domingo, 17 de novembro de 2013

Anti-pró

«Às vezes prefere-se o moderno anti, sufixo nacionalmente adorado com o qual os portugueses se definem: é-se anti-comunista e anti-nuclear e anti-aborto e anti-gamente ainda era pior. Pelo contrário, o sufixo oposto, pró é praticamente tabu. Não se ouve dizer que se é pró-comunista e, de um modo geral, só se é «pró» em relação ao menino e à menina, ex: «É pró menino e prá menina».

Pior ainda: pró é sobretudo usado para mandar pessoas de que não se gosta para um sítio malcriado, e as palavras que começam por ela são geralmente pejorativas: nenhum português quer ser proxeneta, prostituta ou professional. As palavras começadas por anti, em contrapartida, são autênticas coqueluches: tudo é antítese de tudo, e a anti-poesia e o anti-cinema suscitam o interesse geral.»

A causa das coisas, Miguel Esteves Cardoso

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Mas não cai

Talvez por ser um Continente de menor dimensão, o da Defensores de Chaves costumava ter um sistema em que os clientes pesavam eles próprios a fruta e os legumes – no Colombo há um funcionário dedicado exclusivamente a essa tarefa. Recentemente, resolveram abandonar este sistema e a pesagem passou a poder ser feita nas caixas, como nalguns estabelecimentos da concorrência. Retiraram a quase totalidade das balanças. A quase totalidade, digo e repito, porque deixaram ficar uma. Uma. Da primeira vez que presenciei a alteração, reparei na bicha interminável de pessoas que refilavam enquanto esperavam para pesar o conteúdo dos sacos de plástico fininhos e transparentes: a mesma fila que dantes se dividia em três, quatro balanças diferentes, serpenteava na direcção do agora único exemplar. Disse mal à minha vida mas suspirei logo que ouvi o funcionário a avisar que o processo podia ser protelado até à caixa.

Passadas umas semanas (um mês?) deste episódio ainda há quem (e não são assim tão poucos) continue a fazer fila e a refilar enquanto espera interminavelmente pela única balança disponível (estarão lá há um mês?). É que não é só uma coisa que não entendo, são duas: (i) que ainda não tenham interiorizado que não precisam de levar a cabo o ritual da pesagem (enfim, somos criaturas de hábitos) e (ii) que a gestão daquele Continente não tenha retirado a última balança que Mohicanicamente subsiste, muito concorrida. Não que me prejudique – pelo contrário, quanto mais as pessoas à minha frente já levarem as coisas delas pesadas, menos tempo tenho que esperar para pagar porque dispensa o trabalho do caixa. E eles – que deveriam ser os principais afectados pela mudança – ainda não se habituaram, consultar desenfreadamente tabelas com códigos enfiadas em capas de plástico.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Prospect of a deal

De repente, o gato salta-te para o colo, como me costumava fazer a mim. Aliás, a qualquer pessoa. Com um aviso casual, um miar fortuito emitido instantes antes de dar o impulso no chão e aterrar nas tuas pernas. Quer festas, roça-se em ti, ouve-se o ronrom. Encolhes-te toda, soltas um som ridículo. Tens pouca experiência com animais, as tuas mãos ficam perdidas sem saber o que fazer, sinto-te ficar tensa, quase hirta. Levanto-me e agarro o gato, tiro-o de cima de ti, ponho-o no meu colo.

Explico-te como funcionam os gatos. Como se tivessem um manual de instruções e eu te estivesse a pôr a par dos botões, onde e quando carregar. O que fazer. A certa altura estamos a falar da personalidade dos gatos – da independência, da fleuma. Dizes que os gatos são como as mulheres quando passam as mensagens por gestos e silêncios, intenções. O que eu te tentei explicar – sem sucesso, reconheço-o agora – é que não é só com as mulheres que eles são parecidos.

domingo, 10 de novembro de 2013

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Estica

Nunca saio do gabinete sem esperar uns quantos minutos após pôr um documento a imprimir: a impressora demora sempre um bom bocado a aquecer. Fico a pensar se não deverá fazer alongamentos no final.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Tilda

Ponho um til ao preencher um formulário online e de imediato surge uma caixa a dizer que “special characters” não são “allowed”. Como explicar a ingleses que acentos não têm nada de especial? Muito pelo contrário, são bastante comuns e banais.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Cristiano Ronaldo não é o super-homem.

O futebolista lançou uma linha de roupa interior. Diz que está muito contente porque gosta muito de roupa interior e – atenção a esta parte – porque é a primeira coisa que veste de manhã.

domingo, 3 de novembro de 2013

12 fucking notes

Uma entrevista interessante em que o Brandford Marsalis fala sobre o nível de complexidade a que chegou o jazz e onde o descreve como um obstáculo à comunicação com o comum dos mortais que “don’t know shit about music”. O jazz está a tornar-se uma música fechada, tocada por músicos para músicos, os únicos com suposto arcaboiço para entender e apreciar o que está a acontecer – um argumento parecido àquele das senhoras que se aperaltam não para os senhores mas para as outras senhoras (não as criticarem). Dito de outra forma, aquele que deveria ser o público alvo está a ficar à margem, preterido por aquilo que supostamente ainda não foi feito com as “12 fucking notes”. E tudo isto em detrimento da componente emocional que, vistas as coisas, deveria ser o verdadeiro motivo. O mais curioso é isto tudo vir da boca de um virtuoso como o Marsalis.