domingo, 29 de janeiro de 2017

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A idade dos finalistas deste Open da Austrália é ridícula

O mais novo dos quatro é Rafa Nadal, que já conta com 30 anos (e uns 6 ou 7 meses). Do outro lado da rede da final masculina estará Federer com os seus provectos 35. Relativamente à final feminina, a mais "nova" das irmãs Williams, Serena, tem também 35 e a mais "velha", Venus, tem 36. A longevidade das carreiras destes quatro já é impressionante por si só; o facto de chegarem à final de um Slam ultrapassa essa barreira e eleva à categoria de monumental.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Cuarteto Casals completa duas meias-maratonas de Mozart na Gulbenkian

(Publicado originalmente aqui)

Ao que tudo indica, Joseph Haydn e Wolfgang Amadeus Mozart eram amigos e respeitavam-se mutuamente e Haydn terá inclusivamente tido um pequeno papel como mentor de Mozart. Reconhecendo a influência de Haydn no seu próprio trabalho, Mozart dedicou-lhe um conjunto de seis quartetos para cordas, escritos entre 1782 e 1785 em Viena. Figura incontornável das peças para este tipo de formações, um dos epítetos pelo qual Haydn ficou conhecido foi justamente “o pai do quarteto de cordas”.

Haydn ouviu as peças em dois eventos sociais no início de 1785, após o qual, segundo consta, terá feito um comentário ao pai do jovem Wolfgang, Leopold, que se tornou célebre, e que arrisco traduzir: “Perante Deus, e como homem honesto, digo-lhe que o seu filho é o maior compositor que conheço, em pessoa ou de nome. Tem gosto e, para além disso, o mais profundo conhecimento de composição.”

O que, vindo de quem vem, impressiona qualquer um. E sobretudo, tendo em conta que, à altura, este conjunto de peças teve uma recepção algo dividida: alguns contemporâneos, embora reconhecendo inspiração ao compositor, classificaram os quartetos como demasiado complexos e difíceis, em particular, o último, o nº19, intitulado “Dissonância”.

É este o repertório que o reputado Cuarteto Casals – Abel Tomàs e Vera Martínez no violino, Jonathan Brown na viola e Arnau Tomàs no violoncelo – trouxe até ao Grande Auditório da Gulbenkian, na tarde de domingo. A ocasião está integrada numa pequena tournée europeia, na qual o quarteto se propõe tocar estas peças. Para além de Lisboa, e entre outras, Londres, Roma e Florença serão contempladas, e a digressão terminará, simbolicamente e como não podia deixar de ser, em Salzburgo.

Trata-se de uma verdadeira maratona de música, dividida em duas meias-maratonas de três quartetos cada. Para quem nunca foi além da meia-maratona – e, ainda assim, a grande custo – esta paragem estratégica é bastante conveniente para permitir recuperar o fôlego entre as duas metades da exigente prova e cortar a meta em estilo.

A terminar a excelente interpretação do Cuarteto Casals, fiz uma pequena viagem no tempo e recuei um pouco mais de dois séculos (232 anos, para ser mais preciso) e tentei colocar-me nos pés de Joseph Haydn, assim que o compositor austríaco acabou de ouvir pela primeira vez o que eu também, os tais 232 anos depois, acabara de ouvir. E, nesse preciso momento, não tive outro remédio senão concordar com as palavras que partilhou com Leopold Mozart.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Música abandonada

«... she realised how wrong she had been to think that he played for no one but himself: he didn't even play for himself - he just played. He was the exact opposite of his friend Art, who put everything of himself into every note he played: Chet put nothing of himself into his music and that's what lent his playing its pathos. The music he played felt abandoned by him. He played the old ballads and standards with a long series of caresses that led nowhere and subsided into nothing.»

But beautiful, Geoff Dyer

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Ovo

«- What's an egg look like, Mingus?
- A egg?
- Yeah, tell me what an egg looks like.
- How old was you when your eyes went out?
- Two.
- You ever seen the sun?
- Yeah, must've done. I remember the sun.
- An egg looks that, like the sun. Yellow, bright, clouds around it.»

But beautiful, Geoff Dyer

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A arte de escolher a fila certa no supermercado

Opto pela caixa mais perto de mim: há três pessoas à minhas frente e duas delas têm poucas compras, enquanto na caixa ao lado o número de pessoas é o mesmo mas têm carrinhos bem cheios. Ganho tangencialmente a corrida a este lugar a um senhor que fica atrás de mim até reparar que uma das pessoas da caixa ao lado entretanto sai da fila e ele rapidamente toma esse lugar vago.

E depois espero. A senhora que está à frente na fila demora. Bastante. Não sei com quê, não estou a prestar atenção, mas reparo nos olhares de sofrimento dos dois que estão à minha frente (e que, ainda por cima, não têm quase nada). Os meus olhos divergem um pouco enquanto espero e reparo que, o tipo que estava atrás de mim e se mudou para a outra caixa, já está a pagar as compras dele e eu ainda nem consegui colocar as minhas no tapete.

Regresso às pessoas à minha frente, a mesma senhora está agora (finalmente!) a pagar. Tem o cartão no terminal e, na mão esquerda, a carta do banco com o pin do mesmo aberta à sua frente, enquanto lentamente digita os algarismos com a mão direita. Quando acaba, consegue deixar cair o papel, que é gentilmente apanhado e devolvido pelo homem que está a seguir na fila e que só quer levar uma caixa de seis ovos. A senhora volta guarda o envelope na carteira gigante enquanto eu imagino onde já andará o senhor que estava atrás de mim e mudou de fila.

Assim que as compras desta senhora são processadas, as duas pessoas à minha frente são atendidas muito rapidamente, tal como previsto. Quando chega a minha vez, debato-me um pouco com o espaço no final da caixa para arrumar as minhas compras: os sacos da senhora ainda lá estão, ela ainda arruma qualquer coisa que não consigo perceber bem. Saímos do supermercado quase ao mesmo tempo.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A décima terceira

A senhora das castanhas usa uns óculos grossos e, ainda assim, olha-me franzida como quem tem dificuldade em visualizar. Peço-lhe uma dúzia, ela responde-me sim senhor e começa a despejar as castanhas, mantidas quentes numa gaveta de metal, dentro de um saquinho de papel, daqueles que a ASAE obrigou em substituição das folhas de jornal. Quando acaba, estende a mão para me entregar o saquinho cheio e diz-me o que me pareceu ser treze. Entrego-lhe a moeda e desta vez fico mesmo intrigado porque já na vez anterior - sou cliente habitual - me pareceu ouvir o mesmo e resolvi concluir que se teria tratado de um mau entendimento meu. Chego a casa e conto o conteúdo: são efectivamente treze. Problemas com a definição de dúzia? Pouco plausível, é um conceito simples e de vasta utilização, então para quem vende castanhas. Um bónus motivado pela concorrência próxima do senhor que vende do outro lado da rua? Se sim, confesso que aprecio. Mas aqui fica a advertência para um perfil de cliente que poderá não nutrir o mesmo respeito pela décima terceira castanha: os supersticiosos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Self-depreciating

«"The way you disapprove of your life! Why do you do that? It is of no value for a man to disapprove of his life the way you do. You seem to take some special pleasure, some pride, in making yourself the butt of you own peculiar sense of humor. I don't believe you actually want to improve your life. Everything you say is somehow always twisted, some way or another, to come out 'funny.' All day long the same thing. In some little way or other, everything is ironical, or self-depreciating. Self-depreciating?"
"Self-deprecating. Self-mocking."»

Portnoy's complaint, Philip Roth

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Boa manhã

«"Good morning," he says, and now it occurs to me that the word "morning," as he uses it, refers specifically to the hours between eight A.M. and twelve noon. I'd never thought of it that way before. He wants the hours between eight and twelve to be good, which is to say, enjoyable, pleasurable, beneficial! We are all of us wishing each other four hours of pleasure and accomplishment.»

Portnoy's complaint, Philip Roth

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Do outro lado do rio da Prata

Chegamos ao check in do ferry ensopados. Começou a chover em Buenos Aires depois do tempo solarengo e quente dos últimos dias. A primeira paragem é na pequena Colónia Sacramento, que vemos em passo acelerado para fugir à chuva que teima em não parar.

Dali apanhamos um autocarro para Montevideo. Três horas para 160 quilómetros. Não devido a estradas em más condições, mas porque o autocarro para em tudo o que é lugarejo. Fazemos o caminho do terminal de autocarros até ao nosso hotel a pé e de imediato começamos a ficar com um pé atrás em relação à cidade. Há uma certa decadência, visível nos edifícios velhos e cinzentos, no aspecto sujo das ruas. Depois de deixarmos as coisas no quarto, descemos a avenida principal até praça no início da cidade velha. No meio de edifícios históricos, alguns de funções públicas, erguem-se igualmente autênticos mamarrachos, velhos, feios, sujos.

No dia seguinte tentamos um programa alternativo. Andamos quilómetros. Desde o hotel perto da Avenida 18 de Julho, atravessamos a Punta Carretas até chegar à praia dos Pocitos. A orla costeira faz lembrar o calçadão carioca, numa lembrança de quem nunca o viu ao vivo e a cores. Mas com algumas diferenças. Desde logo a cor da água, pouco convidativa. Convém relembrar que não se trata propriamente de mar, mas sim do estuário do Rio da Prata, que pode ganhar uns tons mais acastanhados em função das correntes. E depois, uma vez mais, os prédios que envolvem aquela pequena enseada. Velhos, sujos, feios. A praia continua a fazer lembrar Copacabana mas numa mistura com a Calçada de Carriche.

Ainda assim, numa tentativa de moderar a minha opinião, admito que seja possível que Montevideo sofra pela proximidade a Buenos Aires. É difícil competir com a capital da Argentina, uma cidade atraente, fervilhante que certamente colocaria em segundo plano muitas outras cidades que, à partida, nos parecem interessantes. É possível. Mas atrevo-me a dizer que nem tudo é atribuível à proximidade à forte concorrente.