domingo, 26 de julho de 2020

Bruit

«J'en conclus plus tard qu'il y a une chose aussi bruyante que la souffrance, c'est le plaisir, surtout quand s'y ajoutent (...) des soucis immédiats de propreté.» 

Sodome et Gomorrhe, Marcel Proust

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Com salada de pimento

Nos dias que correm, fazer uma greve e obrigar quem não tem transporte próprio a ir (ainda mais) ensardinhado do que o normal dentro de uma carruagem, não é propriamente responsável. Como se não tivesse existido uma discussão sobre a frequência de transportes públicos. 

quinta-feira, 23 de julho de 2020

A marca

Segundo o que foi noticiado pela revista Sábado, o que terá suscitado a indicação (ordem?) para os professores da casa não referirem a sua afiliação quando emitem a sua opinião terá sido a defesa da marca Nova SBE. Resta saber se o custo reputacional de vir a público que uma faculdade prefere que os seus professores não indiquem onde trabalham para não incomodar as instituições filantrópicas não será ainda maior.  

terça-feira, 21 de julho de 2020

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Chega pra lá

A recomendação para evitar os cumprimentos com apertos de mão são como música para os ouvidos do Paulinho Santos 

domingo, 19 de julho de 2020

Gouailleuse

« - (...) Tout le monde n'aime pas être pleuré de la même manière, chacun a ses préférences.
- Enfim, il lui a voué un vrai culte depuis sa mort. Il est vrai qu'on fait quelquefois pour les morts des choses qu'on n'aurait pas faites pour les vivants.
- D'abord », répondit Mme de Guermantes sur un ton rêveur qui contrastait avec son intention gouailleuse, «on va à leur enterrement, ce qu'on ne fait jamais pour les vivants!»»

Le côté de Guermantes, Marcel Proust

quinta-feira, 16 de julho de 2020

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Reconversão

One child nation é um documentário sobre a política de filho único que vigorou durante décadas na China. Uma das pessoas entrevistadas pela realizadora é a parteira que a ajudou a nascer. À altura, essa senhora, como as demais colegas de profissão, acumulava um conjunto inusitado de tarefas: para além de realizar partos, levava a cabo abortos e esterilizações (forçadas) de mulheres. Hoje em dia, como forma de (auto-) penitência, ajuda casais com problemas de fertilidade. 

domingo, 12 de julho de 2020

Uma questão de asteriscos

Aquando da designação de significant other, de imediato perguntou qual o respectivo p-value. 

sábado, 11 de julho de 2020

Começo a invejar as malas de senhora

Há um momento a partir do qual não se sai de casa sem carteira e chaves. No meu caso, a carteira terá vindo pelos 10 anos, aquando da passagem da escola primária para o ciclo, onde andar com dinheiro passou a ser necessário. As chaves vieram mais tarde: havia sempre alguém em casa. Depois inventaram o telemóvel e, algures lá para o final da minha adolescência, passou a somar-se ao conjunto de coisas que automaticamente coloco nos bolsos antes de sair de casa. Agora passámos também a ter a máscara, que que coloco no móvel de entrada no sítio dos objectos indispensáveis, para evitar esquecimentos pela falta de automatização de hábitos e gestos. 

domingo, 5 de julho de 2020

At arm's length

A distância passou, nos dias que correm, a ser um tópico incontornável por uma razão bastante palpável. Distância física, neste caso. Para além desta, há também uma distância, não necessariamente física, entre pessoas. O relacionamento entre pessoas é, entre outros, função dessa distância, que tem um determinado nível óptimo: há aqueles que funcionam bem aos mesmos 2 metros recomendados pelas autoridades de saúde, como outros a 2 centímetros, e mesmo outros a 2 milhas. No limite, a 2 mil milhas, que começa a ser o equivalente a dizer que o melhor relacionamento é a sua ausência. 

Determinar essa distância não é pêra doce, não é fácil calcular essa função quadrática e maximizá-la. É um equilíbrio, como quase tudo. E como quase todos, difícil de manter, como diz o cliché. O problema é a assimetria do erro por defeito ou por excesso. É perfeitamente possível lidar com o primeiro, quase ad eternum; já o último é, normalmente, irreversível: depois da constatação da falta de adequação, por excesso, de um determinado nível de proximidade, é virtualmente impossível voltar atrás. Pelo que os erros de julgamento tendem a só ser feitos uma vez: a última.   

sábado, 4 de julho de 2020

Prisão domiciliária - 116º dia

É possível que tenha deixado de ser uma prisão. Agora que penso nisso. Em primeiro lugar, pelo regresso a casa, que claramente foi uma considerável melhoria de qualidade de vida. Depois pela habituação, pela normalização, à bruta, de uma circunstância que deveria ser altamente anormal. O eventual regresso ao escritório, seja lá quando isso for, tem o potencial (crescente no número de dias que ficamos em casa) de vir a ser sentido como a prisão que foi a ida para casa. Agora que penso nisso.  

sexta-feira, 3 de julho de 2020

A localidade chama-se Galiza.

Fica no topo (chamemos-lhe assim) de São João do Estoril e tem uma ligação familiar especial. Para além disso, foi na escola desta localidade que andei nos 5º e 6º anos. Lembro-me, naquela altura, quando alguém exclamava perante o curioso toponímico, a piada que mais se fazia nome era dizer que ficava em Espanha. Há uns tempos, ao sair da auto-estrada, passei pela antiga estrada (agora há uma nova que evita passar pela localidade a caminho de São João) e reparei na placa com a indicação do nome: um maduro qualquer acrescentou um "le" no início da palavra. Apeteceu-me voltar atrás e actualizar a piada, substituindo Espanha por Jamaica. 

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Cedo erguer

Costumamos dizer de alguém que respeitamos e a quem reconhecemos mérito, que merece que lhe ergam uma estátua. No actual contexto, o homenageado é capaz de recusar.  

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Alouette

Aqueles que dizem não se arrepender de nada deviam começar por se arrepender exactamente por dizerem que não se arrependem de nada. Das duas uma: ou não é verdade, ou é altamente irresponsável. 

segunda-feira, 29 de junho de 2020

domingo, 28 de junho de 2020

Cão que ladra

«L'amour? avait-elle répondu une fois à une dame prétentieuse qui lui avait demandé: "Que pensez-vous de l'amour? L'amour? je le fais souvent mais je n'en parle jamais.»

Le côté de Guermantes, Marcel Proust

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Arricar-se

De acordo do com o critério etário, a Guerra da Coreia passou a ser um grupo de risco do Covid.

Off with their heads

É possível que a introdução de quotas para determinados cargos, como forma de combater a desigualdade de género, possa conduzir a um aumento das operações de mudança de sexo. 

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Tosse

Há umas décadas atrás, os assaltos com agulhas, presumivelmente infectadas com sida, surgiram e passaram a ser a alternativa à mão armada de arma convencional. Hoje, parece que tossir pareceu a ser uma arma que explora o medo do Covid.

terça-feira, 23 de junho de 2020

domingo, 21 de junho de 2020

Prisão domiciliária - 103º dia

Desconfinamento em solo nacional com o receio, em pano de fundo, de um possível futuro confinamento.  

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Prisão domiciliária - 101º dia

Sinto-me como os prisioneiros que são transferidos de uma prisão de alta segurança para outra. Continuo encarcerado mas tenho muito mais comodidades.  

terça-feira, 16 de junho de 2020

Os paus já cá cantam, venham os contos

Quando muitos lamentavam a entrada em cena dos euros e o adeus dos escudos, com razões certamente bastante certeiras, a mim ocorria-me a grande perda que seria não voltar a ouvir as denominações de "paus" e "contos", cuja utilização estava submetida a regras muito estritas. Senão veja-se: 500 paus mas nunca meio conto; 1000 paus, raramente um conto (só se fosse dito por uma pessoa de mais idade, seguido de "de reis"); 1500 paus, nunca um conto e meio; 2 contos, nunca 2000 paus, 2 contos e quinhentos, e etc. 

Recentemente, voltei a ouvir a expressão "paus". 20 paus são, nos tempos que correm, 20 euros. Assim como também ouvi 50 paus e 100 paus e por aí fora. Foi toda uma nostalgia que me invadiu, o regresso de uma expressão que não ouvia há décadas, senão quando dito por brasileiros a falar de reais. Há uma certa fase de ajustamento - 20 paus equivalem (nominalmente) aos 4 contos de antigamente, ou seja, não dá para pensar muito nos valores, não vá uma pessoa baralhar-se. Mas depois é aceitar e seguir em frente. 

Aguardo agora pelos contos. 

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Prisão domiciliária - 96º dia

Ao 15º dia de confinamento veio-me à cabeça a música dos Xutos. Ao 96º também, embora com uma perspectiva diametralmente oposta.  

Euros com cêntimos.

O sotaque nortenho saltou logo à vista (ou ouvido, neste caso). Não era daqueles muito carregados e incisivos mas mais do que suficiente para ter uma ideia muito precisa da latitude de origem. O mais interessante surgiu na altura do pagamento, quando me disse que tinha de pagar X euros com Y. Isso mesmo que ouviram (ou leram, neste caso). Não foi X euros e Y cêntimos, a formulação típica e standard. Foi X euros com Y (sem cêntimos a acompanhar), à boa maneira espanhola, algo que eu não tinha visto (nem ouvido) dizer a um compatriota. E depois o murcon sou eu. 

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Do the right thing

Finalmente, passados estes anos todos, sentei-me a ver um dos mais aclamados filmes do Spike Lee. Estranhamente, o que mais gostei no filme foi o crescendo de irritação que ele consegue gerar. É possível que, em tempo de confinamento, esteja mais susceptível à irritação. Ainda assim, a constante tensão e fricção entre os personagens é desgastante. A certa altura era já eu próprio que queria saltar para o meio da película e (tentar) fazer com que se calassem. Conclusão: fui para a cama irritado. 

 Dito isto: ainda a meio, cheguei à conclusão de que não iria gostar. Não me enganei: confirmou-se e, quando cheguei ao fim, cheguei à conclusão de que não gostei. Não porque ache que o filme seja mau per se: não é. Ou que faça um mau retrato da realidade: acho que é um retrato fidedigno. E continua a ter uma actualidade arrepiante: vejam-se os recentes acontecimentos nos EUA. 

 O que não me agrada é a nítida intenção de dar uma lição, a carga de didatismo ou proselitismo, que instintivamente me repele. Neste particular, estou com o Ricardo Araújo Pereira, que, segundo o próprio, não faz humor para mudar o mundo, mas para fazer as pessoas rir (um objectivo totalmente inesperado). O Spike Lee tem uma posição diametralmente oposta: a arte serve para mudar o mundo. 

 Não que ache impossível ou errado que a arte faça mudar o mundo: pode ser uma consequência natural. O que irrita é que o ponto de partida seja exactamente esse: mudar o mundo. Parece uma quase presunção ou sobre-autoestima moral. Para senhora sabichona, de dedo em riste, com uma propensão inata para dar sermões aos outros, já me bastou a minha avó.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

To give the floor

A expressão to give the floor já é engraçada de se ouvir aquando da passagem de testemunho em apresentações, seminários ou palestras com componente física. Agora, no ambiente virtual em que estas coisas se fazem via webinar, a expressão toda uma nova força.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Apron strings

Apenas no contexto da maçonaria a não atribuição de um avental a uma senhora pode ser visto como discriminação de género.

sábado, 6 de junho de 2020

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Prisão domiciliária - 85º dia

Sinto o espirro a aproximar-se pouco tempo depois da comichão no nariz e na garganta começar. Nesta altura do ano, o mundo vegetal gosta de me pregar partidas e tem o condão de interferir com o meu bem estar. Viro-me para o lado da estrada, com a boca tapada a tempo do primeiro e, logo a seguir, do segundo. Quando volto os olhos novamente para o passeio, lá à frente, a uns bons 20 metros de mim, duas senhoras, que caminham no passeio na minha direcção, tiram rapidamente as máscaras da respectiva mala e ajustam-na à cara, mesmo a tempo de se cruzarem comigo em perfeitas condições de segurança.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Pêle-mêle

Quando o médico lhe disse que tinha um problema de higiene de sono, não conseguiu evitar insurgiu-se perante as acusações de, digamos, badalhoquice e perguntou-lhe se tomar banho antes de ir para a cama resolveria o problema.

domingo, 31 de maio de 2020

sexta-feira, 29 de maio de 2020

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Vertu

«(...) ce n'est pas que la richesse sans plus, la richesse sans la vertu, fût aux yeux de Françoise le bien suprême, mais la vertu sans la richesse n'était pas non plus son idéal. La richesse était pour elle comme une condition nécessaire de la vertu, à défaut de laquelle la vertu serais sans mérite et sans charme. Elle les séparait si peu qu'elle avait fini par prêter à chacune les qualités de l'autre, à exiger quelque confortable dans la vertu, à reconnaître quelque chose d'édifiant dans la richesse.»

Le côté de Guermantes, Marcel Proust

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Prisão domiciliária - 78º dia

À chegada ao supermercado, duas senhoras aguardavam a sua vez de entrar, algo que, normalmente, não acontece a esta hora matinal. Permaneci na fila, atrás delas, respeitando a distância protocolar, até, pelas portas automáticas, sair a pessoa que me deu o seu lugar. Entrei, coloquei nas mãos o desinfectante fornecido à entrada e segui esfregando-as, preparando-me para começar o monótono processo das compras, tentando navegar pelo espaço exíguo sem me aproximar demasiado dos outros e, ao mesmo, sem deixar que os outros se aproximem demais de mim. Alguns minutos depois, após ter passado a secção das frutas e legumes, onde normalmente dedico uma grande parte de todo o tempo empregue no abastecimento alimentar, apercebo-me que me esqueci de ajustar a máscara a tapar a boca e o nariz: ainda está como saí de casa, ao queixo, onde a deixo até entrar em sítios fechados, para minimizar o desconforto. Não há rigorosamente nada estranho com o meu esquecimento; ao invés, é absolutamente inacreditável que ninguém me tenha chamado a atenção, de forma escandalizada, para a minha falha.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Version N.0

O populismo de Steve Bannon, segundo o próprio, só é, ao fim do dia, diferente do da esquerda de Bernie Sanders na medida em que apresenta soluções distintas. Na génese, ambos identificam correctamente o mesmo problema: o actual sistema capitalista de oligarcas e servos (servos russos, para ser mais preciso). Não consigo perceber se Marx estará a anuir ou a dar voltas na campa.

domingo, 24 de maio de 2020

Être dans les choux

Van Gogh enveredou pela pintura depois de ter chegado à conclusão que não tinha grande ouvido para a música.

sábado, 23 de maio de 2020

Embaixada da língua

Se a embaixatriz é a esposa do embaixador, então actriz devia ser a mulher do actor. Já a mulher que impera deveria ser a imperador e a que representa deveria ser actora. Analogamente, o esposo da embaixadora deveria ser o embaixatriz, o da imperadora deveria ser o imperatriz e da actora o actriz.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Prisão domiciliária - 73º dia

Em Roma sê romano: coloquei duas salsichas bojudas na frigideira quente, ao mesmo tempo que um bocado de arroz fervia num pequeno tacho. As salsichas têm um formato arredondado, o que faz com que repousem naturalmente em alguns lados e outros fiquem naturalmente sem contacto com a superfície quente. Para evitar que partes ficassem com uma coloração rosado-crua e outras escuro-carbonizada, fui ajeitando, de garfo e faca na mão, para forçar que o calor fosse uniformemente aplicado. Tarefa nem sempre fácil, uma vez que se tratava de duas e não apenas uma mas, devo dizer, estava a sair-me relativamente bem quando, já perto de um grau de fritura satisfatório, um som estridente e ensurdecedor (e enlouquecedor) se fez ouvir pelo apartamento, bem como, calculo, por toda a vizinhança.

Tratava-se do pequeno aparelho redondo, branco, colocado no tecto da sala, a que vulgarmente chamam detector de incêndio, e que gritava a plenos pulmões, com uma pequena luz vermelha a pulsar. Não tive muito tempo para aprofundar a profunda (pleonasmo à parte) falta de lógica: já fiz tanta coisa nesta cozinha com igual grau de frigideira, não se entende o porquê desta queixa súbita e histérica. Atravesso a sala de frigideira na mão (não tentem isto em casa), abro a porta que dá para varanda e ai coloco a fonte do sinistro, longe da fonte do ruído. De seguida abro todas as janelas possíveis e imaginárias (esta casa tem mesmo muitas janelas), abro a porta do quarto, que tinha fechado por causa do cheiro, e também aí escancaro as janelas e, finalmente, a porta da rua, para forçar uma corrente de ar.

O aparelho infernal não pára. Já a imaginar uma invasão de bombeiros, já a imaginar todo o género de explicações - juro que estava só a fazer o jantar, pode ver, ainda está na varanda, tem bom aspecto, não tem? Não senhor, não fumo! - reparo, repentinamente, que há um pequeno botão, uma espécie de uma patilha mesmo ao lado da irritante luz vermelha que pulsa freneticamente. Pego na cadeira, ponho-me em cima, e carrego naquela coisa em desespero de causa. O barulho continua. Carrego novamente, com mais convicção, com muita mais convicção, com a convicção de quem está farto desta chinfrineira e só quer o jantar que lentamente arrefece ao ar livre da varanda.

O aparelho infernal não pára. Desisto, salto da cadeira, quem te disse que aquela patilhazita é para se carregar, se calhar aquela porcaria daquele botão não serve para nada ou então serve para outra porcaria qualquer. Considero pegar nos papéis que me entregaram quando me mudei, com os contactos a utilizar em caso de emergência. Quando revolvo a cabeça à procura do local onde os guardei, sou obrigado a reconhecer que, de repente, tudo parece silencioso. Redirecciono a atenção da procura dos papéis para o aparelho infernal e reparo que se calou.

Pego na frigideira e ponho-a novamente na chapa, mais que não seja para voltar a aquecer as salsichas. Reparo que, na confusão, me esqueci do arroz, que começa a querer pegar ao tacho: retiro da chapa, mexo rapidamente e alegro-me por ver que não chegou a queimar. Ponho tudo no prato, onde já estavam os brócolos. Fecho quase todas as janelas e deixo só as que têm rede mosquiteira. Finalmente janto.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Linearidade

De mau que era a fazer associações, traçava paralelos entre assuntos totalmente ortogonais.

terça-feira, 19 de maio de 2020

À prende avec des gants

Apesar do combate à corrupção, patente em processos judiciais de grande mediatismo, envolvendo altas figuras da nossa sociedade, a verdade é que parece que pouco progresso foi alcançado: nunca se ouviu falar tanto de luvas como agora.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Prisão domiciliária - 69º dia

Primeira refeição num restaurante em meses. A empregada de mesa recebe-nos de máscara (quase não se percebe o que diz), leva-nos para uma mesa socialmente distante. Regressa com uma folha A4 plastificada (e desinfectada), a fazer de menu, e um impresso para preenchermos o nome, contacto, data e hora.

domingo, 17 de maio de 2020

Au fur et à mesure

If all of this sounds familiar, it’s because, pre-Covid, this precise app-driven, gig-fuelled future was being sold to us in the name of friction-free convenience and personalisation. But many of us had concerns. About the security, quality and inequity of telehealth and online classrooms. About driverless cars mowing down pedestrians and drones smashing packages (and people). About location tracking and cash-free commerce obliterating our privacy and entrenching racial and gender discrimination. About unscrupulous social media platforms poisoning our information ecology and our kids’ mental health. About “smart cities” filled with sensors supplanting local government. About the good jobs these technologies wiped out. About the bad jobs they mass produced.

And most of all, we had concerns about the democracy-threatening wealth and power accumulated by a handful of tech companies that are masters of abdication – eschewing all responsibility for the wreckage left behind in the fields they now dominate, whether media, retail or transportation.

That was the ancient past, also known as February. Today, a great many of those well-founded concerns are being swept away by a tidal wave of panic, and this warmed-over dystopia is going through a rush-job rebranding. Now, against a harrowing backdrop of mass death, it is being sold to us on the dubious promise that these technologies are the only possible way to pandemic-proof our lives, the indispensable keys to keeping ourselves and our loved ones safe.

sábado, 16 de maio de 2020

Tell me lies, tell me sweet little lies

«Le genre de fraude qui consiste à avoir l'audace de proclamer la vérité, mais en y mêlant pour une bonne part des mensonges qui la falsifie, est plus répandu qu'on ne pense et même chez ceux qui ne le pratiquent pas habituellement, certaines crises dans la vie, notamment celles où une liaison amoureuse est en jeu, leur donner l'occasion de s'y livrer.»

À l'ombre des jeunes filles en fleurs, Marcel Proust

quinta-feira, 14 de maio de 2020

terça-feira, 12 de maio de 2020

Pombos faquir

Adaptaram-se aos espigões metálicos, colocados nos edifícios, para evitar que aí posem e nidifiquem.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Prisão domiciliária - 64º dia

Quando penso na módica quantia de 35 paus que vai custar o meu corte de cabelo - agendado para a próxima 6a feira, a primeira vaga disponível - comparo o absoluto com o relativo (parar me sentir um pouco melhor): é certo que 35 paus é extorsão pura mas, por quantidade de cabelo que será efectivamente cortado, é capaz de ser dos cortes mais baratos que alguma vez fiz.

domingo, 10 de maio de 2020

As escadas de metal estão perto do canto esquerdo da varanda.

Há uma pequena parte da barreira metálica, que separa a varanda do vazio, que abre como uma pequena portinhola, para um patamar metálico, a partir do qual estão os degraus que levam, passando pelas varandas dos restantes andares até ao chão. Uma estrutura metálica redonda acompanha os degraus, como que fechando quem sobe ou desce dentro de um casulo, desta forma evitando que possa cair de costas.

Pela porta de vidro que dá para a varanda, vejo subitamente alguém: uma miúda, talvez dos seus vinte anos, acabada de trepar escadas acima, ficou imobilizada no pequeno patamar metálico assim que me viu encolher as mãos e levantar os braços, perante a invasão inusitada. Abro a porta e, ironicamente, digo-lhe
Hi
Como se fosse normal cumprimentar cordialmente quem invade a casa alheia. Ficou manifestamente incomodada, desfez-se em desculpas
I just wanted to see what was up here.
que me soa verdadeiramente parvo como justificação. Respondo
My flat.
afirmação dificilmente refutável e com a vantagem de trazer, implicitamente acoplada, a exclamação Clooneana "what else...?". Ela desculpa-se novamente enquanto inicia o processo de descida. Digo-lhe
That's ok
Que é como quem diz, aceito a desculpa, mas não me andes para aí a subir às varandas dos outros.

sábado, 9 de maio de 2020

Autoria

No campo cientifico, as co-autorias em artigos e livros são bastante comuns. Na literatura, parece sequer bizarro pensar numa obra escrita por mais de duas mãos. Na música, há géneros onde as músicas são atribuídas a vários; já na música clássica, fala-se no compositor da sinfonia, do concerto, da ópera, na forma singular (apesar de Rimsky-Korsakov parecer uma dupla eslava) embora, certas peças possam ser interpretadas a quatro ou mais mãos no mesmo teclado. O mesmo com a pintura.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Em ré

O requiem de Mozart é, naturalmente, uma peça em ré menor. Se fosse em dó, seria um doquiem; em mi seria miquiem. Faquiem, ainda mais apelativo para os anglo-falantes. Sibemolquiem. Etc.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Macaquinho de imitação

Nas poucas vezes em que participei (tive que participar) em cerimónias religiosas, senti-me como quando se vai a uma aula de exercício físico pela primeira vez: passei o tempo a olhar para o que os outros faziam e tentei acompanhar.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Libre penseur

«À côté de mon assiette je trouvai un oeillet dont la tige était enveloppée dans du papier d'argent.Il m'embarrassa moins que n'avait fait l'enveloppe remise dans l'antichambre et que j'avais complètement oubliée. L'usage, pourtant aussi nouveau por moi, me parut plus intelligible quand je vis tous les convives masculins s'emparer d'un oeillet semblable qui accompagnait leur couvert et l'introduire dans la boutonnière de leur redingote. Je fis comme eux avec cet air naturel d'un libre penseur dans une église, lequel ne connaît pas la messe, mais se lève quand tout le monde se lève et se met à genoux un peu après que tout le monde s'est mis à genoux.»

À l'obre des jeunes filles en fleurs, Marcel Proust

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Foda-se

No código penal da minha avó, o crime de proferir um palavrão tinha, como sentença associada, a colocação de pimenta na língua. Devia ter-lhe perguntado: e se o palavrão for escrito? Pimenta nos dedos não parece ter grande efeito.

domingo, 3 de maio de 2020

Ad

De misógino que era, nunca fazia argumentos ad hominem: apenas ad mulherem.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Exclusão alimentar

Vegetariano, ficou ofendido quando descobriu que o faqueiro apenas tinha talheres específicos para refeições de carne e de peixe.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Vai para baixo

Tinha tanto azar que, quando chegou a sua vez de apanhar o elevador-social, deflagrou um incêndio e o aparelho imobilizou-se no rés-do-chão.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Metade

Acusou-o de ser um misógino. Respondeu-lhe que só tinha percebido metade: na verdade era um misantropo, pelo que à misógina faltava ainda somar a misandria.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Droga

«Et de fait, l'amour de Swann en était arrivé à ce degré où le médecin et, dans certaines affections, le chirurgien le plus audacieux, se demandent si priver un malade de son vice ou lui ôter son mal, est encore raisonnable ou même possible.»

À la recherche du temps perdu, Marcel Proust

domingo, 26 de abril de 2020

Narrativa

No título da notícia, há uma referência à narrativa oficial do governo chinês ao combate há pandemia. Como é expectável, trata-se da possível discrepância entre a forma demasiado rosada como as autoridades estarão a comunicar o processo e o regresso à normalidade e aquilo que verdadeiramente aconteceu no local.

Há uns tempos, um amigo chamou-me a atenção para o emprego que, hoje em dia, se faz, amiúde, da palavra "narrativa". Da mesma forma que, neste exemplo, o governo chinês tem uma narrativa (que pode ser mais abrangente do que o episódio de combate ao Covid-19), há tantas outras narrativas. A esquerda e a direita têm as suas narrativas, as religiões têm as suas narrativas. Outro exemplo: a narrativa (ou uma das) deste governo PS é que pôs fim à austeridade, algo que é contestado por outros partidos e sensibilidades políticas. Até as pessoas que acreditam que a Terra é plana tem a narrativa delas: acreditam que a Terra é plana.

O termo "narrativa" remete-me, de forma quase automática, para uma carteira de sala de aula, que eu ocupava na pré-adolescência. A disciplina é, naturalmente, português, na altura em que abordámos as particularidades deste tipo de texto, os seus elementos - acção, tempo, personagens, narrador, etc.. Lembro-me (surpreendentemente) relativamente bem da professora desta disciplina: costumava insistir, com alguma veemência, na forma como avaliávamos se o narrador era participante ou não-participante: "entra na história...? Mas bate à bota e pergunta "posso entrar?", é isso?".

Em si, narrar é contar, descrever, relatar algo e esse algo pode ser a realidade. Intuitivamente, reservo o verbo "narrar" para aquelas histórias que os anglo-falantes definem como "stories", para distinguir de History, e que tem um equivalente (horripilante) no novo acordo da língua portuguesa sob a forma de "estórias". Ou seja, associo "narrativa" a ficção. Por isso, parece-me inadequado quando se pretende narrar a realidade: é tratá-la como se fosse uma história (estória).

Há o espaço para a subjectividade da interpretação daquilo que é: será um sucesso ter apenas o número de vítimas mortais registado oficialmente, ou será um desastre termos todos estes falecidos contabilizados? Seguramente haverá uma narrativamente para as posições, assim como inúmeras outras para outras posições intermédias ou mais extremadas. Mas o ponto é esse: mesmo em face do mesmo, é uma posição sobre o que significa.

Donde, como sugestão de resolução deste profundo dilema: se fizer sentido, basta substituir a palavra "narrativa" por "opinião", "teoria" ou "hipótese". Porque, normalmente, não é mais do que isso: é uma forma de ver e interpretar a realidade. Certo que, em alguns casos, estamos claramente no campo daquela ficção das história (estórias): por exemplo, no que concerne à hipótese/teoria/opinião que defende que a Terra é plana. Excluindo esses casos da mais obtusa negação da realidade, a troca parece funcionar bem.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Love in an elevator

Toda a gente sabe identificar uma boa música de elevador. Já música de elevador-social parece ao alcance de poucos.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Prisão domiciliária - 43º dia

Ao fim de algum (bastante) tempo, a perspectiva de regresso à normalidade quase parece desencadear agorafobia.

sábado, 18 de abril de 2020

Prisão domiciliária - 39º dia

Pior do que estar fechado em casa é estar fechado em casa a gramar com a música pindérica que algum vizinho resolveu pôr aos berros. Já dizia o outro: l'enfer c'est les autres.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Infinitivar

Dizer que o Secretário de Estado da Saúde por vezes, fala assim, ou seja, inicia as frases com um verbo no infinitivo.

Realçar que não é o único, é uma prática que se verifica em diferentes contextos,

Acrescentar que é bastante recorrente notório na televisão, nos telejornais, especialmente nos casos de jornalistas que fazem directos.

Indicar que não dei conta quando quando começou.

Agradecer ao Ricardo Araújo Pereira, que foi quem me despertou para o fenómeno, referindo-se às pessoas que dizem frases que podem, genericamente, começar com a expressão "grande chefe índio"

Expressar, nesta fase, alguma incompreensão: a que se deve esta renitência em conjugar verbos? Tratar-se-á de uma moda que ninguém sabe de onde brotou? Será, pura e simplesmente, preguiça?

Enfatizar que é um hábito um bocado ridículo.

Pedir que parem com esta parvoíce e voltem a conjugar.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Mi-voix

«Dans la chambre voisine, j'entendais ma tante qui causait toute seule à mi-voix. Elle ne parlait jamais qu'assez bas parce qu'elle croyait avoir dans la tête quelque chose de cassé et de flottant qu'elle eût déplacé en parlant trop fort, mais elle ne restait jamais longtemps, même seule, sans dire quelque chose, parce qu'elle croyait que c'était salutaire pour sa gorge et qu'en empêchant le sang de s'y arrêter, cela rendrait moins fréquents les étouffements et les angoisses dont elle souffrait»

Du côté de chez Swann, Marcel Proust

terça-feira, 14 de abril de 2020

Prisão domiciliária - 35º dia

É complicado quando se manda alguém à merda (ou qualquer outro sucedâneo) e a pessoa pode alegar o actual enquadramento legal excepcional para não poder realizar a deslocação.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Mártir

«Es la historia real de un prisionero republicano que fue fusilado en los primeiros días de la guerra civil ela la prisión de Ávila. El pelotón de fusilamiento lo sacó de su celda en un amanecer glacial, y todos tuvieron que atravesar a pie un campo nevado para llegar al sitio de la ejecución. Los guardias civiles estaban bien protegidos del frío con capas, guantes y tricornios, pero aun así tiritaban a través del yermo helado. El pobre prisionero, que sólo llevaba una chaqueta de lana deshilachada, no hacía más que frotarse el cuerpo casi petrificado, mientras se lamentaba en voz alta del frío mortal. A un cierto momento, el comandante del pelotón, exasperado con los lamentos, le gritó:
-Coño, acaba ya de hacerte el mártir con el cabrón frío. Piensa en nosotros, que tenemos que regresar.»

Es escándalo del siglo, Gabriel García Márquez

sábado, 11 de abril de 2020

Ao prognatismo mandibular também se chama mandíbula Habsburgo.

A associação é devida à incidência do fenómeno naquela família, fruto da prática generalizada de endogamia à qual, para além desta evidente manifestação física, também se atribuíram alguns casos de demência ou loucura. Acaso não existissem mais razões para evitar regimes monárquicos, esta é uma boa razão, de cariz biológico para não se deixar governar por pessoas descendentes de várias gerações de consanguinidade.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Su hombre

«En todo caso, y aun en los tiempos más crueles del invierno, Nicolás Guillén conservaba en París la costumbre muy cubana de despertarse (sin gallo) con los primeros gallos, y de leer los periódicos junto a la lumbre del café arrullado por el viento de maleza de los trapiches y el punteo de guitarras de los amaneceres fragosos de Camagüey. Luego abría la ventana de su balcón, también como en Camagüey
, y despertaba la calle entera gritando las nuevas noticias de la América Latina traducidas del francés de juerga cubana.
(...)
De modo que una mañana Nicolás Guillén abrió su ventana y gritó una noticia única:
- Se cayó el hombre!
Fue una conmoción en la calle dormida porque cada uno de nosotros creyó que el hombre caído era el suyo. Los argentinos pensaron que era Juan Domingo Perón, los paraguayos pensaron que era Alfredo Stroessner, los peruanos pensaron que era Manuel Odría, los colombianos pensaron que era Gustavo Rojas Pinilla, los nicaragüenses pensaron que era Anastasio Somoza, los venezolanos pensaron que era Marcos Pérez Jiménez, los guatemaltecos pensaron que era Castillo Armas, los dominicanos pensaron que era Rafael Leónidas Trujillo, y los cubanos pensaron que era Fulgencio Batista. Era Perón, en realidad.»

El escándalo del siglo, Gabriel García Márquez

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Rebajas

Os germano-falantes esperam sempre promoções quando se deslocam a Rabat

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Parece-me estranho quando alguém manifesta acreditar em coisas como a lei da gravidade ou que a Terra é redonda.

Ambos são factos comprováveis e, por isso, estão fora do contexto deste verbo. Não há como acreditar naquilo que é: a questão nem sequer se coloca, seria o equivalente a dizer que se acredita na verdade. Já o contrário, estranhamente, não me parece tão estranho: é possível acreditar naquilo que não é. Ou seja, admito (embora não perceba) que haja quem acredite que a Terra não é redonda mas sim plana. Estão errados mas, ainda assim, acreditam (em algo que não é verdadeiro).

sábado, 4 de abril de 2020

4 mãos

Consta que a mãe lhe ofereceu um rolo de piano quando começou a aprender a tocar, na mais tenra idade. Art Tatum rapidamente emolou, na perfeição, aquilo que ouvia. Acontece que o rolo tinha sido gravado por duas pessoas, o que talvez ajude a explicar porque parecesse ter quatro mãos a muitos dos que o viram tocar.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Prisão domiciliária - 23º dia

Em cima da mesa está o Proust, cujas algumas centenas de páginas são o último reduto de literatura disponível. Em versão física, tenho plano de contingência digital. Dificilmente outro romance terá um título mais apropriado ao momento psicológico do que "em busca do tempo perdido".

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Equilíbrio

Devia ser proibido dar lições de moral orçamental quando se dirige um paraíso fiscal.