(Publicado originalmente aqui)
O receio de que o dia de chuva possa condicionar o trânsito foi felizmente infundado. Rapidamente passo os túneis do Campo Grande, subo a Avenida Padre Cruz e desço a Calçada de Carriche. Talvez por ser 2 de Novembro: muita gente colou ao feriado do dia anterior dias de férias até ao fim-de-semana seguinte. Daí até aos quilómetros iniciais do asfalto duvidoso e trajecto sinuoso da A8 é um instante e, volvida uma hora, estou a sair da auto-estrada nas Caldas da Rainha. A aplicação do telemóvel vai falando comigo, indicando-me que direcção devo seguir, dando-me as instruções precisas até ter o Centro Cultural e de Congressos, que surge à minha esquerda.
Lá dentro, no impressionante auditório, já está na hora de início de mais um concerto do Caldas Nice Jazz e ainda o roadie coloca garrafas de água em palco. Uma senhora entra na fila à frente da do meu lugar e diz aos amigos que os músicos se atrasaram no “checksound” – uma forma recorrentemente utilizada para designar o “soundcheck” – e que estavam a acabar de jantar. São mais alguns minutos até as luzes se apagarem e o trio entrar em cena.
O primeiro tema é de Chico Buarque, “Trocando por miúdos”. O contrabaixista, Yasushi Nakamura, inicia o seu solo com frases pentatónicas, cheias a rebentar de groove e intenção. Pausadas, comedidas, com a calma de quem sabe esperar e respirar. Um dos vários momentos ao longo da noite em que Nakamura esteve em destaque, teve várias intervenções de grande nível no decurso do concerto.
Agora Goldberg estala os dedos para dar o tempo para o segundo, mais rápido. “Tokyo Dream” que, como nos explicará mais à frente, ocorreu-lhe num sonho numa noite em Tokyo. Foi a única vez que compôs um tema a sonhar e, por essa razão, nem sequer sente que a autoria seja sua. Uma estrutura e um cheiro bluesistico. Leon Parker, na bateria, de óculos escuros e cabelo rapado, emite uns sons agudos e umas exclamações enquanto toca, à la Keith Jarrett, seja quando aumenta a intensidade de um momento em que tem mais espaço para dar asas à sua arte, seja em resposta a algo que os outros dois músicos fazem que lhe agrada.
Goldberg tem uma ligação interessante à nossa língua. Fala-a de forma um pouco titubeante e quebrada, brasileiro gringo, como o define. De vez em quando regressa ao inglês nativo, alegadamente para não excluir os outros dois companheiros de palco – Leon Parker a certa altura parece afastar-se como quem desiste e se vai embora. Apresenta a banda pela primeira vez ao final do segundo tema e explica-nos que este é o último concerto da digressão. Agradece a hospitalidade com que foram recebidos, que chegou a incluir uma ida às termas que lhes deixou um odor sulfuroso. Aprecia o facto de não precisar de nos explicar a letra do tema de Chico Buarque. E, como se não bastasse tudo isto, termina anunciando o tema seguinte, que nos explica ser dedicado ao activista angolano Luaty Beirão, que teve o prazer de conhecer recentemente. O público responde com uma ovação sentida ao tema que leva no título o nome próprio “Luaty”.
Mais à frente vamos ouvir outro tema que remete para o Brasil. A introdução tem a linha de baixo do “Hit the Road Jack”, tónica menor, seguida de sétima, sexta, quinta, e liga com a “Manhã de Carnaval”, banda sonora do filme “Orfeu Negro” da autoria de Jobim. E vamos ouvir também, entre outros, uma versão do “All of me” que é também um habitué do set list dos concertos de Goldberg.
Um momento diferente, quase caricato, fechou o set: Leon Parker levanta-se do banco da bateria, afasta-se enquanto abre os botões da camisa (calma, tinha uma t-shirt por debaixo), e coloca-se à frente de um microfone. E, com recurso à sua voz e a estalidos com os dentes e a língua, duas mãos a bater no peito – uma com o punho fechado, outra com o punho aberto – estilo Tarzan, acompanha os companheiros (passo a redundância). Depois disto, que naturalmente arrancou uma reacção bastante efusiva do público, só mesmo um encore com a já clássica versão do “Isn’t She Lovely” de Stevie Wonder fez os músicos regressar para encerrar a noite.
Há uns bons anos tive o prazer de ver Aaron Goldberg mas não como frontman. Desta vez, tive o privilégio de o ver brilhar nesse papel, apoiado numa excelente secção rítmica. É provável que tenha atingido uma fase da sua carreira em que não precise de se afirmar – há quem diga que o temos de fazer constantemente – mas, caso restassem algumas dúvidas, ficaram cabalmente esclarecidas: Goldberg está claramente numa classe aparte, juntamente com a elite dos pianistas de jazz actuais.
domingo, 5 de novembro de 2017
sábado, 4 de novembro de 2017
sexta-feira, 3 de novembro de 2017
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
A música e a alma de Peter Evans inundaram o Maria de Matos
(Publicado originalmente aqui)
Ao entrar as portas do Teatro Maria de Matos, depois de ter conseguido navegar as restrições ao trânsito na avenida de Roma causadas por um desfile de pessoas vestidas a rigor para o Halloween, tentei recordar-me da última vez que ali tinha estado. Um sítio onde fui algumas vezes com os meus avós, assim como aos cinemas King, poucos metros mais abaixo, à esquerda na esquina. E, se é certo que não consegui aceder ao local remoto da minha memória onde essa recordação possa estar (hipnose?), é também certo que não esperaria regressar a este local para ver um concerto. E ainda para mais este tipo de concerto: o septeto do trompetista nova-iorquino Peter Evans, que esteve em Lisboa esta 3a feira dia 31, depois de ter passado pelo Conservatório de Música de Coimbra e pela Casa da Música, no Porto.
Evans é um trompetista que já experimentou com inúmeras formações diferentes, a solo, em duo, em trio, quinteto. Seguindo uma lógica incremental, o quinteto foi alargado para incluir um violinista e um percussionista. Eis os seis que subiram ao palco do Maria de Matos com o frontman para apresentar o mais recente projecto denominado Action/Metempsychosis: Mazz Swift (violino), Ron Stabinsky (piano e sintetizador), Sam Pluta (electrónica), Tom Blancarte (baixo), Levy Lorenzo (percussão e electrónica) e Jim Black (bateria e sampler).
O espectáculo inicia de rompante, de forma inesperada, com a voz da violinista Mazz Swift, um instrumento que não vem listado na comunicação oficial mas que se revela de importância logo na primeira nota. É uma voz forte, penetrante, que canta, ri, geme e, pelo meio, respira, suspira. Ganha um cúmplice na corda solta do violino que se lhe associa por algum tempo, até os restantes progressivamente se juntarem. Trompete e voz formam uma quase união em notas lentas e prolongadas até a música prosseguir noutra direcção, ao longo de um set único de cerca de uma hora e vinte minutos.
A liberdade dos membros deste septeto é bastante grande. Nos momentos em que se sente no seu expoente máximo, é como se cada um estivesse a dar o seu próprio concerto ou recital a solo. Mas tal não significa que cada um esteja a tocar para seu lado; pelo contrário, há uma fluidez e uma simbiose nas melodias que se intersectam e se cruzam que confere uma unidade e torna aquilo que parece um exercício individual em algo fortemente colectivo.
A riqueza dos instrumentistas em palco permite também explorar diferentes combinações da lógica anterior mas em pequenas formações – duos, trios – formadas dentro do conjunto. Por exemplo, quando ao solo de electrónica se associa a bateria e a percussão que, por sua vez, levam a uma “conversa” entre Jim Black e Levy Lorenzo – que enverga uma t-shirt na qual se lê, em letras amarelas, “agora pense num groove bom” – e que, também, por sua vez, levam a outra combinação de sons e timbres. Outras vezes, estas várias divagações laterais simultâneas – como grupos de pessoas que conversam bilateralmente à mesa de uma sala de reuniões repleta – desaguam num riff conjunto, numa linha melódica forte e incisiva que todos executam, manifestando ou relembrando a sua unidade.
Como qualquer liberdade, esta que é conferida pela formação maior vem associada a uma responsabilidade: a de saber ouvir os demais, com ouvidos de ouvir, e de saber reagir, responder e interagir adequadamente, com o objetivo comum de criar música. Talvez a isto queira Evans aludir com a metempsicose que faz parte do título deste projecto: a forma como a música passa de intérprete para intérprete, como a alma que vai encarnando em diferentes pessoas, ao longo de um percurso. E talvez, se ainda maior especulação me é permitida, seja uma forma de salvação da alma, em cujo caso a expressão trocadilhística “for Evans sake” poderia fazer algum sentido. Estou, no entanto, em plenas condições de afirmar, sem qualquer especulação, que a minha alma de espectador saiu mais consolada do Maria de Matos. Que tenha sido no Halloween é um pormenor que só o torna mais curioso.
Ao entrar as portas do Teatro Maria de Matos, depois de ter conseguido navegar as restrições ao trânsito na avenida de Roma causadas por um desfile de pessoas vestidas a rigor para o Halloween, tentei recordar-me da última vez que ali tinha estado. Um sítio onde fui algumas vezes com os meus avós, assim como aos cinemas King, poucos metros mais abaixo, à esquerda na esquina. E, se é certo que não consegui aceder ao local remoto da minha memória onde essa recordação possa estar (hipnose?), é também certo que não esperaria regressar a este local para ver um concerto. E ainda para mais este tipo de concerto: o septeto do trompetista nova-iorquino Peter Evans, que esteve em Lisboa esta 3a feira dia 31, depois de ter passado pelo Conservatório de Música de Coimbra e pela Casa da Música, no Porto.
Evans é um trompetista que já experimentou com inúmeras formações diferentes, a solo, em duo, em trio, quinteto. Seguindo uma lógica incremental, o quinteto foi alargado para incluir um violinista e um percussionista. Eis os seis que subiram ao palco do Maria de Matos com o frontman para apresentar o mais recente projecto denominado Action/Metempsychosis: Mazz Swift (violino), Ron Stabinsky (piano e sintetizador), Sam Pluta (electrónica), Tom Blancarte (baixo), Levy Lorenzo (percussão e electrónica) e Jim Black (bateria e sampler).
O espectáculo inicia de rompante, de forma inesperada, com a voz da violinista Mazz Swift, um instrumento que não vem listado na comunicação oficial mas que se revela de importância logo na primeira nota. É uma voz forte, penetrante, que canta, ri, geme e, pelo meio, respira, suspira. Ganha um cúmplice na corda solta do violino que se lhe associa por algum tempo, até os restantes progressivamente se juntarem. Trompete e voz formam uma quase união em notas lentas e prolongadas até a música prosseguir noutra direcção, ao longo de um set único de cerca de uma hora e vinte minutos.
A liberdade dos membros deste septeto é bastante grande. Nos momentos em que se sente no seu expoente máximo, é como se cada um estivesse a dar o seu próprio concerto ou recital a solo. Mas tal não significa que cada um esteja a tocar para seu lado; pelo contrário, há uma fluidez e uma simbiose nas melodias que se intersectam e se cruzam que confere uma unidade e torna aquilo que parece um exercício individual em algo fortemente colectivo.
A riqueza dos instrumentistas em palco permite também explorar diferentes combinações da lógica anterior mas em pequenas formações – duos, trios – formadas dentro do conjunto. Por exemplo, quando ao solo de electrónica se associa a bateria e a percussão que, por sua vez, levam a uma “conversa” entre Jim Black e Levy Lorenzo – que enverga uma t-shirt na qual se lê, em letras amarelas, “agora pense num groove bom” – e que, também, por sua vez, levam a outra combinação de sons e timbres. Outras vezes, estas várias divagações laterais simultâneas – como grupos de pessoas que conversam bilateralmente à mesa de uma sala de reuniões repleta – desaguam num riff conjunto, numa linha melódica forte e incisiva que todos executam, manifestando ou relembrando a sua unidade.
Como qualquer liberdade, esta que é conferida pela formação maior vem associada a uma responsabilidade: a de saber ouvir os demais, com ouvidos de ouvir, e de saber reagir, responder e interagir adequadamente, com o objetivo comum de criar música. Talvez a isto queira Evans aludir com a metempsicose que faz parte do título deste projecto: a forma como a música passa de intérprete para intérprete, como a alma que vai encarnando em diferentes pessoas, ao longo de um percurso. E talvez, se ainda maior especulação me é permitida, seja uma forma de salvação da alma, em cujo caso a expressão trocadilhística “for Evans sake” poderia fazer algum sentido. Estou, no entanto, em plenas condições de afirmar, sem qualquer especulação, que a minha alma de espectador saiu mais consolada do Maria de Matos. Que tenha sido no Halloween é um pormenor que só o torna mais curioso.
quarta-feira, 1 de novembro de 2017
Em defesa do medo
Desde a capacidade de enfrentar o desconhecido até à mais primitiva valentia física, a coragem é uma característica com imensa saída, valorizada socialmente. De tal forma que temos vergonha de admitir os nossos medos, como se fossem falhas de carácter e de postura.
A História lembra e exulta os corajosos, que tiveram a ousadia de enfrentar os canhões, o poder, ultrapassar obstáculos. Normalmente não perde muito tempo com os medrosos, a não ser para adicionar referências negativas. Assim como não perde muito tempo com os corajosos que se dão mal.
Mas a verdade é que o medo faz mais por nós do que a coragem. O medo protege-nos enquanto a coragem nos expõe a riscos. Talvez por isso, todos tenhamos medo de alguma coisa. Ou várias ao mesmo tempo. Seja de levar uns tabefes ou da mudança, de alturas ou de espaços fechados, do escuro ou de aranhas. Porque do ponto de vista da nossa sobrevivência, o medo é um valor seguro e a coragem algo arriscado.
E, por isso, algumas vezes sinto que o medo é injustiçado. Tratado como inferior e indesejado. Vítima de escárnio e maldizer quando, na prática, é o nosso melhor conselheiro em tantas circunstâncias do dia-a-dia.
Talvez seja esta a única fosse a única circunstância em que a coragem não aleija: não ter medo de enfrentar o tabu e assumir o medo. E, para aqueles que porventura possam não sentir medo – uma minoria desajustada, vítimas de uma gritante falha evolucionária que as deixa desamparadas para enfrentar o mundo – basta ter a coragem necessária para ter medo.
A História lembra e exulta os corajosos, que tiveram a ousadia de enfrentar os canhões, o poder, ultrapassar obstáculos. Normalmente não perde muito tempo com os medrosos, a não ser para adicionar referências negativas. Assim como não perde muito tempo com os corajosos que se dão mal.
Mas a verdade é que o medo faz mais por nós do que a coragem. O medo protege-nos enquanto a coragem nos expõe a riscos. Talvez por isso, todos tenhamos medo de alguma coisa. Ou várias ao mesmo tempo. Seja de levar uns tabefes ou da mudança, de alturas ou de espaços fechados, do escuro ou de aranhas. Porque do ponto de vista da nossa sobrevivência, o medo é um valor seguro e a coragem algo arriscado.
E, por isso, algumas vezes sinto que o medo é injustiçado. Tratado como inferior e indesejado. Vítima de escárnio e maldizer quando, na prática, é o nosso melhor conselheiro em tantas circunstâncias do dia-a-dia.
Talvez seja esta a única fosse a única circunstância em que a coragem não aleija: não ter medo de enfrentar o tabu e assumir o medo. E, para aqueles que porventura possam não sentir medo – uma minoria desajustada, vítimas de uma gritante falha evolucionária que as deixa desamparadas para enfrentar o mundo – basta ter a coragem necessária para ter medo.
terça-feira, 31 de outubro de 2017
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
Assim foi o one-man show de Jack Broadbent no CCB
(Publicado originalmente aqui)
Desde cedo é perceptível que o Grande Auditório do CCB não vai encher. Nem sequer vai ficar perto disso. Sentado numa das primeiras filas da segunda plateia, vou vendo as pessoas ser conduzidas pelos funcionários que tiveram uma noite pouco movimentada. Sinto um quase nervoso miudinho, na expectativa que mais espectadores surjam e que, pelo menos, a sala fique composta. Quando as badaladas para chamar os mais atrasados se ouvem, talvez metade dos lugares da primeira plateia estivessem ocupados. O palco é de um minimalismo que parece solidário com o resto desta sala: apenas se vislumbram, ao centro, duas guitarras, uma de cada lado, no meio das quais um amplificador rectangular, assente sobre um dos lados mais estreitos.
As luzes apagam-se e Jack Broadbent surge do lado esquerdo. Camisa branca, calças pretas e garrafa de Corona na mão, avança à beira do palco e faz uma vénia teatral ao público. Senta-se no amplificador, deita a guitarra que está à sua direita em cima das suas pernas, como um pai natal que senta a criança ao seu colo. Só que neste caso é para tocar slide e não para lhe perguntar se se portou bem no ano que termina. Ajeita o tripé do microfone e faz estalidos com a boca como se testasse o som, que o público, divertido, imita. E, de repente, inicia uma sucessão de frases carregadas de blues até mais não, até rebentar, frases essas que, aos poucos, vão desembocar no riff da primeira música da noite: On the Road Again.
Deseja as boas vindas do público a mais uma sexta-feira. E, de imediato, inteligentemente, aborda o elefante da sala para, assim, o poder ignorar: refere que a sala não está cheia mas que, desta forma, temos o espaço todo só para nós e podemos pôr os pés para cima. E o que segue, de certa forma, é isso mesmo: ficar à vontade. O guitarrista britânico age como se estivesse num espaço mais intimista como um bar. Reage e estimula os comentários que chovem do público que se mostrou altamente interventivo. Diz piadas, gags que se nota fazerem parte de um show que já repetiu vezes sem conta. É blasé e irónico, com um humor auto-depreciativo aqui e ali. Vai alternando entre a guitarra slide – a tal da sua direita – e outra guitarra que usa de forma digamos mais ortodoxa – a da sua esquerda. Alterna também entre um conjunto de covers, algumas das quais são já uma imagem de marca, e alguns temas originais.
No final do original Don’t Be Lonesome, pergunta ao público se está tudo bem e brinca com o facto de só ele ter algo de beber. Aproveita para pedir à organização para trazer mais trezentas Coronas para todos nós. Do público sugerem-lhe Super Bock, marca de cerveja que diz também apreciar. Para dizer a verdade, no fundo, aprecia todas, acrescenta. “Drinking is bad for you”. Dois temas à frente, após uma cover do mítico Lead Belly, é presenteado com uma nova garrafa de Corona, trazida por um dos roadies que tenta fazer a tarefa impossível de entrar em palco discretamente.
Um dos pontos altos é um tema da banda americana Little Feat chamado Willing que, segundo Broadbent, é “fucking beautiful”. Talvez por isso o dedique ao seu pai, ele que também é guitarrista e irá juntar-se ao filho em Nashville, no Tennessee, dentro de um mês, para o auxiliar na gravação de um novo álbum que diz ter quase pronto. Outro é um tema que tem uma história engraçada por detrás. “Funny one”, nas palavras do guitarrista. Segundo explica, um dia foi-lhe dito que tinha um “heroin body” – logo ele que, confessa, havia anos que não consumia a droga – por um homem de baixa estatura. Tão baixa estatura que nem sequer teve coragem para partir para vias de facto porque achou que seria demasiado desigual. Ao invés, optou por lhe dedicar um tema que lhe tocou na semana seguinte, com o título “Small Man Syndrome”. O homem de baixa estatura – que ainda por cima vendia seguros! – não terá apreciado a prenda mas parece que os amigos se riram. Das covers, não posso deixar de destacar ainda o Moondance de Morrison e o grande Wind Cries Mary do também grande Jimmy Hendrix.
Chegamos agora à recta final do concerto. Broadbent brinca uma vez mais com o público, olha para o relógio e diz que já não tem muito tempo, que só dá para mais dois temas. Aos pedidos de um qualquer espectador para que toque três, diz que sim, com certeza, faz parte do espectáculo criar esse suspense. E então surge o Hit the Road Jack, que já havia sido solicitado por outro espectador. Uma forma de terminar o set em grande, o guitarrista levanta-se repentinamente, agradece e sai de palco com a garrafa de cerveja na mão para regressar pouco depois, atravessando o palco e saindo do lado oposto, caminhando casualmente como se descesse a rua. Depois sim regressa para tocar, promete-nos um primeiro tema calmo – um original chamado Too Late – e termina com um tema mais intenso – Black Magic Woman de Carlos Santana.
Assim foi o one-man show de Jack Broadbent no CCB. Um concerto diferente sobre diferentes aspectos. Um concerto próprio para uma sala pequena feito numa sala grande pouco cheia. E, sobretudo, uma forma diferente de tocar guitarra e interpretar grandes temas. Ficamos à espera de mais música deste senhor.
Desde cedo é perceptível que o Grande Auditório do CCB não vai encher. Nem sequer vai ficar perto disso. Sentado numa das primeiras filas da segunda plateia, vou vendo as pessoas ser conduzidas pelos funcionários que tiveram uma noite pouco movimentada. Sinto um quase nervoso miudinho, na expectativa que mais espectadores surjam e que, pelo menos, a sala fique composta. Quando as badaladas para chamar os mais atrasados se ouvem, talvez metade dos lugares da primeira plateia estivessem ocupados. O palco é de um minimalismo que parece solidário com o resto desta sala: apenas se vislumbram, ao centro, duas guitarras, uma de cada lado, no meio das quais um amplificador rectangular, assente sobre um dos lados mais estreitos.
As luzes apagam-se e Jack Broadbent surge do lado esquerdo. Camisa branca, calças pretas e garrafa de Corona na mão, avança à beira do palco e faz uma vénia teatral ao público. Senta-se no amplificador, deita a guitarra que está à sua direita em cima das suas pernas, como um pai natal que senta a criança ao seu colo. Só que neste caso é para tocar slide e não para lhe perguntar se se portou bem no ano que termina. Ajeita o tripé do microfone e faz estalidos com a boca como se testasse o som, que o público, divertido, imita. E, de repente, inicia uma sucessão de frases carregadas de blues até mais não, até rebentar, frases essas que, aos poucos, vão desembocar no riff da primeira música da noite: On the Road Again.
Deseja as boas vindas do público a mais uma sexta-feira. E, de imediato, inteligentemente, aborda o elefante da sala para, assim, o poder ignorar: refere que a sala não está cheia mas que, desta forma, temos o espaço todo só para nós e podemos pôr os pés para cima. E o que segue, de certa forma, é isso mesmo: ficar à vontade. O guitarrista britânico age como se estivesse num espaço mais intimista como um bar. Reage e estimula os comentários que chovem do público que se mostrou altamente interventivo. Diz piadas, gags que se nota fazerem parte de um show que já repetiu vezes sem conta. É blasé e irónico, com um humor auto-depreciativo aqui e ali. Vai alternando entre a guitarra slide – a tal da sua direita – e outra guitarra que usa de forma digamos mais ortodoxa – a da sua esquerda. Alterna também entre um conjunto de covers, algumas das quais são já uma imagem de marca, e alguns temas originais.
No final do original Don’t Be Lonesome, pergunta ao público se está tudo bem e brinca com o facto de só ele ter algo de beber. Aproveita para pedir à organização para trazer mais trezentas Coronas para todos nós. Do público sugerem-lhe Super Bock, marca de cerveja que diz também apreciar. Para dizer a verdade, no fundo, aprecia todas, acrescenta. “Drinking is bad for you”. Dois temas à frente, após uma cover do mítico Lead Belly, é presenteado com uma nova garrafa de Corona, trazida por um dos roadies que tenta fazer a tarefa impossível de entrar em palco discretamente.
Um dos pontos altos é um tema da banda americana Little Feat chamado Willing que, segundo Broadbent, é “fucking beautiful”. Talvez por isso o dedique ao seu pai, ele que também é guitarrista e irá juntar-se ao filho em Nashville, no Tennessee, dentro de um mês, para o auxiliar na gravação de um novo álbum que diz ter quase pronto. Outro é um tema que tem uma história engraçada por detrás. “Funny one”, nas palavras do guitarrista. Segundo explica, um dia foi-lhe dito que tinha um “heroin body” – logo ele que, confessa, havia anos que não consumia a droga – por um homem de baixa estatura. Tão baixa estatura que nem sequer teve coragem para partir para vias de facto porque achou que seria demasiado desigual. Ao invés, optou por lhe dedicar um tema que lhe tocou na semana seguinte, com o título “Small Man Syndrome”. O homem de baixa estatura – que ainda por cima vendia seguros! – não terá apreciado a prenda mas parece que os amigos se riram. Das covers, não posso deixar de destacar ainda o Moondance de Morrison e o grande Wind Cries Mary do também grande Jimmy Hendrix.
Chegamos agora à recta final do concerto. Broadbent brinca uma vez mais com o público, olha para o relógio e diz que já não tem muito tempo, que só dá para mais dois temas. Aos pedidos de um qualquer espectador para que toque três, diz que sim, com certeza, faz parte do espectáculo criar esse suspense. E então surge o Hit the Road Jack, que já havia sido solicitado por outro espectador. Uma forma de terminar o set em grande, o guitarrista levanta-se repentinamente, agradece e sai de palco com a garrafa de cerveja na mão para regressar pouco depois, atravessando o palco e saindo do lado oposto, caminhando casualmente como se descesse a rua. Depois sim regressa para tocar, promete-nos um primeiro tema calmo – um original chamado Too Late – e termina com um tema mais intenso – Black Magic Woman de Carlos Santana.
Assim foi o one-man show de Jack Broadbent no CCB. Um concerto diferente sobre diferentes aspectos. Um concerto próprio para uma sala pequena feito numa sala grande pouco cheia. E, sobretudo, uma forma diferente de tocar guitarra e interpretar grandes temas. Ficamos à espera de mais música deste senhor.
domingo, 29 de outubro de 2017
sábado, 28 de outubro de 2017
Panis et circenses
«A cultura diz respeito a objectos e é um fenómeno do mundo; o entretenimento diz respeito a pessoas e é um fenómeno da vida.»
Entre o passado e o futuro, Hannah Arendt
Entre o passado e o futuro, Hannah Arendt
sexta-feira, 27 de outubro de 2017
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
terça-feira, 24 de outubro de 2017
Catch-22
«À primeira vista este homem deixara de ser um doido: houvera um motivo no seu crime - querer endoidecer. Mas, por amor de Deus, tal motivo melhor vinha provar ainda a sua loucura: só a um doido podia ocorrer semelhante ideia.»
Mistério, Mário de Sá Carneiro
Mistério, Mário de Sá Carneiro
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
Mesmo sabendo como é, de quem que já lá tinha estado e também tinha ficado impressionado, não estava preparado.
A única coisa que me disseram que precisava era do meu cartão de cidadão. Saí com ele na carteira naquela noite sabendo perfeitamente a finalidade para a qual iria precisar dele. O caminho até ao centro da cidade levou-nos por avenidas largas e compridas, pelo meio das obras, perto da Câmara Municipal. Daí até às ruas pedonais repletas de lojas, bares, restaurantes, é um pulinho. Locais e turistas preenchem as ruas, sentam-se nas esplanadas. Os locais com copos de café à frente – bebem pouco álcool mas têm o hábito do café –, os turistas é mais comum vê-los de caneca alta de cerveja à frente. Gatos pululam por todo o lado, muitos sentados à espera que caia algo da mesa de quem come.
Algures lá à frente, depois de passar pela animação da rua, vê-se um pré-fabricado, daqueles que normalmente associamos a escritórios em locais de obras. Branco. Uma bandeira. Chegamos e mostramos a nossa identificação ao oficial fardado à nossa frente. Olha para os cartões e faz-nos sinal com a mão para avançarmos. Poucos passos depois e estamos na no man’s land, um segmento (um quarteirão?), da mesma rua de há alguns passos atrás, completamente deserta, as lojas com as grades corridas em baixo, as portas e as janelas entaipadas. E, lá à frente, num pré-fabricado similar, um outro oficial fardado, com uma farda diferente, aguarda-nos. Mostramos novamente o cartão e obtemos autorização para entrar na República Turca do Norte do Chipre, de acordo com uma inscrição.
A rua continua a ser mesma mas agora as placas têm um nome em turco, escrito num fundo diferente. As lojas têm um aspecto diferente, assim como as pessoas. Os transeuntes são agora muito menos e praticamente não se vislumbram turistas, a maioria são locais e do sexo masculino. Locais que também se sentam nas esplanadas dos poucos cafés e falam uns com os outros. E que parecem ficar ao seguir-nos com os olhos enquanto passamos. Os gatos também marcam presença, passam ao nosso lado, atravessam à nossa frente enquanto vou olhando em todas as direcções. Ao fundo, à direita, ergue-se a mesquita, a partir da qual vêm os cânticos que se ouvem também do outro lado da cidade. Que é já ali ao lado.
Pouco depois resolvemos voltar: este local parece-me estranhamente inóspito, pouco convidativo. Talvez pela estranha diferença incutida por uma fronteira inesperada em algo que, de outra forma, não tem razão para ser diferente. Como se a nossa fronteira com Espanha fosse em plena Rua Augusta. Fazemos o percurso inverso de passar pelos pré-fabricados e pela zona deserta que os separa, que em tempos deveria ter tanta vida como qualquer parte da mesma rua. À chegada ao ponto de origem, olho para a placa que se ergue à beira da fronteira. Em cima, lê-se Nicósia escrito em grego; por debaixo, em inglês, francês e alemão, lê-se “a última capital dividida”.
Algures lá à frente, depois de passar pela animação da rua, vê-se um pré-fabricado, daqueles que normalmente associamos a escritórios em locais de obras. Branco. Uma bandeira. Chegamos e mostramos a nossa identificação ao oficial fardado à nossa frente. Olha para os cartões e faz-nos sinal com a mão para avançarmos. Poucos passos depois e estamos na no man’s land, um segmento (um quarteirão?), da mesma rua de há alguns passos atrás, completamente deserta, as lojas com as grades corridas em baixo, as portas e as janelas entaipadas. E, lá à frente, num pré-fabricado similar, um outro oficial fardado, com uma farda diferente, aguarda-nos. Mostramos novamente o cartão e obtemos autorização para entrar na República Turca do Norte do Chipre, de acordo com uma inscrição.
A rua continua a ser mesma mas agora as placas têm um nome em turco, escrito num fundo diferente. As lojas têm um aspecto diferente, assim como as pessoas. Os transeuntes são agora muito menos e praticamente não se vislumbram turistas, a maioria são locais e do sexo masculino. Locais que também se sentam nas esplanadas dos poucos cafés e falam uns com os outros. E que parecem ficar ao seguir-nos com os olhos enquanto passamos. Os gatos também marcam presença, passam ao nosso lado, atravessam à nossa frente enquanto vou olhando em todas as direcções. Ao fundo, à direita, ergue-se a mesquita, a partir da qual vêm os cânticos que se ouvem também do outro lado da cidade. Que é já ali ao lado.
Pouco depois resolvemos voltar: este local parece-me estranhamente inóspito, pouco convidativo. Talvez pela estranha diferença incutida por uma fronteira inesperada em algo que, de outra forma, não tem razão para ser diferente. Como se a nossa fronteira com Espanha fosse em plena Rua Augusta. Fazemos o percurso inverso de passar pelos pré-fabricados e pela zona deserta que os separa, que em tempos deveria ter tanta vida como qualquer parte da mesma rua. À chegada ao ponto de origem, olho para a placa que se ergue à beira da fronteira. Em cima, lê-se Nicósia escrito em grego; por debaixo, em inglês, francês e alemão, lê-se “a última capital dividida”.
domingo, 22 de outubro de 2017
sábado, 21 de outubro de 2017
sexta-feira, 20 de outubro de 2017
Salto
A maior parte dos que puxam a TV-box para trás para ver a Quadratura do Círculo avançam as partes do Jorge Coelho para a frente.
quinta-feira, 19 de outubro de 2017
Crime (re)compensa
«There seems to be little correlation between poverty and honesty. One would rather expect the opposite; dishonesty may not always pay but surely it sometimes does.»
Capitalism and freedom, Milton Friedman
Capitalism and freedom, Milton Friedman
quarta-feira, 18 de outubro de 2017
Armas de fogo
O argumento de que o Estado não pode acudir sempre aos cidadãos e que estes têm de ser capazes de se fazer valer é usado frequentemente nos EUA para justificar o direito de posse de armas.
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