quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Nojo

Há alguns cargos para os quais, após o fim ou interrupção do mandato, mais do que um período de nojo até ocupar outro cargo relevant, deveria existir um período de nojeira. Ou mesmo de badalhoquice.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A mãe de todos os vícios

Arranjar espaço para a preguiça. Deixá-la crescer, progredir, desenvolver-se lentamente. Como uma flor nas mãos de um jardineiro. Um cozinhado elaborado nas mãos de um chef conceituado. Um filho que se educa. A preguiça como arte. Um conceito que se elabora e constrói, que se põe em prática numa obra para deleite próprio e alheio. E, sobretudo, que custa horas (muitas) e dedicação (muita). Nisso a preguiça pode enganar à primeira vista (e à segunda, e à terceira) - precisa de trabalho (sim, trabalho). Precisa de esforço aturado (um contra-senso). E até nisso é como a sua bête noire, o trabalho: sabe bem, tanto melhor na medida do que nela se investe.

domingo, 7 de setembro de 2014

Marcelo dixit

Mil setecento'xinquenta e seis
(tenho alguma dificuldade em pôr por escrito)

Chamar os bois pelos nomes

Para além das secções típicas como "país", "internacional", "economia" ou "política", a maioria dos jornais deveriam ter também uma outra designada, por exemplo, "imbecilidades" ou "parvoíces pegadas". A classificação não seria muito complicada; o risco é que a última esgote o material das primeiras.

sábado, 6 de setembro de 2014

Entretanto em Queens

Os deuses do ténis relembram-nos que tudo pode - e na volta até deve - acontecer.

Pretensão e água benta

Estipular um caminho partindo do princípio que é exactamente o que os outros querem trilhar. Assumir o pré-conhecimento de vontades e motivações alheias. Barreiras pelo caminho, como as provas de equitação. Tudo com o intuito de induzir um determinado comportamento, arrancar uma resposta. Prémios, recompensas à medida que as barreiras são transpostas. Ou torrões de açúcar, como os que se dão aos cavalos pelas exibições deles pretendidas. E, como é do conhecimento geral, todos os cavalos gostam de açúcar.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Biggest Loser, how did I let myself go like this ou o mal que as férias me fazem

As reduções de peso em absoluto das três equipas no concurso são medidas, concorrente a concorrente. A equipa cuja redução for menor perde um dos seus membros como penalização. O sacrificado é aquele que tiver perdido menos peso, desta vez em proporção do respectivo peso inicial. É um momento tenso (ou de tensão artificialmente gerada): cada equipa tem o seu treinador ou preparador físico e são eles que introduzem o elemento de competitividade ao programa. Uma versão física da meritocracia americana: exercito e tenho cuidado com o que como, logo tenho direito a ser saudável e ter este aspecto.

A equipa branca perdeu. No monitor começam a aparecer, por ordem decrescente, os elementos e a percentagem de peso que perderam em relação ao peso inicial. Um tipo latino gordo (pleonasmo neste contexto) é o sacrificado. Fica pior que estragado. Chora. Os outros choram também, tanto da equipa dele como das adversárias. Logo agora que tinha conseguido tantos resultados positivos, que estava a progredir, voltar para casa é o pior que lhe podia acontecer. O discurso típico de um loser do Biggest Loser.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

There are many like it but this one is mine

Um dos problemas de máquinas fotográficas mais elaboradas é o tempo que é necessário para preparar o apetrecho, desde escolher a lente e acoplá-la, até à definição dos parâmetros certos da velocidade e abertura do obturador, etc.. Claro que, por vezes (muitas vezes), este tempo de preparação sai caro em matéria de fotografias perdidas. De tal forma que os cursos de fotografia deveriam contemplar esta questão. Acho até que deveriam ser parecidos com as técnicas que os militares aprendem para montar rapidamente as armas. Vem-me à cabeça o gordo Pyle no Full Metal Jacket, o recruta que não consegue transpor os obstáculos e é vítima de bullying dos demais companheiros de caserna, e que ganha o respeito do Sargento Hartman com a perícia a montar a espingarda. Tanta fotografia que seria salva.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Live score

O velhote na cadeira de rodas, de lado para o banco. Um chapéu na cabeça. Quase sempre ao final da tarde. Sempre o mesmo banco. Ela sentada, de perna cruzada, a mão estendida e agarrada a um dos braços da cadeira de rodas. Uma bata que já deve ter sido branca em tempos, agora está apenas suja. A cara cravejada de borbulhas. Às vezes ela fala ao telefone
Estou a passeaarrr
(um sotaque brasileiro nordestino carregado)
Ele continua sempre com a mesma cara distante - carneiro mal morto, a pensar na morte da bezerra.
Mas na maior da parte das vezes, ela limita-se a olhar para baixo, ou para as mãos ou para o chão. Em silêncio. Ele sempre com cara de carneiro mal morto, a pensar na morte da bezerra. Cumprem um horário, calendário. Cumprem um ritual: o ritual de levar o velhote a passear à rua. Na cadeira de rodas, chapéu na cabeça. Ao final da tarde.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Frontloading

Louis CK fala acerca das suas filhas e do seu papel enquanto pai. Contrariamente ao seu estilo self-deprecating (I'm an idiot, I'm broke, my wife hates me, I have no sex, etc.), surpreendentemente afirma que acha ter feito um bom trabalho com as filhas. Depois ilustra melhor aquela que, para ele, é a mais importante tarefa da paternidade: explicar-lhes que a maior parte das vezes não vão conseguir aquilo que querem e que meio caminho para serem felizes é aprenderem a lidar com a desilusão.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Seek and you shall find

As pessoas perdem o autocarro ou o comboio mas nunca os ganham. Também os apanham mas nunca os encontram. Nem mesmo quando os perdem.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Chimerica

Niall Ferguson compara a relação económica entre os EUA e a China - que ele designa de Chimerica - a um casal: primeiro aproximaram-se e os destinos cruzaram-se cada vez mais; agora estão lentamente a afastar-se. A economia global dependente de aconselhamento sentimental.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

So help me God

«A Constituição federal dos EUA, elaborada na Convenção de Filadélfia, é integralmente laica, primando até pela ausência de referencias retóricas a Deus. Contudo, a inércia sociológica e cultural leva, anda hoje, a que o Presidente dos EUA, na sua tomada de posse, jure com a mão sobre a Bíblia, apesar do profundo pluralismo religioso da sociedade norte-americana.»

Portugal na queda da Europa, Viriato Soromenho-Marques

domingo, 17 de agosto de 2014

sábado, 16 de agosto de 2014

Guerra das estrelas

«Para que a Europa sobreviva, os Europeus têm de ser fiéis ao melhor da sua história e à promessa de um futuro comum, alimentada e renovada depois da tragédia dos seus fracassos sucessivos. Talvez valha a pena os Europeus começarem a olhar com mais atenção para as estrelas que cintilam nas longas noites do inverno da nossa crise de destino. Mas o seu significado ainda não brilha, nem na alma dos cidadãos, nem no espírito dos seus líderes.»

Portugal na queda da Europa, Viriato Soromenho-Marques

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Perna de ganso

Os filósofos e os jogadores de rubgy têm essencialmente o mesmo objectivo de vida: fazer ensaios.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Política de casino

No final de 2010, a meio do seu primeiro mandato, Barack Obama teve uma derrota histórica nas eleições intercalares. Perdeu o controlo da Casa dos Representantes para o Partido Republicano por uma margem significativa. A derrota foi estrondosa, punha em causa as suas hipóteses de reeleição em 2012 e levou-o a dizer, no discurso pós-eleitoral, “I need to do a better job”.

Pouco depois de ter tido essa derrota, a CIA comunicou ao Presidente que tinha obtido um conjunto de indicações acerca do eventual paradeiro de Osama bin Laden, numa casa no Paquistão. A informação não era, no entanto, precisa, havia apenas alguns indícios que apontavam nesse sentido.

Durante meses os detalhes do local foram estudados minuciosamente assim como as possibilidades de ataque. Pese embora toda a preparação, a decisão de avançar com uma operação era bastante arriscada e delicada por essencialmente duas razões. Por um lado, não havia nenhuma certeza de que se tratava do esconderijo de bin Laden. Por outro lado, se fosse efectivamente o esconderijo, tal seguramente significaria que existia conivência do governo do Paquistão, até então tido como um aliado pelos EUA. Por esta razão, Obama resolveu não partilhar nenhuma da informação que tinha com o governo paquistanês. Desta forma, havia o risco de os militares americanos serem interceptados por militares paquistaneses no percurso de 190kms entre a fronteira do Afeganistão e o local do suposto esconderijo, e a subsequente crise diplomática que tal geraria.

Como se sabe, a operação foi bem-sucedida. Tratava-se de facto do líder da Al Qaeda e, a 1 de Maio de 2011, o Presidente dirigiu-se ao país, explicando que o terrorista tinha sido morto no decurso da invasão da habitação onde se encontrava. Para além da importância da vitória para a luta americana contra o terrorismo, ela teve um impacto fulcral para o Presidente Obama e catapultou-o para a vitória nas eleições para o segundo mandato. Aliás, pouco tempo depois do anúncio da morte do homem mais procurado do mundo, Barack Obama começou a sua campanha política para a Casa Branca, surfando a onda de boa opinião pública que estava a ter.

A questão que me parece mais interessante nesta história pode ser resumida no seguinte contra-factual: teria a decisão de Obama sido diferente acaso o resultado das eleições intercalares não tivesse sido tão mau e a sua reeleição não estivesse em risco? Por outras palavras, se tivesse, ao invés, bons índices de popularidade, teria ele dado luz verde a uma operação arriscada que poderia pôr em causa a sua imagem junto da opinião pública?

A decisão do líder dos Estados Unidos parece um típico caso de “double or nothing” ou do nosso “perdido por cem, perdido por mil”: quando, partindo de uma situação desfavorável e confrontados com uma decisão arriscada que possa anular ou reverter o resultado final sem, no entanto, alterar materialmente o resultado actual, temos tendência a assumir mais risco do que numa situação normal. Se a operação tivesse corrido mal – porque, p.e., não se tratava do esconderijo de bin Laden – a popularidade do Presidente americano provavelmente cairia ainda mais mas, na prática, muito provavelmente não alteraria em nada o resultado final das eleições. Ao invés, ao ter corrido bem, é um dos maiores cartões-de-visita do seu primeiro mandato aos olhos do eleitorado – mais até do que ter conseguido alargar drasticamente a cobertura médica dos americanos – e, por conseguinte, o acontecimento tido como mais relevante para o levar a conseguir a sua reeleição.


Comportamentos de tomada de risco elevado são relativamente comuns. Mais: como esta história mostra, podem ser perfeitamente racionais do ponto de vista individual. Tudo depende das circunstâncias em que as decisões são tomadas, como a própria sabedoria popular nos explica, basta voltar ao “perdido por cem, perdido por mil”. Infelizmente, nem sempre a melhor estratégia ao nível do interesse individual coincide com a do interesse colectivo.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

domingo, 10 de agosto de 2014

Flipping burgers

O Stata tem um comando chamado twoway com uma série de opções diferentes - curiosamente não tem um threeway.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Burro velho aprende sistemas operativos

Faz por esta altura um ano que mudei para Mac. Uma decisão protelada uma série de anos, no mínimo quatro, altura em que comprei o meu último PC. As incompatibilidades, o software que não corre, a necessidade de adaptação – todos estes papões, essas medeias de sete cabeças, esses abomináveis homens das neves. Temos tido os nossos tête-à-tête, por vezes é preciso bater um pouco com a cabeça na parede. Mas é mesmo pouco. Ao ponto de achar que a decisão de não mudar para Mac precisa de outra razão que a suporte.

domingo, 3 de agosto de 2014

Escudo

O maior problema do wishful thinking não é o wishful: é a ausência de thinking.

sábado, 2 de agosto de 2014

Typo (negative)

O corrector automático é manhoso, actua à revelia. É insistente, é teimoso. Sabe mais a dormir que nós todos acordados. E se essa sobranceria me irrita, tenho que admitir que por vezes tem imensa graça. Com alguma adrenalina à mistura, diga-se que algumas correcções erradas (adoro dizer isto) podem dar azo a situações bem perigosas. Mas, sem esse perigo à espreita, outras são de ir às gargalhadas.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A linha que não separa

Fazer uma linha por debaixo de palavras que se quer destacar, mas nunca por cima. Embora, conceptualmente, sobrelinhar não pareça ser assim tão diferente de sublinhar.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Objectar (conscientemente)

Não concordava com a percentagem de despesa pública empregue em defesa nacional. E então retirava a mesma percentagem da sua declaração de impostos.

terça-feira, 29 de julho de 2014

A definição de inimigo interno

Tentar abrir o site da instituição onde trabalho justamente no local de trabalho e ser bloqueado pelo browser, com uma janela a indicar uma "security threat".

domingo, 27 de julho de 2014

Roda

Virou-se para o moinho com uma cara ameaçadora e disse "comigo não fazes farinha".

sábado, 26 de julho de 2014

As above so below

«de qualquer maneira, não existe isso de "passar o tempo". O tempo não passa.»
Não passa? Que queria ele dizer?
»Como é que eu sei? Talvez seja o contrário: passamos nós no tempo. Como é que hei de saber? Ou talvez o tempo passe pelas pessoas. (...)»

Caixa Negra, Amoz Oz

sexta-feira, 25 de julho de 2014

The frayed ends of sanity #2

Estou na zona de quartos do IKEA quase a acabar de escolher aquilo que preciso e a pensar em sair. De repente, um anúncio daqueles típico
Pede-se ao proprietário do veículo com a matrícula
Por acaso (e só por acaso) apercebo-me que se trata do meu carro - quem é que liga a estes anúncios por microfone, normalmente com vozes nasaladas e monocordicamente aborrecidas? - porque no final do anúncio dizem a marca, o modelo e a cor.
Pego rapidamente nas últimas coisas que preciso e largo no sentido das caixas e da saída. Faço um slalom difícil por entre as pessoas que vão de passeio e caminham a um passo lento, olhando em todas as direcções como se fosse a primeira vez que visitassem a loja sueca. Enquanto tento ultrapassar os obstáculos roçando os limites do código de estrada dos hipermercados e os do carrinho onde tenho as minhas compras (acelerações alucinantes, travagens bruscas), vou imaginando na minha cabeça o que poderá ter acontecido para que me chamem pelo altifalante. Terão batido no meu carro? Terei eu batido em alguém?
Quando finalmente chego perto do carro, vejo um funcionário com uma fila de carrinhos de compras no sítio onde estacionei. Dá-me uma descasca
Acha que isto é sítio para se estacionar?
É então que reparo que estacionei na passadeira que ele precisa de usar para passar. Peço-lhe desculpa (que mais?). E ele continua
Não tinha mais onde estacionar?
O segurança de colete amarelo fluorescente aproxima-se, pergunta-me se ouvi o anúncio, diz-me que não me preocupe que não tem problema
Tem problema tem, estacionei numa passadeira e não dei por isso

quarta-feira, 23 de julho de 2014

The frayed ends of sanity

Paro o carrinho do supermercado encostado num sítio que me parece não importunar o tráfego dos consumidores. Dirijo-me à prateleira em busca de qualquer coisa. Regresso ao carrinho, ponho as coisas no interior e sigo em direção a mais prateleiras e coisas para comprar. Pouco minutos depois, já noutra zona do supermercado, um homem alto vem ter comigo
Desculpe mas esse carrinho é meu
E no momento em que diz isso, olho para o interior e dou-me conta que, de facto, não costumo levar aquele tipo de iogurtes, assim como há tempo que não compro cereais. Peço-lhe desculpa e ele simpaticamente ajuda-me a isolar quais as coisas que entretanto tinha adicionado às dele e, mais do que isso, a localizar o meu carrinho, perdido e abandonado noutro canto do supermercado.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Goodness knows what the end will be

Saber parar de procurar é uma arte.
Know when to fold.
Do poker até à vida sentimental.
Let's call the whole thing off.
Como quase sempre, a resposta a tudo está na música.

domingo, 20 de julho de 2014

Matar moscas com uma carabina

«Section 232 stipulates that each regulatory agency must establish ‘an Office of Minority and Women Inclusion’ to ensure, among other things ‘increased participation of minority-owned and women-owned businesses in the programs and contracts of the agency’. Unless you believe, with the head of the International Monetary Fund, Christine Lagarde, that there would have been no crisis if the best-known bank to fail had been called ‘Lehman Sisters’ rather than Lehman Brothers, you may well wonder what exactly this particular section of Dodd-Frank will do to ‘promote the financial stability of the United States’.»

The Great Degeneration, Niall Ferguson

sábado, 19 de julho de 2014

À medida que o tempo passa, tudo é uma questão de zoom e velocidade do obturador.

Zoom para evitar o lugar-comum da perspectiva mas também pela imagem: quanto maior o trilho, maior o zoom out; quanto maior o zoom out, mais existe para avaliar, até quantificar. E é nessa passagem da fotografia macro – a única possível na juventude – para a grande grande-angular – só possível depois de soprar mais umas quantas velas – que está verdadeiramente o segredo. Em relação à velocidade do obturador, uma fotografia com uma velocidade muito elevada capta minuciosamente um momento de tempo muito preciso. A velocidade mais lenta – no limite o bulb – regista as deslocações, os movimentos arrastados entre os vários momentos.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Something else não é forçosamente something more

O Facebook gosta de facilitar a vida a pessoas como eu que não têm muita pachorra para fornecer informações pessoais. Sugere e palpita hipóteses com base em perfis alheios: aparece à esquerda uma lista e a ligação que deu origem a essa sugestão. O mais giro é, no entanto, o pluralismo: as respostas em branco são admissíveis. Por exemplo, o último item da lista do local de origem é “I don’t have a hometown”. É com a não-resposta que o Facebook lida mal.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Rotunda do Saldanha.

Paro na passadeira: uma velhota curvada, de bengala, com nítida dificuldade em se deslocar aproxima-se. Aliás, paro ligeiramente em antecipação da aproximação dela à passadeira. Ela pára também, olha para a estrada e vê que estou à espera dela – devagar, todos os gestos são feitos devagar. Começa a descer do passeio para o asfalto, faz-me sinal com a mão a agradecer. O tipo atrás de mim, visivelmente irritado, arranca rapidamente, ultrapassa-me e passa pela faixa da esquerda antes da velha ter tempo para chegar à segunda metade da passadeira.

domingo, 6 de julho de 2014

Targeted long-term

Há uma altura em que todos os caminhos parecem convergir para exactamente o mesmo ponto focal. E caminhos que seguem direcções aparentemente distintas. Totalmente distintas. E o pior é que, sem a percepção do verdadeiro destino, nem sequer passa pela cabeça ajustar o trajecto, rever as coordenadas, traçar outro rumo.

sábado, 5 de julho de 2014

Entregar a alma ao criador

Adulterar recordações. Dourar a pílula. Nunca nada é exactamente como nos lembramos (ou pensamos) que foi. Nunca nada é tão bom como a sensação que nos dá ao revermos na nossa cabeça aquilo (que pensamos) que nos aconteceu. Daí a saudade, daí o
dantes é que era
ou
nos bons velhos tempos.
Um passado que teima constantemente em competir com um futuro que teima em ficar sempre aquém das expectativas (enviesadas).
Um erro auto-inflingido. Um erro doce.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Parede esburacada

O comentador da RTP, aludindo à dificuldade de ultrapassar o guarda-redes dos EUA, Tim Howard, que finalmente sofre um golo da Bélgica depois de inúmeras defesas, refere a alcunha pela qual é conhecido: "the wall". O problema é que a pronuncia como "the hole".

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Dislexia

Ainda não me tinha apercebido - pelo menos não tanto como nos últimos dias - o quanto baralho o nome (português) da Argélia: sai-me Algéria de vez em quando. O que faz algum sentido, é um estrangeirismo do inglês Algeria ou do francês Algérie ou do etc. Aliás, segundo a Wikipedia, é assim também na versão autóctone. Agora por que carga de água teríamos nós (os espanhóis também?) de trocar a ordem das consoantes e passar o "l" lá para trás e "r" cá para frente é difícil de entender. É mais ou menos como a história do nosso bacalhau versus o cabalhau dos outros. Já neste último caso não me engano.

domingo, 29 de junho de 2014

Infância

«When I first heard jazz, it wasn’t “jazz”. It was music. I grew up in a household where you could hear Ornette Coleman right next to Otis Reading, where A Love Supreme and Sergeant Peppers were both in heavy rotation, where Old and New Dreams and a Balinese Gamelan Orchestra often shared the same bill. When I was young, I didn’t recognize “jazz” as being categorically separate or substantively different from “blues,” “rock,” “funk,” ”soul,” “classical,” “indian,” “African,” “Indonesian,” or any other of the countless musical genres I heard pipping over the public airwaves or crackling out of my mom’s old reel-to-reel tape recorder. I wasn’t yet conscious of musical styles as well-defined, easily-labeled, intellectually-specific entities. For the most part, I didn’t even know their names.»

Freedom in the groove, Joshua Redman

sábado, 28 de junho de 2014

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Há de haver um dia em que vais parar de procurar.

De buscar, como uma criança perdida. De olhar para os lados, a varrer todo o campo visual. O dia. Há de chegar. Mais tarde ou mais cedo, é uma questão de tempo, vais deixar de procurar, vais deixar de sentir a vontade de continuar à busca, a necessidade de continuar à busca. Vais olhar só para o que tens à tua frente – e não para todos os lados, a varrer todo o campo visual. Como uma criança que se perdeu. E só então vais finalmente ver o que está à tua frente.

domingo, 22 de junho de 2014

Semear o futuro

«It is important to understand that these very large net positions in foreign assets allowed Britain and France to run structural trade deficits in the late nineteenth and early twentieth century. (…) This posed no problem, because their income from foreign assets totaled more than 5 percent of national income. Their balance of payments was thus strongly positive, which enabled them to increase their holdings of foreign assets year after year. In other words, the rest of the world worked to increase consumption by the colonial powers and that the same time became more and more indebted to those same powers. This may seem shocking. But it is essential to realize that the goal of accumulating assets abroad by way of commercial surpluses and colonial appropriations was precisely to be in a position later to run trade deficits. There would be no interest in running trade surpluses forever. The advantage of owning things is that one can continue to consume and accumulate without having to work, or at any rate continue to consume and accumulate more than one could produce on one’s own. The same was true on an external scale in the age of colonialism.»

Capital in the twenty-first century, Thomas Piketty

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O jargão do politicamente correcto em matéria de recursos humanos é sui generis.

Dantes as pessoas eram funcionários, trabalhadores. Agora são colaboradores, uma espécie de promoção designativa que é suposto atentar à sensibilidade dos funcionários e trabalhadores – perdão, colaboradores. É, no fundo, uma questão de tacto. Já não trabalhamos, nem sequer funcionamos: colaboramos. Do ponto de vista linguístico, nem sequer são equivalentes: podemos ser funcionários de uma instituição e não trabalhar puto nem colaborar um boi. Provavelmente a mesma corrente que decidiu rever as tabuletas que se põem ao pescoço dos funcionários – perdão, colaboradores – também reviu a forma como nos devemos referir a elas na terceira pessoa. Do ponto de vista da gestão, calculo eu. Nesse campo, os trabalhadores – perdão, colaboradores – transformam-se em recursos. Às vezes chegam a ser activos. Assets, em estrangeiro, soa mais sofisticado e dá menos azo a piadas de cariz duvidoso.

Aos poucos tenho vindo a aperceber-me que sou isto tudo sem, no entanto, e francamente, sentir que sou rigorosamente alguma destas coisas. Até trabalho, logo devo ser trabalhador. Também tenho um número mecanográfico, logo devo ser funcionário. Costumo colaborar, vai daí sou colaborador. Mas a todos os que me chamam isto tudo ou parte do cardápio (também eles certamente funcionários, trabalhadores e colaboradores, assim como recursos ou activos, em diferentes doses) apetece-me dizer-lhes: sou o Daniel, caso não tenhamos ainda sido apresentados.

Antigamente chamava-se genericamente serviço de pessoal aos actuais recursos humanos. Soa-me estranho e, lá está, antiquado. Mas, ainda assim, sou capaz de me sentir mais representado. Porque os segundos, passe o trocadilho, são impessoais.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

terça-feira, 17 de junho de 2014

Os hinos parecem-me sempre coisas muito desengraçadas.

Pindéricas até. Pensando bem nas coisas, o espanhol é dos meus preferidos porque tem uma grande virtude, seguramente, acidental: não tem letra. Ao menos só sofremos com a música e não levamos com "o meu país é melhor que o teu toma toma".

domingo, 15 de junho de 2014

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Paralaxe

A distância entre aquilo que se percepciona como uma bênção e como uma maldição pode ser muito curta.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Cut the mustard

Já foi há uns quantos anos que Jimmy Connors deixou temporariamente a reforma para assistir aos treinos do Andy Roddick. Foi com a ajuda de Connors que o Roddick voltou a estar em alguns finais de Slams.

Entretanto, Magnus Norman fez uma parceria sueca com Robin Soderling e levou-o à final de Roland Garros duas vezes mas não conseguiu fazê-lo levantar o troféu, tal como ele que perdeu com o Guga no mesmo palco. Parece que agora Norman é treinador do Stan Wawrinka.

Mais recentemente, duas contratações bombásticas: Boris Becker para a box do Djokovic, Stefan Edberg para o do Federer. Outras interessantes: Goran Ivanisevic e Marin Cilic, Ivan Ljubicic do Milos Raonic e Sergi Bruguera e Richard Gasquet.

Uma joint venture que deu que falar foi a de Ivan Lendl e o Andy Murray: o checo/americano parecia ser o ideal para o escocês porque também sofreu até conseguir ganhar o seu primeiro Slam (4,5 finais perdidas?). Agora, poucas semanas depois de ter sido anunciado o fim da relação profissional, chega a notícia mais interessante de todas: a Amèlie Mauresmo como treinadora do Andy Murray, a substituir o Lendl.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Canalha

«(…) other Westerns and I are struck by the emotional security, self-confidence, curiosity, and autonomy of members of small-scale societies, not only as adults but already as children. We see that people in small-scale societies spend far more time talking to each other than we do, and they spend no time at all on passive entertainment supplied by outsiders, such as television, video games and books. We are struck by the precocious development of social skills in their children. These are qualities that most of us admire, and would like to see in our own children, but we discourage development of those qualities by ranking and grading our children and constantly telling them what to do. The adolescent identity crises that plague American teen-agers aren’t an issue for hunter-gatherer children. The Westerns who have lived with hunter-gatherers and other small-scale societies speculate that these admirable qualities develop because of the way in which their children are brought up: namely, with constant security and stimulation, as a result of the long nursing period, sleeping near parents for several years, far more social models available to children through allo-parenting, far more social stimulation through constant physical contact and proximity of caretakers, instant caretaker responses to a child’s crying, and the minimal amount of physical punishment.»

The world until yesterday, Jared Diamond

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Heute wär ich mir lieber nicht begegnet

A tua cara ilumina-se quando me vês. Sorriso rasgado. O brilho dos olhos. Mesmo sem me (re)conheceres
Quem é este menino?
E não sabes. Eu sei que não sabes. Mesmo quando por vezes tentas dar a volta à pergunta, fugir à resposta, és uma mestre a disfarçar. Mas não faz mal. Não me importo. Porque mesmo assim a tua cara, o teu sorriso. Rasgado. Os olhos. O brilho. E aí, nesse momento, sei que sabes quem sou. Mesmo sem me conheceres (reconheceres?).
Então não sabe?
Deixaste o menos importante para trás. Ficaste com o mais importante. Guardaste o que interessa: a tua cara, o teu sorriso. Os olhos. E nisso, para lá de tudo o resto que, bem vistas as coisas, pouco me importa – troco isso tudo pela cara, o sorriso, os olhos. E mesmo quando não conheces, reconheces, sabes
Diga lá quem é este menino
sei que sabes quem efectivamente sou.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Sorge

«(…) food is a major and almost constant subject of conversation. I was initially surprised that my Fore friends spent so much time talking about sweet potatoes, even after they had just eaten to satiation. For the Siriono Indians of Bolivia, the overwhelming preoccupation is with food, such that two of the commonest Siriono expressions are “My stomach is empty” and “Give me some food.” The significance of sex and food is reversed between the Siriono and us Westerners: the Sirionos’ strongest anxieties are about food, they have sex virtually whenever they want, and sex compensates for food hunger, while our strongest anxieties are about sex, we have food virtually whenever we want, and eating compensates for sexual frustration.»

The world until yesterday, Jared Diamond

terça-feira, 3 de junho de 2014

Gaspiller

Gostava de ter de volta toda a energia que gasto em coisas que não interessam para nada mas que, ainda assim, tenho que as fazer. E tenho que as fazer para poder (finalmente) fazer as que verdadeiramente interessam. Do total de esforço envolvido com uma determinada tarefa, uma grande parte não é efectivamente empregue nessa tarefa mas sim em actividades acessórias de necessidade duvidosa mas de utilidade comprovada: levar a cabo as de necessidade e utilidade comprovadas. Não é tanto ou só pela quantidade em si – e ainda assim gasta-se muito. É pela dificuldade de aceitar: cansa sempre mais aquilo que não entendemos e dificilmente aceitamos.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Stickiness

«Anecdotally, there is certainly evidence of a high degree of stickiness in the demand for retail financial services. Statistically, an adult is more likely to leave their spouse than their bank.»

What is the contribution of the financial sector: Miracle or mirage?, Andrew Haldane, Simon Brennan e Vasileios Madouros

domingo, 1 de junho de 2014

Ora aí está

"O que eu quero é destruir a UE, não é a Europa. Acredito numa Europa de nações. Acredito na Airbus e Ariane, numa Europa de cooperação, mas não quero esta União Soviética Europeia"

A propósito dos resultados das europeias

e da proliferação de eurocépticos em Bruxelas, ocorre-me ter um monarca como Presidente da República: D. Duarte em Belém, a Isabelinha primeira-dama. Ou um ateu como Papa, a discursar da varanda do Vaticano, vestido de branco. Um benfiquista como Presidente do Sporting e um sportinguista como presidente do Benfica. Carecas a gerir cabeleireiros, sei lá.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Memo

Em vez de colocar a folha vertical, deitou-a. Lentamente, escreveu o assunto mesmo no centro. Letras grandes, bem vincadas, carregadas. Desenhou uma bola à volta. Oval. Depois assistiu. E desenhou setas. Setas a sair do bola - oval - e até aos extremos da olha de papel: primeiro até ao canto superior esquerdo, depois verticalmente, depois até ao canto superior direito. E em cada uma dessas zonas tirou notas. Pontos, alíneas, travessões. E assim sucessivamente até encher a folha, até ficar com uma espécie de roda de bicicleta com um centro e os raios, uma espécie de constelação.

terça-feira, 27 de maio de 2014

A arte posta numa esquina

«Por mais brutal que seja dizer isto, com a arte do nosso meio e época aconteceu o mesmo que acontece com uma mulher que vende os seus atractivos femininos, destinados à maternidade, para o prazer dos que se sentem tentados por tais atributos.
A arte do nosso tempo e do nosso meio tornou-se uma prostituta. E esta comparação é certeira até aos mais ínfimos pormenores.
(...)
A arte verdadeira não necessita de enfeites, como a mulher amada pelo marido. A arte falsa, como a prostituta, deve ser sempre enfeitada.
A causa do aparecimento da arte genuína é a necessidade interior de expressar o sentimento acumulado, como para uma mãe a causa da concepção sexual é o amor. A causa da arte falsificada é o negocio, assim como da prostituição.»

O que é a arte?, Lev Tolstói

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Música celestial

À porta do Minipreço, parada, procura qualquer coisa com a mão dentro da mala Luois Vuitton.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Sich rar machen

O Truman nunca dava a cara quando as coisas corriam mal, sacudia sempre a água do Capote.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Mir

«Thus, it could not be claimed that some societies are inherently or genetically peaceful, while others are inherently warlike. Instead, it appears that societies do or don’t resort to war, depending on whether it might be profitable to them to initiate war and/or necessary for them to defend themselves against wars initiated by others. (…) It is equally fruitless to debate whether humans are intrinsically violent or else intrinsically cooperative. All human societies practice both violence and cooperation; which trait appears to predominate depends on the circumstances.»

The world until yesterday, Jared Diamond