Os dois músicos trazem-nos Ears filled with wonder, exactamente como esperamos sair deste concerto.

Uma menção especial àqueles que terão em mãos a tarefa de assegurar a representação nacional. A primeira representante será a trompetista Susana Santos Silva, que, no primeiro dia de Agosto, nos trará a sua mais recente formação, um quinteto designado Life and Other Transient Storms composto por músicos escandinavos. No dia seguinte, será a vez do Sudo Quartet, ao quala pertence o violinista Carlos Zíngaro, que tocará com os igualmente muito experientes Joëlle Léandre no contrabaixo – e que também conta com uma excelente voz –, Paul Lovens na bateria e Sebi Tramontana no trombone. Finalmente, o contingente português terá a sua última participação na tarde de sábado 5 de Agosto, com o duo português EITR constituído por dois Pedros, um Sousa e um Lopes.

Após o quarteto Starlite Motel, que irá juntar, no dia 3 de Agosto, três músicos escandinavos (alguns deles com nomes que levam bolinhas em cima das vogais, e que nem me atrevo a digitar) o americano Jamie Saft, colaborador assíduo de um tal de John Zorn, damos por nós a atingir a recta final da programação. Chegados que estamos àquele que será o último fim-de-semana do festival, na sexta-feira dia 4, o saxofonista Larry Ochs apresenta-se com os seus Fictive Five. Este é um nome que quase parece saído de um livro de Enid Blyton embora a música seja inspirada e, inclusivamente, dedicada, a nomes ligados ao cinema, como o alemão Wim Wenders ou a americana Kelly Reichardt, bem como ao artista visual sul-africano William Kentridge. Umas horas antes, na tarde do mesmo dia, o contrabaixista Pascal Niggenkemper subirá ao palco a solo, seguramente com o seu estilo desconcertante, a testar os limites físicos e as sonoridades do instrumento.

Este que vos escreve faz agora uma confissão sem, no entanto, ter qualquer intenção de se penitenciar: o momento que aguarda com maior expectativa é o que está reservado para o último sábado do festival. Uma autêntica formação de luxo, com os saxofonistas Chris Speed e Andrew D’Angelo, o baterista Jim Black e o guitarrista Kurt Rosenwinkel. É isso mesmo, caro leitor, adivinhou, trata-se de, nada mais nada menos do que os Human Feel, o quarteto formado por estes músicos de topo enquanto ainda estudantes, e que foi sobrevivendo lateralmente, à margem dos respectivos ilustres e notórios percursos individuais.

Os bilhetes custam entre 12 e 20 euros e podem também ser adquiridos passes para a globalidade do festival, por 100 euros, ou para os fins-de-semana, por 35 euros.

E assim será o Jazz em Agosto de 2017. Como sempre, a rebentar de óptima música. Não sei quanto a vocês, mas para mim avizinham-se seis longos meses de espera.