domingo, 12 de janeiro de 2014

Frescura

Uma imperial servida em copo gelado. Uma água das pedras, uma cola-cola com gelo e limão. Vinho branco, vinho verde a acompanhar umas gambas. Um apfelsaftschorle a borbulhar. Sumo de laranja, um ice tea de manga. Uma caipirinha, um mojito cheio de hortelã. Tudo isto – e mais algumas coisas do género – excepto água: detesto água fria.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Bundles of joy

Diz
É sangue do meu sangue
Com uma força, com uma autoridade, com se reclamasse para si a posse, como se reclamasse para si o poder. E eu só queria dizer-lhe
não sou sangue de ninguém
Só tenho um sangue e é todo meu, independentemente de onde venho, para onde vou
Sangue do meu sangue
Uma conquista, como se me fosses marcar com um ferro em brasa, como se fosse o cume de uma montanha onde pôr uma bandeira e reclamar a escalada
Sangue

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Ombros

Tycho Brahe foi o primeiro a impor rigor científico a observações de astros. A base de dados que compilou ao longo de décadas a olhar o céu a partir da ilha de Hven foi a pedra basilar do trabalho de astrónomos subsequentes, foi um dos ombros sob os quais personalidades como Kepler se apoiaram para ver mais longe.

E, no entanto, Brahe é terrivelmente desconhecido. Há quem diga que foi vítima do “presentismo”, ou seja, da falha de julgarmos o passado com o disposto mental do tempo em que vivemos: Brahe não era adepto da teoria heliocêntrica de Copérnico. Algo que nos parece inconcebível a nós, que estamos em cima de muito ombros que nos foram postos à disposição por séculos de evolução do conhecimento científico: à altura de Brahe seriamos uma excepção, uma minoria que se podia contar com os dedos de duas mãos.

É este o drama do astrónomo dinamarquês: acertou em quase tudo, em tudo excepto no aspecto imperdoável em que não podia falhar e na base do qual a História (injustamente?) o julgou.

(Um abraço ao A.J. Barros Veloso)

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Nelson

Todos estes livros, filmes sobre o Mandela. Imensa gente só mesmo à espera que ele morresse.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Sona

Narcisista, seria preciso muito para dar a mão à palmatória: o tipo de pessoa que acha que está sempre certo, que arranja sempre justificações externas para erros que são manifestamente seus. Embora tenha tentado, não conseguiu naquele caso: um erro tão gritante que não teve outra hipótese senão fazer um pedido de desculpas. Arrancado bem lá do fundo, a muito custo, como se tivesse uma arma apontada à cabeça, como se as palavras lhe queimassem a boca, a língua. Curiosamente, tudo isto – que deveria ter tornado todo o processo mais forte – acabou por enfraquece-lo. Não era suficiente. E então
Desculpe-me mas o posso desculpar.
Saiu da sala deixando para trás a cara crispada e silêncio forçado.

sábado, 4 de janeiro de 2014

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Estar nem aí

Ser blasé não é uma forma de estar na vida, é uma consequência dela. A indiferença, a fleuma, são fruto de excessos: no meio de tanta coisa, da abundância, o original é escasso, um animal em vias de extinção.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Às vezes

Só às vezes, não mais do que isso. Só mesmo de vez em quando. É suficiente, não é preciso mais. Só isso e nada mais. Só mesmo isso.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Vínculo

Pede-me desculpa por estar a incomodar, tocou à porta porque não consegue tirar o carro e diz-me
Não tenho vínculo
sem perceber que está a fazer uma misturada com português e alemão – vive há uma série de anos na Alemanha, o português dela já está impregnado de fragmentos germânicos. Está a transformar Winkel na palavra portuguesa mais próxima mas que não tem nada a ver com o que quer dizer. Brinco com ela
Sprichst du Portugiesch oder Deutsch?
Fica a olhar para mim, pergunta-me com um sorriso
O que é que eu disse?
Explico-lhe
O que querias dizer era ângulo.
e ri-se.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Buzón

Discutíamos a velha questão do
Já ninguém escreve cartas, já ninguém envia postais
E que é triste e por aí fora. A internet, o e-mail vieram mudar isto tudo.
Dantes as pessoas abriam a caixa do correio com alguma emoção, a surpresa de receber uma carta de alguém. Agora, abrir a caixa do correio é um exercício desprovido de interesse, é meramente algo que temos que fazer. Lá dentro estão as contas, as cartas do banco, a publicidade da Telepizza.
É isso, só recebemos o que não queremos.