terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

A sabedoria popular é, normalmente, inequívoca.

Não deixa grande margem para dúvidas. Não há, tanto quanto sei, um equivalente a "deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer" que admita a possibilidade de que deitar tarde e acordar tarde possa ser salutar. "Quem ri por último ri (de facto) melhor". E "não adianta (mesmo) chorar sobre leite derramado". Em alguns casos, até há mais do que um provérbio para vincar a mesma ideia. Por exemplo, "quem anda à chuva molha-se" e "quem brinca com o fogo queima-se" (ou molha a cama).

Mas há também os casos estranhos de provérbios que se contradizem: "quem espera sempre alcança" vs "quem espera desespera" e "quem não chora não mama" vs "ovelha que berra, bocado que perde".

Associo-me à indecisão destes dois exemplos; não sou dos que questionam em que é nos ficamos. Quantas vezes é preciso saber esperar pelo momento correcto mas quantas vezes a espera é infrutífera porque o momento nunca vem. E quantas vezes é preciso fazer barulho e partir para a guerra e quantas vezes o tiro sai pela culatra e a emenda é pior que o soneto.

Conseguir equilibrar e atingir a proporção exacta dos dois é a grande dificuldade.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Autismo testosterónico

«É difícil falar com algumas pessoas; a maior parte das vezes com homens. Tenho uma Teoria sobre o assunto. Muitos homens, com a idade, caem num autismo testosterónico que se manifesta no lento desaparecimento da inteligência social e da capacidade de comunicar com outras pessoas, o que também afecta a faculdade de formular pensamento. Acometido por esta Maleita, o Homem torna-se taciturno e parece mergulhar em profunda meditação. Interessa-se mais por diversos Utensílios e maquinetas. Sente-se mais atraído pela Segunda Guerra Mundial e pelas biografias de pessoas conhecidas, particularmente de políticos e malfeitores. A sua capacidade de ler romances desaparece quase completamente; o autismo testosterónico perturba o entendimento psicológico das personagens.»

Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos, Olga Tokarczuk

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

A depressão de final de férias começou lentamente a instalar-se.

Faltava agora apenas o trajecto do Etosha até Windhoek para terminar a viagem. Pelo caminho, tínhamos uma noite no parque de Waterberg. Dos quartos do sopé da estrutura que forma o planalto ouvia-se constantemente os barulhos agressivos dos macacos, que nos obrigavam a ter as portas e janelas constantemente fechadas para evitar invasões e roubos.

Mais perto do final da tarde, depois da hora de maior intensidade do calor passar, fazemos o trajecto de de 30-40 minutos até ao topo do planalto, de cima do qual a vista para não abarcar o horizonte todo. A sessão de fotografias é intensa. À noite, fazemos um churrasco nas instalações do lodge e sentamo-nos a ouvir, pela última vez, as histórias do Gibson. No dia seguinte, pela hora de almoço, estamos de novo no hotel em Windhoek, prontos para as despedidas.

domingo, 26 de janeiro de 2020

Depois de uma primeira tarde de game drive no Etosha desapontante, notava-se alguma apreensão nas caras, quando nos preparávamos para sair.

Pela frente estava um dia totalmente dedicado a ver bicharada no parque, das sete da manhã às seis da tarde, para aproveitar a extensão total do horário de abertura.

A apreensão foi desfeita não muito depois quando nos dirigimos até um aglomerado de veículos. Não sabíamos o que estariam a ver, apenas que certamente seria algo interessante: um conjunto de leões. Sem possibilidade de obter um bom posicionamento – por sermos dos últimos a chegar e pela dimensão do Elefante – optámos por tentar seguir um primeiro subgrupo, que abandonou a sombra da árvore e começou a caminhar.

Lá mais à frente, parados na estrada a ver os leões a afastar-se por terreno sem acesso aos veículos, tivemos a primeira tirada de sorte do dia: as duas leoas que tinham ficado para trás na árvore, levantaram-se e começaram a caminhar em direcção ao resto do grupo, no preciso momento em que estávamos parados entre os dois grupos. Lentamente, languidamente, vieram na nossa direcção, passaram mesmo ao lado do Elefante, uma deitou-se à sombra do veículo, até novamente se levantar e se afastar. Com isto, tivemos todo o tempo para apreciar e tirar uma dose industrial de fotografias, tentando que a excitação do momento não fizesse esquecer as instruções do Gibson de não pôr os braços de fora das janelas do camião.

O momento alto (mais ainda) viria ao início da tarde, quando avistámos uma chita com duas crias, abrigados à exígua sombra de uma árvore. Permanecemos parados algum tempo, a tentar observar por entra aquilo que a vegetação nos deixava ver. Até que o barulho de uma máquina, que passou no sentido contrário, foi a última gota: assustadas, as crias levantaram-se e começaram a afastar-se da mãe. Se, por um lado, perdemos a possibilidade de ver durante mais tempos os animais, por outro lado conseguimos vê-los sem a barreira da árvore e dos ramos.

A terminar o dia, uma manada de elefantes aproxima-se de um charco. Começam por beber, à beira da água. Após satisfazer a sede, vão progressivamente entrando na água, aproveitando para arrefecer o corpo do calor implacável. Cresce-nos um sorriso na cara enquanto os vemos salpicar água pelo corpo com a tromba.

sábado, 25 de janeiro de 2020

O dono do lodge – um afrikaanse magro e grisalho – sobe as escadas do Elefante e dá-nos algumas informações.

Explica-nos que os quartos ficam naturalmente muito quentes quando estão fechados e que não há ar-condicionado. Para dormir, podemos abrir todas as janelas à vontade, nenhum animal vai entrar e não há mosquitos. É como se estivéssemos a dormir ao relento. É recebido com algum cepticismo. Mas, claro, resolvemos testar.

Cada quarto é como uma pequena habitação individual, separado alguns metros dos restantes. A parede onde fica a porta, e onde estão as camas, é a única que não tem janela. À direita das camas, um janelão abre de cima a baixo, a quase totalidade da largura do quarto, para um pequeno terraço, com uma mesa e cadeiras cheias de pó. De frente para as camas, outra parede que é também praticamente só vidro. Finalmente, a parede do fundo tem duas pequenas janelas, entre as divisões que têm o chuveiro e a sanita. No meio das janelas está um lavatório.

Tal como nos havia sido dito, as zebras começam a aparecer ao lusco-fusco, lá ao fundo. Aproximam-se lentamente, dão alguns passos na direcção do buraco de água e param. Esperam um pouco, avaliam a situação, até voltar a ganhar coragem para dar mais outros passos e parar novamente. Sentamo-nos a ver esta aproximação. Torço para que se despachem, é cada vez mais difícil tirar fotografias à medida que a luz vai desaparecendo. Ao mesmo tempo, um cão pequenito e velhote, constantemente a arfar e com uma espécie de carraças a percorrer o lombo, dá voltas consecutivas à propriedade. Surge sempre pela mesma janela da zona do bar e segue pela direita para, passado um pouco, aparecer novamente pela mesma janela, como se estivesse preso numa espécie de Groundhog Day de frequência superior à diária.

Sentamo-nos no terraço a ver as estrelas e as zebras a beber água lá à frente. Embora houvesse um em praticamente todas as camas que passamos, esta foi a única vez na viagem que usei um edredon. Soube bem voltar a dormir tapado. De manhã vemos o nascer do sol.

O dia começa muito cedo, pelas 6h saímos em direcção à Sossusvlei, por forma a evitar a hora de maior calor.

Ironia do destino, acabamos por perder tempo precioso: o Elefante foi vítima de um furo. Quando passámos o portão que dá acesso ao parque, já deveria passar das 11h. A longa e direita estrada corta por uma paisagem de elevações enormes de areia de um cor-de-laranja forte e carregado, que contrasta fortemente com o azul do céu.

A certa altura, a estrada é tomada pela areia e é necessário deixar os veículos num parque, a alguma distância, e apanhar um dos jeeps. A fila de turistas à espera é relativamente grande. Aliás, de todas as atracções turísticas, esta foi a mais concorrida. Esperamos ainda alguns minutos até finalmente ser conduzidos.

À nossa frente está o Big Daddy, uma duna com sensivelmente 325 metros de altura. A estrutura é impressionante: começa do lado direito, por uma pequena elevação, que decai um pouco passados alguns metros, perpendicularmente face ao nosso olhar; depois volta a subir novamente, faz uma viragem à direita quando já está à esquerda do nosso olhar, e continua ininterruptamente até mesmo lá em cima, ao topo, quase a perder de vista.

A maior parte dos aventureiros começa exactamente pelo lado direito, apanhando uma cumeada que percorre todo aquele trajecto. Gibson não considera essa estratégia avisada: segundo ele, são muitos os que, depois de fazer a pequena descida após a primeira elevação, desmoralizam quando vêem a segunda subida, bem mais longa e íngreme. Para evitar este problema, seguimo-lo pelo vale até chegar perto ao local onde a duna atinge o ponto mais baixo, após a primeira elevação. Aí, subimos a face da duna, a parte mais dura de todo o processo, até atingir a cumeada. A partir daí, não tem nada que saber, é sempre a subir. Uma vez chegado ao cume, é preciso fazer alguma ginástica para alcançar os melhores locais, contornado os restantes que ali apreciam a vista e aproveitam o ar mais fresco e a brisa ligeira.

A parte mais curiosa é a descida. Vemos o Gibson sair disparado pela face da duna até chegar ao vale. Resolvemos lançar-nos também com velocidade. Os pés enterram-se na areia áspera, que evita que percamos o balanço e caiamos a face inclinada. Com o movimento, os pés soltam um som grave, que já havíamos ouvido no topo da duna, mas que não percebíamos donde vinha. Quase apetece fazer o esforço de subir novamente para repetir a descida. Uma vez no vale, descalçamo-nos e sacudidos violentamente os ténis para tirar os quilos de areia. Semanas depois, já em Lisboa, ainda descobri areia nos ténis.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Uns minutos depois da pequena casa que serve de recepção, começamos a ver o lodge ao fundo do caminho de terra, na encosta de um pequeno monte rochoso.

São apenas seis quartos e, no meio, uma divisão comum, com uma cozinha, uma mesa comprida e sofás. Em frente a esta divisão comum, a piscina da praxe, virada para o buraco da praxe, a fazer de chamariz para os animais da praxe. Claro está, não há internet nem televisores mas, mais do que isso, nem sequer rede de telemóvel. Numa das noites, a electricidade falha e complica a vida ao grupo de funcionários que ali se deslocou para nos preparar o jantar.

Este foi o momento de ripanço da viagem, sensivelmente a meio dos 16 dias. No final do dia em que chegámos, caminhámos até ao topo do monte ao lado, para ver o pôr-do-sol e lutámos um pouco na descida escorregadia e pouco iluminada. No dia seguinte, saímos de manhã cedo para um passeio, antes do sol se tornar ainda mais impiedoso. A meio da manhã estávamos de regresso para o pequeno-almoço. À noite, depois de jantar, deitámo-nos na espreguiçadeira a contemplar o céu estrelado e a contar as estrelas cadentes.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Parece o cenário de um filme, um pequeno casario espalhado no meio da areia.

Por momentos, leva-me até aos estúdios de cinema que se podem visitar em Marrocos. Mas, contrariamente a essas localidades fictícias que só tiveram existência em filmes, Kolmanskop foi efectivamente, a determinada altura, uma povoação. Fundada no início do século passado, esteve associada à exploração de diamantes no deserto. Após a segunda guerra mundial, a progressiva escassez de diamantes levou a que fosse trocada e abandonada por outros locais onde, entretanto, foram descobertos minérios.

Hoje, a cidade-fantasma a poucos quilómetros da costa é uma atracção turística. Guias exprimindo-se em inglês, alemão e afrikaanse, conduzem rebanhos de turistas pelas antigas construções. Começando no salão de baile – onde o guia de língua inglesa nos mostra a acústica com uma interpretação do “Aleluia”, versão Jeff Buckley, e tocando piano – passamos pelo hospital, pela loja, pela casa do engenheiro, do médico, do governador, entre outros. Para um povoado que contou com algumas centenas de habitantes, há um conjunto de equipamentos relativamente impressionantes, a começar pela máquina de gelo e a pista de bowling, e terminando na máquina de raio-X, a primeira no hemisfério sul.

Pouco tempo antes de ali estarmos, o local foi utilizado para uma sessão fotográfica de moda. A particularidade do local tem atraído, ao longo do tempo, a atenção de fotógrafos e não só. A mais recente alusão ao local é a imagem da capa do álbum Slow Rush dos Tame Impala, cuja divulgação está agendada para o próximo mês.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

O dia seguinte traz-nos uma das deslocações mais longas.

São quase 600 quilómetros de estrada, por vezes duvidosa, até perto da fronteira com a África do Sul. Estamos em pleno deserto do Kalahari que, como ficamos a saber, afinal é apenas um semi-deserto, já que o nível de pluviosidade é um pouco superior ao dos desertos a sério. Até nos desertos há discriminação.

Fazemos um pequeno passeio até ao topo de uma elevação, onde foi instalada uma plataforma de observação. Dali vemos o pôr-do-sol, bombardeados pelo vento que, lá em baixo, faz pequenos tornados, de curta duração, com o pó. Descemos e aproveitamos a pequena piscina, de água um pouco salgada do (semi-)deserto, virada para o buraco de água onde os springboks e os órix abastecem. Não o sabemos ainda nesta fase, mas a piscina virada para o chamariz dos animais vai ser uma constante desta viagem. À noite, bebemos chá rooibos nas cadeiras da rua, a partilhar um cigarro, repletos de repelente de mosquitos.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Gibson chama Elefante ao camião.

Parece um daqueles camiões de abastecimento dos supermercados com a diferença de, onde normalmente está a caixa frigorífica onde vão os alimentos, foi colocada uma vintena de bancos. As janelas do veículo são enormes o que, aliado à própria altura, torna o veículo num óptimo posto de observação.

Ao fundo, há um conjunto de cacifos onde guardamos os sacos de viagem e um frigorífico que mantém a nossa água e alimentos frescos enquanto o motor está a funcionar. A entrada faz-se por uma porta que, quando abre, desdobra umas escadas metálicas, ao estilo dos aviões. De lado, o Elefante tem ainda um conjunto de estruturas amovíveis, que abrem utensílios para fazer e servir refeições.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

A visita a Windhoek é necessariamente curta:

a cidade é pequena e não tem propriamente muitos pontos de interesse turístico. Para além de Gibson, o guia com nome de guitarra que andará connosco 15 dias, somos acompanhados por um guia local, um miúdo novo que, se bem me lembro, tinha acabado um curso superior em marketing.
This is my brother from another mother
Assim o apresenta Gibson, uma frase de antologia que vamos ouvir (e dizer) inúmeras vezes ao longo dos tais 15 dias.

Depois de uma visita ao museu que conta a história do colonização e independência da Namíbia, somos conduzidos até à township de Katutura. Gibson pára o camião à beira de uma pequena encosta e o guia novo enfia-se pela abertura entre a cabine do camião e a caixa onde estamos para falar connosco mais facilmente
This is where people come when nature calls
E aí percebo que aquilo que vejo são pedaços de papel higiénico que abanam ao sabor do vento. E ele sabe bem do que fala, ele próprio é de Katutura e já usou estas instalações.

Uma canalha de miúdos vê os turistas dentro do camião e tenta interagir. Não temos, porém, autorização para sair da fortaleza sobre rodas por razões de segurança (you never know). Ainda não tivemos o primeiro game drive e parece que já estamos a ver animais num parque.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Cinco horas

Fez uns meses de tropa na Suíça, um dos poucos países europeus onde ainda é obrigatório. Por curiosidade, perguntei-lhe o que é um dia típico de recruta. De tudo o que me explicou - dos exercícios físicos, dos treinos, das aulas, de fazer a cama e lavar pratos - só uma coisa me fez verdadeiramente arregalar os olhos: a hora de recolher era a meia-noite e a alvorada era às 5 da manhã. We were constantly sleep deprived, acrescentou.

sábado, 18 de janeiro de 2020

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Spiel mit mir

Um conjunto de lençóis não é a primeira coisa que vem à cabeça a propósito da expressão "jogo de cama".

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Regras

«To grow up is to realize the extent to which your existence has been governed by systems of rules, vague guidelines, and increasingly insupportable norms that have been imposed on you without your consent and are subject to change at a moment's notice. There were even some rules that you'd only find out about after you'd violated them.»

Permanent record, Edward Snowden

domingo, 12 de janeiro de 2020

The enemy within

Os intolerantes à lactose esperam que a tecnologia lhes permita viajar para fora da Via Láctea.

sábado, 11 de janeiro de 2020

The proof of the pudding

«A datação através de carbono 14 torna improvável que o Sudário [de Turim] tenha dois mil anos. Ainda bem que é assim, porque o catolicismo viveu demasiado tempo ligado a relíquias, fetichismos. Quem quer acreditar que houve um homem que foi martirizado, morreu, esteve sepultado e ressuscitou, deve acreditar sem provas materiais. A fé dispensa provas.»

Imagens imaginadas, Pedro Mexia