quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

For whom the bell tolls

Assim que surge a máquina fotográfica e fazemos a pose, os miúdos vêm a correr pôr-se à nossa frente, encostados às nossas pernas. Como se reagissem à máquina da mesma forma que o elefante do jardim zoológico reage à cenoura e toca o sino. Riem e sorriem para a foto, estão divertidos. Depois sentam-nos no tapete na tenda aberta, a mãe chega com o bule e os copos, preparam-nos para o ritual do chá. Os miúdos ficam à volta da mãe, têm na boca os rebuçados que lhes demos. Falam entre eles, não percebemos nada. Sentimo-nos a mais, sentimo-nos a mais. Não sabemos como agir, não sabemos o que fazer excepto que a certa altura é suposto darmos mais do que uns rebuçados, é suposto deixarmos algum dinheiro. Porque é tudo falso e artificial, uma forma de ganharem algum dinheiro. Falamos como podemos entre nós tentando não ser perceptíveis sobre quanto deixar – não sabemos. À primeira oportunidade, deixo uma moeda de 10 dirhams na mão de cada um dos três miúdos e saímos dali. A última imagem que guardo é de olhar para trás enquanto me afastava e ver a mãe de braço esticado e sem o sorriso com que nos recebeu a recolher as moedas das mãos dos filhos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Unabhängigkeit

«(…) l’erreur est de penser que cette quantité d’expérience dépend des circonstances de notre vie quand elle ne dépend que de nous. Il faut ici être simpliste. A deux hommes vivant le même nombre d’années, le monde fournit toujours la même somme d’expériences. C’est à nous d’en être conscients.»

Le mythe de Sisyphe, Albert Camus

But I ain't losing sleep and I ain't counting sheep,

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O cúmulo da incompetência

é trabalhar para uma agência de informação, passar os dias a escutar conversas telefónicas alheias e não saber que se é traído.

domingo, 8 de dezembro de 2013

O mais difícil é convencer os outros de que não estamos à venda.

Que não temos preço. É preciso sinalizá-lo de uma forma muito forte e contundente, de uma forma que tenha uma credibilidade inquestionável. Que se sobreponha à estranheza, à incredulidade alheia. Porque no fundo, o que se espera de todos nós é o contrário: que sinalizemos (constantemente) o nosso preço.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Son muy listos

Comento com uma espanhola, amiga de circunstância de viagem. Têm resposta para tudo e um sentido de humor apurado. Dizem expressões como "bom dia, alegria", "verdade verdadinha" e "queres queres, não queres não queres" da forma correcta, no momento certo.

Terapia de substituição

Chá de menta como quem bebe café. Dor de cabeça.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Seis e meio

Numa banca de jornais – e não só, recordações, comida, etc. – do aeroporto de Dublin. Quero levar qualquer coisa comigo para ler, não me apetece o livro que levei trouxe para a viagem. Opto por uma solução típica, agora uma Economist – na capa a chamada para um artigo sobre a Google Glass e possíveis ataques à cada vez mais exígua privacidade. O funcionário pega na revista, aponta o leitor de código de barras, espero que me diga o preço de carteira na mão. E depois fico a pensar nos seis euros e meio, enquanto me dirijo para as cadeiras onde hei de esperar pelo embarque. De repente, as letrinhas pequenas na parte inferior da capa da revista. Só há dois preços nos países do euro: Áustria, Bélgica, Finlândia, Alemanha, Luxemburgo e Holanda pagam o mesmo que a Irlanda e todos os outros gozam de um desconto de vinte cêntimos. A política de preços da Economist parece uma fábula do centro e da periferia, tão em voga nos temas que enchem grande parte das páginas da revista. Quer dizer, quase, é imperfeita porque coloca a Irlanda no centro e a França na periferia. A própria Itália é capaz de ficar um bocado chateada por ir para casa com mais vinte cêntimos no bolso.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Pero que las hay

A Apple comprou uma empresa de tecnologia que é conhecida por ter criado o sistema de detecção de movimentos utilizado em consolas de jogos da Microsoft. Grosso modo, esta empresa desenvolveu um sistema inovador que permite que a consola se aperceba dos movimentos corporais sem ser necessário que os jogadores se equipem com sensores nos seus corpos. Especula-se agora o que a Apple terá em mente com a incorporação deste tipo de tecnologias nos seus equipamentos.

Depois desta introdução (que praticamente só tem interesse como contexto) há dois aspectos muito curiosos nesta notícia: i) a empresa foi fundada maioritariamente por pessoas com um passado ligado a defesa e ii) é israelita.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Foi mais ou menos assim

Fábio!
(silêncio)
Ó Fáá biioo!
(silêncio)
Eh pá, Fábio é um nome muito musical. Fábio. Solbio. Sibio.
Dóbio
Rébio.
(silêncio)
(olhares)
Eh pá, Rébio é um bocado mau.

domingo, 24 de novembro de 2013

Heads up

Se há profissão que eu diria que acarreta riscos é a dos tipos que fazem entregas de botijas de gás. E, no entanto, parece que as únicas pessoas que não se aperceberam desse risco são aqueles que efectivamente fazem as entregas. Lidam com as botijas como se fossem sacos de lixo, deixam-nas cair no chão, etc.. Há dias vi uma carrinha ser conduzida lunaticamente, as botijas atrás a chocalhar umas contra as outras.

Às vezes tenho vontade de me dirigir a um desses profissionais e alertá-lo para o facto de que aquele recipiente pesado e feio e sujo contém uma coisa chamada gás, coisa essa que é conhecida por ser combustível e que é capaz de explodir se a aborrecermos demasiado. A esperança reside no gás canalizado, que é provável vir a salvar-nos a vida a todos.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Wide awake

Há um certo travo agri-doce em relação a ir ao cabeleireiro. É simpático quando mexem no cabelo mas é terrível o esforço para manter acordado.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Semínima pontuada

O N. dá-me a melhor definição de tocar polirritmos: é como aqueles jogos de bebés em que é suposto pôr um objecto com uma dada figura no orifício correspondente - só que em vez de pôr o triângulo no orifício em forma de triângulo, tentas encaixá-lo no que tem forma de quadrado. Eu acrescento: quadratura do círculo.