domingo, 13 de março de 2022

Quem te avisa

Um passo adicional face à moda de colocar uma estimativa do tempo de leitura de artigos ou notícias seria ter uma indicação semelhante na capa dos livros. Ou mesmo um daqueles alarmes dos fornos, que disparam irritantemente quando o tempo previsto de assadura chegou ao fim. 

 

sábado, 12 de março de 2022

Cancelar

A notícia dá conta de universidade milanesa que terá considerado cancelar um curso sobre Dostoiévski, assim como de pedidos para remover uma estátua do romancista em Florença. Tolstoi deve estar a dar voltas na campa por não se terem lembrado dele. 

quarta-feira, 9 de março de 2022

O email do Outlook

O email que mais recebo, nos dias que correm, é enviado pelo próprio Outlook, que tira uns minutos do seu tempo para me alertar, (demasiado) amiúde, para o inquietante facto de que a minha caixa de entrada está prestes a rebentar pelas costuras. Parece contra-intuitivo: se há coisa que a minha caixa de entrada menos precisa é de emails adicionais. Mesmo que o objectivo desses emails adicionais seja exactamente esse: avisar-me que a minha caixa de entrada não necessita de emails adicionais. Estou seriamente a pensar classificar os emails do Outlook como spam.    

segunda-feira, 7 de março de 2022

Quatro por quatro

O padre termina a alocução fazendo o gesto da cruz e a mim ocorreu-me que estava a marcar um compasso quaternário.  

quarta-feira, 2 de março de 2022

Primatas como nós

«Sei que os meus pais não eram apenas aquilo que as minhas memórias de criança garantem que foram. Mas tive de chegar aos quarenta e um anos, tendo sido protagonista do medo, do falhanço, da imprudência, do enfado, do desgosto, da injustiça, do egoísmo, do remorso e da vergonha, para perceber que, embora sublimados na minha infância, eles seriam afinal como eu, como todos os outros: primatas de ânimo inconstante e satisfação temporária, julgando-se especiais de manhã e uma merda à noite; tão paralisados pela dúvida como errados nas certezas; irascíveis por estarem com fome ou sono; mesquinhos no exercício do poder, transportadores de arrependimentos, culpas e mentiras; trabalhando em algo de que não gostavam, ficando na cama numa manhã escura de janeiro; em pânico com a doença, cansados, com ciúmes, suscetíveis ao mau agoiro do boletim meteorológico; dispostos a morrer pelos filhos num dia, mas a atirá-los pela janela no outro.»

Filho da mãe, Hugo Gonçalves

terça-feira, 1 de março de 2022

Reflexologia

À medida que sol vai avançando e começa a incidir directamente nas janelas - o que, nesta altura do ano, acontece mais para meio da manhã - a luz reflecte em algumas superfícies e projecta-se nas paredes e no tecto da sala.  

É por esta altura que Beatriz começa a ficar intrigada. De olhos esbugalhados, fixados naquelas manchas que certamente não compreende, levanta-se e dirigi-se até elas, para as ver de mais perto. Qual astrónomo que varre a abóbada celeste em busca de estrelas, Beatriz perscruta o tecto polvilhado de rasgões luminosos. A espaços, olha para nós e solta pequenos miados, como que partilhando o mistério connosco. 

Sobe para cima da mesa, para cima dos móveis, para ficar mais perto, possivelmente desejando ter um telescópio que auxiliasse a observação. Quando os objectos estão nas paredes, opta por uma observação ainda mais directa: apoia-se nas patas de trás e estica-se para lhes tocar com as patas dianteiras. 

É certo que, por vezes, a culpa é nossa: sentados no sofá e armados em safados, pegamos no telemóvel naquela posição e inclinação óptimas para gerar um reflexo. Que é ainda mais convidativo que os outros estáticos, uma vez que este tem o condão de se mexer.

De inicio dava por mim a tentar explicar-lhe "Beatriz, é só um reflexo sua maluquinha". Com o tempo, fui percebendo que o conceito de "só um reflexo" não existe. Ironia do destino: agora, quando chega aquela hora, também eu viro a cabeça para cima e aprecio aqueles rasgões luminosos, projectados no bocado de edifício que nos separa dos vizinhos de cima.   

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Ler e escrever

Dizer "lês bem" é reservado a crianças, que estão a ser alfabetizadas. Quem sabe ler, sabe ler bem: em si, ler, é uma capacidade mecânica e, se tiver um cariz mais artístico, passa a ser entoar. Já dizer "escreves bem" é uma constatação de uma capacidade que está para lá mera mecânica da escrita de palavras, frases, textos. Quem sabe escrever não sabe necessariamente escrever bem.  

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Some Kind of Monster

A Netflix resolveu sugerir-me um certo e determinado documentário dos Metallica chamado Some Kind of Monster. O tal que pretendia captar o processo criativo da banda e acabou por ter muito mais do que isso, incluindo crises existenciais, brigas e insultos, uma ida para uma clínica de desintoxicação e sessões de grupo de terapia. De certa forma, dada a coincidência temporal, quase parece uma versão heavy metal dos Sopranos: basta trocar os mafiosos porque tipos cabeludos vestidos de preto e de guitarra em riste. 

A verdade é que foi mesmo um momento crítico na existência da banda, uma espécie de vai ou racha, que possivelmente foi desencadeado pelo bater de porta do anterior baixista Jason Newsted, que acabou por trazer ao de cima um conjunto de problemas que necessitavam ser encarados, sob pena de os restantes membros se afastarem de vez. 

Agora como é que alguém como eu, que passou uma parte considerável da adolescência borbulhenta a decorar, de cor e salteado, todas as músicas de Metallica, acaba por ver este documentário quase 20 anos depois de ter sido divulgado (que é como quem diz, com quase 20 anos de atraso)?

É uma excelente pergunta e tenho passado os últimos dias a pensar nisso. O afastamento começou a surgir por alturas do Load, o disco que veio logo a seguir ao designado Black Album e que, com os ouvidos de então, me pareceu abaixo da expectativa. Pelo menos foi aí que parou a minha colecção, não tenho mais nenhum depois desse, nem sequer o imediatamente seguinte Reload, que foi baptizado de uma forma relativamente preguiçosa. 

Tenho de admitir: chega ao ponto de que, até há pouco, nem sequer sabia que, desde então, a banda lançou três álbuns de estúdio. Quer dizer, do St. Anger tinha alguma ideia - lembro-me, por exemplo, do teledisco filmado na prisão de St. Quentin. Mas desconhecia em absoluto Death Magnetic e Hardwired to Self-Destruct. E isto apesar de, nos anos 2000 ter visto uma ou outra vez a banda ao vivo, quando veio a Portugal. 

Passei a tarde de hoje a colmatar parte destas falhas, com um certo sentimento de conforto de quem regressa a casa após uma longa viagem, misturado com a nostalgia da evocação de tempos passados. Um certo tipo de monstruosidade. 


domingo, 13 de fevereiro de 2022

Do outro lado

Quando o Ministério da Defesa se parece mais com o Ministério da Ofensiva. 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

A essência do óleo

Da minha experiência com a utilização de óleos essenciais, chego à conclusão que são um bocado dispensáveis. 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

1º andar

Com o olhar dividido entre a morada que procurei no telemóvel e o número dos prédios da rua, parei à frente de uma porta e achei estranho que o aparelho apenas me dissesse o número do andar, e não se se tratava do esquerdo ou direito. O mistério foi de imediato desfeito pela campainha do prédio: tratavam-se de andares únicos e, por isso, sem mais demoras e sem pensar mais no assunto, carreguei no botão comprido que indicava o número 1. A voz de uma senhora que surgiu do outro lado desarmou-me um pouco; enfim, não tanto a voz, mais o facto de ter respondido de uma forma que não correspondia ao que estaria à espera e, por isso, para quebrar o impasse da comunicação ou ausência da mesma, perguntei

Consultório de oftalmologia?

Não me lembro ipsis verbis da resposta da senhora - seguramente já gizada e farta destas lides - mas insinuava que, claramente, se via que necessitava de ir a uma consulta dessa mesma especialidade. Do outro lado da garagem, disse-me ela, achando apropriado explicar-me que a resposta anterior tinha uma elevada carga irónica. Percebi perfeitamente a ironia, disse-lhe melhor que a localização correcta: a porta imediatamente anterior, pela qual passei sem dar conta, com uma garagem a separá-la daquela onde toquei erradamente à campainha.   


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Da série "ao que isto chegou"

Objectivo do exercício: ler a pequena referência, escrita na parte interior da haste dos meus óculos. Problema: para proceder à leitura da dita referência, é preciso tirar os óculos o que, dada a necessidade de usar óculos para ver alguma cosa de jeito, naturalmente inviabiliza a leitura. Solução: tirar os óculos, pegar no telemóvel e tirar uma fotografia à dita referência, voltar a pôr os óculos, abrir a fotografia no telemóvel, ampliar bastante. 

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Circular

A vizinha bate à porta.  

Então o que a traz por cá?

Estava na vizinhança

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Irra

Não há nada mais irritante que ter a garganta irritada e tosse irritativa.