A grande questão é se o sal grosso é um sal atraente ou bebeu uns copos a mais.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2022
terça-feira, 18 de janeiro de 2022
Oratória de balneário
O debate entre André Ventura e Francisco Rodrigues dos Santos mais parecia ter lugar num balneário de uma aula de educação física do ensino básico. Só faltaram frases iniciadas com "a tua mãe".
segunda-feira, 17 de janeiro de 2022
Os 60 Grand Slams
A grande (única?) questão devia ser só quem termina com o melhor palmarés. Em si, a questão não é, neste momento, fácil de responder. A métrica que costumava servir para qualquer desempate teima em mostrar um empate redondo: três jogadores com 20 títulos de Grand Slam cada um. Na senda de arranjar uma tira-teimas, há quem olhe para vitórias nos torneios que se seguem na hierarquia (Masters 1000 e a respectiva final), bem como para o confronto directo. Em ambos os critérios, Djokovic sairia por cima: no primeiro, está tangencialmente à frente de Nadal (mais uma vitória) e claramente à frente de Federer (mais nove vitórias); no segundo critério, é o único que tem frente-a-frente favorável face aos outros dois (Nadal tem face a Federer e o suíço tem desfavorável face aos dois).
Donde uma vitória adicional num Grand Slam poderia ser o ponto final na discussão de quem é o tenista com melhor percurso. Não aconteceu o ano passado, na final do US Open, na qual Djokovic perdeu o controle emocional e nem mesmo ele, Houdini que consegue evadir-se das situações mais complicadas no court, mostrou um indício de ser capaz de dar a volta a um marcador que lhe foi sempre desfavorável. Já para não falar do episódio do US Open de 2020, de uma da bola atirada num rasgo de frustração e que veio a atingir um juiz de linha na cara. E que, claro, não obstante não ter sido intencional, acabou com a imediata desqualificação (como não podia deixar de ser).
É é assim que chegamos ao início da época de 2022. Uma nova (e, já sabemos, desperdiçada) hipótese de ultrapassar Nadal e Federer voltava a presentear-se, desta feita no court onde foi mais bem sucedido: nove vitórias em Melbourne, quase metade de todos os Grand Slams. Resta saber as implicações adicionais que a decisão das autoridades australianas poderá vir a ter, designadamente, se a deportação implica que Nole não poderá entrar na Austrália nos próximos três anos. E, claro, quais as regras que outros países e torneios terão em vigor: para já, França e Roland Garros parecem vir a exigir também a vacinação dos atletas.
Como entusiasta de ténis - e sem, de maneira nenhuma, querer desculpabilizá-lo -, é uma pena não poder ver o sérvio jogar nesta edição do Open da Austrália e gostaria que não fosse afastado de mais nenhum torneio. Mas é só mesmo nessa qualidade.
domingo, 16 de janeiro de 2022
Deportado
sábado, 15 de janeiro de 2022
A páginas tantas
A única situação em que o Expresso poderia ter mais páginas é quando se arrumam caixotes para uma mudança.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2022
A várias mãos
No primeiro debate das legislativas que assisti, Rui Rio constatou o que parece óbvio: nem o PS nem o PSD conseguirão governar sozinhos, independentemente de quem ganhe. Não haverá maioria absoluta e será necessário chegar a um entendimento com outros partidos do chamado "arco da governação" para formar uma solução de governo. E é possível que esta seja uma característica que tenha vindo para ficar e que o tempo em que faziam constantes apelos a maiorias absolutas e a votos úteis tenha ficado para trás.
Coligações e acordos parlamentares sãos seguramente menos estáveis e têm maior probabilidade de desmoronar do que soluções em que só um partido é suficiente para governar. Relativamente aos acordos parlamentares, a experiência da "geringonça" está muito fresca na memória colectiva que, acaso necessitasse, facilmente seria avivada com as constantes referências que têm surgido na actual campanha. No caso das coligações, basta recuar uns 10 anos até aos atritos entre PSD e CDS no governo de Passos Coelho, cujo expoente máximo terá possivelmente tido lugar aquando do célebre episódio do "irrevogável".
No papel onde a teoria é escrita, o produto que resulta do diálogo - de falar e de ouvir, de entendimentos e desentendimentos, negociações com exigências e cedências - terá uma boa probabilidade de melhor reflectir diferentes opiniões e sensibilidades e, por isso, ser mais inclusivo. A questão é saber qual dos dois pesa mais: se aquilo que se ganha com a estabilidade ou com a diversidade. Tendo a achar que, à medida que nos habituamos à ideia de que maiorias absolutas são coisa do passado, as soluções governativas a várias mãos tenderão a ser mais estáveis.
domingo, 9 de janeiro de 2022
Não saber o que é preciso fazer para fazer o que é preciso fazer.
Não ter sequer noção por onde começar. Que, normalmente, se manifesta por um conjunto de arranques inconsequentes, que invariavelmente terminam em embates de frente contra paredes de betão armado. Isso e andar um bocado aos círculos, sem sair do mesmo sítio. No limite, não saber sequer o que é preciso fazer.
Por vezes, o nó Górdio é tão temporário como um fim-de-semana, uns quantos dias de confusão e nevoeiro mental, falta de discernimento. O problema é quando é mais longo: é um exercício bem difícil aceitar que não vale a pena insistir. Olha para outro lado, muda de perspectiva, tudo coisas que não agradam à teimosia.
sábado, 8 de janeiro de 2022
A insustentável leveza do sintoma
quinta-feira, 6 de janeiro de 2022
Conta-gotas
Farto da lufa-lufa, do rame-rame e das lenga-lengas do dia-a-dia, o pobre-diabo aspirava por um fim-de-semana entregue ao deus-dará.
domingo, 2 de janeiro de 2022
Dizia-nos que parecia um ferro de engomar.
Porque, vista da estrada, a casa só parecia ter a largura do portão que dava acesso aos carros. Uma vez lá dentro, percebíamos a real dimensão daquela casa onde passámos umas semanas de verão. Eu era um adolescente e lidava mal com os dias de férias no Algarve, que me pareciam repetir-se uns aos outros, sempre iguais, qual Groundhog Day: acordar cedo, ficar à espera que os restantes acordassem sem fazer barulho, tirar senha para ir à única casa-de-banho, sair para a praia (sempre para a da Falésia, apesar das constantes queixas relativas à dificuldade da subida da escadaria e da estrada até ao carro) à hora do cancro, ficar o dia todo a aboborar entre areia e água, regressar, tomar banho, jantar e dormir. Não admira que levasse sempre vários livros e cassetes para o walkman.
Por isso, naquele verão, a possibilidade de passar tempo com outra gente de idades mais próximas da minha e sem ser num apartamento onde estávamos sempre a chocar uns nos outros, foi um verdadeiro bálsamo. Das poucas vezes - senão mesmo a única - que efectivamente gostei daquelas férias. Lembro-me quando descíamos, de manhã, pelo pinhal para a praia de Santa Eulália, e nos deitávamos na areia, na galhofa. Lembro-me de regressar para o almoço, esganados de fome e, umas horas depois, voltar para uma segunda dose de praia de tarde. Houve, inclusivamente, noites em que até fomos à água, sob o céu estrelado, só pela piada.
Pouco tempo depois deste verão, o Algarve acabou-se: passei a ter idade suficiente para conseguir convencer os meus pais a não ir para aquele suplício e ficar na capital. A opção prolongou-se para lá do final da adolescência e pelos primeiros anos e décadas de adulto. Só mais recentemente pus fim ao interregno e recomecei a ir, com alguma frequência. Algumas vezes - ironia do destino - buscando activamente um conjunto de Groundhog Days, daqueles que servem para alhear o cérebro e recarregar baterias.
Num desses dias, fiz a estrada a caminho de Albufeira e, ao passar pelo portão estreito, com a cor pálida a pedir uma nova demão de tinta e ervas a sair pelos intervalos das grades, lembrei-me do ferro de engomar.
sábado, 1 de janeiro de 2022
segunda-feira, 27 de dezembro de 2021
domingo, 26 de dezembro de 2021
O casal vinha à minha frente, caminhava pelo passeio da Avenida da República.
Ela do lado esquerdo, ele do lado direito. Quando me aproximei, em passo de corrida, para os ultrapassar, reparei no tubo de borracha, meio azulada, entre os dois, separados por cerca de metro, metro e meio. Ao passar ao lado dela, um relance confirmou a minha suspeita: era o tubo de uma algália, o saco estava dentro da mala que ela levava ao ombro. O contraste: por um lado, o saco escondido dentro de uma mala, para que não se visse o conteúdo; por outro lado, a despreocupação com o tubo exposto.
quarta-feira, 17 de novembro de 2021
A reciclagem de vidro é uma actividade que gera um elevado trauma.
Acho sempre que os meus vizinhos vão pensar que tenho um problema com alcool quando oiço o barulho estridente das garrafas a cair no interior do vidrão do prédio.
quarta-feira, 10 de novembro de 2021
Dirijo-me ao segurança, como todos as manhãs, à entrada.
Está a atender uma pessoa à minha frente e demora algum tempo. Quando finalmente chega à minha vez, começa por apontar o aparelho ao pulso direito, que lhe estendo de imediato, ainda antes de dizer "bom dia". Que a leitura não saia à primeira, é já algo a que estou habituado, por isso não estranho que vá percorrendo diversas zonas do pulso, enquando carrega no botão. Nem sequer é incomum que, após meia dúzia de tentativas frustradas, me peça para medir a temperatura na testa. Acedo ao pedido e, com alguma vergonha, afasto desajeitadamente a minha franja Justin Bieberesca da testa.
O processo transforma-se oficialmente num problema quando nem literalmente de arma apontada à cabeça o meu corpo resolve fornecer uma temperatura. Aos poucos, a atrapalhação do segurança cresce e ultrapassa a minha. Em desespero de causa, pede-me para medir no pulso esquerdo, pode ser que resulte aí: está-se mesmo a ver que não resultar e, de facto, não resulta.
Com isto, formou-se uma longa fila atrás de mim, que se prolonga até à porta. Pede-me para esperar um pouco enquanto testa a máquina nas restantes pessoas que, uma a seguir à outra, são rapidamente processadas, sem nenhum problema. Observo, desconsolado, a facilidade com a que máquina lê outros pulsos e testas, crescentemente convencido de que o problema sou eu. Após ter varrido toda a fila e as pessoas terem ido à sua vida, volta a mim. Tenta novamente e, novamente, não tem sucesso.
Estamos numa encruzilhada: a ausência de uma temperatura que permita tomar uma decisão sobre a minha entrada é um vazio legal não previsto no protocolo. Não faz ideia como agir nestes casos. Pega no telefone e liga a quem de direito para saber o que fazer. A instrução é para me deixar entrar: segundo o informam, devo estar "demasiado frio" para que o aparelho possa fazer o seu trabalho em condições. Entro a matutar na frieza deste comentário.
terça-feira, 9 de novembro de 2021
It's all in the reflexes
O impacto da digitalização e robotização no mercado laboral não é uma discussão recente. O espectro de profissões que podem vir a ser afectadas é bastante alargado mas há algumas, tais como os condutores de camiões, que são consideradas quase como casos paradigmáticos. Os progressos no desenvolvimento de tecnologias de condução automática passaram a ser uma espécie de espada de Dâmocles que paira sobre a cabeça dos profissionais do sector.
Por isso é que os mais recentes relatos de escassez de condutores de camiões têm alguma piada. Primeiro foi no Reino Unido, relacionado com as dificuldades de obtenção de visto de mão-de-obra estrangeira. Mais recentemente, nos EUA, onde muitos trabalhadores do sector (assim como de outros, tais como a resturação e hotelaria) decidiram abandonar os empregos duros, fisicamente exigentes, que em alguns casos causam disrupção na vida pessoal e familiar e, ainda para mais, não fantasticamente bem pagos.
The biggest kink in America's supply chain: not enough truckers
segunda-feira, 8 de novembro de 2021
In loco
Dar conselhos sobre saúde mental nas redes sociais é como alertar para as alterações climáticas numa central termoeléctrica.
domingo, 7 de novembro de 2021
Tell me why
«Que importância tem que eu acredite ou não? Escolhi este caminho, sinto-me útil! Que interesse tem saber se faço isso com sinceridade ou não? Faço alguma coisa, estou ao serviço de uma...[causa]»
Cevdet Bei e os seus filhos, Orhan Pamuk
sexta-feira, 29 de outubro de 2021
segunda-feira, 25 de outubro de 2021
Não me lembro da última vez que me pediram fotos de tipo passe.
Os modernos cartões de identificação dispensam-nas e, fora uma ou outra vez que me sentei num fotomaton a fazer caretas para o aparelho, não me ocorre mais nenhuma utilidade para as mesmas.
Acontece que, recentemente, necessitei desse tipo de fotografias. E, pasme-se, para um documento oficial. Acto contínuo googlei onde as poderia fazer e descobri que as lojas da Fotosport ainda prestam o serviço. Sentando num banco alto, costas direitas a pedido da funcionária, olhei, de sorriso amarelo, para a máquina fotográfica à minha frente, qual índio que sente a alma a ser capturada pelo obturador.
O resultado, cerca de 10 minutos depois, foi um envelope com um conjunto de fotos da dimensão pretendida, assim como uma maior, aparentemente oferta.
Em miúdo, sempre que fazia fotos de tipo passe, a minha avó pedia-me uma da colecção para guardar. Eu fazia sempre o figurão de lhe dar esta foto maior, não necessária para o propósito que me levava ao fotógrafo, mas de grande utilidade para a questão familiar.
